A teoria da literatura costuma criar gavetas onde, dividindo o tempo, coloca as produções literárias e seus respectivos autores. O saber uni...

Estudo I: Informações sobre Narciso Araújo

A teoria da literatura costuma criar gavetas onde, dividindo o tempo, coloca as produções literárias e seus respectivos autores. O saber universitário segue este critério, justificando este procedimento como finalidade própria; afinal, o ensino superior deve organizar o saber desorganizado.

Se há uma coisa desorganizada em arte literária é a obra de Narciso Araújo. Em primeiro lugar porque a publicou esparsa e, em segundo lugar, seu único livro, compendiado por João Calazans e Eugênio Sette com o título Poesias (1ª. série), foi uma coletânea feita à revelia, por ocasião do concurso “Príncipe dos Poetas Capixabas”, promovido pelo jornal A Tribuna em 1941. Conforme atesta a professora Maria Madalena Pisa, procurado para as entregar, Narciso negou que as tivesse. Supõe-se que não as tivesse organizadas.

Todos atestam a sua natural modéstia e, embora o chamem de “solitário de Itapemirim”, ele nega. Sua vida é bem conhecida e também a sua carreira cultural desce criança até a formatura em Direito no Rio de Janeiro. O que aconteceu é que ele fez uma escolha pelo torrão natal e não pela buliçosa Capital Federal da Belle Époque. Seu círculo de amizades contava com todos os nomes brilhantes da época, a começar por Cruz e Sousa. Vamos encontra-lo no Panorama da poesia brasileira, de Fernando Góes, volume IV, O Simbolismo, 1959. Tanta vida e obra para duas páginas e dois sonetos! Os dois sonetos da antologia são “Saudade estéril” e “Sabor azul”. Realmente é engavetar o poeta nos dois ou mais sentidos. Nesta antologia Fernando Góes faz um apanhado do simbolismo em dezenove pequenos capítulos. Afirma que os simbolistas fizeram uma verdadeira revolução nos temas e na técnica, isto é, também na forma. Fizeram verso de dezessete e até de dezenove sílabas que prenunciam a liberdade métrica do modernismo. Mexeram na ortografia e na impressão tipográfica com largo abuso das letras maiúsculas.

Outra antologia dedica a Narciso Araújo seis páginas. Trata-se de Panorama do movimento simbolista brasileiro, de Andrade Muricy, volume 2, editado pelo Instituto Nacional do Livro, segunda edição, 1973. Entre os 131 autores contemplados, Narciso Araújo é o 61. A antologia traz oito sonetos dele. Além disto, não existe fortuna crítica sobre o príncipe dos poetas capixabas. Entenda-se, pois, que a consagração de um escritor reside na publicação de livros. Andrade Muricy em sua antologia resume a obra de Narciso a Poesias e acrescenta numa única linha: “Numerosa produção esparsa.”

O acervo da criação poética de Narciso vai muito, muito além dos 71 poemas de seu único livro. É um material precioso para uma tese de crítica genética e ecdótica.

1. Ele deixou um caderno de capa dura com apontamentos de Direito onde mistura sua incipiente produção literária com a lista de livros a serem encadernados e... rol de roupa para lavar.

2. É deste caderno todo manuscrito e a partir dele que Narciso organizou o 1º. Caderno de Poesias de Narciso da Costa Araújo (35 poemas) e o 2º. Caderno das Poesias de Narciso da Costa Araújo (com mais 42 poemas). Os cadernos estão bem danificados pelas traças e roídos de barata. Cada poema traz subscrito o local, a data em que foi escrito, a idade do autor – ele cometia sonetos já aos 17 anos –, o nome do jornal em que foi publicado e data. Com tais indicações é possível localizá-lo no tempo e no espaço e saber quando estava residindo nesta ou naquela rua do Rio de Janeiro, ou no seu querido Brejo dos Patos, em Itapemirim.

3. Ainda fazem parte do acervo manuscritos em folhas avulsas, originais de oitenta poemas dos quais apenas sete não são sonetos. Nestes manuscritos se delineiam as características próprias do poeta parnasiano-simbolista, a que os apressados organizadores do volume Poesias não foram inteiramente fiéis. A revisão ortográfica fez modificações indevidas, por exemplo, nas palavras com iniciais maiúsculas que, no simbolismo, tinham um sentido de absolutização do termo.

4. Sabe-se, outrossim, que Narciso elaborou umas páginas de correção à sua obra e que houve algum desrespeito aos originais.

5. Existe uma pasta só com recortes das suas publicações em jornais e revistas.

6. Também em dois jornais capixabas, O Eco e O Cachoeirano, foram publicados 29 e 35 poemas, respectivamente.

7. Finalmente há uma coletânea de 29 poemas manuscritos intitulada Maria. Nenhum tem título, mas foi possível identificar títulos em pelo menos metade deles, em publicações de jornal. Esta coletânea também manuscrita é toda composta de poemas de amor dedicados a uma mulher. Sabe-se, discretamente, que a grande paixão de sua vida foi a professora Maria Madalena Pisa. Pode-se inferir deste fato que Narciso leu Petrarca, cuja musa foi Laura. A obra Petrarca – Poesia aparece numa relação colada no verso da primeira capa do 2º. Caderno de Poesias, onde Narciso enumera mais de setenta livros.

Narciso Araújo privilegiava o soneto na sua criação poética. Esta forma da lírica é apenas uma das três dezenas e mais de formas existentes classificadas em formas fixas e formas livres. O modernismo o detestou, numa época de revolução literária, aquela da antropofagia. O Espírito Santo regurgitava de sonetistas, dos bons e dos maus. Narciso Araújo se manteve distante da polêmica que se travou em Vitória, em 1928. Quem vai proporcionar a Narciso a amostragem do seu talento literário é exatamente um iconoclasta antropofágico, o jornalista João Calazans, que, juntamente com Eugênio Sette, vai criar o concurso “Príncipe dos Poetas Capixabas”.

Sabe-se que um bom soneto pode imortalizar e projetar um autor no cenário das letras. Assim aconteceu com Jorge de Lima e o seu “O acendedor de lampiões”. Quem não conhece “As pombas”, de Raimundo Correia? Quem não se lembra de Olavo Bilac e do soneto “A língua portuguesa”?

Entre os inumeráveis sonetos de Narciso deve-se destacar um sobre o qual ele próprio chamou a atenção. É “Saudade estéril”:


A saudade comum essa consiste
Em nos rememorar cada momento
Um quer que seja, cujo afastamento,
Pungindo-nos o peito, o torna triste.

Outra saudade todavia existe
Que nos agita. Vem do firmamento
Nos clarões do luar. E o pensamento,
Por mais firme e tenaz, lhe não resiste.

É a saudade de ignotas primaveras;
É a saudade de quadros incriados;
É a saudade de coisas nunca tidas;

É a saudade infecunda das esferas,
Onde os astros rolaram, conglobados,
Desde as fundas idades escondidas.


Recomenda-se, a título de curiosidade, a leitura do “Soneto do maior amor”, de Vinícius de Moraes, e lá aparecerão as semelhanças.

Em toda transcrição cometem-se transgressões, algumas relevantes, outras irrelevantes. Neste soneto as diferenças são pequenas. Os editores imprimiram os sonetos já com o espírito modernista, com minúsculas onde deveriam aparecer maiúsculas.

Narciso metrificava desde cedo. Dominava o decassílabo heroico e também o sáfico. No verso alexandrino respeitava a cesura obrigatória nos poucos sonetos com esta métrica. As coisas, hoje, foram profundamente alteradas. Basta o signo, a palavra em liberdade. Nada de métrica, ritmo, rima no poema. Há tanta liberdade que a acredito igual à falta de talento para a poesia. Este soneto, dedicado a João Ribeiro, foi assim historiado pelo próprio Narciso:

Nota – Tinha eu de 21 para 22 anos, quando escrevi este soneto. Foi publicado na “Rua do Ouvidor”, semanário das elegâncias, no Rio, com dedicatória a João Ribeiro. Meu colega e amigo Dr. Figueiredo Lima entusiasmou-se (fácil entusiasmo) pelo soneto, e dizia-me: “nunca farás outro soneto igual a este.” Raul [Pederneiras] ilustrou o soneto, republicando-o numa revista de arte, no Rio. O trabalho de Raul era bonito, e dava valor ao soneto feio. Anos mais tarde, em Teresópolis, durante o verão, Figueiredo Lima encontrou-se com o Dr. Lúcio de Mendonça, Ministro do Supremo Tribunal. [Ilegível], poeta, figura literária valiosa, membro da Academia Brasileira de Letras. No salão do hotel, uma noite, em reunião de hóspedes, surgiu a ideia de recitação de poesias. Figueiredo só tinha de cor o soneto Saudade Estéril – e impingiu-o ao auditório. Lúcio de Mendonça pediu-lhe que repetisse a recitação, e Figueiredo reimpingiu o soneto. “De quem é isso?”, perguntou-lhe Lúcio, e Figueiredo impingiu o nome do autor dos versos. Lúcio louvou-os francamente. Contando-me isso, disse-me, em carta, o impingidor, mais ou menos isto: Você não dá valor aos seus versos, nem mesmo ao Saudade Estéril, que me entusiasma. Lúcio de Mendonça, entretanto, figura superior nas letras brasileiras, admirou o soneto. Jarbas Loreti levou o soneto a Martins Júnior, notável homem de letras e jurista, que, então, auxiliava Quintino Bocaiúva, presidente do E[stado] do Rio, numa das secretarias. Martins Júnior louvou os versos e concluiu: Mas Narciso é um torturado. Esse soneto é o que figura no livro de Laudelino Freire. Quando disse que conhecias o soneto, lembrava-me de ter sido ele publicado em O Cachoeirano, e de teres os números [do jornal em] que apareciam versos meus. Em tempos passados, eu não dava ao soneto o valor que outros davam. Mas, de alguns anos para cá, reputo esse soneto uma das raras produções poéticas, de que se orgulha a literatura deste mundo (e a do outro também). Ia-me esquecendo de uma coisa importante: Sei que Figueiredo e Lúcio e Martins Júnior recitam, no Além, o soneto, que é sempre saudado com fragorosas palmas.

A consagração poética pelo soneto foi um fenômeno interessante na literatura brasileira. Quando se diz: “Ora, direis, ouvir estrelas!”, todos, unânimes, correm para Olavo Bilac. Por um verso se identifica um poeta, de Camões a Vinícius de Moraes. Entre os poetas capixabas, Narciso, se fosse divulgado, seria conhecido pelos seus sonetos. Esta forma fixa perdeu prestígio com o advento do modernismo, mas ainda serve de teste para o ofício de escritor. O soneto tem segredos que o leitor vulgar, o leitor comum desconhece. A chave de ouro, por exemplo. O enjambement. A posição das rimas. As modalidades da acentuação. Tudo isto pode ser observado no primeiro e no segundo Cadernos de Poesias de Narciso e que constituem uma espécie de obra imatura. Ainda não se fez um estudo desta trajetória de sua aprendizagem, de sua aplicação, do progressivo burilar do gosto. Em Narciso, a qualidade poética decorreu também da convivência com outros poetas, declaradamente Cruz e Sousa, Nestor Vítor e Olavo Bilac. Andrade Muricy identificou dezesseis grupos dentro do simbolismo. Narciso Araújo aparece atuando no grupo Rosa-Cruz, onde pontificava um amigo seu, Félix Pacheco, que, de muitas formas, tentava promovê-lo. Inutilmente.

A título de exemplo de qualidade poética, vejam-se alguns primeiros versos dos 77 poemas que compõem o primeiro e o segundo Cadernos. Todos os poemas têm título:


Ingratidão: Foste tu, mulher má, que despertaste
Idílio: Canta o mar gemedora cavatina
Um soneto: Vou ver, amigos, se um soneto faço.


Citar o primeiro verso dos poemas seria uma forma de organizar a obra de Narciso. Fazendo isto em Maria resultou um fenômeno interessante. Alinhavando os 29 primeiros versos, ter-se-ia como resultado um novo poema.

Andrade Muricy organizou um glossário dos vocábulos constantes nos poetas simbolistas que caracterizam o simbolismo brasileiro. Narciso Araújo não fugiu à regra. Palavras raras, então chamadas “peregrinas”, entram em circulação como se fossem moedas de valor e também salvação para o caso de se necessitar de uma rima. Há um papel em que Narciso enumera uma série de palavras contendo as mesmas rimas para uso na composição do soneto.

De tudo o que se pode aprender e apreciar neste poeta, cuja virtude essencial foi a modéstia e o fato de ter preferido a sua terra natal à agitação cultural de um centro urbano, fica o soneto (sem nome em Maria) que tem o título de “Condor” em O Cachoeirano e o de “Transfiguração” no livro Poesias:


Venho de tua casa e de ti trago
Toda a fragrância. Calmo céu se anila
Dentro de mim e lindo sonho mago
Enche minh’alma e, todo azul, cintila.

Vou perturbado e volto como um lago,
Depois de estar contigo. Uma tranquila
Esperança me vem do teu afago
E muda em bronze minha fraca argila.

Tu transformas em trigo o inútil joio,
O paul morto em cristalino arroio
E num gigante intrépido um pigmeu.

Vou ver-te em tua casa, mas, voltando,
Em remígios possantes o ar cruzando,
É um condor que volta, não sou eu.


[In Bravos companheiros e fantasmas: Estudos críticos sobre o autor capixaba. Vitória: Programa de Pós-graduação em Letras, Universidade Federal do Espírito Santo, 2006.]

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Luiz Busatto nasceu em Ibiraçu-ES, em 1937. Graduado em Letras, com cursos de especialização em Portugal (Teoria da Literatura e História da Literatura Portuguesa), na Itália (Filosofia), mestrado em Letras pela PUC/RJ e doutorado na mesma área pela UFRJ. Professor da Ufes e da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Colatina (1969-1983). É membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e da Academia Espírito-santense de Letras. Foi presidente do Conselho Estadual de Cultura (1993/4) e vice-presidente (1986/7). Tem várias obras publicadas, sendo um estudioso da imigração italiana. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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