Existem evidências no texto ora criticado que levaram a estabelecer, entre os possíveis autores, aquele que foi o verdadeiro criador do trab...

Crítica de atribuição

Existem evidências no texto ora criticado que levaram a estabelecer, entre os possíveis autores, aquele que foi o verdadeiro criador do trabalho. Neste passo não se pode perder de vista uma frase do próprio padre Antunes: “Todo excesso é vicioso, e até, segundo os lógicos, o muito provar é nada provar…"[ 5 ]

De início, foi eliminada a possibilidade de a obra ter sido elaborada por mais de uma pessoa, já que nela seu autor faz alusões a si mesmo na primeira pessoa do singular, todas dando testemunho de fatos que vivenciou ou dos quais ouviu falar por conhecidos e parentes. Estas são, na realidade, memórias elaboradas por um só indivíduo.

Mas não um indivíduo qualquer. Como diz a supra-mencionada nota jornalística que apresenta as Memórias do Passado elas são “oriundas de uma habilíssima e aplaudida pena”. A primeira evidência sobre a autoria dos artigos se relaciona com a cultura, o grau de instrução, ou seja, com a capacidade que o autor possuía para escrever o texto. No que se refere àquela época, o perfil de um padre intelectual é o que melhor se enquadra como criador de obras como a presente. Ressalta clara em todo o texto uma erudição que, naquele tempo, era própria de sacerdotes, ou seja, um tipo de erudição com citações em latim, referências detalhadas ao culto religioso católico e opiniões que indicam uma nítida formação em seminário. E como se o próprio texto fosse repetindo: “Fui escrito por um padre.” Mas isto é uma pista e, isoladamente, nada significa. Há necessidade de juntar a esta evidência outras que se encaixem entre si, como num puzzle.

Das evidências que me orientaram para estabelecer a autoria do texto, a que logo chamou atenção refere-se à idade do autor, quando no início do artigo 14 ele afirma: “A este período, que abrange o longo espaço de meio século, que marca a minha existência, tão pesada pelas contrariedades da vida e inconstâncias da sorte, que cegamente dá e cegamente tira, como lhe apraz, em seu rápido redemoinho, […]”. E quando declara quase no final do último artigo: “Terminei a tarefa cujo temerário empreendimento, inspirado por um afetuoso patrício, arriscou-me a grande indiscrição! […] Tenho um gênio sôfrego; […] defeito que ainda não pude corrigir, apesar de meio século de vida.”

Assim, o autor afirma e reafirma que tinha cinquenta anos quando da elaboração do texto, tempo que também coincide com o meio século de que trata seu relato. Tais pistas constituíram-se para mim em autêntico fio da meada a ser puxado: estamos frente a um padre erudito, de seus cinquenta anos e vaidoso pelo que tinha escrito, por deixar estas pistas sobre sua idade e, quem sabe, outras mais… Foi necessário confrontá-las com as vidas de padres e escritores do século passado para saber qual delas melhor se coadunaria com a idade citada no texto. O grande achado foi o tempo de vida do autor coincidir, grosso modo, com aquele que na época possuía o padre Francisco Antunes de Siqueira, já que nascido em 1832. Outros prováveis candidatos ou já tinham morrido ou eram muito jovens. A partir desta constatação, as demais evidências buscadas foram contribuindo para solidificar e corroborar minhas convicções sobre a autoria do texto.

Outra evidência relaciona-se com o local de nascimento e de início de vida do autor. Estas referências estão no final do primeiro artigo:

Desde os primeiros anos de minha juventude, distraído por tantos entusiasmos populares, nas horas de meu recreio, a curiosidade, tão própria desse tempo […] me levou com a onda do povo, mas de um modo diverso e com vistas mais elevadas pela instrução que me proporcionavam meus pais e mestres, a presenciar e mais tarde a partilhar, em papéis adequados, das festas que punham em movimento a folgazã população da cidade de Vitória, meu berço natal.

O padre Antunes nasceu em Vitória, e aqui morou toda sua infância e boa parte da adolescência e, depois, na idade adulta, também aqui viveu muito tempo, fato que juntou mais uma peça ao quebra-cabeça acima referido. Bastante significativa é outra evidência relacionada com o fato de o autor se referir a seu apelido de infância como sendo Chiquinho, conforme o texto no início do artigo 26:

Quando não se dava este incidente, então a coisa mudava de face, estava eu em mar de rosas no meu parreiral! Reunido à magna concumitante caterva desempenhava eu meu papel, pois era um bom cabo de guerra. Sem o tal Chiquinho nada se fazia no meu quarteirão, onde era ele o pater conscriptus; pudera não!… Tinha venda, oratório, teatro e sineira com bons sinos representados por alavancas ou pés de cabra, e um grande tacho, que nos cedera o velho Quadros. É isso pouca coisa para meninos?! […] Além daqueles chamarizes, ainda tinha eu um tambor, uma rabeca e foles!

Ora, Chiquinho no Brasil é apelido de Francisco, em especial de Francisco que tem um pai ou parente próximo com mesmo nome, como forma de fazer a diferenciação nas referências familiares. O autor das Memórias do passado quase sempre se refere ao seu pai como cônego Francisco Antunes de Siqueira, e a si próprio como padre Antunes já que, homônimo do pai, não possuía este título da hierarquia católica.

Ainda uma evidência circunstancial, que corrobora a autoria da obra, está na detalhada descrição, que o autor faz no artigo 28, da doença, morte e enterro (ocorridos em 1850) do cônego Francisco Antunes de Siqueira, em tom de desvelo e cuidado que só cabe a um filho (na ocasião dos fatos jovem seminarista de 18 anos) cultuador da memória de seu pai. Outro elogio ao pai está no artigo 23, quando descreve os ofícios de trevas na quarta e quinta- feira da semana santa (de 1848) como “[…] os mais solenes, imponentes e grandiosos de todos quantos presenciei aqui na capital” e que tiveram o cônego Antunes como celebrante principal.

Existem outros indícios na obra que contribuem, de modo importante, para atribuir sua autoria ao padre Francisco Antunes de Siqueira.

O autor do texto demonstra conhecimento das paróquias (inclusive citando fatos nelas ocorridos) que coincidem com os lugares e datas em que o padre Antunes ali serviu como pároco, no caso, Carapina (a descrição feita nos artigos 28 e 29 da epidemia de cólera-morbo que grassou naquele lugar em 1856), Santa Cruz (descrição no artigo 31 de episódio vivido com o índio Luís Ludovico) e Barra de São Mateus (atual Conceição da Barra, onde presenciou em 1872 a festa do alardo narrada no artigo 19)[ 6 ]

Outro indício significativo é a grande identificação do autor do trabalho com manifestações teatrais e peças de dramaturgia, expressa em diversas passagens das Memórias do passado, o que também confere com a biografia do padre Antunes.[ 7 ] Oscar Gama Filho, por exemplo, cita como sendo do padre Antunes uma farsa teatral de 1874 denominada As Astúcias de um Seminarista.[ 8 ]

As semelhanças estilísticas e coincidências temáticas de trechos das Memórias do passado com obras comprovadas do padre, em especial o Esboço histórico, servem como mais um argumento fundamental a favor da autoria que atribuo neste estudo.

Referidas semelhanças entre as duas obras são evidentes, seja no uso de expressões em português ou latim, seja no emprego excessivo de parágrafos, entre outros detalhes da criação literária.

De bom grado deixo de lado as semelhanças estilísticas (que em casos mais difíceis poderiam ser um fator decisivo para o estabelecimento de autoria), a fim de ressaltar as coincidências temáticas. Diversos assuntos abordados nas Memórias do passado, publicadas em 1885, são tratados de forma mais resumida em passagens do Esboço histórico, livro editado pela primeira vez oito anos depois, ou seja, em 1893. Tudo leva a crer que, algum tempo após sua publicação, o padre Antunes de Siqueira se utilizou de trechos destes artigos para elaborar a segunda parte do Esboço histórico, com isto desprezando-os, ou não tendo oportunidade de publicá-los em separado. Daí ser compreensível que os biógrafos do padre e escritor não se tenham referido ao folhetim.

Este cotejo entre as duas obras não é exaustivo, servindo somente para exemplificação. Servi-me da segunda edição do Esboço Histórico[ 9 ] e acrescento entre parênteses exemplos de expressões semelhantes empregadas nos dois textos.

1) Existe uma descrição da fábula de Perseu e Andrômeda no início do artigo 3 e no artigo 6 das Memórias do Passado (“Aquela cena da intecro e pralaméco”) também presente às páginas 79-80 do Esboço Histórico (“Senhor Sena impracado! Intécro! Paframéco!”).
2) O artigo 19 das Memórias do Passado traz uma exposição da festa do alardo em Conceição da Barra (“e são batizados, aspergindo-os o pároco com água benta”), também existente às páginas 83-5 do Esboço histórico (“e são batizados, aspergindo-os o padre com água benta”).
3) Temas ligados às modas masculina e feminina são abordados no começo do artigo 4 e nos artigos 14 e 15 das Memórias do Passado (“O juiz ordinário […] mandava por oficiais ou meirinhos castigar os crimes de sua alçada! Exprimia bem essa brutal jurisdição trazendo dependurada em uma das pestanas da casaca uma rodinha de cipó de rego”,) e também nas páginas 88 a 92 do Esboço Histórico (“O que achei curioso foi ver o juiz ordinário neste gosto, trazendo por distintivo de sua jurisdição uma rodinha de cipó de rego, presa a uma das pestanas de sua rotunda casaca”).
4) A educação feminina é referenciada no artigo 17 das Memórias do Passado e nas páginas 97 e 98 do Esboço histórico.
5) Referências são feitas à tecelagem em Vitória na página 98 do Esboço Histórico (“Tivemos até um sirgueiro chamado Eustórgio”) e no artigo 18 das Memórias do Passado (“Tivemos até um sirgueiro — o sexagenário Eustórgio”).
6) A procissão das cinzas, com os dizeres em latim que acompanham os andores, é descrita nas páginas 108 a 111 do Esboço Histórico e no artigo 24 das Memórias do Passado e, embora estes dizeres só coincidam num caso ou noutro, pressupomos que isto se deva a uma variação no tempo desta manifestação religiosa.
7) Magos e embusteiros constituem título de tema abordado às páginas 116 a 120 do Esboço Histórico (“Um pobre homem, dado ao vício da embriaguez, arvorou-se em padre e […] começou por batizar, casar e até celebrar, o que fazia deitando aguardente em um copo, o qual cobria com um livrinho de Santa Bárbara, pondo sobre este um ramo de alecrim.”) e também presente no artigo 30 das Memórias do Passado (“…um indivíduo […] arvorou-se em padre e […]. Sentado em uma poltrona, sempre alcoolizado, tendo na frente de um oratório um copo cheio de aguardente, coberto com um livrinho de Santa Bárbara, sobreposto um ramo de alecrim,…”).
8) Outros temas comuns existem, como a festa de São Benedito em Vitória e a rivalidade entre caramurus e peroás.

Assim, estaria caracterizada a existência de um aproveitamento pelo autor, em nova versão ou roupagem, de passagens de obra sua já publicada. E se esta última é anônima, presume-se que o autor comum fique mais à vontade para realizai’ tais resumos e adaptações. O que fica claro também é que nas Memórias do Passado os temas são abordados de forma mais livre, mais desenvolvida, com maior riqueza de detalhes. No Esboço Histórico eles são apresentados de maneira mais contida, mais erudita e resumida. De qualquer maneira é mais do que coincidência a presença, em ambos os trabalhos, de frases e expressões semelhantes, além da temática comum, abordando assuntos particulares, diferentes e mesmo inusitados.

Maria Stella de Novaes faz o seguinte registro que convém consignar aqui:

A 31 de julho [de 1881], Múcio Scévola Lopes Teixeira foi nomeado Chefe da Secretaria do Governo. Tomou posse a 10 de agosto. Escreveu diversas poesias, que reanimaram a vida literária, na Capital da Província. Publicou, na Vitória, alguns livros de poesias e ‘Memórias do Passado’, no qual declarava: ‘Este livro e a história de minha vida’.[ 10 ]

Apesar de não ter conseguido localizar maiores informações sobre o autor acima referido, acredito que o título de seu livro, que coincide com o mesmo título publicado na seção “Folhetim” de A Província do Espírito Santo, não autoriza que seja a ele atribuída a autoria da obra ora analisada.

O escritor Elmo Elton atribui a autoria da presente obra a Muniz Freire, quando, após contar histórias ligadas à antiga rua da Assembleia, atual rua Muniz Freire, fala sobre a vida e a obra do patrono desse logradouro: “Publicou: A Vitória através de meio século, 1885;[ 11 ] Não logrei localizar de que fonte foi retirada esta atribuição. Acredito que o equívoco possa advir do fato de o folhetim original ter saído no periódico A Província do Espírito Santo de que Muniz Freire era fundador e redator.

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NOTAS


[ 5 ] SIQUEIRA, Francisco Antunes de. Esboço Histórico dos Costumes do Povo Espírito-santense. 2. ed. Vitória: Imprensa Oficial, 1944. p. 116.
[ 6 ] Alguns biógrafos falam em São Mateus, mas podem ter confundido com Barra de São Mateus, antigo nome de Conceição da Barra. De qualquer forma, baseei-me na carta do padre Antunes constante no Anexo 1 e em documentos do Arquivo Público Estadual do Espírito Santo.
[ 7 ] É sempre referida pelos biógrafos como de autoria do padre Antunes a farsa D. Minhoca, considerada uma das primeiras da sua espécie elaborada por autor capixaba.
[ 8 ] GAMA FILHO, Oscar. História do Teatro Capixaba: 395 anos. Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1981. p. 73.
[ 9 ] SIQUEIRA, Francisco Antunes de. Esboço histórico dos costumes do povo espírito-santense. 2ª ed. Vitória: Imprensa Oficial, 1944. Passim.
[ 10 ] NOVAES, Maria Stella de. História do Espírito Santa. Vitória: Fundo Editorial do Espírito Santo, s. d., p. 280.
[ 11 ] ELTON, Elmo. Logradouros antigos de Vitória. Vitória: Instituto Jones dos Santos Neves, 1986. p. 35.

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Fernando Achiamé nasceu em Colatina, ES, em 22/02/1950 e fixou-se em Vitória a partir de 1955. Formado em história pela Universidade Federal do Espírito Santo e em língua e literatura francesas pela Universidade de Nancy II (Pela Aliança Francesa do Brasil). Especialista em arquivos pela Ufes. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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