De mil maneiras as mocinhas casadoiras procuram saber o esperado e feliz momento do seu matrimônio. Para isso se socorrem de todos os recur...

Consulta ao cuco — uma velha crendice lusitana

1/01/2016 0 Comentários


De mil maneiras as mocinhas casadoiras procuram saber o esperado e feliz momento do seu matrimônio. Para isso se socorrem de todos os recursos de indagação, de que é opulento o folclore de todas as terras.

Valem-se das simples e divertidas práticas das noites juninas, com a consulta ao espelho, à vela no copo, à sombra no poço, às 3 agulhas flutuantes, aos papelinhos dobrados, aos 3 dentes de alho, às pimentas verdes e maduras, aos 3 bolinhos de farinha, à clara de ovo no copo, à faca na bananeira, às 3 laranjas descascadas ou não, ao galho de café, à sorte dos três pratos, aos 3 caroços de feijão, ao processo da ceia preparada, e de mil outras "sortes" ou crendices, para sondar o futuro, e conhecer o ano, o dia, a hora do casamento, e o nome, estado e profissão do noivo ansiosamente desejado.

Lançam mão, também, de outros processos, complicados ou simples, como o das orações interrompidas, preferentemente a Salve Rainha; das rezas e responsos a Santo Antônio ou São Gonçalo, os santos casamenteiros; e do processo da consulta a vozes, como esta, por exemplo, ouvida aqui em Vitória: na véspera de Santo Antônio ou de São João, passa-se, em cruz, um copo com água sobre a fogueira. Depois, vai-se para trás de uma porta, enche-se a boca de água e, sem se mexer, aguça-se o ouvido: o primeiro nome que se ouvir será o do futuro marido ou da futura esposa.

Acerca dessas consultas, escreveu Câmara Cascudo erudito estudo em seu, Anubis e outros ensaios, sob o título "Hermes em Acaia e a consulta às vozes", localizando a prática em Portugal, na Itália, na Espanha e em vários pontos do Brasil.

Um dos processos que se podem considerar incluídos nesse de consulta a vozes é o que ocorria em Portugal, onde as raparigas em grupo alegre, reuniam-se, em Leça da Palmeira ou Matosinhos, e, em volta de uma limeira onde pousasse um cuco, lhe dirigiam, curiosas e expectantes, a pergunta, uma de cada vez:

Ó cuquinho da limeira!
Quantos anos me dás de solteira?[ 8 ]

Quantas vezes o cuco cantava, quantos anos faltavam para o casório. E — relatava a Mamãe — às vezes acontecia que eram tantos cu-cu! cu-cu! cu-cu!... que elas, zangadas, furiosas, afugentavam o pássaro com seixos e pedradas, espantando o pobre cuco irreverente e... mentiroso...

A essa velha crendice de ouvir o cuco se refere Leite de Vasconcelos em sua notável Etnografia portuguesa (vol. 1, p. 2): " As pobres raparigas da aldeia consultam o cuco acerca dos anos que hão de viver solteiras."

Mas, não apenas em Portugal. Na França, também, é ou era corrente tal consulta ao cuco, segundo se pode ver em Van Gennep, no capítulo "L'obtention d'un mari ou d'une femme", do seu clássico Manuel de folklore français contemporain (tomo I, lª parte, p. 239).


NOTAS

[ 8 ] Informação colhida de Albina da Silva Neves.


[Alto está e alto mora — Nótulas de folclore. Vitória: edição do autor, 1954.]

Guilherme Santos Neves foi pesquisador do folclore capixaba com vários livros e artigos publicados. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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