Lenilda varria a entrada da delegacia com uma vassoura quase sem piaçava quando chegou seu amigo, o escrivão de polícia. À queima-roupa a fa...

Dito que dito ou dito e feito

Lenilda varria a entrada da delegacia com uma vassoura quase sem piaçava quando chegou seu amigo, o escrivão de polícia. À queima-roupa a faxineira fuzilou: “O senhor sabe escrever em computador, seu Pedrinho?”

“Qual a razão da pergunta?” perguntou quem estava voltando de um afastamento do serviço por motivo de trabalho no interior do Estado.

“Porque na sua ausência as máquinas de datilografia da delegacia foram substituídas por computadores,” explicou Lenilda.

“Até que enfim!” saudou Pedro. “Eu nem acreditava que isso fosse possível. Pelo menos enquanto eu fosse escrivão de polícia.”

“Mas aconteceu,” confirmou a faxineira.

“E a minha Olivetti?”

“Levaram embora não sei pra onde, nem quero saber,” Lenilda disse.

“Vinte anos da minha vida foram-se com aqueles teclados,” filosofou Pedro, e não sem certa nostalgia. “Pena que não tenham levado também a minha tendinite.”

Com efeito, desde que começara a trabalhar na delegacia da Chapot Presvot, o escrivão gastara suas digitais intelectualizadas batucando depoimentos no teclado das Olivettis. Primeiro, numa Lettera 82; depois, na elétrica Et-121, de uso tão duradouro que testemunhou o gradativo agravamento da tendinite do ágil datilógrafo devido ao tanto que ele batucou e batucou e batucou. Só de sessões de fisioterapia que teve de fazer foram mais de uma centena, nas mãos do dr. Vanair. Acabaram tão amigos que o médico não perde um lançamento literário dos livros que Pedro publica.

“Mas o senhor sabe ou não sabe escrever em computador?” tornou a perguntar a faxineira.

“É lógico que sei, minha querida. Para falar a verdade, sou um expert em computador. Com ele faço coisas que você nem acredita,” gabou-se Pedro.

“O senhor sabe baixar música de dupla caipira?,” perguntou Lenilda toda animadinha.

“Eu faço o que você quiser no computador. Baixo música de Jacob do Bandolim; baixo de Belchior, que tem letras cheias de ironias; de Ritchie Blackmore, que é um guitarrista fantástico...”

“Que nome bonito, seu Pedrinho. Repete pra mim...”

“Já que você gostou vou dizer o nome todo: Richard Hugh Blackmore,” disse pausadamente o escrivão.

“É lindo, seu Pedrinho! Mais lindo ainda do jeito que o senhor fala...”

“Pois é, Lenilda. Música dessa gente eu baixo com prazer. Mas pelo amor de Deus, não me peça para baixar música de dupla caipira. Sabe por quê? Porque para dupla caipira eu uso espingarda de dois canos. Com uma gatilhada eu mato os dois”.

“Tá bom, seu Pedrinho, respeito seu modo de pensar. Mas para mim é Deus no céu e música caipira na terra. Eu me amarro nela! E sei o nome de todas as duplas que cantam na televisão. Quer que eu diga?”

“Se você começar, olha o que vai lhe acontecer,” disse Pedro, fazendo para a faxineira o gesto de quem puxa um gatilho. “Mas vamos para a minha sala que eu quero conhecer meu novo companheiro de trabalho. Ele já está instalado?”

“Instalado e funcionando,” disse Lenilda, indo atrás do escrivão.

Depois que Pedro testou o equipamento Lenilda perguntou:

“Gostou do presente?”

“É um computador de última geração,” atestou Pedro. “Só falta falar para dar voz de prisão a delinquente”.

“Sabe que isso me deixa muito triste?” amuou-se Lenilda.

“É a ordem natural das invenções, Lenilda: vai chegar um dia em que os computadores vão prender bandidos com voz eletrônica,” brincou Pedro.

“Não é disso que estou falando. Eu fico triste quando comparo seu computador, de última geração, como o senhor diz, com a minha vassoura careca. Chego a me sentir envergonhada.”

“Infelizmente, minha amiga, aqui na delegacia, aliás, nas delegacias de polícia em geral, o que mais tem é cacareco funcionando mal e porcamente,” disse Pedro para consolar a faxineira. “Este computador moderníssimo que chegou é uma exceção à regra. Não duvido nada se roubarem ele...”

“Fala baixo, seu Pedrinho,” aconselhou Lenilda ao ouvir as últimas palavras do amigo.

“Falar baixo por quê?" indagou o escrivão falando baixo.

“Porque tem gente dizendo por aí” – e Lenilda esticou o nariz referindo-se à delegacia como um todo – “que eram cinco computadores que vieram para cá, mas foram instalados três. Um para o senhor; outro pro Nanico e o terceiro na sala do delegado.”

“E os outros dois?” perguntou Pedro.

“Quem sabe deles é o delegado,” murmurou Lenilda perto da orelha do escrivão. “É o que tão dizendo. Tem gente que diz que ouviu quando o delegado, que gosta de falar alto, telefonou para o deputado Ribeirinho, que conseguiu os computadores, pra avisar que osbonecos tinham chegado ‘e dois vão ser nossos afilhados’, como ele disse. Mas eu não falei nada pro senhor, seu Pedrinho... Não quero me meter nesse disse-me-disse.”

“Você está certinha, minha amiga. Todo cuidado é pouco. Até porque eu também já aprendi que quando tem disse-me-disse aqui na delegacia é porque quem disse o disse-me-disse sabe muito bem o disse que está dizendo.”

“Então vamos cuidar da nossa vida,” disse Lenilda com a velha vassoura na mão.

“Vamos sim,” Pedro disse.

Dito que dito, dito e feito.



[Este texto integra a série intitulada CHAPOT PRESVOT 272, de Luiz Guilherme Santos Neves]

Luiz Guilherme Santos Neves (autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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