Sempre que se começa a leitura de um livro de Carlos Nejar, é um susto: a obra complexa, vocabulário riquíssimo, emprego de procedimentos l...

Ely Vieitiz Lisboa: A vida de um rio morto


Sempre que se começa a leitura de um livro de Carlos Nejar, é um susto: a obra complexa, vocabulário riquíssimo, emprego de procedimentos literários vários e inesperados. Depois a alma se aquieta e em seguida somos tomados por um encantamento.

Ao começar a ler A Vida de um Rio Morto (Monumento ao Rio Doce), da Editora Ibis Libris, Rio de Janeiro, 2016, aconteceu de novo o fenômeno, ratificando a assertiva. O projeto gráfico, design de capa e miolo, de Romildo Castro Gomes, traz imagem da capa e do miolo, ilustrações de Picasso. Edição cuidadosa, até as nuances da triste cor cinza, ora claras, ora escuras, tudo sugere luto, a seriedade do tema.

As várias dedicatórias são finalizadas por um verso belo e significativo, que resume o livro: “este hino de água”. Seguem-se epígrafes notáveis, como a de Ferreira Gullar: “A poesia existe porque a vida não basta”.

A tragédia Samarco-Mariana  e as mortes sob a lama do Rio Doce, de Minas até o Espírito Santo, onde hoje vive Nejar, foi muito explorada na mídia televisiva e escrita, como o mais funesto desastre ecológico do Brasil. Seguiram-se as costumeiras falcatruas, promessas não cumpridas, a justiça arrastando-se sem nenhum resultado concreto. Este é o tema central do livro.

O hino ao Rio Morto, de Carlos Nejar, não é apenas um Monumento ao Rio Doce, é um grito, uma voz que clama. Uma epopeia escrita em dísticos fortes e perturbadores, pela destruição de um Patrimônio da Humanidade. Ousadamente, o Poeta aborda também um tema universal, canta o Homem, questões filosóficas e metafísicas. Foge às vezes para o subjetivismo, ora alteia-se ao destino maior do Universo; cita a situação política brasileira, com a ousadia até de mencionar onomásticas de figuras em destaque da Lava Jato: “Mas há os que não se curvam: Os moros, mendes e poucos”, alusão evidente a figuras de realce contra a corrupção.

Há muitos procedimentos que impressionam pela abrangência das temáticas, citando desde problemas brasileiros específicos, denunciando a omissão da Mineradora Samarco e, de repente, insere um poema de tema universal: “A vida tem muitas voltas / E apenas uma chegada / Mas certa pompa disfarça / O nada que vai na bolsa”. Os dísticos trazem subtítulos à esquerda, orientando o leitor nas temáticas variadas. É um jogo fascinante, encontrar esses poemas completos, inseridos na grande epopeia maior da morte do Rio, como o dístico da página 91: “Ainda não há vacina / Contra a morte. Nem estribo”. Citem-se ainda, na riqueza dos procedimentos literários, as várias alusões a obras famosas da Literatura brasileira, ou universal, usa muito a figura da personificação, dando vida e voz ao rio, e a estilística da repetição deliberada, assim como uns enjambements expressivos.

É preciso, de novo, enfatizar o vocabulário forte e riquíssimo, a variedade de temáticas dentro do tema maior e o grande amor sacro pela palavra: “É a palavra que nos salva / A palavra da palavra”. Em vários dísticos Nejar confessa seu amor ao Rio Doce, faz jogos semânticos com adjetivos pátrios e símbolos nacionais; na página 43 permite-se até uma alusão familiar, citando o filho.

Enfim, o livro é uma obra-prima poética, de riqueza e originalidade. O mundo literário de Carlos Nejar não cabe dentro dele e então o Poeta transborda em poesia e prosa, sempre de maneira surpreendente. Resta mencionar, nesse comentário pela rama, que o Colofão, que desde a Idade Média, vinha no final das obras, nesse Monumento ao Rio Doce, deveria vir no começo, fornecendo referências ao leitor sobre a grandeza da obra de Carlos Nejar.

Só assim, o Poeta, Servo da Palavra (belo epíteto!), poderia ser nosso Virgílio, guiando-nos como fez a Dante, até as portas do Céu, para não nos perdermos nesse rio de beleza do seu livro.


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Ely Vieitez Lisboa, autora deste texto, é escritora.  




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