Sereno, eu caio, eu caio, Sereno deixai cair; Sereno da madrugada Não deixou meu bem dormir. antiga de roda muito conhecida ...

Sereno


Sereno, eu caio, eu caio,
Sereno deixai cair;
Sereno da madrugada
Não deixou meu bem dormir.

antiga de roda muito conhecida e cantada no Espírito Santo, e das mais melodiosas. Brincam-na as crianças de Vitória, Araçatiba, Virgínia, Cariacica e Guarapari, conforme pudemos verificar. Mas é cantada em todos os pontos do Estado.

O tom da cantiga faz com que, em regra, se pronuncie alongadamente serenô ou serenu. Variantes: "Serenô, deixa eu cair", "Serenu, deixô cair" — "Serenô, deixais cair" — "Não deixas meu bem dormir".

Cecília Meireles, em um dos seus artigos "Infância e folclore", sob o título "Sereno da madrugada", faz referência a esta roda, muito divulgada também no Pará, se bem que em variante afastada. Vale a pena transcrever aqui a impressão que a cantiga deixou em Cecília Meireles: "Tal como se canta naquele Estado do norte, a cantiguinha encerra muito pouca coisa. No entanto, parece-me cheia da mais pura poesia, e, de repetir as suas linhas, convenci-me de que não há muitas em nosso folclore, que se lhe possam compara. Pode ser que o leitor estranhe tão forte afirmação para tão fraco texto. Mas é precisamente a tenuidade da letra, a sua incompletação, o sentimento de fragilidade existente na cantiga que a tornam incomparável na literatura infantil."

A não ser a citação de Cecília Meireles, não deparamos a menor referência à cantiga, em qualquer dos cancioneiros aqui mencionados.

Segundo informação do Dr. Christiano Fraga, da Subcomissão Espírito-santense de Folclore, esta cantiga obteve "o primeiro prêmio num concurso de canções estaduais típicas, organizado por uma emissora carioca".

Nas pesquisas que realizamos, não nos foi, porém, possível confirmar esse informe. Apuramos , entretanto, que, por volta de 1939, Almirante, o conhecido cultor da música popular brasileira, a quem consultamos pessoalmente, procurou interessar alguns compositores cariocas na utilização de nossa música tipicamente popular, tendo-lhes oferecido cerca de 50 temas folclóricos de sua coleção, para esse fim. Houve apenas um caso de aproveitamento. Antônio Almeida publicou "Serenô", em que aparecem a letra e a música de nossa cantiga. Por volta de 1940 ou 1941, os "Anjos do inferno" gravaram essa composição em disco Victor.

Almirante recebera a cantiga daqui de nosso Estado e admirava nela, particularmente, a perfeita articulação entre a música e a letra. Nesse registro primitivo, sempre que apareciam as palavras "eu caio" e "deixa cair", a melodia caía também para notas mais graves, numa correspondências perfeita. Mas Antônio Almeida alterou, em parte, essa forma melódica, sustentando as notas correspondentes a "eu caio", circunstância essa que feriu a sensibilidade artística de Almirante... e a nossa também, logo que soubemos do caso.

O disco e o rádio, isolados ou em conjunto, encarregaram-se de divulgar a estilização, provocando, pouco a pouco, entre nós, o quase desaparecimento da nossa forma tradicional, suplantada pela adaptação da Antônio Almeida. Graças a Deus, entretanto, ainda se ouve cantar o "Sereno" em terras capixabas — principalmente no interior do Estado — na velha versão original, com aquele "eu caio, eu caio" tão intimamente articulado com a melodia.

Modo de brincar: Brinca-se, como qualquer das cantigas de estribilho, alternando este com as quadrinhas tiradas, uma a uma, pelas crianças da roda, na mesma toada da cantiga. Por exemplo:

Coro: Sereno, eu caio, eu caio,
................
................
   
Solo: Oh, que noite tão escura,
Tão cheia de vagalume!
Meu amor tão pequenino,
Tão cheinho de ciúme...
   
Coro: Sereno, eu caio, eu caio,
Etc...



[SANTOS NEVES, Guilherme (pesquisa e texto), COSTA, João Ribas da (notação musical). Cantigas de roda. Vitória:Vida Capichaba, 1948 e 1950. (v. 1 e 2).]

Guilherme Santos Neves foi pesquisador do folclore capixaba com vários livros e artigos publicados. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)
João Ribas da Costa foi professor no interior do Estado do Espírito Santo.




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