TETRA Tetra apareceu na ordem que lhe cabia, minha quarta visitante. Do signo de Beemote, que torna as mulheres românticas, chegou, torre ...

Excertos do livro A torre do delírio

1/08/2016 0 Comentários

TETRA

Tetra apareceu na ordem que lhe cabia, minha quarta visitante. Do signo de Beemote, que torna as mulheres românticas, chegou, torre adentro, numa carruagem puxada por um cavalo bardo que, com voz trovadoresca, declamava versos de Fernão Ferreiro:

Domar com olhos abertos e sal na boca,
luzir até as raias do infinito.

Em dueto, Tetra completava com voz de sonata renascentista:

Alçar todos os céus em alto grito.

Quando me dei conta, ei-los diante de mim, corcel e dama, amigo e amiga, ela sentada no banco de veludo da carruagem cujas lanternas piscavam imitando vagalumes descomunais. Coberta de véus com as cores do espectro, tinha à cabeça uma coroa de madressilvas.

Aproximou-se de mim distinta e campestre, quase vaporosa. Ao recebê-la lembrei-me que havia lido, alhures, a particularidade das mulheres do seu signo: "Eis que sua força está nos seus lombos, e o seu poder no umbigo do seu ventre." No momento certo pude comprovar esta verdade recôndita ao massagear-lhe o dorso e tocar a miniatura de umbigo, ante o olhar comparsa do cavalo bardo.

A reação de Tetra foi imediata: primeiro, pôs-se a gemer baixinho, afundando em si mesma, os olhos amiudados, o corpo trêmulo; depois, com imprevisto vigor, acavalou-se sobre mim e cavalgou um orgasmo que reverenciava deslumbrada, dizendo, que longo, que longo.

Quando terminou recompôs-se recatada e erigiu-se coberta dos sete véus iridescentes. Com movimentos dignos entrou na carruagem, sentou-se no banco de veludo nobre e partiu na direção das campinas matinais, no país das noruegas, conduzida pelo cavalo bardo que escandia versos com voz trovadoresca.


OCTÔ

Octô me recordava as mulheres obesas pintadas por Rubens. Do signo de Esfinge, surgiu com seu corpo em 8, as carnes fartas além e aquém da cintura, equador abaixo e acima do qual não havia pecado. Seus seios eram opulentos, os braços nédios. Nas coxas de Octô balançavam-se pregas em alto relevo, brancas e quentes, tão quentes — contava-me ela em meio a gargalhadas cínicas — que muitos homens as preferiam como vagina, dada a dificuldade de acharem a própria, perdida no seu baixo ventre. Esta dificuldade aumentava devido ao famigerado hábito das mulheres de Esfinge de buscarem o orgasmo em três diferentes posições, nas três diferentes horas do dia: pela manhã, quando se põem de quatro como potras selvagens; ao meio dia, quando ficam de pé; e à noite, quando de tripé, posição conhecida apenas pelas nascidas em Esfinge, nem sequer mencionada no Kama Sutra.

Esfinge é signo de mulheres temperamentais e inventivas cujo furor sexual explode em vagas que chegam a ser atemorizantes.

Octô honrava este signo de explosões famélicas. Veio à minha torre de marfim porque conhecia a minha habilidade em lhe proporcionar prazer no local adequado, acima das grossas rugas que tinha nas coxas. Enquanto se agitava debaixo de mim como um terremoto Octô propunha-me enigmas.

Iniciava com adivinhações ingênuas, do tipo o que é, o que é, que sai de casa para fazer barulho no mato ou vice-versa. Eu entrava neste jogo de alegres adivinhas, que a estimulava, e dizia, não sei, não sei. Octô se matava de gozo, levando-me numa vertigem.

— Agora, outra, decifra: olho para os lados, tenho dois olhos; olho para trás, tenho mil olhos; olho para a frente, estou cega. Vamos, veja se mata. — desafiava-me a incompetência.

— Não sei, não sei — e realmente não sabia.

— O presente, o passado e o futuro — berrava-me em nova borrasca de prazer.

— Vamos a outra — recomeçava, infatigável. — No centro da roda, a roca; no centro da roca, a roda. Mata, mata esta.

Ou eu acabava com aquele sismo de voracidade ou ele acabaria comigo.

— O nada absoluto — arrisquei, inventando a resposta.

Octô despedaçou-se nos meus braços como se tivesse caído de um precipício. — Liquidei a Esfinge — pensei, recordando o mito. Só me resta matar meu pai, casar com minha mãe e vazar os olhos.


FRANCINA

O círculo de gelo que envolvia Francina era emblemático: simbolizava seu signo, Uroboros, "a serpente que morde a própria cauda", sem princípio, sem meio e sem fim.

As mulheres deste signo são ensimesmadas e cheias de soberba. Amam a reclusão e o silêncio. O círculo de gelo que as cerca, como os anéis a Saturno, significa isolamento. Neste isolamento vivem, porém, inquietas e esquivas, inclusive sexualmente, relutando em se realizar com plenitude.

Se não me agradava a visita de Francina, não me aborrecia por completo. Havia nela um quê de permanente desafio que me atraía, que me atiçava o desejo de varar-lhe os dardanelos, de lhe romper o anel protetor, introduzindo nele um começo e um fim, levando-a a conhecer os despenhadeiros de si mesma. Por isto lhe dei espaço no meu leito e passei a despi-la com dedos sábios.

Despertada em anseios, ei-la que cede. Mas repete-se o círculo vicioso: quando lhe pego as mãos me dá os seios; se os acaricio, me oferece o ventre; se o roço com meus lábios, me expõe o sexo; quando dele começo a cuidar me vêm em seu lugar as coxas. Em pouco, eu que principiei pelas mãos estou saindo pelos pés nesta inglória relação amorosa que termina sem pé nem cabeça.


ELLE

O duplo é o igual e também o desigual, jamais o irmão gêmeo. A imagem refletida no espelho não é o duplo porque é contrafacção e toda contrafacção é distorção — precisa ser conferida com monóculo sendo necessário tirar-lhe a impressão de cada dígito para atestar a exatidão por veredito. A imagem reproduzida no caleidoscópio pode ser miragem, cintilações do ópio, refulgência, mas também não é o duplo.

O duplo não se mostra, se disfarça, mas quando não se disfarça apenas se entremostra, insistindo em passar por um só, por ele mesmo. Perguntem-lhe, de repente, quem sois? e talvez se traia, respondendo, eu ou eu. O mais certo, porém, é que responda, sou eu e mais ninguém, querendo dizer com isto, eu sou um, eu mesmo, o mesmo. Esta resposta pode ser meia verdade, escamoteação ou mentira por inteiro, dependendo do ponto de vista ou do ponto de fuga e até do horizonte das estrelas. Mas é bom retê-la para posterior confirmação.

Há duplos que partem sozinhos, ímpares, à procura de si mesmos; navegam mares, ultrapassam terras, viajam ventos. Outros se encontram nas curvas dos meridianos, recompondo elos, ou vagam, errantes e incompletos, pelos paralelos. E há os que são múltiplos, como os heterônimos do poeta, num só Pessoa, vários desdobramentos.

Dos duplos, muito se pode falar mas o que aí está basta. É bom começo, muito mais do que mereço. Exceto que faltou dizer, para melhor desfecho, que os genuínos duplos, seres binários, são do signo de Duplo no livro dos signos imaginários.

Assim, ao me dar conta, minha nova visitante estava no meu leito. Suas coxas eram lisas e firmes, os seios miúdos, o cabelo cortado rente, o sorriso circunspecto. Ao chegar, nada falou pois a eloqüência havia sido afogada no rio vítreo das palavras e não se devia quebrar a mudez da madrugada.

Com pés róseos na aurora leve subiu-me ao leito como nauta que entrasse na caravela Glória, em recatada nudez. Deitou-se junto a mim, discretamente, e iniciamos a circunavegação de nossos corpos, guiados pelos astrolábios e ao som dos hinos. Só então percebi, tocando-lhe o androceu, que era masculino.

[Torre do delírio]

Luiz Guilherme Santos Neves (autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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