(...), pois o que vive tem sempre razão. J. H. Rodrigues O português não descobriu o Espírito Santo, que ainda não existia com no...

Qual Espírito Santo?

Foto Guilherme Santos Neves, anos 1950.


(...), pois o que vive tem sempre razão.
J. H. Rodrigues

O português não descobriu o Espírito Santo, que ainda não existia com nome e configuração portuguesas, mas conformou este território aos seus desígnios e interesses. A história tem suas ironias. O colonizador, presente neste lugar durante trezentos anos, não comemorava sua chegada, o que hoje se denomina de Colonização do Solo Espírito-santense. A necessidade de se marcar a data (tomada como natalício da terra) vai surgir depois de encerrado o período colonial, quando as elites provinciais, e depois estaduais, buscam formas de se legitimar no poder e controlar a população através de um civismo formal. Tais eventos são incentivados no período dos Estados Unidos do Brasil, em que durante certo tempo os presidentes do nosso estado tomavam posse no dia 23 de maio (não havia coincidência de mandato dos governantes estaduais brasileiros) e os símbolos espírito-santenses foram criados ou restabelecidos — o selo e as armas a partir da primeira década do século XX, o hino e a bandeira atual em 1947. Tivemos mesmo uma época em que muitos prédios do governo estadual eram pintados de rosa (o palácio Anchieta, sobretudo), seguindo disposições regulamentares que elegeram aquela cor, junto com o branco e o azul claro, para integrarem os símbolos estaduais. O que, de resto, pode ser apelidado de heráldica dos meios-tons.

Estes símbolos e datas são meras referências transitórias na história capixaba, e sabemos que nem tudo em seu transcorrer foi cor-de-rosa. Pelo contrário. Já que existem efemérides e comemorações oficiais, devemos sugerir, apesar delas, alguns temas para reflexão tendo como elemento comum a pergunta: qual é, para nós capixabas, o principal sentido de tudo o que foi feito nestas terras, da época dos portugueses aos dias atuais?

Existe uma resposta mais ou menos evidente para os que fazem do estudo da história espírito-santense uma atividade profissional — as grandes decisões que sempre presidiram o destino capixaba foram tomadas para atender aos interesses de grupos e pessoas que vivem longe daqui. Em outras palavras: o Espírito Santo sempre se constituiu numa área periférica, situada em um território dependente — a margem da margem.

Do colonialismo português ao neocolonialismo atual existe uma distância — nem tão grande assim — que separa, por exemplo, a montagem de uma empresa colonial exportadora, iniciada por Vasco Fernandes Coutinho, do funcionamento da Companhia Siderúrgica de Tubarão, empresa neocolonial que deve produzir a custos baixos e vender a preços vis. Se tais empresas representam diferentes momentos históricos, elas têm em comum o fato de que decisões tomadas em longes terras (antes Portugal, agora Japão e Itália) condicionam toda a vida e toda a obra dos capixabas. Porque o mais que aconteceu e acontece é conseqüência destas realidades coloniais e neocoloniais maiores. Toda a economia, toda a sociedade e quase toda a política estão direcionadas para manter e reproduzir esta situação. Então, falar de arte e cultura, ou de estética e moral, de transportes e urbanização, ou de água e luz, de saúde e educação, ou de segurança pública e abastecimento, de justiça e ética, de imprensa e lazer e de outros aspectos de nossa vida fica sem sentido se não colocarmos nossas reflexões fundamentadas no contexto maior antes referido.

A história está sempre sendo escrita e reescrita, o que, além de saudável, é indispensável. Quem cria e recria constantemente a interpretação histórica são as sucessivas gerações descobrindo novos temas, novas abordagens, de acordo com seus interesses e idéias. A história capixaba possui muitos complexos de fatos praticamente virgens de pesquisa e tão variados como a participação das igrejas (em especial a católica) na nossa formação, a inquisição no Espírito Santo, as contribuições culturais trazidas pelos vizinhos baianos, fluminenses e mineiros e muitos outros. Selecionamos alguns assuntos para rápidas considerações.

As Populações Autóctones

Muito pouco ainda se conhece sobre a existência dos habitantes originais desta região por duas razões — não há interesse em se pesquisar este tema, e os poucos estudos existentes têm divulgação restrita. As populações indígenas aqui encontradas pelo colonizador receberam, em resumo, dois tipos de tratamento — eliminação rápida ou eliminação lenta. Do índio pode-se dizer, neste contexto e sem conotação desrespeitosa, o que se diz de um vegetal (o coqueiro) ou de um animal (o boi) — dele tudo se aproveita. O colonizador aproveitou tudo do índio. Suas terras para moradia e implantação de estabelecimentos econômicos; seu suor para movimentar a economia, construir igrejas, fortalezas, casas, estradas, pontes e cidades; sua comida (a mandioca, os peixes) para sustento; suas mulheres para reprodução; seus conhecimentos para dominar a terra e se apropriar das plantas e animais; sua força numérica para defesa contra os inimigos americanos ou europeus; sua música, sua língua, seus hábitos para melhor neutralizar os próprios nativos; e, enfim, sua morte para desocupar o território e dar exemplo aos demais indígenas.

O genocídio legal e legitimado sobre populações aborígines que o colonizador praticou neste lugar durante muitos anos (as aldeias do Cricaré incendiadas, os índios mortos por doenças ou por outros índios...) não se deveu a uma tara inata do português para o extermínio. É que ele tinha por objetivo a montagem de uma empresa colonial exportadora e, dentro desta lógica, eliminou ou neutralizou tudo o que a ela se opunha. Porque fatos que hoje condenamos eram prática comum. De forma a tornar mais inteligível nossa história, é importante enxergar com a maior nitidez possível, sem pieguices ou ilusões, este processo histórico em que milhares e milhares de seres humanos foram eliminados por representarem um empecilho à dominação portuguesa.

Os sucessivos governos da Coroa, do Império e da República, e seus representantes locais, sempre tiveram suas políticas em relação ao indígena habitante do território espírito-santense. A título meramente exemplificativo podemos destacar: a existência dos aldeamentos jesuíticos; a declaração de guerra justa aos botocudos do rio Doce feita pelo Príncipe Regente, depois D. João VI; a presença do Aldeamento Imperial Afonsino em terras do atual município de Conceição do Castelo; a organização do Aldeamento de Pancas que ainda existia há poucas décadas atrás; os índios aculturados de Caieira Velha...

Também estão para ser devidamente estudados os complicados e longos processos que resultaram na destruição gradual das culturas indígenas e na assimilação de seus elementos ao saber comum capixaba. De real, temos a presença no povo espírito-santense de estoques genéticos originados dos índios (basta olhar muitos rostos da nossa população para vislumbrar este legado) e de características culturais respeitantes à comida, à língua, aos comportamentos sociais, às crenças. Tudo isto, e muito mais, que foi bastante reprimido nos índios e em seus descendentes (como foi difícil obrigar o povo a esquecer sua língua materna, sua língua geral!), hoje começa a ser revalorizado. Mas, por favor, não digam que o nome de Ibiraçu, para citar um exemplo, foi dado pelos índios. Os colonos italianos e seus descendentes que ocuparam aquela região, com grande ocorrência de árvores frondosas, denominaram-na de Pau Gigante — nome traduzido para o tupi-guarani, por iniciativa oficial, na última década de quarenta por ter assumido conotações outras.

Os indígenas, ao contrário das populações escravas de origem africana, nem sequer tiveram uma lei áurea. Até hoje seus remanescentes são considerados incapazes civilmente — suas terras e riquezas sendo espoliadas em diversas partes do território nacional e, quando a isto se opõem, continuam a ser destruídos fisicamente.

Os Colonizadores Portugueses

A contribuição portuguesa predomina no processo de aculturação, que vem acontecendo no território espírito-santense desde o século XVI, pelo simples fato de o colonizador ter sido desta etnia. O domínio português se exerceu sobre nosso território não sem resistência dos indígenas. No início houve a ocupação de estreita faixa litorânea: a fundação das primeiras localidades — futuras vilas e cidades — ocorreu no litoral ou perto dele. E até inícios do século XIX os principais sítios urbanos espírito-santenses resumiam-se a Itapemirim, Benevente (atual Anchieta), Guarapari, Vila Velha, Vitória, Serra, Nova Almeida, Santa Cruz, Linhares e São Mateus, que entre si e com outros locais mantinham contato, sobretudo, através das estradas líquidas (e já prontas) dos rios e do mar.

Sociedade patriarcal, ruralizada, com uma minoria de brancos dominando a grande maioria de índios, negros e miscigenados, e utilizando-se de todos os meios para manter esta situação. Tudo controlado, tudo censurado, tudo proibido autoritariamente. Por exemplo: as pessoas que se deslocavam para fora da capitania, depois província, precisavam de licença expressa, de um passaporte. A elite sempre voltada para o exterior, onde estavam seus interesses, copiava padrões de comportamento vigentes na Europa e nos Estados Unidos. Mesmo no período imperial e no da República Velha, quando o controle político do Brasil era exercido indiretamente por outros países, assistimos à veiculação de idéias que objetivavam adequar melhor a sociedade brasileira ao consumo de produtos estrangeiros. O Espírito Santo exportava açúcar, madeiras, algodão, depois café, e recebia, em geral, baixos pagamentos pelos produtos. E estes poucos recursos eram empregados, em grande parte, na construção de melhor infra-estrutura para atender à própria exportação, ou na importação de quase tudo — da manteiga à vela, das telhas à madeira, da tinta ao papel, do azeite ao vinho, dos tecidos aos equipamentos e ferramentas. Certos membros das elites econômicas, até hoje, querem nos fazer pensar que os produtos importados são melhores que os nacionais, o que nem sempre é verdadeiro.

Neste contexto de dependência econômica, de rígida estratificação social, com os capixabas polarizados entre a grande maioria despossuída e um pequeno grupo de poderosos, como ficava a produção cultural? Cultura na acepção restrita do termo, para designar as artes e o trabalho intelectual. Em região marginal de uma colônia é fácil perceber que as condições para aquela produção não eram as mais propícias.

No campo das idéias predominou a ideologia cristã com diversas variações e modificações. Durante todo o período colonial, que não foi tão uniforme nem tão estático como querem alguns pesquisadores, a repressão portuguesa foi feroz e constante. A publicação de livros e periódicos era proibida e a grande massa da população, mantida ignorante e embrutecida, não tinha acesso à leitura. Os poucos livros que circulavam eram severamente controlados pelas autoridades civis e eclesiásticas. Produziam-se escritos de inspiração religiosa e laudatória elaborados por padres, na maioria dos casos. No entanto, as manifestações artísticas, produtos de seu tempo, sempre estiveram presentes no Espírito Santo. O colonizador, principalmente nas atividades ligadas à religião, utilizou as artes como um importante instrumento de aculturação dos habitantes da capitania. A arquitetura dos templos, os autos freqüentemente representados dentro das igrejas ou em seus adros, as festas religiosas, os cânticos, as pinturas e esculturas retratando motivos sacros — é a arte posta a serviço dos interesses daquela elite dominante. A arte feita pelo povo e produzida fora dos padrões consagrados pelo dominador era considerada inferior e desprezada.

A presença da Igreja, que só com a República se separou do Estado, era permanente e se exercia em todas as regiões e em todos os espaços sociais do universo capixaba. Os sacerdotes, em especial os párocos, com acesso a conhecimentos ignorados pela maioria da população, sabiam o que se passava nas comunidades devido à confissão auricular, aos registros — como o batistério — que eram obrigados a fazer, à influência que possuíam sobre toda a sociedade. Porque os principais acontecimentos na vida dos indivíduos tinham por referência a igreja católica e a assistência espiritual de padres — as pessoas eram batizadas, crismadas, casadas no religioso e, por fim, sepultadas em campo santo. E isto também se constituía em regra geral para as populações do interior, ainda que elas possuíssem acesso irregular aos considerados, na época, benefícios da religião. As práticas e festas religiosas não só alcançavam a vida em seus ciclos anuais. Nas vilas, os sinos das igrejas e capelas comandavam o cotidiano das pessoas — os chamamentos para o culto, os anúncios alegres ou tristes, os toques de ângelus.

Na assistência social e hospitalar tivemos desde cedo no Espírito Santo a presença de uma instituição típica do mundo português — a Santa Casa de Misericórdia, por sinal uma das primeiras fundadas na colônia. A história desta instituição se confunde com a história da própria sociedade capixaba; é um seu retrato. Escravos e senhores, pobres e ricos, comerciantes, artífices, profissionais liberais, grandes e pequenos funcionários, a Igreja, todos envolvidos nas atividades que, a partir de certo momento de predomínio da ideologia cristã, se convencionou chamar caridade (uma espécie de amor). A força presente no lema da instituição, Caritas nunquam excedit — caridade nunca é demais —, se fez presente durante muito tempo nas obras de beneficência empreendidas pelos espírito-santenses.

Como em outros lugares do Brasil, diversos capixabas buscavam pertencer a irmandades (a da Misericórdia era uma delas) para ajuda mútua na vida e na morte — assistir aos irmãos doentes, amparar suas viúvas e órfãos, realizar enterros, celebrar missas, promover rezas. Ações que naqueles tempos possuíam imensa importância coletiva, diferente da dimensão social que assumem hoje em dia. De modo geral, as irmandades e ordens terceiras correspondiam aos estamentos sociais de então — os escravos negros (Rosário, São Benedito), os senhores brancos (São Francisco, Carmo, Santíssimo Sacramento) e, de permeio, os pardos livres (Amparo, Boa Morte e Assunção).

Destaque deve ser dado aos jesuítas, que se autodenominavam soldados de Cristo, e formaram no Espírito Santo, por cerca de dois séculos, um poderoso sistema de governo paralelo. E com diversas propriedades que incluíam, dentre outras, as fazendas de Muribeca (no atual município de Presidente Kennedy), de Araçatiba (em Viana), de São João Batista de Carapina (Serra), e os aldeamentos de Reritiba (Anchieta), Guarapari e Reis Magos (Nova Almeida), tudo comandado pelo colégio de São Tiago em Vitória (no prédio que abriga agora o palácio Anchieta). A divisa destes religiosos, que se organizavam em companhia de inspiração militar, era AMDG, Ad Majorem Dei Gloriam — Para a maior glória de Deus.

Os Povos Africanos

O antigo sistema colonial da época mercantilista esteve presente em nossa terra por meio dos seus três elementos essenciais — a dominação política da metrópole sobre a colônia, como condição; o exclusivo metropolitano do comércio colonial, como mecanismo; o escravismo e tráfico negreiro, como decorrência. O escravismo, forma predominante de trabalho compulsório no Espírito Santo (e, de resto, em todo o império colonial português), origina-se da exigência de um grau acentuado de concentração de renda (de apropriação de renda) na camada mercantil da metrópole. Para que o intercâmbio do exclusivo pudesse continuar era preciso que a renda se concentrasse. A concentração no limite leva à compulsão no limite, ou seja, a concentração de renda no limite exige que o trabalho seja compulsório no seu limite — a escravidão, onde o trabalhador não possui de seu nem o próprio corpo.

A economia colonial é mercantilista, escravista e de acumulação externa. A produção econômica aparece sempre como desdobramento da circulação de mercadorias, passando de predatória para sistemática e assumindo o caráter especializado para complementar a produção dos países centrais com especiarias, produtos tropicais, metais nobres. A característica primeira da economia colonial é sua especialização, a que se relaciona sua regionalização, daí se seguindo o caráter itinerante da mesma. O setor de produção de subsistência é sempre subordinado ao de exportação. E o ritmo de produção é definido pelas flutuações do mercado central, que determina não só o que se produz, mas com que ritmo. O processo produtivo da economia colonial envolve uma grande concentração de capital fixo (como característica essencial) porque o capital circulante neste processo é fixo. Como conseqüência, o investimento inicial cresce e a produção é dominada pelo setor da circulação.

Todo este economês, no caso do escravo africano, pode ser assim resumido — é o tráfico negreiro que explica a existência da escravidão negra na colônia, e não o contrário. A burguesia mercantil metropolitana não tinha interesse em incentivar a escravidão indígena. A mercadoria representada pelo índio escravizado circulava somente dentro da colônia, sem ganho, ou com rendimento restrito, para os negociantes da metrópole. Por outro lado, os mercadores portugueses (ou seus representantes na colônia brasileira) auferiam altos lucros com o tráfico dos escravos negros e sua venda aos colonos. A introdução dos africanos em nossas terras representou um atendimento aos interesses mercantilistas dos portugueses que, inclusive, apregoavam a superioridade de sua mercadoria dizendo serem os negros mais trabalhadores que os índios preguiçosos, entre outras coisas, por já conhecerem a escravidão na África. Eis uma das origens de preconceitos, que sofrem ainda hoje descendentes de povos índios e negros.

Estudar o escravismo moderno a partir do século XIX é não compreender sua verdadeira gênese. Por esta época ele representava uma sobrevivência modificada de um dos elementos que tinham composto o antigo sistema colonial. Tal escravismo é essencialmente de caráter colonialista e se explicita no contexto do antigo sistema colonial e, quando não está nele inserido, é preciso ver em que novo contexto ele se amarra.

De qualquer maneira, era muito grande o grau de repressão necessário para se manter todo um edifício social com base no escravismo. Aos escravos e descendentes, com suas vidas estritamente vigiadas e controladas, não se permitia o pleno desabrochar de seus quereres e saberes. Intrinsecamente violento caracterizava-se este transplante de milhares e milhares de pessoas de um determinado contexto social e sua inserção nos campos e nas vilas espírito-santenses.

Os africanos tiveram grande parte de sua cultura reprimida e desarticulada; os dominadores, contudo, não lograram destruir totalmente estes povos e suas criações culturais. Apesar de toda repressão, os cativos no território espírito-santense passaram boa parte de suas práticas de vida para os demais capixabas. Fossem eles escravos nas fazendas de Itapemirim ou de São Mateus, alugados para trabalhos urbanos ou escravos de Nossa Senhora da Penha, que o convento os possuía e numerosos. Além dos aspectos mais ou menos típicos e mais ou menos tradicionais, encarados como contribuições importantes do negro para a constituição do povo do Espírito Santo (nos hábitos alimentares, no artesanato, no idioma, nos folguedos), estão para serem conhecidas e valorizadas outras contribuições, igualmente valiosas, dos africanos e seus descendentes para a formação capixaba. Como, para exemplificar, os movimentos organizados de resistência negra à dominação branca, antes e depois da libertação oficial.

A libertação veio como simples ato jurídico. É como se a lei assinada pela Princesa Imperial Regente — e tendo como objeto os escravos analfabetos, sem identidade cultural estável, sem perspectivas em sua vida profissional —, os tivesse libertado através de um único artigo: — Virem-se daqui pra frente! As populações negras do Espírito Santo, com raríssimas exceções, não tiveram acesso à posse da terra — bem econômico maior à época. As elites nacionais e locais optaram pela solução imigratória branca, e prepararam sua adoção em doses graduais. Primeiro proibindo o tráfico negreiro. Em seguida mercantilizando a terra para torná-la atrativa para os camponeses europeus sem propriedade. Neste processo libertam os filhos de mulheres escravas (só a partir de certa idade) e os escravos maiores de 65 anos. Escravos e escravas que, naquela época, conseguiam atingir tal idade eram pouquíssimos e não representavam maiores prejuízos para seus donos. Demais, com esta idade, quem os acolheria, para onde iriam, o que fariam, como se manteriam? Situações guardando certa correlação com estas existem no presente. Se a atual população tivesse dignas condições de existência não haveria necessidade de se manter a merenda escolar como única refeição para os estudantes pobres, ou dispensar, do pagamento de passagem de ônibus, os idosos com mais de 65 anos...

Os Imigrantes Europeus

A importação deliberada de mão-de-obra européia para o trabalho nas lavouras de nossa província e de nosso estado deveu-se, em primeiro lugar, a uma política de substituição do trabalho escravo pelo trabalho livre. Vinha ao encontro dos interesses da elite econômica. O escravo, considerado um bem semovente, era capital imobilizado, além de que sua morte ou invalidez representava sempre um prejuízo para seu proprietário. Tinha o escravo que ser alimentado, vestido e tratado quando doente. Aquela política de importar mão-de-obra européia para o Espírito Santo teve o incentivo e a participação constantes da iniciativa oficial. Os imigrantes, em sua maior parte, foram instalados em colônias do governo; muitos deles trabalharam depois, em troca de baixa remuneração, nas fazendas dos nacionais. Aos recém-chegados eram destinadas terras devolutas ou terras particulares desapropriadas.

Diferente do colono europeu no sul do país, que em pequenas propriedades praticava uma agricultura de sustentação (milho, feijão e outros produtos necessários para a subsistência, com sobra para comercializar), e diferente do imigrante assalariado nas grandes fazendas paulistas de café, o trabalhador estrangeiro em terra capixaba produziu o café para o mercado exterior, mas em pequenas propriedades e com mão-de-obra familiar.

Nesta altura deve-se fazer um parêntese para afirmar que a política, sempre reiterada com variações ao longo da história brasileira, de destinar todos os melhores esforços da produção econômica para a exportação ocasiona uma dentre muitas distorções na vida cotidiana dos capixabas — até hoje os nossos produtos tipo exportação são considerados de qualidade superior aos demais. Mesmo descontando os exageros da propaganda, sabemos ser isto verdade — os melhores produtos originados desta terra foram e são destinados ao consumo nos países estrangeiros.

Numa postura errônea, costumamos considerar os imigrantes da mesma maneira que fazemos em relação aos índios ou aos negros — é tudo igual, homogêneo, genérico. Não nos importamos em conhecer os chamados índios com suas características específicas (se de tradição tupi-guarani, aratu ou una), ou os considerados negros (se de origem ioruba, fanti-axanti, eve, nupê, mandinga, hauçá, fulani, angola-congolês, moçambique), ou os denominados alemães (se descendentes de pomeranos, bávaros, hesseanos, austríacos, tiroleses), ou os designados como italianos (se oriundos de calabreses, napolitanos, trentinos, genoveses, paduanos, parmesãos, vênetos).

Ao contrário dos índios que, em muitos casos, só deixaram como documentos de suas vidas os próprios ossos fossilizados, ou dos negros, com suas culturas desprezadas ou sincretizadas à força, os imigrantes europeus não foram obrigados a destruir rápida e violentamente as suas características culturais. No caso, os processos de aculturação foram diferentes. Afinal, eles eram pessoas livres, pequenos proprietários de terra, possuidores de uma cultura que poderia interagir com a nova realidade em melhores condições do que as oferecidas para os índios e os negros. Com isto não queremos desconhecer os indizíveis sofrimentos e privações por que passaram — por meio de um mesmo sistema econômico, que rapidamente se internacionalizava, os imigrantes foram expulsos da Europa e colocados em terras americanas para produzir visando, regra geral, o mercado externo. Não podemos ignorar a Hospedaria da Pedra d'Água, depois significativamente transformada em penitenciária, e local em que as famílias recém-chegadas observavam a quarentena. Não devemos esquecer os barracões em regiões inóspitas, onde elas eram alojadas provisoriamente, à espera da sua destinação para os lotes coloniais. E não esqueçamos, da mesma forma, os maus-tratos, as injustiças, as perseguições, a fome que muitos dos imigrantes sofreram.

Entretanto, o processo foi diverso do acontecido com os indígenas e os negros, no que se refere à intensidade da desagregação étnica e cultural. Só uma prova — ao contrário de descendentes de outras etnias, muitos pesquisadores de origem alemã e italiana conseguem localizar os nomes, a proveniência e a data da chegada ao Espírito Santo de seus antepassados (bisavós ou tataravós), consultando documentos guardados em arquivos públicos, refazendo sua ascendência em direção às terras européias. E não se diga que tal fato ocorre por ser a imigração uma política governamental mais recente. Existiram outras políticas migratórias contemporâneas a esta em que as autoridades não providenciaram ou preservaram os registros referentes às pessoas. Pode ser citada como exemplo a localização, em diversas regiões espírito-santenses, de retirantes nordestinos provenientes da Grande Seca de 1877. Por estas e outras razões, é que devemos conservar nosso patrimônio cultural, as construções e os documentos (oficiais ou não) mais significativos, para que as futuras gerações possam deles se apropriar corretamente.

Pouco se estuda a arquitetura dos imigrantes (como, de resto, a arquitetura vernácula capixaba) e sua possível contribuição para as construções contemporâneas. Só se valorizam nos descendentes de alemães e italianos os aspectos pitorescos, culinários, folclóricos. Algumas famílias originárias desta corrente imigratória, por terem melhores oportunidades de vida proporcionada por causas várias, rapidamente ascenderam na sociedade espírito-santense. A maioria dos descendentes dos imigrantes, no entanto, continua em condições humildes de existência ou foram constrangidos, por falta de terra e de condições para produzir, a migrar para outras regiões brasileiras. Após a última Guerra Mundial tais pessoas sofrem ainda outras discriminações. São chamados pejorativamente de branquelos, russos, alemães... A pobreza e o preconceito não têm cor.

E Agora?

Toda história é escolha
L. Febvre

A história não pode mais ser estudada somente a partir de heróis e acontecimentos excepcionais. De tudo o que se falou do passado capixaba, originou-se uma sociedade que agora vem sendo urbanizada compulsoriamente, o povo em êxodo, tangido do campo pela miséria. A verdadeira violência continua residindo no fato de se manterem as grandes desigualdades sociais.

Destruir um povo é destruir sua cultura. No Espírito Santo, bendito o pluralismo de nossas etnias formadoras, que nos confere flexibilidade de espírito e, por isto mesmo, nos protege contra a intolerância em relação ao bom e ao novo que vem de fora, e nos resguarda (até quando?) do lixo cultural que tentam nos impor!

As decisões fundamentais da história capixaba quase sempre foram tomadas para beneficiar, em primeiro lugar, o não-capixaba. O autoritarismo — marca registrada dos governantes portugueses e brasileiros — só agora começa a ser superado. As elites, sobretudo as econômicas, continuam voltadas para fora do Espírito Santo, onde estão seus interesses de classe. A existência autônoma do nosso Estado é pouco mais do que uma expressão jurídica. A grande corrupção, a maior de todas, é o depauperamento dos capixabas (ricos, remediados e pobres) devido a decisões tomadas por pessoas que vivem longe deste lugar e não possuem conosco nenhum compromisso, a não ser a perpetuação da realidade na qual as riquezas daqui, aqui não permanecem. Na arte, na cultura, na atividade profissional, no lazer, tudo o que é feito em nossa vida cotidiana está submetido a este fato — somos um povo sem plena autonomia.

No entanto, a história nos mostra os caminhos. E agora podemos os capixabas dizer a nós mesmos — que não estamos obrigados a reproduzir indefinidamente este modelo de sociedade; que a felicidade de uns não pode ser atingida em detrimento de outros; que a vida é mutável; que sabemos da riqueza cultural a nós legada pelos nossos antepassados; que as questões negativas (poluição, desigualdade social, miséria, fome, ignorância, doenças) podem e devem ser enfrentadas e que um dia, afinal, não mais haverá o Espírito Santo de hoje, porque neste lugar pessoas felizes coexistirão numa nova realidade, que nós todos ajudamos a construir.

[ACHIAMÉ, Fernando. Qual Espírito Santo? A Tribuna, Vitória — ES, de 01, 14, 15 e 21 de julho de 1987. Texto com algumas modificações feitas pelo autor. Reprodução autorizada pelo autor.]
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Fernando Achiamé nasceu em Colatina, ES, em 22/02/1950 e fixou-se em Vitória a partir de 1955. Formado em história pela Universidade Federal do Espírito Santo e em língua e literatura francesas pela Universidade de Nancy II (Pela Aliança Francesa do Brasil). Especialista em arquivos pela Ufes. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

Estação Capixaba

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