Cjhegando a Ponto Belo. Foto Gilson Soares, 2014. Ainda no percurso da escalada mucuriciense, fui orientado, por uma plaquinha indicati...

Cidade vazia

Cjhegando a Ponto Belo. Foto Gilson Soares, 2014.
Cjhegando a Ponto Belo. Foto Gilson Soares, 2014.

Ainda no percurso da escalada mucuriciense, fui orientado, por uma plaquinha indicativa, a tomar o caminho da direita pra chegar até o Museu do Contestado.

Visitar esta casa que aloja – suponho – registros da história do nosso esfrangalhado Torreão, era um dos meus objetivos em Mucurici.

Além, claro, das interlocuções informativas necessárias para traçar o caminho a seguir.

Não tive sorte.

Nem num caso, nem no outro.

O Museu, conforme um pequeno cartaz artesanal aposto na porta cerrada, estava, então, temporariamente inacessível, por conta, se bem me lembro, de alguma reforma.

E as interlocuções que consegui, além de pouco informativas, indicaram, pra meu desgosto, que eu não teria como circular, como sonhara, pelos beirais do Torreão.

O que me coube, então, ao fim daquela escalada, já no Planalto, foi distribuir alguns exemplares de Minério entre a Biblioteca Pública Municipal e a biblioteca da EEEFM de Mucurici, ambas situadas ali naquela cumeeira do aclive.

Feito isso, bastou embicar a magrela morro abaixo, e soltar o freio para, quase sem acionar o pedal, deslizar, veloz, do Planalto de Mucurici até o perímetro urbano de Ponto Belo.

Ali, tão rapidamente chegando, o que estava reservado pra mim era um cenário meio assustador: a cidade – o que teria acontecido? – estava totalmente silenciosa e vazia.

O que deduzi – ah, as deduções – enquanto transitava repetidas vezes pela pequena extensão de Ponto Belo – sem encontrar interlocutores – é que a quase totalidade dos seus habitantes havia debandado. Deixado o lugarejo só.

E agora, o que fazer?

Estava ali, principalmente, pra conversar, confabular, inquirir.

Como não encontrava interlocutores, cheguei a pensar, num momento extremo, em retornar pra Mucurici.

Mas resolvi persistir na minha garimpagem pelos desertos sertões daquela cidade – supostamente – abandonada.

Já quase ao meio-dia, e contando coisa de uma dezena de idas e vindas de um extremo a outro de Ponto Belo, ouvi vozes femininas, em off, que me chegavam do interior de uma escola fechada.

Percebi que o portão não estava trancado e entrei caminhando, no mesmo passo da pretinha, até um pátio que se me abria, vazio.

Pouco à frente do pátio vi um salão ocupado por grande número de mulheres – só havia mulheres ali, me pareceu – sentadas numas cadeiras perfiladas em configuração de auditório.

Ao perceber a minha presença, uma delas, que se distinguia em pé na retaguarda, veio falar comigo.

Elas, educadoras, estavam ali numa reunião dominical de trabalho.

Se bem entendi, eram dirigentes das escolas daquela região, convocadas pela Superintendência Regional da Educação.

Se não era isso, o certo é que obtive, enfim, uma interlocução rápida – quase sussurrada – mas importante.

Tanto porque me proporcionou a oportunidade de deixar exemplares de Minério para uma biblioteca local (a da EEEFM Maria Magdalena da Silva, cuja diretora estava presente), quanto, principalmente, porque a minha doce interlocutora provocou em mim uma imediata embriaguez.

Saindo dali – ainda meio alto – percebi que depois do meio-dia, a cidade começava vagarosamente a despertar do seu torpor domingueiro e a se reintegrar.

Tanto que consegui almoçar e me hospedar.

Isso, antes, ainda, que a tarde acabasse de estender o seu largo lençol outonal sobre aquele ajuntamento urbano diminuto e quase vazio.

Já hospedado, achei de ficar o pouco que me restava daquela tarde na companhia de Dom Quixote de la Mancha, de Sancho Pança e da lembrança da gentil ponto-belense que há pouco conhecera.

Entre um capítulo e outro das aventuras do engenhoso fidalgo e de sussurros que me ficaram da minha terna interlocutora, encontrei tempo para me perguntar que caminho seguiria na manhã seguinte.

As respostas que recebia de mim, informo ao preocupado leitor, chegavam todas pontuadas de interrogação.



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Gilson Soares é poeta e nasceu em Ecoporanga, no extremo noroeste do Estado do Espírito Santo, em 10 de fevereiro de 1955. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

Estação Capixaba

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