Para Beth Gotardo Olhemos os olhos das crianças; quando com eles cruzamos os nossos olhos, há reconhecimentos súbitos e rem...

Picolé


Para Beth Gotardo



Olhemos os olhos das crianças;
quando com eles cruzamos os nossos olhos,
há reconhecimentos súbitos
e reminiscências que revivem.
                             [Jorge de Lima, Anunciação 
e encontro de Mira-Celi, 46]



– Veja só como são as coisas: vinha eu, comigo mesmo, caminhando os meus cansaços pelas beiradas da noite, ali, descendo da avenida Duarte Lemos para o mercado da Vila Rubim, o largo cheio de barracas adormecidas arfando ao cheiro ancho de frutas e legumes desgastados pelo manuseio constante e pelo olhar contínuo da multidão diversa que frequenta, ao tempo que o dia dá, aquele ponto de ônibus para onde me dirigia depois de um dia de faz de contas, depois de um dia em que não fui eu.

Vinha agora ali, comigo mesmo, muito à vontade, pois que todos ali me conheciam. Todos os que não estavam mais ali, que, despedidos pela noite, tinham se retirado para as suas casas distantes, nas santa ritas, nas itanhengas, nos marajás. Todos tinham-se ido como eu agora me ia.

Todos ali me conheciam. Mesmo aquelas bancas agora adormecidas estavam acostumadas a me sorrir seu riso banal, lambuzado pelo açúcar derramado do montão de frutas trazidas pelo início do verão e expostas ao ar congestionado de calor e poeira e cheiros e fedores do mercado da Vila Rubim.

Aquelas casas, agora silenciosas, de pensões vadias e comércios variados também me conheciam. Aqueles postes esguios e constantes estavam acostumados aos meus breves descansos. Tudo ali me conhecia. Pensava enquanto ia.

Eu estava dentro dos limites do meu território diário, por onde eu sempre fazia o meu percurso de trabalho: mercado da Vila Rubim, avenida Florentino Ávidos, avenida República, Parque Moscoso, e, de novo, a Vila Rubim. Sempre fazendo uma curta parada aqui, outra ali: em cada ponto de ônibus, no portão do Parque Moscoso, na subida da Santa Casa. Eu e o meu carrinho e o meu refrão. É sempre assim. Há quanto tempo!

Há quanto tempo?

É isso o que eu me perguntava caminhando naquela noite, a desoras, em meio às casas silenciosas, às barracas adormecidas e inspirando, ao vento lento, os muitos cheiros da conspiração de açúcares, proteínas, micróbios, vitaminas e poeira entregues à fermentação silenciosa da noite no mercado da Vila Rubim.

Há quanto tempo?

Me perguntava ao fim daquele dia de mentira e ilusão, me lembrando do começo – do descomeço – de tudo: a chegada a Vitória – veja só como são as coisas – depois de esgotados todos os recursos lá na roça pequena que me viu nascer e me viu casar. Os filhos todos grandes, uns já casados, todos querendo, precisando, procurando um jeito de viver. A terra pequena, espremida entre grandes proprietários, as grandes fazendas de gado tomando conta, nos apertando...Vitória era uma possibilidade de vencer.

As notícias que chegavam da capital eram boas. Eu caminhava naquela noite me lembrando: aos poucos os filhos foram achando os seus difíceis jeitos, suas virações. Um consegue comprar uma casinha lá pro lado da Serra, outro resolve voltar pra roça para trabalhar para o fazendeiro que comprou a nossa terra, outra se casa com um rapaz de Cachoeiro e muda-se pra lá. Um isso, outro aquilo, como todo mundo e ficamos nós, sós, eu e minha mulher.

Os anos vão se passando em vais e vens, em tentativas e desacertos até que me pego um dia no mercado da Vila Rubim, onde passa todo mundo, conduzindo um carrinho de picolé pelas calçadas.

Veja só como são as coisas...hoje é fácil – fácil, eu disse? – sim, fácil quando eu me lembro – como me lembrava, ali naquela noite tarda, depois de um dia falseado, vivido longe de mim-mesmo – do primeiro dia em que eu passei por aquelas ruas, por aquelas calçadas, naquela primeira manhã conduzindo o carrinho cheio de picolés. Eu me lembrava bem o quanto é difícil para um homem, aos sessenta e três anos, chegar no meio da rua, no meio daquela multidão desigual que trafega pela cidade, e gritar: picolé! Olha o picolé!

Eu sabia que tinha que gritar, todos os vendedores de picolé gritam. Todos têm um tom, um ritmo, um estilo. Todos têm um jeito próprio, marcante, um timbre peculiar que os identifica.

Eu passei muitos dias, quando a necessidade me levou a pensar nessa hipótese de vender picolé, observando os outros vendedores. Cheguei a imaginar, a ensaiar mentalmente, como seria o meu grito, o meu refrão, meu pregão, mas ao me ver no meio da rua conduzindo aquele carrinho, eu tremi. Não tanto por estar conduzindo o carrinho, mas porque eu teria que gritar, como todo vendedor de picolé, ali no meio de todo mundo. Eu entendi, naquele momento, o quanto é difícil para um homem gritar “picolé, olha o picolé” enquanto a cidade se move no seu labor e no seu lazer.

Tive vontade de voltar e entregar aquele carrinho, cheio como estava, na fábrica. Mas eu não podia voltar. E fiquei um pouco ali, parado, dizendo pra mim mesmo: veja só como são as coisas...

Quando levantei a cabeça vi, vindo à distância, caminhando na minha direção, um velho conhecido. Imediatamente eu abri a tampa do carrinho, tirei um picolé, fechei novamente e me afastei até a marquise próxima. Fiquei ali com se estivesse esperando um ônibus, me refrescando com um picolé. O homem passou indiferente e eu percebi que tinha me enganado: que conhecido, que nada!

Fiquei ainda amargando aquele resto de picolé, dando mordidas decididas e pensando, pensando, sofrendo a constatação da minha situação dentro da cidade que, certamente, é igual à de tantos outros vendedores de picolé. Mas o que eu sentia era a minha situação e o que se passava na minha cabeça era o filme da minha vida – não era nenhum outro, não – correndo rápido. Tudo: sonhos, projetos, esforços, trabalhos, leituras, pensamentos, mulheres, filhos, casas, compras, vendas, sonhos, vitórias, Vitória. Caminhei então até o carrinho – com que clareza eu me lembrava disso ali, naquela noite deserta – e o empunhei, é este o termo, o empunhei com se estivesse tomando nas mãos o lamentável troféu da derrota. Mas eu sentia também um ímpeto, uma vontade de encontrar um caminho, uma identidade, achar o meu papel no espetáculo diário do circo da cidade, descobrir o meu personagem nesta peça absurda. Agarrei com força o guidão do carrinho e gritei, gritei a todo pulmão, gritei pra Vitória: picolééééééééééééé, ooooooooooolha o picoléééé!  Cabeça erguida, deslizando com o carrinho pela calçada entre as pessoas. Tive vontade de repetir o grito e repeti. Uma mistura de raiva, revolta, desafio, esperança: uma cidade, uma Vitória inteira naquele grito.

Foi difícil, muito difícil. Doloroso. Mágico!

Hoje é fácil – fácil, eu disse? – todos já me conhecem, assim eu pensava na noite da Vila Rubim depois daquele dia falsificado, inexato, ilusório, caminhando cansado em busca do ponto de ônibus, passando pela guarita desabitada da polícia, no largo das barracas adormecidas. Todos já me conhecem.

Tanto já me conhecem que o dono do Mercadão dos Brinquedos me convidou e aquele já era o terceiro ano em que na última semana antes do Natal eu me vestia de Papai Noel e ficava em frente à loja, ali quase em frente ao Bar Santos, convidando os clientes a entrar, e fazendo de conta, para as criancinhas, que eu era o próprio Papai Noel.

Todo ano a roupa vermelha, o gorro, a barba de algodão, uma barriga recheada de papel e o saco grande nas costas, cheio de caixas vazias.

Tudo mentira, pensava eu naquela noite, depois de um dia de representação, lembrando daquelas crianças que perambulam pela Vila Rubim. Me lembrava de ver em seus olhares – mesmo no olhar daqueles maiorzinhos, mais moleques, alguns já quase irremediavelmente perdidos – uma saudade impossível de um sonho que certamente nunca puderam ter.

Eu me entristecia, por trás das barbas de algodão, por não poder fazer nada: aquele saco que eu carrego nas costas, todos os anos, não tem nada dentro, a não ser caixas vazias, pacotes de ilusão, desesperanças cuidadosamente embaladas em papel de presente.

Caminhava os meus cansaços pelos beirais da noite, depois daquele dia de enganos, tendo, depois da loja fechada, aguardado todas as arrumações para, já retornando a mim – a mim-mesmo – receber o salário do meu dia de encenação.

Ia eu ali, noturno e solitário, entre os cheiros e fedores, quando o garoto saiu de entre as barracas adormecidas, lépido, me apontou, ameaçador o chuço e exigiu o dinheiro. As casas, velhas casas silenciosas, nos conheciam e nos observavam. Eu tinha, ao alcance da mão, um pedaço de madeira solto da estrutura da barraca mais próxima, ele não podia ver. Quis, confesso, usá-lo. Mas eu conhecia o olhar daquele menino. Havia naquele olhar, eu podia ver – quantas vezes vira – sonhos de picolés, que eu nunca pude lhe dar. Eu podia identificar naquele olhar, que tentava se mostrar ameaçador, a ingênua, a infantil vontade de ganhar de presente uma daquelas caixas vazias que eu carregava no saco de ilusões do meu Papai Noel ingrato.

Eu conheço todos ali na Vila Rubim.

Quantos eu vi crescer, quantos eu vi sumir.

Eu conhecia aquele menino. Hoje mesmo, sob o gorro, por trás da barba, eu o tinha visto. Seu olhar era incapaz de ameaças.

Ele também me reconheceu, abaixou os olhos e falou forte para o chão, como se quisesse fincar as palavras nos paralelepípedos gastos: Eu não acredito em Papai Noel. Papai Noel não existe e eu detesto picolé!

As pedras resistiram e as palavras ficaram repicando no chão escuro.

Eu sou Papai Noel, eu lhe disse ainda envolvido pela vibração resistente da suas palavras.

Ele me sorriu um riso curto de perdão e ternura. A arma improvisada caiu-lhe aos pés. Ele me estendeu a mão num cumprimento formal, adulto, mas me prendeu os dedos por um momento como quem busca proteção. Recolheu-se.

Eu tirei do bolso o dinheiro que tinha e lhe entreguei. Ele buscou uma região de luz mais próxima de mim, separou metade do dinheiro, colocou em seu bolso e me estendeu a outra parte.

Quando me curvei para pegar, ele me deu um beijo na face e sussurrou: Boa noite, Papai Noel.

E foi embora.

Eu fiquei um pouco parado entre as barracas adormecidas, as casas silenciosas e os cheiros e fedores da noite no mercado.

Senti vontade de chorar e chorei experimentando uma distante, quase esquecida alegria que renascia ali, inesperada.

Ouvi o barulho do ônibus – o bacurau – que vinha voando ao noturno vento brando de dezembro.

Corri saltitante, serelepe, infantil.

Os do ônibus, sonolentos, despertaram-se uns aos outros a gargalhadas.

Entrei, sentei e me pus a sonhar.

Veja só como são as coisas.


[Publicado originalmente nos Escritos de Vitória 2, Contos, 1993. Reprodução autorizada pelo autor.]

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Gilson Soares é poeta e nasceu em Ecoporanga, no extremo noroeste do Estado do Espírito Santo, em 10 de fevereiro de 1955. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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