NUM DOMINGO, DIA DE FEIRA À minha irmã Martha Tavares Num domingo, dia de feira. Multidão em tumulto, indo e vindo, como onda. Entr...

Crônicas do livro No escuro, armados

2/01/2016 , , 0 Comentários


NUM DOMINGO, DIA DE FEIRA

À minha irmã Martha Tavares

Num domingo, dia de feira.

Multidão em tumulto, indo e vindo, como onda.

Entre a multidão, que se vai propagando e propagando, vaga misteriosa mulher, vadia.

Procura-se, em vão, espaço para se instalar negócio.

Mãos e olhos, olhos e mãos, em troca de compra e venda.

Alguém vende algo doce: algodão doce.

Aipim, batata doce e mandioca, lê-se a propaganda.

— Olha o limão! Olha o limão! — a voz pouca e rouca de um velho de olhar amargo e aspecto abatido; fora, outrora, elogiável gritador de "jiló".

Ávidos em comerciar, os mais vívidos gritam mais alto os preços dos produtos.

Dá-se a cada freguês laranja lima a navalha descascada, com esmero.

Uma menina mendiga furta uma fruta-pão. Por policial detida, prova — ou simula bem — estar farta de fome: como faminta, come-a loucamente, diante da pequena multidão já em volta aglomerada. É tida e reconhecida como louca. E logo posta em liberdade. Alguns lhe dão umas moedas: desfruta do auxílio de muitos poucos, afora os que a vêem alvo de gracejos. Mais adiante, porém, furta uma outra fruta, menor, e sai, furtivamente. Evita, no entanto, o juiz de menores.

Jovem anêmico, e raquítico, hesita na escolha de vitamina de tal ou qual fruta. Mas logo desanima.

— Vendo feijão preto! — um mulatinho, esperto, a mandar às favas os que por soja perguntam ou apenas observam, enquanto seu irmão maior recolhe, sujas as mãos, os pequenos grãos pelo chão espalhados.

— Castanha-do-pará para acabar! — um sotaque nortista, acanhado.

Um cão, ferido, raivosamente briga com outro, são. Este foge, rosnando, a exibir os dentes. Motivo da briga: um osso enorme, lançado fora, com o propósito de incitá-los.

Senhoras maduras, mal remuneradas, admiram somente a verdura das hortaliças. Uma aguarda, esperançosa, cesta à mão, que, ao final da feira, se reduza o preço das bananas verdes, então vendidas a valores inacessíveis à sua bolsa. De vez em quando observa as tabelas. "Belas bananas", fala consigo. Outra comenta o aumento dos legumes e, por questão de classe, protesta a média voz.

Em gritos de pregão, dois vendedores concorrem:

— Rapadura de gengibre!

— Jaca mole madura é aqui!

A recolher restos para os porcos, os rastos da multidão um menino mal arrumado segue.

— Corre que lá vem o rapa! — com a vinda dos fiscais da Prefeitura, a dura venda dos sem licença ou sem documento, que se dispersam feito vento, apesar de feira livre, num domingo.

Agricultura farta, fruta barata, anuncia um vendedor de maçãs importadas. Caras, segundo opinião pública. A ninguém importa, mas ele anuncia.

Seis senhoras de cesta criticam o custo da dúzia de laranjas — e mexericas — e brigam até à redução: para o lar vão satisfeitas, a misturar com o gosto da vitória o amargo das cítricas.

Dois sotaques nordestinos, secos:

— Mamão macho da Paraíba, maxixe e cana caiana.

— Coco da Bahia, vatapá e cocada baiana.

Magros meninos, nanicos, oferecem-se a carregar pesadas bolsas, cheias de mercadorias. Outros, igualmente menores, carentes e/ou parentes, agem em sacolas e/ou vagem em pedidos de esmola.

Um feirante confere a féria do dia, maior do que aos feriados, enquanto o ajudante, em tarefa de mudar os preços, dobra as mangas da suada camisa.

Galinhas, à venda, cacarejam apenas, ante a hora da morte às mãos de estranho algoz. Uma dona-de-casa, abastada e penosa, penalizada delas, compra cinco carijós para soltá-las no quintal. Compara-as aos humanos. É contra a pena de morte. Além de vegetariana. Acha horrível a morte dos animais, sem ao menos uma venda aos olhos.

Ao redor da improvisada peixaria esvoaçam moscas. Expulsa-as o vendedor, a brandir, histérico, longo e fino peixe espada. Outro grita "sargo fresco e bonito" e em sua direção movem olhares as mulheres.

"Macarrão com camarão", um novo prato propõe-se entre compradoras de um e outro, ambas comadres.

Rara espécie em feiras, um senhor de aspecto nobre interroga, com voz doce, onde encontrar fruta-do-conde. Mal lhe responde o vendedor de pimentas, o rosto a arder de ira, por haver vendido pouco, e o estômago a reclamar alimento. Quase azul, com seus haveres vai-se embora por via mais próxima, estreita. Esbarra, no caminho, com mercador de pimentão. Resmunga.

Longe, não muito, ouve-se "olha o couve, couve-flor, couve-brócolo e couve-manteiga". É o coveiro da região, que, em folga do cemitério, comercia hortaliças de seu próprio plantio: além dos óbituais sete palmos, terras de cultivo conhece a fundo como se a própria palma da mão, segundo seu mesmo cultivado modo de falar.

Procuram-se, entre a multidão, abricós. É a costureira de nome e renome nas redondezas.

A um canto acha-se, agachado, o menino de olhar choroso, que, com alhos verdes, vende também cebolinhas e cebolas, quando não flores em botão.

Com faca de dois gumes — e certa arte — corta um mexicano melancias em duas partes semelhantes. E as põe à mostra a fim de se ver melhor o vermelho delas. Uma senhora gorda e avermelhada pergunta-lhe por cenoura, mas, logo, seu olho direito fita um repolho à esquerda. Ansiosa, apalpa-o por certo tempo. Balança-o. Logo o repõe no lugar. Acaba por comprar abacate, abacaxi, abricó e tomate.

Vindo do interior, louro hortelão expõe, timidamente, seus produtos: salsa, coentro e hortelã. Não faz propaganda. Embora silencioso comercia, porém, brotos de boa safra.

Policiais detêm um bêbado trôpego e dão batidas em supostos vadios. Estes, desorientados, mostram os bolsos, vazios, como de praxe, assim como é de praxe detenções e batidas, num domingo, dia de feira. Em carteira furtada: a féria e documentos. É a lei.

A multidão em constante movimento como se pelo vento movida, faz inventosos vaivéns, como ondas, ou ora em girares qual catavento ou redemoinho. Ou então qual tentáculos de gigantesco polvo.

Pleno o sol, já a pino, a requeimar as faces.

Da festa da feira, resta enorme estoque de pepino e alface. Sério, pensa o negociante: "Fácil seria a venda a preço de primeira mão. Mas não compensa. Melhor aguardá-los para segunda, o dia seguinte. É a lei da oferta e procura."

Alguém procura por alguém perdido.

Em meio a conversa de nenhum assunto, dois homens, meio ébrios, bebem batidas. Enquanto isso, o sóbrio feirante conserva os jenipapos num saco já cheio deles.

Alguém oferta algo a alguém. É a lei.

Laranja aqui é uma uva. Jaca por preço de cajá. Banana a preço de banana, para ir embora. Abóbora aberta e fechada. Chuchu com X ou CH. Abacaxi a baixo preço. Aqui quem manda é o freguês. Picolé e sorvete. É chegar e levar. Caqui é aqui mesmo. Suco de morango para matar a sede. É hora de ir embora. Beterrabanete. Maracujambola. Milho verde para quem quiser ver e comprar. Batida de pêssego. Bananica a preço pequeno. Morena cor de jambo não paga o produto. Passas e ameixas estrangeiras. Pêra argentina a preço nacional. Manzanas brasilianas. Bananas aqui da terra mesmo. É comprar, levar e lavar. Alface crespa e francesa. Uvas brancas, pretas e rosadas. É comprar e comprovar. Pega ladrão, pega. Uva italiana. Olha o preço do cação. Uma esmola pelo amor ao próximo. Um auxílio para o cego. Três quilos para a madame. Tomate aqui é de graça. Cuidado com o fiscal. É para acabar. Jaca dura é moleza. Galinha já abatida com abatimento. O preço, o preço é do povo. Coma ovo de codorna. Mamão aqui na minha mão. Hoje é mole. Para se ver e vender. Olha a jabuticaba já acabando. Acabando. Acabando. Olha a banda da melancia. Acabando. Acabando. Olha que tudo se acaba: abacate, abacaxi e abricó. Acabando. Acabando.

Os fregueses fim-de-feira se acabando. Restam alguns: bandos esparsos, rostos à procura do que restou do acabado. Depois, cada qual para sua banda, melhor, seu lado. A feira se acabando. Acabando. Acabando. É como um campo de batalha, após acabada a batalha. As barracas quais barricadas, algumas já desarmadas, soado o alarme de trégua. Troços e destroços, os traços da fúria comercial. Mas sem feridos.

Enfim, num domingo, fim de feira.

[p. 104-9.]

* * * * *

FROM DORES DO RIO PRETO, WITH LOVE

Porque eu poderia estar em frente ao Big Bem e não estou, estou diante do relógio da matriz católica a ver o tempo passar e não posso me afogar nas águas do Tâmisa porque o rio que corre nesta cidade, limitando-a, é o rio Preto, e porque é meio-dia e estou a ver o tempo no relógio, não esqueço que não estou no coração de Nova York, e estas pessoas que passam, poucas, me acenam porque não estou sobre a ponte sobre o Hudson nem estou pronto para o mergulho com uma pedra amarrada ao pescoço. Porque não posso me lançar do último andar do Empire State estou na praça ao meio-dia nesta cidade de poucos habitantes, e não posso me lançar de andar algum porque nenhum edifício está situado nesta latitude, e meu coração me atrapalha as pernas. Porque não empunho um revólver apontado ao meu próprio ouvido, estou nesta cidade, sendo alvo de olhares, todos muito discretos, porque estou na praça da matriz católica e não estou na catedral de Notre Dame nem estou no Louvre a ver minha própria imagem de cera. E como não posso ver a baía de Vitória nem a baía dos Porcos, estou com um míssil apontado para o meu miocárdio, enquanto a moça dos Correios me anuncia a chegada de uma carta que poderia vir de Londres, Berlim ou Paris, mas não. Porque estou com um pé aqui e outro ali, um num Estado, outro no outro, um rio corre entre minhas pernas, e corta-me o coração banhado, um rio doce corre. E como não estou com os olhos banhados de lágrimas, um rio corre em meu rosto e prossegue sua história neste mapa de lembranças, porque Hong Kong está muito longe de mim, está longe e não devo me apressar para a hora da morte porque sei que um franco atirador me tem por alvo e não entrincheirado estou neste lugar assim como estive em Dallas, quando sobre mim caiu pesado sono, e o sonho veio. E estive perto da solidão, em Arizona, aqui. E pesada solidão desaba sobre meu chapéu, e tenho meu lugar à sombra, longe do sol, longe assim, agora.

[p. 110-1.]


[In No escuro, armados, de Marcos Tavares, Anima/Fundação Ceciliano Abel de Almeida-Ufes, Rio de Janeiro/Vitória, 1987. Reprodução autorizada pelo autor.]


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Marcos Tavares, poeta, contista e cronista, nasceu em Vitória, 1957, radicou-se em Dores do Rio Preto. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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