4 Uma sombra na mão de João foi o que viu a cigana entre a linha da vida e o traço da morte. O dia estava quente, na ladeira do Pelour...

Excertos do livro O templo e a forca

1/08/2016 0 Comentários


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Uma sombra na mão de João foi o que viu a cigana entre a linha da vida e o traço da morte.

O dia estava quente, na ladeira do Pelourinho. A cigana interceptou-lhe a passagem, oferecendo-se para ler a sua sorte.

— Que sombra? - perguntou ele.

Ela bateu os olhos na meia-lua no alto do braço, marca branca cravada a fogo na carne negra, e mais que depressa respondeu, a sombra da guerra. Se dissesse a sombra de um frade ou a sombra da forca estaria prevendo uma verdade futura. Se dissesse a sombra de uma igreja não estaria longe da correta previsão que ao seu tempo viria. Mas o que ela disse foi a sombra da guerra, porque foi o signo da guerra que, impregnado em sua retina, seus olhos viram escorregar do braço de João até a palma da sua mão, onde pousou com as pontas maometanas no cruzamento da vida e da morte.

— Que guerra? — voltou a indagar João.

— Grandes guerras se apregoam, lá nos campos de Aragão — limitou-se a responder a mulher.

Palavras poucas, ouvidos loucos. Mas para bom entendedor meia palavra basta.

João se considerava bom entendedor de meias palavras, que dirá de uma frase por inteiro. Ainda que a cigana falasse simbolicamente de guerras apregoadas nos campos de Aragão, ele extraiu das palavras ouvidas o entendimento que desejava. Mas, nem sempre, ó João, para bom entendedor uma palavra basta, e uma frase por inteiro ainda é pouco, ao seu tempo se verá que esta é uma história de malentendidos e de palavras desavisadas que termina em dor, sofrimento e sangue.

Naquele instante, bastou-lhe, porém, o entendimento que colheu das palavras que tinha ouvido para não mais restar na palma da sua mão a sombra da guerra ou a sombra da dúvida, desencantadas pela quebra da revelação zíngara.

As guerras de Aragão eram as guerras do Recôncavo, isto estava claro para João. As guerras que se apregoavam nestes campos eram as que estalavam dentro e fora da cidade de Salvador, provocadas pelas hostes de Francisco Sabino, isto também estava claro para João. Se ele iria participar destas guerras, substituindo Antonim Lopes, filho de Antônio Lopes, seu proprietário, era o que João queria ouvir da cigana quando lhe abriu a mão aos olhos videntes, foi por isto que fez as perguntas que fez, que sombra, que guerra.

A possibilidade de ir combater no lugar de Antonim Lopes, convocado ao serviço das milícias imperiais, representava para João a perspectiva de se tornar forro, desde que voltasse aragonês são e salvo, desde que não morresse João no lugar de Antonim, nos campos de Aragão.

Mas apesar da previsão da cigana, entendida por João na forma como a entendeu, não houve tempo para que se fizesse soldado. Enquanto esperava que lhe chegasse às mãos, livres das sombras das dúvidas, a farda da liberdade, os rebeldes de Francisco Sabino foram sucessivamente batidos. Caiu o forte de Monserrate, caiu; caíram o de Barbalho e São Pedro, caíram; caiu a fortaleza do Mar. A paz voltou a reinar onde a guerra se apregoara.

— Não se deve acreditar na voz das ciganas — disse Marcelino de Santa Escolástica, a quem João contou seu desencanto com a profecia que tinha ouvido, na ladeira do Pelourinho.

Se a cigana tivesse visto a sombra de uma igreja, na palma da mão de João, ou a sombra de uma forca, no lugar do crescente maometano, talvez ele tivesse dado a devida importância às guerras que se apregoavam nos campos da sua mão.


35

[...]

O bacharel Antônio Pereira Pinto havia assumido o governo há poucas semanas em substituição a outro bacharel, Luiz Pedreira do Couto Ferraz, bacharéis era o que não faltavam ao Governo Central para dirigir as províncias brasileiras, havia aqui e ali um Luiz que se ia, e um Antônio que entrava.

O Luiz que se foi deixou, como herança ao Antônio que chegava, trancafiada na gaveta da mesa de jacarandá da sala dos despachos, no palácio do governo, que em tempos coloniais havia sido colégio dos jesuítas, uma maçaroca de cartas, bilhetes e abaixo-assinados contra frei Gregório de Bene e a igreja que ele realizava no Queimado.

Sobre o maço de papéis amarrados a barbante, um memorando, do bacharel que saía, informava ao bacharel que entrava: Digno sucessor, o povo da Serra cultiva o prazer da escrita até com certo louvor de estilo. Este enxame de fuxicos mostra que frei Gregório José Maria de Bene, capucho que erige uma igreja no Queimado, não é bem visto por muitos moradores do lugar. Nunca levei a sério o que li nestas chorumelas. Mas considero de minha obrigação e oficio deixar-vos a par do assunto para as providências que julgardes por bem adotar. Luiz Pedreira do Couto Ferraz.


36

Chorumelas?

Chorumelas, escreveu quem saía. Chorumelas? — indagou quem entrava.

Veio de Luiz a Antônio a expressão amarrada em barbante. Se assim foi deixada bem amarradinha era para que não se perdesse e chegasse a destino, da mão de Luiz à mão de Antônio. Para expressar este mano a mano de um bacharel que saía para um bacharel que chegava, talvez a palavra melhor indicada fosse baboseiras, ou talvez ninharias, ficou a pensar Antônio, do que lhe escrevera Luiz, depois de ler carta por carta, bilhete a bilhete, abaixo-assinado a abaixo-assinado, as baboseiras e as ninharias que se continham naquelas chorumelas, naquele aranhol de cochichos, no enxame de fuxicos como escreveu o ido Luiz para o vindo Antônio, ao qual legara a herança da atordoante questão, dar ou não dar importância ao enxame das chorumelas, levar ou não levar a sério o rol dos fuxicos, apurar ou não apurar a corda das choramingas, ouvir ou não ouvir o ronronar dos cochichos, desfazer ou não desfazer o barbante das baboseiras que encontrou Antônio na gaveta da mesa, na sala dos despachos do palácio do governo, arrumadinha maçaroca corrida a barbante deixada pelo Luiz que partiu, sem que nunca as tivesse levado a sério, mas que também delas não se desfez porque entendeu ser de sua obrigação e o ofício passá-las ao Antônio que chegava para as providências que julgasse por bem adotar.

Ora, pois, boa maneira esta de lidar com os cochichos, boa maneira de não dar valor a ninharias, de desprezar choramingas, de ignorar baboseiras, amarrando a barbante o enxame das intrigas, engavetando o zumbir dos fuxicos, deixando Luiz a Antônio a questão crucial de decidir o que fazer das chorumelas. Chorumelas?


43

A duras penas, alçou-se o sino.

A duras penas, terminada a missa, elevou-se o sino, suspenso pelas cordas, empurrado pelas mãos dos negros, trazido a duras penas do chão até o andaime. Puxa Zé Andiroba de um lado, empurra Elisiário do outro, levanta João, abaixa Chico Prego. É uma ascensão lenta e cuidadosa. Há os que o empurram a duras penas e há os que o sustentam a duras penas. Ergue-se e apóia-se, escora-se e prende-se. Avança o sino para o seu nicho de badalo mudo, só se ouvirá a voz retida na garganta deste bronze no dia da inauguração da igreja. Até lá, transporta-se um sino silente. Até lá, este silente sino permanecerá empoleirado como um pássaro mudo, no nicho que lhe for reservado, não há de soar este badalo antes da hora, não há de vibrar este bronze antes do tempo. Subi, sino, e ficai em quietude até o momento apropriado para os repiques primordiais.

Quando o sino chegou ao alto e ficou pendurado em seu posto, frei Gregório puxou um segundo viva ao padroeiro São José.

Foi aí que Zé Andiroba sentiu a dor repentina. Nem teve tempo de gritar. Levou a mão ao peito, esbugalhou os olhos, balançou o corpo no alto do andaime, desequilibrou-se e caiu. Se já caiu morto ou morreu da queda, espatifado contra as pedras, nunca se saberá. Mas a festa de benzimento acabou naquele instante.


46

Uma palavra vai, outra vem. Uma me serve agora, outra depois. Rapo, tiro, ponho e deixo, fazendo as pregações da mentira, rezando as orações da incerteza. Com palavras digo e não digo, insinuo suposições, tecendo subentendidos. Com elas faço meu jogo, monto malentendidos. Rapo, tiro, ponho e deixo. Digo que dou, sabendo que não posso dar. Digo que posso, sabendo que não poderei. Prometo sem ficar obrigado. Uma palavra vai, outra vem. Com palavras construirei a minha igreja, com subentendidos erguerei o templo de São José, com malentendidos pregarei as sugestões das impossibilidades. As palavras que proferi, à sombra das andirobeiras gigantes, não disse ao meu confessor, são frases de amargura e dor. Com elas ergo paredes. O teto subo com elas. Alço a duras penas o sino. Faço o altar-mor, armo o púlpito, dele reinará sobre os fiéis a coroa das orações incomprováveis. Falo para não ser entendido, prometo sem ficar obrigado. Rapo e tiro, ponho e deixo, semeio malentendidos. Este é o meu jogo, cativos. Eu, Gregório de Bene, indigníssimo servo de Deus, sou aquele que vai edificar sobre o verbo a casa do senhor São José, custe a João e a Chico a crença na liberdade, custe-lhes a vida na forca, custe a queda de um despencado, custe o badalar de um sino antes do chamamento das missas. Não venham pedir a mim, que não tenho olhos de zíngaro, que leia o funesto futuro, no fígado do espatifado. Não venham exigir de mim, que não tenho a intuição dos ciganos, que preveja o troar das pelejas, nas luas maometanas. Por São José não me peçam, que só tenho olhos no santo, que veja o vulto das forcas, na sombra das mãos dos negros. Eu, Gregório de Bene, sou servo do verbo que falo. Para construir minha igreja, faço de um jogo, palavras, ponho e rapo, tiro e deixo, sem ficar de boca torta. Uma palavra vai, outra vem. Qual a que vale, qual a que não vale, são peças de um quebra-cabeças. Falo para não ser entendido, prometo para não ficar obrigado. Os malentendidos que crio, não digo ao meu confessor. O que para mim tem valor é erguer a casa do santo, São José entronizado, os anjinhos a rezar. Para fazer esta obra, profiro palavras duras. Não hei de medir o verbo, não hei de poupar a carne, não hei de conter o sangue das mortes que daí vierem. São mortes que a Deus pertencem. Eu sou aquele que transformará verbo em pedras, que transformará verbo em sangue. As mortes que daí vierem, não digo a meu confessor. Faz parte da sina dos homens ouvir e guardar palavras. As palavras que proferi, João ouviu e guardou, Chico ouviu e guardou, foi-se Andiroba com elas, rompendo nas pedras o fígado. As palavras que Deus disse a Jó, Jó ouviu e guardou, e revelou ao Senhor o limite da paciência dos homens. As palavras que o anjo lhe disse, José ouviu e guardou, e conheceu, patriarca, a vinda do filho do Homem. Das frases que não me entortam a boca, tirem o significado possível, do malentendido do verbo, tirem a esperança dos sonhos, das insinuações proferidas, a alforria das cartas, e tirem a liberdade impossível, dessas palavras malditas.


55

Os minas, dizia-se, eram tão bravos que aonde não podiam chegar com o braço, chegavam com o nome.

Chico Prego esperou o tempo que lhe permitiu sua ansiedade.

No interior da igreja frei Gregório encerrou o sermão em brancas nuvens. A missa entrava no ofertório sem o anúncio da alforria.

Na sacristia, Elisiário mantinha-se quieto. Carlos tentou ouvi-lo mas Elisiário sinalizou para que esperasse. Não havia como saber se ele ainda tinha esperanças, se estava decepcionado com o silêncio do frei, se preparava um plano novo. Do lado de fora os cativos se agitavam, nervosos.

Corcunda avisou a João que alguns negros, ocultos nos matos, ameaçavam desabar sobre a igreja. A decisão se impunha.

Chico Prego esperou o tempo que lhe permitiu sua ansiedade. Depois, não se contendo mais, estourou a insurreição.

A partir daí seu nome se fez maior do que seu braço.


56

— Chega de esperar. Esta missa não vai acabar nunca. Viva a alforria! — gritou ele, ocupando a porta principal da igreja.

A algazarra explodiu em rastilho por todos os lados, escravos armados saltando dos matos, em delírio de liberdade, vibrando facões e disparando tiros.

Quando Chico saudou a alforria, João já estava colado nele, como sombra. Para os dois, os fiéis deveriam ser mantidos como reféns na igreja, até a proclamação da alforria. Era a maneira que viam para forçar frei Gregório a interceder pelos cativos, junto aos seus donos.

Dentro do templo, instalou-se o pânico. No meio do tumulto — mais tarde se diria que foi o sacristão José Pinto — alguém exclamou:

— Os negros estúpidos ficaram malucos!

— Santíssima Virgem! — secundou uma voz feminina.

— A porta da sacristia, Corcunda, barra ela para ninguém escapar — gritou João.

Mas a porta já estava sendo trancada às costas de Elisiário, que saía na direção de Chico Prego.

— Quem berrou alforria? — indagou, furioso.

— Eu berrei — disse Prego. — A missa se ia e eu ardia no desassossego. Gritei e está gritado. Chefe Elisiário quer debandar do comando?

Elisiário avaliou a situação rapidamente. Chico e João punham sua autoridade à prova. Não havia o que considerar. Com a velocidade dos atilados de espírito, recobrou o comando.

— Gritou está gritado. O jeito é agüentar o berro da liberdade — disse ele.

Neste instante, a porta da igreja foi fechada, por ordem de frei Gregório. Alguns escravos precipitaram-se sobre ela, socando-a.

— Alforria, alforria ! — gritavam.

Muitos dirão que foi loucura. Outros, temeridade. De minha parte considero obsessão, obsessão pela liberdade.


57

Gritei e está gritado, dissera Chico.

— Chefe Elisiário quer debandar do comando?

Perguntou, estava perguntado.

Não mais se pode sufocar esse grito, não há mais como tirá-lo do ar, não há como impedir que atravesse o seio das matas, que percorra o Queimado, que atinja as cidades, que estremeça a Província, que sacuda o Império. Eu, Chico Prego, gritei o meu grito, rompido do peito, trazido da África, para ser ouvido dentro e fora da igreja, bons ouvidos o ouçam. Meu grito gritado, guerreiros ouvi.

Grito eu à porta do templo, ô de casa, gritam guerreiros ao meu derredor, ô de casa, aonde não puder chegar o meu braço que chegue o meu grito. Grito porque não posso pedir, grito para que ousem me dar. A força deste grito o levará adiante de mim, adiante no tempo para ficar impresso na memória dos homens, irredutível e eterno. Não é um grito de dor, mas também não deixa de ser. Grito de alegria não é, mas também não deixa de ser, sendo o grito de liberdade que é, grito gritado que subirá às nuvens que anunciam a boa nova das lavouras de São José, boa nova também sendo o meu grito, proclamação de liberdade. Bons ouvidos o ouçam, ô de casa. Grito eu à porta da igreja, gritam negros ao meu derredor. São José no altar-mor tenha ouvidos para o meu grito-mor, no grito gritado conquistaremos a alforria, no grito exaltado cobraremos as promessas que nos foram feitas. Este grito é declaração de anseio, ô de casa, bramido de desespero, ô de casa, berro de luta, rugido de fera. Meu grito-mor, irredutível e eterno, é grito de morte, senhor São José. Não há mais como tirar este grito do ar. Gritei, está gritado.

Inconsistência e temeridade, eis as palavras que retornam aqui.


67

Sem rataplã foi o embate.

O encontro ocorreu no desfiladeiro João Ruço, na ladeira de Aroaba, que dava acesso ao terreiro de pai Aruanda.

Os guerreiros tinham deixado o terreiro de manhãzinha, para novos ataques contra as fazendas. Desde a madrugada a chuva cessara, mas as nuvens, sobre o Queimado, mantinham-se pesadas e plúmbeas. Boa lavoura do feijão prometiam as águas de São José.

Nenhum dos dois lados esperava o confronto naquele local. Os escravos vinham em grupos dispersos, guerreiros com guerreiros, na posição de subida, os soldados em fila indiana, a cavaleiro do inimigo, que pretendiam surpreender no terreiro de pai Aruanda.

Quando João da Viúva gritou olha a tropa, Chico Prego já tinha feito o primeiro disparo. A bala estropiou o braço do corneta, que clarinetava o alerta.

Na resposta dos soldados, que celeremente adotaram formação de combate, assestando as carabinas de cano longo nas forquilhas de apoio para a segurança dos tiros, seis guerreiros rolaram entre feridos e mortos.

Foi na segunda saraivada de balas que quatro praças rodopiaram de dor e o alferes Varela se sentiu atingido de raspão, na cabeça e na mão. Sob o fogo da tropa, morreram dois cativos, e Bastiana emborcou com o ventre rompido, entre João e Chico Prego.

Vendo-os se agacharem, contíguos e simultâneos, para socorrerem a mulher, alguns guerreiros pensaram que também eles tivessem sido abatidos.

— Mataram Chico e João — gritou um deles.

— Mataram Chico e João — voejou a má notícia.

Grandes mortes se apregoavam, tinha a cigana razão.


68

De suposta morte, morreu Chico, de morte inventada, João. Cai Bastiana no chão.

Ao seu lado se dobra Chico, abaixa com ele João, contíguos e simultâneos. Quem viu o que pôde ver, não viu o que aconteceu. Num erro de avaliação, bradou-se em falso pregão, mataram Chico e João. Cai Bastiana no chão. Ao seu lado se dobra Chico, abaixa com ele João, movidos da mesma atenção. Acudi, senhores guerreiros, cavaleiros da louca alforria, templários da desvairada cruzada. Acudam Chico e João. O nome de um voa ao vento, outro tem a lua no braço. Quem os viu assim agachados, templários e simultâneos, não viu o que aconteceu, bradou em falso pregão, mataram Chico e João. Foi-se o guia da alforria, a lua da insurreição. Geme Bastiana no chão. Acode-lhe, cavalheiro, Chico Prego, acode-lhe, cavalheiro, João, contíguos e simultâneos.

Nenhum de chapéu na mão.

Nenhum de chapéu na mão para o gesto das elegâncias à abatida guerreira, nenhum deles socorre a mulher na educada mesura das cerimônias de lã, não é o momento para o galanteio das curvaturas bem intencionadas, não é o momento para a lisura dos procedimentos fidalgos, para o guapo soerguimento de quem tombou como se tivesse perdido o pé de um estribo de prata, há no chão de campanha uma negra que pare do ventre rompido o sangue da alforria, esta mulher que emborcou e caiu não se levantará jamais da sua queda, tem a morte cravada nas vísceras estremecidas.

Cai Bastiana no chão, acode-lhe o cavaleiro João, acode-lhe o cavaleiro Chico Prego, contíguos e simultâneos. Mas o cavaleiro a quem Bastiana dará a mão virá das sombras que escapam à visão de Chico, que fogem à percepção de João, trazendo na mão o chapéu com a pluma da noite que estenderá sobre o ventre derramado em sangue, deste ventre sucumbido nascerão as mortes apregoadas nos campos de Aragão, destas vísceras estremecidas nascerá a morte de Chico e João.

Mas não ali. Não ali, diante das carabinas enforquilhadas que derrubaram Bastiana, não será dessas forquilhas que morrerão João e Chico Prego, a morte que será a deles está além dos campos de Aragão, além da sombra da pluma que se estende sobre um ventre vazado em sangue, além do pregão da morte imaginada que lhes foi atribuída num erro de observação, além do alcance das vidências ciganas que, na ladeira do Pelourinho, rondaram a mão de João, além das irrespondíveis perguntas, que sombra, que guerra?

Cai Bastiana no chão. Quem viu o que pôde ver, não viu o que aconteceu — gritou em falso pregão, mataram Chico e João.

Morreu a insurreição.


80

Com quantos paus se faz uma forca?

A questão me intriga.

Não será uma forca pequena, mas um cadafalso exemplar, visível à distância.

Imagino-me a separar os paus para a obra, um-dois, dois-três, três-quatro, escolhidos a dedo. Estes, que são roliços e grossos, reservo ao sustento da forca. Aqueles, que são planos e lisos, tomo para os degraus da escada, o alçapão e o tablado. Um, que vejo mais reto e ereto, destino à empertigada função de mastro da morte. Outro, que é grave e tacanho, usarei para suster a corda e seu laço, miserável destino o deste morão mudo e surdo que nasceu para servir de lenho dos enforcados, não me há de fraquejar este barrote no momento da suprema agonia dos condenados, não me há de estalar este braço de morte no momento em que a morte vibrar em seu braço maneta, não me venha a vergar nem gemer esta barra surda e muda nos estertores finais dos desgraçados que irá sustentar. É justamente ali, em sua extremidade maneta, que se atrelará a corda e seu laço, é justamente ali que residirá o ponto do imperfeito equilíbrio entre a vida e a morte, é ali que se conhecerá a imperturbável fortaleza da forca sob o peso dos mortos-vivos, é ali que se terá a demonstração de exemplo e firmeza da obra realizada com as fibras da lei, escolhidas a dedo.

Para chegar a esse ponto inflexível e mortal, separo os paus necessários, um-dois, dois-três, três-quatro, uns roliços e grossos, outros lisos e planos. É para esse liame entre a vida e a morte que volto a minha atenção quando cravo no chão os pés robustos da forca. A ele dirijo o meu pensamento quando prego os degraus da escada, quando assento o estrado de tábuas com seu alçapão removível, quando aprumo o mastro da caravela da morte, visível à distância, quando estendo no ar, solitário e fatal, o barrote que, não tendo nascido torto, servirá de suporte à gargantilha dos enforcados. Foi para construir esse ponto final, ainda inexistente e remoto, mas que já vejo destacado no ar, à sombra das andirobeiras gigantes, que me fiz o carpinteiro que serra e que corta, que junta e que prega a madeira da lei e do rei, com os pregos para pregar um Prego e um João no extremo da morte edificada. Para essa construção hedionda dei-me a esta obra. À sua execução, ofereci os meus préstimos e a minha caixa de imaginários formões. A quem perguntar qual é a minha graça, darei o meu nome e declinarei meu ofício, seu criado obrigado.


81

Com quantos palmos se mede uma forca?

Agora, que disponho dos paus, é medi-los e cortá-los na dimensão da justiça do rei.

Meço em gestos sucessivos, do polegar ao dedo mínimo, um-dois, dois-três, três-quatro, os vinte e dois centímetros que formam a medida dos palmos da mão aberta, em movimento corrido sobre a face do material que reuni para a obra da forca. Já me doem os costados na posição encurvada em que me dobro sobre a madeira da lei. Se me valesse da medida das polegadas seria ainda mais demorado o trabalho desta carpintaria sofrida, que tem São José por contramestre e os anjinhos a rezar. Se me valesse da medida dos pés, por certo caminharia mais ligeira a preparação dos madeiros do rei. Mas, já que antes me apliquei a construir uma igreja marcada a palmos no chão do Queimado, é com a mesma métrica da mão espalmada que farei a medição das barras patibulares à minha disposição, roliças e planas. Se Zé Andiroba não tivesse caído de onde caiu, nem rompido o fígado nas pedras, estaria ao meu lado para me instruir nos segredos de sua arte carpinteira, e iniciar-me no risco das réguas e no traçado das plainas, corrigindo-me os defeitos da mão canhestra e as falhas do pensamento. A imperfeição do trabalho que faço não teria a imperfeição do trabalho que está sendo feito. A forca que deixarei erguida à porta da casa de São José, padroeiro da morte serena, terá um defeito insanável e grosseiro, que não consigo evitar — mais parece um altar.

[O templo e a forca. ]

Luiz Guilherme Santos Neves (autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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