Reparos. Os primeiros embarques. A bordo ------------------------------------------------------------ Para desmentir certos nacionalis...

Capítulo VII

1/01/2016 0 Comentários


Reparos. Os primeiros embarques. A bordo
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Para desmentir certos nacionalistas extremados, que estiveram em voga quando das duas grandes guerras, a bem da verdade é preciso que se diga que os imigrantes não foram indigentes.

Pobres, sim. As famílias, na maioria, trouxeram seus trastes de cozinha, tais como: tachos de cobre, panelas, louça de Macau, roupa de cama, máquinas de costura. As mulheres, pelo menos um vestido domingueiro, de boa fazenda, lenços de cabeça, brincos, medalhões ricos, de ouro e esmalte, colares de coral, anéis de camafeus, peças, hoje, de colecionadores. Os homens também: muda completa de boa lã, paletó, coletes coloridos, relógios de algibeira e alguns de parede. Dinheiro, quase nenhum, mas sempre umas poucas moedas de ouro. Na maioria analfabetos, porém civilizados pela culturação secular. Minha sogra, D. Clotilde Avancini, presenteou-me com um exemplar da Imitação de Cristo, traduzido em latim, em versos franceses, por Corneille.

Não vieram só camponeses. Alguns artesãos, tais como carpinteiros, marceneiros, sapateiros, ferreiros, caldeireiros. Guarda-livros, relojoeiros, professores primários. Por exemplo: Carolona Pickler, grande educadora, cujo nome foi perpetuado em um grupo escolar. Da primeira turma vinda para Santa Teresa, fez parte Virgílio Lambert, escultor e pintor diplomado pela Universidade de Pádua. Introduziu a cultura da seda com êxito, a merecer prêmio em exposição internacional. Está feito o reparo indispensável.

Residência de Virgílio Lambert, construída em 1875 em Santa Teresa. Fotógrafo não identificado.
Residência de Virgílio Lambert, construída em 1875
em Santa Teresa. Fotógrafo não identificado.

Os primeiros embarques italianos foram acontecimentos de grande repercussão no norte da península.

Desde a partida das aldeias até o porto, os viajantes foram festejados carinhosamente.

Em fins de janeiro de 1874, Tabacchi embarca com 386 pessoas, adultos e crianças, em Gênova, no navio francês Sofia, com destino a Vitória. Foi a primeira leva. Saltaram na Hospedaria da Imigração, na Pedra d'Água, hoje penitenciária, e daí, reembarcados no vaporzinho Presidente, foram para Santa Cruz.[ 17 ]

Caminharam para Nova Trento, terras concedidas a Pietro Tabacchi, nas margens do Piraquê, como ficou dito. Surgiram desentendimentos sérios entre os imigrantes e o concessionário das terras. A grande maioria se embrenhou pelas matas e foi ocupar o núcleo Conde d'Eu (que mudou de nome para Pau Gigante, Lauro Müller e hoje se denomina Ibiraçu). Com as vindas sucessivas de outras levas, já sem a influência de Tabacchi, foram fundados Pendanga, Acióli, Demétrio Ribeiro, Treviso, Cavalinho e Baunilha. Diz Daemon que Pendanga provém de pendenga, litígio entre colonos.

Vamos voltar à Itália, presenciar novos embarques conforme relato que ouvi de muita gente, e cujas peripécias emocionantes tentarei reconstituir.

Antônio Feliciano de Castilho, purista da língua portuguesa, tem este pensamento: As recordações são os únicos belos astros que adornam a noite da velhice. E eu não sou nada jovem.

O imigrante, antes de se localizar em sua gleba, que lhe era dada em sorteio, passava por provações dramáticas: a viagem marítima, a chegada ao porto de destino, a caminhada para o núcleo colonial e finalmente a fixação precária.

Da antiga estação ferroviária de Gênova ao cais do porto, a distância média era de três quilômetros. Cada um ia carregando sua tralha, la leggiera, auxiliado por parentes ou amigos. O cais repleto, carregadores praguejantes, policiais, curiosos, marinheiros. O embarque é demorado. As passagens são coletivas, em bloco de famílias, de províncias. Conferência de passaportes. Cuidado com a bagagem de porão. Uma trapalhada enervante. Depois, as despedidas. A cena é lancinante: lágrimas, lamúrias, desmaios, invocações devotas, promessas. Os mais fortes e menos emotivos amparam os velhos aflitos. Consolar as velhas mães ou os avós é drama pungente. Afinal o barco emite um ronco soturno. Bulcões de fumo encobrem o céu. É sinal de embarque. Os viajantes se precipitam para a ponte de acesso. Da amurada do navio os lenços sacodem nervosos as despedidas finais. Addio! Addio! Addio!

Os corações se fecham numa saudade funda. Os marinheiros giram os cabrestantes. As âncoras emergem lentamente, o navio se afasta, a hélice revolve as águas em franjas de espuma branca.

É a partida para a longa viagem do novo destino. Perdida a silhueta dos que ficaram, voltam-se para a paisagem das encostas abruptas que circundam a cidade. As lágrimas umedecem novamente os olhos e o coração se acelera quando frontejam o farol, a linterna, a última imagem da pátria que se distancia. O vozerio se amortece.

Cada um procura sua couchette ao longo dos corredores dos porões. São compartimentos dormitórios coletivos com quatro, seis, oito, até dez leitos, apertados, sem conforto. As ondas se encrespam e o navio perde o equilíbrio. Sacode nos dois sentidos. Poucos conseguem ficar em pé. A maioria, principalmente crianças e mulheres, enjoam. A travessia do golfo de Leão é sempre penosa, mesmo hoje, para os grandes transatlânticos.

Estabelece-se grande balbúrdia. São poucos os sanitários. Os espaços livres e os corredores mal iluminados tresandam a azedo. O tombadilho é agradável e distraído, para quem não precisa apoiar a cabeça.

Da amurada se alivia fácil o estômago. Ar fresco, choques de ondas, barcas distantes, tripulação trançando em serviço, conversas, cantorias, afastam os pensamentos amargos da despedida.

Nos primeiros dias as refeições são toleráveis. Recipientes enormes, de cobre ou estanho, trazidos em vagonetas, em que a gordura sobrenada às iguarias. Cada comensal recebia um prato fundo de folha de flandres, colher e garfo, entrava em fila e era servido pelos despenseiros cujos aventais não incitavam o apetite. Repetir, só no final, depois de todos servidos, se houvesse sobra. Ao invés de pão, uma bolacha quadrada, galeta, dura como pedra. Nem mesa nem cadeiras. Bancos corridos. Um caneco de vinho e um naco de queijo rematava o ágape. À medida que os dias se passavam a ração piorava.

No arquipélago de Cabo Verde, na ilha de São Vicente, única parada para reabastecimento de carvão, água e víveres, os viajantes viram negros pela primeira vez. Trabalhavam em misteres portuários. Admiraram os negrinhos de dez a doze anos, nus, a mergulharem, trazendo, entre os dentes, a moeda que se atirava no mar.

Um descanso de seis horas. A maioria saltava para sentir a terra firme.

Depois a última etapa, mais longa e mais penosa. A passagem do Equador, um pouco de festa, música improvisada e vinho. Os passageiros, já descontraídos e habituados ao balanço do barco, se divertem.

As sanfonas, as cançonetas, o baralho e a ladainha, também. Rezava-se muito a bordo. Missa aos domingos, ao ar livre. As noites, quando limpas da ameaça de tormentas, prendiam todos pelo deslumbramento do céu com novas estrelas. A noitada se prolongava até às tantas porque os porões perdiam progressivamente a habitabilidade. As mulheres tricotavam e teciam meias, os homens, no baralho, jogavam escapa, três-sete. E assim as quatro semanas de navegação se escoaram. A chegada à baía de Vitória foi saudada com alegria e admiração.[ 18 ]

Foi acalentadora a impressão que os sofridos viajantes tiveram na hospedaria. Vista agradável da colina verdejante que descortina a baía.

A Hospedaria de Imigração era um belo conjunto de cinco edifícios de dois pavimentos, bem arejados, limpos e confortáveis. Dispunha de duas enfermarias, cozinha, despensa, enorme salão refeitório comportando mais de quinhentos comensais. Dormitórios no segundo pavimento, frescos e convidativos. Um pequeno pavilhão para a administração.

Acabara de ser construído pelo Ministério da Agricultura. Belo prenúncio para os imigrados. Visitado pelos representantes consulares sempre com encômios altamente lisonjeiros. Ficaria na memória dos imigrantes como a última ceia dos condenados.

Da hospedaria ao Lamarão, embocadura do rio Santa Maria, foram em pranchas rebocadas.

Conheceram os maruís vorazes, em nuvens medonhas, até se porem em movimento, em canoas, a céu aberto, rio acima, por dois infindáveis dias, com fome, sol e imobilidade enervante. De Santa Leopoldina para Timbuí tomaram conhecimento com a natureza bruta, com seus mistérios e surpresas.

Ninguém soube me explicar por que não deixaram as mulheres e crianças em Santa Leopoldina, enquanto abrissem o picadão e atingissem o núcleo colonial.

A caminhada foi sacrifício indescritível. Uma semana depois pareciam refugiados de guerra. Mãos calosas, sapatos em frangalhos, roupa rasgada, ferimentos, postemas, fisionomias deformadas por picadas de mosquitos e outros insetos daninhos. Essa foi a grande provação por que passaram as primeiras turmas de imigrantes povoadores de Pau Gigante, Santa Teresa, Alfredo Chaves, Rio Novo e demais colônias. Tiveram seus mártires, cujas cruzes rústicas, por muitos anos, serviram de guardas simbólicas às covas rasas à beira dos caminhos. Paz às suas almas!

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NOTAS


[ 17 ] Daemon, Basílio Carvalho, op. cit.
[ 18 ] Do relato de um amigo chegado a nossa família.

[In DERENZI, Luiz Serafim. Os italianos no Estado do Espírito Santo. Rio de Janeiro: Artenova, 1974. Reprodução autorizada pela família Avancini Derenzi.]

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Luiz Serafim Derenzi nasceu em Vitória a 20/3/1898 e faleceu no Rio a 29/4/1977. Formado em Engenharia Civil, participou de muitos projetos importantes nessa área em nosso Estado e fora dele. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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