Na terceira década do século XVI, depois da chegada dos portugueses ao Brasil, D. João III, rei de Portugal, para viabilizar a administraçã...

Histórico - Vila Velha


Na terceira década do século XVI, depois da chegada dos portugueses ao Brasil, D. João III, rei de Portugal, para viabilizar a administração da nova colônia americana, dividiu-a em capitanias hereditárias que seriam doadas a homens de sua confiança, geralmente fidalgos, militares ou pessoas de recursos.

Em 1534 Vasco Fernandes Coutinho, nobre português, recebia daquele mesmo monarca a carta de doação e o foral da sua capitania no Brasil, embarcando, no ano seguinte, na nau "Glória" para tomar posse de suas terras. Em 23 de maio de 1535 aportou no local hoje denominado Prainha, na atual cidade de Vila Velha, que ali fica entre os morros da Penha e Inhoá. Como acompanhantes, Vasco Fernandes Coutinho trouxe um grupo de sessenta colonos, entre os quais se encontravam dois nobres bastardos, dom Jorge Meneses e dom Simão Castelo Branco, que vinham cumprir pena de degredo no Brasil.

Com a chegada dos portugueses foram levantadas as primeiras moradias e e foi iniciada a construção de uma capela que daria origem à igreja de Nossa Senhora do Rosário, passando os colonos a se dedicar ao cultivo da terra, ao plantio da cana-de-açúcar e à construção de engenhos. Estabelecia-se, assim, a primitiva vila do Espírito Santo (mais tarde Vila Velha), que por quinze anos seria sede da capitania do mesmo nome.

As dificuldades encontradas nos primeiros tempos e o reduzido número de colonos com que contou o donatário constituíram obstáculos à expansão da colonização, o que levou Vasco Fernandes Coutinho a viajar para Portugal em busca de mais homens e de mais recursos para a sua empreitada colonizadora. À frente da administração deixou dom Jorge Meneses, como seu substituto, isso em 1539. A administração de Jorge de Menezes foi desastrosa, principalmente pelo tratamento violento que dispensou aos índios, na luta contra os quais acabou morrendo.

Quando Coutinho retornou de Portugal — em 1547 para alguns e 1549 para outros — encontrou sua capitania quase destruída. Grande parte dos colonos, para fugir aos ataques indígenas, havia se transferido para a ilha que o donatário tinha doado em sesmaria, provavelmente em 1536 ou 1537, ao fidalgo português Duarte de Lemos. Nessa ilha, Coutinho erigiu, em 1550, a nova sede de sua capitania, dando-lhe o nome de vila de Nossa Senhora da Vitória. Com essa transferência de sede, a vila do Espírito Santo ficou entregue aos poucos colonos que nela permaneceram associados aos índios que foram pacificados, sendo supervisionada pelo próprio donatário. Toda a vida administrativa da capitania capixaba se desenrolaria, a partir de então, na vila nova da Vitória.

Em 1558 aportou, na Prainha de Vila Velha, o frei Pedro Palácios, irmão franciscano (leigo) natural de Medina do Rio Seco, Espanha, trazendo o painel de Nossa Senhora dos Prazeres. Frei Pedro foi o responsável pela construção, poucos anos depois, de uma ermida no alto do morro da Penha, e pela encomenda, que fez a um emissário que seguia para Lisboa, de uma imagem de Nossa Senhora que daria origem no Espírito Santo ao culto a Nossa Senhora da Penha.

A construção do convento, feita por etapas, recebeu acréscimos e reparos ao longo dos séculos, até se transformar no monumento religioso mais importante da arquitetura histórica do Estado do Espírito Santo.

Desde a mudança da sede da capitania para a ilha de Vitória a vida na antiga vila do Espírito Santo (Vila Velha) se reduziu, no período colonial e mesmo durante o período provincial de nossa História, a ocorrências esporádicas que se desenrolaram em torno da igreja de Nossa Senhora do Rosário e do Convento da Penha. Dentre essas ocorrências merecem registro os ataques dos holandeses contra as fazendas de açúcar de Vila Velha, no século XVII, e a tentativa fracassada de saquear o convento, o que deu origem à lenda do exército de Nossa Senhora que os holandeses viram descendo das nuvens para salvar o santuário. Baseado nesta lenda, o pintor Benedito Calixto fez o quadro que se acha exposto na galeria do convento, junto com outros de sua autoria, tendo por motivo temas ligados às tradições daquele monumento histórico.

No século XVII, o donatário Francisco Gil de Araújo, que adquiriu a capitania do Espírito Santo a um dos herdeiros de Vasco Fernandes Coutinho, construiu, em Vila Velha, na praia de Piratininga, o forte que tem este nome, e que foi consagrado a São Francisco Xavier, razão pela qual é também conhecido pela denominação de forte de São Francisco Xavier da Barra. Para alguns autores, o forte de Piratininga, ainda hoje existente em área ocupada pelo 38° Batalhão de Infantaria do Exército, foi edificado em um sítio que, devido à sua posição estratégica, se prestou à defesa da capitania desde os tempos de Vasco Fernandes Coutinho.

No século XIX, Vila Velha mereceu referências especiais dos viajantes que por ali passaram, dentre os quais, o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, o príncipe alemão Maximiliano, o bispo José Caetano da Silva Coutinho e até do imperador do Brasil D.Pedro II. Na sua visita à Vila Velha, no ano de 1860, o imperador se fez acompanhar da imperatriz D. Teresa Cristina. D.Pedro II subiu ao convento da Penha e deixou registrado, no seu diário de viagem, a impressão que teve do magnífico panorama que se vê lá do alto.

Em 30 de novembro de 1896, por força da Lei Estadual n° 212, o distrito de Vila Velha foi elevado à categoria de município.

Em 21 de abril de 1931, o município de Vila Velha foi incorporado ao de Vitória, pelo Decreto Estadual n° 1.102, permanecendo nessa condição até o ano de 1938. Em 1943, houve nova anexação ao município da capital do Estado, do qual Vila Velha se desvinculou somente em 1947. Em 31 de janeiro de 1959 foi oficializada, por meio da Lei Estadual n° 479, a denominação Vila Velha para a antiga vila do Espírito Santo, berço da colonização portuguesa em terras capixabas.

Até os anos 60, do século XX, a população da cidade de Vila Velha mantinha ligação estreita com a cidade de Vitória. Isso porque grande parte da população morava em Vila Velha, ou em alguns distritos do município, e trabalhava ou estudava em Vitória. Essa situação sofreu uma mudança muito grande a partir da intensa transformação urbana por que passou Vila Velha nas últimas décadas do século XX, notadamente nos bairros da praia da Costa e da praia de Itapoã, além da própria expansão econômica que o município conheceu, que tem na fábrica de chocolates Garoto um dos seus marcos mais importantes.



Vila Velha — sede da capitania do Espírito Santo


A atual cidade de Vila Velha foi a primeira povoação fundada pelo donatário Vasco Fernandes Coutinho no Espírito Santo. Nasceu como vila com o nome de Espírito Santo, o mesmo que o donatário deu às suas terras no Brasil. A vila do Espírito Santo foi sede da capitania de 1535, ano da chegada de Vasco Fernandes Coutinho, até 1550, quando ele fundou a vila de Nossa Senhora da Vitória. Nesses quinze anos verificaram-se alguns acontecimentos decisivos para a colonização das terras capixabas. Dentre eles, podem ser citados os seguintes: a construção das primeiras moradias para os colonos; a edificação da capela que originou a igreja de Nossa Senhora do Rosário, na prainha de Vila Velha; a doação de sesmarias, que eram terras para serem cultivadas pelos colonos que vieram com Vasco Fernandes Coutinho; o início da plantação da cana e da produção da açúcar no Espírito Santo. Nessa fase também se deu o primeiro contacto do colonizador com os indígenas locais. A necessidade que os portugueses tiveram de utilizar o índio para o trabalho das lavouras em geral e especialmente as da cana, além da produção do açúcar, fez com que a convivência entre os portugueses e os índios se tornasse belicosa. Os índios reagiram à pretensão do branco de usá-los como mão-de-obra nessas atividades. As guerras entre os dois lados se tornaram freqüentes, obrigando os portugueses a erguerem fortificações contra os ataques indígenas. Nas lutas travadas, ocorreram baixas de parte a parte. Jorge de Menezes e Simão de Castelo Branco, dois degredados que Vasco Fernandes havia trazido na sua expedição, morreram nesses combates. Esta situação chegou a pôr em risco a continuidade da colonização no Espírito Santo, exigindo esforços redobrados de Vasco Fernandes Coutinho para superar as dificuldades por que passou a sua capitania.

Três outros acontecimentos merecem ser referidos enquanto a sede da capitania foi a vila do Espírito Santo. São eles: o início da exploração das terras capixabas próximas ao litoral, dado o interesse que Vasco Fernandes Coutinho tinha de fazer o reconhecimento territorial de seus domínios, principalmente com o objetivo encontrar esmeraldas e minas de ouro, o que levou os portugueses à exploração da ilha de Santo Antônio, onde depois seria edificada a vila de Vitória; a chegada ao Espírito Santo do fidalgo Duarte de Lemos, trazendo mais colonos e recursos novos; e a fixação dos limites entre a capitania capixaba e a de São Tomé ou Paraíba do Sul, por acordo feito entre Vasco Fernandes Coutinho e Pero de Góis, donatário de São Tomé.

[texto produzido especialmente para o site Estação Capixaba.]

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Luiz Guilherme Santos Neves (autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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