Num fim de semana prolongado partimos para uma caçada lá para as bandas de Conceição da Barra. Eu estava na companhia do Dr. Enrico Ruschi e...

Capítulo VI – Uma caçada relâmpago

1/01/2001 0 Comentários

Num fim de semana prolongado partimos para uma caçada lá para as bandas de Conceição da Barra. Eu estava na companhia do Dr. Enrico Ruschi e de Pedro Vivacqua, diretores da Cesmag, companhia beneficiadora de café espírito-santense.

No caminho cruzamos com Tio Bernardo, que vinha de uma outra caçada. Aproveitei a oportunidade para me apossar do Florisbelo, excelente caboclo como guia no mato. Na verdade, ele não passava de um índio civilizado.

Acampamos na casa do Seu Dário, que era sempre o auxiliar do Ruschi. Pedro Vivacqua contratou outro rapaz, e o Florisbelo ficou comigo.

Florisbelo tinha — como o Guducha — a mania de piar constantemente durante a caminhada, e não consegui impedi-lo, pois ele trabalhava conosco numa empreitada em Barbados e tomara bastante intimidade comigo...

De repente o macuco piou encostado, muito próximo, e Florisbelo mandou que eu ficasse junto a uma árvore enquanto ele se afastaria. Foi uma decisão muito contra a minha vontade mas, dadas as circunstâncias, cedi. Dei apenas um piado, e logo comecei a ouvir um tropel que mais parecia de um animal de grande porte correndo no colchão de folhas secas. O barulho foi se tornando mais intenso e, de repente, um casal de macucos despontou rente por baixo do cano da minha espingarda. Assustados e trêmulos, baixaram o peito no chão e viraram a cabeça para visualizar melhor aquela imagem inédita para eles, e em seguida alçaram vôo, levantando uma grande nuvem de poeira e folhas secas. Atônito, disparei o tiro, sem pontaria, sem, naturalmente, atingir o alvo... À guisa de "moral da história", percebe-se a conveniência do caçador fazer uma choça e não cometer a imprudência de ficar a descoberto ao pé de uma árvore — atitude, no máximo, mais condizente com o aspecto esportivo da caçada.

Coisa mais fácil para Florisbelo, como bom caboclo, era descobrir macuco empoleirado. Certa vez, fato curioso, descobriu uma fêmea e seu filhote empoleirados juntos no mesmo galho. Espantei-me muito com a façanha da pequena ave, que conseguiu alcançar aquele galho, distante, aproximadamente, cinco metros do chão...

No segundo dia, à tarde, Pedro Vivacqua ficou meio de pileque, o que irritou o Ruschi. Sorvia goles de vinho Carpano, italiano, bebida predileta do Ruschi, e pilheriava, usando a garrafa à guisa de corneta para chamar os cachorros...

Depois disso, Pedro entrou no mato com certo esforço. Encostou-se à árvore onde fizeram a choça e dormiu. O macuco chegou após alguns piados e o caboclo acordou o Pedro, que entregou a arma ao guia, mandando-lhe que atirasse. Isso era muito comum no Pedro, que também levava uma espingarda para o caboclo e o autorizava a matar a caça. E não fazia segredo de que o caboclo é que a tinha matado. Era uma pessoa sui generis nesse aspecto...

Nessa caçada usamos três espingardas Sauer: duas de três anéis, modelo de luxo, e a minha, modelo simples da mesma marca. O Ruschi adquirira a dele do Dr. Aurino Quintaes, advogado da Estrada de Ferro Vitória a Minas. O presidente da empresa, Pedro Nolasco, viajou à Alemanha e o Aurino encomendou duas espingardas, uma calibre 20 para o mato e uma 12 para o brejo. Pedro Nolasco trouxe as armas com o nome do Aurino gravado em letras de ouro, e apresentou-lhe uma conta avantajada. Para contornar a situação, o Aurino vendeu a 20 para o Ruschi. A 12 acabou se tornando propriedade do Pacheco de Queiroz, diretor de A Gazeta e, por sugestão minha, meu primo Paulo Maia, também funcionário do referido jornal, adquiriu a arma.

Nessa rápida excursão matamos nove macucos, mas não foi possível prepará-los adequadamente, como de costume, cozinhá-los e mergulhá-los na lata de banha. Ao contrário, foi preciso improvisar tudo; os macucos foram salgados e transportados num caixote de querosene. Foi, sem dúvida, a macucada mais humilhada que já vi. Nenhum de nós quis levar para casa a preciosa carga, que acabou entregue na varanda da casa do Tio Bernardo, à rua Barão de Monjardim, 142, em Vitória.


[ALVES, Luiz Flores. Caçadas. Reprodução parcial do livro publicado em Vitória-ES, pelo Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e Prefeitura Municipal de Vitória em 1999. Reprodução autorizada pelo autor.]

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Luiz Flores Alves nasceu em Vitória, em 1920, e mudou-se no mesmo ano para Cachoeiro de Itapemirim-ES. Trabalhou na CVRD de 1942 a 1946 como administrador na construção de vários trechos da estrada de ferro. No Rio de Janeiro trabalhou em várias obras públicas e formou-se em Economia. Aposentou-se em 1985 como diretor do Centro Jurídico e Econômico da Universidade Federal do Espírito Santo. Faleceu em Guarapari, ES, no ano de 2003.

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