O grande caboclo Dário, sogro do Guducha, ficou famoso entre os demais, a ponto de merecer do Enrico Ruschi o apelido de Capitão do Mato. An...

Capítulo VII – A perdida

1/01/2001 0 Comentários

O grande caboclo Dário, sogro do Guducha, ficou famoso entre os demais, a ponto de merecer do Enrico Ruschi o apelido de Capitão do Mato. Andava com grande desembaraço pela Mata Atlântica, que era na verdade uma floresta sem vegetação rasteira. Cheguei a imaginar que seria possível, com um pouco de exagero, como nas florestas européias, até cavalgar sobre a sua superfície... Isso porém constituía um perigo para quem se atrevesse a penetrá-la, pois, não havendo galhos para cortar na caminhada, não se faria a picada que facilitaria o retorno com segurança. O Dário não usava facão mas caminhava quebrando, aqui e acolá, apenas um galho dos arbustos.

Uma vez o Ruschi cedeu-me o Dário para ser meu guia nas matas ricas de macucos do córrego Itaúnas. Caminhando pelo meio da mata, avistou, com seus olhos de gato, um casal de macucos numa clareira e pediu com insistência a minha espingarda para matá-los. Nesse momento ventava muito, e um galho imenso partiu-se, atingindo o chão com grande estrondo. Nem por isso os macucos voaram; apenas se abaixaram e continuaram a caminhada. Entreguei a arma ao Dário, que atirou e os macucos voaram. Atirou, como dizem, do lado da saúde...

Mais tarde fizemos uma choça ao pé de uma árvore. Depois de alguns piados, um macuco respondeu; porém, não se aproximava da choça. Percebemos, então, que isso seria impossível, pois ele estava do outro lado do córrego. Estava indócil, no cio, e se mostrava a descoberto na outra margem, e só faltava voar para o nosso lado, mas o riacho era um grande obstáculo. Seu Dário mais uma vez solicitou a espingarda para atirar. Recusei, dizendo-lhe que eu mesmo atiraria, apesar da grande distância. Com o tiro, o macuco largou muita pena no vôo. Dada a dificuldade de atravessar o córrego, não fomos procurá-lo.

Depois de uma longa caminhada, se não fosse a absoluta confiança que tinha no Dário eu diria que estávamos perdidos, devido ao estado de espírito dele, e a uma certa incerteza que demonstrava. De repente exclamei: "Veja, um outro caçador andou por estas matas incultas e atirou também num macuco!" Seu Dário sorriu e apontou para nossa choça do outro lado do riacho. Ele tinha perdido o rumo e fez uma grande curva, vindo parar no mesmo lugar, só que na outra margem do córrego...

Era comum os caçadores chegarem em torno do meio-dia. Nós, porém, chegamos muito depois, lá por volta de uma hora. Tio Bernardo, nosso coordenador, muito sem cerimônia, como sempre, brigou com o Dário pela preocupação que tinha causado, parecendo até que nos tivéssemos perdido... Seu Dário calou-se, pois era um caboclo muito educado...


[ALVES, Luiz Flores. Caçadas. Reprodução parcial do livro publicado em Vitória-ES, pelo Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e Prefeitura Municipal de Vitória em 1999. Reprodução autorizada pelo autor.]

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Luiz Flores Alves nasceu em Vitória, em 1920, e mudou-se no mesmo ano para Cachoeiro de Itapemirim-ES. Trabalhou na CVRD de 1942 a 1946 como administrador na construção de vários trechos da estrada de ferro. No Rio de Janeiro trabalhou em várias obras públicas e formou-se em Economia. Aposentou-se em 1985 como diretor do Centro Jurídico e Econômico da Universidade Federal do Espírito Santo. Faleceu em Guarapari, ES, no ano de 2003.

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