Dirceu Cardoso …Foi no setentrião do nosso Estado, na terra generosa de São Mateus, lá nas margens do Cricaré, “atapetadas de balsedos...

Homem de pensamento e de ação


Dirceu Cardoso


…Foi no setentrião do nosso Estado, na terra generosa de São Mateus, lá nas margens do Cricaré, “atapetadas de balsedos” – como ele sempre referia – que foi buscar a cepa e a matriz que deu ao nosso Estado dois governadores ilustres, homens insignes. Foi lá em São Mateus, naquele chão amigo, que nasceu Graciano Santos Neves, primeiro governador da era republicana eleito em 1896. Um ano depois renunciou ao mandato para não ceder à pressão do elogio barato das zumbaias e dos salamaleques. Cinqüenta anos após, é na terra de São Mateus que o Espírito Santo vai buscar a figura notável, sob todos os títulos, de Jones dos Santos Neves, cuja memória hoje reverenciamos. É nessa terra de gente independente e brava que nasceu este grande filho do Espírito Santo. Homem de pensamento e de ação, homem que pensava para agir e agia depois de pensar.

Tivemos a ventura de ser seu líder na Assembléia Legislativa e de conhecê-lo no momento em que era governador. E pudemos saber o que ele pensava, e quanto sua visão atingia os horizontes do amanhã e o quanto de grandeza ele sonhava para o seu pequenino e querido Espírito Santo. Foi o homem que, na cordilheira dos valores humanos que governaram nosso Estado – como ele apenas conhecemos Jerônimo Monteiro – realizou a reforma fundamental do seu Governo, a reforma da instrução e da educação no Estado, que roubou aos políticos a ingerência na vida da professora. Foi ele quem fez a reforma alta e justa da educação do Estado do Espírito Santo.

Conheci-o quando, cheio de sonhos e fremente de entusiasmo, ia verificar, no sul do Estado, os índices Califórnia da estrada que ele construiu à mão e à carrocinha, e que foi a base da 101 que hoje percorre o Estado do sul para o norte. Foi ele que rasgou a terra para a construção dessa estrada. Foi dos primeiros governadores – mesmo com um orçamento pobre, minguado – a revestir aquela terra querida das primeiras capas de asfaltamento levadas a efeito no Brasil. Foi ele ainda que, com os minguados recursos do nosso Estado, realizou o seu programa de Governo, aproando o Espírito Santo para o amanhã, para o futuro. Ele construiu a Usina Hidrelétrica de Rio Bonito e o sistema de Santa Maria, em Santa Leopoldina, e foi ele que traçou, construiu e realizou aquele programa energético que hoje a Escelsa passou para o domínio da Eletrobrás, para formar a infra-estrutura de industrialização do Estado. Foi portanto Jones dos Santos Neves o homem que construiu as grandes estradas e que iniciou o asfaltamento delas. E foi Jones dos Santos Neves que construiu a grande hidrelétrica com recursos pequenos do nosso Estado, amealhados sabe Deus com que sacrifício e com que parcimônia. E foi ele ainda que fundou a Universidade do Espírito Santo, onde mais de cinco mil alunos cursam os seus diferentes institutos, numa demonstração de que tinha o coração voltado para a mocidade, em cujos braços ele ia entregar o Espírito Santo do amanhã. Além disso, muitas vezes, ao entrar no seu gabinete, eu o surpreendia de binóculo, vendo as obras do pequeno porto de Vitória, esse pequeno porto que, hoje, a Vale do Rio Doce agigantou, tornando-o, com a construção de Tubarão, o maior porto de exportação de minério da América e um dos maiores do mundo. Jones dos Santos Neves sonhou a implantação desse porto de exportação; foi ele quem sonhou a porta de entrada e o corredor de exportação, que o Governo Federal hoje apregoa pelo Brasil afora. Foi aquele moço que só teve um senão: ter sido governador de um pequeno Estado, porque, se tivesse sido governador de um grande Estado, Jones dos Santos Neves teria sido um dos grandes brasileiros do seu tempo, reconhecido pela Pátria inteira, e não somente pelo povo do nosso Estado.

Há ainda um traço característico de Jones – político, interventor na época de todos os poderes, governador eleito e senador da República: foi homem que jamais guardou ressentimento de ninguém, nunca perseguiu ninguém, nunca fez mal a ninguém. A todos os gravames e gilvazes que sofreu em sua vida, a todos ele respondeu sempre soberana e cristãmente com seu perdão.

Nos últimos meses da vida de Jones, ele me confessou que o que mais o orgulhava não era ter reformado a educação, não era Ter construído estradas e Ter iniciado o seu asfaltamento, não era Ter iniciado a construção das usinas hidrelétricas que possibilitariam a industrialização do nosso Estado, não era preparar o porto para a grande situação a que a Vale do Rio Doce hoje conduziu o Porto de Vitória. Era Ter sido o fundador da Universidade do Espírito Santo. Estas palavras são a grande homenagem dele à mocidade do meu Estado.


[Trechos de pronunciamento na sessão de 22 de março de 1974, na Câmara dos Deputados.]

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