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	<title>Arquivos História Pessoal &#8902; Estação Capixaba</title>
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	<description>Patrimônio Cultural Capixaba</description>
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	<title>Arquivos História Pessoal &#8902; Estação Capixaba</title>
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		<title>Depoente: Lúcia Carasso</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 27 Mar 2016 20:22:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Depoimentos]]></category>
		<category><![CDATA[História Pessoal]]></category>
		<category><![CDATA[Lúcia Carasso]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Lúcia e Michael Carasso com seus dois filhos. &#160;&#8220;Era uma manhã, bem cedo, como outra qualquer, quando de repente bateram à porta e disseram em alemão: ‘Fora! Fora de casa agora!’ Nós éramos sete. Meu pai, minha mãe, eu e mais quatro irmãos. Saímos do jeito que estávamos, com a roupa do corpo. Todos, com [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;">
<a href="https://2.bp.blogspot.com/-HstrOMJueVk/VvgviF0TLzI/AAAAAAAAHOw/2aMwo2-ID4EI1Jhkip24pR7tE1nqwF7yg/s1600/L%25C3%25BAcia%2BCarasso-1p.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img fetchpriority="high" decoding="async" alt="Lúcia e Michael Carasso com seus dois filhos." border="0" height="516" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/03/L25C325BAcia2BCarasso-1p.jpg" class="wp-image-5366" title="Lúcia e Michael Carasso com seus dois filhos." width="640" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Lúcia e Michael Carasso com seus dois filhos.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>&nbsp;&#8220;Era uma manhã, bem cedo, como outra qualquer, quando de repente bateram à porta e disseram em alemão: ‘Fora! Fora de casa agora!’</p>
<p>Nós éramos sete. Meu pai, minha mãe, eu e mais quatro irmãos. Saímos do jeito que estávamos, com a roupa do corpo. Todos, com armas em punho, &nbsp;nos levaram para o carro. Foi uma longa viagem de trem, interminável, de &nbsp;Salonica, Grécia, para a Polônia. Todo mundo em pé, igual gado, quase sem se mexer, de tão lotado que estava. Fazia frio&#8230; Sentíamos fome, sede, medo, desespero, tudo! Não entendíamos o que estava acontecendo.</p>
<p>Nosso destino foi um campo de concentração na Polônia. Lá eles separaram os homens das mulheres, as mães de seus filhos, a minha mãe de mim e dos meus irmãos. Só não me separaram da minha irmã Mary, que esteve comigo durante todo o tempo e saiu viva de lá também. Meus outros irmãos eu nunca mais vi.</p>
<p>As crianças, na maioria dos casos, eram descartadas. Eu era muito nova, a filha caçula, não tinha nem 12 anos, mas sobrevivi porque era grande e esperta, boa para trabalhar. Além disso, tinha facilidade com línguas e aprendi a falar alemão lá dentro, o que me fez ser a tradutora oficial dos nazistas: traduzia do alemão para o grego ou espanhol. Facilitando a comunicação entre eles e nós, prisioneiras.</p>
<p>Os principais campos em que passei foram de Auschwitz-Birkenau, Dahau e Bergen-Belsen, na Alemanha, de onde fui salva.</p>
<p>O trabalho era inútil, praticamente com o objetivo de acabar com nossa força e ânimo: destruíamos casas novas, lindas, que eram dos judeus, tirando janelas, portas, tudo&#8230; As peças de valor eram separadas. Também cavávamos terra, andávamos muito, íamos e voltávamos de um lugar a outro. E sempre com gente nos vigiando. Quem parasse de trabalhar apanhava. Para podermos descansar, nós nos vigiávamos. Quando os nazistas estavam chegando, um avisava ao outro para todo mundo voltar a trabalhar. Começávamos cedo e só parávamos à noite, totalmente sem energia.</p>
<p>Banho era com água gelada e o sabonete era feito com os corpos das pessoas que eles matavam, ou de pancadas, ou com tiros ou nas câmaras de gás. Mas só descobrimos isso muito tempo depois&#8230; Tínhamos que estar limpinhos e arrumados no outro dia. Mas como? Lavávamos a roupa à noite, mas não dava tempo de secar. Por vezes tínhamos que torcer e colocar embaixo do colchão. Claro que não ficava seca. E aí, muitas vezes, dormíamos nus.</p>
<p>Da família só sobramos eu e minha irmã Mary. Muitas vezes ela dava a comida dela para mim, como um reforço, e acho que isso me ajudou a sobreviver. Com um jeitinho que não “era brasileiro”, muitas vezes ela pedia às chefes do nosso bloco algo a mais para comer, alegando qualquer desculpa. Algumas meninas, que não eram tão ruins, acabavam nos ajudando. No almoço era um caldo ralo, parecendo sujo, feito de casca de batata, sobras dos alemães. E esse caldo era muito salgado, uma forma de tortura também, porque não podíamos beber água a hora que quiséssemos. De manhã, era um café ralo apenas e, à noite, nem sempre tinha algo pra comer. Às vezes uns pedaços de pão tipo caseiro para dividir entre todas nós e só.</p>
<p>Dentro do campo de concentração de Auschwitz tocava uma sirene e ninguém sabia o que era aquilo. Depois, subia uma fumaça e um cheiro horrível. Só depois as pessoas foram desconfiando o que era aquilo. Eram os crematórios.</p>
<p>As pessoas lá dentro eram conhecidas como números. Tenho um número tatuado no braço até hoje: 39.422. Eu era uma dentre milhões de pessoas que estiveram sob a mira furiosa dos SS. Pessoas não! Porque pra eles éramos “sticks”, ou seja, peças. Nunca quis apagar esta tatuagem porque olhando para meu braço eu sei que sobrevivi.</p>
<p>O dia mais feliz daqueles dois anos e meio em que fiquei presa, foi quando os soldados do exército americano chegaram e gritaram: “Estão livres!” Saiu todo mundo gritando, de euforia, de surpresa, de gratidão, de alegria! Gente soltando as ferramentas de trabalho que tinham nas mãos, se jogando no chão, xingando, correndo desesperadamente de um lado pro outro, se juntando, dando as mãos&#8230; Teve gente que não acreditou.</p>
<p>Aí, nos levaram para o campo de refugiados na própria Alemanha. Depois, fomos para um refeitório, onde tinha lugar para todo mundo tomar banho e se vestir. Foi ali que encontrei minha felicidade! Conheci Michael, meu falecido marido, que também era grego e esteve preso como eu. E foi amor à primeira vista&#8230; Minha irmã também se apaixonou pelo melhor amigo do meu marido, se casaram e foram para os EUA.</p>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://3.bp.blogspot.com/-6UP84C_0bac/VvgvoJKJpDI/AAAAAAAAHPE/SH37rFSbvecky0lUNiyMNNlK8rOnT3Xig/s1600/IMG_7366-p.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img decoding="async" border="0" height="400" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/03/IMG_7366-p.jpg" class="wp-image-5367" width="292" /></a>&nbsp;</div>
<p>
Eu e Michael fomos para a Grécia. Ele queria ver se encontrava alguém da família dele e eu também tinha esperança de encontrar alguém da minha. Mas não achamos ninguém. Nós nos casamos e tivemos dois filhos, mas, em 1950/1951 fomos para Israel, onde meu marido tinha alguns familiares. Lá ficamos por cerca de três anos.</p>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://2.bp.blogspot.com/-yXHJsxAqu6U/VvgvoasTT5I/AAAAAAAAHPE/i2JKazjwD8gwUC8lWMwrtrlAk_cvOVCJA/s1600/IMG_7398-p.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img decoding="async" border="0" height="400" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/03/IMG_7398-p.jpg" class="wp-image-5368" width="300" /></a></div>
<p>Pensando em sair de Israel, fomos numa agência de turismo e vimos cartazes de vários países. O do Brasil tinha uma bananeira e uma arara linda! Aquilo chamou nossa atenção, já que sempre gostamos da natureza. Vimos que ali podíamos ser felizes com nossos filhos. Foram mais de vinte dias de uma viagem terrível de navio.</p>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://4.bp.blogspot.com/-ZMos3nmJZZs/VvgvoJOHsFI/AAAAAAAAHPE/CmxTpvWoRVkvdXydFcVQ4sCsPZKQoTe3g/s1600/IMG_7370-p.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="400" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/03/IMG_7370-p.jpg" class="wp-image-5369" width="300" /></a></div>
<p>
Fomos para São Paulo, mas o navio parou no Rio de Janeiro e a primeira imagem que vimos foi o Cristo Redentor de braços abertos. Então tivemos certeza de que seríamos felizes aqui. Chegamos em 21 de abril de 1954, meu marido falava que era o dia do renascimento da gente. E foi mesmo! Até hoje não sei quantos anos eu tenho! rsrsrsrsr</p>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://4.bp.blogspot.com/-tPNH0rTcSys/Vvgvo6GXhtI/AAAAAAAAHPE/DPSWNAPwwUAqiA7axH0SgFP3K94MwRKAg/s1600/L%25C3%25BAcia%2BCarasso-2p.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="400" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/03/L25C325BAcia2BCarasso-2p.jpg" class="wp-image-5370" width="313" /></a></div>
<p>
Em São Paulo, meu marido foi camelô. Depois, viemos para Vila Velha. Ele foi camelô aqui também. Montou uma loja e fomos crescendo na vida. Construímos tudo aqui. Dois filhos, seis netos e cinco bisnetos. As últimas palavras do meu marido para mim foram: ‘Lúcia, não se esqueça da minha promessa’. A promessa era a de colocar nossa história no mundo, para que atrocidades como o holocausto nunca mais aconteçam.</p>
<p>Nossa história é muito triste, mas com um final muito feliz.&#8221;</p>
<p>Lúcia Carasso.</p>
<p>[Depoimento especial dado à Estação Capixaba. Reprodução autorizada pela depoente.]</p>
<div>
<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<p><span style="font-size: normal;"><b><span style="color: #660000;">© 2016 Lúcia Carasso</span></b>&nbsp;&#8211; Todos os direitos reservados à família. A reprodução de qualquer item sem prévia consulta e autorização configura violação à lei de direitos autorais, desrespeito à propriedade dos acervos e aos serviços de preparação para publicação.</span><br />
&#8212;&#8212;&#8212;</div>
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		<title>Entrevistados: Sílvio Roberto Scapin e Antônio Marcos</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/silvio-roberto-scapin-e-antonio-marcos/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Dec 2014 13:11:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Espírito Santo]]></category>
		<category><![CDATA[Folclore]]></category>
		<category><![CDATA[História Pessoal]]></category>
		<category><![CDATA[Pesca artesanal]]></category>
		<category><![CDATA[Vila Velha]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Entrevistado: Silvio Roberto Scapin, apelido &#160;Xexéu, 51 anos de idade Grupo ao qual pertence: Praia do Ribeiro, Vila Velha Entrevistador: Fernanda de Souza Data da entrevista: 10/03/2014. Local / data de nascimento: 1963 Nome do pai: Haroldo Scapin, artesão e pedreiro Nome da mãe: Wapleth Borgguinon Scapin, autônoma Separado, 4 filhos. ————————————————————————————- [Com quantos anos [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="http://2.bp.blogspot.com/-fy_5UilZNas/VnVWTPbwdCI/AAAAAAAAAT8/zcaD2E1NilI/s1600/SRS_10.03.2014-4.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="480" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2014/12/SRS_10.03.2014-4.jpg" class="wp-image-6892" width="640" /></a></div>
<p>
<b><br /></b><br />
<b>Entrevistado: Silvio Roberto Scapin, apelido &nbsp;Xexéu, 51 anos de idade</b><br />
<b>Grupo ao qual pertence: Praia do Ribeiro, Vila Velha</b><br />
<b>Entrevistador: Fernanda de Souza</b><br />
<b>Data da entrevista: 10/03/2014.</b></p>
<p>Local / data de nascimento: 1963<br />
Nome do pai: Haroldo Scapin, artesão e pedreiro<br />
Nome da mãe: Wapleth Borgguinon Scapin, autônoma<br />
Separado, 4 filhos.</p>
<p>————————————————————————————-</p>
<p><b>[Com quantos anos o senhor começou a pescar?]</b></p>
<p>Eu comecei a pescar com 15 anos de idade. Antes de começar a pescar eu estudava, mas matava muita aula e ia para o Convento, lá para as bandas de […]. Eu estudei ate o 2º ano do ensino médio e faltava um ano para terminar o 2º grau. Estudei no Godofredo Schneider, na Prainha de Vila Velha.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[O senhor tem irmãos?]</b></p>
<p>Um já faleceu, mas tenho três irmãs vivas.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[O que o senhor fazia antes de se envolver com a pesca?]</b></p>
<p>Antes de começar a trabalhar com a pesca já fazia algumas coisas para ganhar dinheiro, como catar jornal para vender.</p>
<p><b>[Como o senhor teve contato com a pesca?]</b></p>
<p>Eu morava com meus pais (minha família), e tive um atrito com minha irmã e me afastei de casa. Saí de casa e vim morar aqui na praia do Ribeiro, no Hotel Santa Luzia. Eu tinha 15, 16 anos de idade e fiquei por aqui mesmo. Na época o hotel era ali e a praia era pertinho, então eu ficava por aqui. Gostei do mar e da pesca, nunca gostei de bandidagem nem de drogas. Aqui, encontrei alguns pescadores e comecei a me interessar pela pesca.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Qual a sua idade?]</b></p>
<p>Vou fazer 52 anos.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Como o senhor aprendeu a pescar?]</b></p>
<p>Eu vim pescar por conta própria. Eu não tinha barco, mas fazia a boa companhia, ou seja, acompanhava os outros pescadores. Na pescaria um tem que ajudar o outro porque no mar não tem tanto recurso como em terra. Ia pescar com os outros pescadores e fui aprendendo.</p>
<p>Tanto no mar quanto em terra um precisa do outro. Em terra, se você passa mal pega um carro e vai embora. E no mar? &nbsp;Houve um caso aqui que nós estávamos pescando na ilha e um camarada pisou no […] e atravessou um galho no pé e varou [furou]. Foi o Carlinhos, e eu o coloquei para terra. […] Depois aconteceu com o Ailton, que escorregou na pedra, no limo, e quebrou o braço. Como é que ele podia remar? Eu o trouxe para terra. É importante que o pescador nunca vá pescar sozinho porque se acontecer algum acidente, um ajuda o outro.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[O senhor já sofreu algum acidente?]</b></p>
<p>Graças a Deus eu nunca sofri nenhum acidente no mar, mas sempre ajudei àqueles que precisam tanto no mar quanto em terra.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[O sempre pescou aqui na praia do Ribeiro?]</b></p>
<p>Toda vida pesquei aqui. Já fui a outros pontos, mas às vezes são ambientes que não fazem o meu jeito, então eu continuo aqui, prefiro aqui.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Tem mais alguém na sua família que tenha algum contato com a pesca?]</b></p>
<p>Não, meus filhos não querem essa vida.</p>
<p><b>[E seus pais? Qual era a profissão do seu pai?]</b></p>
<p>Meu pai fazia balaústre, um tipo coluna trabalhada. Na prainha, na esquina próxima a Igreja do Rosário, tem uma casa que meu pai fez o balaústre. Minha mãe trabalhava com meu avô, era autônoma. Trabalhava com vendas, no mercado.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Como era a pesca antigamente e como é hoje?]</b></p>
<p>Hoje reduziu muito. O que acabou com os nossos peixes foram esses prédios, essas casas que jogam desinfetante, esgoto, sabão em pó e produtos venenosos para o mar. É isso que está acabando com tudo.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Antigamente que tipos de peixes o senhor costumava pescar?]</b></p>
<p>Antes tinha muita fartura. Pescava-se peroá, baiacu, realito e garoupa. Nem siri aqui tem mais, tinha de tudo aqui.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Qual era a quantidade de peixes que se pescava antigamente?]</b></p>
<p>Naquela época tinha muita fartura de peixe, não tinha produtos venenosos que se jogam ao mar como hoje. Hoje está quase a zero, não tem mais como antigamente. O que ainda tem são algumas pescadinhas, mas muito fraco. Se quiser pegar um peixe tem que ir bem longe, em alto-mar, eu não vou mais a alto mar porque não vale a pena ir pescar longe, fico por aqui mesmo, pegando sururu.</p>
<p><b>[Quando foi a última vez que o senhor pescou peixe?]</b></p>
<p>A última vez que pesquei foi o ano passado, e pesquei baiacu, mas foi fraco, eu e o Wilson.</p>
<p><b>[Foi muito?]</b></p>
<p>Foi fraco. Depende do tamanho do baiacu, às vezes pegava dois baiacus grandes que davam 7, 8kg e às vezes não pegava nenhum.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Quais eram os seus instrumentos de pesca? Como é a sua pesca, de anzol ou rede?]</b></p>
<p>Eu pesco com anzol, nunca pesquei com rede.</p>
<p><b>[Como é a preparação da pesca do anzol?]</b></p>
<p>Depende da pescaria. Tem pescaria que empata o anzol com nylon e pescaria que empata com arame. &nbsp;O nylon se usa para pescar peixe que não tora [quer dizer, que não corta] o peixe corta o nylon. Para pescar o baiacu tem que ser no cabo de aço porque ele corta tudo, não pode ser nylon.</p>
<p><b>[O que o senhor pesca hoje em dia?]</b></p>
<p>Hoje só tenho pescado sururu.</p>
<p><b>[Como é a pesca do sururu?]</b></p>
<p>A pesca do sururu é muito trabalhosa: tem que ir à pedra, tem que carregar os sacos nas costas. Às vezes vamos no barco a remo e às vezes, no barco a motor. Cozinhar, descascar, ensacolar e depois vender. É trabalhosa demais, é pior do que trabalhar como pedreiro.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Atualmente a pesca é a sua única fonte de renda?]</b></p>
<p>Graças a Deus é a minha única fonte de renda. Não sou aposentado e vivo da pesca. Sou um camarada muito correto e honesto.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Qual é a sua rotina como pescador?]</b></p>
<p>Eu acordo às 3, 4h da madrugada e não durmo mais. Antes de sair de casa cuido da minha cachorra e dou alimento para ela, pego minha bicicleta e venho, porque às 5:30, 6h o dia já está clareando. Da minha casa até aqui na praia gasto em torno de quinze minutos.</p>
<p><b>[Qual a primeira coisa que o senhor faz quando chega à praia?]</b></p>
<p>Chego e fico aguardando o dia clarear um pouco e se não tiver ninguém para ir comigo vou sozinho. Pego o barquinho e vou sozinho.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Tem algum dia que o senhor não vem?]</b></p>
<p>Quando está chovendo eu não venho. Mas eu sei direitinho o horário da maré. Tem muito pescador que me pergunta se a maré está enchendo ou vazando. – Tá pensando o que? – Você não é pescador? &nbsp;– Ah, porque eu preciso olhar no calendário.</p>
<p>Eu não preciso de calendário, eu sei só de olhar a maré, por experiência. Agora a maré está vazando. &nbsp;São muitos anos. Estamos na quarto crescente e indo para a lua cheia. Agora à tarde e amanhã de madrugada a maré vai estar na baixa-mar.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Quando o senhor vai a maré está enchendo ou vazando?]</b></p>
<p>Eu gosto quando a maré […]. São 6 horas de vazante e 6 horas de enchente. Por volta das 0:30h ela está vazando. Daqui lá no meio é muito longe e eu vou remando. […] Eu saio às 6h e vou devagarzinho e quando chego lá está vazia e tiro o sururu.</p>
<p><b>[Quanto tempo o senhor leva daqui até o ponto de pesca?]</b></p>
<p>Depende, porque tem a calmaria e o vento. Meu barco é de remo e para eu ir levo 20 minutos na calmaria e 40 minutos quanto está ventando. Lá eu fico pescando (tirando sururu), mais ou menos umahora.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Descreva o processo da pesca do sururu? Quais são os instrumentos que tem que levar?]</b></p>
<p>A cavadeira, corda, salva vidas [colete], remo e a garateia, que é uma âncora. A âncora é aquela que se usa em navio, aqui nós chamamos de garateia. Levamos água potável para o consumo, a roupa do corpo, porque a pedra é muito quente, o tênis e a sacaria [sacos para colocar o sururu], tem que levar todos os pertences.</p>
<p><b>[Como vocês escolhem o local? Já tem um ponto fixo?]</b></p>
<p>É sempre na mesma ilha, mas depende muito do local na ilha. Não depende de onde tem mais ou menos, mas sim do volume, do conteúdo que ele tem dentro da casca [do sururu].</p>
<p><b>[E como o senhor reconhece?]</b></p>
<p>Eu quebro e vejo, tem uns mais gordos e outros mais magros. Às vezes você anda dez metros e acha alguns que tem mais casca do que conteúdo. Existem lugares que tem uns melhores, com menos casca e mais conteúdo.</p>
<p><b>[Onde fica essa ilha que vocês vão?]</b></p>
<p>Vamos pela praia do Ribeiro e atravessamos o canal, é próxima à Ilha do Boi.</p>
<p><b>[E onde fica o sururu?]</b></p>
<p>O sururu fica perto da água [que fica lavando ele, o sururu] e com a cavadeira vamos tirando, ensacando e colocando na batera para vir embora.</p>
<p><b>[Qual a quantidade que vocês pegam?]</b></p>
<p>Não dá muito, dá o suficiente para trabalhar, em torno de uns 10, 15, 12kg.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Como vocês trazem?]</b></p>
<p>Trazemos em sacos, não colocamos em caixa de isopor porque a água do mar conserva até chegar à praia, quando chegamos colocamos à sombra para não pegar sol. Se pegar sol… Enquanto vem de lá para cá não tem problema, porque é rápido e a água do mar conserva. Quando chegamos à praia descarregamos do barco, colocamos na sombra e jogamos água salgada para limpar.</p>
<p>O sururu nessa época até o mês de abril e maio ele fica muito gordo, não tem mais água nele. Tem que colocar para cozinhar com água. Quando chegamos à praia preparamos o fogo, com lenha. Cozinho com um pouco de água salgada para ferver e ele mesmo já abre. Descartamos a casca, colocamos na sacolinha e pesamos.</p>
<p><b>[Como é feita a venda?]</b></p>
<p>Vendemos em Vila Velha e um pouco vendemos aqui mesmo.</p>
<p><b>[Vocês vendem no atacado ou a varejo?]</b></p>
<p>Eu prefiro vender no varejo porque o pessoal dá mais valor. As pessoas vêm aqui na praia do Ribeiro para comprar e quando não vem vendo em casa para os vizinhos.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Vocês pescam sururu todos os dias?]</b></p>
<p>Agora não porque a maré não está boa, não está abaixando, tem uma semana que está assim. A maré tem que estar baixa para pegar o sururu nas pedras.</p>
<p><b>[Quais são os meses do sururu?]</b></p>
<p>Do final de dezembro até março. Esse ano atrasou muito devido às tempestades de novembro e dezembro, o mar ficou muito agitado. A água doce não incomoda o sururu, a água doce não tempera a água e ele engorda. &nbsp;O que emagrece sururu é o mar bravo […].</p>
<p><b>[E nos outros meses o que vocês fazem?]</b></p>
<p>Nos outros meses vou pescar peixe ou compro para revender. O sururu geralmente é de setembro a abril. São oito meses mais ou menos de sururu, começando em setembro e terminado em abril. Esse ano atrasou muito devido às tempestades, a maré ficou muito cheia e não deu para pegar, o mar ficou muito violento, agitado e atrasou o sururu.</p>
<p><b>[Seu Antônio qual é o seu nome completo?]</b></p>
<p>Antônio Marcos.</p>
<p><b>[Qual a sua idade?]</b></p>
<p>Tenho 67 anos.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Como o senhor conheceu o seu Xexéu?]</b></p>
<p>Eu o conheci aqui na praia do Ribeiro, conversando, batendo papo e ficamos amigos. Comecei a pescar com ele antes de me acidentar.</p>
<p><b>[Há quantos anos o senhor está aqui?]</b></p>
<p>Tem mais de dez anos que estou aqui.</p>
<p><b>[Qual foi o seu primeiro contato com a pesca? Com que idade?]</b></p>
<p>Aos 45 anos tive meu primeiro contato com a pesca. Antes eu trabalhava em construção civil, eu era encanador, hoje eu sou aposentado.</p>
<p><b>[O senhor começou na pesca com o Xexéu?]</b></p>
<p>Eu comecei na pesca com o Xexéu, eu não tenho barco e sou ajudante do Xexéu.</p>
<p><b>[Qual a lembrança que o senhor tem da vida de pescador?]</b></p>
<p>Isso aqui é um lazer muito bom para a gente, nós ficamos aqui conversando, batendo papo, fritando e comendo peixe.</p>
<p><b>[O senhor vem todos os dias?]</b></p>
<p>Venho para a praia todos os dias, mesmo quando não vamos pegar sururu. Quando não vamos pescar, ficamos aqui batendo papo, fazendo hora para ir para casa almoçar.</p>
<p><b>[O que o senhor aprendeu com a pesca?]</b></p>
<p>Como salvar uma pessoa que caiu na água e está se afogando, aprendi tudo isso no mar. Já salvei muita gente.</p>
<p><b>[Até quando o senhor pretende pescar?]</b></p>
<p>Até quando Deus quiser, enquanto tiver vida, porque disposição eu tenho.</p>
<p>
[Entrevista exclusiva para o site Estação Capixaba. Reprodução autorizada pelos entrevistados.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2014&nbsp;</span></b>Textos com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="http://4.bp.blogspot.com/-IxQGKzLCfko/VnLoaxyHMVI/AAAAAAAAAPc/B-eyl7DCTTc/s1600/todas.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="121" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2014/12/todas.jpg" class="wp-image-6893" width="400" /></a></div>
<p></p>
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		<title>Entrevistada: Maria Miranda</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 18 Dec 2014 18:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Espírito Santo]]></category>
		<category><![CDATA[Folclore]]></category>
		<category><![CDATA[História Pessoal]]></category>
		<category><![CDATA[Pesca artesanal]]></category>
		<category><![CDATA[Vila Velha]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Entrevistado: Maria Miranda (mãe do pescador Damião Miranda Ferreira, da Praia de Itapuã) Grupo ao qual pertence: Praia de Itapoã Entrevistador: Maria Clara Medeiros Santos Neves Data da entrevista: 15/10/2013. Local / data de nascimento: Itapoã, Vila Velha, ES, 22 de abril de 1928 Nome do pai: Manoel Miranda Nome da mãe: Teresa ————————————————————– Eu [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="http://1.bp.blogspot.com/-680ntFTPfZQ/VnRP4CHQRlI/AAAAAAAAATU/t1PApxOt1vE/s1600/12.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="640" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2014/12/12.jpg" class="wp-image-6895" width="544" /></a></div>
<p><b>Entrevistado: Maria Miranda (mãe do pescador Damião Miranda Ferreira, da Praia de Itapuã)</b><br />
<b>Grupo ao qual pertence: Praia de Itapoã</b><br />
<b>Entrevistador: Maria Clara Medeiros Santos Neves</b><br />
<b>Data da entrevista: 15/10/2013.</b></p>
<p>Local / data de nascimento: Itapoã, Vila Velha, ES, 22 de abril de 1928<br />
Nome do pai: Manoel Miranda<br />
Nome da mãe: Teresa</p>
<p>————————————————————–</p>
<p>Eu não sei dizer mais a minha idade, porque esqueci. Até em 1955, quando eu votei, eu sabia alguma coisa, daí eu esqueci tudo. Eu sei que meu pai tirou direitinho meu documento, depois ele foi pescar no mar, eu não sei se ele levou para o mar ou se deixou em casa com a mulher que escondeu [o documento] A mulher dele não era nossa mãe, a nossa mãe era Teresa. Quando ela o deixou [a mãe], ele arrumou uma tal de Margarida. Ela tinha muitos filhos que foram morar conosco, ele foi morar com ela.</p>
<p><b>[A senhora tinha outros irmãos, filhos da D. Teresa?]</b></p>
<p>Meus irmãos eram José Miranda, que morreu, Ermínio, Permílio e eu. Nós éramos quatro irmãos. O Dico, o mais novo, não era filho dos nossos pais. E eles se acabaram todos, todos já morreram e morreu minha mãe. Nós chamávamos de mãe, mas era avó, porque foi ela que nos criou. […] Mamãe era avó que nós chamávamos e com ela ninguém queria ir atrás, porque o negócio era diferente. Depois que nossa avó faleceu meu pai nos levou para ficar com ele. Ele foi morar lá na rua atrás do cemitério, na Rua da Abissínia, em Vila Velha. Ele comprou uma casa e foi morar lá, mas nós não quisemos ficar com ele por causa da outra mulher.</p>
<p><b>[Quando vocês foram morar com ele?]</b></p>
<p>Isso foi depois de grande, eu me lembro que tinha 12 anos de idade e meus irmãos eram mais novos do que eu. Zé Miranda foi morar na Prainha, com um pessoal que eles chamavam de Leão. O Ermínio, ele deu para a madrinha.</p>
<p>Aí viemos para cá de novo e ficamos todos juntos, com minha avó. Depois que minha avó morreu ficou tudo para um canto e outro e ficaram sem rumo, até eu fiquei procurando rumo, todos perdidos. &nbsp;Aqui nessa praia nós moramos em um terreno que era da minha mãe, depois que fizeram uma partilha de um negócio deles é que foram morar em Vila Velha, na Rua da Abissínia […] Nós viemos para a companhia da nossa avó de novo e depois todos morreram. Da minha irmandade só eu fiquei, meus irmãos já se foram todos.</p>
<p><b>[Seu pai era pescador?]</b></p>
<p>Meu pai era pescador e morreu afogado lá naquela ponta de pedra que tem ali fora, perto da ilha. Ele virou na canoa, ele, Zé Miranda e Ermínio, todos os dois pequenos. Pegou a canoa para pescar e era tempo de manjuba e com muito vento no mês de julho, com muita ventania. Ele já era um homem velho, tinha 74 anos. De algumas coisas eu me lembro bem, ele tinha 74 anos, o vento veio, virou a canoa, disseram os dois filhos ainda pequenos, mas eles falaram que foi ali naquela ponta daquela ilha ali fora. Dizem: que ele gritava muito – me acode, me acode Nossa Senhora da Penha […] ele não tinha mais força e as crianças pequenas ficaram em cima da canoa […] ali naquela ponta daquela ilha, passaram lá por fora da ilha e voltaram e o vento tocou para a barra […] 8h da noite, só os dois.</p>
<p>Dizem que lá onde afundou […] da barra a onda veio e virou a canoa em cima, não tinha corda e não tinha remo, não tinha nada para amarrá-los. Aí saíram um monte de pescadores e foram procurar em algumas praias. Foram para Barra, para a Praia da Costa, foram não sei para onde e dizem que chegaram lá na praia da Barra acenderam o farol do carro direto para o mar […] que gostava muito deles e tinha um carro, saí para procurar […] dizem que parece que ouviram gritando – me acode. Tinha um tal de […], que também já morreu. […] O Antério, filho do Zeco, todos eles procurando e quando chegou na parte da tarde caíram na água e foram, dizem que aqui perto, e só viram os moleques gritando por eles […] o pai já estava morto, mas dizem que acharam os filhos em cima da canoa […] e quando chegaram lá não acharam mais e só acharam os filhos […] Esse homem nunca […] procurando, a saber, em todas as praias que todo mundo conhecia. Não tinha quem conhecesse todos eles conheciam, todo mundo gostava dele e ninguém nunca soube que ele desse em lugar algum morto, nunca.</p>
<p><b>[Qual era o nome dele completo?]</b></p>
<p>O nome dele era Manoel Miranda. A mãe da minha mãe era Juliana […] e meu avô era Afonso […] de Sousa. O meu avô não era pescador, era de roça. Não cheguei a conhecer meus avós por parte de pai, mas dizem que eram gente boa. Meu pai quando era novo não se casou com minha mãe, ele foi morar. Quando ele foi morar com minha mãe ela já tinha dois filhos do primeiro casamento, era estivador de navio, trabalhava no navio […]</p>
<p><b>[Quando a senhora veio morar aqui em Itapuã?]</b></p>
<p>Eu não me lembro, mas dizem que foi no mês de abril de 1928. Aqui não tinha nem um caminho, nem praia não tinha, era tudo mato. Tinha um homem que se chamava Luís Freitas, que colocava eles para tirar lenha aí. Era muita. Era […] Serafina, Eugênia, um tal de Luís Pedro, iam todos tirar lenha, tiravam e juntavam, e quando chegava no dia de sábado eles não tiravam. Era uns carregando aqueles paus e tirando de dentro do mato, lascando de manhã à noite, para juntar aquela lenha para ver se não tinha lenha verde para vender, para comprar um bocado de farinha, senão não comia […]</p>
<p><b>[A senhora lembra se tinha muitas ou poucas pessoas morando aqui?]</b></p>
<p>Quando nós morávamos aqui não tinha nenhuma família, só tinha aqui era cobra, jiboia e cachorro do mato. […] Era muito troço que tinha aqui no mato. Não tinha ninguém. […] Depois […] tinha um barracão do finado meu pai […] depois, eles repartiram e ficou para as bandas deles lá, que era da minha avó, que eu chamo de mãe. […] Depois, passado muito tempo, eu já estava com quinze anos é que veio […] e quem me deu roupa foi D. Rosa […]</p>
<p><b>[A senhora fazia rede? Com quem aprendeu?]</b></p>
<p>Fazia rede, trasmalho e isso foi o sustento dos meus filhos. Aprendi a fazer rede em casa mesmo. Tinha muita partilha […] D. Teresa é a que mais fazia rede mesmo. Eu fazia mais devagar, ela se sentasse aqui agora […] com três, quatro braças. Eu tenho meus dedos todos aleijados de tanto que fazia rede, agora é que não faço mais. […]</p>
<p>Qualquer coisa que tinha era com a benzedeira, que já faleceu.</p>
<p><b>[A senhora se lembra das cantigas?]</b></p>
<p>Eu não cantava […] quem gostava muito de cantar era de D. Teresa quando estava fazendo rede, mas eu esqueci. […]</p>
<p>
[Entrevista exclusiva para o site Estação Capixaba. Reprodução autorizada pelo entrevistado.]</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2014&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
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<a href="http://4.bp.blogspot.com/-IxQGKzLCfko/VnLoaxyHMVI/AAAAAAAAAPc/B-eyl7DCTTc/s1600/todas.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="121" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2014/12/todas-1.jpg" class="wp-image-6896" width="400" /></a></div>
<p></p>
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		<title>Entrevistado: Marcelo Farik Rego</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 18 Dec 2014 18:23:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Entrevistado: Marcelo Farik Rego Grupo ao qual pertence: Barra do Jucu Entrevistador: Fernanda de Souza Data da entrevista: 26/03/2014. Local / data de nascimento: &#160;Barra do Jucu, Vila Velha, 1968 —————————————————————————— [Como foi sua infância e adolescência?] Foi como todo menino de bairro pequeno. Sempre vivi na beira do rio, pegando camarão, caranguejo, siri e [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="http://1.bp.blogspot.com/-kdEq9W-uk4Q/VnROA_HxOeI/AAAAAAAAATI/teXurNS-Ts4/s1600/MFR_28.03.2014-27.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="464" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2014/12/MFR_28.03.2014-27.jpg" class="wp-image-6898" width="640" /></a></div>
<p><b><br /></b><br />
<b><br /></b><br />
<b>Entrevistado: Marcelo Farik Rego</b><br />
<b>Grupo ao qual pertence: Barra do Jucu</b><br />
<b>Entrevistador: Fernanda de Souza</b><br />
<b>Data da entrevista: 26/03/2014.</b></p>
<p>Local / data de nascimento: &nbsp;Barra do Jucu, Vila Velha, 1968</p>
<p>——————————————————————————</p>
<p><b>[Como foi sua infância e adolescência?]</b></p>
<p>Foi como todo menino de bairro pequeno. Sempre vivi na beira do rio, pegando camarão, caranguejo, siri e pescando. Essa foi minha infância.</p>
<p><b>[Quais eram as brincadeiras que vocês tinham?]</b></p>
<p>A brincadeira favorita era brincar na beira do rio. Como nós éramos pequenos, não íamos muito à praia, mas brincávamos muito na beira do rio. Na minha infância a água do rio era 100% limpa. Agora é só poluição.</p>
<p>Quando voltávamos da escola tirávamos a roupa e íamos para a maré, onde minha mãe estava lavando roupa. Tomávamos banho e brincávamos de pique-esconde.</p>
<p><b>[Qual a sua escolaridade?]</b></p>
<p>Estudei até o 2º ano do 2º grau, não cheguei a fazer curso profissionalizante. Estudei na Escola Marcílio Dias, na Barra do Jucu, depois na Maria Ermelina, na Francelino Setúbal e Manoel Veloso.</p>
<p><b>[Fale sobre seus pais e avós, eles trabalhavam com pesca?]</b></p>
<p>Meu pai era de Alfredo Chaves e de descendência pomerana, daí meu sobrenome ser de descendência pomerana. Ele (meu pai) era da roça. A minha mãe nasceu e foi criada aqui na Barra do Jucu, de onde vem a experiência da prática da pescaria, dos meus avôs e tios, todos eles eram pescadores. Meu avô por parte de mãe criou 18 filhos com a pesca. Meu avô paterno tinha fazenda e sítio.</p>
<p>Da parte da minha mãe é que vem a habilidade da prática da pescaria. Meu avô já faleceu, mas meus tios ainda continuam na pesca.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Foi com seus avós e tios que você teve contato com a pesca?]</b></p>
<p>Foi com meus tios, na época do meu avô eu era muito pequeno tinha uns 10, 11 anos de idade. Nessa época a pesca era muito rígida e não era qualquer pessoa que ia pescar. Hoje, é uma bagunça, qualquer pessoa coloca um barco para pescar. Antigamente tinha o capataz, que era uma pessoa que regulamentava a pesca, hoje não existe mais isso, hoje o camarada coloca um barco na beira da praia e vai pescar.</p>
<p>Eu comecei aprender a pescar depois dos meus 16, 17 anos, foi quando comecei a sair para o mar junto com meus tios.</p>
<p><b>[Qual a profissão do seu pai?]</b></p>
<p>Ele trabalhou um bom tempo na prefeitura e depois ele passou a cuidar de fazendas e de terrenos. Minha mãe era do lar.</p>
<p><b>[Como foi o seu primeiro contato com a pesca?]</b></p>
<p>Havia muita fartura. Na minha época de 14, 15 anos nós íamos pescar e se via mais peixe do que água, bem diferente de agora. Era muito peixe e na maioria das vezes se guardava o peixe de um dia para o outro na folha de baúna, isso era uma tradição que se usava aqui. Guardavam o peixe na beira do nosso rio, onde antigamente era o posto médico, era a peixaria dos pescadores. Hoje nós não temos mais. Dava tanto peixe que se colocava na folha de baúna e o sereno servia de refrigerador, porque nos não tínhamos urnas, nem gelo, era dessa forma que se conservava o peixe. Dava muito peixe, camarão, siri. Siri nós pegávamos com o pé, não existia bereré. Nosso rio era farto. Naquela época existia rio, agora não existe mais.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Como você ia pescar com seus tios?]</b></p>
<p>Sempre houve a curiosidade do querer ir. – Tio me leva? E assim foi caminhando. Fui uma, duas, três vezes até começar a ir sozinho. Com meus 20 anos já não tinha mais aquele rigor como antigamente que comentei antes, dos capatazes e dos xerifes da pesca. Já começou a perder o controle e dar mais liberdade para se fazer a pescaria. Não sei se foi bom ou ruim.</p>
<p><b>[Como era a Barra do Jucu antigamente?]</b></p>
<p>Não existia a Barra do Jucu, existia aqui uma vila de pescadores. Para se ter uma ideia os pescadores antigos nem conseguiam vender os peixes aqui na vila. Como tinha muito peixe, o pescador tinha que sair para tentar vender em Vila Velha, em Coqueiral e outros locais que não me lembro do nome.</p>
<p>Desde a época da vila dos pescadores já havia a cultura das bandas de congo. Foi aí que nasceram as bandas de congo que participavam os pescadores mais antigos da Barra do Jucu. A participação era por amor e não por interesse financeiro.</p>
<p>A pesca era farta e o local era muito tranquilo.</p>
<p><b>[Como era a pesca antigamente e como é hoje?]</b></p>
<p>Isso é muito simples de se falar. O que acontece: a vida do mar necessita da vida do rio. Se o rio perde a vida, o mar também perde a vida. A quantidade de peixes que encostavam para se alimentarem na beirada do rio, hoje não chegam mais. Muitos pescadores reclamam que não tem mais cardume de sarda, chicharro e de outros peixes. É porque não temos mais o rio como era: grande, fundo e bonito, por isso não temos mais peixes na nossa costa.</p>
<p>A comparação que pode ser feita hoje com antigamente é que era um rio com quase 20m de profundidade, hoje tem 2m. Eu estou falando do rio porque ele alimenta o mar, todo pescador vai falar isso […] A maioria dos peixes desovam no rio.</p>
<p><b>[E a quantidade?]</b></p>
<p>Antigamente, na época da enchova que era um peixe que dava bastante, se trazia fácil uns 200, 300kg por dia. Hoje nem se pega enchova, é difícil, se pega 40, 50kg. A proporção caiu muito.</p>
<p><b>[E que tipos de peixes se pescava?]</b></p>
<p>A enchova, o xaréu, o chicharro, a sarda, a manjuba de lomba azul, uma larga. E sardinha dava pouco. Nós dávamos redadas aqui de pegar 200, 300kg para mais. Hoje ela nem chega na costa, isso acontece porque ela está nas águas mais limpas, porque a sardinha e a manjuba só nadam em águas limpas.</p>
<p>O baiacu sumiu e a nossa peroá desapareceu. Será que foi a pesca de linha que fez com os peixes sumissem? Eu não acredito. Porque nossa pesca de linha é bem artesanal. Acredito que seja a pesca industrial que entrou, que tenha conseguido dar esse sumiço nos peixes, juntamente com as pesquisas das nossas grandes empresas, a Petrobrás etc.</p>
<p><b>[O que você acha que tenha causado o sumiço e a redução dos peixes?]</b></p>
<p>Pelo pouco que eu sei, acredito que seja pela grande exploração que está existindo no mar e os grandes navios chamados “chupa cabras” que vêm detonando tudo. Os “chupa cabras” são navios de pesquisa.</p>
<p>Tenho amigos que pescam lá fora, no barranco principalmente, e dizem que quando sai um navio vem um rebocador na frente mandando todo mundo sair da frente do navio que está passando, porque ele vem com um cabo fazendo sondagem.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[São as traineiras?]</b></p>
<p>Não, a traineira é outro detalhe, elas também interferem no nosso pescado.</p>
<p><b>[Desde quando começou a aparecer essa mudança?]</b></p>
<p>Isso tem em torno de uns 20 anos para cá que vem caindo bastante. Vou fazer pela minha idade: quando em tinha 26 anos eu ia pescar peroá e conseguia trazer com pouco tempo de pesca aqui perto umas 4, 5 caixas de peroá. Hoje vou lá e nem vejo peroá.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Atualmente a pesca é a sua única fonte de renda?]</b></p>
<p>Antes eu trabalhava em empresa. De 2005 para cá eu defini a pesca como meu único rendimento mensal e até hoje vivo exclusivamente da pesca. Eu sobrevivo da pesca, o que eu ganho, o que eu tenho e o que pago é com a pesca, com muito sacrifício e luta, mas…</p>
<p><b>[Hoje, quais são os peixes que mais se pesca?]</b></p>
<p>Hoje é a coibira e a pescadinha, que sempre tem. Uma vez ou outra nós pegamos umas pescadas, uns robalos, mas em menor quantidade.</p>
<p><b>[Esses peixes têm época ou se pesca durante todo o ano?]</b></p>
<p>Todo peixe tem sua época que dá maior quantidade. A coibira, na meada de dezembro até meada de março ela ainda dá bem, depois começa a aparecer uma, duas, mas em menor quantidade. O robalo entra no período de defeso, que não se pesca, e quando sai do defeso se mata 2, 3 ou 4, não é grande coisa também. O forte da sarda é de dezembro até fevereiro, mas esse ano foi bem fraco, fraquíssimo, até a sarda está começando a enfraquecer. A pescadinha esse ano foi bem melhor, nós pescamos a pescadinha à noite, o que fica mais sacrificado porque tem que pescar às 0:00h, 1h da manhã para chegar em terra às 9 ou 10h, é uma pescaria mais puxada. Antes se pescava (a sardinha) mais cedo, entre 20h até 23h, mas está bom, enquanto estiver pegando está bom.</p>
<p><b>[Como é sua rotina como pescador?]</b></p>
<p>Geralmente o pescador acorda entre 4, 4:30h. Quando se está com rede armada, seja rede de fundo ou boieira, vai-se mirar as redes, quando se está pescando de linha, vai para a linha. Esse horário de acordar é variável, como tem peixes que comem à noite, se pesca à noite e não tem hora de acordar.</p>
<p>O meu peixe eu não entrego para o cambista (atravessador), eu mesmo pego, beneficio, guardo e vendo para o mercado. Eu tenho duas etapas de trabalho: a do mar e a de terra. Quando chego pego meu peixe, vou para minha peixaria, limpo e guardo. Usualmente eu acordo às 4h da manhã e trabalho até às 16h com peixe. Detalhe: como nós temos umas redes boieiras armadas que miramos sempre entre 16h até as 18h, então praticamente o horário é das 4h da manhã até às 17h.</p>
<p>Se o peixe estiver comendo (a pescadinha), vou dar uma pescada. Saio para pescar às 4h, por volta das 8h ou 08:30h saio e miro minhas redes para não deixar o peixe ficar muito tempo e venho para terra.</p>
<p><b>[O que você faz quando chega em terra?]</b></p>
<p>Primeiro coloco a embarcação para cima, limpo o barco, junto o peixe e trago. Nós temos um morro para atravessar o peixe, um morro de 500m de subida e de descida. Venho para casa, trato e limpo todo o peixe e empacoto. Alguns eu vendo, outros coloco no meu freezer para congelar.</p>
<p>Limpo meu peixe em minha casa, não existe beneficiamento em praia. Eu não faço, se alguns companheiros fazem eu não vejo. Na nossa área de pesca não tem comercialização. Se vende um peixe ou outro para o turista, mas não tem banca de venda. Do outro lado da praia tem uns companheiros que colocam umas banquinhas e vendem o peixe. Mas já é em outra praia. Existem duas praias. A nossa área de pesca é na praia da Concha e tem a praia de Frente, que é o […], são duas praias diferentes.</p>
<p><b>[Como é o processo de preparação as redes?]</b></p>
<p>Existem três tipos de redes: a rede de fundo, porque fica no fundo da água, é uma rede mais baixa; a rede boieira, que fica na superfície; e a de caída, que é uma rede boieira, mas só não deixamos cair de mar abaixo. A boieira, muitas vezes, ela fica fixa.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Você produz ou compra a rede?]</b></p>
<p>Nós compramos o pano da rede e aí entralha. Entralhar é colocar a distância de uma boia para outra e entralhar a rede na corda. Isso é entralhar rede. Depois é o chumbo que é embutido dentro da corda e entralha a parte do chumbo. Desta forma se faz a boieira e a rede de fundo.</p>
<p>Hoje a rede é comprada, na época do meu avô era confeccionada à mão. Uma rede dessas leva no mínimo três meses para se feita. Como hoje ela é feita à máquina, se compra a rede, coloca-se no mar e pesca-se. Nesses três meses você está pegando peixe.</p>
<p><b>[O que é linha de fundo?]</b></p>
<p>É a pesca de mão. Nesse tipo de pescaria se pega pescadinha, pé de banco, baiacu, peroá, oreocó. A linha de fundo é o anzol, a linha e o chumbo. Geralmente se joga a linha com três anzóis.</p>
<p>A rede de espera é uma rede boieira que fica armada, como nós temos na nossa área de pesca. Ela espera o peixe passar. A rede de fundo é a rede que fica na parte mais baixa do mar, é uma rede mais baixa, por isso que se fala rede de fundo. Pega-se vários tipos de peixes como pescadinha, pé de banco entre outros. É uma rede de fundo, mais baixa. A rede boieira, é a rede do alto, ela é flutuante, e a de fundo é mais baixa.</p>
<p><b>[E o processo de arrastão?]</b></p>
<p>O arrastão é a puxada na praia. Arrastão vem de arrasto: faz-se o cerco com uma rede e puxa-se com uma corda na praia, essa é a puxada de arrasto. Nós temos cinco ou seis redes de arrasto. Eu não sou muito chegado à rede de arrasto porque depende de várias pessoas e envolve muita gente para se fazer a puxada. É uma rede muito grande. Eu prefiro trabalhar com a boieira, a de fundo e a de linha.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Você vai verificar suas redes todos os dias?]</b></p>
<p>Vou todos os dias, faça chuva ou sol tenho que olhar a rede. Tem que estar sempre prevenido com o tempo porque quando o tempo mudo tem que se retirar as redes e colocar em terra. Por exemplo: no sábado para o domingo entrou vento sul e colocamos nossas redes em terra, porque se o mar engrossar se perde tudo, principalmente aqui na Barra, é terrível. E se perde rede de R$ 500,00, 600,00, 700,00. Eu tenho de três a cinco redes dentro d’água, então é um prejuízo.</p>
<p><b>[O que é mirar?]</b></p>
<p>Mirar não é tirar, a rede de espera não se tira só mira, levanta-se o chumbo mirando (olhando) todo o pano para ver se tem peixe e deixa-se no mesmo lugar. Chama-se rede de espera porque ela fica esperando. Quando está rede suja tira-se, lava-se e retorna-se para o mesmo lugar. Se o mar ficar bravo, recolhe-se e traz para a terra. O peixe é tirado lá no mar e lá a rede permanece.</p>
<p><b>[Tem alguma diferença entre a rede de espera e a boieira no momento de se colocar as redes?]</b></p>
<p>Não, porque as redes são praticamente iguais, as redes são feitas no padrão. Retira-se a rede do local onde ela está com o tamanho certinho, quando se coloca é a mesma coisa. Não tem nenhuma diferença.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Sempre se colocam os dois tipos de redes?]</b></p>
<p>Isso depende do pescador. Tem pescador que gosta de trabalhar com a de fundo e outros gostam de trabalhar com rede boieira. Eu gosto de trabalhar com rede boieira. Eu tenho rede de fundo, mas quase não trabalho com rede de fundo.</p>
<p><b>[Porque você gosta de trabalhar com a boieira?]</b></p>
<p>Porque ela trás mais rendimento de quantidade de peixes. A de fundo suja muito pelo fato dela ficar no fundo e dá muito mais trabalho e menos produção. A boieira eu posso colocar em vários pontos diferentes, e a quantidade do peixe é melhor, menos sujeira na rede e até menos trabalho, fica mais fácil de trabalhar. Isso a gente vai aprendendo com o passar do tempo, eu já sofri muito com rede de fundo.</p>
<p><b>[E a pesca de linha? Que instrumentos são necessários para esse tipo de pesca?]</b></p>
<p>Geralmente se usa um burrinho, que é um ferro que se enverga e se faz um L, com um chumbinho no meio, e coloca-se um cabo. Em uma linha vem um prendedor no burrinho. O burrinho é feito de um ferrinho de latinha de tinta com chumbo, um distorcedor com uma pernada de nylon, com três anzóis, isso é a linha de fundo e com isso se pega pescadinha. Antigamente se pegava peroá, se pega também o baiacu, é uma linha simples.</p>
<p><b>[Com quantos conjuntos desses você pesca?]</b></p>
<p>De forma geral pescamos com duas linhas, uma na direita e outra na esquerda, e se estiver bom se pesca com uma boieira, que é uma linha que se joga para trás. Coloca-se uma boia com um anzol maior, onde se pega uma espada, um xaréu ou uma enchova. Sempre se pega um peixe melhor na boieira.</p>
<p><b>[Você pesca sozinho ou você tem um ajudante?]</b></p>
<p>Frequentemente meus irmãos pescam comigo ou vou com um companheiro de pesca. Entretanto hoje em dia está difícil encontrar um companheiro certo de pesca, ajudante é mais difícil ainda.</p>
<p><b>[Porque essa dificuldade?]</b></p>
<p>Devido ao rendimento da pesca ser muito baixo. Às vezes é preferível pescar sozinho. Por exemplo: se pescar 10 ou 6kg de peixe, como se vai dividir para dois? Na época da coibira, se pegar 200kg de peixe tem que dar para o companheiro pela ajuda, tem que dar peixe para os dois que trabalharam.</p>
<p>A pescadinha o pessoal pesca sozinho, porque é uma pescaria fácil, tranquila de se fazer e o rendimento é bom.</p>
<p><b>[Você tem barco?]</b></p>
<p>Sim, eu tenho um barco, tinha dois, mas um eu vendi. O nome é Aquático.</p>
<p><b>[Porque esse nome?]</b></p>
<p>Porque vem de um apelido meu. De forma geral os pescadores têm apelidos. Graças a Deus, comigo nenhum apelido pegou, mas eu tinha um amigo que sempre me chamava de homem do fundo do mar, Aquático. Ele é dono de uma pizzaria. Aí, quando comprei meu barco, coloquei o nome de Aquático. Já tenho meu barco há uns dez anos, ele é o meu “ganha pão”.</p>
<p><b>[Há quanto tempo você pesca nesse ponto da Barra do Jucu?]</b></p>
<p>Desde que me entendo por pescador, sempre pesquei aqui. O meu forte sempre foi na Barra. Já fui pescar em outros lugares como no rio Mucuri, Anchieta e Piúma, mas como diversão, não como profissional.</p>
<p><b>[Quais são sua lembranças desse ponto da Barra do Jucu?]</b></p>
<p>A minha infância não foi uma infância de garoto saído, como os jovens de hoje, que vão a toda parte. Nós naquela época não tínhamos essa liberdade, era de baixo da guarda da gururumba, sempre vivemos de baixo da guarda do pai e da mãe, era regime de pai e mãe.</p>
<p>Daqui da Barra eu me lembro: de quando dava ribada de manjuba, não me esqueço nunca. Era manjuba de sair pelo ladrão da rede, às vezes até estourava de tanto peixe.</p>
<p>Meu tio Geovani era um homem de 2m e forte. Ele gritava na praia, lá de cima, – manjuba! – e o baiateiro ouvia. Essa é uma boa lembrança que tenho. Aqui sempre deu muito xaréu, ele descia aquele morro da Concha, onde nós pescamos, com cinco xaréus nas costas, cada um com 12, 15kg.</p>
<p>Na praia tinha muita pitangueira e nós saíamos para catar pitangas. Em um quilômetro nós catávamos 10l de pitangas, hoje não tem mais isso, acabou tudo. Lembro-me do nosso rio e da nossa ponte. Quando nós chegávamos da praia, mergulhávamos na ponte e saíamos do outro lado. Colocávamos a roupa e com isso já tinha tomado banho, não tinha chuveiro, era de baldinho, tinha o rio que nos dava esse apoio. Nós tomávamos banho nessa beirada de rio, isso fica em nossa lembrança.</p>
<p>Havia muita fartura de camarões e siri, isso acabou, o rio está praticamente morto, não tem mais siri nem camarão, não tem mais nada, só esgoto.</p>
<p><b>[Quais são os pontos negativos, as dificuldades da vida de um pescador?]</b></p>
<p>Eu vejo o seguinte: você tem que fazer na vida o que gosta e se ainda existem pescadores no mundo é porque eles gostam do que fazem porque se eles não gostassem do que fazem eles não seriam pescadores. […] O pescador hoje em dia, do jeito que ele está sendo sufocado, só o é porque gosta do que faz. Ninguém vai sair de casa, do quentinho, às 4:30h da manhã, debaixo de chuva, muitas vezes, para mirar rede e ganhar seu sustento. Mas ele está fazendo porque gosta. Eu faço com maior prazer. O pescador que sobrevive da pesca, o faz porque gosta, não é por brincadeira ou diversão.</p>
<p><b>[E os pontos positivos?]</b></p>
<p>É gostar de se fazer o que se gosta, não estar prestando satisfação ao patrão, você é o seu patrão. A parte boa é que se você não estiver a fim de pescar, pega as redes, coloca em terra e fica três dias sem pescar. Vou descansar um pouco. É claro que tem que ter suporte, não se vai entrar em dificuldade para fazer isso, essa é uma das vantagens. Outra coisa boa é o conhecimento que se tem com o mar e com a natureza. Muitas vezes nós pescadores vamos às reuniões e chegam os engenheiros de pesca, coordenadores de projetos e querem aprender conosco, isso é muito lega, poder repassar os nossos conhecimentos, como estamos fazendo aqui.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Qual a maior lição que você leva para sua vida da sua experiência como pescador?]</b></p>
<p>Eu creio que o que mais se aprende com a vida de pescador e que procuro passar para minha família é que a natureza merece muito respeito e além de tudo saber trabalhar com a natureza. Não adianta medir força com a natureza seja em relação ao vento, ao mar e a chuva. Hoje estamos tendo grandes exemplos sobre isso, de cidades que o mar está tomando conta e enchentes. Não adianta querer brigar com a natureza e sim respeitá-la. Não é ter medo, é respeito.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Você pretende pescar até quando?]</b></p>
<p>Até eu me aposentar, mas não é parar de pescar, continuar pescando de uma forma […] Sempre converso com meus amigos, não é porque vamos aposentar que vamos parar de pescar. Nós não conseguimos perder a rotina, mas nosso ritmo de trabalho vai diminuindo porque a idade também chega. Eu pretendo me aposentar, mas continuar pescando com um ritmo menor: acordar às 6h, fazer uma pescaria mais leve ou outros tipos de pescaria, ajudar nosso rio, fazer passeios pelo rio, fazer outro tipo de atividade, mas dentro da área que também seja da pesca.</p>
<p><b>[Você se se imagina fazendo outra coisa que não seja trabalhando com a pesca?]</b></p>
<p>Hoje não. Já tive oportunidade para isso, posso até fazer outra coisa, mas que seja dentro do mar. Eu e o mar somos grandes parceiros. Eu mudei minha carteira de pescador pop, de pescador profissional para auxiliar de convés. Então eu tenho oportunidade de fazer um embarque. Se aparecer, tudo bem, se não, continuo na pesca tranquilamente. Mas, se acontecer de mudar quero estar dentro do mar, embarcado em um veleiro, rebocador ou em uma lancha, mas dentro do mar.</p>
<p><b>[Você gostaria de acrescentar alguma coisa?]</b></p>
<p>Eu gostaria de acrescentar nessa pesquisa o evento que aconteceu essa semana, que foi a descida do rio Jucu, no último dia 23. Eu participei como pescador, fazendo parte do rio e do mar. Gostaria de solicitar aos órgãos públicos um pouco mais de atenção para o rio. Se o rio Jucu continuar da forma como está, seco e assoreado, daqui a alguns dias não teremos mais água nem para beber. Esse é o meu pequeno recado que deixo, como pescador.</p>
<p>
[Entrevista exclusiva para o site Estação Capixaba. Reprodução autorizada pelo entrevistado.]</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2014&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
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<p></p>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/marcelo-farik-rego-entrevista/">Entrevistado: Marcelo Farik Rego</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
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		<title>Entrevistado: Leonardo de Carvalho Vieira</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 18 Dec 2014 18:15:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Espírito Santo]]></category>
		<category><![CDATA[Folclore]]></category>
		<category><![CDATA[História Pessoal]]></category>
		<category><![CDATA[Pesca artesanal]]></category>
		<category><![CDATA[Vila Velha]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Entrevistado: Leonardo de Carvalho Vieira, apelido Cabeludo Grupo ao qual pertence: Coqueiral de Itaparica, Vila Velha Entrevistador: Fernanda de Souza Data da entrevista: 21/03/2014. Local / data de nascimento: Vila Velha, ES Casado, 4 filhos —————————————————————————- [Como foi sua infância e adolescência?] Minha infância e adolescência foram ótimas. [Qual o tipo de brincadeiras que vocês [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="http://2.bp.blogspot.com/-xP_GjGOLelc/VnRJLCKF3rI/AAAAAAAAAS4/Ch64Dr4Yon4/s1600/LCV_21.03.2014-2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="472" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2014/12/LCV_21.03.2014-2.jpg" class="wp-image-6901" width="640" /></a></div>
<p><b>Entrevistado: Leonardo de Carvalho Vieira, apelido Cabeludo</b><br />
<b>Grupo ao qual pertence: Coqueiral de Itaparica, Vila Velha</b><br />
<b>Entrevistador: Fernanda de Souza</b><br />
<b>Data da entrevista: 21/03/2014.</b></p>
<p>Local / data de nascimento: Vila Velha, ES<br />
Casado, 4 filhos</p>
<p>—————————————————————————-</p>
<p><b>[Como foi sua infância e adolescência?]</b></p>
<p>Minha infância e adolescência foram ótimas.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Qual o tipo de brincadeiras que vocês tinham?]</b></p>
<p>As brincadeiras eram soltar pipa, pique-esconde, polícia-ladrão, bolinha de gude e pião.</p>
<p><b>[Você tem irmãos? Quantos?]</b></p>
<p>Na minha família somos quatro irmãos: dois homens e duas mulheres. Eu sou o segundo, do mais velho para o mais novo.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Com quem você brincava na sua infância?]</b></p>
<p>Brincava com meus colegas de rua.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Qual a sua escolaridade?]</b></p>
<p>Tenho o 2º Grau completo. Acho que com 19 anos já tinha terminado o 2º Grau. Na época era o curso normal, depois eu fiz o curso de Técnico de Contabilidade.</p>
<p><b>[Você chegou a trabalhar na área?]</b></p>
<p>Sim. Trabalhei quase dois anos em um escritório de Contabilidade, mas a natureza foi mais forte.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[E os seus pais?]</b></p>
<p>Meu pai trabalhou e se aposentou como militar da Marinha. Minha mãe é do lar.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Seus pais tiveram contato com a pesca?]</b></p>
<p>Creio que meu pai sim, por estar na área da Marinha. &nbsp;O meu avô, o pai da minha mãe, foi pescador, e acredito que minha mãe tenha tido um contato maior com a pescaria.</p>
<p><b>[Conte um pouco sobre seus avós]</b></p>
<p>Meu avô, pai da minha mãe, é que fornecia o sustento da casa através da pesca. Não tenho muita recordação, porque eu era muito pequeno, não tive contato com ele, as informações que tenho foram fornecidas pela minha mãe.</p>
<p><b>[Com que idade você teve contato com a pesca?]</b></p>
<p>Eu sempre gostei do mar. Com 14, 15 anos de idade eu já pescava usando uma varinha de pesca. Ia para a beira das pedras pescar, como todas as crianças e adolescentes que gostam de pescar, depois é que ingressei na pesca.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Quem te ensinou a pescar?]</b></p>
<p>Primeiro foi o fato de eu gostar e o convívio com os pescadores mais antigos. Sempre perguntando como é e buscando ter um conhecimento através dos pescadores mais antigos da colônia. Aos poucos se vai aprimorando, encarando o mar e aprendendo. Foi dessa forma.</p>
<p>[Como foi sua trajetória na pesca?]</p>
<p>Eu já tinha 18 anos e comecei aqui em Coqueiral, indo e vindo com os pescadores. Comecei como ajudante dos pescadores.</p>
<p><b>[Você tem barco?]</b></p>
<p>Não.</p>
<p><b>[E como você pesca?]</b></p>
<p>Pesco com os amigos que têm barco.</p>
<p><b>[Você vai todos os dias?]</b></p>
<p>Quando o mar deixa, sim. Nós dependemos muito do mar. Pelo pescador tem mar bom o ano todo, mas na prática não é bem assim, não é o ano todo que o mar está bom.</p>
<p><b>[Como era a pesca antigamente e como está hoje?]</b></p>
<p>É muito variado, é muito diferente se pescar de linha e se pescar de rede. São pescarias muito diferentes uma da outra.</p>
<p>A pescaria é época. Tem época da pescadinha, do baiacu e da enchova, esses são peixes de época. Às vezes o peixe dá uma sumida e quando pensa que não ele já está de volta, não sei por que motivo, acho até que seja pelo fato de se alimentarem aqui na costa. Continua-se pegando, mas não a quantidade que se pegava antigamente.</p>
<p>Hoje a pesca industrial está muito forte. Quem tem condições de ter um barco do tipo traineira […] A traineira é um barco grande que tem condições de fazer uma pescaria lá fora. Eles pegam os peixes que possivelmente iriam vir para aqui, para os pescadores artesanais pegarem, mas que não pegam. Acredito que seja por isso que esteja acabando a pesca por aqui. Isso é uma das causas de o peixe estar sumindo daqui da beira da praia. As grandes empresas de pescado têm impedido dos peixes chegarem até aqui, é o que todo mundo comenta. O pescador artesanal tem que viver daquilo que o mar vai dando gradativamente.</p>
<p><b>[Qual a média de quantidade que se pesca hoje?]</b></p>
<p>É muito relativo. Hoje o peixe que está dando é a pescadinha e geralmente se pega 5, 10, 15, 20kg, enquanto que antigamente era uma média de 30kg, ou seja, o dobro. Hoje está mais difícil, até quem sai no remo, que pescava aqui por perto, costeando, hoje tem que comprar um motor para ir lá fora para poder pegar o peixe, e assim vamos vivendo.</p>
<p><b>[Você tem outra fonte de renda que não seja a pesca?]</b></p>
<p>Não, a minha única fonte de renda é a pesca. Por enquanto é a pesca, vamos ver até quando conseguimos viver da pesca.</p>
<p><b>[Fale sobre os peixes e suas épocas.]</b></p>
<p>A pescadinha é no verão e logo em seguida vem o baiacu, a espada, a enchova e a sarda. É mais ou menos nessa sequência. Os pescadores seguem essa sequência, estou falando daqui, do Espírito Santo.</p>
<p><b>[Como é sua rotina como pescador?]&nbsp;</b></p>
<p>Acordo às 5h e todos os dias venho para a praia. Eu moro próximo à praia, venho de bicicleta, mas às vezes venho a pé. Quando venho de bicicleta gasto uns cinco minutos, é pertinho. Tomo o café e venho para a praia.</p>
<p><b>[O que você faz quando chega à praia?]</b></p>
<p>Se tiver condições de pescar, eu vou pescar, pois depende do mar. Se não, fico em terra com os amigos, com os outros pescadores conversando, ou na colônia. Sempre tem conversa sobre o que está acontecendo ou sobre o cotidiano.</p>
<p><b>[Você tem um parceiro fixo para a pesca?]</b></p>
<p>Não, quem estiver disponível e chamar, vamos. &nbsp;Isso acontece pelo fato de eu não ter uma embarcação.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[O que impede a saída para ir pescar?]</b></p>
<p>Ondas, essa parte de Coqueiral bate muita onda, por ser mar aberto. É diferente da Praia da Costa, da Praia do Ribeiro que dá condições de se sair. Por exemplo, na Praia da Costa e Itapuã sempre dá condições de sair. Aqui, por ser mar aberto, sofremos um pouco com as ondas. Se o mar estiver muito agitado ficamos impossibilitados de sair para pescar. A chuva não atrapalha, se o mar estiver calmo não tem diferença. Se está na chuva é para se molhar.</p>
<p><b>[Tem alguma influência da lua?]</b></p>
<p>Sim, tem influência […] Geralmente quando vem vento sul, vem chuva. O mar dá um balanço e bate onda, aí não tem como ir pescar. Fora isso, a pescaria é normal.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Tem alguma época do ano que se sai mais para pescar?]</b></p>
<p>Geralmente no verão se sai mais. No inverno é menos, mas se pesca. No verão é sempre calmo. Eu acredito que os pescadores até batalham mais no verão para terem um dinheiro guardado para certas emergências. Todo pescador é assim.</p>
<p><b>[Quantas horas você fica no mar?]</b></p>
<p>Em média fico de quatro a cinco horas no mar. Geralmente, volto às 10h, até porque tenho que vender o peixe aqui na banca, um peixe fresquinho para poder servir a população.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[O que se faz quando vocês chegam da pescaria?]</b></p>
<p>Coloca-se o barco para cima, retira-se o material e vem para a banca. Pesa o peixe, limpa e vende.</p>
<p><b>[A que horas você retorna para casa?]</b></p>
<p>Por volta de 12h, almoço, descanso e faço tarefas do cotidiano, como rever o material de pesca. Às vezes fico o dia todo na praia. Quando tem lance de peixe de rede, fica-se o dia todo. O lance de rede não tem uma hora específica para se cercar, pode cercar pela manhã e pela tarde.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[O que é lance de peixe?]</b></p>
<p>É um cardume que vem. Nós vigiamos e cercamos com rede de arrasto, como se chama. Sabemos que está vindo pelo olhar.</p>
<p><b>[E como se faz?]</b></p>
<p>Um vai remando e o outro vai soltando a rede e cercando o cardume. Geralmente em terra tem de 8 a 10 pessoas para poder ajudar a puxar a rede. Quando Deus abençoa é bom, quando não, é bom do mesmo jeito.</p>
<p><b>[A que horas você costuma ir dormir?]</b></p>
<p>Por volta das 21h ou até antes, no mais tardar às 21:30h, porque acordo muito cedo.</p>
<p><b>[Você é casado?]</b></p>
<p>Sou casado e tenho 1 filho de 11 anos.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[O que sua esposa acha do seu trabalho como pescador?]</b></p>
<p>Quando nos conhecemos eu já pescava. Ela me apoia e não reclama.</p>
<p><b>[Você pesca nos finas de semana?]</b></p>
<p>Sim, também venho pescar aos sábado e domingos. Venho todos os dias e ela (minha esposa) entende o fato de eu ter que vir trabalhar nos finais de semana.</p>
<p><b>[Ela tem algum receio em relação ao mar?]</b></p>
<p>Acho que não.</p>
<p><b>[E o seu filho, você já o trouxe para pescar?]</b></p>
<p>Sim, ele gosta de vir e gosta bastante de água. Já passeei com ele, mas não para pescaria.</p>
<p><b>[Ele também quer trabalhar com pesca?]</b></p>
<p>Não, e eu não forço nada. Eu o incentivo a estudar bastante para que no futuro, quem sabe, ele possa vir a ser um doutor. Ele está na 7ª série.</p>
<p><b>[Que tipo de pesca você pratica, de anzol ou de rede?]</b></p>
<p>Minha pesca é de anzol e, quando posso, pratico pesca de mergulho.</p>
<p><b>[Como é a pesca de mergulho?]</b></p>
<p>Vou de barco costeando as pedras e faço o mergulho.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Que instrumentos você precisa para fazer a pesca de mergulho?]</b></p>
<p>Preciso de uma roupa de neoprene, uma nadadeira, de máscara, canudo e arma de mergulho.</p>
<p><b>[Como é essa arma de mergulho?]</b></p>
<p>Chama-se arbalete. Tem a arbalete e uma pneumática que é de pressão, que não se usa mais, a arbalete é a mais usada. A arbalete é de borracha, se estica a borracha para armar a lança e a outra (a pneumática) é de pressão.</p>
<p><b>[Porque se usa mais a arbalete?]</b></p>
<p>Porque é uma arma mais leve e faz pouco barulho no fundo quando se atira no peixe.</p>
<p><b>[Que outros instrumentos tem que levar?]</b></p>
<p>Leva-se uma boia sinalizadora para que as embarcações que estiverem por perto saibam que ali tem um mergulhador.</p>
<p><b>[Que tipos de peixes você pega com a prática de pesca de mergulho?]</b></p>
<p>Quando esta na época se pega sarda, enchova e sargo. Geralmente são peixes que vivem costeados às pedras.</p>
<p><b>[E como você vai?]</b></p>
<p>Geralmente saímos com a batera, de lancha, quando temos amigos que possuem lancha, ou nadando para a ilha.</p>
<p><b>[Quanto tempo se leva da praia até o ponto de mergulho?]</b></p>
<p>Geralmente é por aqui perto, nas ilhas, no costeado.</p>
<p><b>[Quanto tempo você fica pescando?]</b></p>
<p>Quando está bom, de 5 a 6 horas de pescaria.</p>
<p><b>[Você vai sozinho?]</b></p>
<p>Não, sempre vou acompanhado.</p>
<p><b>[Você tem companheiro de pesca de mergulho aqui no ponto de Coqueiral de Itaparica?]</b></p>
<p>Quando tem amigos que chamam, sim. Quando não tem vou sozinho na ilha ou no coral.</p>
<p><b>[Todos os pescadores praticam a pesca de mergulho?]</b></p>
<p>Não.</p>
<p><b>[Há quanto tempo você pratica a pesca de mergulho?]</b></p>
<p>O mesmo tempo da pesca de linha, eu associo uma à outra.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Quem te ensinou a pesca de mergulho?]</b></p>
<p>Gostando e conversando com os mais velhos, vendo o que era preciso e fui. Hoje estou aí.</p>
<p><b>[E o que tem que ser feito para se praticar a pesca de mergulho?]</b></p>
<p>Primeiro se faz um mergulho de apneia, que é encher o pulmão de ar, desce, faz uma espera de fundo, pega o peixe e sobe. Quando não se visualiza o peixe, sobe. Assim vai-se praticando. A cada peixe que se pega, se sobe. Quando desce, e não pega, também tem que subir. Essa é a pesca de apneia, não é uma pesca de cilindro (de compressor), de garrafa como se diz. Esse tipo de pesca (de cilindro) não é permitido, porque é uma pesca predatória. A pesca de apneia é uma pesca artesanal.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Para se praticar a pesca artesanal de mergulho tem que ter alguma autorização ou curso?]</b></p>
<p>Eu tenho minha carteira de pescador, que acho que me dá o direito de fazer a pesca artesanal, de mergulho. Quem não tem carteira de pesca, me parece que se tira uma guia pelo site do IBAMA e se paga anualmente. Essa guia dá uma credencial de 15kg de peixe e mais um exemplar.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Qual a pesca que você mais gosta?]</b></p>
<p>Eu gosto mais da pesca de mergulho, pratico duas vezes por semana. Às vezes faço pescaria de linha, associo.</p>
<p><b>[Como você define se vai pescar de anzol ou de mergulho?]</b></p>
<p>Depende do mar. Se o mar estiver bom vou de linha. Se amanhã o mar estiver bom de novo, vou para o mergulho. Venho, vejo o mar, e se der condições vou em casa, e busco o meu material de mergulho. Como é perto tenho condições de fazer isso.</p>
<p><b>[E como é a pesca de anzol? Que instrumentos têm que levar?]</b></p>
<p>Linha, chumbo, anzol, iscas (sardinha ou tainha) que compramos, o barco e o lanchinho.</p>
<p><b>[Tem tipo de linhas e de anzol?]</b></p>
<p>Tem linha mais grossa ou mais fina. De acordo com o peixe. Aqui na beira se pesca com linha mais fina. Se for pescar em alto mar a linha é mais grossa, porque são peixes maiores.</p>
<p><b>[Os anzóis tem diferença de acordo com o peixe?]</b></p>
<p>Sim, se for pescar um peixe maior, o anzol tem que ser maior. Se for pescadinha, o anzol é menor. Levamos vários tipos de anzóis, chegando lá (no local da pescaria) é que vamos ver o que se vai usar. Se tiver pescadinha usa-se um anzol menor. Se tiver espada usa-se um anzol maior com um pedacinho de aço, porque a espada corta muito a linha. Se não tiver o aço se perde muito anzol. Na época do baiacu tem que se pescar um anzol maior e com aço porque ele corta a linha.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[E as redes?]</b></p>
<p>Cada rede tem uma malha, malha maior ou menor, de acordo com o peixe.</p>
<p><b>[Qual a diferença entre rede de fundo, rede de espera e rede de arrasto?]</b></p>
<p>E rede de arrasto é uma rede que se usa na beira da praia. A rede de fundo e espera coloca-se no mar num dia e se mira no outro dia. No outro dia recolhe a rede para dentro do barco, tira os peixes e torna a deixar no mesmo lugar.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Qual a diferença da rede fundo para a rede de espera?]</b></p>
<p>Aparentemente é a mesma coisa. Chama-se rede de fundo, porque ela fica no fundo de um dia para o outro. As duas ficam no mar. A rede de arrasto fica aqui na praia. Cerca o peixe, tira da água e recolhe para o barco para se fazer uma nova saída para cercar outros peixes se tiver.</p>
<p><b>[Você sempre pescou aqui no ponto de Coqueiral de Itaparica?]</b></p>
<p>A maior parte aqui.</p>
<p><b>[Quais foram os outros lugares que você já pescou?]</b></p>
<p>Já pesquei na Bahia. Aqui no município de Vila Velha já pesquei em Itapuã e na Praia da Costa. Quando os amigos chamam eu vou. Mas sempre pesco aqui em Coqueiral.</p>
<p><b>[Quais são sua lembranças dos locais de pesca?]</b></p>
<p>Só guardo boas lembranças. O que mudou aqui é que hoje tem prédios, mas ainda continua sendo um bom local de pesca.</p>
<p><b>[Você já sofreu algum acidente no mar?]</b></p>
<p>Graças a Deus, não.</p>
<p><b>[Por quanto tempo você pretende continuar pescando?]</b></p>
<p>Pescaria é vida, o mar é a vida. Vou continuar pescando até quando puder.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[O que você mais aprendeu com a pescaria, o que você leva como lição de vida?]</b></p>
<p>A humildade. As pessoas que aqui trabalham são humildes e comunicativas. Aqui um depende do outro. Às vezes tem um atrito, como em todo lugar.</p>
<p>
[Entrevista exclusiva para o site Estação Capixaba. Reprodução autorizada pelo entrevistado.]</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2014&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<div>
</div>
<p></p>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="http://4.bp.blogspot.com/-IxQGKzLCfko/VnLoaxyHMVI/AAAAAAAAAPc/B-eyl7DCTTc/s1600/todas.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="121" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2014/12/todas-3.jpg" class="wp-image-6902" width="400" /></a></div>
<p></p>
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		<title>Entrevistado: Fábio Firme</title>
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		<pubDate>Wed, 17 Dec 2014 21:21:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Espírito Santo]]></category>
		<category><![CDATA[Folclore]]></category>
		<category><![CDATA[História Pessoal]]></category>
		<category><![CDATA[Pesca artesanal]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Entrevistado: Fábio Firme Grupo ao qual pertence: Barra do Jucu Entrevistador: Fernanda de Souza Data da entrevista: 28/03/2014. Local / data de nascimento: Vitória, ES,1957. &#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211; [Como foram sua infância e adolescência?] Minha infância foi com meus avós. Eles eram fazendeiros aqui (na Barra), e em Viana. Durante a semana eu estudava, e ajudava o [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
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<p>
<b><br /></b><br />
<b>Entrevistado: Fábio Firme</b><br />
<b>Grupo ao qual pertence: Barra do Jucu</b><br />
<b>Entrevistador: Fernanda de Souza</b><br />
<b>Data da entrevista: 28/03/2014.</b></p>
<p>Local / data de nascimento: Vitória, ES,1957.</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;</p>
<p><b>[Como foram sua infância e adolescência?]</b></p>
<p>Minha infância foi com meus avós. Eles eram fazendeiros aqui (na Barra), e em Viana. Durante a semana eu estudava, e ajudava o meu pai nas lojas. Ele era comerciante na Vila Rubim, e nos feriados e finais de semana ia para a fazenda do meu avô. Ficava contando nos dedos os dias que faltavam para os feriados para ir para a fazenda. Era muito divertido, pois reuniam os primos, primas e tinha muitos animais para montaria. Fazíamos fogueira e roda de violão próximo ao casarão. Brincávamos de escorregar nas palhas de coco ou em tábuas molhadas, e descíamos o morro. Era uma aventura além de se quebrar braço, e se ralar todo. Quando não estava na fazenda estava em outro terreno do meu avô, em Caçaroca. Nós saímos de Santo Antônio de canoa remando, passávamos pelas 5 pontes, entrávamos em um rio onde hoje é o prédio da Polícia Federal e íamos pelo rio Marinho. Na época não era poluído e os peixes pulavam dentro d’água. O meu avô batia com a vara na beira do junco, e os peixes pulavam para dentro da canoa. Meu avô dizia: meu filho você quer ver peixe à noite? E eu dizia: Vô, vamos pescar à noite? E saíamos eu, e ele para pescar à noite. Ele colocava o lampião na canoa, vestia o colete em mim, e ia remando, adernando a canoa e batendo nos matos. Com a claridade aquilo ficava branco dentro da canoa, chamava-se sairu. Pegávamos baldes e enchíamos cestos de 100 a 200k. Então, durante a semana eu estudava. Quando morei em Vitória estudava no Salesiano, e depois vim estudar em Vila Velha no Marista. Estudei até o 2º grau, completo. Fiz vestibular para engenharia, mas abandonei o estudo. Comecei a trabalhar, e também trabalhava com meu pai. Desde cedo gostei de trabalhar, e de ter meu dinheiro. Tinha vida boa, tinha carro e tudo mais. Sempre trabalhei e corri atrás. Mas, sempre tive essa vida aqui. Não tenho o que reclamar. Estou bem graças a Deus.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Seus pais e avós tiveram contato com a pesca?]</b></p>
<p>Meu avô materno, sim. Ele pescava muito camarão e robalo aqui no rio. Eles chamavam [o rio] de Caçaroca, hoje está tudo poluído. A Braspérola e a Real Café poluíram tudo. A água era cristalina. Havia um lugar chamado a “boca da vala”, que era muito fundo e tinha uma passagem que era uma ponte. Passava-se por ela e balançava. Nós olhávamos lá em baixo, mais ou menos a uns 15 m de altura, e víamos os robalos. Batíamos a linha e eles mordiam a isca. Era um lugar muito fundo e dava muito peixe. Meus avôs viviam disso. Viviam da pesca e dos laranjais. Naquela época vendia-se muita cana, ele tinha muito gado. Meu avô chamava-se Mariano Varejão Filho.</p>
<p>O meu avô era português. Tinha os cabelos brancos e olhos azuis, na fazenda tem a fotografia dele. Minha avó foi pega a laço, chamava-se mãe Cíntia, ela era índia. Meu avô era muito trabalhador e inteligente. Era um homem de visão. O Morro do Moreno foi dele, depois vendeu. Tinha fazendas em Viana e no Rio Marinho. Tinha muita terra e era muito trabalhador. Nas fazendas tinha muita hortaliça e tinha muita gente. Eles vendiam muito para o mercado e assim foram desenvolvendo um comércio. Uns ficaram no interior, e outros vieram para a cidade e se dedicaram ao comércio. Eram em nove irmãos, duas mulheres e sete homens. Hoje só tenho uma tia viva, com 93 anos de idade, que por sinal é muito linda.</p>
<p>A história dos meus pais é muito grande e bonita.</p>
<p>Tem uma passagem muito interessante que é o seguinte: as meninas de Caçaroca eram muito bonitas. Na época havia uns bailes aqui (na Barra do Jucu), e em Caçaroca. Então, os parentes dos meus pais vinham de Caçaroca para fazer os bailes aqui (na Barra do Jucu), e vinham pelo rio Jucu de canoa remando. Depois, eles subiam até Caçaroca com as meninas, e pegavam os cavalos para retornarem para as fazendas. [&#8230;] O pessoal daqui da Barra conta como era antigamente. O meu pai tocava muito, e minha mãe adorava cantar.</p>
<p><b>[Com quem e com que idade você aprendeu a pescar?]</b><br />
<b><br /></b><br />
Eu aprendi com meu avô. Eu o via pescar e achava interessante, lembro-me como se fosse hoje, levei uma surra da minha mãe. Peguei um puçá, arranquei o arco, juntei as malhas em cima, amarrei um cordão e embaixo amarrei umas pedras. Saí pela beira da maré jogando aquele troço. Quando minha mãe me achou eu estava todo cheio de lama e por isso levei uma surra debaixo do chuveiro. [&#8230;]. Mesmo assim fui aprendendo. Depois, meu pai comprou uma tarrafa, fui jogar tarrafa e pescando. Eu gosto muito de estar no mar e no rio, mexendo com peixes, tratar de badejos de 20, 25k, [&#8230;].</p>
<p>Eu acho que é genético, esse lance de pescaria é herança do meu avô materno. Pela parte do meu avô paterno é mais criação de gado e fazendas. Eu também gosto de animais, tanto que meus primos [por parte de pai] trabalham com gado e plantações. [&#8230;].</p>
<p><b>[Como era a pesca antigamente e hoje?]</b><br />
<b><br /></b><br />
Isso aqui era a coisa mais linda do mundo em termos de fartura de peixe. Na época da enchova, quando se colocava um trasmalho aqui, logo em seguida quando se levantava dava uma quebra. A quebra é quando se coloca o transmalho, tudo retinho nas boias, e quando se levanta dá umas quebras. Pegavam-se muitas enchovas, robalos de 15 a 20k, mero, caranha, e sarda. Era fora do comum a quantidade que se pegava.</p>
<p>Ali, na maré, depois da ponte, se mergulhava para pegar camarão. Quando se mergulhava e passava-se a mão no cabelo, parecia que não tinha cabelos devido à lanolina da água. Era uma água preta, mas pura lanolina. Colocavam-se as mãos nas locas e pegavam-se aqueles grandes camarões. Hoje em dia é tudo poluído. Em relação a hoje posso dizer que diminuiu 70%. Acabou tudo. Está tudo poluído. O peixe ainda vem devido ao curso, vem na [?], mas não é aquele peixe que fica aqui, rodando. Quando ele entra e sente alguma coisa, ele abre fora, não fica passeando. Aqui dava muito mero. O mero parava aqui e morava, isso quando não tinha poluição. Você ia lá e matava o peixe. O rio ainda tem peixes, mas está muito poluído. Há 30 anos isso aqui era uma fortaleza de peixes. Chegava-se no riacho, pegava-se o peixe, e amarava-se no pau. Eram cinco ou seis viagens pela manhã, às 10:00h, que é hora das miradas por aqui, e às 16:00h.</p>
<p>O peixe não tinha o valor que tem hoje e era de todos os tipos com muita fartura. Hoje quem ainda vive da pesca aqui é porque é trabalhador, porque é muito complicado viver só da pesca. Às vezes se pesca e outras não, fica a desejar. Não se pode contar só com a pesca, naquela época podia-se contar. Colocava-se o trasmalho e pegava-se peixes em todos os horários pela manhã e pela parte da tarde.</p>
<p>Aqui tem um peixe chamado guaibira, o baiacu. Daqui da cerca, quando se passava, só se via guaibira, que é um excelente peixe, como o bacalhau. Seja assado ou frito, como moqueca ou desfiado na torta. Eu e o Marcelo pegamos em janeiro 600kg de guaibira em uma pescada. Na época dela até deu mais ou menos, mas, antigamente era o ano todo, com muita fartura. O xaréu e o sururu da Barra são os mais gostosos, porque o rio desemboca em cima da ilha. [&#8230;] ele é filtrador, bate muito e até chegar lá ameniza a poluição.</p>
<p>Mas tem poluição, tem esse esgoto que desce aí, que vem da região cinco, desemboca todo aqui. Essa poluição cai toda no rio. &nbsp;E o que vem de Araçás? É muita coisa. Isso fez com que ficasse poluído. É certo que para o mar, o que não for agradável, ele coloca para fora, mas a água ela vai poluindo. Foi uma queda de 70% ou mais da quantidade de peixes que davam por aqui.</p>
<p><b>[Você acha que foi só a poluição que causou a queda na quantidade de peixes ou tem outros fatores?]</b><br />
<b><br /></b><br />
Não foi só a poluição. A poluição a que me refiro é em relação à nossa costa. Outro fator são as traineiras, que estão detonando tudo, e as perfurações da Petrobrás. A dragagem que fizeram na baía de Vitória foi jogada aqui. As dragas vinham no baixinho e por trás dos navios, abriam as comportas e jogavam. A lama foi batendo nas pedras e foi subindo. Os buracos estão cheios de lama da baía de Vitória. Aquilo é poluição da baía de Vitória. O mar tanto joga as correntes para fora quanto joga para dentro. Os pinguins chegam aqui porque são caminhos, correntes de águas que vão e vem. Da mesma forma é a poluição, vai para fora e vem para a costa, aí acaba. Cadê as nossas peroás? Com essas perfurações que fizeram, os “chupas cabras” e as explosões elas nunca mais voltam. A Petrobrás está fazendo e acontecendo e as traineiras estão acabando com tudo. Se o pescador artesanal estiver ali fora pescando e a Capitania passar, vão em cima do pescador. Se o pescador não estiver documentado eles multam e rebocam a embarcação, mas o pescador tem filhos para criar, e aí?</p>
<p>E os grandões? E os barcos que saem da Cibrazen, na Praia do Suá? Saem na 2ª feira, e retornam na 6ª feira com 60, 70 toneladas de peixe. Já saem daqui com o sonar ligado e sabem onde está o cardume de peixe a 30km. Quando estão vindo do mar para descarregar em terra já saem no caminho sabendo a quantos graus ao sul, leste, norte e já vão em cima. E quando chegam lá jogam aquelas redes monstruosas. Já sabem a profundidade, onde tem pedras ou não. Então as traineiras, a poluição e a Petrobrás [&#8230;], eles não fazem nada por ninguém. As traineiras estão acabando com tudo. A manjuba e a sardinha, que davam demais em Itapuã, esse ano deu pouca coisa. Tudo isso devido à Petrobras e às traineiras. E eles nada fazem. O pessoal que está pescando a pescadinha agora está se virando nisso aí, e quando acabar a pescadinha?</p>
<p>Antigamente se saía aqui e, com uma hora de mar adentro, se matava de uma a três caixas de peroás todos os dias. Hoje não se acha nem uma. Se não tivessem essas pescadinhas aí os pescadores iriam passar perrengue, vão ter que encarrar um trabalho como ajudante de pedreiro para não passar perrengue, não tem jeito. Aqui mesmo tem várias perfurações e as explosões no fundo do mar que acabam com tudo. A Petrobrás, as traineiras e a poluição se juntaram, e foi à gota d’água. E cada vez vai ficar pior, ninguém vai fazer nada para ajudar. Na nossa costa, de Regência para cá, pelo que tenho de conhecimento, todo mundo tem reclamado. É só poluição e nada mais.</p>
<p>Se o pescador tiver um barco a motor e ficar lá fora dois dias ele ainda arruma alguma coisa. Aqueles que trabalham com batera aqui na costa, Deus me livre! E quando se coloca a rede o mar vem e leva tudo embora e aí?</p>
<p>Se não se tiver um capital de giro, fica-se a desejar. É complicado, só vai piorando, e eles não fazem nada. Estão vendo o que está estampado, mas não fazem nada pelo pescador artesanal. Temos o CEAPS que criou o defeso, que é de quatro meses. Eu acho que o defeso do sururu deveria de ser pelo menos de seis meses porque o pessoal está atacando muito as pedras. Eu tirava dez sacos, não tiro mais. Tem vários barcos que tiram por dia 40, 50 sacos. As pedras não resistem, então o defeso de quatro meses, de setembro a dezembro – ele fecha em 1º de setembro e abre em 1º de dezembro –, eu acho um prazo muito curto, deveria ser de pelo menos seis meses para poder dar tempo, mas não fazem isso porque têm que pagar. O certo deveria ser um ano, porque o sururu [&#8230;] Se você for ver as pedras onde ele está [o sururu] está tudo preto e pequeninho, está um pouco atrasado. Se fossem dados seis meses ele ficaria melhor.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Atualmente a pesca é a sua única fonte de renda?]</b><br />
<b><br /></b><br />
Sim.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Dá para viver só da pesca ou tem que complementar com outra coisa?]</b><br />
<b><br /></b><br />
Tenho que complementar com outras atividades. Se gasta muito e a gente tem que dar nossos pulos.</p>
<p><b>[Viver da pesca hoje é complicado?]</b><br />
<b><br /></b><br />
Para o pescador artesanal, sim.</p>
<p><b>[Como é sua rotina como pescador?]</b><br />
<b><br /></b><br />
Acordo às 04:30h da manhã, pego os peixes e vou vender. Chego em casa às 21:30h, isso é quase todos os dias.</p>
<p><b>[Você tem ponto fixo?]</b></p>
<p>Não, onde tem barco descarregando eu vou. Escolho os melhores peixes, compro, pago mais caro e exijo a qualidade. Se tenho qualidade, tenho preço. Eu optei só pela pesca, que eu não largo, e faço porque eu gosto, e tirar o sururu. Aqui só quem tira sururu sou eu e o Marcelo [&#8230;]</p>
<p>O mergulhador liga para mim, porque eu pago o melhor preço e pago em cash. Chegou, paguei. O pescador que vem do mar cansado [&#8230;] o peixe vem direto para minha mão. É até engraçado porque o pescador já separa o peixe para mim porque ele sabe que pago em dinheiro. A minha clientela é grande porque tenho um bom peixe. É caro, não vendo barato, sou careiro, mas tenho qualidade.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Relate as etapas do seu trabalho?]</b><br />
<b><br /></b><br />
No dia que chega a barca eu vou comprar o peixe para revender. Separo, peso, trato, encero, ensacolo e empacoto, isso quando não tenho freguês. Tem fregueses que pegam inteiro, outros pegam sem tratar, outros exigem que corte o peixe, outros querem ou não com a cabeça. Vendo muito para restaurante e entrego em domicílio.</p>
<p>Eu só vivo de sunga, aqui eles dizem que quando estou de bermuda não estou legal. A sunga é o meu dia a dia. No meu condomínio não ando de sunga porque não é permitido, mas no meu dia a dia é sem camisa e de sunga de praia, pode estar chovendo ou fazendo sol, com vento sul ou norte, fico assim direto, não tem jeito.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Você não tem uma rotina muito definida, de fazer a mesma coisa todos os dias, como é isso?]</b><br />
<b><br /></b><br />
Tenho uma rotina diversificada e é raro eu fazer dois dias a mesma coisa. Às vezes estou no camarão, no peixe ou no sururu. Agora estou no sururu mas, se chegar peixe, estarei no peixe e no sururu. Às vezes vou para o barco, outras, vou comprar peixe. Eu só compro peixe vivo, às vezes chego e vejo que não serve. Sou muito enjoado, fico no máximo dois ou três dias na mesma rotina, senão acabo estressando.</p>
<p><b>[Como é a preparação da rede? Desde a compra até colocar no mar, o que tem que ser feito?]</b><br />
<b><br /></b><br />
Antigamente a rede era feita de barbante, de tucum, de onde se retiravam os fios. Era um tipo de nylon muito reforçado. Hoje não se faz mais, hoje compramos as redes prontas. Tem pessoas que fazem, mas é muito tempo para se preparar, dependendo do tamanho e da malha, então é mais fácil se comprar o pano de 70, de 80 com determinada malha. Compra-se o pano, estica-se e só entralha as boias na corda e o chumbo, e a rede está pronta.</p>
<p>Antigamente levava-se de um a dois meses para se fazer uma rede. A tarrafa é feita à mão, mas também é feita na máquina. O pessoal opta por aquela que é feita à mão porque fica mais perfeita e ela se abre toda, o que não acontece quando é feita na máquina, porque afunila. As redes que são feitas na máquina têm um detalhe: dependendo dos peixes, quando batem na malha, correm e furam a malha. Quando a rede é feita à mão a malha não corre. Quanto mais grosso o nylon mais a malha aperta. [&#8230;] se puxa e ela volta para o lugar. De acordo como o peixe bate, ele fica ou não, às vezes nem fura, a malha corre e o peixe passa pelo buraco. Por um lado ficou mais barato e é mais rápido. Outro problema é que os fazedores de redes foram morrendo ou não querem mais fazer porque já estão idosos e não têm mais aquela força para apertar o nó. Hoje compramos a rede, amarramos em uma árvore, pegamos malha por malha, amarramos por cima e por baixo, colocamos um peso de 100kg em baixo. &nbsp;Ferve-se uma água, coloca-se uma escada e joga-se a água quente no olho. Se vê que cede um tanto do nylon aí, se fecha o nó e se aperta. O peso, quando a água quente bate, ele estica, daí se fazer esse processo.</p>
<p><b>[Quais são os tipos de redes e qual a diferença de uma para outra?]</b></p>
<p>No caso a pescadinha tem que ser uma malha fina e menor, um nylon 35, 40. Para um peixe maior, um nylon 60. Para a enchova um nylon 90 ou 100. Cada peixe tem uma malha, um nylon. Quanto maior o peixe, maior tem que ser a resistência do nylon e mesmo assim fura. Naquele tempo tinha um nylon bom, do tipo nilon. Hoje não tem mais o nilon, o que tem é tudo falsificado.</p>
<p>Para a costa o trasmalho é mais baixo e para fora o trasmalho é mais alto. Tem trasmalho de 100 malhas de altura, de 30, 40m de altura, depende muito da qualidade do peixe.</p>
<p>Naquela época tinha um nylon que se chamava de rede traiçoeira e foi proibida. Era um nylon resistente, o peixe batia e não furava, embolava mas não furava. Devido a este tipo de nylon dessa rede traiçoeira diziam que se estava matando muita lagosta. Na realidade ela tinha um tempo de vida maior, então acharam melhor acabar com essa rede. Aí passaram a pagar certa importância para as pessoas entregarem esse tipo de rede. Muitas entregaram, aproximadamente 80%. Dizem que ela mata muito mais do que a de nylon comum, mas não é. O nylon comum mata mais do que essa rede, só que essa rede de nylon tipo seda é mais resistente do que o nylon que se usa frequentemente. Cada peixe tem uma bitola de malha: a pescadinha, a sarda e a enchova. Se você colocar um nylon de 50 para enchova ela fura, a não ser se ela agarrar. Se colocar um nylon de 100 ela vai bater e vai ficar.</p>
<p><b>[Como são as redes de fundo e de espera?]</b><br />
<b><br /></b><br />
As redes de fundo são duas garateias. Entralha-se boia e chumbo e a altura é que se deseja. Lá fora se larga uma boia com a garateia, com ferro pesado, com bastante marra, e se estica a favor da água, coloca-se uma boia em cima e uma em baixo. Se largar muito fora se marca pelos morros. Vai, puxa pela boia, recolhe a rede, mira e larga novamente.</p>
<p>A de espera também se arma, só que ela é boieira. Se mira todos os dias e deixa lá. No verão são três miradas: pela manhã cedo, às 10:00h, e à tarde. Geralmente na rede de fundo se faz o seguinte: mirou pela manhã e à tarde, se não deu peixe eles miram pela manhã. Aí o peixe dá e não se mirou à tarde, quando chega pela manhã o peixe está todo estragado.</p>
<p>Eu digo o seguinte: se colocou a rede lá tem que mirar pela manhã e à tarde. Se não deu pela manhã não vai dar pela parte da tarde? A rede está lá e ela está caçando, aí o peixe dá, mas se perde o peixe, já aconteceu muito isso.</p>
<p>A rede boieira também. A rede boieira é alta e tem a possibilidade de apanhar o peixe. Se colocar a rede de sete metros em um lugar de profundidade de sete metros ela fica da face até em baixo e a possibilidade de se pegar o peixe é grande. </p>
<p>A rede de fundo, não. Se tiver três metros ela vai pegar o peixe que estiver na profundidade de três metros, o peixe que passa por cima não pega. As redes de fundo podem ser de nylon 100, e podem ser malha grande ou pequena, fica a critério de cada pessoa. Mas nas redes de fundo se usa mais um nylon mais fino, que é para peixes menores. Todos os pescadores que usam rede de fundo usam um nylon mais grosso, quanto mais rede melhor.</p>
<p><b>[Você tem redes?]</b><br />
<b><br /></b><br />
Sim, elas estão em terra devido ao tempo. Eu sou muito cuidadoso com minhas redes: são todas branquinhas e guardadas certinhas porque são caras. Tenho redes de 5, 6 anos que você não diz que tem todo esse tempo, isso é devido ao cuidado.</p>
<p><b>[Em que ponto você coloca suas redes?]</b><br />
<b><br /></b><br />
Coloco aqui na barra ou lá por fora. Quando eu coloco, miro todos os dias pela manhã e pela tarde.</p>
<p><b>[Você também pratica a rede de arrasto?]</b><br />
<b><br /></b><br />
Já pesquei muito, já matei muito peixe aqui, eu remava muito e colocava muita rede, mas depois fui cansando e não trabalhei mais com rede de arrasto. Era eu e Helinho que pescávamos e dava muito peixe. Aqui [na Barra] há 35 anos dava lance de se matar de três a cinco mil quilos de peixes, isso quando tinha peixe. [&#8230;] Hoje é lá uma vez ou outra que isso acontece, só por milagre, o peixe não vem porque está poluído, passa por fora, o peixe vem e quando chega passa por fora, pega a corrente e vai embora.</p>
<p>Outro fator que também contribuiu para a escassez de peixes foi a Tubarão, porque acabou muito com a nossa corrente de água, uma vez que o peixe vem na corrente da água. Ainda tem corrente, mas não é tanto como tinha. São vários fatores que se juntaram e atrapalharam.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Você tem praticado a pesca de linha de fundo?]</b><br />
<b><br /></b><br />
Não, porque não tem mais peixe, o que está se pegando é a pescadinha, que está tendo agora. Mata-se de 30 a 100kg de pescadinha e depois se coloca a linha e não se pega nada. Vai-se pela manhã, fica-se até das 5:00h às 10:00h, e quando olha para a caixa está vazia. E o pescador que tem filhos para alimentar? O cara pira. Você não pode ir lá fora com um motor de 5.5, se for pode pegar uma tempestade e não voltar, e aí?</p>
<p><b>[Descreva a prática da linha de fundo?]</b><br />
<b><br /></b><br />
Se faz um arco, do tipo de um bodoque, e no meio dele dá uma voltinha, coloca-se a chumbada e divide. Faz-se um tipo de anelzinho e amarra-se a linha com três anzóis. Qualquer toque que der o chumbo balanceia e aí você sente, bate no fundo e você recala com as duas braças. Aquela linha fica chumbada e qualquer toque que o peixe der você pega. O arco é para se ter um tato do peixe, às vezes o peixe é tão sabido que quando você puxa ele já comeu a isca.</p>
<p><b>[Que tipo de isca você usa?]</b><br />
<b><br /></b><br />
Quando eu vou pescar eu gosto de levar uma sardinha, um camarão ou uma tainha, eu gosto de levar vários tipos de iscas, eu gosto de ter opção. Tem pescador que não leva nada [&#8230;].</p>
<p><b>[Como é feita a retirada do sururu e quais são os perigos?]</b><br />
<b><br /></b><br />
É um processo muito perigoso. Eu retiro nos lugares mais perigosos, aonde ninguém vai, onde bate. Se você cair em cima de uma pedra daquela pode ir direto para o hospital porque é só craca e corta muito. Além disso, tem que ter muito preparo físico porque se retira no grapuá e é duro. Eu sou rápido: em uma hora e meia eu tiro a minha cota de dez sacos, eu não gosto de tirar mais, é trabalhoso e cansativo. É como se fala: é um dinheiro que é ouro, mas deixa-se o couro. [&#8230;].</p>
<p><b>[Onde você começou a pescar?]</b><br />
<b><br /></b><br />
Foi em Santo Antônio, no cais do avião, próximo ao Sambão do Povo. Antigamente se chamava cais do avião, ali aterrissavam aviões na água. Eu comecei em Vitória, no cais do avião, próximo a Ilha das Caieiras, em Santo Antônio, onde é hoje a rodoviária, na Ilha do Príncipe, era um michouro [?], isso há 40 anos.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Quando você veio para Vila Velha?]</b><br />
<b><br /></b><br />
Vim quando meus pais compraram uma casa aqui para passarem o verão. Vieram passar o verão e ficaram. Ficávamos aqui e na Praia da Costa.</p>
<p><b>[Você tem ponto fixo?]</b><br />
<b><br /></b><br />
Não tenho ponto fixo, sou igual a cigano: estou lá, estou cá e não paro. Se eu ficar em um lugar parado, fico doido. Fico aqui na Barra, no Ribeiro, na Prainha, Itaparica, Itapuã, Barra Seca, Barra Nova e Conceição da Barra. Não tenho lugar certo.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Quais são suas lembranças desses pontos de pesca?]</b><br />
<b><br /></b><br />
Daqui da Barra me lembro de que quando saía para pescar em uma hora de pescaria voltava com a cesta cheia de peixes: de robalo, tainha e ticupá. Se fosse ao rio com dois, três metros de água, já estava com uma peixada, moqueca de robalo, de ticupá e de caramelo. Era muito peixe. Aqui de frente àquele prédio, que se chamava puleiro, se ia pescar com isca de camarão vivo, se colocava a vara de pescar na areia e se ferrava aqueles robalos de 800g ou de um quilo, ia lá e apanhava, era muita fartura de peixe. Camarão, quando se passava nas pontas da pinguela, de lá se via os camarões pitu passando. Tinha muito caranguejo e siri. Ainda tem caranguejo e siri, mas não como antigamente, hoje está tudo mudado e vai mudar mais para pior.</p>
<p><b>[Você tem alguma história que você gosta de contar?]</b><br />
<b><br /></b><br />
Têm várias com o Marcelo, meus tios e primos. Íamos pescar e matávamos caranhas de 30, 40kg, colocava no pau e trazia.</p>
<p>Uma vez nos fomos pescar eu, o tio do Marcelo e um tio meu que morreu. [&#8230;] Eram mais ou menos 17:00h, e matamos três caranhas grandes. O Luís pegou todas as iscas e jogou dentro d’água, quando viemos embora ele escorregou na pedra, e já era da noite, ele caiu, mas não largou o peixe [&#8230;]. Ele ficou todo ralado.</p>
<p>Aqui tem muita história. Mas não é história de pescador, são histórias mesmo. Eu e o Marcelo já matamos muito peixe grosso por aí.</p>
<p>Uma vez fui pescar com o Brega do restaurante e matamos uma raia de cento e poucos quilos, era em torno das 10h da noite. Ele disse a raia está grávida e quando ele abriu a barriga da raia ficou desesperado – O que nós fizemos? &nbsp;E começou a colocar os filhotes dentro d’água. Era um tempo bom e hoje só ficamos nas histórias e nas lembranças.</p>
<p><b>[Quais são os pontos positivos e negativos da vida de um pescador?]</b><br />
<b><br /></b><br />
O bom é quando vamos pescar e que encontramos o peixe, é uma maravilha. Vai-se na ansiedade de se matar um peixe e quando chega vende. Depois toma uma pinga ou uma cerveja. O ponto negativo é quando chega lá fora, não consegue pescar nada e volta com a caixa vazia e ainda ter que colocar a embarcação para cima. Aí ele coça a cabeça, olha para terra e diz: meu Deus do céu, o que eu vou fazer?</p>
<p>Agora, quando o pescador vai e trás a caixa cheia, pega o peixe e vende, no outro dia está com aquela ansiedade de ir pescar novamente. Antigamente, era assim. Hoje em dia o pescador, se não for passar dois três dias lá fora, quando ele volta é só decepção e tristeza. Ele vai mesmo para enganar em casa para dizer que está pescando.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[O que você mais aprendeu na vida de pescador?]</b><br />
<b><br /></b><br />
Só pelo fato de se estar no mar, é uma coisa fantástica. A natureza é perfeita. Você está ali parado e vê aquele cardume de peixe. Às vezes dá de cara com um cação grandão. Outras está pescando, trabalhando pra lá e pra cá, e embarca um badejo, uma pescada. São momentos que marcam pelo resto da vida, é muito bonito, só quem vai lá é que sabe. Agora, quando se pega uma rebordosa aí fora, umas tribuzonas, pede-se a Deus para se livrar dos pecados.</p>
<p><b>[O que são tribuzonas?]</b><br />
<b><br /></b><br />
Tribuzonas é tempo, são tempestades. Só peguei uma vez. A tribuzona aí fora é feia: fecha o tempo e o mar bate muito, só se ouve o rádio chamando, o telefone não pega e você naquele [&#8230;], não presta. A vida de pescador é muito ingrata, arriscada e não tem peixe. Antigamente era bom.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Até quando você pretende pescar?]</b><br />
<b><br /></b><br />
Eu não paro de pescar nunca, só quando eu morrer. O contato com a natureza é muito bom. Sempre estamos aprendendo alguma coisa e sempre somos surpreendidos com novas coisas. A gente pensa que sabe das coisas.</p>
<p>
[Entrevista exclusiva para o site Estação Capixaba. Reprodução autorizada pelo entrevistado.]</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2014&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
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<p></p>
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		<title>Entrevistado: Ezenildo da Vitória Gomes</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 17 Dec 2014 19:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Espírito Santo]]></category>
		<category><![CDATA[Folclore]]></category>
		<category><![CDATA[História Pessoal]]></category>
		<category><![CDATA[Pesca artesanal]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Entrevistado: Ezenildo da Vitória Gomes, Meloso Grupo ao qual pertence: Coqueiral de Itaparica, Vila Velha Entrevistador: Fernanda de Souza Data da entrevista: 13/03/2014 Local / data de nascimento: Vila Velha, 05/09/1971 Nome do pai: Ezequiel Gomes da Silva Nome da mãe: Rosalina da Vitória Gomes Casado, 4 filhos. —————————————————————– [Como foi sua infância e sua [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
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<p><b>Entrevistado: Ezenildo da Vitória Gomes, Meloso</b><br />
<b>Grupo ao qual pertence: Coqueiral de Itaparica, Vila Velha</b><br />
<b>Entrevistador: Fernanda de Souza</b><br />
<b>Data da entrevista: 13/03/2014</b></p>
<p>Local / data de nascimento: Vila Velha, 05/09/1971<br />
Nome do pai: Ezequiel Gomes da Silva<br />
Nome da mãe: Rosalina da Vitória Gomes<br />
Casado, 4 filhos.</p>
<p>—————————————————————–<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Como foi sua infância e sua adolescência?]</b></p>
<p>Na minha infância trabalhei muito, mas não era de pescador. Eu trabalhava vendendo picolé e ajudando meus pais na feira. Antigamente era muito difícil, mas hoje é mais fácil. Na adolescência a situação começou a melhorar um pouquinho, o progresso começou a chegar e melhorou bastante.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Você se lembra das brincadeiras?]</b></p>
<p>Nós fazíamos aqueles carrinhos de lata e brincávamos na rua, mas quase não tinha tempo de brincar.</p>
<p><b>[Quem fazia os carrinhos e com que tipo de material era feito?]</b></p>
<p>Nós mesmos, usávamos lata de óleo, umas latas quadradas, e as rodinhas nós fazíamos com a borracha das sandálias, que cortávamos e pregávamos com arame. Fazíamos também carrinhos de garrafa de Qboa, enchíamos de areia, passávamos o arame e íamos brincar na rua.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Com que idade você começou a trabalhar?]</b></p>
<p>Comecei a trabalhar com sete anos de idade. Trabalhava na feira ajudando os outros à noite. Durante o dia vendia picolé, também vendia cuscuz que minha mãe fazia, e às vezes fazia entrega de roupa que minha mãe lavava para fora.</p>
<p><b>[Com quantos anos você teve contato com a pesca?]</b></p>
<p>Quando tive contato com a pesca eu já estava com 22 anos. Antes eu trabalhava como eletricista. Quando comecei estava com 17 anos, trabalhei 9 anos como eletricista de baixa tensão, depois eu saí porque o patrão sumiu e nos deixou abandonado, eu saí também porque era muito concorrido. Às vezes eu pegava um servicinho de R$ 100,00 que valia R$ 150,0, chegava outro camarada com outro orçamento e pedia R$ 60,00, então fui desgostando. Depois disso fui trabalhar em material de construção. Comprei uma carroça e um burro e fui trabalhar em material de construção. Quando fizeram o asfalto de Santa Mônica os vizinhos começaram a achar ruim, por causa do animal que defecava na rua. Vendi a carroça e fiquei só trabalhando no material de construção. Quando o material de construção quebrou comprei um barquinho e outra carroça de sociedade com um rapaz.</p>
<p>Arrumei um barquinho e botei na praia. Durante a semana trabalhava de carroceiro e todo final de semana depois […] Em seguida tive que vender (o animal) pelo mesmo motivo, havia muita reclamação e não tinha pasto. Foi quando coloquei o barco na praia e comecei a sair para pescar e a pegar uns peixes, e foi assim que achei que era o certo para eu conseguir ter uma família e mantê-la com a pesca, mas agora estou quase desistindo porque está escasso. Tem muita poluição, muitas dragas tirando lama e jogando no local em que a gente pesca. Existem lugares que antigamente era pedra e hoje você não acha mais pedra, só acha lama podre. […] essas dragagens que eles fazem aí. Eu creio que seja isso.</p>
<p><b>[Você estudou?]</b></p>
<p>Estudei até a 4ª série.</p>
<p><b>[E como eletricista, você fez algum curso?]</b></p>
<p>Aprendi fazendo, com a mão na massa.</p>
<p><b>[Seus pais praticavam a pesca?]</b></p>
<p>Não, meu pai pescava no final de semana, por lazer. Quando eu era criança eu ia com ele. Nós pescávamos até no morro da Barra, íamos pescar baiacu. Acho que foi por isso que eu comecei a pescar. A minha mãe só trabalhava em casa e lavava roupa para fora.</p>
<p><b>[E quando você teve contato profissional com a pesca?]</b></p>
<p>Eu já estava com 22 anos.</p>
<p><b>[Quem te ensinou a pescar?]</b></p>
<p>Quem me ensinou a pescar foi um senhor de Itapuã chamado Mizinho, eu aprendi com ele.</p>
<p><b>[Você começou a pescar como ajudante? Como foi isso?]</b></p>
<p>Eu comecei como ajudante. Fui à praia ajudar o pessoal a puxar rede, ele [Mizinho] me deu um monte de peixes, no outro dia eu o ajudei a embarcar a rede. Nessa época eu vendia picolé. Nesse dia, eu tinha trabalhado a semana toda e no final de semana não tinha nada para fazer e fui para a praia para ver se arrumava um dinheirinho a mais. Quando eu terminei o picolé ele estava puxando a rede e eu fui ajudar. Ele chegou até a mim e disse: – O rapaz venha amanhã, vou colocar seu nome aqui porque na hora que for vender o peixe eu te dou um dinheiro.</p>
<p>No dia seguinte de manhã cedo fui lá de novo. Nós já tínhamos pegado peixe no sábado, no domingo voltei e ele me deu uns R$ 60,00 pela ajuda que eu dei. Aí todos os dias eu ia para lá. Às vezes não tinha nada para fazer durante o final de semana, eu ia. Já nem vendia mais picolé, ficava lá direto. Quando dava muito peixe ele me dava, até que chegou um dia e ele me perguntou: – Você não quer aprender a remar? – Ah! Quero. – Então, vamos comigo mirar uma rede. Eu fui com ele mirar rede, e fiquei pescando com ele por dez anos.</p>
<p><b>[Ele (Mizinho) pesca na praia de Itapuã?]</b></p>
<p>Ele sempre pescou na Praia de Itapuã, eu o conheci lá.</p>
<p><b>[E como você comprou seu barco?]</b></p>
<p>Aí eu achei que lá (em Itapuã), tinha muita gente, muita correria pra lá e pra cá, e como aqui tinha pouca gente eu resolvi vir para cá. Eu também queria ter uma rede de arrasto como ele, eu me espelhei nele. Ele […], mas é um pescador que entende da pesca. Comprei um barquinho e trouxe para cá. Aqui sou eu sozinho. Pego meu peixe na boa, não precisa de correria.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Há quanto tempo você veio para o ponto de Coqueiral de Itaparica?]</b></p>
<p>Aqui, têm uns onze anos que estou aqui.</p>
<p><b>[Como era aqui quando você chegou?]</b></p>
<p>Quando cheguei aqui já tinha alguns pescadores: Neném, Big Field, Mazinho, Cacau, o Zé Luiz que já faleceu. Já tinham uns oito pescadores aqui, eu já os conhecia.</p>
<p>Quando cheguei eu não tinha barco, tinha um velho, mas nem servia para pescar, tanto que eu pescava com um barco de um amigo. A mãe dele era minha madrinha. Ele fez um barco e deixou comigo e disse – no final de semana, quando eu quiser ir à ilha, você me leva, pode ficar com o barco.</p>
<p>Eu pescava todos os dias. Certo dia um sobrinho dele passou aqui e me viu com duas caixas de pescadinha na banca limpando e viu que eu estava com o barco dele (do amigo). Foi lá e contou para ele. No outro dia à noite ele veio e levou o barco embora. Foi quando pedi a minha irmã (Ciara) para me ajudar a comprar um barco para eu pagar depois. Ela me ajudou, e comprei uma batera, meu cunhado comprou umas redes de trasmalho junto comigo e fui pescando. Eles me ajudaram e me deram uma força, hoje, tenho três embarcações, graças a Deus, e tenho mais de 50 redes.</p>
<p><b>[As redes você compra ou você faz?]</b></p>
<p>Eu compro e monto, mas também sei fazer.</p>
<p><b>[E porque você prefere comprar?]</b></p>
<p>Porque geralmente a malha que a gente quer não tem para vender. Às vezes quero uma malha 100, uma malha grande e não tem, aí tem que fazer.</p>
<p><b>[E onde você compra?]</b></p>
<p>Geralmente eu compro na Casa Marlim, em Vila Velha.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Como era a pesca antigamente?]</b></p>
<p>Há cinco anos era muita fartura. Uma hora dessas a praia estava cheia de pescadores jogando rede de arrasto, pegando manjuba e sardinha, era muito mesmo. Agora, não tem mais nada, acabou tudo, nem se vê um peixe pulando.</p>
<p><b>[Quais eram os peixes que se pescava aqui antigamente?]</b></p>
<p>Antigamente de rede de arrasto se pegava muito galo, manjuba, sardinha, chicharro e às vezes vinha muito xaréu. Tem dez anos que não vejo um cardume de xaréu.</p>
<p><b>[E em quantidade, como era antigamente?]</b></p>
<p>Ah, Você não conseguia tirar a rede da água, tinha que tirar o peixe dentro d’água no puçá ou de redinha. Eram três, quatro toneladas numa só pancada.</p>
<p><b>[E hoje, como está a pesca?]</b></p>
<p>Hoje, quando aparece um cardume de peixe, pega-se uns 400kg de peixes perdidos. Às vezes vêm peixes misturados no meio de um cardume, isso não acontecia antes. Com sardinha vem galo, chicharro e espada no meio. Antigamente, o cardume era de um peixe só.</p>
<p><b>[Quais são os peixes que mais se pesca hoje?]</b></p>
<p>Hoje é a pescadinha que graças a Deus ainda não sumiu.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[A sardinha tem uma época definida ou é o ano todo?]</b></p>
<p>A sardinha dá o ano o todo, mas quando ela dá durante todo o ano nós não temos condições de pescá-la, porque ela dá lá fora e o mar fica bravo, aí não se consegue sair por causa das ondas. Agora quem pesca para o lado da prainha, porque lá tem píer, e o barco ancorado, eles têm como ir lá e pescar a pescadinha.</p>
<p><b>[Qual é a época da pescadinha aqui?]</b></p>
<p>Todo o verão, nos outros meses o mar fica bravo e não tem como sair.</p>
<p><b>[E o sururu?]</b></p>
<p>Também é no verão, porque passou do verão ele entra no defeso e nós não podemos pescar.</p>
<p><b>[Você também trabalha com sururu?]</b></p>
<p>Sim, também trabalho com sururu.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Como você define os dias que vai pescar e os dias que vai pegar sururu?]</b></p>
<p>O sururu é pela maré e pela lua, porque se a lua não estiver boa o sururu não está gordo, ou a maré está muito alta ou muito baixa. Sururu é lua. Peixe não, peixe tem que ir todo dia. Nós não sabemos o dia que vai dar peixe, então o pescador tem que estar lá todos os dias.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Atualmente, a pesca é a sua única fonte de renda?]</b></p>
<p>A minha única fonte de renda é a pesca, eu vivo da pesca.</p>
<p><b>[Como é a sua rotina como pescador?]</b></p>
<p>Geralmente, em acordo às 4h da manhã, tomo banho, faço café e saio. Chego à praia às 5h, pego meu material, coloco no barco e saio. Às 11h já estou em terra, isso quando vou pescar. Quando vou pegar sururu, quando a maré dá bem cedinho, às 8:30, 9h já estou em terra.</p>
<p><b>[Quando você volta do mar (na pesca), o que você faz quando chega em terra?]</b></p>
<p>A primeira coisa que eu faço é colocar o peixe na banca, limpar, pesar e colocar na sacola, embalar os peixes e guardar no freezer. Quando os clientes chegam já estão prontos. Às vezes, dependendo da quantidade de peixe, vende-se tudo na hora, aqui mesmo. Quando sobra levo para casa e guardo, no outro dia é a mesma coisa.</p>
<p><b>[E quando é com o sururu?]</b></p>
<p>Também é a mesma coisa: vai limpando e vendendo, se sobrar, levo para casa.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[A que horas você costuma voltar para casa?]</b></p>
<p>No verão sempre retorno à noite, depois da 0:00h, 0:20h. No inverno, às 12h, todo mundo já foi embora, o barracão fica ao Deus dará.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[E quando chega em casa, o que faz?]</b></p>
<p>Olho as crianças, tomo um banho e vou bater um rango, porque beira de praia dá muita fome.</p>
<p><b>[Que horário que você costuma ir dormir?]</b></p>
<p>Por volta das 20:30h, 0:20h já estou dormindo.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Tem algum dia que você não vem para a praia?]</b></p>
<p>Venho todos os dias, só não venho quando o mar está bravo e se não tiver rede para remendar. Quando o mar está bravo e chovendo fico aqui debaixo da tapagem, remendando uma rede para quando o mar amansar ir trabalhar.</p>
<p><b>[Você tem algum dia de folga ou alguma data especial?]</b></p>
<p>Não, é muito difícil. Geralmente eu fico mais em casa na semana da Paixão (Semana Santa), não gosto de pescar na sexta-feira da Paixão porque é dia de ficar em casa com a família, de ficar tranquilo.</p>
<p><b>[Com que sua esposa trabalha?]</b></p>
<p>Ela tem um salão de beleza.</p>
<p><b>[O que ela acha da sua rotina de trabalho?]</b></p>
<p>Ela acha que é perigoso. Eu já acho que é perigoso aqui em terra, no mar é uma paz. Ela reclama que fica sozinha com as crianças, mas não tem jeito tenho que ir trabalhar.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Ela já se interessou a vir trabalhar com você na pesca?]</b></p>
<p>Não.</p>
<p><b>[E seus filhos já tiveram algum contato com a pesca?]</b></p>
<p>Só meu filho de 12 anos, que de vez em quando ele vai comigo e quer pescar, mas tem que estudar. O que eu não fiz eu quero que ele faça: estudar.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Você o incentiva a seguir o caminho da pesca?]</b></p>
<p>Se não fosse essa pesca predatória que está acabando com tudo, com essas dragagens estourando pedras no fundo do mar e acabando com os peixes, eu o incentivaria, mas do jeito que está é difícil sobreviver da pesca. Ninguém ajuda ninguém, só querem tirar para eles. Só quem tem vantagens aí fora são esses barcos pesqueiros grandes, nós, com nossos barquinhos pequenos, não estamos aí fora porque não temos uma carteira de arrasto […] Se a gente for ali pertinho eles querem nos rebocar e não nos deixam pescar. Esses barcos não. Vão ali, areiam a traineira e pegam toneladas de peixes fora da época de pescar. Para eles não dá nada, só dá para nós que somos pequenos.</p>
<p><b>[Quais são seus instrumentos de pesca?]</b></p>
<p>Geralmente eu pesco com rede de linha de fundo, transmalho de fundo, trasmalho boieiro e de caída.</p>
<p><b>[Como é o processo de pesca da linha de fundo?]</b></p>
<p>A linha é um triângulo com dois anzóis: a gente arreia e ela bate no fundo e se puxa no braço, e o peixe tem que beliscar ali. É um triângulo com dois anzóis, a linha de cima que se puxa e a de baixo tem duas linhas com dois anzóis, com o chumbo. A gente sente o peixe beliscar. Às vezes, eu pesco com três, um de cada lado, e um com a boia atrás, uma tona, como se chama.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Que tipo de peixe se pega com esse instrumento?]</b></p>
<p>Com esse instrumento se pega qualquer peixe que estiver no fundo, pescada ou pescadinha. Às vezes, quando se pesca na beira de pedra, pode-se pegar um badejo ou uma garoupinha, mas é muito difícil, porque aqui nessa região não existe mais badejo nem garoupa.</p>
<p><b>[Como é o trasmalho de fundo?]</b></p>
<p>Trasmalho de fundo ou rede de espera ele tem mais chumbo e menos boia. Você vai jogando e ele vai para o fundo. Todos os dias pela manhã nós vamos lá e o levantamos, em dois, um pega no chumbo e outro pega na boia. Coloca-se uma garateia dentro da batera, que é a vigia, para marcar, é uma âncora com uma corda e com uma boia em cima. Coloca-se dentro do barco, vai mirando, tirando peixe e colocando a rede dentro do barco. No fim, quando termina a rede, tem a outra garateia com outra boia. Aí pega, joga a garateia com a boia dentro d’água, coloca a rede no mesmo lugar e vem embora.</p>
<p><b>[E o trasmalho boieiro?]</b></p>
<p>O trasmalho boieiro também é uma rede de espera. Tem mais boia e menos chumbo. As boias ficam submersas. Quando se chega para mirar, se pega no chumbo e vai mirando de cima do barco. Não precisa colocar dentro do barco, fica fixo dentro d’água.</p>
<p><b>[E o arrastão?]</b></p>
<p>O arrastão é uma rede de cercar cardume. Geralmente têm que ter no mínimo uns dez homens para começar. O cardume de peixe vem e nós saímos com o barco, jogamos a corda na beira da praia, saímos com o barco, vemos a posição do peixe e mandamos o pessoal ir puxando a corda. Arreia-se o galão e vai-se remando e jogando a rede. &nbsp;Vai-se cercando o peixe. Depois que cercou, colocam-se dois ou três experientes de um lado e de outro para ir controlando a rede, porque ela tem que ir certinha, senão ela atravessa, agarra ou o peixe passa, vem controlando até chegar à beira da praia. Quando chega à beira da praia, se tiver muito peixe, aqueles mais experientes é que trabalham o peixe, senão perde tudo, o mar toma tudo, o que o mar deu ele toma.</p>
<p>Geralmente o peixe é mansinho, mas quando chega à beira da praia fica bravo: começa a crescer onda e é a hora que tem que saber trabalhar direitinho para não deixar o mar furioso. Tem que trabalhar certo e respeitar.</p>
<p><b>[Como você sabe se o cardume está passando?]</b></p>
<p>Quando é manjuba ela faz um roxo e a água fica diferente, faz um roxo e vem pulando, piscando, ela vem mostrando o rabinho. Quando é chicharro ela entra no meio da comidinha e faz aquele escarcéu dentro d’água. O galo também vem fazendo escarcéu, pulando e virando. É fácil definir o peixe.</p>
<p><b>[A rede de arrasto só é utilizada quando vocês estão em terra?]</b></p>
<p>Só quando estamos em terra. Se avistar o cardume, larga tudo e corre para cima dele, é assim que funciona. Geralmente nem dá tempo de entrar na água, às vezes aparecem e somem logo. Às vezes, quando ele fica aparecendo e sumindo nós saímos com o barco e ficamos boiados, ficamos procurando a posição. Muitas vezes eles boiam muito perto e não dá condições de cercar, aí, tem que esperar eles boiarem de novo. Isso acontece muito onde tem comidinha, que são uns peixinhos pequeninhos que gostam de comer.</p>
<p><b>[Depois que você compra a rede o que tem que fazer?]</b></p>
<p>O trasmalho compra-se o pano da malha que se quer, compra-se as cordas, o chumbo, as boias e o nylon de entralha e agulha. Aí se começa a montar a rede. Eu começo pela boia e faço o chumbo. Compram-se só as malhas.</p>
<p><b>[E o que tem que fazer?]</b></p>
<p>Enche-se a agulha com nylon e faz-se uma paletinha. Para se fazer uma boa rede e bem definida tem que ter medida para não ficar torta. A mesma medida que tem na entrada da boia tem que ter no chumbo, senão ela fica torta no fundo e não caça, tem que ficar na medida certinha, por isso, tem que fazer a paletinha para fazer a medida.</p>
<p><b>[Quanto tempo dura uma rede?]</b></p>
<p>Se a pessoa tiver cuidado, a pessoa morre e ela fica aí.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Tem diferença do jeito de preparar a rede de fundo da rede de arrasto?]</b></p>
<p>Geralmente a rede de fundo, o entralho dela é igual. Já a rede de arrasto é diferente. O ponto é diferente. Na rede de fundo, como é muito pequena, eu gosto de entralhar três por três para crescer mais o entralho e para fazer mais rápido. A rede de fundo com a malha maior eu gosto de entralhar de duas em duas, porque a malha já é grande e tem que terminar rápido.</p>
<p><b>[O que é entralhar?]</b></p>
<p>É pegar e fazer as […] para montar a rede, para a rede ficar agarrada na corda. Geralmente estica-se a corda e de acordo como a corda está esticando, a rede vai ficar.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Há quanto tempo você pesca nesse ponto da praia de Itaparica?]</b></p>
<p>Há onze anos. Antes, eu pescava em Itapuã, onde pesquei por dez anos.</p>
<p><b>[Até quando você pretende pescar?]</b></p>
<p>Até quando papai do céu achar que eu devo. Se eu conseguir me aposentar, vou me aposentar e continuar pescando. Enquanto meus braços aguentarem puxar cordas de redes, vou continuar pescando.</p>
<p><b>[Por que você pesca?]</b></p>
<p>Eu gosto de pescar, mas também tem o lado financeiro. Eu pesco porque eu gosto.</p>
<p><b>[Se você tivesse uma proposta para ter o mesmo rendimento financeiro que você tem com a pesca você largaria a pesca?]</b></p>
<p>Não, não consigo viver sem a pesca, já estou acostumado. Aqui, na mesma hora que você está trabalhando, você está se divertindo junto com a natureza.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Fale das suas lembranças do ponto de Coqueiral de Itaparica e da praia de Itapuã]</b></p>
<p>O que me lembro é da grande quantidade de cardumes que davam. Era muito cardume de manjuba. Hoje não se vê um cardume, isso dá muita tristeza. Tenho uma rede que está parada há dois anos, que não coloco para cercar um cardume de peixe. Geralmente, quando aparece cardume de peixe, aparece assombrado, dá e some, não aparece mais. A boa lembrança é dos peixes, que sumiram. Ruim é que não tem mais peixes.</p>
<p><b>[Qual a sua memória, o que você leva da sua experiência de pescador?]</b></p>
<p>O que eu aprendi de mais importante na pesca foi remendar rede, porque eu gosto. Mas eu não quero que meus filhos trabalhem de pescadores, é uma vida sofrida, mas é boa, eu gosto. Gosto de acordar cedo.</p>
<p><b>[O que a pesca te ensinou?]</b></p>
<p>As pessoas serem humildes. Tem muitos que não são. Às vezes você pega um peixinho e se você não mata o peixe o outro camarada fica rindo de você. Se você chega com o peixe, ficam de cara fechada. Eu sou diferente: se eu vir o camarada com uma caixa de peixe, se eu puder eu vou ajudar a limpar o peixe dele e, se precisar, até vendo, eu sou humilde com todo mundo.</p>
<p>Se eu estivesse trabalhando lá fora eu não seria a pessoa que sou. Hoje sou tranquilo. Quando eu pego para remendar uma rede, fico até de noite, até terminar. No outro dia pego outra. Gosto de ver a rede pronta e tudo certinho.</p>
<p>
[Entrevista exclusiva para o site Estação Capixaba. Reprodução autorizada pelo entrevistado.]</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2014&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
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<p></p>
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<a href="http://4.bp.blogspot.com/-IxQGKzLCfko/VnLoaxyHMVI/AAAAAAAAAPc/B-eyl7DCTTc/s1600/todas.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="121" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2014/12/todas-5.jpg" class="wp-image-6908" width="400" /></a></div>
<p></p>
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		<title>Entrevistado: Damião Miranda Ferreira</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 17 Dec 2014 18:49:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Espírito Santo]]></category>
		<category><![CDATA[Folclore]]></category>
		<category><![CDATA[História Pessoal]]></category>
		<category><![CDATA[Pesca artesanal]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Entrevistado: Damião Miranda Ferreira Grupo ao qual pertence: Praia de Itapoã Entrevistador: Maria Clara Medeiros Santos Neves Data da entrevista: 03/10/2013 Local / data de nascimento: Vila Velha, Itapuã, 27/09/1959 Nome do pai: Alarico, pescador Nome da mãe: Maria Miranda, artesã de redes Casado, 5 filhos. ———————————————————————————— [O senhor pode identificar o grupo a qual [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="http://4.bp.blogspot.com/-lx0vR-Dnqq0/VnMCjHPunNI/AAAAAAAAAQ8/hiqVSw9QEPs/s1600/DMF_15.10.2013%2B%252829%2529.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="480" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2014/12/DMF_15.10.20132B2528292529.jpg" class="wp-image-6910" width="640" /></a></div>
<p><b>Entrevistado: Damião Miranda Ferreira</b><br />
<b>Grupo ao qual pertence: Praia de Itapoã</b><br />
<b>Entrevistador: Maria Clara Medeiros Santos Neves</b><br />
<b>Data da entrevista: 03/10/2013</b></p>
<p>Local / data de nascimento: Vila Velha, Itapuã, 27/09/1959<br />
Nome do pai: Alarico, pescador<br />
Nome da mãe: Maria Miranda, artesã de redes<br />
Casado, 5 filhos.</p>
<p>————————————————————————————<br />
<b><br /></b><br />
<b>[O senhor pode identificar o grupo a qual o senhor pertence?]</b></p>
<p>O grupo de pesca aqui é os amigos mesmo de Itapuã mesmo, aqui nós somos cada um pra si, nós não temos grupo unido. Cada um trabalha com quem quer, quando não quer vai sozinho.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[O senhor se lembra dos seus avós?]</b></p>
<p>Minha avó Tereza nasceu e faleceu aqui em Itapuã com 101 anos, era pescadora e fazia rede, assim como minha mãe. Não tenho lembrança do que o meu avô fazia, porque quando ele morreu eu era muita criancinha, não cheguei a guardar o que ele fazia.</p>
<p><b>[Conte um pouco da história dos seus avós paternos e de seus pais.]</b></p>
<p>Não cheguei a conhecer meus avós paternos, mas trabalhavam na área de pesca, porque é de pai para filho. O mesmo ramo que eles tinham já vai ficando os filhos. Só hoje em dia que as coisas estão mais difíceis. Pescador que tem filho hoje em dia já não quer que os filhos tenham uma profissão dessas, porque não está dando futuro nenhum. Então, estão estudando para arrumar outro serviço fora porque, pesca aqui, já deu. Antigamente, dava muita coisa aqui, agora não dá mais. Depois que colocaram uma traineira aí fora, é balão ocupando a vida dos pobres aqui, não tem condições de mais nada aqui.</p>
<p>Me recordo um pouquinho do meu pai, ainda está vivo com oitenta e poucos anos. Esta em cima da cama adoentado, mas ainda está vivo, graças a Deus. Ele era pescador, quando não dava pescado apanhava papel pela rua e latinha. Aí bateu a doença nele devido à idade já bastante pesada, caiu de cama e quando caiu, caiu de vez, até hoje não levantou ainda, já têm uns dois anos.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[E de seus avós da parte de mãe, o senhor lembra?]</b></p>
<p>Também não me lembro dos meus avós de parte de mãe. Da minha avó Tereza, me lembro pouco, não me recordo do sobrenome. Ela trabalhou muito em roça também naquela época, depois é que ela veio para a praia e começou a fazer rede, apanhava lenha no mato, porque naquela época não tinha gás, não tinha nada, o fogão era de lenha. Ela perdeu uma vista, furou uma vista fazendo lenha, ficou com uma vista só e foi indo Deus levou embora.</p>
<p><b>[A sua mãe e sua avó participaram de alguma forma da pesca? O que elas faziam?]</b></p>
<p>Demais. Elas faziam redes para os pescadores, teciam por braça. Hoje em dia é tudo no metro. Antigamente era por braça, era R$0,50, R$0,30 uma braça de rede e o pescador fazia 15, 20 braças de rede para arrumar dinheiro para botar o que de comer dentro de casa, porque as coisas eram muito difíceis. Enquanto os maridos estavam no mar, elas estavam fazendo rede na praia.</p>
<p><b>[O senhor faz redes?]</b></p>
<p>Eu faço rede como minha avó fazia. Eu aprendi com ela.</p>
<p><b>[Aqui na praia o senhor conhece outros pescadores que fazem rede como o senhor?]</b></p>
<p>Conheço demais. A maior parte dos pescadores todos eles sabem fazer rede.</p>
<p><b>[Vocês hoje compram as redes?]</b></p>
<p>A gente compra pronta porque é mais fácil comprar pronto do que fazer, porque gasta muito tempo para construir uma rede. Hoje em dia a gente constrói uma rede de dois, três meses, coloca na água vem um barco e rouba, o baloeiro vem corta, e deixa ir embora e a gente compra uma rede pronta que não é do jeito que a gente gosta, mas sai mais barato para a gente e é mais vantagem.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Na sua família tem tios ou tias que fazem redes?]</b></p>
<p>Já faleceram todos. Mas eles faziam. Eu tinha uma tia, que era Serafina, e outra, Eugênia, elas faziam. Os pescadores daqui antigamente só viviam da pesca mesmo, mas já morreram quase todos. Poucos pescadores têm aqui hoje em dia.</p>
<p><b>[Toda a sua família é daqui de Itapuã ou vieram de fora?]</b></p>
<p>Toda daqui. Meus avós, irmãos e irmãs. Moramos quase todos colados um com o outro, todos juntos e unidos.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Alguém da sua família faz barco?]</b></p>
<p>Não. Barco não.</p>
<p><b>[E a culinária, comida com frutos-do-mar, quem faz?]</b></p>
<p>A culinária só dá para o gasto mesmo. Às vezes se quer uma coisa diferente, vai na ilha e tira para dentro de casa mesmo, para o uso. Minha esposa faz, minha mãe sabe fazer e filhas sabem fazer também.</p>
<p><b>[E os pratos?]</b></p>
<p>Normalmente fazem moqueca de sururu, tinha o burdigão que tirava do mangue, ensopadinho.</p>
<p>O sururu hoje em dia não pode nem tirar, tem os meses certos de tirar. Nem sei explicar qual o mês. Nós recebemos um “defeso” sobre o sururu. Todo ano nós recebemos o defeso, são quatro meses, e esse defeso é para a gente não tirar o sururu mesmo. Não pode ir à ilha para tirar o sururu.</p>
<p><b>[Qual a sua rotina, a que horas acorda e o que faz?]</b></p>
<p>Eu acordo 4h da manhã, 3h da manhã, e o que eu faço é olhar logo o mar para ver se dá para ir para dentro da água. Todo dia é dia de ir para o mar, depende de o tempo estar bom.</p>
<p><b>[Em que condições o tempo está bom?]</b></p>
<p>O que nos atrapalha é só quando bate muita frente fria. Às vezes o mar fica agitado e não dá para sair com o barquinho. Mas demais, se o mar não tiver onda e o vento estiver fraco, a gente sai de mar adentro.</p>
<p><b>[Como foi sua infância?]</b></p>
<p>A minha infância foi toda vida de pesca. Eu vivia pela praia, jogando tarrafa, pescando na beira da areia, pescando berezinho, sozinho e Deus, pescando peixinho nas beiradas. Pegando uma idade mais ou menos, meu pai foi me levando para o mar. Às vezes batia o barco enchia de água. Eles me davam conselho para eu não ir com meu pai, que meu pai ia me matar, mas a pessoa pequena é teimosa e eu ia. E graças a Deus hoje a minha profissão é essa aí.</p>
<p><b>[E as brincadeiras, tinha algum jogo?]</b></p>
<p>Nós jogávamos bola. Quando batia dia de domingo nós íamos todos para o campo jogar bola. Às vezes viajámos, entravámos num ônibus e saíamos para o Morro do Carneiro, para Goiabeiras, esses cantões aí, para o lado de Cariacica, pra jogar bola. Eu tinha uma base de uns 23, 24 anos por aí. Depois me machuquei e parei porque minha perna não dava para correr mais, essa que tenho doente aqui. Até hoje eu sinto saudades. A minha diversão era essa, bola. Chegava do mar, dia de domingo mesmo já estavam esperando, naquela época eles diziam que eu era o melhorzinho que tinha para jogar bola, e eles me esperavam, ai machuquei a perna, pronto! Nunca mais. A nossa diversão era a bola. Não tinha outra diversão.</p>
<p><b>[E a escola?]</b></p>
<p>Eu nunca fui à escola. A vez que eu fui à escola, o diretor da escola morreu e eu vim embora e não voltei mais. Eu nunca estudei, não fui alfabetizado não sei ler nem escrever.</p>
<p><b>[A rotina familiar]</b></p>
<p>É boa, todo mundo unido. Quando tem de comer todos comem, quando não tem, ninguém come, e vamos levando a vida desse jeito.</p>
<p><b>[Como é sua rotina de segunda a domingo em casa?]</b></p>
<p>Não fico muito em casa, é muito difícil. Venho sempre para a praia, meu lugar é aqui na praia.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[O senhor faz o quê na praia?]</b></p>
<p>Vou pescar, mirar a rede, pescar de linha, com três anzóis, linha de fundo com três anzóis. A gente compra sardinha aí na praia. Às vezes compramos uns 2kg de sardinha e levamos para fazer isca, e às vezes a gente mata 10kg, 15kg de peixe. Às vezes mata 1k, às vezes não mata nada, é essa a vida de pescador.</p>
<p><b>[O que é mirar rede?]</b></p>
<p>Mirar rede de fundo é recolher a rede para ver se tem peixe pegado nela, é rede de fundo, de espera. Saio de casa 4h, e até ajeitar saio daqui umas 5h. Se eu estou com a rede pertinho, às 8h estou em terra. Depois que chego em terra pego uma rede pra consertar, porque sou eu mesmo que conserto, e vou fazendo hora, até mais tarde por volta das 16, 17h, voltar no mar para recolher as redes de novo e ver se tem peixe agarrado.</p>
<p>Quando pego peixe vendo pro consumidor daqui mesmo, na banca. Porque não tem quantidade mais para vender para o mercado e o pouco que tem a gente vende aqui mesmo.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Como funciona a venda, até que horas? Quem vende?]</b></p>
<p>Quando tem peixe a venda é o dia todo. Às vezes eu vendo, às vezes coloco um filho ou filha para vender. Minha cunhada também mexe com pesca, eu deixo com ela vendendo.</p>
<p>Quando não estou aqui na venda, estou consertado rede. No mar vou duas vezes, de manhã cedo e à tarde. Ademais eu fico consertando rede. Quando não dá pra eu ir pescar de anzol, porque quando tem peixe, mais ou menos às 8h, a gente pega o barco e corre para o mar para pescar de novo e vem de lá 13, 14h, mas quando está ruim não perde tempo, fica acertando as redes que estão guardadas.</p>
<p><b>[E o arrastão?]</b></p>
<p>O arrastão só lá pro mês de janeiro mais ou menos, para colocar arrastão, se vier peixe para cá, porque está muito difícil. Está muito difícil peixe para cá, com esse monte de traineiras atrapalhando a gente aí, está muito ruim.</p>
<p><b>[Além da pesca faz alguma outra atividade para aumentar a renda?]</b></p>
<p>Não. A minha única fonte de renda é a pesca. Quando não dá pescado, fico em casa dormindo.</p>
<p><b>[Como é feito o arrastão? Tem algum horário certo?]</b></p>
<p>Não tem hora. Toda hora, o dia todo, quando tem peixe. Quando tinha, porque agora não tem mais para isso. Desde o ano passado ninguém botou arrastão ainda, porque não veio um cardume de peixe mais.</p>
<p><b>[No grupo existe alguma função específica para cada um? Por exemplo, alguém pega o barco, coloca a rede de espera, ninguém trabalha com o senhor?]</b></p>
<p>Não, é cada um para si. Cada pescador, o que pode, o que é mais ou menos, tem suas armadilhas, que compra, ou então ele trabalha sozinho, às vezes com um filho dele, com um companheiro dele. A gente não bota na mão de outro porque é muito difícil, porque o outro não vai ter o mesmo cuidado de trabalhar com o objeto da gente. A gente mesmo botando de vez em quando já perde, mas sendo dono não tem problema nenhum.</p>
<p><b>[Com que idade o senhor começou a trabalhar na pesca?]</b></p>
<p>Eu comecei a trabalhar na pesca com 15 anos de idade. Eu já pescava com meu pai, ia para o mar com o meu pai. Eu pratico todos os tipos de pesca, de vara de anzol, a de espera, e a de rede de arrastro. São essas as formas de pesca.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[E outros pescados?]</b></p>
<p>Eu não trabalho. Só trabalho com sururu quando é época que pode tirar. Outros mariscos, não. &nbsp;O caranguejo eles trazem lá da Bahia para vender aqui.</p>
<p><b>[Descreva o processo de pesca de anzol.]</b></p>
<p>A gente pesca lá fora no mar com um barco desses aí, nós botamos só duas linhas, Às vezes com três anzóis, com dois anzóis, pega um peixe em um, outro peixe em outro. Não é em quantidade, é um em um, às vezes por sorte vem dois. Se a gente começar a pescar umas 7h, às vezes lá pelas 12, 13h a gente está com 20kg de peixe, às vezes 25kg, quando está boa a pesca. E ademais, a gente fica com os anzóis no fundo do mar que não acha nem um peixe para comer a isca e a gente tem que vir embora.</p>
<p><b>[Como é feita a pesca de espera?]</b></p>
<p>A espera a gente coloca ela lá e não tem horário para colocar, coloca e deixa armada. Se colocar hoje, amanhã vai lá recolher de manhã cedo. Se tiver peixe agarrado a gente tira aquele peixe, arma de novo e à tarde volta para ver se malhou mais algum.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Como é que é arrumar essa rede de espera?]</b></p>
<p>As redes de espera são umas redes de trinta metros cada uma, a gente às vezes emenda quatro, cinco redes uma na outra e botamos lá no meio do mar e deixamos. Botamos duas boias pra ver onde ficou, pra marcar o lugar dela, e deixamos lá. Quando não passa um peixe grande que carrega ou passa um barco que carrega também ela fica lá pescando, procurando peixe pra gente. Ela é fixada nas âncoras. Ela tem as âncoras para aguentar ela. Onde coloca ela fica ali mesmo, no mesmo local. Dependendo do peixe, se tiver bom mesmo, ela fica lá até semanas. Depois tira porque ela suja muito e já vai enfraquecendo o nylon, a linha dela. A gente tem que tirar lavar direitinho, para depois colocar de novo.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Descreva o arrastão]</b></p>
<p>O arrastão é uma coisa muito rápida. Às vezes a gente está sentado na praia, olhando pro mar, olhando pra maré, aí aparece um cardume. Daqui a gente vê o cardume e às vezes vem uma mancha em cima d’água, e a gente conhece o peixe. Às vezes ele vem pulando fora d’água. A gente sai com o arrastão e faz o cerco, aí junta uma turma. O pessoal aparece de uma hora pra outa. Às vezes ficam cinco de um lado, cinco de outro e vai puxando a rede, e o pescado vem dentro. Têm vezes de apanhar 500kg, às vezes 200kg, 100kg, tem vezes que apanha até mais do que isso. Mas tudo quando dava peixe, às vezes apanhava mais de 1.000, 2.000kg de peixe aí. Mas hoje em dia está muito difícil, não está dando mais nada.</p>
<p>Quando apanhamos muito peixe aqui nós temos o telefone lá do mercado da Vila Rubim, que vem com o baú e carrega o peixe pra lá. Faz o preço e vende pra eles. Vende pra eles pra pagarem daqui a um mês, às vezes dois meses, é o pescado que nós vendemos para eles lá.</p>
<p><b>[Descreva o arrastão. Quantos vão no barco?]</b></p>
<p>Comigo, só um mais. Somos em dois que saímos no barco, um rema e outro joga a rede.</p>
<p><b>[Como é jogar a rede?]</b></p>
<p>Jogar a rede é jogar a rede fora do barco espalhando. &nbsp;Às vezes o cardume está em uma boa posição, o cara vai remando e outro vai espalhando a rede e vai sair certinho, tem a prática. Depois puxa para a terra, o barco chega e o pessoal puxa para a praia com as cordas para puxar a rede.</p>
<p><b>[Quem ajuda na puxada?]</b></p>
<p>Os que ajudam na puxada na praia são amigos nossos de Itapuã, às vezes têm muitos de fora. Às vezes a gente agrada uns conhecidos aqui da praia com dinheiro, na hora que recebe o pescado, e os de fora a gente agrada dando um peixe para levar pela ajuda. Às vezes nós pagamos, dependendo do peixe que pega. Se pegar 5ookg de peixe e der R$1.000 – dá mais, mas vamos botar R$1.000 – R$500 pra o dono da rede e R$ 500 pra dividir com 20, 30 pessoas que ajudaram a puxar o peixe.</p>
<p><b>[Calendário da pesca.]</b></p>
<p>Em janeiro e fevereiro dá muita sardinha, pescadinha. A sardinha é de rede de arrastro e a pescadinha é de anzol. Lá fora e é a época que dá muito, esperamos dar, porque está meio ruim também.</p>
<p>O baiacu é mês de agosto, setembro, mas não deu, deu muito pouco. Setembro é época de espada, também não deu espada. Está ruim!</p>
<p><b>[e o camarão?].</b></p>
<p>Aqui nós não temos rede para pescar camarão. Camarão os barcos vem da Praia do Suá, prainha de Vila Velha, prainha da Glória vem pescar camarão aqui na nossa área, é quando eles rasgam as nossas redes aqui. Às vezes tem uma rede no caminho, pegam o camarão passam e rasgam tudo e pronto.</p>
<p><b>[e o chicharro?]</b></p>
<p>O chicharro é nessa época também, já era para estar dando, época de setembro era para estar dando, o peixe galo, mas não está dando nada. O peroá sumiu, tem mais de 10 anos que parou de dar peroá aqui. O foco dela era em Guarapari, mas Guarapari usava puçá para pescar, não usavam anzol, e pegavam as grandes, as pequenas e acabaram com tudo, acabou lá, aqui também faltou. E não está arrumando peroá aqui nem para remédio.</p>
<p><b>[A que horas o senhor sai da praia?]</b></p>
<p>Depois do almoço eu tiro um cochilo em minha casa, tiro um cochilo na beira da televisão. Às 14h me levanto e venho cuidar das minhas redes. Vou dormir lá pelas 9, 10h da noite, vou descansar pensando no dia de amanhã para sair de novo. É a vida!</p>
<p><b>[Onde compra os materiais que o senhor usa na pesca?]</b></p>
<p>Eu compro em Vila Velha, próximo da pracinha de Vila Velha, em uma casa de material de pesca que tem ali. E ademais quando vou a Vitória, compro um pano de rede mais em conta, porque lá é mais fácil, a casa lá é grande e tem tudo o que a gente quer o que é preciso. Agora fica em Campo Grande, era em Vitória e mudou para lá. Era na Enseada do Suá. Todo o tipo de material de pesca a gente compra lá.</p>
<p><b>[Quantos são os tipos de rede?]</b></p>
<p>Tem dois tipos de rede pesca. Uma é a rede boieira e a outra é a rede de fundo. A rede boieira ela pesca boiada, a gente bota as varas e ela fica boiada em cima d’água. A de fundo ela desce pro fundo, ela pesca só no fundo, às vezes ela tem 3 metros, 4 metros e pode botar num local de 30 metros de fundura, ela vai pescar lá em baixo, pega o peixe que passa no fundo mesmo.</p>
<p><b>[e como se retira?]</b></p>
<p>Para tirar a gente recolhe ela todinha dentro do barco pra depois colocar de novo, tira o peixe e depois coloca de novo. Pra colocar no fundo a gente coloca duas âncoras em cada ponta e vai remando e vai arriando ela, quando chega no final, arreia a outra âncora e pronto, deixa ela lá. Essa também é uma pesca de espera, que tem duas modalidades, a de fundo e a boieira.</p>
<p>Tem outra boieira que é de arrastro, aqui da beirada. Essa a gente só usa quando é muita quantidade de peixe, porque às vezes os cardumes chegam na beirada. Às vezes tem cardume que faz 500kg, às vezes 1.000kg, 200kg. Elas aguentam até 3.000kg de peixe. Elas têm 600m de extensão.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Onde o senhor compra os seus barcos?]</b></p>
<p>Meus barcos eu já comprei todos usados. Ainda não consegui comprar um novo no estaleiro. Tem estaleiro perto, na beira da penitenciária na Glória, na Vila Batista tem outro estaleiro grande, mas os meus há muitos anos que eu comprei, já usados. De vez em quando fura, boto pra consertar, salta um prego, mando um cara vir pregar, e vou aguentando eles até hoje, remendando eles até hoje.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[E sobre os ventos e marés ao longo do ano?]</b></p>
<p>Maré forte para nós aqui, que a gente respeita mais, é a maré de março. Antigamente, ela costumava bater no meio da rua aí, é a maré mais brava para nós aqui e os ventos, as frentes frias, só no inverno mesmo. Vai chegando o verão, aquele vento de rapidez , bate, acalma uma hora tá bonito, outra hora tá feio.</p>
<p><b>[O senhor sabe de algum pescador que tenha morrido no mar?]</b></p>
<p>Minha mãe conta que um tio meu morreu no mar e que nunca foi encontrado. Tem o parente de um rapaz aqui que foi para o mar. Era para eu ir. Pegaram um tempo ruim lá fora, o barco sumiu. Outro barco de fora achou os três companheiros dele. Eles estavam em quatro, acharam três. O outro até hoje não foi encontrado. Isso tem uns três ou quatro anos.</p>
<p><b>[Como é feita a preparação das redes?]</b></p>
<p>A gente compra as partes da rede, compra as tiras de rede. A gente compra as tiras de rede, às vezes tem três metros de largura cada uma. &nbsp;Às vezes quatro metros, 5 metros de comprimento, e aí vai emendando uma na outra para fazer a rede. Compra as boias, o chumbo, os cabos. Isso a gente mesmo sabe montar. O difícil é fazer, se a malha é menor gasta muito tempo para fazer e como hoje em dia tem tudo pronto, a gente mais compra pronto do que faz.</p>
<p><b>[Quantos barcos o senhor tem?]</b></p>
<p>Eu tenho dois barcos a remo, que se chamam bateras, e vai fazer uns oito a dez anos que eu tenho. Uma se chama África do Sul e a outra que está com a rede ali, é Graziela.</p>
<p>O Clarissa nós vendemos há muito tempo. Vendemos porque não serviu muito pra nós, pra eu pescar, e vendemos, e esse é da minha filha, da Josi.</p>
<p>
[Entrevista exclusiva para o site Estação Capixaba. Reprodução autorizada pelo entrevistado.]</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2014&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
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<a href="http://4.bp.blogspot.com/-IxQGKzLCfko/VnLoaxyHMVI/AAAAAAAAAPc/B-eyl7DCTTc/s1600/todas.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="121" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2014/12/todas-6.jpg" class="wp-image-6911" width="400" /></a></div>
<p></p>
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		<title>Entrevistado: Clarícia dos Santos</title>
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		<pubDate>Wed, 17 Dec 2014 18:39:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Espírito Santo]]></category>
		<category><![CDATA[Folclore]]></category>
		<category><![CDATA[História Pessoal]]></category>
		<category><![CDATA[Pesca artesanal]]></category>
		<category><![CDATA[Vila Velha]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Entrevistado: Clarícia dos Santos Entrevistador: Maria Clara Medeiros Santos Neves Data da entrevista: 15/10/2013 Local / data de nascimento: em Linhares, 1960. Nome do pai: José Luiz Ferreira dos Santos, nascido em Linhares, ES. Nome da mãe: Carmosina Ferreira dos Santos, nascida em Linhares, ES. Do lar, casada com Damião Miranda, pescador. ——————————————————————————————— Meus pais [&#8230;]</p>
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<p><b>Entrevistado: Clarícia dos Santos</b><br />
<b>Entrevistador: Maria Clara Medeiros Santos Neves</b><br />
<b>Data da entrevista: 15/10/2013</b></p>
<p>Local / data de nascimento: em Linhares, 1960.<br />
Nome do pai: José Luiz Ferreira dos Santos, nascido em Linhares, ES.<br />
Nome da mãe: Carmosina Ferreira dos Santos, nascida em Linhares, ES.<br />
Do lar, casada com Damião Miranda, pescador.</p>
<p>———————————————————————————————</p>
<p>Meus pais nasceram e foram criados em Linhares e quando aqui chegaram não tinha água nem luz. Saíam daqui e iam lá em Vila Velha buscar vela para queimar à noite, ou querosene. A água, ele [pai] trazia naqueles barris de rolo, botava o vergalhão e ali ele puxava e trazia água para repartir com todo mundo aqui na praia e cada pouquinho que ele dava para todo mundo, ele ficava satisfeito. Depois ele foi trabalhar em uma fábrica de gelo e nessa fábrica de gelo ele trabalhava com muito gelo e, quando ele saía, pegava muita quentura. Ele apanhou um resfriado e faleceu. Deu derrame três vezes e na quarta vez ele partiu.</p>
<p>Uma coisa que me lembro é que quando nós chegamos, não sei em que ano, nós éramos pequenos, foi o pai do Damião que cedeu um barraquinho para nós morarmos. Esse barraquinho ficava na beira da praia mesmo. Aí deu uma enchente e o mar carregou tudo o que nós tínhamos e nós não tínhamos para onde ir. Tinha uma escola que era o São José, no colégio das irmãs, não sei o nome, sei que eram irmãs de caridade. Lá elas deram abrigo para nós, para os nossos pais ficarem com nós lá até o mar melhorar, por causa da ressaca que deu, e depois nós voltamos para cá.</p>
<p>Quando nós voltamos o mar já estava mais manso e meus pais conseguiram um barraquinho melhor e foi ali que eles nos foram criando até quando ele partiu. Minha mãe ficou e meu irmão mais velho, não sei qual a idade dele hoje, ficou no lugar do meu pai. Ele foi ajudando minha mãe a nos criar até cada um procurar seu rumo. Cada um procurou seu rumo, tendo nossas famílias.</p>
<p>Hoje em dia ela mora sozinha lá perto do ponto final do ônibus. Ela está com 85 anos, porque eles nunca tiravam a certidão no dia certo. Nos documentos dela está assim, a gente tem que acreditar. Mas, eu acho que não. Ela não está com 85, para nós ela está com uns 90, por aí assim.</p>
<p><b>[Como foi depois da morte do seu pai?]</b></p>
<p>Depois que meu pai faleceu meu irmão assumiu o sustento da família trabalhando na casa de um pessoal que morava lá na Praia da Costa, em frente ao [Edifício] Guruçás. A gente catava pitanga para poder comprar um quilinho de farinha, ia para a maré, debaixo da Terceira Ponte, onde hoje em dia é uma cidade ali, para ali tirar burdigão. Cozinhava e ali a gente vendia e comprava a farinha e o feijão. Só não dava para a gente comprar a carne, mas a gente já tinha o peixe para comer. A gente pescava, a gente puxava a rede.</p>
<p><b>[Vocês também pescavam?]</b></p>
<p>Assim eles colocavam a rede e a gente puxava.</p>
<p>Meu irmão foi trabalhar na casa de uma família. Ele, o Damião, meu marido, trabalhou na casa de uma família muitos anos, foi nascido e criado na casa de uma família. E daquele sustento eles mandavam uma cesta para cada família, mandavam carne, mandavam feijão, roupa, cobertores e a gente foi vivendo.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Você chegou a aprender a fazer rede?]</b></p>
<p>Não, eu não aprendi a fazer rede. Eu sentava ali na beira para poder fazer, mas aqueles nós que vão dando rapidinho, não entravam na minha cabeça, aí eu não consegui fazer.</p>
<p>E foi ali que eles nos foram criando. O filho dela (da D. Maria Miranda, seu Damião) trabalhou na casa de uma família muitos anos. Ele trabalhava lá e vinha de tarde e ia vender os peixes dele lá pelo lado de Santa Rita, que era manguezal, e Ataíde. Quando ele chegava eram dez horas da noite, uma hora da manhã. E foi assim, tudo criando assim, no tempo deles foram criando assim, as pessoas ajudavam a gente, davam uma cesta, davam uma carne, uma roupa e foram criando.</p>
<p>O Damião e o Juvenal trabalhavam lá na Praia da Costa, na casa da D. Maria José, que já morreu, mas tem uma que é viva até hoje, é D. Carminha, ela está envergando, mas está indo também. Ela também ajudou a criar a gente.</p>
<p><b>[Como foi sua infância aqui?]</b></p>
<p>A nossa infância aqui quase não tinha ninguém, eram só meus irmãos. Nós somos em oito, os filhos de D. Maria, os filhos das irmãs dela. Não entrava ninguém estranho, era uma convivência maravilhosa, não tinha briga, não tinha discussão, não tinha droga, era tranquilo.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[E as brincadeiras?]</b></p>
<p>As nossas brincadeiras eram brincar de pique, tomar banho na praia, às vezes nem tomava muito banho porque os pais não deixavam, porque quando nós chegamos para cá meu irmão mais velho foi tomar banho de mar e quase morreu afogado. Tinha um forrozinho que a gente gostava de ir, mas meus irmãos ficavam vigiando a gente. A gente os cegava. &nbsp;A gente saía para ir para o forró do Seu Brechó, juntava as meninas e os meninos e a nossa mãe falava – Juvenal vai ver onde as meninas estão! Quando a gente o via, a gente entrava no matagal e se escondia.</p>
<p>Outra também era o baralho. A gente gostava muito de jogar baralho à noite lá na casa da minha mãe e tinha um homem que não gostava. Acho até que Deus já o levou. Uma vez nós estávamos jogando baralho e ele chamou a polícia. Mas eram aqueles do tempo da Marinha, aí vinham aqueles marinheiros, com aquela roupa toda branca, fardados. Quando nós descobrimos que eram eles, todo mundo correu para dentro de casa e ficamos escondidos dentro de casa, mas não deu em nada, porque ele era muito amigo da gente. Só que no outro dia nós o pegamos, porque descobrimos que foi ele, mas não fizemos nada com ele, só brincamos. Era uma brincadeira muito tranquila, não tinha droga, não tinha violência, era calmo.</p>
<p>Você podia andar de noite no meio dos matos. Às vezes, quem fumava a gente conhecia pelo cigarro. A gente andava com uma velinha, era um bequinho, mato dos dois lados daqui até na chegada de Vila Velha, era mato puro, e a gente andava, conhecendo um e outro no escuro. A gente saía à noite, mas não passava a noite na rua porque não tinha como, não tinha divertimento pra gente, o que tinha era só esse butequinho mesmo, a família e jogava baralho de noite, e a gente gostava muito.</p>
<p><b>[E como você conheceu o seu Damião?]</b></p>
<p>Nós fomos criados todos juntos desde criança. Quando a gente pegou a idade de 14 para 15 anos, cada um foi arrumando suas namoradas. Eu fui morar com ele (Damião). Quando eu engravidei do meu menino mais velho eu estava com 15 anos. As outras minhas irmãs e a filhas delas já foram arrumando os namorados e fomos fazendo nossas famílias. Cada um foi fazendo a sua família. Eu tenho a minha família, as filhas delas tem as delas.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Quantos filhos tem D. Maria?]</b></p>
<p>D. Maria tem sete filhos: Terezinha, Nega, Damião, Betinho, Idalina, Helena, Leila. &nbsp;Ela tem três filhos falecidos, todas três meninas, a mais velha dela faleceu e a caçula está com 43 anos. D. Maria nasceu em 22 de abril de 1928.</p>
<p>
[Entrevista exclusiva para o site Estação Capixaba. Reprodução autorizada pelo entrevistado.]</p>
<p>
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<b><span style="color: #660000;">© 2014&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
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<p></p>
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<a href="http://4.bp.blogspot.com/-IxQGKzLCfko/VnLoaxyHMVI/AAAAAAAAAPc/B-eyl7DCTTc/s1600/todas.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="121" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2014/12/todas-7.jpg" class="wp-image-6914" width="400" /></a></div>
<p></p>
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		<title>Entrevistado: Alexandre Dávila D&#8217;Macedo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 17 Dec 2014 17:44:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Espírito Santo]]></category>
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		<category><![CDATA[Pesca artesanal]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Grupo ao qual pertence: Praia de Itaparica, Vila Velha. Entrevistador: Fernanda de Souza. Data da entrevista: 17/03/2014. Nome do pai: Marciano Alexandre D’Macedo Nome da mãe: Alba Dávila D’Macedo Casado, 2 filhos. ————————————————————- [Como foi sua infância e adolescência?] Eu nasci na Glória, próximo à prainha. Quando eu tinha uns três ou quatro anos de [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="http://3.bp.blogspot.com/-HEtdaztvgtM/VnLz8YN9ajI/AAAAAAAAAQI/v0mb-C_BIV4/s1600/ADD_14.03.2014-17.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="459" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2014/12/ADD_14.03.2014-17.jpg" class="wp-image-6916" width="640" /></a></div>
<p><b><br /></b><br />
<b><br /></b><br />
<b>Grupo ao qual pertence: Praia de Itaparica, Vila Velha.</b><br />
<b>Entrevistador: Fernanda de Souza.</b><br />
<b>Data da entrevista: 17/03/2014.</b></p>
<p>Nome do pai: Marciano Alexandre D’Macedo<br />
Nome da mãe: Alba Dávila D’Macedo<br />
Casado, 2 filhos.</p>
<p>————————————————————-</p>
<p><b>[Como foi sua infância e adolescência?]</b></p>
<p>Eu nasci na Glória, próximo à prainha. Quando eu tinha uns três ou quatro anos de idade fui morar em Vila Velha, quando ainda tinha a Prainha de Vila Velha, hoje é um aterro. Toda a minha infância foi na beira da maré, vendo os outros pescar e aprendendo a pescar, eu gostava de ir pescar na maré.</p>
<p>Naquela época os oficiais do Exército moravam na Prainha de Vila Velha, o que facilitava o nosso acesso (direto) ao Exército e à Marinha. Nós entrávamos para pescar e brincar a hora que quiséssemos. Às vezes eles nos davam almoço, os oficiais eram nossos conhecidos. Então toda a minha infância foi brincar e aprender a pescar.</p>
<p><b>[Quais eram as brincadeiras?]</b></p>
<p>As brincadeiras eram balançar nos cipós das matas do Convento, tomar banho de maré ou ver os pescadores puxarem rede. Quando nós não estávamos na escola essa era a nossa brincadeira.</p>
<p>Nessa época dava muito peixe e todos os dias se passava rede de arrasto. Dava muito peixe. Como os pescadores eram todos conhecidos, nós sempre levávamos peixe para casa. Essa foi a minha infância. Fui criado na beira da maré.</p>
<p>Na adolescência comecei a gostar de esportes e comecei a praticar futebol. Joguei futebol de campo, de salão e voleibol. Depois comecei a gostar de surf e nadar em mar aberto, em Itaparica. Era minha paixão.</p>
<p>De 1970 para cá, foi tudo em Itaparica, aqui não tinha nada, era mato e praia, e nossa diversão era vir para a beira da praia, catar as frutas que davam na beira da praia, como pitanga, caju, maracujá e abiu. Aqui tinha uns abius muito bonitos que agora já não se vê mais. Eram do tamanho de uma jabuticaba e era a coisa mais deliciosa que tinha.</p>
<p>Tinha uma diversão que era muito boa, era pegar chocolate do lixo da fábrica de chocolates Garoto. Nós sabíamos até o dia e a hora que o carro do lixo passava, quando o caminhão de lixo da Garoto passava saía aquela galera todinha correndo atrás do caminhão. Ele ia pela estrada velha da Barra. Os chocolates que caíam das mãos dos embaladores não iam para o consumo e eram misturados com restos de papéis de bala, o lixo não era sujo, não tinha lixo orgânico, e por isso era fácil pegar, era só papel e se procurasse tinha bombons amassados ou sem embalagens. E nós enchíamos a sacola de bombons e vinha aquela turma embora comendo bombom.</p>
<p>A outra diversão gostosa era no final de tarde, no fim do mês de outubro e novembro. Nós vínhamos para a praia enchíamos uma sacola de pitanga, porque aqui nessa parte onde estão esses prédios era só pitangueiras. Nós enchíamos uma sacola de pitanga e quando chegava às 17, 18h, quando começava a escurecer, nós pegávamos tatuí.</p>
<p>Tatuí é um bichinho que dá na beira da praia. Quando a onda sobe ele entra na areia. Aí você cava e pega os bichinhos. De noite era aquela turm, e fazíamos uma farofa de tatuí. Havia um amigo nosso, o Manoel, que era bom de violão. Fazíamos um garrafão de batida de pitanga, um panelão de farofa de tatuí e ficávamos a noite toda na calçada, comendo tatuí e ouvindo violão.</p>
<p>Era uma época boa, podia-se dormir de janela aberta, não tinha bandidagem, vagabundos e não tinha drogas. Então foi uma infância e uma adolescência excelente.</p>
<p>Na minha juventude isso aqui começou a crescer. Depois dos meus 18, 19 anos de idade foi que começou a crescer e a virar cidade, a orla de Itaparica. Foi quando começou a vir muita gente de fora. Tem 5.000 apartamentos só no conjunto de Coqueiral de Itaparica, e ali moram pessoas de todos os lugares.[…] Depois, começou a aparecer as drogas que não havia. Nós nem sabíamos o que era droga.</p>
<p>Foi quando comecei a trabalhar. Meu primeiro emprego foi no Hospital da Santa Casa, em 1978. Minha primeira experiência profissional foi no atendimento de pronto-socorro. Naquela época só existiam dois prontos-socorro dentro do Estado, era o da Santa Casa e o SAMU. Era um pronto-socorro que tinha muito movimento e se via coisas que nem se imaginava. Eu adquiri uma experiência muito grande com tudo o que eu vi lá.</p>
<p>De lá para cá a juventude foi passando e comecei a gostar do surf e de nadar em mar aberto. Quando você nasce dentro do mar, na beira da maré, não tem outra coisa. Você vai acabar gostando de alguma coisa que seja de mar, e comecei a surfar.</p>
<p>Tinha um rapaz chamado Raul no meu bairro que foi a primeira vez que vi alguém mergulhando. Ele tinha um pé de pato e uma máscara, ele fez um arpão com um cabo de sombrinha velha e ia às pedras lá fora (no mar). Nós íamos nadando até as pedras e eu ficava em cima das pedras vendo ele (Raul), descendo e mergulhando.</p>
<p>Ele matava um peixe e voltava, não tinha recurso, não tinha nada. Hoje o mergulhador coloca uma fieira na cintura e enquanto aquela fieira não estiver pesando para atrapalhar, ele está enchendo a fieira, e vem embora cheio de peixes. Naquela época Raul tinha que matar, tirar o peixe que estava agarrado no arpão e vinha nadando até a areia para tirar o peixe. Olha só como é a mudança!</p>
<p>Eu fui vendo aquilo e fui achando legal mergulhar. Todas as vezes que ele vinha mergulhar eu nadava com ele até lá, no coral, e ficava vendo ele (Raul) descer e mergulhar.</p>
<p>Com esse negócio de mergulhar começamos a fazer uma brincadeira até interessante. Nós íamos nadando, parava todo mundo e descíamos para pegar areia no fundo, quem não pegava não descia mais, e com isso ia-se acostumando a descer e mergulhar. Vai-se pegando as manhas. Tinha um colega nosso que ele nunca mergulhou, mas ele sempre descia mais ao fundo para ir pegar areia, eu não ficava atrás. Eu era meio terrorzinho. Foi quando meu irmão mais velho começou a se interessar por mergulho.</p>
<p>Certa vez eu estava com a prancha na praia para surfar e não tinha onda. Meu irmão chegou para mergulhar. Nessa praia aqui (Itaparica) só tinha dois quiosques, duas barracas de praia, uma do Jajá e outra do Vitalino. Era um barracãozinho que vendia refrigerante, nem tinha energia, vendia no gelo. Meu irmão chegou com o material para mergulhar e falou: hoje não está bom para surfar, porque não tem onda e a água está clarinha. Você não quer ir comigo? Você fica lá me acompanhando para ver como é. Aí eu fui com meu irmão para o coral. Meu irmão matou um mero de 13 kg e quando ele subiu com aquele peixão eu fiquei encantado. Ele me deu a máscara só para eu olhar o fundo. Quando eu coloquei a máscara no rosto e vi aquela coisa colorida em baixo eu fiquei encantado, fiquei doido, foi quando comprei todo o material de mergulho e passei a mergulhar.</p>
<p>Quando eu saí da Santa Casa fui trabalhar no Bamerindus. Tinha um colega meu que também estava gostando de mergulho e nós fizemos uma equipe de mergulho.</p>
<p>Nós trabalhávamos à noite e saíamos pela manhã. Quando eu chegava em casa, por volta das 8h da manhã, colocava um cobertor escuro no vidro do quarto para dormir. Entretanto, o organismo não está preparado para dormir naquele horário, aí passamos a fazer diferente. Chegávamos do trabalho e, em vez de ir dormir, íamos mergulhar. Então de tarde estava cansado e como eu entrava no trabalho às 23h, chegava em casa 12, 13h e dormia até a hora de ir trabalhar. Era mais prático do que chegar e dormir. Foi quando começamos a mergulhar eu, Rogério, Erildo e o Guaraci. O Guaraci era do Amazonas e era especialista em manutenção de correia de mineração, ele tinha muita experiência com borracha. O primeiro barco em que nós fomos pescar foi um barco de borracha que ele (Guaraci) fez no fundo do quintal da casa dele. Nós compramos um motor pequeno e começamos a mergulhar. Era uma época boa e dava bastante peixe. Tinha muita fartura. Não se pegava para estragar porque não tinha como vender. Pegava-se só para o consumo.</p>
<p>Mais tarde essa região (de Itaparica), começou a crescer e aparecer movimento. Construíram Coqueiral e apareceu mais gente. Eu fiz uma parceria com Leonardo e nós mergulhávamos juntos, mas sempre pescando só para o consumo. Quando se pescava demais, distribuíamos para os vizinhos e amigos até chegar nessa fase que estamos hoje. Hoje se pesca para consumo, para se ganhar um dinheiro extra. Existem aqui (na orla), pessoas de um padrão superior que tudo o que se pega se vende. Qualquer pescado que se pega aqui na beira da praia se vende rapinho. Agora é uma necessidade do momento. Eu não estou trabalhando, estou desempregado, mas estou recebendo auxílio doença.</p>
<p>Nas minhas horas vagas eu vou pescar e dá para ganhar um dinheirinho. Se une o útil ao agradável ao mesmo tempo em que se está fazendo o que se gosta, está ganhando um trocadinho que dá para fazer uma comprinha. Dá para comprar a carne, a verdura, comprar umas frutas e colocar gasolina no carro. É um dinheiro que tem ajudado bastante.</p>
<p>Aqui na colônia tem muitos pescadores, amigos e muitos pescadores que não são profissionais, mas que gostam da prática da pescaria e se reúnem aqui. É um lugar de família e muitos que vem aqui são aposentados, é melhor do que ficar em casa, vêm para cá e batem papo agradável, tomam umas cervejinhas e até fazem churrasco. O ambiente foi crescendo. O desejo do pessoal da colônia é que um dia o Poder Público possa olhar para o pescador de uma forma diferenciada. Colocar uma colônia como tem em qualquer lugar por aí. […]</p>
<p>Nós temos uma orla com as praias mais bonitas do Brasil e com um mar rico de pescado. Então, tem nada que se possa fazer para se melhorar? O Poder Público não ajuda em nada, não preserva, e nem olha por nada. E fica essa dificuldade. Ver que é uma colônia registrada como colônia, e o que tem é um barracão, não tem nada ainda como uma colônia.</p>
<p>Os bacanas que moram nesses prédios acham que são donos de tudo, acham que porque pagam impostos para morarem em beira de praia eles mandam na praia, fazem o que querem, como querem e à hora que querem, mas não sabem que antes de eles virem para a praia já tinha os pescadores aqui há mais de 40 anos. Aprenderam a pescar, viveram a vida deles e sobrevivem até hoje da pesca.</p>
<p>O Zenildo e o Neném são dois pescadores que nós ajudamos. Nós que não somos pescadores de todos os dias, mas de momentos é que damos apoio para eles.</p>
<p>Muitas dessas embarcações que estão aí na praia não são de pessoas dependentes da pesca que nem eles. São pessoas de que têm seu emprego, outros são aposentados. Se ele não pegar nada ele tem o salário da aposentadora. Eles (Zenildo e Neném) não têm. Por isso é que alguns como eu, quando eu posso, seja no verão ou no inverno estou aqui sempre para ajudá-los e sempre à disposição, porque sei qual é a dificuldade. Eles (os pescadores) têm que pegar os frutos do verão para sobreviver no inverno. O pescador calcula aquilo que ele pega no verão e guarda uma parte para o inverno, para que numa época de dificuldade tenham um dinheirinho para poder sobreviver.</p>
<p>Eu acho que não tem nada melhor do que a pescaria que é um contato direto com a natureza, porém tem o outro lado, todo mundo acha que o pescado é caro. Eu queria que aqueles que acham o pescado caro acompanhassem um dia do pescador, só um dia, que fossem com um pescador no mar para ver como funciona.</p>
<p>Um dia pega, outro dia não pega, e se precisa do dinheiro. Quanto mais não se pega, mais cansado se fica. Quando tem peixe, quanto mais se pega, mais disposição se tem, porque é psicológico. Se você vai e está pegando, você está bem. Se a mente estiver bem, o corpo também vai estar. Quando não se pega nada vai cansando, desanimando e o pescador sabe que ele não pode desanimar porque ele sabe que quando chegar em casa tem que levar o sustento.</p>
<p><b>[Você estudou até que série?]</b></p>
<p>Eu fiz o 2º grau completo, fiz técnico de administração, de telefonia e de edificações. Fiz vários cursos.</p>
<p><b>[Você chegou a trabalhar em alguma dessas áreas?]</b></p>
<p>A última que trabalhei foi como técnico de telefonia. Quanto parei estava como encarregado e tinha seis anos como encarregado de turno em telefonia.</p>
<p><b>[Seus pais, seus avós tiveram algum contato com a pesca?]</b></p>
<p>Não, nenhum deles. Meu avô por parte de pai morava no sertão da Paraíba, em Boqueirão, Campina Grande. Não tive contato nem conheci meu avô. Minha avó por parte de pai não tenho lembrança dela, porque eu era muito pequeno, só conheço por fotografia. Meus avós por parte de mãe também não tinham ligação com pesca, só gostavam muito de peixe. Meu avô era capitão da Polícia Militar e minha avó era do lar. Todos já faleceram.</p>
<p>Meu pai já faleceu, mas minha mãe ainda está viva, com 84 anos. Também foi criada em beira de praia, adora peixe e frutos do mar. É uma especialista na culinária de frutos do mar, sabe tudo.</p>
<p><b>[Com que idade você começou a praticar a pesca de mergulho?]</b></p>
<p>Comecei aos 18 anos e pratiquei durante uns 30 anos.</p>
<p><b>[Como foi que você deixou de mergulhar e começou a praticar a pesca com barco?]</b></p>
<p>Quando eu tinha cinco anos de idade fui curado de uma bronquite asmática. Tive uma dengue pela 1ª vez e através dessa dengue, segundo as informações clínicas, quando você pega a dengue ela abaixa a imunidade do corpo e assim ela trouxe uma bronquite que tive na infância e se tornou crônica. Tenho bronquite crônica e sou dependente de medicamentos. Tenho que tomar medicamento pela manhã e de noite para não dar crise. Eu tinha de 3 a 4 crises por semana e vivia em pronto socorro ingerindo corticoides. Hoje, sou dependente de corticoide. Você percebe que quando eu falo, e minha voz vai embora, justamente por causa da bronquite. Eu faço tratamento da bronquite periodicamente, devido a dengue.</p>
<p>Uma vez fui pescar com um amigo, o Marujo. Ele me levou para pescar e eu fui, eu já tinha um barco e mergulhava. Através desse barco que eu mergulhava, o Marujo fez umas linhas e me chamou para pegar pescadinha. Como eu era curioso para pegar pescadinha fui. Antigamente tinha uma lama perto daquelas pedras, perto daqueles candeeiros de dentro, onde todo mundo só pegava pescadinha ali. Dava muita. Como eu nadava muito devido à bronquite, porque quanto mais se nada é melhor, eu nadava até perto daqueles barquinhos e via os caras pescando. Eu tinha curiosidade de saber como se pegava as pescadinhas. Ele (o Marujo) fez as linhas e eu fui com ele, aí eu me encantei. Pescar pescadinha é muito bom. Acabei me apaixonando pela pescaria de pescadinha que é a que eu mais gosto.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[O Marujo era de que ponto?]</b></p>
<p>Ele tinha uma barraca de praia, agora ele tem um quiosque aqui em Coqueiral.</p>
<p>Isso foi bem mais tarde. Quando fui pescar de linha. Quando eu estava trabalhando na ativa eu ficava um mês de férias e passava quase todo o mês aqui na colônia, só pescando com os meninos (os pescadores). Agora, como eu estou nessa posição, eu estou pescando todos os dias. Só não venho aos domingos porque que é o dia que estou com a minha família.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Como era a pesca nos anos anteriores e como é hoje?]</b></p>
<p>Quando eu estava na caça submarina a fartura de pescado era muito grande, pegava bastante peixe. Aqui nesse coral, naquele roxo, eu entrava ali e com duas horas de pescaria tinha que vir embora, porque não tinha mais aonde colocar os peixes. Nós usávamos uma boinha de isopor com uma rede embaixo, tipo um saco onde […] os peixes. Peixes, lagostas, o que se pegava. Só que quando ficava pesado demais a boinha começava a afundar, não aguentava o peso, e tinha que vir embora. Pegava-se dentão, sarda de beiço, sarda de dente, sarda, chicharro, […] do cabo, perubu, bodião, batata, sem contar lagosta que tinha bastante. Hoje pode ter a certeza de que com duas horas de mergulho não se trás um quilo de peixe. Não tem mais, foi-se acabando com o tempo, não se sabe o porquê. Nós não temos nenhuma condição de dizer se é porque mergulharam demais, se o número de pescadores triplicou e acabaram com os peixes, é difícil dizer isso. Mas antigamente a fartura era bem maior do que hoje, com certeza era.</p>
<p>O único peixe que não parou de ser farto foi a pescadinha. Porque a pescadinha não é um peixe de beirada, ela só aparece no verão. É complicado também […] porque, segundo nós analisamos, a pescadinha, por ela ser um peixe de verão, ela vem para a beirada para desovar. Não sabemos se pelo fato de pescar a pescadinha sempre na beirada quando vem desovar, o que será futuramente. Até então ela nunca diminuiu. Todo ano é a mesma coisa, é fartura de pescadinha, por isso é que o pescador investe muito em pegar pescadinha. É um peixe saudável, limpo e de carne branca. Antigamente nós chamávamos a pescadinha de peixe de doente, porque ela não tem nenhuma impureza. Hoje tivemos uma pescaria muito boa e sempre está tendo pescadinha, até então não diminuiu.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Qual a média de pescadinha que se pesca hoje?]</b></p>
<p>Quando o mar está bom como hoje, cada pescador trás 20, 15kg. Existem pescadores que vão pela manhã e de tarde. Aí a quantidade de peixe que se pega é bem superior de quem só pesca pela manhã.</p>
<p>Nós saímos para pescar quando o dia começa a clarear, quando começa a sentir o raio da claridade no mar, porque tem as ondas que atrapalham. Nós entramos às 5h, 5:30h porque é quando começa a clarear e se começa a ver os raios do sol para poder ver a ondulação da onda que está vindo para empurrar o barquinho, e vamos pescar.</p>
<p>Costumamos voltar às 9h porque é quando o sol começa a ficar castigante e a incomodar. Como eu gosto de pescar, se tiver peixe eu fico até as 12h.</p>
<p><b>[Como é a sua rotina como pescador?]</b></p>
<p>Meu horário de acordar é às 4h. O celular desperta às 4h e me levanto. Ligo para meu parceiro Gildo, porque ele é que tem o barquinho e me leva para pescar com ele, é o meu “mestre”. Nós chamamos de “mestre” porque ele é o dono do barco e nós somos marinheiros dele. O marinheiro é quem joga a âncora, puxa, corta a isca, empurra barco e toma umas broncas. Mas tudo em nome da pescaria, do esporte e do lazer. Vale a pena! Nós saímos nesse horário.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Qual é o seu transporte para vir para a praia?]</b></p>
<p>Eu venho de carro e gasto da minha casa até a praia cinco min. Eu chego à praia por volta das 4:30h.</p>
<p><b>[Você prepara alguma coisa em casa para trazer?]</b></p>
<p>Eu levanto, pego minha caixa térmica e coloco gelo. Eu gosto de pegar o peixe e colocar no gelo porque ele chega à praia mais conservado. Nós chamamos de “dar choque”. Se pega a caixa térmica com gelo e coloca água do mar: a água fica bem gelada. Quando se tira o peixe do mar, do anzol, e joga na água gelada ele (o peixe) dá só uma rabanadinha, e morre no gelo. Fica durinho, fresquinho e chega à praia com o aspecto de um peixe saudável. Não fica um peixe molenga, fica durinho como se tivesse tirado da água naquele instante. É mais fácil de vender e de conservar.</p>
<p>Na maioria das vezes, minha filha de treze anos faz meu lanchinho no dia anterior e deixa tudo prontinho para eu levar para o mar.</p>
<p><b>[O que você faz antes de entrar no mar?]</b></p>
<p>O primeiro que chega é quem abre o barracão, eu não abro o barracão porque não tenho a chave, não faço parte da colônia, então eu fico esperando o primeiro que chega para abrir o barracão. Eu sei que meu “mestre”, o dono do barco, ainda não chegou e enquanto ele não chega, tenho que providenciar os remos, preparar o barco, limpar o barco se estiver sujo. Preparo o barco e deixo na posição para quando o mestre chegar agilizar mais rápido para ir para o mar.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Vocês vão para o mar no remo ou a motor?]</b></p>
<p>Quando o peixe está comendo na beirada é um peixe de lama. A lama do mar é uma lama limpa, saudável. Tão saudável que dá esse peixe que é uma maravilha. Desta forma, se o peixe está na beirada vamos de remo, porque é muito difícil colocar o motor no mar, é pesado e ainda existe risco de perder o motor porque, as ondas podem estar muito altas. Daí, não ter necessidade de quando o peixe está na beirada de entrar de barco a motor, entra-se de remo.</p>
<p>Na maioria das vezes, o peixe costuma comer lá fora. Quando é mais longe, vamos de motor. Quando o motor está com problemas vamos de remo, e na volta sempre tem um colega para rebocar, que ajuda a retornar.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Quanto tempo se leva daqui da praia até ao local da pesca?]</b></p>
<p>Gastamos vinte minutos.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[O que tem que levar no barco?]</b></p>
<p>Mesmo sendo barco de motor tem que levar o remo e caixa para colocar o pescado. No meu caso eu levo uma caixa térmica com gelo, nosso lanche, colete salva-vidas para a segurança e o bicheiro, que é um anzol grande na ponta de uma haste forte para o caso de se pegar um peixe grande que a linha não suporte. É necessário para jogar para dentro do barco. Tem que ter o bicheiro para fisgar e puxar para cima do barco. Levamos as caixas de linha e cada pescador tem seu saco de linha. Nós chamamos de “paradinhas” que são uns pedaços de isopor com as linhas enroladas com anzol, linhas e chumbada. Sempre levando de sobra, porque nunca se sabe. Pode-se perder uma linha e com uma só linha não se mata tanto peixe.</p>
<p><b>[E quando chega o que tem que ser feito?]</b></p>
<p>Quando chegamos sempre tem alguém para puxar o barco para cima. Chegamos e tiramos tudo do barco, às vezes joga-se uma água no barco. Hoje não fizemos devido à quantidade de peixe que tem para limpar, mas amanhã nós iremos lavar o barco.</p>
<p>Recolhe-se tudo o que tem no barco, vamos para a banca e começamos a limpar nosso pescado. Limpamos, pesamos, ensacolamos e fazemos as porções de 1kg, também fazemos as bandejinhas de filés. Pesamos 2kg de pescadinha para fazer uma porção de 1kg de filé e os pacotinhos de 1kg.</p>
<p><b>[E a venda?]</b></p>
<p>Vendemos na colônia, outros levamos para casa. Tenho uns clientes na minha rua que compram o pescado. O quilo da pescadinha esse ano está custando R$ 10,00. Pode ser que no próximo ano venha a subir de preço, está muito barato R$ 10,00.</p>
<p><b>[Você pratica pesca de anzol e linha?]</b></p>
<p>O “mestre” Zenildo, mais conhecido como Meloso tem rede de arrasto. Quando aparecem cardumes de beirada: cardume de sardinha, chicharro e manjuba a rede de arrasto é lançada e precisa de bastante mão-de-obra para puxar essa rede. Funciona assim: a rede sendo do Meloso, quando se pega o pescado, 50% do pescado é do material dele, pertence à rede e ao barco dele, os outros 50% são divididos entre aqueles que ajudaram a puxar e a tirar os peixes da rede.</p>
<p>Quando ele vende o pescado nós acompanhamos. Ficamos aqui na praia com ele, ajudamos na pesagem para facilitar o trabalho dele e ele vai recolhendo o dinheiro. Às vezes tem alguém só para ficar segurando o dinheiro do pescado e, quando termina de vender todo o pescado, ele faz o rateio. Tira a parte dele, conta o dinheiro que é da parte do material dele, e a outra parte é dividia por partes quase iguais, porque ele não solta a rede sozinho. Mesmo ele sendo dono da rede não tem como ele soltar a rede sozinho, ele sempre terá um marinheiro para soltar a rede e remar. Esse que rema a rede ele ganha uma cota a mais. O marinheiro ganha duas cotas, ganha a cota por estar remando e a cota da divisão dos 50% da parte.</p>
<p><b>[Vocês também praticam a pesca de rede de fundo?]</b></p>
<p>Sim, também praticamos. A rede de espera nós chamamos de trasmalho. Existem trasmalhos de tamanhos diferenciados, como a malha para berezeira, que é para peixe menor, e a malha maior para peixes maiores. Elas ficam em cima da lama, onde passam as corvinas, pescadas, linguados e guaiabira. Essa é a rede de espera.</p>
<p><b>[E a rede de fundo?]</b></p>
<p>Existe uma rede de fundo que é rede de arrasto. Eu estou falando da parte de trasmalho. A rede de fundo nós não temos, não praticamos rede de fundo porque não funciona, aqui tem pedras, com pedras no fundo não dá para fazer arrasto de fundo. Arrasto de fundo só lá para cima, em Itapuã.</p>
<p><b>[E a rede boieira?]</b></p>
<p>A rede de arrasto que nós temos é a boieira. Existe a rede de arrasto boieira e a de fundo, e existe o trasmalho boieira e o de fundo. O trasmalho boieira é aquele que fica com a boia, que fica boiando. É para pegar peixe de passagem (que passa) como a coibira, a sarda, o pampo, a samendoara e a enchova. São os peixes que vêm na rede boieira.</p>
<p>Na rede de fundo, de trasmalho de espera, são os peixes que passam pelo fundo como a pescada, o linguado e a corvina, e costuma malhar também as lagostas que estão no fundo, próximo aos cascalhos. Costuma-se pegar lagosta na rede malhada de fundo.</p>
<p>A rede de fundo da qual estou falando é a que tem a malha maior. Eu não sei se é a malha 50 ou 75. Tem ainda a rede berezeira que é uma rede de malha menor, que pega outros tipos de peixes. A própria pescadinha malha nessa rede menor, o pé-de-banco, a corvina menor e o peixe relógio que dá muito durante o verão. Outros peixes que passam: a pescada dentuça malha muito na rede berezeira, que é uma rede pequena. É um peixe muito saboroso, tem um gosto bom e costuma dar um bom dinheiro para o pescador.</p>
<p><b>[Como é a prática de pesca com anzol?]</b></p>
<p>Aqui nós pescamos com nylon 100, que é um nylon para descer o peso, e lá em baixo usa-se o nylon 60, onde ficam os anzóis. A melhor isca que costumamos usar para esse tipo de pesca é a sardinha e a tainha, que nós compramos. Costumamos comprar mais à frente, na praia de Itapuã, quando puxam rede e pegam cardume de sardinha, mas esse ano a sardinha não tem encostado muito na beirada.</p>
<p>Temos saído para pescar mais lá fora e temos visto bastantes cardumes de sardinhas. […] Alguns dizem que é por causa da água fria, que elas não estão encostando-se à beirada. Mas eu não acredito porque nos meses de janeiro e fevereiro a água esteve morna e mesmo assim o peixe não migrou para a beirada. Então esse ano a pesca da sardinha, que é a melhor isca para a pescadinha, ela não favoreceu o pescador, tivemos que comprar fora, na cooperativa que traz de Cabo Frio, Angra dos Reis e de Santa Catarina, as caixas de iscas, porque ele é um fornecedor de iscas para as grandes embarcações que pescam em alto-mar. Nós compramos as caixas de iscas que vêm de fora.</p>
<p><b>[Há quanto tempo você pesca nesse ponto de Coqueiral de Itaparica?]</b></p>
<p>Mais ou menos há uns dez anos.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Você já pescou em outros pontos de Vila Velha?]</b></p>
<p>Já pesquei em muitos lugares de Vila Velha. Já pesquei em todas as praias de Vila Velha: Praia da Costa, Itapoã, Itaparica, Barra do Jucu, Interlagos, Ponta da Fruta e Praia do Sol.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Quais são suas lembranças desses pontos de pesca?]</b></p>
<p>Não existe praia e mar para se pescar como Itaparica, isso aqui é minha paixão. Sou apaixonado por Itaparica. Se Vila Velha não fosse um lugar tão esquecido pelo poder público nós teríamos uma vida bem melhor, seria uma maravilha. A praia de Itaparica é um paraíso. Poucos entendem e valorizam. A maioria que mora não valoriza o que tem, às vezes não valorizam nem o próprio pescador. Uns acham que os pescadores fedem e incomodam, outros vêm aqui e trazem um tira-gosto, um suco ou refrigerante, vêm saber por que ainda não temos uma colônia adequada para o nosso pescado, outros acham que é nojeira e olham de longe, preferem ir ao supermercado comprar aqueles peixes velhos, congelados e fedorentos. Mas o cheiro do nosso (peixe) é de fresquinho e não dão nenhum valor.</p>
<p><b>[Por quanto tempo você ainda pretende pescar?]</b></p>
<p>Meu desejo é um dia me aposentar e só me dedicar à pesca enquanto eu tiver saúde. Isso aqui é minha vida. Sou apaixonado por pescaria e por beira de praia. Nasci em beira de praia e quero que quando papai do céu me levar […] Se pudesse ser enterrado o mar. Ser jogado no mar igual aos tripulantes de navios.</p>
<p><b>[Qual a maior lição que você leva com sua experiência com a pesca, o que você mais aprendeu e o que você transmite para suas filhas?]</b></p>
<p>O que eu transmito às vezes até incomoda porque mesmo estando pescando e levando tudo para casa eles se preocupam muito. Reclamam que chego do mar e não digo que cheguei, ficam muito preocupados. Não sabem eles que não tem coisa melhor: o relaxamento mental, o bem-estar de estar pescando. Isso se leva para casa. Você fica mais calmo e mais tranquilo, tanto na fartura, quanto na dificuldade, é muito bom. É uma lição de vida maravilhosa, apesar de a maioria dos pescadores não ter muita cultura e às vezes isso dificulta o convívio. Mas tem que usar a sabedoria para um entender o outro.</p>
<p>
[Entrevista exclusiva para o site Estação Capixaba. Reprodução autorizada pelo entrevistado.]</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2014&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
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