A este período, que abrange o longo espaço de meio século, que marca a minha existência, tão pesada pelas contrariedades da vida e inconstân...

Artigo 14

1/01/2016 0 Comentários

A este período, que abrange o longo espaço de meio século, que marca a minha existência, tão pesada pelas contrariedades da vida e inconstâncias da sorte, que cegamente dá e cegamente tira, como lhe apraz, em seu rápido redemoinho, é de grande utilidade e alcance que eu refira também as impressões, embora vagas, que o rumor de tradições me acentuou na memória um pouco enfraquecida.

Vou falar dos hábitos, vestuários, costumes, educação e práticas do celebre tempo dos governadores.[ 1 ] Farei para reviver essas tintas, já tão apagadas, e, se não copiar fielmente os traços, o leitor releve essa falta, que é aliás perdoável. Depende de grande esforço, pois devo declarar, se não o sabem, que o primeiro presidente que conheci foi José Tomás Nabuco de Araújo; ouvidor, Amaral; almotacel,[ 2 ] Joaquim de tal; juiz ordinário, João Pinto de Seixas; vigário da vara,[ 3 ] Francisco Ribeiro; carcereiro, Joaquim Grande; tabelião, Noronha; vigário da igreja, Domingos Leal, etc. etc. Já se vê que vou repetir o que ouvi de certa roda, e talvez aproveite... Estava eu então no mundo dos possíveis...

Os hábitos, no geral, eram grosseiros, e não havia tratos domésticos, salvo nas altas regiões do poder, e nas hierarquias de certas raças. Fazia-se monopólio de tudo; havia uma reserva toda odiosa, e a senha dos segredos só se trocava entre certa gente...

Não se sonhava com a liberdade de consciência, de pensamento, quanto mais com a imprensa, que foi tentada pelo alferes Tovar e realizada em 1848 por Pedro Antônio de Azevedo. Essa época assinalou nos fastos de nossa história o augúrio dos triunfos do nosso presente e a esperança do ridente futuro que nos acena.

Maus hábitos, plantados por maus exemplos dos primeiros colonos que povoaram o Brasil, onde viviam como expatriados por crimes cometidos; aventureiros que vinham tentar a sorte nas plagas de um país desconhecido. Familiarizados com o crime, enlodados nas torpezas dos calabouços, dessas sementes corrompidas não podiam nascer perfeitos frutos. Para submetê-los à ordem e à disciplina era necessária a força bruta, o castigo corporal, o azorrague[ 4 ] e o pelourinho, únicos meios de coação que compreendiam essas almas corrompidas. Não tinham tais homens senão a sensibilidade física; o moral era apenas o instinto da conservação da vida. Mesmo assim, o crime expunha-os a perdê-la para satisfazer seus caprichos brutais!

Em tais condições familiarizemo-nos com essas cenas de sangue, de torpor e de misérias; o povo identificou-se com essas práticas, desabafos da vingança. Cárceres públicos e particulares, vergalhos de couro, palmatórias de jacarandá e de gramarim[ 5 ] eram os instrumentos da ignorância e do despotismo!

Idade de ferro, que nos continha no círculo estreito das ideias.

Os antigos portugueses nunca se importaram com a nossa civilização. As pequenas noções que se davam nas escolas peavam o livre curso de nossas ideias, que era preciso abafar para que o pensamento não ganhasse asas, a fim de libertar-se! Os governadores eram senhores de baraço e cutelo. Ao seu mais leve aceno curvavam-se os seus comandados. Sultões cuja vontade era a lei suprema! Diziam os seus fâmulos:

Quando fala um sultão, curvam-se escravos,
E quando estes por seu órgão falam,
Quem escutar a voz, curvar-se deve!

O segredo e a hipocrisia eram a alma de todos os negócios. O temor, o instrumento que dirigia a marcha da administração. Estas lições foram seguidas por todos quantos exerciam o mando e a autoridade.

Se na sociedade os mandões do governo eram tiranos; na família os pais eram monstros e os mestres, verdugos. Bárbaros castigos eram infligidos a todos os subordinados pela lei, pela família e pela educação!

Em casa, nas escolas e até nas públicas audiências fustigavam-se com aqueles vis instrumentos os erros, inda os mais leves. O juiz ordinário, hoje juiz de paz, mandava por oficiais ou meirinhos castigar os crimes de sua alçada! Exprimia bem essa brutal jurisdição trazendo dependurada em uma das pestanas da casaca uma rodinha de cipó de rego, encarnado como um camarão cozido!

Marcelino, ourives, por ter misturado liga em uma colher de sopa apanhou bolos e, envergonhado, nunca mais saiu à rua, salvo na procissão do Sacramento, para não perder os foros[ 6 ] de branco, ou no banquete da Penha os foros de glutão! Vomitava-se e purgava-se anteriormente para bem desempenhar essas funções! Que papo de ema! Apre! E dizia ele que tinha feito promessa a Nossa Senhora!...

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NOTAS


[ 1 ] Período colonial, em que o Espírito Santo era capitania e que vai até 1822.
[ 2 ] Encarregado da aplicação dos pesos e medidas e da taxação dos gêneros alimentícios.
[ 3 ] Delegado do bispo para um grupo de paróquias.
[ 4 ] Açoite, chicote.
[ 5 ] Possivelmente pau-marfim.
[ 6 ] Imunidades, direitos, privilégios. A irmandade do Sacramento era composta de pessoas brancas.

Pe. Francisco Antunes de Siqueira nasceu em 1832, em Vitória, ES, e faleceu na mesma cidade, em 1897. Autor de: A Província do Espírito Santo (Poemeto)Esboço Histórico dos Costumes do Povo Espírito-santense,  Memórias do passado: A Vitória através de meio século. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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