O AFOGADO DO MEU SONHO o meu corpo estampa a alma errada. minha alma certa foi sonhar e deixou no lugar esta afogada. quero que que...

Poemas selecionados do livro A fuga e o vento

2/01/2016 , , 0 Comentários


O AFOGADO DO MEU SONHO


o meu corpo estampa a alma errada.
minha alma certa foi sonhar
e deixou no lugar
esta afogada.

quero que quero ser paisagem
na clara bóia da tua retina,
mas, habitante
constante
de uma única miragem,
permaneço, inconfundível,
palhaço.

que o meu corpo também foi sonhar
e deixou no meu lugar
este afogado.



FOCO


alimento
a nitidez
fato a fato
mês a mês
alimento
fato a fato
a whxnitideez
alimento
mês a mês
a ztknyiqtideeszssz
fato a fato
alimento
mês a mês
a ztkfjlmynyivvxqtwiydeeusz
mês a mês
alimento
fato a fato
a
?



SEM DISCUSSÃO


gosto
desse gosto
de sexo
fixo
em seu vestido

gosto
dessa lembrança
de riso
em seus cabelos

gosto
da sua boca
mastigando
macarrão

e gosto
da sua coluna vertebral

SINTÉTICA
o amor bulindo o peito: refutar.
o poema é seu destino.

(este calarfrio é um som
que se propaga na carne
e o corpo diz: ai!)



NÁUSEA


enjoa-me a paisagem do quarto
perfeita e inútil dos meus gestos

ozumbidoininterruptodoespanto
e o silêncio das fotografias sem pretérito
contra as molduras de cupins
enjoam-me
enjoam-me
como o claustro
(não ver as tardes escorrendo das coisas)
e a família
— fantasmas da casa

(em cada réstia-hóstia
de nossa memória
um rato naufraga sem tempo
indeciso entre a amnésia e o vômito)

minha vida é composta de ratos

mantenho-a
como se fosse uma facada
— mo
vida
a
bile



CANTO SENIL


de tanto uso
minhas horas estão gastas
e o que nos prende ao outro
não tarda em apodrecer

o século passou-me sorrateiro
como a luxúria
as conspirações
e as crises de esterilidade

o século cumpriu seu tempo
a tempo de me velar

o século é um velho irratorquível
e de tanto uso
todos os meus sentimentos estão gastos

não tardo a apodrecer



GRAVATA


dagmar não aperte o meu pescoço
nem despregue os botões da minha calça
nem me perdoe se sou pesado e frouxo
nem coroe com seu pesar o meu fracasso

(se já não posso elucidar os seus mistérios
em que pese elidir-me à sua pele
se meu plasma circundado está de germes
se meu sêmen enfraquecido faz-me estéril
quem sou eu que já não possa ser de vermes
coberto embora guardado em terra santa?
que já não possa ter meu verso pelos cantos
também cansado sem mais poder refazer-se?)

mas dagmar não aperte o meu pescoço
que a vivência que lhe trago é muito longa
e o pouco tempo que me resta a desfiá-la
tome-o então como prêmio ao teu esforço

(que não sejam porém minhas feridas
encharcadas de sua bile multicor
se depois do meu silêncio as horas mortas
forem herança ao seu prazer repartida)

porque agora só me resta caminhar
não me culpe que sou pesado e frouxo
se quiser faça-me ainda um seu escravo
mas não aperte o meu pescoço dagmar



SE FALTAREM POEMAS

A Oscar Gama Filho
Situação de medo e voragem:
estou a calar a lágrima
entre a carne afoita.

Simbólico preço, o do eufemismo
bucólico (causa e pavor):
situação de plaina e geografia.

Refaz-se a peregrinação da palavra.

Divisas estereotipadas, / o caos se move /
a passos de jogral. / Passagem dos calos /
e a rigidez. /

Solução das palavras:
dos calos geográficos
ressurgem gemidos.


[In A fuga e o vento, edição mimeografada, 1980. Reprodução autorizada pelo autor.]


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Miguel Arcanjo Marvilla de Oliveira nasceu em Marataízes, ES, em 29 de setembro de 1959 e faleceu em Vitória, em 2009. Mudou-se com os pais para Vitória em 1964. Poeta, concluiu em 1996 o curso de graduação em Letras-Inglês na Ufes e cursou o mestrado em História na mesma universidade. Publicou diversos livros. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui.)

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