OFICINA LITERÁRIA Não insistam porque não direi nomes nem onde se deu o fato. Com a moda das oficinas literárias pode ter sido na Ufes, em...

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1/08/2016 0 Comentários

OFICINA LITERÁRIA

Não insistam porque não direi nomes nem onde se deu o fato. Com a moda das oficinas literárias pode ter sido na Ufes, em Cachoeiro ou Colatina, e até em Dores do Rio Preto, se o escritor Marcos Tavares bancasse o mestre e se lá houvesse aprendizes para o ofício das letras.

No caso de que falo, a oficina tinha por escopo a crônica, sua conceituação e contextualização (é assim que eles dizem), como interpretar-lhe texto e intertexto (falam assim também), enfim, como fazê-la.

Tratando-se de tema palpitante, grande foi a clientela inscrita, coordenada pela professora pós-graduada em crônica.

O velho cronista entrou a convite especial para a avant-première do curso. Narraria sua experiência de cultor do gênero, como armava seus textos, em que motivos se inspirava, se os vivenciava ou não, se escrevia depressa ou devagar, a caneta ou em computador.

Aceitou a contragosto, em concessiva atenção à professora sua conhecida, esplêndida quarentona separada judicialmente desde quando fizera o mestrado na PUC.

Ante a platéia em expectativa tem a palavra o cronista. Vale aqui uma preliminar da platéia? Sejamos controlados: que a platéia se manifeste no seu tempo próprio.

Numa saída de quem dizia não possuir o dom da oratória — o que é sempre uma boa entrada, mas sem muita originalidade — o cronista sugeriu o diálogo através de perguntas e respostas, quase uma variação do jogo de múltipla escolha, familiar a todos os presentes.

A sugestão foi bem recebida, a professora esplêndida achou que a oficina começava promissora, todos vivamente interessados. Como o crupiê que dissesse façam o jogo, senhores, o velho cronista solicitou perguntas aos cronistas neófitos. A roleta girou, vermelho, preto.

— O senhor é cronista há muito tempo? — indagou a aprendiz de cabelo à homenzinho e suave pescoço de garça.

Ele teve vontade de dizer que sim, que há muito, muito tempo, desde a remota Vida Capichaba, mas evitou retrocessos nostálgicos e enveredou por outro caminho. Pediu para ser chamado de você e, em menção literária, satisfez a curiosidade da garça:

— Desde quando me iniciei em Machado de Assis e Eça.

— O Eça era aquele escritor português? — rebateu a ave do pescoço esbelto.

O cronista a fitou complacente. No cérebro acostumado a pensar entre parênteses se indagou o que tinha ido fazer ali, mas limitou-se a confirmar que sim, o Eça era aquele escritor português. O digno pescocinho merecia sopros e afagos. Ele os concedia.

— Você já publicou algum livro?

Agora era um rapagão de cabelos soltos sobre os ombros. A platéia se manifestava no tempo próprio. Nos parênteses do cérebro nascia a próxima crônica: a aprendiz de cabelo masculino, o aprendiz de cabelos louros, os tempos, modernos, a oficina, literária, a professora, magistral.

— Nunca publiquei porque nunca me puseram em livro. Sou apenas um cronista de jornal que espera editor como quem espera uma noiva — respondeu.

Todos riram, o cronista sorriu no canto da boca, num cacoete antigo. As perguntas brotavam ansiosas, a esplêndida professora via, satisfeita, a oficina aquecer as forjas, fagulhas saltavam em vermelho e preto. Aplausos ao final.

A segunda parte dos trabalhos estava reservada à conceituação de crônica. Sob a maestria da preceptora separada judicialmente os aprendizes formaram grupos e mergulharam em discussões acaloradas, à cata da melhor definição. O cronista, à parte, contemplava distraído a nuca da garça, no grupo à sua frente, fruindo a branda aragem que vinha da janela.

Algum tempo depois os conceitos já podiam ser lidos, apesar dos retardatários. O cronista reteve na memória o mais risonho deles — crônica é o registro do efêmero na diuturnidade do quotidiano — e esqueceu os outros, elaboradíssimos, falando até de emissor e receptor dos textos, referindo-se a autor e leitor.

Quando tudo parecia terminado, a garça do pescoço viçoso pediu que o cronista também desse a sua definição. Ele quis tergiversar mas foi derrotado pelo coro crescente dos fala, fala, fala.

Então, sorrindo uma segunda vez pelo cacoete antigo, disse:

— Crônica é uma borboleta de brisa numa nuca de mulher.

Os aprendizes romperam em palmas sem saber exatamente por quê.



DORES UMA, DORES DUAS, DORES DEZ

Ninguém deve dizer que nunca irá a Dores do Rio Preto. Eu, que estive lá, dou-lhes uma, dou-lhes duas, dou-lhes dez razões, todas apreciáveis, para se ir a Dores. E a primeira já está dita, é este privilégio de tratar a cidade com afável intimidade, chamando-a Dores. Não é primazia rara?

A segunda razão é poder se dar ao luxo de conhecer o local onde dorme a pachorra sono denso, quase pétreo. Dá gosto se chegar em Dores e afundar nas painas de sua malemolência tépida. Tem-se a impressão de que se está no miolo de um novelo de lã, dando vontade até de ronronar entre um e outro miado lanífero para não se olvidar o som da própria voz. Um gozo.

A razão terceira ponho-a à conta de uma controvérsia. Controvérsia em Dores do Rio Preto, estranharão os céticos. E eu lhes digo que sim, fomentando hipotética questão em torno do nome da cidade.

Garante o povo que lá habita — os dores-do-rio-pretenses — que este dores vem de Nossa Senhora das Dores, o que daria, na sua forma nominal completa, Nossa Senhora das Dores do Rio Preto. Eu, porém, que cultivo o hábito do contraditório, prefiro ver aquele dores sob halo poético, associando-o às dores de um parto líquido, às águas que dão nascimento ao Itabapoana, do qual o rio Preto é a costela formadora. Pode-se alegar que tal versão é rebuscada, mas não se pode negar que seja poética. No entanto, se não tivesse eu estado em Dores do Rio Preto jamais o meu viés de poeta se teria ocupado nela.

A quarta razão que lhes dou é para comprovar, com a surpresa nos olhos, que o rio preto de Dores é um rio pardo. Um pardo fluxo estreito e manso que se espreme indolente entre sua margem capixaba e a mineira.

Diz o povo que lá habita que o Preto engrossa na estação das águas e degringola interestadual, acometendo as margens com ímpeto de assaltante. Mas não foi este bravio rio pardo que vi em Dores do Rio Preto. O rio visto tinha a andadura lerda de uma lagartixa ao sol, mostrando sua inconfundível cara de afluente sonolento, parecendo navegar, compenetrado e domingueiro, para uma Assembléia de Deus. Mas valeu — e vale — apreciá-lo em seu passo taruíra, embora capaz de se converter em surucucu revolta para tragar os tranqüilos boizinhos que suas margens apascentam.

A quinta razão para visitar Dores do Rio Preto tiro-a de estar a cidade na divisa com Minas Gerais, tanto que se chamou Divisa. Paira, assim, no lugar, sob o céu translúcido, o sortilégio bandoleiro da fronteira sugerindo soturnas histórias de contrabando. Ou, numa segunda sugestão, despertando a possibilidade de nos fazermos emigrantes com algumas peregrinas passadas sobre a ponte. Num momento estamos na margem capixaba do rio Preto; no momento seguinte, eis-nos em terra alheia, nos rincões mineiros. Viramos imigrantes. Tudo isso sem depender de passaporte, sem pagar pedágio, sem pedir licença ao bispo.

A sexta razão? A sexta razão, nesta apologia de motivos, é a divisa que a ferrovia deixou na rua da velha Divisa. A ferrovia, e a estação do trem que ali estacionava a caminho de Carangola, não existem mais. Mas o traço dessa existência sobrevive na separação entre as antigas casas do tempo da ferrovia e as casas novas, edificadas do outro lado da rua após a remoção dos trilhos e da estação. Concordo que se trata de curiosidade local muito específica, para ser apreciada apenas pelos que têm senso histórico como eu. Mas, neste caso, é deleite soberbo.

A sétima razão para se conhecer o lugar é se estar próximo ao Caparaó onde avulta o pico da Bandeira. E apesar de não se descortinar dali o monumentoso pico, sabê-lo perto, um pouco ao norte, talvez a noroeste, dá à alma inefável prazer geográfico. Experimentem.

A oitava razão deve-se a Paula, à adolescente que, como passarinho esvoaçante, faz o tipo popular de Dores, estendendo a mão aos que chegam, num gesto de recepção, eu sou Paula, você quem é?

Privar da hospitalidade da gente local e reencontrar Marcos Tavares, o generoso e nobre Marcos Tavares que nidificou em Dores do Rio Preto, onde se fez fiscal da fazenda estadual, constitui a nona razão de uma ida até lá. E sabem de uma coisa? O erário estadual não merece Marcos Tavares. É bom demais para o erário e está sendo ruim para as letras capixabas.

Finalmente a décima razão para se conhecer Dores do Rio Preto é se poder dizer depois, ufano da vida: eu estive em Dores do Rio Preto. E você?



AS CINZAS DAS HORAS

Na feira de antigüidades procuro a missa em latim e os quadros da via crucis. Mas o que vejo, no amplo espaço improvisado da exposição, no interior do shopping, são móveis de vários estilos, bibelôs e camafeus, louças genuinamente inglesas pintadas à inglesa, finíssimos cristais em mudas transparências, a cadeira de balanço com encosto de palhinha posta em vazia quietude. Em frente, uma cama de viúva expõe seu triste e inglório desamparo. Ao pé dela, a escarradeira com florões azuis e obsceno orifício central é um escárnio à parte, sugerindo verdes bronquites em arfantes madrugadas.

A peça com seus florões é a deixa para que o amigo que me acompanha (na verdade foi ele quem me puxou para a exposição) conte-me certa historinha antiga, sacada do prodigioso repertório de sua memória.

— Dizem — relata com voz de trovão — que Jerônimo Monteiro tinha um compadre, coronelão do interior, que, quando o visitava em palácio, cuspinhava rusticamente o luzidio assoalho da sala governamental. Antes de uma dessas visitas, Jerônimo mandou colocar escarradeiras próximas ao lugar onde o amigo costumava se sentar. Ele, porém, continuou a emplastrar o verniz do assoalho com as ostras do pigarro grosso até que, não se contendo mais, esbravejou:

— Olha, Jeronho, é bom você mandar tirar esses vasos do chão senão vou acabar cuspindo neles.

Delicio-me com a anedota observando o grande relógio de pé, em forma de móvel, a face branca vincada de algarismos romanos, o longo pêndulo terminando em aro solar.

Consulto o antiquário que me informa, repassando com judia competência a percalina dos preços, que o relógio custa 1.600 dólares. É uma pechincha, parecem dizer seus olhinhos de connoisseur, pressentindo, pelo meu interesse, a possibilidade da venda. Se lhe fizesse outra pergunta seria capaz de me chamar de Vossa Excelência, assim mesmo, por extenso. Eu, Vossa Excelência, estaria fazendo um ótimo negócio.

Calo-me, todavia, em intimista reserva. Não valia a pena explicar que estava apenas sondando o preço porque, em minha casa materna, temos um relógio semelhante àquele, mais nobre até, que se dá ao cacoete, que se tornou familiar, de repetir as horas em toques de sacristia como querendo frisar a fuga imbarrável da areia do tempo pela porta da varanda.

Durante anos vi e ouvi meu pai, na função de cabeça do casal, dar corda ao relógio com a manivelinha retirada do interior da caixa do pêndulo, como de discreto bolsinho do colete.

O ritual se repetia semanalmente, sempre que os dois contrapesos cilíndricos, visíveis através da portinhola de vidro, quase botavam os calcanhares no chão, descendo nos cordéis paralelos atrás do pêndulo dourado. Movia-se o pêndulo em passadas calmas dentro da caixa de jacarandá, fluíam os contrapesos imperceptivelmente nas linhas das horas. Envelhecíamos em família.

Para dar corda ao relógio era preciso gentileza e apreço para não desfazer o ponto de equilíbrio das caixas que o formavam, a do mostrador, a do pêndulo longilíneo e a da base.

Quando o conjunto se desentrosava, o relógio parava, sensível. O retorno à posição anterior era complicado, exigia gestos meticulosos, tentativas sucessivas. Fazia-se necessário que meu pai, com paciência de relojoeiro, reaprumasse o grande móvel em seu corpo de três peças, o ouvido colado à caixa do pêndulo para melhor captar o movimento da terra em torno do sol.

Vendo-o abraçado e de rosto colado ao corpo enorme, quase o dobro do seu, tinha a irônica impressão de que estava prestes a assistir, em plena sala, a uma dança ao som de tique-taques.

Hoje a dança se tornou um sonho e quem dá corda ao relógio é minha mãe. Mais baixa do que meu pai, extrema-se em sua fragilidade octogenária para não tirar o relógio do eixo da precisão quando realimenta, com a pequena manivela, as molas do tempo.

Reconsidero então a tabela dos preços folheada pelo antiquário com dedos de percalina. Tenho vontade de lhe dizer, ao deixar a feira:

— 1.600 dólares é pouco, vale muito mais. Vale as cinzas das horas que já marcou.



A DURAS PEDRAS

Naqueles tempos as ruas de Vitória eram calçadas a paralelepípedos. O paralelepípedo, como todos sabem, é um bloco de pedra em forma de paralelepípedo, embora nem todos os blocos tivessem exatamente essa forma. Havia os grandes, os médios (que eram maioria) e alguns menores — é bom dizer menorinhos — que mais semelhavam cubos. Estes, quando assentados nas ruas, de tão menores, destoavam dos demais, chamando atenção como filhos caçulas das pedreiras, postos no chão entre seus irmãos, de tamanho maior.

Naquele tempo tiravam-se os paralelepípedos manualmente das pedreiras; ou melhor, das lascas das pedreiras, que as dinamites abriam em lajes. Primeiro, o cavouqueiro fazia uma fiada de furinhos na encosta da pedreira, a martelo e ponteira de ferro. Vez por outra, com uma canequinha de latão, atirava dentro do furo, que estava preparando, um pouco d'água para refrescá-lo. Ao contato com a água a pedra chiava como bicho ferido. Depois, com dedos destros e muito jeito, introduzia as bananas de dinamite nos buracos, quando não pocava a pedra a fogacho mesmo. Antes, porém, de acender o pavio, era mister interromper o trânsito próximo à pedreira (a do Saldanha era uma delas) com a bandeirola vermelha, que sinalizava perigo. Só aí explodia a crosta pondo o corisco de fogo no pavio. A chuva de pedras caía em fronte, enquanto a asa da pedreira se despregava do resto do corpo de granito.

Feito isto, era sentar diante da pedra lascada e, à pedra lascada, entregar-se a decompô-la em paralelepípedos, na munheca. Para marcar o campo desse artesanato rupestre, o quebrador de pedras valia-se de um retângulo de latão, geralmente enferrujado — o quadro — que delimitava as ponteiradas. Os tais blocos menorinhos, supra referidos, eram as sobras das lajes, assim penso eu com meu atilado intelectualismo. Mas como este esclarecimento nunca procurei, também pode ser que eu esteja enganado. Na verdade, de pedra, a doutrina que sei é que nela, que é dura, bate a água mole até que fura.

Quando, finalmente, depois de muito martelar diário sob sol ou chuva, produzia-se uma grande pilha de paralelepípedos, vinha a caçamba da prefeitura e os levava para a rua a ser calçada. Esta já estava de leito preparado para receber o calçamento. A caçamba chegava e despejava os blocos carroceria abaixo numa estrondosa cachoeira de pedras rolantes.

No chão, o calceteiro estendia a linha presa pelas extremidades em dois pregos, marcando o alinhamento dos paralelepípedos a serem assentados. Cada paralelepípedo era colocado à mão, na camada grossa de areia espalhada previamente sobre a rua, paralelepípedo a paralelepípedo emparelhadamente. Quem quiser ter a idéia fiel deste trabalho basta juntar esta última frase numa palavra só: paralelepípedoaparalelepípedoemparelhadamente.

A ferramenta usada para o serviço, que se fazia curvado, tinha, numa ponta, a pá, com que o calceteiro revolvia a areia; na outra, uma cabeça de martelo. Com a cabeça do martelete ele dava, no cocuruto de cada paralelepípedo, umas porradinhas estridentes para que eles jamais pensassem em sair dali, exceto a poder de picaretas. Mas, como seguro morreu de velho, vinha em seguida o carro que mais parecia uma locomotiva, com seu grosso rolo compressor para passar e repassar sobre os paralelepípedos, compactando-os compactadinhos na rua concluída. Nem sopro do Diabo os retirava mais, e a rua ficava um capricho de feitura, dando-se o luxo de ter lombada para que a água das chuvas, que não quisesse se infiltrar através da areia entre os paralelepípedos, chegasse ao meio-fio, entrasse nos bueiros e ganhasse o mar, que é para onde deve ir a água das chuvas que caem nas cidades.

Assim, a duras pedras, calçavam-se as ruas da cidade antiga. Por que este assunto me veio à baila? A resposta está nas fotos de Mazzei reproduzidas nesta edição, [*]com ruas de paralelepípedos onde passavam honoráveis Citroëns ao lado de carroças puxadas a burro.

[*] O autor refere-se à edição da revista Você (n. 27, de outubro-novembro de 1994) em que esta crônica foi originalmente publicada.



TRIANON: UM SOUVENIR

Abrir um cinema em Jucutuquara, ora direis, acaso perdeste o tino. Pois vos digo que o Georges Henri Delanos perdeu sim e ergueu ali o Cine Trianon. E o Trianon, com jeito de armazém e fascínio de lanterna mágica, veio cavalgando arrojos, enfrentando o establishment do Glória e do Carlos Gomes, imperantes em plena praça Costa Pereira.

No final dos anos quarenta, se bem me lembro, só havia três coisas em Jucutuquara, tirante o valão a céu aberto da Paulino Müller: a gente jucutuquarense, a Escola Técnica de Vitória e o estádio Governador Bley. Pensando bem, creio que o próprio Frei Leopardi, com suas duas cavernas em forma de órbitas, somente apareceu depois, falo granítico em rictus nupcial.

Fradinhos, a montante, ainda era um sovaco da Mata Atlântica; Maruípe, logo a seguir, respirando bons ares silvestres, era lugar de clima para cura da tísica, ambiente rural onde cabritos à solta comiam do capim dos morros. O bonde, por exemplo, virava os bancos no final de Jucutuquara como se, dali, a civilização voltasse as costas a Fradinhos e Maruípe.

Postado em pachorrento vale, Jucutuquara — ou o buraco da coruja, se preferirem — tinha ainda outra particularidade: não era começo, nem fim, era meio entre o centro de Vitória e a Praia Comprida. E embora o trajeto de Jucutuquara ao Centro fosse o que ainda é, meia avenida Vitória mais meia Jerônimo Monteiro (na época avenida Capixaba), nenhum cidadão que se prezava fazia, como não faz até hoje, esse trajeto a pé.

De forma que era de bonde ou de carro que se ia ao Cine Trianon. Mas se ia — eu fui, tu foste, todos fomos. Como deixar de ir?

Não ir era ficar submisso ao jugo da Empresa Santos, responsável pelo Glória e pelo Carlos Gomes, domínio hollywoodianos. Não ir era ferir o orgulho da nação jucutuquarense que se envaidecia da presença do Trianon dentro de casa. Não ir era, sobretudo, abdicar da janela que Delanos, com coragem gaulesa, havia aberto do buraco da coruja sobre a Europa, trazendo para Vitória a revolução neo-realista do cinema do pós-guerra. Aquilatai, senhores, este progresso.

Aquilatemos.

Graças ao Trianon tornaram-se inteligíveis, em Vitória, as críticas das colunas especializadas dos suplementos literários publicados nos jornais cariocas sobre o cinema europeu. Graças ao Trianon, Rosselinis e outros inovadores viraram tema de conversa de cinéfilos capixabas. Graças ao Trianon, e que me relevem o trocadilho, fez-se a Lumière em Vitória.

Compreenda-se por que o Trianon se transformou no Cahiers du Cinéma da minha geração, o elo faltante na minha perspectiva vanguardista de aldeão vitoriense.

O Trianon criou ainda guardados sentimentais. Nele, adolescente, perguntei a minha namoradinha se podia segurar na sua mão. Estávamos na matinê, a penumbra impunha atrevimentos, eu começava a me tornar um vanguardista. Ela respondeu que era cedo, e era. Suaves trianonices.

No Trianon, algum tempo depois, eu, meu irmão e meu pai assistimos a um filme que viraria cult, O terceiro homem. Bom de ouvido, bom de assovio, meu pai saiu do cinema assoviando o tema do filme, que também virou clássico.

Meu pai se foi, o Trianon, idem. Hoje, porém, quando ouço a mesma música, lembro do terceiro homem no Trianon, naquela noite, junto a mim e a meu irmão.



OS OLHOS DE MARIANITA

Pretos que nem carvão eram os olhos de Marianita, disto sabia o menino e, como ele, os meninos da cidade antiga onde, na canção das cirandas, por todas as partes, em todos os bairros, apregoava-se o negrume dos olhos de Marianita, que fim levaram esses olhos, Deus meu, onde se escondem hoje, oh Nossa Senhora das Nostalgias, os olhos de ébano de Marianita nunca mais vistos, nunca mais ouvidos pelo menino na cidade que deixou de ser antiga e se perdeu em gradativas perdas, a canção das cirandas foi uma dessas perdas levando para lugares incertos e não sabidos os olhos acarvoados de Marianita que enfeitavam as rondas infantis nas ruas de simétricos paralelepípedos quando o dia se recolhia no ventre da noite, um pouco antes ou um pouco depois da hora eucarística do ângelus, na cidade antiga de casas térreas e sobrados recatados que parecia tão senhora de si, tão irretocável, tão indestrutível e eterna em sua circular geografia de ilha tendo, a leste, a praia do Barracão e o oceano e, a ocidente, a curva de Caratoíra e um veio do mesmo oceano espremido entre os rebordos da ilha e do continente imediato, mais semelhando rio do que língua de mar represado em goela de terra, sobre esses limites, sobre esse leste e esse oeste insulares perpassavam, como libélulas sonoras tangidas pelo vento menestrel, as letras e as sílabas da canção de Marianita, a que tinha olhos de tição, entoada pelas vozes das meninas no gira-gira das cirandas girassóis, ai sim, Marianita sim, ai não, Marianita não, nesses versos brejeiros insinuava-se uma brejeira malícia inalcançada pela candura das meninas canoras, fugidia à percepção do menino pela simples razão de ser ainda menino, de ainda lhe serem fugidios os pecados da vida, os sete, os capitais, e os de acréscimo, venais e venéreos, são, portanto, limpos os olhos e os ouvidos do menino, desprovidos da adulta ciência para saber o que havia na esquivança daquele sim e daquele não, ai sim, Marianita sim, ai não, Marianita não, a ecumênica esquivança do sim e do não de todas as Marias Anitas do mundo, o doce prometer e o amargo negar, o vislumbre do aceno e a certeza do equívoco, a promessa da gala e o desencanto da evasiva, um dar-de-si e um não-se-dar-de-si, ai de ti, menino, foge, foge dos olhos negros de Marianita que, no entanto, vão te seguir pela vida afora no sopro do vento menestrel, o que transporta como fantasma os musgos da saudade, os olhos de Marianita escondem um feitiço temperado de sal e de vendavais, de golfões de areia e de encapelas vagas, porque são olhos peregrinos que cruzaram desertos e deslizaram sobre mares até serem cravados na península Ibérica onde se misturaram no sangue das cimitarras e no sangue das donzelas, fazendo-se lusitanos sem que lhes esmaecesse a inapagável centelha mourisca no âmago dos carvões luzidios e redondos, os olhos orientais de Marianita, seus olhos de alcova, foge, oh menino, foge dessas esferas abissais e sarracenas, nelas sobrevivem meias luas árabes de pontiagudos cornos, nelas sobrepaira a imagem das caravelas que nos trouxeram esses olhos de Portugal até as ruas da cidade antiga velejando o Mar Oceano quando ele ainda era Tenebroso, ele próprio um incomensurável olho líquido de verdes e azuis tonalidades, com negrume de pélagos como o dos olhos de carvão de Marianita, cantados no redemoinho das cirandas alegres, nas ondas das rondas das meninas cirândulas que, frescas e vestais, apregoavam o pretume dos olhos de Marianita junto com o sim e o não de Marianita, o dar-de-si e o não-se-dar de Marianita, nas rodas girassóis que rodopiavam nas ruas de simétricos paralelepípedos, quando o dia amainava e soava a hora eucarística do ângelus, ai sim, Marianita sim, ai não, Marianita não, nas tardes vadias e ternas da cidade antiga.

[Transcritos de Escrivão da frota, IHGES-Cultural-ES, 1977.]

Luiz Guilherme Santos Neves (autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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