Ponte da Passagem, chegando a Vitória no fim da tarde. Foto Gilson Soares, 2014. Quantas vezes já cientifiquei você, proficiente leitor...

Da psicologia canina

Ponte da Passagem, chegando a Vitória no fim da tarde. Foto Gilson Soares, 2014.
Ponte da Passagem, chegando a Vitória no fim da tarde. Foto Gilson Soares, 2014.

Quantas vezes já cientifiquei você, proficiente leitor, da minha parca – quis dizer, porca – erudição?

Muitas, não é mesmo?

Faço isso, sempre, com a dolorosa sensação de estar cometendo o pecado – o grave pecado estilístico – da redundância.

Sim, pois quem convive literariamente comigo já está cansado de saber – por ver, por ler – que eu transito pela parte mais rasa – pela superfície – do conhecimento sério, científico, profundo; daquele conhecimento que é como o cimento – a base – da boa erudição.

O sagaz leitor, portanto, há muito já observou – não carece de dizer – que o que eu carrego mesmo comigo é uma vasta bagagem de ignorâncias. Santas – e tantas – as minhas ignorâncias.

Mas em determinados assuntos ostento um desconhecimento destacado. Total. Absoluto.

Um desses assuntos é a psicologia canina.

Uma ciência que desconheço tanto, a ponto de nem saber que existia. Só agora fico sabendo que existe sim, a psicologia canina.

E que tem seus cânones.

Seu status acadêmico.

E comercial, claro.

Mas por que, está perquirindo o instigado leitor, estou elucubrando aqui, agora, acerca da personalidade e do comportamento social dos cães?

Informo, então, pra você, leitor, o que qualquer ciclista viajante sabe: os cães, principalmente os que residem em sítios e fazendas de beira de estrada, têm uma indisposição declarada para com as magrelas e seus condutores.

Por isso, alimento desde os meus primeiros pedais rurais o interesse pela psicologia de cachorros e cadelas.

Mas confesso – você está certo, leitor – que eu nem me lembrava disso enquanto ia pedalando por São Domingos naquela manhã de sexta-feira, rumo à saída da cidade.

Ia eu por ali bem folgado, depois de ter passado pela EEEFM São Domingos e de ter entregado pra sua biblioteca os últimos exemplares de Minério que eu tinha levado para aquela viagem.

Agora, o que eu transportava no bagageiro da magrela era a alegre – e leve – sensação do cumprimento, na íntegra, do que me propusera a fazer naquele meu Giro pelo Arco Norte Capixaba.

Isto é: do ponto de vista da cartografia, eu tinha rabiscado com o rastro da pretinha, o enviesado desenho do Torreão Noroeste. Por outro lado, prestando minha contribuição ao mercado editorial, eu acabara, ali, de distribuir o Minério pelas bibliotecas públicas das cidades por que passei.

Ciente de que não chegaria a Vila Velha – quer dizer, em casa – naquele mesmo dia, ia então pensando em pedalar até João Neiva, onde pernoitaria.

E no sábado, 14 de junho, ancoraria por fim a magrela no atracadouro da minha casa, de onde tinha saído na manhã da sexta-feira, 30 de maio.

Nada mais me preocupava.

Como em todas as viagens, naquele Giro eu tinha também sido perseguido algumas vezes por cães.

Assim, vez ou outra eu tinha pensado, rindo sozinho, que iria me dedicar um pouco, quando pudesse – provavelmente, nunca, né? – à busca de um conhecimento mais consistente da psicologia dos cachorros. Com o objetivo de encontrar resposta para algumas perguntas.

Uma delas: por que será que os cachorros de todas as raças, culturas, procedências e endereços têm tamanha aversão aos ciclistas e aos seus silenciosos veículos de locomoção?

Outra: de onde virá aquela expressão de inimizade, de ódio, de confronto que todos os cães de beira de estrada, trazem estampada nas suas carrancas arfantes e agressivas, mal o ciclista pacífico e quieto aponta lá na curva distante da quase sempre vazia via vicinal?

Só mesmo um tratado sobre o comportamento social dos cães, pensava então com solitária ironia, poderá esclarecer essa minha demanda de conhecimento.

Mas eram outros, repito, os pensamentos que ocupavam a minha cabeça mambembe naquela manhã de – quase – fim de viagem.

Nem mesmo quando observei à minha frente uma procissão desordenada de cães vagabundos, esse tema veio à tona.

Afinal aquela pequena multidão de vira-latas que transitava por ali – talvez todos os cachorros vadios de São Domingos do Norte – estava mesmo é festejando o cio de uma cadela, pelo visto, muito cobiçada por aquela numerosa comunidade masculina.

Talvez até fosse o dela – pelo número de pretendentes ali perfilados – o cio mais esperado da região.

Não sei.

O que sei é que a minha preocupação com aquele cortejo foi nenhuma. Não penso – não pensava – que qualquer outra atração visual ou olfativa pudesse alterar o interesse decididamente sexual daquela turba canina ambulante.

Mas de repente – quem poderá entender o comportamento coletivo dos cães? – eles, unânimes, desviaram sua atenção e partiram, vorazes, pra cima de mim.

Posso pensar hoje que a iniciativa daquele ataque partiu da própria cadela que, segundo especialistas em psicologia canina, costuma apresentar no cio variações de comportamento.

Se não isso, talvez numa atitude inteligente, ela, a cadela, incomodada por aquele assédio matinal de todos os vira-latas dominguenses e percebendo a minha indiferente passagem no outro lado da rua, não pensou duas vezes: deu a ordem de ataque.

Que foi fulminante.

Tanto que, francamente, nem sei precisar qual foi o indivíduo daquele coletivo de cães – sem pedigree e sem teto – que cravou os seus afiados caninos na parte inferior da minha panturrilha direita, que sangrou imediatamente.

Pode até ter sido mesmo ela, a cadela, ciosa da liderança sobre os seus súditos, a autora da dentada certeira.

Mas não posso afirmar isso.

Pra dizer a verdade, nem deu pra identificar ali, naquela turba veloz e feroz, quem ladrava e quem mordia.

Pois cão que ladra, você sabe, não morde.

Pelo menos enquanto ladra, como ressalvou com sua inteligência – num outro tempo de irracional terror – o erudito Millôr.




---------
© 2017 Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia autorização dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.
---------

Gilson Soares é poeta e nasceu em Ecoporanga, no extremo noroeste do Estado do Espírito Santo, em 10 de fevereiro de 1955. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

Estação Capixaba

Estação Capixaba é o site voltado para a cultura, história e geografia do Espírito Santo e que busca resgatar, produzir, sistematizar, preservar e divulgar informações nessas áreas, sejam elas de autores locais ou não.

0 comentários :