Há uma vassoura que varre cedinho a delegacia da Chapot Presvot, terminando na calçada da rua, depois de passar pela varandinha de ladrilhos...

De vassouras e biscoitos ou para entrar nos anais

Há uma vassoura que varre cedinho a delegacia da Chapot Presvot, terminando na calçada da rua, depois de passar pela varandinha de ladrilhos com desenhos de rosáceas e sair pela passarela que corta o jardim, largado ao abandono apesar da tília que nele floresce soberbamente. Quem ali estiver naquele momento ouvirá a faxineira cantarolar no rema-rema de sua varrição:


Varre, varre vassourinha,
Varre, varre sem parar.
Varre aqui, varre acolá,
Para o lixo não sobrar.


Foi o que ouviram a delegada Dea Benvenuto e o escrivão Pedro, depois que saltaram do carro que a delegada parou em frente da delegacia.

“Bom dia, senhora dona Lenilda,” disse a delegada, cumprimentando alegremente a faxineira. “Está feliz com a vida, não é mesmo?”

“Bom dia, doutora,” respondeu Lenilda. ““Quem canta, seus males espanta!”

A seguir aproximou-se o escrivão para repetir pausadamente na orelha da faxineira, antes de entrar leve e fagueiro na delegacia:

“Bom dia, senhora dona Lenilda! Está feliz com a vida, não é mesmo?”

Foi o quanto bastou para que Lenilda, interrompendo suas vassouradas sem sequer recolher o lixo que sobrou na calçada da rua (contrariando o último verso da canção da varrição), chispasse atrás do escrivão fogueteada pela curiosidade.

“Seu Pedrinho, seu Pedrinho, de onde o senhor está vindo com a doutora Dea?”

O escrivão deu um sorriso de menino pegado em traquinagem, mas limitou-se a bisar, com o mesmo encantamento anterior:

“Bom dia, senhora dona Lenilda! Está feliz com a vida, não é mesmo?”

“Feliz quem parece estar é o senhor. Aliás, felicíssimo,” disse a faxineira.

“Não posso negar que estou mesmo, minha amiga. Tanto que lhe peço de presente um cafezinho daqueles que só você sabe fazer.”

“Por que hoje é de presente? Eu não sirvo sempre o seu cafezinho?” interrogou a esperteza de Lenilda.

“Porque vai ser um presente merecido,” disse Pedro, mantendo no rosto o ar cretino da chegada. “Presente presenteado com amor e carinho para que eu possa defumar meu cigarrinho. E se ainda tiver lá dentro um restinho de biscoito de polvilho, dos que eu trouxe pra você, me traga um ou dois. Como é gostoso um biscoitinho!”

“O senhor não tem jeito mesmo, seu Pedrinho,” disse Lenilda, saindo da sala para atender ao pedido do amigo, dando-se por satisfeita com o que queria saber.

Mas se Lenilda se deu por satisfeita o mesmo não acontece comigo. Sinto que há mais o que escrever, por descarrego de ofício. Por isso, aproveito a ausência da faxineira e instalo entre mim e Pedro uma conversa cúmplice, somente possível entre pares da mesma confraria — ele, o escrivão da delegacia; eu, o virtual escrivão dela. E abro o bate-papo num assédio de catapulta: “Conte-me, para constar dos anais da Chapot Presvot, o que se passou entre você e a delegada Dea Benvenuto.”

“Passou-se o inevitável,” disse Pedro sem engrolar a língua, nem o idioma. “E por culpa sua.”

“Seja explícito na acusação”.

“Explicitarei,” disse Pedro.

E explicitou.

“Lembra-se, meu caro confrade, do relato que você fez do banho da delegada? Aquele banho voluptuoso a que só você teve o prazer de assistir através do vidro fosco do chuveiro, do qual fiquei sabendo depois que li a descrição que me deixou com água e espuma na boca? Tudo começou ali, com um desafio que eu me impus.”

“Que desafio?” perguntei prevendo fatalidades.

“O de ir mais longe do que você, curtindo um banho pele a pele com a delegada. Eu, ela e o capeta entre nós, nos inspirando.”

“E conseguiu?” tartamudeei adivinhando fatalidades.

“Passo a passo, numa estratégia de conquista que começou com o conto “Anette e a lâmpada mágica”, do livro Bravos companheiros e fantasmas, de José Carlos Oliveira; entrou pelo livro Mulheres diversa caligrafia; se acelerou em interessantes conversas sobre literatura e receitas de biscoitinhos de polvilho (ah, que receitinhas!), para terminar no apartamento da divina delegada ou, para ser preciso e precioso, no chuveiro dela (aquele que você conhece apenas de vista!), numa inenarrável ducha a três, verdadeiro ménage à trois.”

“Ménage à trois?” soltei o meu estranhamento.

“À trois, meu querido confrade,” repetiu Pedro. “Eu, a divina e o capeta, se esqueceu dele? Pois o capeta estava entre nós, animando-nos com sugestões infernais, fustigando-nos com o seu tridente afiadíssimo, transmitindo-nos ardor e inventividade. Aliás, como é inventivo o capeta, meu Deus! Nem me venham dizer que é no fogo que ele se realiza como ser diabólico. Uma ova! Debaixo d’água se mostra mais encapetado ainda, pelo menos foi a impressão que me deu. Diria até que se a delegada parecia, sob as águas do chuveiro uma cobra d’água incontrolável, para usar da mesma imagem com que você a descreveu – lembra-se do que estou falando? – o Diabo não ficava atrás como um cabra d’água provocativo e genial. Mas este é o relato do capítulo final no chuveiro. O antes não sei se devo contar.”

“Para constar dos anais...” lembrei a Pedro.

“Serei, porém, menos explícito, por cavalheirismo para com a dama,” disse-me ele, dizendo: “A ducha no chuveiro foi o clímax de uma noite em que, no começo, a delegada ainda me chamava de seu Pedro, e eu a chamava de senhora delegada. No crescer da nossa intimidade passamos a meu biscoitinho pra cá, meu polvilhinho pra lá, uma gostosura de se ouvir, sentir e provar. Está registrando pros anais?”

“Estou registrando.”

“Preciso ir adiante ou o adiante está subentendido, meu prezado confrade?”

“Está subentendido”.

“Então paremos por aqui, mas com dois adendos, para valorizar os anais,” disse Pedro numa dose de estudada dubiedade.

“Que adendos?”

“Vamos ao primeiro: você sabia que a delegada tem uma flor-de-lis tatuada no baixo ventre? Um mimo de florzinha que parece marca de nascença?”

“Como eu poderia saber?” perguntei desconsolado.

“Você não a viu tomando banho?” espicaçou-me Pedro.

“Não deu para perceber o detalhe da florzinha...” desabafei mais desconsolado ainda.

“Pois a florzinha está lá, e posso garantir que tem até um perfuminho delicado,” fustigou Pedro.

“Isso me lembra a flor-de-lis da milady de Winter, em Os três mosqueteiros,” disse eu querendo escapar com a minha frustração por uma porta literária.

“Mas no caso de milady tratava-se do estigma de uma condenada,” disse Pedro que também conhecia o romance de Alexandre Dumas. “E ficava no ombro e não no sacrossanto baixo-ventre onde está a de milady Dea Benvenuto,” completou sardônico.

“Dou-me por derrotado. Passemos ao segundo adendo. Do que se trata?” perguntei.

“De uma receita de biscoito de polvilho que me deu a minha lady, trocando por outra que eu dei a ela. Lembra-se do que eu lhe disse? Um biscoitinho pra lá, um polvilhinho pra cá? Pois anote a receita para os seus anais: 1 ½ quilo de polvilho; 2 xícaras de açúcar; ½ quilo de manteiga; 2 gemas de ovo. Amasse bem com a mãos, dando aos biscoitinhos a forma desejada, e leve ao forno em alta temperatura, de preferência em fogão a lenha. Devem ser comidos dois a dois, mas não no banho para não se desmilingüirem sob a água. O bom biscoitinho de polvilho é o crocante, que estala nos dentes,” concluiu Pedro rindo.

“É tudo o que você tem para me dizer?” perguntei vendo o ar de vitoriosa vingança pespegado na cara travessa que Deus deu ao escrivão e o Diabo consagrou.

“Nada a acrescentar,” retrucou luxurioso.

“Se é assim, meu querido confrade, prepare-se para a novidade que agora eu vou lhe dar em primeira contramão: saiba que daqui para frente a divina Dea, a perfumosa Benvenuto, a crocante delegada, a sua milady de mimosa flor-de-lis no sacrossanto baixo-ventre não vai mais ouvir a canção da vassourinha, cantada por Lenilda na delegacia. A divina, a perfumosa, a crocante, a miladyzinha com quem o senhor Pedro, o feliz e realizado escrivão da Chapot Presvot passou uma noite de mosqueteiro do rei acaba de ser transferida para... São Mateus! Em palavras mais tristes, meu caríssimo confrade, escrivão da Chapot Presvot, 272, isso quer dizer que o delegado Digital está voltando!”

“O que é bom dura pouco,” disse Pedro com a cara decepcionada de quem ouviu e não gostou.

E era pra gostar?



[Este texto integra a série intitulada CHAPOT PRESVOT 272, de Luiz Guilherme Santos Neves]

Luiz Guilherme Santos Neves (autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

Estação Capixaba

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