Naquela manhã, Pedro, o escrivão, entrou na delegacia com cara de Nosferatu que passou a noite sem achar uma jugular para saciar sua hemato...

O eu e suas estranhezas ou a confirmação das significações sem sentido


Naquela manhã, Pedro, o escrivão, entrou na delegacia com cara de Nosferatu que passou a noite sem achar uma jugular para saciar sua hematofagia. O aspecto de vampiro famélico não passou despercebido a Lenilda.

“O senhor está esquisito, seu Pedrinho! Chegou para trabalhar de cara franzida, falando sozinho... Será que se esqueceu de tomar em jejum seu suco de limões galegos espremidos?” perguntou a faxineira ao escrivão de polícia que acabava de aportar na delegacia.

“De fato, Lenilda, tenho andado taciturno.”

“Taciturno?!”

“É... calado, tristonho, cismado... Nunca ouviu falar em taciturno?”

“Já, mas pensei que era nome de homem...”

“Não me diga, Lenilda! Parece que estou ouvindo Digital falar...”

“Por Deus que eu pensava... E por que o senhor está assim?”

“Tudo porque li no livro Amor e Erotismo, do mexicano Octavio Paz que, para os budistas o eu é uma construção mental sem existência própria, uma quimera...”

“Que idéia mais complicada, seu Pedrinho... Se eu ficasse pensando nessas coisas, acabaria lelé da cuca,” disse Lenilda.

“Você tem razão porque é mesmo para se perder a razão. Pensa bem: se o eu não existe, segundo os budistas, como é que eu e você podemos dizer que somos pessoas distintas uma da outra, com sentimentos, desejos e pensamentos próprios? Por que se o meu eu – preste bem atenção – se o meu eu não existe, porque só na minha consciência existe a crença de que o meu eu exista, nada tem significação e sentido, pois, por dedução lógica, o que existe é o nada absoluto, está entendendo?”

“Não entendi nadinha, seu Pedrinho. Não é à toa que o senhor está tão taci... como foi que o senhor disse?”

“Taciturno.”

“Isso aí. Para o senhor melhorar vamos na cozinha da delegacia que eu faço um café quentinho para nós dois. Depois o senhor fuma um cigarrinho pra suas idéias voltarem pro lugar.”

Mas não foi possível irem porque naquele momento chegou o delegado e chegou de cara mais “nosferática” do que a de Pedro. E já mostrava pelo carrancudismo da carranca que não ia ser um dia bom para o escrivão, que foi convocado para uma conversinha na sala do delegado.

[Deste parêntese em diante a cena se passa com o delegado, e o texto corre no estilo dialogado de peça de teatro, ficando aos leitores imaginar o cenário e as reações dos atores, conferindo-lhes dramatismo ou comicidade a livre gosto].

Digital: Eu fiquei sabendo, seu Pedro, que você tem um site na Internet...

Pedro: Quem lhe disse?

D: Minha mulher Engrácia. Ela é que fuça essas coisas. Não tem o que fazer, fica de rabo grudado em frente do computador.

P: E descobriu meu site?

D: Foi. Ela me disse até que seu site tem nome de mulher...

P: Nome de mulher?!

D: Se não me engano é Tertúlia. Tanto nome macho por aí e você vai logo arranjar um nome que mais parece de piranha.

P: É verdade, Digital. Eu podia ter posto Pedrão, não é mesmo?

D: Gostos (Digital falou a palavra com o aberto) não se ‘discute’. Eu, por exemplo, não como nada que tenha glúteo. Mas a questão “grucial” é que minha mulher disse que você está me desmoralizando no site...

P: Estou desmoralizando você no site?

D: Foi o que Engrácia disse. E ela é como eu – tem olho de águia.

P: E o que dona Engrácia viu contra você no meu site?

D: Ela leu no site uma peça de teatro que tem um delegado que se parece comigo. Um delegado que é a minha cara, ela disse.

P: Você podia ser mais claro?

D: Engrácia me mostrou... É uma peça chamada, se não me engano, Auto do Túmulo de Anchieta. Está lá e você não pode negar.

P: E você acha que o delegado da peça é você?

D: Claro que não sou eu com o meu nome, que ninguém ia chegar a tal “peitulância”. Mas é a minha cara cuspida e escarrada pelo que Engrácia falou.

P: Você leu a peça?

D: Você sabe que eu não gosto de ler. Mas Engrácia leu e deu a opinião dela, que para mim basta. É um delegado machão que gosta de respeito e não admite ser passado pra trás como eu.

P: Olha, Digital, por muito respeito que eu tenha pela opinião de dona Engrácia, desta vez o olho de águia dela se enganou. O delegado da peça não é você! Tira esta idéia da cabeça.

D: Tiro pícolas nenhuma. Eu já investiguei direitinho. Quem escreveu a peça foi aquele escritor seu amigo que já esteve preso aqui. Ele estava tirando umas fotos da delegacia quando foi encanado, está lembrado? Por isso me botou na peça sem a minha autorização. E isso eu não admito! Está usando a minha imagem sem o meu consentimento.

P: Mas é um absurdo, Digital! Não faz o menor sentido o que você está dizendo!

D: Preste atenção no meu aviso, seu Pedro: se você não tirar a peça do seu site eu vou chamar o escritor seu amigo para um bate-pau na minha sala. Ele não vai gostar nada do que vai ouvir e o que via lhe acontecer.

P: Se você fizer uma coisa destas, Digital, vai cair no ridículo!

D: Ridículo é você querendo proteger seu amigo.

P: Deixa eu lhe propor uma questão, delegado: você se considera uma pessoa de baixo nível de inteligência?

D: Qual o sentido oculto da sua pergunta?

P: Você se considera burro?

D: É lógico que não!

P: Pois então você não é o delegado da peça porque o delegado da peça faz papel de burro e de bocó ao mesmo tempo. Estou falando porque eu li a peça antes de botar no site. Por isso garanto que o delegado não é você!

D: Apesar do que você está dizendo vou conversar novamente com Engrácia. Se ela concordar com sua opinião dou o assunto por encerrado.

P: Ótimo, Digital. Converse com ela, diga que você falou comigo, pede para ela reler a peça com atenção, depois me conte o resultado.

D: É o que vou fazer.

P: Tenho certeza que o olho de águia de dona Engrácia não vai falhar desta vez.

D: O olho dela e o meu também, porque agora vou querer ler essa merda de peça do começo ao fim.

P: Nem precisa ler tudo, para não ficar cansado. Leia somente a parte do delegado. Leia devagar sílaba por sílaba e depois me dê sua opinião.

D: Como é mesmo o nome da peça?

P: Auto do Túmulo de Anchieta.

D: É auto por que o túmulo de Anchieta fica na cidade alta, em Vitória?

P: Taí, Digital, você acertou na mosca!

[Fim do teatrinho oferecido à imaginação dos leitores].

“Podemos ir ao café, seu Pedrinho? Ou o senhor já melhorou depois da conversa com o dotô?” perguntou Lenilda cercando Pedro no corredor da delegacia depois que ele saiu da sala de Digital.

“Vamos ao café, minha amiga. Vamos para comemorar porque na conversa que tive com o delegado acabei de confirmar que o eu realmente só existe na cabeça das pessoas, ou seja, na cabeça de cada eu. Digital me deu a prova de que nada tem significação e sentido a não ser a significação e o sentido que cada um, ou seja, que cada eu empresta ao seu próprio significado e sentido, por mais sem sentido que possa parecer.”

“Olha, seu Pedrinho, eu nunca pensei que dr. Digital fosse tão inteligente,” disse Lenilda admirada.

“Pelo contrário, minha amiga. Ele é o mais burro dos burros que já encontrei na minha vida. Vou dizer mais: ele raciocina como um tamanco!” disse Pedro.

“Agora é que não entendi nada,” confessou Lenilda de cara abobalhada.

“No cafezinho eu lhe explico,” disse Pedro puxando-a pela mão às gargalhadas.

[Este texto integra a série intitulada CHAPOT PRESVOT 272, de Luiz Guilherme Santos Neves]

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Luiz Guilherme Santos Neves (autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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