Há um século houve uma revolta entre os imigrantes da região do Timbuí, mais propriamente de Nova Lombardia, a que os historiadores não d...

Capítulo IV - A revolta de Nova Lombardia


Há um século houve uma revolta entre os imigrantes da região do Timbuí, mais propriamente de Nova Lombardia, a que os historiadores não deram importância. No entanto, ela fez ver a situação dos imigrantes italianos no Espírito Santo e abriu os olhos aos governos subsequentes para determinados erros e abusos que eram cometidos, obrigando-os à correção. A revolta dos Lombardos, como a apelidou um funcionário da época — porque os imigrantes provinham da Lombardia — não é um fato isolado. Está inserido na epopéia da imigração italiana para o Espírito Santo, na ocupação do solo e até mesmo na realidade social de hoje.

Desde o início, a imigração italiana foi cheia de sobressaltos, a começar pela vinda do primeiro grupo sediado na fazenda Nova Trento de Pedro Tabachi. O insucesso daquele empreendimento exigiu a presença da força policial e as atenções governamentais para a garantia de vidas. Neste mesmo lugar, três anos depois, uma nova tentativa de colonização bem sucedida resultou no que hoje é Ibiraçu e Aracruz.

A versão aqui apresentada da Revolta dos Lombardos se fundamenta em documentos escritos pela autoridade maior da colônia de Santa Leopoldina, na pessoa do seu Diretor Aristides Armínio Guaraná. Essa é apenas uma versão, a oficial. A versão dos imigrantes, quase toda oral, parece bastante diferente.

O historiador do cinqüentenário de Santa Teresa, Frederico Müller, diz no seu opúsculo, omitindo nomes e datas, apenas o fato: "Quanto ao trabalho, ordenou o governo que os colonos trabalhassem quinze dias nas estradas e quinze nos seus terrenos. Tais condições desgostaram-nos, pois, por essa forma, não podiam viver, porquanto os gêneros de primeira necessidade eram relativamente caros, e eles precisavam de mais trabalho assalariado. Realmente, as colônias nada produziam ainda. Resolveram, por isso, reclamar as suas pretensões ao vice-diretor, para o que reuniram-se todos na povoação, inclusive os de Santo Antônio. Diante dessa grande aglomeração, que foi tomada como sendo uma revolta contra as autoridades, foi ordenado que a foça pública dispersasse o grupo, saindo do encontro diversos manifestantes feridos e um morto."

Os documentos no Arquivo Público Estadual do Espírito Santo são mais eloqüentes. Era diretor da colônia de Santa Leopoldina, que compreendia três núcleos, o de Porto do Cachoeiro (Santa Leopoldina), o de Timbuí (Santa Teresa) e o de Santa Cruz (Ibiraçu), o Dr. Aristides Armínio Guaraná, ajudante de ordens do Conde D'Eu na guerra do Paraguai. Havia assumido o posto no dia 7 de setembro de 1877. A sede da colônia fora transferida de Santa Leopoldina para Santa Cruz, ou mais propriamente, para a Fazenda das Palmas, a antiga propriedade de Pedro Tabachi. Vivia o diretor em contínuo vai-e-vem. Sua administração pode ser estudada em 485 ofícios expedidos que refletem seus atos e atitudes em relação aos imigrantes. O Presidente da Província que o empossara havia tomado medidas drásticas na contenção de despesas. Parece que viera da Corte para o Espírito Santo com esta finalidade. Por este motivo, os fundadores de Ibiraçu iniciaram um regime de colonização sem os privilégios concedidos aos fundadores de Santa Teresa, isto é, não recebiam pagamento para alimentação durante os seis primeiros meses. Quem acabou com estes gastos, abusos e malandragens praticados por imigrantes e nacionais que manipulavam o dinheiro, foi o Dr. Affonso Peixoto de Abreu Lima.

Aos 22 de outubro de 1877, no ofício no. 70 o Dr. Guaraná registra inquietações e desagrados, bem como anúncios de deserção em massa dos colonos do Timbuí. Diz ele ao Dr. Abreu Lima: "Peço a V. Ex.a. que não suponha que pinto com cores demasiadamente carregadas os sucessos que prevejo. Conhecedor como estou, do mau caráter, exigência e insubordinação dos colonos do Timbuí, julgo do meu dever prevenir a V. Ex.a. de tudo quanto possa ocorrer; e pedindo com toda a instância a V. Ex.a. força suficiente, espero, deste modo tirar de mim a responsabilidade de atos que a todo transe buscarei reprimir." No ofício no. 79 tem-se o relato, por parte da autoridade, da verdadeira batalha campal acontecida em Santa Teresa:

Timbuí, 3 de novembro de 1877.
Il.mo e Ex.mo. Sr.
Com a retirada das forças que sob as ordens do Capitão Piragibe aqui garantiam a ordem, animaram-se os colonos deste núcleo a por em execução o plano que já tinha eu comunicado a V. Ex.a. de retirarem-se para a Vitória. Sendo disto informado o Engenheiro Franz von Lippe, que na minha ausência administra este ponto, mandou ele chamar ao feitor Giugni Ferdinando chefe e cabeça dos amotinados, a fim de exprobrando-lhe o seu procedimento, aconselhá-lo que desistisse de tal intento. Não quis o dito feitor dar-se por intimado, e pelas praças que lá foram, mandou prevenir ao mesmo engenheiro Lippe que o esperasse no dia imediato que ele viria. No dia marcado, 31 de outubro, de fato apresentou-se na Diretoria acompanhado por todos os habitantes da Nova Lombardia, e exigindo abonos gratuitos ou trabalho nos caminhos para todos. A nenhuma destas exigências podia satisfazer o Engenheiro Lippe em virtude das ordens que de mim tinha recebido, ordens que iam de acordo com o que me tinha determinado V. Ex.a.. Em conseqüência da recusa que lhes foi feita, alterando-se o feitor Giugni além do que devia e tendo sido o cabeça do motim, convidando todos os outros para desertarem em massa e seguirem para a Vitória, resolveu o Engenheiro Lippe mandá-lo prender, e deste modo, por falta de chefe, ficar dissolvida a reunião. Ao sair da Diretoria para a prisão, quiseram os colonos tomar o preso da mão da força e com cacetes e pedras agrediram violentamente a casa da Diretoria e as praças que conduziam o dito Giugni. Os soldados incumbidos de levar o preso defenderam-se, e com alguns particulares conseguiram dispersar os assaltantes, prendendo em flagrante mais quatro dos mais exaltados. Comunicou-me toda a ocorrência o Engenheiro Lippe, fazendo seguir um próprio para Santa Cruz onde eu me achava, e pedindo-me além disto, auxílio com urgência. Reuni alguns habitantes do país e segui para aqui onde a esta hora tudo está tranqüilo, salvo pequenos rumores de que no Domingo próximo voltarão os colonos em massa impor-me suas vontades. Nenhum motivo razoável podem ter os colonos para procederem de tal modo, porquanto, deixando-me V. Exa. o arbítrio de dar trabalho aos mais necessitados, organizei tabelas de famílias, de modo a terem todos, se não muito, ao menos algum salário.
Peço permissão a V. Ex.a, entretanto, para dizer que, a origem do mal está sobretudo na falta de pagamentos regulares, colocando deste modo o colono à mercê dos negociantes, que fazem-se pagar a demora com um grande juro no preço dos gêneros.
Fazendo seguir nesta data os colonos Giugni Ferdinando, Pretti Luigi, Pedroni Eugenio, Rondelli Giuseppe e Carichini Anselmo, a fim de serem apresentados a V. Exa., tenho a honra de solicitar providências de modo a não voltarem mais para este núcleo tais colonos, servindo isto de exemplo para os que para o futuro possam pensar em ter igual procedimento. Deus Guarde a V. Exa. Il.mo. e Ex.mo. Sr. Dr. Affonso Peixoto de Abreu Lima M.D. Presidente da Província. Aristides Armínio Guaraná — Diretor.

Pelo que se sabe, parece que o Presidente não seguiu o conselho de punir o imigrantes com a sua exclusão. Mas não se pense que o incidente foi apenas um fato isolado e extemporâneo. As coisas vinham se arrastando desde o estabelecimento dos colonos. Um ano antes, quando a direção da colônia estava sob outra responsabilidade, os Lombardos haviam dado demonstração de união e solidariedade na consecução dos seus objetivos. Oitenta homens armados foram a Santa Leopoldina exigir os seus direitos, pois, ninguém briga por causas perdidas. Eis, na íntegra, o ofício enviado pelo encarregado Sr. Francisco Leite de Freitas Guimarães ao então diretor da colônia, o Dr. José de Nápoles Talles de Menezes:

Urgente. Colônia de Santa Leopoldina, 22 de janeiro de 1877.
Il.mo Sr.
Passo às mãos de V. Exa. a inclusa cópia de ofício que esta Diretoria dirigiu a José Augusto Peixoto Guedes encarregado do núcleo do Timbuí, a fim de que V. S.a sem perda de tempo se digne providenciar a respeito. Os Lombardos insistem reclamando a este posto, a fim de verem se por este meio tornam-se mais profícuas as sua reclamações. O Guedes pessoalmente aqui veio relatar-me o fato e voltou para o Timbuí a meu pedido, a fim de tomar as medidas constantes do citado ofício, declarando serem as mais prudentes. Apresentaram-se poucas horas depois ao fazer este, cerca de 80 imigrantes armados pedindo ainda abonos no porto do Cacheiro, neguei tenazmente e nenhum só teve abono meu e foi isto bastante para exigirem os sonhados seis meses de sustento e serviços públicos à custa do Governo, exaltando-se como declarou o Inspetor Carlos Tabachi quando se retirou desta povoação. Continuando ainda o motim e desaparecendo o dito Tabachi, chamei o empregado adido à Diretoria Manoel Bernardino Pereira de Souza a fim de acalmá-los até a última hora. Permita-me V. S.a que sobre assunto tão grave emita minha humilde opinião. Ou o Governo satisfaça essas reclamações nascidas talvez de promessas que lhes foram feitas na Europa muito contrárias ao Regulamento de 19 de janeiro de 1877 (digo) o Regulamento da criação das colônias do Estado de 19 de janeiro de 1867 ou então contê-los por meio da força.

Foi o que fez, no final do ano, o Dr. Guaraná, depois de dar uma aula prática de economia ao Presidente da Província e de defender a causa dos imigrantes que se estabeleciam nesta e na frente pioneira de Ibiraçu. Prendeu os mais exaltados e os remeteu ao Presidente da Província, em Vitória.

Sem colheitas de que possam manter-se — diz o Dr. Guaraná — e sem outro meio qualquer de que lancem mão para subsistirem, receio conseqüências funestas e que irão pesar ainda sobre o Tesouro, se lhes faltar o recurso que até hoje tem sido proporcionado pelo Governo, nos trabalhos de estradas e caminhos. Em regra geral, turbulentos, instigados pela fome e pela miséria, muito naturalmente correrão a mim, que nada posso fazer, visto as ordens terminantes que de V. Exa. tenho. Daí barulhos e a deserção em massa, como já se principia a propalar.

Impossibilitados de reagir pelas armas, defrontados com uma realidade que era o oposto das promessas e sonhos de uma prosperidade fácil, os imigrantes estabelecidos na Nova Lombardia utilizaram-se do estratagema da fuga. Saíam de noite, abandonavam as colônias e partiam pelas estradas em busca da capital do Estado. Na retirada eram acolhidos e escondidos nas colônias dos compatriotas. O fato chegou a ser comentado no jornal O Espírito-Santense de 13 de novembro de 1877. No dia 1o. de dezembro escrevia o Dr. Guaraná:

Tendo notado depois das cenas que ultimamente se deram no Timbuí, que os colonos buscaram abandonar os seus prazos, acabo de ter a confirmação deste meu juízo pela denúncia que tenho a honra de transmitir a V. Exa. e que foi dada por um dos feitores de mais confiança que ali existe. O movimento de deserção já principiou e nenhuma medida posso tomar para impedi-lo, porque seria preciso ter força suficiente para guardar todas as avenidas e caminhos por onde podem os colonos retirar-se. Aproveito a oportunidade para dizer a V. Exa. que, resumida como está a concessão do trabalho em caminhos do Governo, receio muito pelo presente do Timbuí, parecendo-me que só depois que os colonos tiverem alguma colheita, se lhes poderá restringir o recurso fornecido pela Tesouraria.

Anexou o bilhete escrito em italiano ao ofício no. 107 e o enviou ao Presidente da Província, bilhete assinado pelo feitor Pietro Zampieri, com letra caprichada. Este mesmo senhor foi nomeado professor na escola de Nova Lombardia três anos depois. Dizia o bilhete que o colono Raimondo Moretti havia abandonado sua colônia no dia 25 de novembro e tinha partido com toda a família para Vitória e fazia isto porque o trabalho concedido nos caminhos não era suficiente para poder viver. Prevenia o referido feitor à autoridade que se não desse um jeito ao caso a maior parte dos colonos da valada Nova Lombardia iria abandonar também as colônias e sairiam à procura do que viver.

Nesse meio tempo o incidente chegou aos ouvidos do Ministro da Agricultura do Império que passou um telegrama ao Presidente da Província Abreu Lima, solicitando informações. A burocracia dos papéis exigiu uma explicação do Dr. Guaraná que resumiu no ofício 121 o que já dissera antes e termina dizendo que:

Não houve morte alguma produzida por arma branca, e de nenhum modo por arma de fogo. Compreende V. Exa. que na posição em que estamos em presença de homens rudes e sem amor ao país nem às instituições do mesmo, é impossível quando ameaçados e mesmo tornada efetiva tal ameaça, mandar sujeitar homens que se revoltam, por outro meio que não seja à força. Nestas condições é ainda absolutamente impossível privar que um ou outro sofra alguma contusão.

E o morto de que fala o historiador Frederico Müller? Ninguém lhe cita o nome? Como é que morreu? O imigrante chamava-se Pietro Dalmaschio. Segundo a versão oral dos companheiros, morreu a cacetadas.

Depois do acontecido vieram as averiguações de responsabilidade, denúncias falsas e enérgicos e reiterado esclarecimentos do Dr. Guaraná. Diz ele ao Inspetor Geral de Terras e Colonização no ofício 134 de 29 de janeiro de 1878, Sr. Alfredo Rodrigues Fernandes Chaves:

Dando conta a V. Ex.a do resultado das indagações a que procedi em relação ao telegrama que a meu respeito e contra mim foi dirigido à S. Exa. o Sr. Ministro da Agricultura, e falsamente assinado por Scano Maximo, Luso Antônio, Angelo Pietro e Martinelli, tenho a dizer que tais indivíduos não existem em o núcleo de Santa Cruz, donde se dizem colonos. Para maior prova do que afirmo, com a máxima brevidade possível remeterei a V. Ex.a a relação de todos os chefes de família daquele ponto. Tenho íntima convicção por indagações minuciosas e por informações fidedignas que me deram, que não só o telegrama de que trato, como outro assinado falsamente pelos mesmos nomes e dirigido ao Jornal da Tarde, e bem assim um terceiro dirigido a V. Ex.a e assinado por Delabernardina Francisco, são produzidos unicamente pelo Dr. Eloy Martins de Souza para produzir senão a falta de confiança por parte de V. Exa. ao menos o desgosto que é natural que de mim se apodere, vendo-me atacado de um modo tão difícil de classificar em minha reputação. Estou intimamente convencido também que só do Dr. Eloy têm partido tais telegramas. Se pudesse V. Ex.a obter da Diretoria Geral dos Telégrafos os originais dos telegramas em questão, sou levado a crer que ficaria evidentemente provado não serem os mesmos dirigidos e assinados por colonos. (...) Entretanto, permita-me V. Ex.a que diga, que no estado em que me acho em relação ao Dr. Eloy é impossível que por mais tempo permaneça ele aqui sem grande quebra da força moral que me é tão necessária.

No dia 14 de março o Dr. Guaraná oficia ao Vice-Presidente da Província Alpheo Adelpho Monjardim a dispensa do Dr. Eloy Martins de Souza fazendo questão de salientar "por não ter cumprido com as obrigações do seu cargo." O Dr. Guaraná conseguiu declarações dos colonos envolvidos no telegrama de denúncia e as remeteu ao Inspetor Geral de Terras e Colonização "a fim de que não houvesse apógrafo e despacho telegráfico dirigido a S.Ex.a. de Luso Antônio e Pietro Angelo, não vão declarações pelo fato de nunca ter havido nesta colônia indivíduos com tais nomes."

Em outro ofício dirigido ao Inspetor Geral, o de no. 133 de 27 de janeiro de 1878, defende-se o mesmo Dr. Guaraná:

...sobre os fatos ocorridos a 31 de outubro do ano passado em o Núcleo Colonial do Timbuí tenho a dizer que foram sobremodo exageradas as notícias que à Legação Italiana chegaram de tais acontecimentos. Tendo recebido esta Diretoria ordens positivas e terminantes para proceder de modo a serem feitos os trabalhos daquela Colônia. Como economia resolveu diminuir o número de indivíduos que se empregaram nos trabalhos de estradas. Esta medida era tanto mais reclamada, quanto famílias inteiras de imigrantes fugiam de cultivar seus prazos para fazerem vida absolutamente dos benefícios ganhos naqueles trabalhos. Empregando-os proporcionalmente ao número de indivíduos que cada família tinha, atendia assim a Diretoria não à manutenção dos colonos como também a justa economia recomendada pelo Governo. Com tal ordem julgaram-se os colonos daquele núcleo ofendidos em seus direitos e em massa resolveram impor à Diretoria o contrário do que fora determinado.

O ofício conta de novo o motim e termina:

Garanto a V. Ex.a. completamente que nem houve fogo nem ordem para atirar e bem assim que o fato da morte a que alude a nota da Legação Italiana foi dada doze dias depois do conflito, falecendo o colono em conseqüência de um violento ataque de febre perniciosa. O que afirmo sobre tal assunto provarei a V. Ex.a. com atestações do médico que cuidou daquele indivíduo.

O médico que atestou a morte de Pietro Dalmaschio foi o Dr. Aristides Serpa. Cessado o primeiro impacto na apuração da veracidade ainda teve o Dr. Guaraná que dar explicações aos sucessores da Presidência da Província como a que aparece muito bem elaborada no ofício no. 262 de 15 de setembro de 1878 dirigido ao Dr. Manoel da Silva Mafra e que, na íntegra, é a seguinte:

Informando a V. Ex.a. sobre veracidade dos fatos e procedência das queixas exaradas nos documentos que acompanhavam o Aviso do Ministério da Agricultura Comércio e Obras Públicas de 31 de agosto último, tenho a dizer que: não sei a que promessas se referem os 36 colonos que se dirigiram a Domenico Giffoni, porque na coleção de Leis de 1867 não encontro o Decreto citado. Se querem referir-se aos seis meses de mantimentos gratuitos tantas vezes reclamados, poderá V. Ex.a. verificar pela relação junta, se os 36 signatários da carta, receberam do meu antecessor tal auxílio.
Em relação à falta de boa distribuição nos trabalhos do Governo e salário insuficiente para o sustento de suas famílias, informo que além de tal queixa ser completamente infundada não poderia eu aumentar dias de trabalho e salários a colonos estabelecidos a mais de seis meses, sem que imediatamente a Tesouraria da Fazenda achasse motivo para representar contra tal alvitre. Além do que deixo dito, parece-me claro que concedendo trabalho durante todo mês a todas as famílias, ficaria transformada a Colônia em um núcleo de jornaleiros e nunca chegaria a ser uma colônia agrícola.
Os maus tratos, injustiças e abuso de autoridade de que acusam o agrimensor Franz von Lippe encarregado pela Diretoria de dirigir os trabalhos do Timbuí, são pura e simplesmente a conseqüência de não sujeitar-se ele às imposições, exigências e insubordinações praticadas por aqueles colonos. Tenho tido por várias vezes ocasião de referir-me ao merecimento desse empregado e ainda neste momento garanto a V. Ex.a. que os serviços que constantemente presta ele naquele ponto, fazem com que não seja muito fácil a sua substituição.
Os fatos ocorridos a 31 de outubro do ano passado, já por diversas vezes por mim relatados e explicados não só à Presidência desta Província em ofícios sob nos. 79 de 3 de novembro e 121 de 21 de dezembro, como também à Inspetoria Geral de Terras em ofícios sob nos. 80 e 133 de 3 de novembro do ano passado e 27 de janeiro do corrente ano, mostram que somente dos colonos partiu a agressão no conflito havido, não fazendo mais do que defender-se a força que no Timbuí existia para manutenção da ordem. Os ferimentos que de parte a parte resultaram naquela ocasião, foram todos considerados pelo médico sem importância alguma e a acusação do assassinato do colono Dalmaschio Pietro, também deixou de ter fundamento com a atestação médica que remeti à Inspetoria Geral de Terras com o ofício sob no. 140 de 1o. de fevereiro do corrente ano. Por aquele atestado via-se que em conseqüência de um violento ataque de febre perniciosa tinha o mesmo Dalmaschio falecido doze dias depois do conflito, e não c cacetadas, com falsamente afirmam os imigrantes do Colúmbia.
Nada posso dizer sobre o bom ou mau sistema porque foi dirigido o 5o território da Colônia do Rio Novo, porquanto nunca ali estive. Acredito, entretanto, que o Dr. Deolindo José Vieira Maciel tivesse sido um administrador inteligente, zeloso e esforçado, como costuma ser em todas as Comissões que exerce. O que não posso porém acreditar é que Domenico Giffoni seja capaz de poder apreciar o que sejam trabalhos de qualquer ordem desde o momento em que para eles for necessário ter-se qualquer ilustração e mesmo bom senso.

Desta briga ficou evidente o equívoco por parte de imigrantes que desejavam enriquecer rapidamente ou serem jornaleiros no serviço do Estado. Por parte do Governo o erro é confessado pelo Dr. Guaraná quando se dirigiu ao novo Presidente da Província, Dr. Eliseu de Souza Martins, dizendo:

Tem o Estado 22 animais que busco empregar no transporte de bagagens de colonos que se mudam de uns para outros prazos. Tais mudanças, como já tive a honra de dizer a V. Ex.a., foram autorizadas por S. Ex.a. o Dr. Mafra, a fim de que cessassem as causas que produziam constantemente os pedidos de trabalho por parte dos colonos, pedidos que eram apoiados no fato, infelizmente verdadeiro, de não serem bons os terrenos de Santa Teresa.

[BUSATTO, Luiz. Estudos sobre imigração italiana no Espírito Santo. Vitória, 2002. Reunião de artigos relacionados com imigração italiana, publicados em diversos periódicos. Reprodução autorizada pelo autor.]

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Luiz Busatto nasceu em Ibiraçu-ES, em 1937. Graduado em Letras, com cursos de especialização em Portugal (Teoria da Literatura e História da Literatura Portuguesa), na Itália (Filosofia), mestrado em Letras pela PUC/RJ e doutorado na mesma área pela UFRJ. Professor da Ufes e da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Colatina (1969-1983). É membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e da Academia Espírito-santense de Letras. Foi presidente do Conselho Estadual de Cultura (1993/4) e vice-presidente (1986/7). Tem várias obras publicadas, sendo um estudioso da imigração italiana. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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