Resumo: O ensaio destaca a poética de Jorge Elias Neto a partir de poemas selecionados de quatro livros – Verdes Versos, Rascunhos do Absu...

A dura caligrafia da civilização: tempo de brutalidade e afeto na poesia de Jorge Elias Neto


Resumo:
O ensaio destaca a poética de Jorge Elias Neto a partir de poemas selecionados de quatro livros – Verdes Versos, Rascunhos do Absurdo, Os Ossos da Baleia e Glacial. A discussão se desenvolve com o entrelaçamento de dois eixos: literário e filosófico. Para o eixo literário, toma-se como referência alguns poetas críticos como T. S. Eliot e Ezra Pound, este último autor da famosa frase “os artistas são a antena da raça”. Para o eixo filosófico, com ênfase na condição humana, busca-se aporte em Hannah Arendt. O ensaio destaca a poética intimista de Jorge Elias Neto, também marcada por temas existenciais e pela linguagem potente e sensível aos dilemas humanos.


Epitáfio desejado
Deixarei para as ondas decidirem
sobre a imortalidade
do meu nome na areia.

Todo tempo é tempo de dor e de inflexões sociais e existenciais imprecisas. Na vida cotidiana, para onde convergem inexoravelmente as barbáries das atividades da política e da economia, a ordem que rege o movimento e o comportamento das pessoas parece impor uma indiferença insana tão profunda que impede o desenvolvimento de sensibilidades. Assim, entorpecidos pelo volume de afazeres e informações e impulsionados pela pressa que caracteriza a contemporaneidade, os indivíduos perdem a capacidade de se indignar com as mazelas que atravessam todos os dias seus ouvidos, seus olhos, seus corpos; eles prosseguem indiferentes a injustiças, misérias, dores, mortes, hecatombes.
Como uma moeda, barbárie e civilização andam coladas: a barbárie é uma face, a civilização é a outra. Enquanto a civilização se desenvolve, a barbárie segue incansável em seu encalço. A civilização é a face notável, visível e apresentável das sociedades; mal escondida, a barbárie se manifesta em tempos de guerra, de miséria ou de anomalias sociais. Agora, neste tempo, quando, pelas lentes das tecnologias digitais, os homens enxergam mais longe, a barbárie se faz notar com toda a sua força, reafirmando que a violência é nata à própria espécie humana: violência contra o próximo, contra o distante, contra a natureza, contra si mesmo. A destruição faz parte da natureza moral do homem; a violência é um dos indicativos dessa realidade.

Capitaneadas pelas tecnologias digitais, as acirradas mudanças do contemporâneo e as condições adversas em que elas se apresentam colocam em contato culturas muito diferentes entre si, mas essas conexões não são pacíficas, já que as diferenças culturais constituem forças que, muito frequentemente, concorrem entre si ou se opõem. Estranhamentos e desconfianças acompanham aquele que vem de fora, o qual traz consigo hábitos e costumes que podem ser assimilados ou fortemente rejeitados. Dessa forma, as contradições culturais representam um grande desafio para a compreensão deste tempo: as bandeiras ideológicas – políticas, religiosas, étnicas, de gênero – são fragmentadas, em oposição à globalização das economias e da mundialização das mídias.

A poesia, com sua linguagem particular – centrada na força das palavras e não no envolvimento das narrativas –, é um lugar onde as contradições são realçadas. Neste contexto de paradoxos, os poetas encontram farto material para sua lírica: ao mesmo tempo em que tratam de temas iluminados, falam também de dias sombrios e ruídos sinistros. Nas palavras de T. S. Eliot (1989, p. 44): “A mente do poeta é de fato um receptáculo destinado a capturar e armazenar um sem-número de sentimentos, frases, imagens, que ali permanecem até que todas as partículas capazes de se unir para formar um novo composto estejam presentes juntas”.

Entre as vozes da poesia que se erguem neste tempo de tantas novidades e inquietações, este texto trata especificamente da lírica de Jorge Elias Neto, cuja poética se funda em uma linguagem que alterna, em certa medida, violência e ternura, ou potência e fragilidade, e que revela, de uma forma ou outra, uma convicção niilista: os versos com frequência mergulham em abismos que separam a fé e a esperança da certeza do nada. A realidade está sempre mergulhada em uma confusão armada pelo próprio homem, não por obra de um deus.

O ceticismo do poeta, contudo, não o paralisa frente aos dilemas humanos: a poesia é a sua ação que nasce de combinações de diferentes perspectivas, tais como impressões do seu entorno (“Nada menos humano, menos carnal que o verde” ), observações da vida em cena (“A vida não é um jogo de baralho. Não poderei simplesmente dizer “passo ”.”), personagens (“Vó Bela! / O homem é assim ”) e de imagens surreais (“Não me importo / com numerar as penas do cisne” ). Este ensaio trata das relações que se estabelecem entre literatura e filosofia na poética de Jorge Elias, cuja linguagem está plasmada em testemunhos do cotidiano e em convicções filosóficas.

1. Poesia e Literatura: o tempo e os temas na poética de Jorge Elias Neto

No texto “Os estudos literários hoje”, Bakhtin (1992, p. 364) faz uma advertência que não se deve ignorar: “Não é muito desejável estudar a literatura independentemente da totalidade cultural de uma época, mas é ainda mais perigoso encerrar a literatura apenas na época em que foi criada, no que se poderia chamar sua contemporaneidade”. Para Bakhtin, não é possível dissociar literatura e cultura, pois a primeira integra a segunda. As fronteiras temporais da arte são difusas; passado e presente se imbricam em uma rede de tradições, inovações e influências. E a literatura, diretamente ligada ao seu tempo, não se desvincula de forma alguma da cultura há séculos constituída e na qual o poeta está inserido, em uma pequena fração de tempo.

Nesse sentido, é importante frisar que a poesia de Jorge Elias Neto comunica passado em presente, por meio de memórias e lembranças que se manifestam em versos. Temas leves e rápidos, como deseja Calvino (1995), não caracterizam sua linguagem, muito ao contrário, seus temas são pesados e marcados por um ritmo compassado, sem pressa, reflexivo.

Para Pound (1995, p. 67), na literatura, a “poesia é que tem maior carga de energia”. Também para Pound (1997, p. 40), a poesia “é a mais concentrada forma de expressão verbal”. Daí que, pela energia e pela força concentrada, a linguagem poética torna-se uma expressão intensa das contradições que recaem sobre os homens, as sociedades e as culturas.

Os temas, na poética de Jorge Elias, podem ser, em uma determinada perspectiva, colocados em duas esferas de interesses e situações: fatos extraordinários e cenas e ocorrências do cotidiano. Os fatos extraordinários, pela sua condição de eventualidade, ocorrem com menos frequência, mas são profundamente marcantes na escrita do poeta. Destaque para “Caligrafia do Bruto” – poema que compõe o livro Os Ossos da Baleia (2012) –, o qual faz referência a uma notícia amplamente divulgada nos meios de comunicação. As cenas e ocorrências do cotidiano reúnem a maior coleção de poemas, com grande variação de interesses: os encontros fortuitos, as lembranças, a saudade, o amor, a paisagem, a brincadeira.

Todos esses temas, extraordinários ou cotidianos, alimentam versos carregados da visão de um poeta atravessado por um espírito niilista; para ele, a humanidade está fundada em dogmas imprecisos e em verdades duvidosas. A liberdade está na palavra, que escapa a essas prisões invisíveis, mas poderosas.

Fatos extraordinários: Sakineh e morte

Em sua condição de ser humano sensível, racional e de vida breve, o poeta busca seus temas, dos quais se alimenta e alimenta seus versos. Os poemas captam as brutalidades e os afetos deste tempo, deste mundo. Nas ocorrências do cotidiano alguns fatos podem se projetar acima de todos os outros, pela condição extraordinária, como a história de Sakineh, uma mulher condenada à pena de morte por lapidação, no Irã:

Caligrafia do Bruto
Para SakinehMohammadi-Ashtia

Quem  não tiver pecados que atire a primeira pedra.


Pedra atirada.
No ar,
uma réstia
da caligrafia do bruto.

Apedreja-se com força.
Quem sabe assim
desencarnam as frustrações!...

Reconheço o homem na pedra.
Cada pedra trás seu nome.
A figura de um deus incompleto,
incoerentemente arremessada,
invalida a palavra: Humanidade.

Mas aqui,
neste instante,
em conformidade com os dogmas,
corrompe-se a alma,
deforma-se o molde.

A estranheza de lapidar o corpo.
A ironia de deformar o nome
do delicado gesto do artesão.

Garganta seca de súplicas.
Olhos vazados por lascas.
O ventre fendido
Já não tem fome de amor.

Despedaçado,
jaz o corpo da criatura humana,
jaz a beleza.
Sob o lençol branco maculado
pelo sangue dos opressores,
desfeito,
o arco dos lábios.

A mais terna face desfigurada.
Deixaram-na de lado;
é impura.
Já não se presta mais a prazeres
a carne macerada .

Sob as referências das matrizes greco-latinas e judaico-cristãs, o mundo ocidental ficou assombrado com a notícia de que uma mulher seria apedrejada até a morte, acusada de adultério e de ter conspirado a morte de seu marido; o assombro provinha das inconsistências da acusação e da truculência do veredito dos juízes. A história de Sakineh, uma narrativa real deste tempo, revelava ao mundo práticas consideradas bárbaras e cruéis, mas que insistem há centenas de anos, em uma cultura que se mantém sob as leis de uma forte ordem religiosa, sectarista e intolerante, principalmente em relação à mulher, considerada uma representação do mal e dos desejos da carne.

A jovem senhora comoveu o mundo quando a mídia deu visibilidade à sua história. Graças à estrondosa repercussão do caso, houve uma reação em cadeia mundial em seu favor: vários organismos internacionais emitiram pedidos de clemência, apelando para os Direitos Humanos e pedindo sua absolvição. Por fim, a pena de morte de Sakineh foi revertida em anos reclusão . Mas o que, de fato, aconteceu a essa mulher? Qual seu verdadeiro destino? Quantas sakinehs sucumbiram no anonimato sombrio das tradições religiosas, no oriente e no ocidente? Apesar de real, Sakineh é mais um fantasma na grande mídia, mais uma personagem que nasce e morre em poucos dias. Sakineh, afinal, não saiu da mídia: a mídia saiu dela, em busca de fatos novos; Sakineh, na mídia, não era uma mulher à beira da condenação capital: era um produto de consumo e, como tal, um produto para ser consumido e trocado por outro.

Se o corpo de Sakineh não foi apedrejado – sua pena foi revertida em chibatadas e reclusão – sua alma de mulher foi despedaçada, irreversivelmente ferida e machucada. Essa é a imagem capturada pelo poeta: a lapidação moral de uma mulher. Corrompida e maculada pelas leis dos homens, Sakineh, a mulher proscrita, nunca passou de mais uma das centenas de milhares de histórias que se encontram em mídias e redes sociais, fadadas ao esquecimento. Mas a violência da narrativa tornou-se perene na poesia de J. Elias, para quem essa história representa mais uma escrita da barbárie nas letras dos homens, na caligrafia dos brutos. E toda barbárie, aparentemente, contraria o conceito e a ideia de civilização dos homens, mas não contraria: a barbárie não é o contrário da civilização, é apenas sua outra face, sua irmã siamesa.

Em contraposição à brutalidade da história de Sakineh, que circulava nas redes de internet, os versos do poeta também circularam nas redes sociais, constituindo assim uma resistência em rede contra a violência, de uma curiosidade perversa, da mídia: a poesia fez medrar a ternura de alguém que, como uma multidão de outros anônimos, não se conforma com brutalidade que se exerce sobre as pessoas em nome de uma religião, em nome do poder.

O afeto e a poesia não são capazes de salvar Sakineh de sua condenação e de sua penúria moral, mas o poeta, ao colocar o poema “Caligrafia do bruto” em circulação, de alguma forma lança luz sobre um problema universal: a condição feminina nas culturas do mundo cristão, islão ou pagão; a condição da mulher no Brasil ou em países da África, da Ásia, de todas as cidades, de todas as vilas, de todo o mundo. As mulheres são vítimas potenciais de uma intolerância social que impõe um jugo pesado sobre sua alma, seu corpo e seu destino. Silenciadas por um código moral violento, às mulheres cabe um lugar de desvantagem nas culturas do oriente e do ocidente. Ao falar das damas do Século XII, Duby (2013, p. 110) parece se referir à realidade de muitas sociedades contemporâneas: “Existe assim um espaço fechado reservado às mulheres, estritamente controlado pelo poder masculino”. E não se trata de exceções: tacitamente, não se aceita a presença da mulher em posição de comando, e isso ocorre em todas as sociedades, ainda que em algumas as conquistas e o reconhecimento da mulher sejam mais evidentes. A vida pública é reservada a poucas personalidades femininas, pois insidiosamente grupos de forças tradicionais tramam contra a emancipação da mulher, contra seu sucesso e ascensão, sob o entendimento de que o lugar das mulheres é o recato do mundo privado, onde podem ser vigiadas e punidas, se ousarem tentar romper essa barreira.

Neste sentido, as conquistas femininas, com notável força a partir do Século XX, são evidentes e importantes, mas ainda pequenas, frágeis e restritas. A pena capital é uma realidade no mundo inteiro, seja pelas leis religiosas, seja pelos códigos masculinos: mulheres são humilhadas, violentadas, espancadas e assassinadas a todo instante. A poesia é impotente frente ao drama das mulheres, impotente frente aos males do mundo, mas ela não se cala e não se esconde frente ao que é extraordinariamente humano: a poesia revela os paradoxos e as dores desses tempos. O poema sublima histórias de horror. A poesia é o afeto do poeta.

Os eventos extraordinários que pressionam a escrita e a manifestação do poeta podem surgir de notícias de jornais, mas também podem surgir do próprio cotidiano, que surpreende os indivíduos com fatos que escapam à ordem do dia, como a morte. O nascer e o morrer fazem parte do cotidiano social. No mais geral das ideias, o nascimento vem acompanhamento de alegria, de esperanças e de expectativas em relação ao futuro; o morrer, ao contrário, é o fim do presente, que é enterrado na mesma cova com o passado. E não é fácil aceitar a morte. Para Persch (2012, p. 11), se “há problemas existenciais, então a finitude humana talvez seja o mais emblemático. (...). Nenhuma verdade é tão indiscutível como essa, mas também nenhuma verdade é tão difícil de ser aceita, mesmo em situações em que não há mais esperança de vida”. De fato, a morte é uma verdade com a qual não se conforma os homens. E ela, a morte, mesmo que esperada, sempre é surpreendente.

Ainda que a morte seja um fato corriqueiro do cotidiano, afinal todos os dias morrem pessoas, ela torna-se um evento extraordinário na privacidade dos homens, na intimidade de uma família, na organização de um grupo. A morte arranca as pessoas de sua rotina, fazendo-as pensar, cada uma delas, na própria morte. Assim, a morte constitui um fato extraordinário, sobre o qual o poeta tem muitas coisas a dizer. Mas dizer para quem? O poeta dirige-se ao cadáver.

Discurso para o cadáver

Teus olhos
não mentem
essa simplicidade
em dizer:
tão breve, a vida,
enquanto saturamos
o ar
com subterfúgios
e preces.

Do ponto
em que se parte
― se esquece ―
o espectro
da carne
                ― do irremediável.

Da carne
à cinza,
do torrão de
terra
ao desprezível
mármore
― questão alheia ―
(prevalecerá a vontade
                 do Universo).
Que os vivos
tratem da espessura
das trevas.
A você, o privilégio
da dimensão
onde se plantam flores.

Agradeço
a sinceridade
azul
em teus dedos,
ao lançares os dados
que julgarão
os versos
impossíveis.

E o que disse
da memória ...
A memória sem lar,
desnecessária,
posta a ausência
cúmplice.

Se pudesse
te acenderia um cigarro...
Deixaria a guimba
                 pendurada
em teus lábios.
(Como é bela e
                inútil
a  última centelha...)

Logo
chegarão.
(A boca aberta da cidade
                despeja
                       suas crias.)
Vestirei a máscara
e restarei
um momento ― breve ―
(o tempo de observar a indecisão
das chamas  perante o choro
                humano) .

O poema, pois, é um pequeno monólogo dirigido a um cadáver. E apenas no título J. Elias usa a palavra “cadáver” que, por sua natureza semântica ligada à morte, soa como matéria, puro objeto. A escolha dessa palavra reforça o posicionamento do poeta ante a morte: tudo está acabado. Segundo Houaiss , a etimologia da palavra “cadáver” é de origem latina, significando “corpo morto”; mas a intervenção popular vai além e associa a “cadáver” a uma expressão latina: CArne DAta VERmem  (Carne Dada aos Vermes). Seria a palavra cadáver, assim, uma sigla. A pessoa reduzida à carne. Na cultura popular, outra palavra contempla o significado de “cadáver”: a palavra “corpo”. Essas palavras traduzem com exatidão semântica aquilo que a morte representa: ausência de alma, ausência de espírito. Falta a vida.

Nos versos do poeta: “Do ponto / em que se parte / ― se esquece ― / o espectro / da carne / ― do irremediável”, outra escolha emblemática: “espectro”. Esta palavra, popularmente, é associada a fantasmas. Contudo, a existência de fantasmas pressupõe uma continuidade da vida após a morte, em uma dimensão misteriosa e inexplicável. Ora, uma convicção niilista não permite tal interpretação, restando à palavra um sentido semântico muito diferente: “espectro” como “coisa”: “coisa vazia, falsa; ilusão” . A vida é uma ilusão. A morte é o fim da ilusão.

Em alguns versos o poeta reforça seu ceticismo categórico, carregado de lirismo telúrico: “A você, o privilégio / da dimensão / onde se plantam flores”. A terra, o fim de tudo, onde o “cadáver” encontra seu destino final, o sossego da extinção da alma. Ou talvez não: na dimensão da vida, alimentando os vermes, o cadáver inicia um novo ciclo de vida, adubando raízes de flores de todas as cores. Nas palavras de Arendt (2001, p. 57): “É isto a mortalidade: mover-se ao longo de uma linha reta num universo em que tudo o que se move o faz num sentido cíclico”. Mas, enquanto o corpo está presente, acima da terra, o profundo respeito do poeta pelo cadáver, o qual faz lembrar que a vida breve: “Teus olhos / não mentem / essa simplicidade / em dizer: / tão breve, a vida, enquanto saturamos / o ar”.

Os fatos extraordinários eventuais – uma notícia, uma morte ou acontecimento marcante – projetam-se em meio aos acontecimentos do dia de rotina; chamam a atenção por algum motivo, por algum aspecto. A eventualidade é uma força esporádica que atrai o poeta, mas é, certamente, do cotidiano que J. Elias pinça seus temas: nas cenas e ocorrências do dia-a-dia.

Cenas e ocorrências do cotidiano

As cenas e as ocorrências do cotidiano fornecem os temas mais frequentes à poética de Jorge Elias. O cotidiano, como substantivo, corresponde às ações que se realizam todos os dias, continuamente, ações que se repetem todos os dias, na vida de todos os indivíduos. Hannah Arendt (2001, p. 221) lembra que: “O único atributo do mundo que nos permite avaliar sua realidade é o fato de ser comum a todos nós”. Apesar de o mundo social ser comum a todos, pois, em sua rotina diária, todos o compartilham, as percepções são estritamente pessoais: o mesmo acontecimento pode ser aplaudido por uns e rejeitado por outros. Qualquer ruptura da rotina torna-se um fato extraordinário. Assim, todos os dias, as pessoas se movem em um mundo comum, ainda que, pelos seus sentidos particulares, esse mundo seja compreendido singularmente, por cada indivíduo. Hannah Arendt (2001, p. 221) desenvolve essa ideia e infere:

...se o senso comum tem posição tão alta na hierarquia das qualidades políticas, é que é o único fator que ajusta à realidade global os nossos cinco sentidos estritamente individuais e os dados rigorosamente particulares que eles registram. Graças ao senso comum, é possível saber que as outras percepções sensoriais mostram a realidade, e não meras irritações de nossos nervos nem sensações de reação de nosso corpo.

Pelo cotidiano, o poeta, em sua singularidade, depara-se com ocorrências percebidas por todas as pessoas, mas sentidas singularmente por ele mesmo. Pelo caminho da singularidade, o poeta questiona certezas e verdades: as convicções estão instaladas em um ponto de vista, o qual apresenta uma versão possível, nunca uma versão absoluta. A poesia é sempre um outro ponto de vista possível. No cotidiano, a rotina se constitui de ternura, violência, dor, risos, expectativas e, no cotidiano do poeta, mesclam-se muitos elementos da vida sensível: saudade, lembranças, amor, família, morte, dor, frango com farofa, passeios, olhares perdidos no nada. Tudo isso, cenas e ocorrências do cotidiano, alimenta os temas da poesia de Jorge Elias. Tudo pode ser o início da poesia.

A poesia começa assim

Emprenhar-se de miudezas;
deixando as mãos rendidas aos gestos costumeiros.
E quando a luz se aperceber, desmembrada
pelo estalo da palavra,
jogar-se nos trilhos
para salvar a flor .

O primeiro verso, “A poesia começa assim”, já demonstra que o poeta está mergulhado no cotidiano: “deixando as mãos rendidas aos gestos costumeiros”. Todavia, a palavra é a força capaz de desmembrar ou de desprender alguma ação, algum gesto ou algum objeto da realidade cotidiana, mas contra a qual ele se rebela: “jogar-se nos trilhos / para salvar a flor”.

É também pela expressão poética que J. Elias demonstra sua profunda descrença em alguns grandes pilares da civilização, como a religião, há muito tempo tragada pela linguagem científica, pela lógica da economia e pela exatidão dos resultados apresentados por laboratórios renomados: “digitais humanas nos dedos de Deus”. É com tom lacônico que o poeta revela sua visão da cristandade:

Agora é tarde, pintei o muro
Para José Augusto Carvalho

O alento da cristandade
não sei se volta.
Depois que reparei
digitais humanas nos dedos de Deus,
essas trincheiras me pareceram obsoletas;
dissipou-se a taramela
no pórtico do inferno.

Comer todas as hóstias
na infância – de uma só vez –
só me serviu para matar a fome de Deus .

Contidos e serenos, esses versos confirmam a tese de T. S. Eliot (1989, p. 44): “o que conta não é a "grandeza", a intensidade das emoções, dos componentes, mas a intensidade do processo artístico, a pressão, por assim dizer, sob a qual ocorre a fusão”. Dessa maneira, o poeta expressa a condição solitária do homem, sem amparo divino.

Adorno e Horkheimer (1985) advertem que a perda do apoio da religião na reconfiguração moral dos homens contemporâneos não levou as sociedades aos caos cultural, mas ao contrário, não há caos, tudo se movimenta em trono de um ordenamento pragmático do mundo: o arrefecimento da fé integrou um conjunto de forças que redirecionaram o mundo para um novo modelo cultural, submetido a uma prática econômica perversa e imperturbável. Para Adorno e Horkheimer (1985, p. 113), esse novo modelo “confere a tudo um ar de semelhança”. Dominadas pela racionalidade calculista e destruidora, as religiões não se prestam mais ao consolo: “O alento da cristandade / não sei se volta”. Todavia, se obsoletas como campo sagrado, elas ressurgem como uma grande feira de milagres. O vínculo entre o homem e as religiões não se rompem, apenas se corrompem: as religiões sucumbiram às leis do mercado.

Entre as cenas e ocorrências do cotidiano, uma imagem chama a atenção do poeta: uma árvore morta, uma ingazeira. Na pressa, poucas pessoas reparam as árvores vivas ou agonizantes. Só reparam nelas quando são arrancadas por ventos e interrompem a passagem de carros e pessoas. Reparam e reclamam. O cotidiano exige pressa e emite imprecações. Mas o poeta faz uma reverência, afetuosa:

Poema à morte da ingazeira

Morre de pé o verde,
até que a inexorável gravidade
trace seu rumo definitivo:
partir para o esquecimento .

O traço de visão niilista da vida, “partir para o esquecimento”, reforça sua convicção sobre vida e morte. Existencial, o mundo sensível é o que se coloca sob o olhar do poeta. Importante ressaltar a relação do poeta com a cor verde, a qual aparece inclusive no título de seu primeiro livro, Verdes versos (2007). A cor matiza-se em tons que se relacionam ao verde brilhante de vida ao verde sinistro da carne apodrecida ou ao pus que escapa do corpo doente; faz ainda referência aos perigos que o verde natureza corre, com as ações humanas: “Morre de pé o verde”.

As cenas captadas do cotidiano pelo poeta são muitas, formando um vasto leque de interesses e revelando diferentes modos de olhar a rotina do mundo; há cenas que se projetam em planos mais fechados, como em “A logística das formigas”, cujos sentidos parecem forçar os olhos do leitor a se aproximarem de algo bem miúdo:

A logística das formigas

Reparem no descaso
das formigas
no espelho fosco
das placas de gelo.
Morrem,
ao montes,
em fila,
agarradas
à impossibilidade .

Mas também há cenas que apresentam perspectivas panorâmicas, com cenas mais abertas, convidando a uma leitura de paisagem ampla e mostrando situações que se deixam observar mais ao longe, como ocorre no poema “Da construção de cidades e sentenças”:

Da construção de cidades e sentenças

Gélidos desfiladeiros
ladeando avenidas...
Estruturas metálicas
        — andaimes —
espinha dorsal
de enormes geleiras
que sentenciam à morte
os que ignoram a cronologia
do desespero .

As cenas e as ocorrências do cotidiano constituem traços de uma poética que se consolida forte, coerente e vigorosa. Os versos de J. Elias, de uma maneira geral, expressam diferentes sentimentos, de forma alternada: revolta, rebeldia, ternura, saudade, nostalgia, indignação, contemplação. Alguns poemas são notavelmente especulares, tais como “Seu Jorge” e “Nomear poemas” . O uso do próprio nome indica um mergulho na própria alma, na própria atividade poética que realiza. O primeiro verso do poema “Nomear poemas” torna-se muito revelador e emblemático, considerando o conjunto de uma poética fortemente marcada pelas próprias experiências, lembranças e reminiscências: “No fundo, os poemas chamam-se Jorge”.

À sensibilidade do olhar do poeta para pessoas, objetos, cenas e acontecimentos de seu tempo, agrega-se ainda um importante diálogo com o sistema filosófico. Com uma linguagem intimista, serena, até mesmo melancólica, Jorge Elias dialoga com questões universais, com muitas referências à vida e à morte, à dor e à alegria. A condição humana e os paradoxos da existência estão em sua poesia.

2. Poesia e Filosofia: a condição humana na poética de Jorge Elias Neto

Os dramas da existência humana são regidos por duas forças irresistíveis e inelutáveis: nascer e morrer. O nascer é um acontecimento do qual o homem toma consciência quando não há mais possibilidade de qualquer tentativa de reação; mas o morrer é acontecimento do qual ele tem consciência e contra o qual ele tenta, em vão, resistir ou adiar. Norbert Elias (2001, p. 10) lembra que:

Entre as muitas criaturas que morrem na Terra, a morte constitui um problema só para os seres humanos. Embora compartilhem o nascimento, a doença, a juventude, a maturidade, a velhice e a morte com os animais, apenas eles, dentre todos os vivos, sabem que morrerão; apenas eles podem prever seu próprio fim, estando cientes de que pode ocorrer a qualquer momento e tomando precauções especiais – como indivíduos e como grupos – para proteger-se contra a ameaça da aniquilação.

“A morte é problema dos vivos. Os mortos não têm problemas”, em mais uma afirmação de Norbert Elias (2001, p. 10). Ela é o destino final do homem, mas não da espécie, que se prolonga nos gens; todos os homens estão sob a égide da condição humana: nascer, morrer, sentir dor e envelhecer. Nas palavras de Arendt (2001, p. 17): “o que quer que toque a vida humana ou entre em duradoura relação com ela, assume imediatamente o caráter de condição da existência humana”. Neste sentido, tanto a morte quanto a vida, tanto o mundo iluminado pela tecnologia ou quanto o mundo devastado pelas sombras do fascismo estão na ordem da existência e da condição humana. Revoltado, indignado ou contemplativo, a poesia de J. Elias expressa, muito sensivelmente, as dores, as esperanças e as expectativas engendradas pela condição humana.

No limiar dos dilemas humanos estão os medos e suas angústias mais íntimos dos indivíduos: a dor, o envelhecimento, a morte. O homem deseja não sentir dor, não quer envelhecer, também não quer morrer. Para tais dilemas, ele criou histórias, inventou remédios, converteu-se aos deuses imortais: “Na turva sacralidade de seu desamparo, de seu desespero, teria o homem criado os deuses para responder às suas angústias?” (FERREIRA FILHO, 2016, p. 236). Os deuses não ouvem suas súplicas, os remédios possuem efeitos limitados e as dores chegam muito rapidamente. Sem saídas, o riso torna-se um remédio contra seus males; assim faziam os medievais – que destronavam seus medos com piadas e inversões deliberadamente ridículas, caçoando do diabo, da morte e dos santos: “O rebaixamento do sofrimento e do medo é um elemento da maior importância no sistema geral dos rebaixamentos da seriedade medieval, impregnada de medo e de sofrimento”, afirma Bakhtin (1993, p. 150). Uma segunda alternativa para lidar com os dramas da existência é, como faz a filosofia, refletir sobre eles, investigá-los. Mas há ainda uma terceira possibilidade: a poesia. Como os medievais, a poesia consegue rir dos medos dos homens e, como a filosofia, consegue refletir sobre a condição humana. Sobre a condição humana, Hannah Arendt (2001, p. 60-61) destaca a dor como um acontecimento essencialmente solitário:

De fato, o sentimento mais intenso que conhecemos – intenso ao ponto de eclipsar todas as outras experiências, ou seja, a experiência de grande dor física – é, ao mesmo tempo, o mais privado e menos comunicável de todos. Não apenas por ser, talvez, a única experiência à qual somos incapazes de dar forma adequada á exposição pública; na verdade, ela nos priva de nossa percepção da realidade a tal ponto que podemos esquecer esta última mais rápida e facilmente que qualquer outra coisa.

A dor pode prenunciar o fim de uma vida, mas também pode ser superada com tratamentos e remédios. Mas, enquanto dor, ela mantém o homem em seu lugar de indivíduo, de ser um ser solitário. A sociedade se desfaz na dor e na morte. Para Hannah Arendt (2001, p. 124): “nada expele o indivíduo mais radicalmente para fora do mundo que a concentração exclusiva na vida corporal, concentração esta forçada ao homem na escravidão ou na condição extrema de dor insuportável”. Na dor, os homens estão sozinhos, seja a dor da carne, seja a dor da alma. Na dor do corpo, o choro do desamparo; na dor da alma, o choro para recomeçar:

Recomeçar do fim
Chora, disfarça e chora todo o pranto tem hora. [Cartola]
Chorar o difícil choro do reinício.

Roda, roda
roda dágua
com a força que a alma pede.

Beba o sal,
que a vida,
pede a vida.

Sem dó de ter dor:
tal prazer emperra a engrenagem dos punhos.

Chore o pranto do agora,
para que o depois não te turve o sossego.

Todo pranto tem hora.
e, se for preciso,
no começo,
disfarça,
mas chora...

Mas se a dor é capaz de colocar os homens em uma profunda solidão, o envelhecimento constitui, talvez, um drama ainda maior que a morte, visto que, por natureza defensiva, ninguém pensa na morte, mas todos pensam e se preocupam com o envelhecimento. Norbert Elias (2001) desenvolve uma reflexão sobre esses dramas no pequeno ensaio “Envelhecer e morrer”, no qual ele afirma:

Não é fácil imaginar nosso próprio corpo, tão cheio de frescor e muitas vezes de sensações agradáveis, pode ficar vagaroso, cansado e desajeitado. Não podemos imaginá-lo e, no fundo, não o queremos. Dito de outra maneira, a identificação com os velhos e com os moribundos compreensivelmente coloca dificuldades especiais para as pessoas de outras faixas etárias. Consciente ou inconscientemente, elas resistem à ideia de seu próprio envelhecimento e morte tanto quanto possível (ELIAS, N., 2001, p. 80)

Observar a velhice do auge da força e da juventude se faz com um modo de olhar, quase indiferente, mas olhar a velhice quando dela se aproxima, torna o olhar reflexivo, mais consciente das limitações do corpo. Em algumas sociedades passadas, os anciãos, pelo pressuposto acúmulo de experiências e pressuposto acúmulo de sabedoria, eram ouvidos e respeitados. Nas sociedades contemporâneas, em que a sabedoria não é mais importante que a economia, há grande insensibilidade para com os velhos, a ponto de alguns serem vistos como estorvos. Todavia, quando há sensibilidade e ternura, os velhos, cumprindo inevitável etapa de sua condição humana, são como rendas que revelam muitos desenhos e muitas histórias. O poeta, rendido ao amor pela avó, presta-lhe uma homenagem:

Vó Bela
Para minha avó, Isabel Teodomira Pereira.

Ainda te vejo terminar os dias
cozendo a colcha de retalho de tua genealogia.
Sabias, sim, os segredos da vida,
única explicação para a transparência de teu olhar...
Entendias também os sortilégios da morte.
Muitos dos teus já tinhas visto partir
no nefasto trilho do fim absoluto.
Confesso não ter conhecido quem melhor divagasse
entre magos e dragões,
conhecesse os cordéis do seu povo,
que, vestida de santa, ensaiasse noites inteiras
os martírios do ser divino.

Usou o apoio imprevisto das estrelas e se fez poetisa.
Recitando os versos de seus heróis sertanejos,
embalaste o sono do pequeno ávido,
e plantaste o sonho que agora luto
para não se esvair.

Em “Verdes versos II”, Jorge Elias apresenta um quadro verde de morte ou quase morte: o verde da carne que apodrece, o verde da morte, o verde daquilo se expele do corpo doente: catarro, pus, vômito.

Verdes Versos II

Nada menos humano, menos carnal que o verde.
Pútrida carne verde dos abandonados em valas.
O que é verde o corpo despreza.
Catarro, pus, vômica
Sinônimos de morte.
A pele que ainda respira quando verde agoniza.
De verde apenas os seres de nosso planeta imaginário.

Nada mais vida, mais sentimento que o verde .

O encanto do verde da vida e da natureza exuberante parece opor-se ao verde da carne que apodrece; para o poeta, “nada menos humano, menos carnal que o verde”. Mas, talvez, não haja contradição nessas manifestações de verde, pois a morte é onde avida se extingue ou onde a vida se guarda: “vida e morte são o continuar dos passos” . As contradições tornam-se denominadores comuns, os quais encontram expressão nos versos do poeta que ora ergue o olhar para as questões mundanas e mais gerais, ora se inclina para lembranças, angústias e desejos.

Em tempos cinzentos, em que a questão ambiental torna-se premente, enquanto as autoridades discutem o destino do Planeta, fecham acordos (improváveis) e estabelecem metas que visam limitar as agressões à natureza, as vozes inquietas dos poetas se lançam, mesmo sem convite, neste grande debate que inclui o destino do homem. O debate na esfera da poesia é menos prático, mais prosaico, mas não menos intenso, nem menos pulsante. E o poeta indaga à sua Vó Bela: “Será que chegará o dia / em que tomaremos em nossas bocas/ uma folha verde como hóstia?”.

Hóstia verde

Vó Bela!
O homem é assim:
cultiva a ausência do verde,
e quando este finalmente falta,
vende o que resta aos idólatras.

Benditos os iconoclastas
derrubadores do ídolo verde!

Vó Bela!
Será que chegará o dia
em que tomaremos em nossas bocas
uma folha verde como hóstia?

“O homem é assim:” é um verso emblemático, pois sintetiza o eixo temático da poesia de Jorge Elias: o homem e a condição humana. Sobre o tema central, o homem, Ferreira Filho (2016, p. 236) afirma: “Observado com atenção o ser humano, tudo nele é problema – identidade, subjetividade, convivência, política, sexualidade...”. Mas o poeta prefere os temas de difícil trato, temas que incomodam e inquietam a alma humana (“Máscara mortuária”, “Inércia” ).

A preferência pelos versos curtos e substanciais fazem tentativas de expressar um mundo absurdo. Todavia, o percurso do poeta se define pelo traçado de versos curtos e substanciais. Sendo a palavra – e a palavra é tema que também se oferece ao absurdo – a matéria da poesia, as tentativas de expressar o indizível tornam os versos enigmáticos. A poética de Jorge Elias revela influências da grande literatura universal: as lembranças de Borges, o realismo de Dostoiéviski, austeridade existencialista de Camus e o pensamento altivo e vigoroso de Nietzsche.

Nas letras dos versos de Jorge Elias – salvo, talvez, nas fendas em que se lê paixão e sensualidade, rasgos de uma vida que insiste –, nota-se espanto, ou apenas a constatação, de alguém que descobre que a existência humana não tem sentido; ou o espanto de alguém que descobre que a esperança esconde o desalento infinito da alma humana; a esperança é o sentimento dos paradoxos. Nietzsche (2000, p. 63-64) afirma que a esperança foi único mal que não conseguiu escapar da caixa de Pandora: “Zeus quis que os homens, por mais torturados que fossem pelos outros males, não rejeitassem a vida, mas continuassem a se deixar torturar. Para isso lhes deu a esperança: ela é na verdade o pior dos males, pois prolonga o suplício dos homens”. A descrença presente nos versos pesados reforça esse diálogo com Nietzsche. O absurdo, talvez, seja o traço mais humano do homem, demasiadamente humano.

A poesia de J. Elias – racional em sua capacidade de ler o mundo e de expressá-lo por meio de ritmos intimistas, sensível em sua capacidade de perceber a fragilidade dos seres e das coisas – projeta um campo no qual se imbricam formas e temas que traduzem um mundo particular, em seu olhar, universal em suas questões. Como os anjos de Berlim , o olhar do poeta não altera a ordem das coisas, não salva Sakineh, não salva o mundo nem as pessoas, apenas, solidária e solitariamente, olha para os que estão à beira da morte, para os velhos, para os que sofrem, para os que brincam, para os que se ocupam em tarefas tolas ou muito importantes, para as paisagens, para os movimentos; o poeta se interessa por tudo, afinal.

A poesia mantém-se na linha da razão, assim pensa Merquior (1996, p. 189): “na própria linguagem [poética] reside uma vontade ordenadora, uma disciplina da emoção”. Por assim dizendo, a poesia não se coloca em uma disposição emocional, mas em uma esfera na qual a razão se concentra na dinâmica da própria palavra, com suas relações coordenadas e subordinadas, sem necessariamente se submeter a uma ordem sintática convencional.

Em busca de palavras que expressem os sentidos de que precisa, o poeta cria mecanismos diversos dão vigor à sua linguagem, tais como a intensificação dos vocábulos (o uso de “versos quebrados” tem essa capacidade) e das imagens, sem perder seu elo com a razão. Merquior (1996, p. 190) lembra que “a necessidade de recorrer a símbolos de inteligência comum é inarredável da lírica”. Ao poeta reserva-se um lugar na história dos homens (“O poeta / - atleta do abismo - / espreita o entardecer / por detrás / da história” ), mas sua forma de contar a história é pelas linhas irregulares e livres dos versos.

Como os anjos Damiel e Cassiel, os poetas observam e solidarizam-se com os sofrem, mas não podem fazer nada. Miram as condições terrenas em que vivem os homens, sem poder interferir no caos, na dor e na desordem existencial das pessoas. Mas enquanto os anjos não conseguem sentir as emoções humanas, os poetas não apenas sentem como sofrem com elas. Sensível ao mundo dos homens, ao qual pertence, o poeta busca uma expressão para esses sentimentos (o que produz a confusão que identifica a poesia com emoção). Ao registrar esses sentidos, o poeta introduz na perenidade das palavras os acontecimentos do cotidiano. Jorge Elias, como muitos poetas do passado e do presente, preserva a expressão de descrença e de espanto, frente aos dramas humanos. E como se respondesse à questão da limitação dos ternos anjos da cidade arrasada, o poeta escreve: “Anjos... / Dou-lhes de presente / minha sanidade ”.

O contemporâneo e seus dilemas sociais, políticos e existenciais exigem reflexões e análises para compreender as conexões que existem entre as mazelas e, assim, tornar o absurdo menos absurdo; o mundo absurdo parece uma construção desastrada, mas, ao contrário, ele está dentro de uma lógica deliberada, como advertem Adorno e Horkheimer (1985) que atordoa os indivíduos, tornando-os presas fáceis de um senso comum estereotipado, moldado por uma mídia que mira seus interesses do consumo. Os anjos e os poetas não podem corrigir ou remendar esse mundo de desacertos. Está na ordem natural da vida, está na ordem do mundo. A ternura do poeta não pretende esconder a brutalidade da vida. Nem provocar emoções com as próprias emoções: “O objetivo do poeta não é descobrir novas emoções, mas utilizar as corriqueiras e, trabalhando-as no elevado nível poético, exprimir sentimentos que não se encontram em absoluto nas emoções como tais”, lembra T. S. Eliot (1989, p. 47).

Paul Valéry (1991, p. 201), afirma que “se encontrarmos profundidade em um poeta, essa profundidade parece ter uma natureza completamente diferente da de um filósofo ou de um sábio”. De fato, as questões que insistem nas temáticas dos filósofos e poetas contemporâneos são múltiplas e multifacetadas, mas, paradoxalmente, é apenas uma questão: a condição humana. Mas há uma grande diferença entre a filosofia e a poesia: a filosofia procura a compreensão de seu tempo; a poesia não busca a compreensão, mas mergulha no seu tempo com mais perguntas e dúvidas.

Os poemas são, pois, os artefatos dos poetas, ou aquilo que ultrapassa a vida deles. Hannah Arendt (2001) considera os artefatos o resultado do trabalho humano: Isto quer dizer que o homem, mortal, imortaliza-se nas gerações e nas coisas que produz e constrói. Neste sentido, a poesia – a literatura de uma maneira geral – inclui-se naquilo que Hannah Arendt (2001, p. 27-28) considera “artefato imortal” dos homens:

A tarefa e a grandeza potencial dos mortais têm a ver com sua capacidade de produzir coisas – obras e feitos e palavras – que mereceram pertencer e pelo menos até certo ponto, pertencem à eternidade, de sorte que, através delas, os mortais possam encontrar o seu lugar num cosmo onde tudo é imortal exceto eles próprios. Por sua capacidade de feitos imortais, por poderem deixar atrás de si vestígios imorredouros, os homens, a despeito de sua mortalidade individual, atingem o seu próprio tipo de imortalidade e demonstram sua natureza “divina”.

Em seu tempo, o poeta muito provavelmente não pensa na imortalidade (“A minha imortalidade / se encerrará com a minha morte” ), contudo sua obra, despregada de si, ganha autonomia e, independentemente de sua alcançar êxito de público e reconhecimento da crítica, torna-se mais um artefato que demonstra a capacidade de o homem ser imortal, criando coisas que ficam; como os poetas criam versos que ficam.

3. A caligrafia do poeta

 “Os artistas são as antenas da raça”, afirma Pound (1997, p. 71). A afirmação do poeta-crítico-ensaísta é, com toda justiça, repetida em ensaios de crítica literária. Não seria tão frequente se não fosse verdade. A atividade do artista está relacionada a uma faculdade excepcional de ser sensível às ocorrências que a grande massa ignora ou não percebe. O artista se inclina para um detalhe, nuanças de um evento banal, mas indicativo de algo novo. Artista da palavra, o poeta se esgueira para um pequeno vão, de onde se lança com coragem ao mais profundo precipício, para um abismo onde se vê as raízes da humanidade; ou se lança ao voo mais alto, plainando sobre as paisagens gerais. O poeta capta o que é indizível e traduz seus sentidos em versos, revelando ao mundo seus significados. A poesia, por seus caminhos e linguagens tão próprios, dá-se a expressar emoções infinitas, mas, como diz Merquior (1996, p. 189-190), não se pode esquecer que ela “é razão”. No registro das paixões, Jorge Elias coloca o juízo da poesia no corpo frágil do verso. O poeta tem algo a dizer sobre as metamorfoses da vida e, no labirinto de palavras enigmáticas e enérgicas, sobre sua própria metamorfose: “(só sei transformar sapato em borboleta) ”. Na escrita potente e sensível de Jorge Elias, a caligrafia registra cenas do cotidiano e fala de vida. Mas não fala o poeta de si mesmo, para si mesmo: fala para outros. Escuta o poeta.

Referências bibliográficas

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Referência de filme

Asas do desejo (Der Himmelüber Berlin). Produção e Direção de Wim Wenders (inspirado em Rainer Maria Rilke). Elenco: Bruno Ganz, Otto Sander, Solveig Dommartin. Origem: Franco-alemão. Gênero Fantástico. Distribuidora: Europa Filmes. Idioma original: Alemão. Suporte CD. 127 minutos. 1987.

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Shirlene Rohr de Souza é professora da Universidade do Estado de Mato Grosso formada em letras pela Universidade Federal do Espírito Santo.


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