Olímpico Esporte Clube, Vila Velha, ES, 1947. Revista Sport Ilustrado. O primeiro clube esportivo de futebol formado em Vila Velha ...

Primórdios do futebol

Olímpico Esporte Clube, Vila Velha, ES, 1947. Revista Sport Ilustrado.
Olímpico Esporte Clube, Vila Velha, ES, 1947. Revista Sport Ilustrado.

O primeiro clube esportivo de futebol formado em Vila Velha foi fundado por volta de 1916 e recebeu o nome de "Campos Salles Football Club". O futebol, esporte nascido na Inglaterra, chegou ao Brasil e logo se espalhou por todo o país, mantendo-se aqui, por bastante tempo, as suas denominações inglesas.

Vila Velha não poderia ficar a reboque de Vitória sem ter pelo menos um time desse esporte. O pontapé inicial teria que ser dado. Fez-se então uma reunião com alguns aficionados, dentre eles Durval Araújo (Dongo), Aureliano Falcão Filho e Carlos Queiroz. Depois de tudo arranjado, foram convidados os companheiros que com aqueles vinham treinando em campo aberto e traves improvisadas. A partir de um consenso estabeleceu-se o nome da agremiação, homenageando-se o terceiro presidente da República do Brasil. Restava ainda escolher e demarcar o campo. Perto da residência de Durval Araújo, localizada no bairro Olaria, onde hoje funciona o Hospital Maternidade Dr. Antônio Bezerra de Faria, havia um local propício que precisaria ser preparado com antecedência. Primeiramente seriam arrancados alguns tocos que afloravam à terra e aplainadas pequenas saliências. Arrancado o capim existente outro o substituiria, sendo este obtido num pasto ao lado para que o transplante fosse bem sucedido. Concluída essa primeira etapa, as traves foram levantadas e demarcadas as quatro linhas do campo conforme as regras do jogo.

A inauguração aconteceu com festa, dela participando um dos clubes de Vitória, na certeza de que iria infligir uma fragorosa derrota ao time estreante. A vontade de fazer bonito na primeira partida encheu de brio os jogadores do Campos Salles. A defesa por parte dos backs deixou muito a desejar no início do jogo, obrigando o goalkeeper Aureliano a fazer defesas importantes para delírio dos entusiasmados torcedores. Mesmo assim, no começo do segundo tempo o placar registrava 2x0 para os visitantes. Reiniciada a peleja, o center-forward Carino brigava como um leão na área do adversário, sendo alimentado nas investidas pelo ponta-esquerda Alberto Queiroz e o meia-esquerda Carlinhos Queiroz. Sendo um jogador forte e impetuoso, Carino não demorou a marcar o primeiro gol do seu time. Antes que o juiz apitasse o final da partida, com aplausos do público presente, Carino marcava o segundo e último gol.

Não venceu o Campos Salles, mas para um clube estreante o resultado estava pra lá de bom. Só o fato de não tomar a goleada prometida fora um grande feito. Desse primeiro jogo não conseguimos identificar a escalação completa do team de Vila Velha.

Assim foi o Campos Salles. Sabemos, com certeza, da sua existência e das pessoas interessadas em sua fundação, da localização de sua quadra esportiva, do nome de alguns jogadores e alguns de seu feitos, mas não conseguimos identificar ainda três dos componentes desse brioso time. Quem sabe alguém, mais tarde, tomando conhecimento desse nosso esforço e pesquisando, não identificará o team completo? Estaremos torcendo.

Os nomes dos ex-integrantes do Campos Salles de que dispomos são os seguintes:

a) backs ou zagueiros – o direito, Clovis Ramires, e o esquerdo, Dorval Almeida;
b) linha média – Durval Araújo (Dongo) seria o half direito ou lateral direito; o half esquerdo ou lateral esquerdo é desconhecido para nós; e o center half ou centro médio, José Loureiro (Tamandaré);
c) linha de frente – tivemos conhecimento de Carino Duarte de Freitas como center-forward ou centro-avante; de Alberto Carlos Queiroz (Bebé) como ponta-esquerda; e de Carlinhos Queiroz na meia-esquerda;
d) goalkeeper – Aureliano Falcão.

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As partidas eram disputadas com equipes de Vitória e o acontecimento virava festa. As denominações das posições dos jogadores ainda se mantinham no inglês, a não ser as da linha de frente, que logo foram traduzidas para pontas esquerda e direita e meia esquerda e direita. A de center-forward só bem mais tarde passou para a de centro-avante. A linha média, constituída de half esquerdo e direito e center-half, o centro médio ou laterais esquerdo e direito avançados. A linha média hoje se confunde com os armadores e a linha de frente com um ou dois atacantes e, às vezes, até três. A zaga, de backs esquerdo e direito, um deles se jogar mais recuado é chamado de líbero. E o goalkeeper de goleiro.

Quanto às regras, permaneciam as denominações antigas: corner, escanteio; offside, impedimento; lateral, lateral mesmo; penalty, penalidade máxima; hand, mão; foul, falta; goal, gol, etc.

A vida do Campos Salles teve duração efêmera, mas a equipe deixou suas marcas jogando contra os grandes plantéis da capital. Em certa ocasião, numa disputa com o Vitória F. C., campeão da capital, como se diz na gíria, botou terra nas suas comemorações, ao lograr vencê-lo nos seus próprios domínios. Foi um feito e tanto. Segundo nos contou Milton Caldeira, o poeta Mário Ferreira Queiroz, irmão de Carlos Queiroz, ficou tão entusiasmado que idealizou uma trovinha que passaria a ser cantada pelos torcedores canelas-verde. Era assim: "Campos Salles, Campos Salles, / É um team de memória / [esqueceu o 3° verso] / Deu fumaça no Vitória". Fumaça era gíria da época equivalente a surra, lavagem etc.

O troféu conquistado pelo Campos Salles era sui generis em se tratando de esporte e de uma partida de football, podendo antes destinar-se a uma exposição canina, servindo de prêmio ao mais bem colocado, principalmente se fosse uma cadela. Quem nos relata isso é Milton Caldeira: "Eu me lembro de ter visto, quando criança, na casa de Dario Araújo, na rua do Torrão, um troféu ganho pelo Campos Salles: uma cadelinha amamentando dois filhotes, em bronze ou imitação." Isso nos leva a crer que Dario Araújo tivesse sido presidente do clube ou participado da sua diretoria.

O Campos Salles também revelou cracks. Carino Duarte de Freitas foi para o Vitória F. C., atuando como um dos seus mais importantes jogadores, goleador na posição de center-forward.

Mais tarde apareceram outros clubes de futebol. Um deles, sobre o qual pouco sabemos, era o Botafogo F. C., cujo campo de futebol tinha entrada pela rua Luciano das Neves, na Toca. O Vasco Coutinho F. C. atuou com a mesma formação entre os anos de 1931 e 1934. Quatro de seus integrantes ainda se encontram vivos: Milton Caldeira, Floriano Santos, Ernesto Vereza e Elmar Duarte. O plantel desse clube tinha os seguintes jogadores: Juca e mais tarde Odilon Amaral, goleiros; Ernesto Vereza, zagueiro direito; Elmar Duarte (Titiu), zagueiro esquerdo; Floriano Santos, Milton Caldeira e Moacyr Lofêgo, linha média; João Carneiro, Lindolphinho, Horácio, Joaquim e Rubens Rezende (Bacalhau), atacantes.

Reis Novaes, já falecido, destacou a atuação de dois desses jogadores: do centro-médio Milton Caldeira e do centro-avante Horácio de Inhoá. Segundo ele, Milton Caldeira dominava e passava a bola como um verdadeiro maestro, armando e alimentando jogadas. Do segundo jogador, Horácio de Inhoá, nos falou o próprio Milton Caldeira, que o apontou como um dos melhores centro-avantes que viu jogar. Rápido e de jogadas imprevisíveis, Horácio deixava a defesa e o goleiro adversários em polvorosa e quando menos se esperava a bola ia para o fundo da rede, ou, melhor dizendo, para o fundo do terreno, onde estavam assentadas as traves.

Antes ou depois do Vasco Coutinho muitos outros times despontaram em Vila Velha, como o Santos, o Leopoldina, o América de Aribiri, o Vila-velhense, mais tarde o Social, o Atlético, o Olímpico, o Ideal, o Tupi e tantos outros mais novos ou, quem sabe, mais velhos do que estes.


A bola

O instrumento mais importante para a realização de uma partida de futebol, por certo, é a bola de couro. No começo do século XX, por mais esmerada que fosse a sua fabricação, ela não tinha uma forma perfeitamente redonda, apresentando inevitavelmente deformidades, como proeminências ou calosidades. Por uma abertura permanente era introduzida a câmara de ar, e pelo seu formato, quando vazia, assemelhava-se a uma grande carambola de quatro gomos. Para enchê-la, no seu prolongamento havia embutida e colada uma mangueira fina, de uns cinco centímetros de comprimento. Com a câmara de ar introduzida na bola e a mangueirinha voltada para fora, enchia-se esse recipiente elástico até que este se expandisse suficientemente. Com a bola assim cheia, dobrava-se rapidamente ao meio a pequena mangueira, amarrando-a fortemente para que não escapasse nenhum ar. A mangueira ereta pela metade e para cima era depois empurrada para dentro da bola com os dedos.

A pelota, como também era chamada, carecia de cuidados em seu acabamento e, antes mesmo de se introduzir a câmara de ar, prendia-se, por um pequeno nó na ponta, uma tira fina de couro que, enfiada numa agulha grossa e própria, costurava ambas as bordas da abertura, passando por todos os furos dos dois lados até chegar ao último. À medida que a agulha ia costurando, percorrendo os buracos afora, o encarregado dessa tarefa procurava unir o mais que pudesse as duas laterais, para que a forma final se aproximasse ao máximo da ideal, ou seja, o mais redonda quanto possível.

Essa bola de futebol dos nossos antepassados era também conhecida como bola de costura. Quando o chute atingia a parte irregular da costura ou a calosidade formada pela mangueirinha, causava grande dor, principalmente se forte e dado de mal jeito. O goleiro, nas suas defesas, se ressentia por demais, dependendo da violência do chute e da posição em que agarrava a bola.


[In SETÚBAL, José Anchieta, Ecos de Vila Velha, Vila Velha-ES: PMVV, 2001. Reprodução parcial autorizada pelo autor.]

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José Anchieta de Setúbal nasceu em Vila Velha-ES e se formou em Direito pela Universidade Federal do Espírito Santo. Ex-prefeito e ex-vereador por Vila Velha, foi procurador substituto do Estado, sub-chefe da Casa Civil, coordenador da Defensoria Pública e secretário da Justiça. Foi membro do Conselho de Sentenças da Comarca da Capital e sócio-fundador do Rotary Club de Vila Velha.

Estação Capixaba

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