“O Espírito Santo é azul e rosa” disse Pedro contemplando a luz diáfana de maio que tanto enlevo causa ao fotógrafo Humberto Capai. E acred...

Fim de papo & nunca mais...


“O Espírito Santo é azul e rosa” disse Pedro contemplando a luz diáfana de maio que tanto enlevo causa ao fotógrafo Humberto Capai. E acreditando ter lido em Fernão Ferreiro uma referência a essa luz divinal na terra capixaba, pegou os Cantos que estavam sobre a mesinha da Olivetti, ao lado de um exemplar dos Irmãos Karamasof, e se pôs à cata.

Foi uma caminhada cata-cata pelos versos do grande vate, heterônimo do não menos grande Renato Pacheco, desde o verso de abertura: “Agora é tudo novo e ao longe nos conduz...

E foi somente, ora finalmente!, no Canto 45, que Pedro achou o que procurava, embora não fosse o que esperava achar:

...mas é maio que eu amo mais que todos. Vitória, em maio, é a melhor terra das costas do Brasil.

Antes que fiquemos sabendo o que o escrivão de polícia ia fazer com sua descoberta poética, entra Lenilda neste textículo como um tornado caribenho.

“Seu Pedrinho, o home chegou com os capetas. Pro senhor ter uma ideia, está chutando a mesa, as cadeiras e até jogou o chapeleiro das boinas no chão.”

“Se chutou o chapeleiro, temos um Vesúvio prestes a destruir Pompéia... É caso delicado,” concordou Pedrinho.

“Bota delicado nisso. O pior é que vai sobrar pro senhor,” preveniu a faxineira.

“Eu hein, Lenilda! Vê se me erra...”

“Não tem erro, nem meio erro, seu Pedrinho. Põe um colete à prova de balas e vai logo lá que ele mandou te chamar,” desobrigou-se Lenilda da missão que Digital lhe conferira.

“E eu que pensei que este dia de maio ia ser diáfano e radioso sob o encanto dos versos de Fernão Ferreiro,” disse Pedro, dirigindo-se para o gabinete do delegado.

Quando entrou, Digital tinha as feições alteradas, a cara ruça de ódio – ou russa de ódio, se o gentílico descrever melhor a fúria reinante na alma da criatura. Sem dar tempo ao escrivão para abrir a boca, fuzilou:

“Você sabia que tudo que acontece aqui na delegacia está sendo escrito por aquele escritor seu amigo?”

“Quem foi que disse isso?” perguntou Pedro se fazendo de bobo.

“Quem foi que disse não interessa! Eu quero saber se é verdade o que me disseram? Porque me contaram que eu, você, Lenilda, Nanico, o deputado Ribeirinho, às vezes até minha mulher, Engracia, e tudo o mais que se passa dentro das quatro paredes desta casa está sendo usado como matéria de gracinha pelo seu amigo,” cresceu Digital nas canelas.

“Bem...” começou Pedro, estudando a resposta que ia dar. “Eu já tinha ouvido falar, mas...”

“Nem mais, nem menos, nem porém, contudo, todavia” interveio o delegado, descontrolado. “Se é verdade o que estão dizendo, eu exijo que você tome uma providência e vai ser agora mesmo! Pegue o telefone e ligue pra ele. Diga que eu – veja bem – eu, o delegado Archibaldo Evangelino de Souza, proíbo terminantemente que continuem a ser publicadas coisas sobre nós e sobre a minha delegacia. Deixe claro, muito claro, que não se trata de um pedido, mas de uma ordem. Se ele achar que é ameaça, diga que é ameaça mesmo. Porque do jeito que estou puto, aliás, putíssimo da vida, sou capaz de mordê-lo na julgular como um vampiro.”

Pedro coçou o queixo e fitou o delegado com um olhar de comiseração intelectual, antes de perguntar: “Julgular, Digital?”

“Julgular, sim. Você não sabe onde fica?”

“Fica no pelscoço?” ironizou Pedro.

“Não se faça de besta comigo, nem desvie a conversa,” bronqueou o delegado. E estendendo o celular para Pedro fazer a ligação. “Disque logo!”

“Um disque denúncia?”

“Entenda como quiser, mas dique agora!” gritou Digital.

“Você não acha melhor pensar mais um pouco no assunto?” quis Pedro chamar Digital à razão.

“Pensando morreu um burro. Eu quero ação. Ação imediata, ação da sua parte! Minha delegacia tem de deixar de ser assunto de conversa mole, de piadinhas bestas na internet...”

Pedro, porém, não se deu por vencido.

“Você já pensou, delegado, que se ele parar de escrever seremos removidos de onde estamos?”

“Removidos por quê? Ele tem tanta força assim? Ou você se esquece que sou amigo do deputado Ribeirinho?”

Sem perder o olhar comiserativo, Pedro foi mais claro:

“É preciso que você saiba, delegado, que quando o meu amigo escritor escreve sobre o que se passa aqui na delegacia é porque tudo o que se passa aqui na delegacia é o que ele escreve, entendeu?”

“Isso é uma charada ou uma pegadinha?” protestou Digital.

“É a pura verdade” explicou Pedro. “Uma verdade com todas as letras ou, para ser mais exato, é a verdade das Letras.”

“Pois pegue cada uma dessas letras, de a a z, sem esquecer o dabliu, e enfie uma a uma no traseiro do seu amigo. Agora, ligue pra ele que eu mesmo falo! Vamos, porra!”

Pedro cumpriu a ordem e digitou o número que sabia de cor. Quando reconheceu a voz do outro lado da linha, passou o celular para o delegado sem nem sequer dizer bom dia.

“Alhou” gritou o delegado. “Alhou?” [E dirigindo-se a Pedro]: “Ou está mudo ou então não está ouvindo nada. Você ligou o número certo?”

“Liguei, delegado,” disse Pedro desanimado.

“Alhou, alhou... Você aí, seu idiota, seu paspalhão, seu imbecil, seu merda de escritor não está me ouvindo ou está se fazendo de morto?”

Pedro se aproximou de Digital e fez um apelo definitivo: “Desliga o celular, chefe!”

“Cala a boca, idiota, e não me chame de chefe!” Sem descolar os dentes do aparelho, Digital continuou esbravejando: “Alhou! Alhou! Ô bosta de escritor, tá querendo brincar comigo? Pois vai quebrar a cara, porque vou estrumbicar com sua cartola, ouviu? Está ouvindo, ou perdeu a língua de medo?!”

“Me dá o celular, Digital” disse Pedro tomando o aparelho à força e desligando-o.

“Por que você cortou a ligação?” explodiu o delegado ruço-russo.

“Será possível, Digital, que você não esteja entendendo nada do que está se passando?” perguntou o escrivão, procurando ser paciente.

“O que estou vendo é que você está protegendo seu amigo contra o seu chefe.”

“Agora você é chefe?” rebateu Pedro.

“É porque está em jogo a minha autoridade...”

“Neste ponto você tem razão,” concordou Pedro. “Só que está em jogo muito mais do que a sua autoridade de chefe, chefe. Está em jogo você, eu, Lenilda, Nanico, o seu amigo do peito, o deputado Ribeirinho, sua digníssima esposa dona Engrácia, e mais todas as cagadas que você tem feito aqui e fora daqui e que vai continuar fazendo se a Delegacia não for pro beleléu...”

“Não me venha com insolência, seu escrivãzinho metido a grande escritor... Vê se me respeita senão...”

Antes que terminasse a ameaça, Lenilda entrou no gabinete com uma ousadia que ninguém seria capaz de esperar dela.

“Dotô, tem um mensageiro aí com uma coroa de flores,” informou a faxineira.

“Coroa de flores?!” surpreendeu-se Digital olhando para Pedro com a cara dos três patetas numa só.

“E o endereço está certinho,” adiantou a faxineira.

“Então mande entrar o elemento,” ordenou o delegado.

“Ponho aonde, chefia?” perguntou o recém chegado, o rosto aparecendo como uma calota de roda de carro no meio da coroa funerária.

“Bota aí na minha mesa!”, berrou Digital. “E suma da minha frente!”

O entregador cumpriu a ordem e escapuliu das vistas de Digital antes que fosse tarde.

“Tem uma mensagem na faixa roxa”, avisou Lenilda. “Uma mensagem em letras douradas...”

“Pois leia o que está escrito, Pedro,” ordenou o delegado.

Pedro aproximou-se da coroa e leu em voz alta: “À memória da delegacia da Chapot Presvot, 272, e de seus ilustres figurantes.”

“Viu, Digital? Eu avisei...”, disse o escrivão, encarando o chefe.

“Que sacanagem é esta?” bradou Digital.

Foram as últimas palavras que se ouviram na Chapot Presvot, 272, embora ainda tivesse acorrido à mente de Pedro o verso de Fernão Ferreiro “Aqui a vela bruxuleia e se apaga...


[Este texto integra a série intitulada CHAPOT PRESVOT 272, de Luiz Guilherme Santos Neves]

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Luiz Guilherme Santos Neves (autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

Estação Capixaba

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