Eu ouvia contar, quando jovem, uma certa história bastante pitoresca e de sabor folclórico, que teria acontecido com meu pai. Muito tempo d...

Capítulo VIII – Um presente para D. Ruth

1/01/2001 0 Comentários


Eu ouvia contar, quando jovem, uma certa história bastante pitoresca e de sabor folclórico, que teria acontecido com meu pai. Muito tempo depois, morando em Copacabana, o velho, num dos raros papos cordiais, relatou, ele próprio, a versão oficial da história.

Era véspera do aniversário de D. Ruth, mulher de Átila Vivacqua. Estava o pessoal reunido em sua casa, quando alguém anunciou que a caçada do dia seguinte seria em homenagem a D. Ruth, devendo redundar num régio presente para ela: um macuco. A caçada se realizaria no Can Can, antiga denominação de uma região, naquela época ainda coberta pela floresta, próxima de onde fica a atual usina Paineiras.

Muito amável como sempre, D. Ruth quis fazer uma distinção a meu pai. Por simples amizade ou por julgá-lo o menos apto da turma de caçadores devido à sua acentuada miopia, declarou:

— Dessa turma eu confio mais no Seu Chico para me trazer o macuco...

Isso causou grande ciumada nos demais. A caçada realizou-se no dia seguinte, um domingo de vento sul. Nessas condições o macuco não pia, refugiando-se num canto qualquer da mata, onde fica como que hibernando, sem se movimentar.

Papai era um excelente piador. Era amigo do velho Maurílio Coelho, o fabricante de pios, proprietário da tradicional fábrica da Ilha da Luz, em Cachoeiro de Itapemirim, conhecida em todo o mundo. O velho Maurílio costumava procurar meu pai para ouvir-lhe a opinião sobre novos pios que criava em sua fábrica.

Só que naquele domingo, escondido na choça, meu pai piou bastante e compassadamente, mas o macuco não respondeu. Ao sair do esconderijo, deu com um rapaz conduzindo um macuco morto. Papai perguntou:

— Matou no pio? Pois ninguém poderia superá-lo nessa técnica.

— Não, respondeu o jovem. — Encontrei na picada e, quando ele ameaçou voar, atirei nele...

— Quer vender? Perguntou meu pai. O rapaz concordou e fixou o preço em cinco mil réis. O velho disse que não trazia dinheiro para o mato, mas pagaria em vez de cinco, dez mil réis. Que o rapaz fosse na sua loja, Alves & Cia., no dia seguinte, para receber o dinheiro.

— Eu sei onde fica, disse o rapaz, pois sou freguês da loja, onde compro munição. Estava vestido com uma roupa surrada, maltrapilha, própria para caçada. Era empregado da oficina do Sinoto, fabricante de peças torneadas.

No dia seguinte, segunda-feira, os amigos de Átila Vivacqua, inclusive Aristides Campos que seria governador do Estado, se reuniram no bar do Madureira para tomar uns aperitivos antes do celebrado almoço de aniversário de D. Ruth. Estavam curtindo a maior decepção, pois ninguém matara um único macuco e tinham de ouvir, irritados, a narrativa do Chico Alves:

— Piei, piei bastante, e o macuco não respondeu. De repente vi que ele se aproximava da choça, aí não perdi tempo: fulminei-o com um tiro certeiro...

Ele contava e repetia a narrativa com tal freqüência, sem ao menos tropicar, que até parecia a versão verdadeira da história...

Finalmente foram para casa de Átila, tomando assento à mesa. Atendendo à solicitação de D. Ruth, que não tinha ouvido ainda, meu pai contou mais uma vez a famosa narrativa.

Enquanto isso, o rapaz do Sinoto foi à loja procurar meu pai, e o Francisco Costa, funcionário da loja, disse que ele não voltaria tão cedo, porém, se realmente precisava falar com ele, que fosse à casa do Sr. Átila.

Lá chegando, o rapaz foi conduzido por D. Geralda, empregada da casa, até uma janela que dava para a sala de jantar. Dali o rapaz anunciou seu propósito de falar em particular com meu pai. A sala era muito espaçosa e havia uma grande distância entre ambos. O jovem caçador estava agora bem vestido, o que impediu que meu pai o reconhecesse. O rapaz insistiu que só podia falar em particular. Papai pensou que se tratasse de parente de algum preso (a cadeia ficava em frente à loja), que viesse, em nome deste, pedir dinheiro ou roupa para comparecer ao julgamento.

Além de muito míope, papai tinha os olhos embaçados pelo Old Parr, o que, por outro lado, estimulava seus impulsos menos prudentes. Com as pernas dormentes pelos aperitivos que tomara, não tinha, tampouco, disposição para caminhar até a janela onde estava o moço. Por isso, declarou enfático:

— Meu filho, não tenho particular com ninguém, pode falar daí mesmo...

O rapaz tornou a repetir:

— O assunto é confidencial...

O velho declarou:

— Pois fale, e já...

Aí, titubeando, o jovem balbuciou:

— Vim receber o dinheiro do macuco que vendi ao senhor.

Os amigos, deprimidos que estavam, partiram imediatamente para a desforra, através de uma vibrante gozação... Papai, terminando a história, confessou-me:

— Meu filho, eu só queria que se abrisse um buraco no chão para me enterrar dentro...

[ALVES, Luiz Flores. Caçadas. Reprodução parcial do livro publicado em Vitória-ES, pelo Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e Prefeitura Municipal de Vitória em 1999. Reprodução autorizada pelo autor.]

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Luiz Flores Alves nasceu em Vitória, em 1920, e mudou-se no mesmo ano para Cachoeiro de Itapemirim-ES. Trabalhou na CVRD de 1942 a 1946 como administrador na construção de vários trechos da estrada de ferro. No Rio de Janeiro trabalhou em várias obras públicas e formou-se em Economia. Aposentou-se em 1985 como diretor do Centro Jurídico e Econômico da Universidade Federal do Espírito Santo. Faleceu em Guarapari, ES, no ano de 2003.

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