Na História da Literatura Espírito-santense Afonso Cláudio registra que o padre Antunes de Siqueira deixou impressos os seguintes trabalhos...

Importância da obra

Na História da Literatura Espírito-santense Afonso Cláudio registra que o padre Antunes de Siqueira deixou impressos os seguintes trabalhos: Poemeto descritivo sobre a província do Espírito Santo, editado em Vitória, no ano de 1884, Tratado sobre a Ortografia e Tratado de Sintaxe Latina, ambos de 1887, Alocução comemorativa da extinção da escravidão no Brasil, de 1888, Alocução dirigida ao Bispo D. João Néry, de 1897. E de se notar que, neste apanhado das obras impressas do padre Antunes, Afonso Cláudio não incluiu o Esboço Histórico dos Costumes do Povo Espírito-santense, desde os tempos coloniais até os nossos dias, editado em 1893. Ele menciona outras obras relacionadas no artigo de Amâncio Pereira no Comércio do Espírito Santo de dezembro de 1897 (no qual se baseou), que também registra o Esboço histórico, importante obra do padre e escritor então recém-falecido.[ 65 ]

João Calazans em Notícia Breve sobre o Padre Antunes, publicada junto com a segunda edição do Esboço Histórico, informa que Capistrano de Abreu e Basílio de Magalhães colheram nesse livro “elementos sugestivos”, e que Gilberto Freire cita a obra do padre diversas vezes no seu clássico Casa Grande & Senzala. Nesse último livro as citações são várias e referem-se mais aos métodos de ensino antigo e a alguns costumes populares expostos pelo padre Antunes em seu Esboço Histórico.

Se impressas há mais tempo como obra avulsa as Memórias do Passado teriam sido úteis também para enriquecer trabalhos de uma vasta gama de estudiosos. Mas a historiadora Maria Stella de Novaes, que pesquisava muito nos jornais da Biblioteca Pública Estadual, consultou amplamente estes escritos. As Memórias do Passado subsidiam, pelo menos, três de suas obras. Pode-se citar sua descrição da festa das Onze Mil Virgens,[ 66 ] com toda evidência retirada deste trabalho do padre Antunes e que ela consigna em nota como baseada em “crônicas dos jornais antigos e relatos de velhos capixabas”. Num outro texto de Maria Stella de Novaes denominado O Teatro no Espírito Santo a historiadora transcreve, de maneira resumida, passagens sobre a arte dramática em Vitória constantes nas Memórias do Passado mescladas com outras passagens do Esboço Histórico e as atribui ao padre Antunes de Siqueira. O que de certa forma vem robustecer os argumentos antes enumerados quanto à autoria do texto ora analisado, dada a sensibilidade e conhecimento da ilustre pesquisadora capixaba sobre documentos e fatos da história espírito-santense.[ 67 ] Na obra Medicina e Remédios no Espírito Santo existem citações de trechos das Memórias do Passado, sem indicação da fonte onde foram colhidos.[ 68 ]

O escritor Elmo Elton valeu-se da obra antes citada de Maria Stella de Novaes ou consultou as Memórias do Passado para, por exemplo, descrever a pitonisa Vitória Bibi e seu arroz do Sacramento.[ 69 ]

Numa comparação geral entre essas duas obras do padre Antunes de Siqueira, as Memórias do Passado e o Esboço Histórico, pode-se concluir que o peso positivo maior pende para a primeira, devido a fatores diversos. As Memórias são mais completas e diretas, entre outras causas, pelo anonimato do seu autor, como já antes asseverado. Embora as obras sejam, em certo sentido, complementares, as Memórias do Passado descrevem com maior minúcia fenômenos do folclore e da história locais e nesse sentido são superiores como documento para a constante elaboração da nossa história. Já no Esboço histórico, a primeira parte e boa porção da segunda são dedicadas a demonstrar a erudição do velho educador: e um raconto de toda a história da humanidade desde Israel, Roma da antiguidade até a existência da capitania e província do Espírito Santo, passando por Licurgo e pela transformação dos seres e as verdades do evangelho… O trecho da segunda parte que principia justamente na descrição da festa das onze mil virgens e vai até o tema sobre cultura musical é, a meu ver, o mais valioso para a historiografia capixaba porque fala dos costumes do povo espírito-santense, tal como conhecidos pelo autor. Este trecho constitui-se numa espécie de resumo das Memórias do passado, bem mais contido e policiado, já que se trata, agora, de um livro erudito, de autor conhecido e fruto de toda uma vida de educador; com tiradas bem moralistas. A última parte do Esboço histórico é relativa à situação estadual quando de sua edição e peca pelas limitações da visão política do autor, além de ser muito encomiástica aos poderosos do momento, mesmo sendo o padre Antunes amigo deles de longa data. O próprio autor das Memórias do passado distingue as informações que presta como de primeira ou de segunda mão sendo, portanto, de uma modernidade surpreendente. Alguns relatos recebidos de forma indireta estão registrados, como nesta passagem no início do artigo 14:

Citação Vou falar dos hábitos, vestuários, costumes, educação e práticas do célebre tempo dos governadores. Farei para reviver essas tintas, já tão apagadas, e, se não copiar fielmente os traços, o leitor releve essa falta, que é aliás perdoável. Depende de grande esforço, pois devo declarar, se não o sabem, que o primeiro presidente que conheci foi José Tomás Nabuco de Araújo […] Já se vê que vou repetir o que ouvi de certa roda, e talvez aproveite… Estava eu então no mundo dos possíveis…”

Já a descrição do alardo na Barra de São Mateus (hoje Conceição da Barra), por exemplo, é mencionada no artigo 19 com base em observação direta do autor: “Em 1872 presenciei na vila de Barra de São Mateus uma cerimônia sacro-profana […]”.

As Memórias do passado, em que retrata de modo vivo o povo capixaba e dá um testemunho fidedigno dos seus usos e costumes, fazem o padre Antunes de Siqueira pioneiro nos estudos de história e folclore espírito- santenses. Conceder-lhe tal pioneirismo não significa ignorar os seus discursos conservadores, laudatórios, apologéticos (não esqueçamos que foi um orador sacro respeitado na época) e os seus preconceitos, já que em algumas ideias e comportamentos ele não conseguiu superar as limitações do seu tempo. E quem consegue?

Sabemos que uma imagem vale mais que mil palavras. Devemos saber também que, se bem formuladas, palavras formam imagens que podem ser potencializadas pela imaginação histórica, componente essencial da recriação dessa ciência social. As palavras contidas nas Memórias do passado, referentes a uma época em que os documentos iconográficos são escassos, valem por mil imagens, ajudando a reconstituir um significativo momento histórico da capital capixaba e a conhecer “os costumes do povo espírito-santense”.

O frescor que emana do texto ora analisado está bem exemplificado quando o seu autor refere-se aos tipos populares da Vitória de sua época, às brincadeiras das crianças, às peças teatrais que então eram representadas, ao lundu e seus “movimentos obscenos”, ao uso do rapé, ao preconceito contra os judeus, à sua participação quando jovem nas comédias, às vestimentas minuciosamente descritas dos vitorienses do século passado. Ou ainda no senso de humor do padre Antunes quando, por exemplo, no final do artigo 18, faz um trocadilho entre cavalhada e cavalada.

Para um pesquisador de história é rara a oportunidade de realizar uma crítica de atribuição, estabelecendo a autoria de uma obra que, no caso desta elaborada pelo padre Antunes de Siqueira, enriquece a historiografia espírito-santense. Se o presente estudo tem algum mérito será o de contribuir para que se ressaltem a importância e a beleza — como documento de vida, arte e história — das Memórias do Passado – A Vitória Através de Meio Século, que agora passam a circular com autoria conhecida e comprovada.

Após tantos anos de ligação com esta obra, entendo a historiadora Maria Stella de Novaes quando escreve que estava fazendo uma pausa no seu texto para chorar.[ 70 ] É mais ou menos como diz Drummond:[ 71 ] “Toda história é remorso.” Vitória, outono de 1997, nos centenários de morte dos padres José de Anchieta (4º), Antônio Vieira (3º) e Francisco Antunes de Siqueira (1º).

Fernando Antônio de Moraes Achiamé
do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo

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NOTAS


[ 65 ] CLÁUDIO, Afonso. História da Literatura Espírito-santense. Porto: Comércio do Porto, 1912. p. 214. O autor na mesma obra à página 231 observa: “As demais produções do padre Antunes, conservam apenas interesse e valor didáticos ou o ocasional que lhes justificou a publicidade”, o que parece justificar essa omissão do ilustre escritor capixaba.
[ 66 ] NOVAES, Maria Stella de. História do Espírito Santo. Vitória: Fundo Editorial do Espírito Santo, s. d., p. 158 a 160.
[ 67 ] NOVAES, Maria Stella de. O teatro no Espírito Santo. Douro Litoral, Boletim da Comissão de Etnografia e História, Porto : 1959. Passim. Este trabalho está em parte transcrito na obra do Oscar Gama Filho História do teatro capixaba: 395 anos. Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1981. p. 174-7.
[ 68 ] NOVAES, Maria Stella de. Medicina e remédios no Espírito Santo: história e folclore. 2. ed. Vitória: s.n., 1964. p. 67-8.
[ 69 ] ELTON, Elmo. Logradouros antigos de Vitória. Vitória: Instituto Jones dos Santos Neves, 1986. p. 26.
[ 70 ] NOVAES, Maria Stella de. Jerônimo Monteiro – Sua Vida e sua Obra. Vitória: Arquivo Público Estadual, 1979. p. 222. Como exemplo, reproduzo o trecho em que a autora trata da chegada à Vitória da notícia sobre a morte de Jerônimo Monteiro ocorrida no Rio de Janeiro em 1935: “O mensageiro [da Western] e seu consternado séquito vencem duas escadas e batem à porta do apartamento. Cumprem o doloroso encargo, ao passo que, atônito, incrédulo da realidade, o Procurador do dr. Jerônimo Monteiro rompe em soluços!… Todos choram!… A Cidade da Vitória chora!.. Uma pausa!.. Nós choramos!…”
[ 71 ] ANDRADE, Carlos Drummond de. Reunião. 2. ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971. Estampas de Vila Rica, V – Museu da Inconfidência, p. 183.

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Fernando Achiamé nasceu em Colatina, ES, em 22/02/1950 e fixou-se em Vitória a partir de 1955. Formado em história pela Universidade Federal do Espírito Santo e em língua e literatura francesas pela Universidade de Nancy II (Pela Aliança Francesa do Brasil). Especialista em arquivos pela Ufes. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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