II O coração contempla, indiferente, os rastos de alguns sonhos no papel, os pensamentos líquidos da gente, que a alma, distraída, es...

Poemas selecionados do livro Sonetos da despaixão

2/01/2016 , , 0 Comentários


II


O coração contempla, indiferente,
os rastos de alguns sonhos no papel,
os pensamentos líquidos da gente,
que a alma, distraída, esquece ao léu.

Os dias de lembrar mal terminaram
e, agora que esquecer já começou,
com seu ritmo cheio de fantasmas
(e isso há de ser assim todas as noites),

o coração, calando, não consente
que as vagas de lembranças interditem
as margens de nossa alma não escritas.

É que ele teme verdadeiramente
o abismo sem sinônimos que existe
por trás de cada pena revivida.



IV


Os fantasmas se queimam, como queimam
uns lembrarmos de partir sem deixar pistas.
Mas começa a meia-noite e estar aqui
não é um pouco sinal de desistir?

Quem passou pela rua nesta hora,
fosse homem, bicho, árvore ou poeira,
teve medo de entrar, ficou de fora,
deu no pé, passou ao largo, e a verdadeira

essência do que houve, ignorada,
isenta de versões desencontradas,
foi ficando como está, recém-havida:

um olhar, que foge ao frio e se aproxima
do braseiro da memória, não consegue
se livrar, e permanece, permanece.



IX

Gloria victis.

Nem sombra mais de antigas fantasias,
nem fogos de artifício em teus umbrais;
apenas no silêncio se apagando
teu rosto exato, teus risos imortais.

Por isso é que, talvez, já desfrutados
o tempo hábil e a conjectura rara,
eu teça agora um ritmo de escombros:
é para que te sirva de mortalha.

Dos sonhos de viagens oceânicas,
do louco imaginar-me em tua alma,
nem réstia mais de gosto — tudo engano:

além da pele era o deserto,
além desse deserto era tão o nada,
que apenas com calar-me eu te disperso.



XIII


Das vertentes douradas do teu canto,
a lâmina da voz umedecida
não voltasse ao ponto de partida,
e ficasse no ar com seus arranjos.

Chovesse, e logo se desmancharia
a pronúncia das vogais e dos teus erres
em silêncios propagados através
deste outono sem paz e sem medidas.

Onde mais germinassem, sustenidos,
teus solfejos, trinados e suspiros
e o que mais revelasse do fracasso

das palavras esta solidão: tão fácil
era estares sumida na sintaxe
do teu canto vazio, que me afasto.


[In  Sonetos da despaixão. 1996. Reprodução autorizada pelo autor.]

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Miguel Arcanjo Marvilla de Oliveira nasceu em Marataízes, ES, em 29 de setembro de 1959 e faleceu em Vitória, em 2009. Mudou-se com os pais para Vitória em 1964. Poeta, concluiu em 1996 o curso de graduação em Letras-Inglês na Ufes e cursou o mestrado em História na mesma universidade. Publicou diversos livros. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui.)

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