Foto e intervenção de Maria Clara Medeiros Santos Neves, 2016. Fundão: janeiro. Calor-caldeirão. O fundo do caldeirão. Uma bacia — c...

O barco ébrio


Foto e intervenção de Maria Clara Medeiros Santos Neves, 2016.
Foto e intervenção de Maria Clara Medeiros Santos Neves, 2016.

Fundão: janeiro. Calor-caldeirão. O fundo do caldeirão. Uma bacia — com a cidade no fundo é uma festa, o Santo Negro e o Santo Branco. O Deus Negro e o Deus Branco. Barracas, cerveja, pinga, música, álcool no ar, música no álcool — sinfonia azul-bala outras verde-chiclete — grupos de músicos surgindo — ritmos — "o barco está chegando! O barco está chegando!" Sim, o barco está chegando, é só entrar na multidão — mar de homens — sim e nadar contra a corrente, rio de homens —, a multidão cada vez mais densa — nadar no corpo da rua e ver enfim o mastro do barco oscilando por cima dos ombros assim como fazendo sinais para o rebanho humano aglutinado aos seus flancos, no meio de gestos grandiloquentas que parecem procurar a materialização de algo encolhido no espaço de ouro por cima ou por dentro do espaço humano, e se aproximar com relevante dificuldade do barco e ver a multidão curvada sobre uma corda grossa, maciça, como cordão umbilical do mar ou da terra, e assim puxar o barco oscilando, feito bebo-bebaço por cima do mar de ombros-ondas, como se essa massa compacta de corpos estivesse extraindo o barco do mar, e realizando esse milagre de fazê-lo mover-se sobre a terra como ele se movia sobre o mar.

Barco adorado pelos homens-estivadores de que deus?

O barco divindade oscilando por cima dos ombros — ou parecendo oscilar por cima dos ombros — mas de qualquer maneira: este barco na terra dos homens.

O barco de que deus bêbado?

Já que não há só a homenagem ali prestada pelos homens ao barco, é a homenagem da embriaguez feliz, que faz a terra girar, os homens rir e as mulheres abrir religiosamente as pernas, que faz os meninos se tornarem homens e as moças deixarem o vestido de noiva. São as núpcias anônimas e erguidas como um carvalho por cima da terra mãe, como o mastro erguido do barco, no arroto da terra.

E a multidão ficando cada vez mais densa, selva de corpos virgens de toda divindade, homenageando seu barco-deus, titubeando e subindo a coluna da Igreja, fazendo um S comprido como a serpente cósmica que abraça a terra com seus anéis de mil bodas, meu Deus!

E foi nessa altura, quer dizer, na primeira curva do caminho em S subindo para a Igreja que um homem jovem, todo dourado e nu como a serpente de nosso senhor, apareceu junto ao mastro de nosso barco — formas perfeitas e neogregas com coroa de louros na cabeça, rindo às gargalhadas, lançando sementes ao ar e dançando uma dança de arabescos femininos, lânguida como uma carioca na praia, tornando-se quase serpente de ouro velho ou de ouro preto mas sem que a serpente e a mulher potencial fossem ligadas uma à outra, porque ali nesse rapaz belo: "a mulher era a serpente e a serpente era a mulher", os dois reunidos no ouro maciço, reluzente como o carvão. E a serpente longe de ter aquela auréola diabólica e humana demais que os cristãos-vivos lhe dão — ao contrário tinha um ar de professor que sabe das coisas — essas coisas que o homem morre de não saber.

E o mar-multidão dos homens, com os olhos arregalados como discos voadores e reluzentes de que luz de desrazão, bebia o espetáculo do deus-mancebo de ouro — do grande Deus macho e fêmea e serpente e que fazia girar lentamente a máscara de ouro de seu rosto — boca larga aberta ao vento — como um farol por cima dos seus — doravante — adeptos.

Atuando as membranas na música, atuando o nervo erguido como mastro por cima da terra-cachorro, atuando o músculo tetanizado, jogado contra o rochedo próximo contra o granito ou o asfalto, atuando também outra música vinda de cima da colina oca, música de mil evanescências, vinda da igreja rapidamente engolida pela música da serpente que dança no barco fazendo a terra terremotar como a tempestade do mar fazendo a Igreja aberta imensamente se abrir sobre o nada ou sobre a plenitude da serpente.

[CHAUDANNE, Gilbert. O barco ébrio. Revista Você, Vitória: Ufes, n.7, I, jan. 1993. Primeiro texto da primeira trilogia. Reprodução autorizada pelo autor.]
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Gilbert Chaudanne é artista plástico e escritor. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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