Luiz Guilherme Santos Neves é pesquisador da história e folclore capixabas, além de escritor com vários livros publicados.
Número de artigos deste autor:
Caiado viu Pedro, Pedro viu Caiado. Abraçaram-se. Interrogaram-se, um querendo saber da vida do outro, aquele papo de colegas do primário que se encontram depois de vinte anos. O que você tem feito, quantos filhos tem, quantas mulheres, quantas sogras, quantos empregos, onde está morando, pegou dengue, está acompanhando a merda geral em que o[Ler o restante do artigo]
Dia de vento sul e chuva fina. Vitória sem cara de cidade-sol ou ilha do mel. Os crimes da rua Morgue (ah os crimes da Rua Morgue!) deviam ter acontecido num dia de vento assim, de chuva assim, no Quartier de St.-Roch. Pedro fechou o guarda-chuva na varanda da delegacia, tirou a capa de plástico[Ler o restante do artigo]
“Vamos sentar aqui,” disse Pedro. Era um banco de madeira, de cor indecifrável, tantas as camadas de tinta que recebera e perdera ao longo da sua existência. Ficava embaixo do velho cajueiro, no quintal da delegacia da Chapot Presvot, 272. Ali o escrivão de polícia se recolhia algumas vezes para meditar sobre a literatura e[Ler o restante do artigo]
Sábado, manhã de agosto, um começo de verão despachando o falso inverno capixaba pela porta dos fundos. De repente, um entrevero irrompe no meio da livraria Logos, na Praia do Suá. “Isto é um absurdo!” disse a mulher, num brado adamastor. Não era nem alta nem baixa, nem gorda nem magra, nem bonita nem feia,[Ler o restante do artigo]
“Que sorte peluda a sua, Pedrinho,” disse o escrivão Nanico para o escrivão Pedro que chegava para substituí-lo na delegacia. “Qual foi o causo?” “Se você tivesse chegado mais cedo ia ter de levar o cacique Jurupiã até Aracruz. Levar no seu carro…” “Que conversa é essa?” quis saber Pedro tirando um cigarro do maço[Ler o restante do artigo]
Chegueei, chegaaaste. Viiinhaas fatigaada e triiiste, Triiiste e fatiiigaado eu viiinhaaa. Tiiinhas a aalma de sonhos povoaaada, De soonhos povoaada a aalma eu tiiinha.” “Gostei da letra, seu Pedrinho. “É do Chico?,” perguntou Lenilda que viera da cozinha para servir um cafezinho ao escrivão. “Não, Lenilda.” “Do Caetano?” “Também não, Lenilda.” “Não vai dizer que[Ler o restante do artigo]
A loura entrou na delegacia num terninho de tecido metalizado, cor de azeitona, as sandálias de saltos pontiagudos percutindo no assoalho de tacos de peroba, toque-toque-toque. Tinha um rebolado pro lado, minha nossa Senhora, meu senhor São José, que o escrivão viu e não pôde fingir que não vira, pois lhe entrara pelos olhos que[Ler o restante do artigo]
Depois de um longo apagão que se abateu sobre a delegacia da Chapot Presvot por falta de energia elétrica em suas dependências a rotina habitual parecia que ia voltar à normalidade quando, de súbito, não mais do que de súbito… “Está ouvindo, seu Pedrinho?” perguntou Lenilda. “Toda a delegacia está ouvindo…” respondeu o escrivão. Realmente[Ler o restante do artigo]
O engenheiro geólogo Luiz Edmundo Appel não devia ser apaixonado pelo futebol. Se fosse, teria escutado toda a transmissão, pelo rádio, do jogo Brasil, 7, Suécia, 1, na Copa de 50. Mas, indiferente ao campeonato que empolgava o povo brasileiro, o engenheiro escutou apenas o fim daquela partida espetacular, isso mesmo por ter saído do[Ler o restante do artigo]
Ponha-se na ante-sala deste texto a tabuleta de uma epígrafe, transcrita em fonte de impacto por se tratar de referência especialíssima: Nenhuma matéria senão a fortemente dramática me interessa. A miséria humana, a degradação social, as estranhezas, os caminhos perpendiculares, eis aí a minha matéria, trabalhada com certo prazer risonho: se o que escrevo não[Ler o restante do artigo]