A cidade e o tempo A hora irradia no ínfimo da teia armazenando os segundos. Instante de quem viu a cidade partir silenciosa e aliou...

Excertos do livro Poema deitado no seu peito: um jogo de amarelinha


A cidade e o tempo



A hora irradia no ínfimo da teia armazenando os segundos.
Instante de quem viu a cidade partir silenciosa
e aliou-se ao porto, permanecendo abrigo,
pelos que olvidam algum resquício de tradição, e líquen.
Vésper acende os rastros, na suma permanência que o espaço abriga,
compondo a paisagem de sonhos afins,
homens percorrendo a ciranda ístmica, plurissecular,
e a paisagem-lua no interior da fonte,
refletida em plenilúnio,
que a terra expulsou, sob época de estio,
estabelecendo o curso das nascentes,
e delas pariu riachos, erigiu templos,
em magníficos acordes transpondo a idade.
E à explosão das águas unificadas
emergiram a ciranda de ínsulas e os braços peninsulares.
Enquanto fio intimamente os segundos,
num gesto de ser, todo implícito,
calmo a ansiedade em que preparo o ritmo lento das palavras,
o fluídico silêncio da avidez contida;
e este é como o brado em lábios de mudo,
que necessita todo gesto  a mais que palavras
e toda a eloquência de sentido brusco.
E se me deparo com meu ritmo, através dos tempos,
este ritmo incólume, perpasso a aura que me veste,
a fiar mais rápido e continuamente, como rápido
os moinhos giram em torno do eixo
e lentamente gasta-se a corda na roldana.




Fragmento – a origem



É a tarde e a manhã o dia quinto
determinando o atropelo de pássaros, insurgidos,
que se aproxima sobre minha cabeça,
rumo oposto aos gestos que faço,
e sigo sem protestos a rumorosa dança:
vigoroso fluxo toma as árvores do continente,
e o chão do continente,
e dos rios e mares, divididas as águas,
brotam cardumes em vigoroso fluxo.
Nasço, dos séculos, na seara
em que fio os segundos de cada poema,
de cada palavra ou ideia,
como rápido os moinhos giram em torno de seus eixos
e lentamente gasta-se a corda na roldana.
Entretida na íris que descerro,
sigo o tráfego comum das borboletas.

Eis-me, agora, distanciada das palavras,
que estabeleceram a unidade;
eis-me distanciada um segundo – a memória é farta,
sobre os músculos que a sustentam na avidez do silêncio,
quando os gestos por si mesmos falam.
Dirá, agora, que irradia,
no íntimo da paisagem sua, a cidade
entre teias de uma outra cidade
espargindo seus raios multicores,
tomando ruas e avenidas, paralelas, à orla de mim,
que me converto em tempo.




O Tempo



O século dividido emerge do porto, continuamente,
à beira de canais alheios à idade
e mares acumulados nas ruas estreitas, bem dentro dos bairros;
o mar sem sentido obrando ao sabor do nada,
que bem conduz os seus seres ocos, os nadadores,
atravessando-o de braços, como Veneza se atravessa de gôndolas.

Alheia aos meus versos estabelecendo a unidade,
atravesso como um rio os continentes, rompendo a carne,
movendo das palavras o istmo permanente,
em uma réstia de vento trançada à-toa:

lanço-me, então, solidária, na partilha – seara florida e montanhas elevadas.
A bordo de seus músculos na idade do tempo
transferem-se arco-íris de um ponto a outro da cidade.


[In Poema deitado no seu peito: um jogo de amarelinha. São Paulo: Scortecci, 2012.]

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