Banda de Congos de Manguinhos, Serra, anos 1950. Este Livro O projeto deste livro nasceu na Universidade Federal do Espírito Santo, ...

Coletânea de estudos e registros do folclore capixaba - 1944-1982


Banda de Congos de Manguinhos, Serra, anos 1950.
Banda de Congos de Manguinhos, Serra, anos 1950.

Este Livro


O projeto deste livro nasceu na Universidade Federal do Espírito Santo, concebido como uma forma de marcar o centenário de nascimento do folclorista Guilherme Santos Neves em 2006. Nasceu no Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo, setor que, vinculado ao Programa de Pós-graduação em Letras (Departamento de Línguas e Letras, Centro de Ciências Humanas e Naturais), venho administrando desde 1995.

Nascendo na Ufes nasceu, creio, no lugar certo: pois, paralelamente à sua intensa atividade como folclorista no meio cultural espírito-santense, Guilherme Santos Neves foi também – e na Ufes – professor de Literatura Portuguesa, tendo feito parte do corpo docente do Departamento de Letras da então Faculdade de Filosofia desde 1951 até se aposentar em 1976. Nasceu, assim, este projeto, no lugar certo e, se não nas mãos do homem certo – porque são as mãos suspeitas de seu filho –, o leitor verá que a obra em si paira acima de qualquer parcialidade filial.

O sempre lembrado Renato Pacheco, discípulo dileto de Guilherme Santos Neves, costumava declarar com total conhecimento de causa que a grande obra de Mestre Guilherme – como o chamava – jazia nas centenas de artigos e estudos que publicara em jornais e revistas do Espírito Santo, Brasil e Portugal. Era aí – e não em livros que suas demais ocupações não lhe possibilitaram organizar – que ele divulgava os resultados de seus estudos e pesquisas sobre o folclore espírito-santense. Sua produção em formato de livro – no que se refere ao folclore – está restrita a apenas cinco títulos, que, embora clássicos como estudos da cultura popular capixaba, não traduzem a amplitude do trabalho que Mestre Guilherme realizou nessa área. São eles os dois livrinhos de Cantigas de roda, de 1948 e 1950;[1] o Cancioneiro capixaba de trovas populares, de 1950, quatro das quais trovas foram musicadas pelo maestro Guerra-Peixe; Alto está e alto mora: Nótulas de folclore, de 1954; História popular do convento da Penha, de 1958 (2a. edição, 1999); e Romanceiro capixaba, de 1983 (2a. edição, 2000), este último por mim organizado a partir dos estudos esparsos que meu pai publicou no campo do romanceiro tradicional. Um sexto livro poderia acrescentar-se a essa lista: Folclore brasileiro: Espírito Santo, publicado pela Funarte em 1978.

Na verdade, uma coletânea de estudos sempre esteve nos planos de Mestre Guilherme, como o demonstram diversas listas de artigos encontradas, em manuscrito ou datiloscrito, entre seus papéis, com diferentes títulos, como História e tradições do Espírito Santo e Índice do folclore capixaba (deste último se valeram Luiz Guilherme Santos Neves e Renato Pacheco para batizar, numa homenagem ao mestre, o panorama do folclore capixaba em verbetes que publicaram, em 1994, com a chancela do Banestes). Não pôde ele próprio, porém, por várias razões que não cabe identificar aqui, organizar aquela que seria sua obra de maior escopo e significado.

Assim, no momento em que se decidiu escolher uma obra para celebrar-lhe o centenário de nascimento, natural e justo que se escolhesse a coletânea sonhada por Mestre Guilherme, incluindo textos selecionados de tudo quanto ele publicou, no varejo, sobre o tema pelo qual tinha particular carinho e devoção: a cultura popular do Espírito Santo.

O projeto foi aprovado na seleção pública, de âmbito nacional, do Programa Cultural da Petrobras, basicamente no formato e no escopo em que está aqui. Das centenas de artigos, chegando ou ultrapassando a casa do milheiro, que Mestre Guilherme publicou em vida, cerca de 80% abordam temas de folclore e cultura popular, inclusive paremiologia. A seleção dos artigos passíveis de inclusão nesta coletânea foi feita mediante a leitura e exame de várias centenas de itens até chegarmos ao número de 240 que consta do projeto submetido à Petrobras e posteriormente à Lei Rouanet. Quando, porém, iniciei o trabalho de organização do livro, a reavaliação do seu conteúdo e a localização de estudos importantes levaram à supressão de alguns dos artigos da relação original e à inclusão de outros, resultando nos 250 itens, mais o texto do Prólogo, que compõem o texto definitivo.

O trabalho de seleção é uma via de mão dupla: inclui-se e exclui-se. Assim, ao mesmo tempo em que várias modalidades de estudos folclóricos foram incluídas sem discussão, outras decidi desde o início deixar fora da obra, em especial a paremiologia, as cantigas de roda e o romanceiro tradicional. Vetei os artigos de paremiologia porque, por seu grande número, viriam congestionar uma obra já por si vasta, e também porque, tendo estreita afinidade com a linguagem, perdiam o toque regional que, no meu entender, constituía a principal premissa do trabalho. As cantigas de roda e o romanceiro foram suprimidos porque praticamente toda a contribuição de Guilherme Santos Neves nesses campos que lhe eram particularmente caros já fora reunida e divulgada nos dois volumes de Cantigas de Roda e no Romanceiro capixaba. Ainda assim, alguns textos paremiológicos – “Por que somos capixabas”, por exemplo – acharam lugar nesta coletânea, assim como alguns estudos avulsos sobre cantigas de roda e o trabalho panorâmico que Mestre Guilherme publicou na Revista Brasileira de Folclore sobre o romanceiro no Brasil – e no Espírito Santo –, não incluído no citado Romanceiro capixaba.

O material selecionado para publicação foi então distribuído pelas onze categorias que compõem a obra, mas algumas vezes após um processo de hesitação e dúvida, pois muitos itens se encaixariam perfeitamente em mais de uma categoria.

Algumas explicações se impõem sobre três dessas categorias.

A categoria Personalidades congrega, lado a lado, textos que Guilherme Santos Neves escreveu não só sobre mestres do folclore brasileiro como também sobre alguns dos portadores de folclore com os quais teve ligação mais estreita e constante.

Já a categoria denominada Registros abrange uma série de notícias, relatórios e resenhas que contribuirão para mostrar como se fazia o trabalho de coleta, preservação e divulgação das manifestações folclóricas no Espírito Santo daquela época.

Por fim, os Anexos. Os textos previstos nesta categoria eram, a princípio, mais numerosos, mas por conveniência editorial e/ou estrutural foram suprimidos ou distribuídos ao longo da obra, exceto dois. O primeiro deles reúne todo o conteúdo (exceto os fac-símiles) da publicação intitulada A Cabula: Um culto afro-brasileiro (Cadernos de Etnografia e Folclore, volume 3, Vitória, Comissão Espírito-santense de Folclore, 1963) tendo como núcleo a pesquisa do bispo D. João Batista Correia Nery sobre a seita afro-brasileira com que se deparou nos municípios de Conceição da Barra e de São Mateus durante sua visita pastoral de 1900. O segundo abriga o acervo de informações coligidas pelo folclorista junto à portadora de folclore Dalmácia Ferreira Nunes, que trabalhou como doméstica em sua casa durante mais de vinte anos. Esse material, cuja divulgação em folheto à parte o folclorista chegou a cogitar, foi publicado no boletim Folclore, 92, de 1979.

A edição do texto seguiu uma metodologia específica. Em termos gerais, os textos originais foram respeitados o mais fielmente possível, exceto na ortografia, que foi atualizada, e em eventuais interferências como cortes na adjetivação puramente laudatória e introdução, entre colchetes, de esclarecimentos julgados necessários. Alguns dos itens, de que foram encontradas mais de uma versão, não só impressas como, por vezes, em forma de textos datilografados, levaram à decisão de compor um texto único, respeitando o mais possível o discurso do autor e aproveitando informações presentes numa versão e ausentes em outra ou outras. Por outro lado, evitei essa atitude no caso de certos estudos em que, embora tratando de um mesmo tema e até repetindo certos conceitos e informações, o autor o fazia por outro ângulo ou com base em novos subsídios.

Uma palavra sobre a expressão banda de congos. Nos textos a expressão aparece sob duas formas, banda de congo e banda de congos. Ao proceder à devida padronização, entendi que, sendo congo o termo que designa o tambor cujo número predomina na instrumentação do conjunto, o mais acertado seria usar o termo no plural, a exemplo de banda de metais, banda de palhetas, orquestras de violinos, etc. Mantivemos o termo no singular quando designativo da banda propriamente dita e não do instrumento de percussão a ela pertencente.

A elaboração da bibliografia apresentou alguns problemas. Embora nunca deixasse de citar a fonte de suas citações, Mestre Guilherme por vezes o fazia de modo incompleto, omitindo ora editora, ora local, ora data das publicações, ora até mesmo, no caso de alguns textos publicados em periódicos, o próprio título do artigo citado, substituindo-o por uma alusão ao assunto. Uma parte das referências pôde ser recuperada mediante consulta às centenas de itens do acervo particular do folclorista que, por doação da família, hoje pertencem à Biblioteca Central da Ufes; outra parte, sobretudo no caso de itens que se perderam, mediante consulta na internet (mas não necessariamente a edição consultada pelo folclorista). Ainda assim, os leitores verão que persistem lacunas de informação em alguns títulos incluídos na bibliografia ao final do livro.

Coube-me também a seleção das fotografias a serem inseridas não só no livro mas também no Banco de Fotos do Folclore Capixaba, cuja criação e divulgação no site Estação Capixaba [www.estacaocapixaba.com.br] estavam previstas já no projeto apresentado à Petrobras. Sendo as fotografias destinadas à obra impressa em menor número que as destinadas ao Banco de Fotos, demos prioridade, para inclusão naquela, a fotos que tivessem uma ligação direta com os textos. Já o Banco de Fotos, além de incluir todas as fotografias constantes do livro e outras tantas sobre os assuntos ali abordados, abriga também algumas imagens que ilustram assuntos que o folclorista não chegou a desenvolver por escrito.

Não sendo um especialista em música, embora grande apreciador dela, Guilherme Santos Neves sempre dependeu de profissionais da área para estabelecer as anotações musicais do grande número de peças de música folclórica por ele gravadas. João Ribas da Costa e Maria Penedo foram seus principais colaboradores nessa tarefa, além de Therezinha de Jesus Freitas, que viria a ser sua nora, e, mais tarde, Terezinha Dora Abreu de Carvalho.

Uma parte das gravações feitas pelo folclorista se perdeu, e outro tanto se acha ainda à espera de oportunidade para transposição da mídia da época para a de hoje. Uma pequena parte já transposta inclui algumas peças de que não se achou a respectiva partitura. Isso levou à contratação da musicista Kéllen Sena Mendes Lyra, a quem pedi não só que fizesse a transcrição musical dessas peças como também, talvez com excesso de zelo, que revisse aquelas que tinham sido feitas décadas atrás, cotejando-as com as gravações, quando disponíveis. Pedi também que, para fins de padronização geral, reproduzisse as velhas partituras com base na mais avançada tecnologia para esse efeito permitida pela informática.

Perdoem se registro aqui o fato de que duas das toadas de que não se encontrou partitura nem tampouco gravação – uma modinha sobre a cachaça e a canção “Soldado de Minas” – puderam ser recuperadas porque guardei na memória a melodia, graças à freqüência com que ouvia Mestre Guilherme cantá-las em casa.

Creio que essas são as informações que me cabia dar aqui nesta nota sobre a seleção de material e a organização da obra como um todo, tarefa que me coube neste projeto e que procurei realizar conciliando a preocupação técnica e o sentimento de amor e respeito filiais.

Vila Velha, março de 2008.

Reinaldo Santos Neves


Nota

[ 1 ] Esses livrinhos serviram de base para a produção, em 2007, com recursos obtidos via Lei Rubem Braga (lei de incentivo à cultura do município de Vitória), do cd Cantigas de roda: Versões capixabas para coral infantil e orquestra de câmera (produção de Rogério Coimbra; arranjos de Modesto Flávio Chagas Fonseca; regência de Hélder Trefzger; regência do coral de Ronaldo Sielemann).

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[SANTOS NEVES, Guilherme. Coletânea de estudos e registros do folclore capixaba. Org. e ed. Reinaldo Santos Neves. Vitória: Cultural-ES, 2008. Patrocínio: MINC / Lei Rouanet - Patrocínio: Petrobras.]

[Publicado originalmente neste site em 2008]


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Guilherme Santos Neves foi pesquisador do folclore capixaba com vários livros e artigos publicados. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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