No dia 22 de março de 1885, um domingo, o jornal A Província do Espírito Santo publica na seção “Fatos e Boatos — Notícias Locais” a seg...

Publicação do folhetim


No dia 22 de março de 1885, um domingo, o jornal A Província do Espírito Santo publica na seção “Fatos e Boatos — Notícias Locais” a seguinte informação: “Expediente. – Folhetim – Nesta seção de nossa folha encetamos hoje a publicação de um interessante escrito, original duma pena habilíssima e aplaudida. Sob o título ‘Memórias do Passado – A Vitória Através de Meio Século’, o autor do curiosíssimo escrito patenteia-nos em descrição pitoresca e por vezes eloquente usos e costumes da geração que nos precedeu, narrando as festas profanas e as de caráter semi-religioso que fizeram as delícias de outras épocas entre nós. Temos convicção de que aos leitores agradará muito o brinde que A Província faz-lhes com a publicação desse folhetim.” É interessante constatar que nessa época os jornais já inventavam brindes para atrair seus leitores. Aliás, o folhetim foi criado para isso mesmo — atrair e manter leitores. No presente caso, o folhetim não tem a pretensão de ser uma obra de ficção tout court. Apesar de certa mistura e dispersão dos temas, e de um vai-e-vem dos assuntos tratados (situação reconhecida pelo próprio autor das Memórias do Passado), eles possuem um certo encadeamento. Sem contar que no final de alguns artigos existe o gancho para que o leitor se interesse pelo que vem depois do termo continua. O folhetim, antes considerado como um gênero de segunda categoria, vem ultimamente sendo reabilitado como imediato precursor do romance oitocentista. Mais adiante, na mesma seção e página, após outras “Notícias Locais”, também está inserida a seguinte nota: “Sermão Quaresmal – O Sr. cônego Meireles, vigário da paróquia, proibiu que o reverendo padre Antunes de Siqueira pregasse na última sexta-feira, como havíamos anunciado, pelo fato de não ter sido consultado anteriormente!?” Este fato ilustra, ao lado de muitos outros da vida do ilustre espírito-santense, o motivo por que ele se utilizou do criptônimo de *** ao publicar o seu trabalho. Se para pregar um sermão quaresmal o padre necessitava de licença do pároco de Vitória (o padre Antunes por diversas vezes foi suspenso do exercício das ordens sacras), devemos avaliar que outros impedimentos e reprimendas poderiam ser evitados se o autor do folhetim, gênero popular na época, se protegesse atrás do anonimato; quando menos para expor com liberdade suas opiniões. E ele as expõe, por exemplo, ao criticar os Irades em geral no começo do artigo 13, ou fazer uma comparação desfavorável ao então vigário de Vitória no artigo 28. De 22 de março a 7 de maio de 1885, uma quinta-feira, foram publicados por A Província do Espírito Santo trinta e dois artigos relatando as impressões do seu autor sobre a vida e as festas, sobretudo religiosas, de Vitória. Segundo nos informa Heráclito Amâncio Pereira, foi o referido periódico “fundado por Cleto Nunes Pereira e Dr. José de Melo Carvalho Muniz Freire, e cujo primeiro número saiu em 15 de março de 1882”.[ 1 ] No subtítulo do jornal, edição de 22 de março de 1885, vê-se estampada a frase: “Diário consagrado aos interesses provinciais, filiado à escola liberal”. Nesse ano a tiragem de A Província era de 1.300 exemplares. Vitória na penúltima década do século passado (época em que os artigos foram publicados, referindo-se a um período anterior de c. 1830 a c. 1880) era uma cidade pequena, de alguns milhares de habitantes. Poucas pessoas na cidade possuíam capacidade e erudição para escrever um folhetim com artigos como esses, repletos de citações em latim e referências que indicavam uma formação humanista. O seu autor, por precaução, quis o anonimato, mas quase todos que liam seus artigos sabiam quem os havia escrito, o que satisfazia a vaidade do padre Antunes. Sem contar que um folhetim anônimo sempre tem o seu charme. Mas seus inimigos nada podiam provar, não tendo meios, assim, de censurar ou prejudicar o padre. Outra causa provável para a escolha do anonimato era a vida do padre, que tudo indica tenha sido conturbada nas suas relações com as autoridades religiosas e civis e com seus paroquianos, como existem indícios sempre referidos de forma indireta em sua biografia.

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NOTAS


[ 1 ] PEREIRA, Heráclito Amâncio. A imprensa no Espírito Santo, Revista de Cultura – Ufes; Antropologia e História, Vitória, Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1(2): p. 74-5, 1º semestre 1979. Edição Especial.

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Fernando Achiamé nasceu em Colatina, ES, em 22/02/1950 e fixou-se em Vitória a partir de 1955. Formado em história pela Universidade Federal do Espírito Santo e em língua e literatura francesas pela Universidade de Nancy II (Pela Aliança Francesa do Brasil). Especialista em arquivos pela Ufes. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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