Como todo bom leitor dos autores russos consagrados, Pedro também tem o seu dia de romance policial – “um policial facultativo” –, com pre...

Uma encruzilhada na noite ou a dança da Margarida



Como todo bom leitor dos autores russos consagrados, Pedro também tem o seu dia de romance policial – “um policial facultativo” –, com preferência para Simenon, menos pelo teor detetivesco das histórias do comissário Maigret do que pela mestria com que o escritor belga arma a ambientação em que se desenvolvem suas narrativas.

Bem a propósito, Pedro costuma dizer, do alto do seu grau de imortal de Academia de Letras, que o melhor de Simenon está no lado extrínseco das suas histórias e não no seu viés intrínseco – quem quiser que decifre o não muito sherloqueano enigma.

“Eu sei o que estou dizendo,” limita-se aduzir batendo no peito magro. E a se considerar a força com que sublinha sua eloquência não muito fática, esmurrando a caixa toráxica intrinsicamente sombreada pela pátina enfumaçada dos cigarros que cigarreou de longa data, é de se crer que a sentença proferida tenha o valor de um princípio irrefutável. Há que se aceitá-la e pronto e ponto.

Diga-se agora, para a continuidade do que se vinha dizendo, que foi num fim de semana em Vargem Alta que Pedro leu A noite na encruzilhada, de Simenon.

O romance o deixou em estado de fascínio intelectual ante a técnica literária do autor ao descrever um caso de sedução não consumada entre o comissário Maigret e a principal personagem feminina da história.

A cena, de insinuante erotismo, se passa numa casa misteriosa, à beira de uma encruzilhada, no interior da França. O clima de envolvimento entre Maigret e a mulher solitária é favorecido pela meia-luz de um quarto onde os raios do sol penetram fatiados em lâminas pelas persianas da janela. O resto é um delicioso jogo de insinuações e meias palavras que Simenon põe na boca dos seus personagens, construindo uma página antológica que empolgou Pedro.

Paradoxalmente, porém, o escrivão teve uma noite de pesadelo, sob o efeito da leitura do capítulo magistral, conforme contou a Nanico, quando chegou à delegacia.

“Você tem que me ouvir, Nanico, para que eu esconjure o mau pedaço que passei dormindo. Aliás, dormindo e sofrendo.”

“Você sonhou que estava sendo trucidado pela personagem do romance?” perguntou Nanico, oferecendo a orelha amiga para que Pedro inoculasse nela o seu desabafo.

“Pior, meu amigo. Meu pesadelo se passou aqui na delegacia. Eu havia chegado cedo para trabalhar quando Digital me chamou à sala dele. A delegacia estava calma e lá fora um sol primaveril apascentava a cidade de Vitória. Lembro-me bem que bati na porta, antes de entrar, e o delegado, no seu estilo boçal, gritou “eeentraaaa”, e eu entrei.

A princípio não distingui direito o interior do gabinete porque eu saía de um ambiente de primavera iluminada para outro, à meia luz, entrecortado por faixas de sol, mortiçamente filtradas pelas persianas da sala, semelhante ao que havia lido no romance de Simenon. Se tivesse de definir o cenário onde me achava diria que era um lugar zebrado de luz e sombra (sem falar, é claro, na zebra do delegado). Mas ao contrário de uma mulher sedutora, que estivesse à minha espera, o que vi foi Digital em pé, em cima da mesa, como um boneco dançarino, cantando o samba de Ataulfo Alves e Mario Lago, Atire a primeira pedra, que começa com o verso covarde sei que me podem chamar. Era uma cena grotesca que, no entanto, me magnetizava: o delegado sobre a mesa, se requebrando como uma stripteaser ao som de um samba que ele mesmo cantava. E tenho que reconhecer que entoado Digital é!”

“Isso já era uma submissão de seduzido?”, perguntou Nanico brincalhão.

“Talvez fosse porque ao mesmo tempo em que eu desejava sair da sala para me livrar da visão agressiva e bizarra, queria ficar para ver até onde o delegado era capaz de ir. O curioso é que eu pensava exatamente assim, no pesadelo, como se dissesse para mim mesmo, num plano de entressonho, que a qualquer momento podia acabar com aquela situação vexatória, bastando que acordasse. Mas não acordei.”

“E o delegado foi em frente...” disse Nanico.

“Foi. À medida que cantava ia tirando a roupa peça por peça, com gestos patéticos, sem parar de cantar, começando por baixar os suspensórios e descalçar os sapatos de verniz de bico fino que jogou na minha direção, com um sorriso boçaloide sob o bigode obsceno, enquanto continuava a se despir e a cantarolar, atire a primeira pedra, ai, ai, ai, atirando-me a gravata vermelha e a camisa verde-clara, suada e pegajosa, de mangas compridas, aquele que nunca sofreu por amor, e me vieram à cara as calças largas com os suspensórios pendurados, eu sei que vão censurar o meu proceder, e me alcançam o nariz as meias mal-cheirosas, seguidas de outra pedrada que era uma camiseta do tipo regata que me bate na testa, eu sei, mulher, que você mesma vai dizer que eu voltei pra me humilhar, e assim peça por peça ou pedra por pedra toda a indumentária do delegado me foi arremessada em golpes indefensáveis até que, num desnudamento final aquela Salomé virago e peluda me lança a cueca azul de bolinhas brancas, enquanto repete eufórica e estridente, mas não faz mal, você pode até sorrir, exibindo-me a genitália ignóbil, aliás, a digitália ignóbil. Não satisfeito com a exposição vergonhosa, virou-me as costas e me mostrou os fundilhos brancos e sórdidos, cantando perdão foi feito pra gente pedir.

Nem assim você acordou?” perguntou Nanico agoniado com o relato de Pedro.

“Quase acordei, Nanico. Mas por um desses mistérios que só acontecem nos sonhos, creio que meu inconsciente foi tocado pelo meu consciente revoltado e, repentinamente, comigo ainda numa solonolência esgarçada e renitente deu-se uma reviravolta compensadora no rumo do pesadelo: o que antes era um Digital abominável transformou-se numa mulher deslumbrante que me seduzia, nua e tentadora, piscando-me os olhos de castanholas.”

“Olhos de castanholas?!”

“Capitu, de Machado de Assis, não tinha olhos de ressaca? A musa do meu sonho tinha olhos de castanholas, e daí?”

“Daí que foi então aquela festa flamenga entre você e os olhos de castanholas,” disse Nanico ansioso por conhecer o clímax do sonho de Pedro.

“Que nada, Nanico, porque no melhor do melhor do meu sonho o despertador tocou e eu acordei duplamente chateado: pelo vexame a que me vi exposto no pesadelo com Digital, e pela frustração de não ter ido em frente com a castanholeira que bailou para mim o bailado mais lascivo a que já assisti na minha vida.”

“Não é para menos...” disse Nanico solidário com a má sorte do colega.

“Mas o mais irônico veio depois, meu amigo. Eu tinha certeza de que havia visto a mulher sonhada em algum lugar e quis por que quis me lembrar onde foi. Já pensou se ela estivesse ao meu alcance, na vida real? Esta possibilidade me espicaçava.”

“Espicaçava é o verbo adequado. E se lembrou?”

“Lembrei-me, não. Apareceu a margarida quando o despertador me acordou: era a bailarina que estava decalcada no mostrador do relógio... Não é para arrebentar meu cavaquinho?”

“Se fosse você eu quebrava o despertador,” disse Nanico.

“Foi o que eu fiz, meu amigo. Quebrei-o com bailarina e tudo. E ainda trouxe para mostrar a você a dançarina que sobrou do quebra-quebra. Veja-a. Não é lindamente sedutora?”

“Ela me lembra Digital...”, disse Nanico, rindo debochado do dedo fálico que Pedro lhe mostrou.



[Este texto integra a série intitulada CHAPOT PRESVOT 272, de Luiz Guilherme Santos Neves]

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Luiz Guilherme Santos Neves (autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)


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