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	<title>Arquivos Identidade Capixaba &#8902; Estação Capixaba</title>
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	<description>Patrimônio Cultural Capixaba</description>
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	<title>Arquivos Identidade Capixaba &#8902; Estação Capixaba</title>
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		<title>Série Estação Capixaba, volume 4.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 07 Apr 2017 19:02:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Identidade Capixaba]]></category>
		<category><![CDATA[João Carlos Simonetti]]></category>
		<category><![CDATA[Série Estação Capixaba]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Co-edição com a Cândida Editora:&#160;[Edição digital ISBN&#160;978-85-64258-10-5]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<b>Co-edição com a Cândida Editora:&nbsp;[Edição digital ISBN&nbsp;978-85-64258-10-5]</b></div>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
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</div>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://issuu.com/mariaclaramedeiros7/docs/o_capixaba_e_o_outro/14" target="_blank" rel="noopener"><img fetchpriority="high" decoding="async" alt=" SIMONETTI Jr., João Carlos. O Capixaba e o Outro: representação da identidade cultural no jornalismo impresso do Espírito Santo." border="0" height="640" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2017/04/Capa2Bcompleta.jpg" class="wp-image-5211" width="462" /></a></div>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
</div>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
</div>
<p></p>
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		<title>O capixaba metafísico: Identificação cultural capixaba</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 18:14:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Identidade Capixaba]]></category>
		<category><![CDATA[Oscar Gama Filho]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Foto: Guilherme Santos Neves, anos 1950. Um dos jogos paralelísticos lógicos paradoxais que nos desafia recebe o nome popular de Identidade Cultural Capixaba. Paradoxos dos mentirosos, como este, convidam a reflexões do tipo &#8220;se uma árvore caiu na floresta e ninguém percebeu, ela caiu?&#8221; Semelhante proposta é a da busca da Identidade Cultural Capixaba. Não [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://2.bp.blogspot.com/-6bIg_6jFPGY/WFF0Eb2QKVI/AAAAAAAALFo/oQcRFmLBAfcPevXpKRYLqW4tAfDTEx38gCLcB/s1600/Capixaba.2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img decoding="async" alt="Foto: Guilherme Santos Neves, anos 1950." border="0" height="400" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/Capixaba.2.jpg" class="wp-image-5955" title="Foto: Guilherme Santos Neves, anos 1950." width="276" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Foto: Guilherme Santos Neves, anos 1950.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>
Um dos jogos paralelísticos lógicos paradoxais que nos desafia recebe o nome popular de <i>Identidade Cultural Capixaba</i>. <i>Paradoxos dos mentirosos</i>, como este, convidam a reflexões do tipo &#8220;se uma árvore caiu na floresta e ninguém percebeu, ela caiu?&#8221; Semelhante proposta é a da busca da Identidade Cultural Capixaba. Não que seja desnecessária — muito pelo contrário. No entanto, está equivocada quanto aos meios empregados e à descrição do objeto de estudo.</p>
<p><b>I &#8211; Por que somos capixabas?</b></p>
<p>Primeiramente, qual a denotação de &#8220;capixaba&#8221;? A versão corrente, aceita entre os eruditos, concorda com a idéia de que <i>capixaba</i> significava, primitivamente, no século XVI, a <i>lavoura</i> ou <i>roça</i> que se estendia da atual Rua Barão de Monjardim até a região que hoje se fronteia à Capitania dos Portos. Com o passar do tempo, por uma extensão metonímica, a coisa possuída — a plantação — passou a ser a denominação concedida, primeiro aos seus possuidores, e por fim a todos os habitantes da ilha de Vitória. Posteriormente, talvez porque Vitória seja a sua capital, os naturais de qualquer parte do Espírito Santo passaram a receber esse epíteto.</p>
<p>Mestre Guilherme Santos Neves estudou o assunto, propondo nova teoria, em uma série de quatro artigos, intitulados genericamente de &#8220;Por que Somos Capixabas&#8221;, publicados em <i>A Gazeta</i>, que pudemos ler em recortes sem data conservados por sua família. Em homenagem eterna, deixamos solar o músico que fará o público vibrar — mais do que se tocássemos a sua luz — com seu estilo manso, bem típico. Certamente,  não executaríamos o tema melhor:</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<span style="font-size: 85%;">Creio que o primeiro a propor essa versão foi o visconde de Beaurepaire Rohan, em seu&nbsp;<i>Dicionário de Vocábulos Brasileiros</i>, onde se pode ler, no verbete&nbsp;<i>Capixaba</i>: &#8216;Os habitantes da cidade de Vitória têm o apelido de&nbsp;<i>Capixabas</i>&nbsp;por causa de uma fonte que ali existe e donde bebem&#8217; (cfr. edição da Livraria Progresso, Salvador, 1956, p. 72). Aceita essa hipótese o Ten. Cel. Ruy Almeida, professor do Colégio Militar, do Rio: &#8216;Os filhos da ilha de Vitória, hoje capital do formoso Estado, receberam esse apelido (<i>Capixaba</i>), não diretamente da palavra designativa de&nbsp;<i>Roça</i>,&nbsp;<i>Roçado</i>&nbsp;ou&nbsp;<i>Plantação</i>, mas das fontes de que bebiam água de excelente qualidade e que brotavam entre essas plantações.</span></p></blockquote>
<p>Menezes de Oliva, em <i>Você Sabe Por quê&#8230;?</i> (Rio de Janeiro, Laemmert, 1962, pp. 91-2), concorda:</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<span style="font-size: 85%;">(&#8230;) Teodoro Sampaio consigna o termo tupi CAPIXABA, como significando a&nbsp;<i>lavoura</i>, a&nbsp;<i>roçada</i>. Certo, para o início das plantações, teriam escolhido sítio em cujo local houvesse uma fonte, indispensável à vida dos seus habitantes e à rega da terra e que ficou sendo conhecida como a FONTE DA CAPIXABA, isto é, a fonte da lavoura, da roçada aberta no seio umbroso da mata. O povo (&#8230;) acabou emprestando virtudes miraculosas às águas daquela fonte. Dizia que a criancinha que tomasse o primeiro banho com as águas da FONTE DA CAPIXABA seria rica e feliz. Tanto bastou para que tal prática logo entrasse nos hábitos dos seus moradores. É assim que, assistindo ao banho do recém-nascido, indagavam as comadres, apontando para a água da bacia — é CAPIXABA? No caso afirmativo estariam asseguradas ao bebê, pela existência em fora, felicidade e fortuna. Opulento e venturoso também seria todo aquele que, mesmo tendo nascido longe da FONTE DA CAPIXABA, pudesse misturar às águas do primeiro banho um pouco do precioso líquido, que dali lhe houvesse sido enviado por algum parente ou amigo dedicado. Dest&#8217;arte, com o decorrer do tempo, o nome da fonte veio a determinar, por distensão, os que tivessem nascido perto ou distante da CAPIXABA.</span></p></blockquote>
<p>Com elegância, Mestre Guilherme, no quarto artigo da série, informa que não encontrou, na literatura disponível, outras referências às forças prodigiosas da Fonte da Capixaba além da efetuada por Menezes de Oliva. Entretanto, segundo ele,</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<span style="font-size: 85%;">(&#8230;) a tradição popular tem dado às águas da<i>Capixaba</i>, pelo menos, o dom de prender aqui em Vitória quem delas bebe, feitiço amorável que o povo atribui a certas águas privilegiadas. (&#8230;) Além desse poder de fixação à terra, as águas da Capixaba (&#8230;) são ótimas para quem sofre dos rins, além de possuírem outras virtudes terapêuticas. A Fonte lá está ainda (graças a Deus), mal resguardada por uma fachada tosca, em cujo gasto reboco se pode ler uma data: 13 de novembro de 187&#8230; (1871, 1873, 1878?), certamente para marcar a época da construção.</span></p></blockquote>
<p>O texto de Santos Neves — que transcrevemos pelo seu valor histórico — permite que diferenciemos entre a <i>Fonte da Capixaba</i> e o <i>Chafariz da Capixaba</i>, este último situado junto à atual Rua Barão de Monjardim:</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<span style="font-size: 85%;">Mais embaixo, cinco metros talvez, a água clara e cantante escorre dum caco de telha — é a Bica — e desce para os escaninhos do Morro.<br />Cá embaixo, ao lado da antiga escadaria Cristóvão Colombo, levanta-se, com imponência inválida, o&nbsp;<i>Chafariz da Capixaba</i>&nbsp;(1828, reconstrução 1840) com suas torneiras quebradas e&#8230; secas, a testificar o proverbial desinteresse dos poderes públicos, o seu eterno descaso pelas mais caras tradições de nossa gente.</span></p></blockquote>
<p>Mestre Guilherme conclui, então, seu pensamento: &#8220;Da <i>Fonte da Capixaba</i> é que fluiu, além da boa, cristalina e saborosa água, o nome com que se batizaram todos os que nasceram (e nascerão) nas terras do Espírito Santo.&#8221;</p>
<p>Estes ensaios  foram a pedra-de-toque de parte do nosso poema <i>Monofonia a Vitória (+ 1551 &#8211; 1981)</i>, incluído, na íntegra, em apêndice:</p>
<div align="left">
<table border="0" cellpadding="0" cellspacing="0" style="width: 85%;">
<tbody>
<tr>
<td>(Eis que alguns pedaços do Penedo dinamitado,<br />
Cansados de beber a água salgada, podre e oleosa<br />
pela qual o Penedo é banhado,<br />
Foram beber água doce no que resta da Fonte da Capixaba,<br />
Fonte de onde jorrou água e de onde jorrou o nome &#8220;capixaba&#8221;,<br />
Mas, se fonte e água ainda existem, as torneiras estão arrebentadas,<br />
E é raiva que o Penedo bebe com a força com que bebia o mar<br />
até a maré baixar. E diz o Penedo:<br />
&#8220;Rua Barão de Monjardim, rua da Fonte da Capixaba, fica com a rua<br />
e me dá o barão, que hoje não tem mais água, não;<br />
Me dá um barão que suba pelo Morro do Vigia,<br />
De onde desce, em aqueduto de telhas, a Fonte da Capixaba;<br />
Me dá um barão que suba pelo morro que eu via<br />
e que veja o calçamento pé-de-moleque feito pela gente escravizada;</p>
<p>Me dá um barão que aprecie as árvores imensas<br />
como a angústia de Oscar apreciava;<br />
Me dá um barão que me dê muletas<br />
para que eu me levante sem as pernas esquartejadas;<br />
Me dá um barão muito influente, <br />
Pois só pela influência o Poder ouve, vê, fala e sente;<br />
Me dá um barão que defenda Vitória da destruição total<br />
mais do que o forte São João defendia Vitória das invasões estrangeiras;<br />
Me dá um barão com mais glória<br />
do que a glória do concreto armado do Edifício Glória;<br />
Me dá um barão com muito ouro<br />
que vá comigo ao Teatro Carlos Gomes entoar este coro:</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p><b><br /></b><br />
<b>II &#8211; Identidade, &#8220;características&#8221; ou ideologia?</b></p>
<p>Em <i>segundo lugar</i>, o conceito de &#8220;identidade&#8221; não parece adequado. A palavra identidade deriva de &#8220;idem&#8221;, que significa &#8220;o mesmo&#8221;. Estaríamos diante, portanto, de um projeto estruturalista de procura do invariante presente nas diversas e contrastantes microrregiões culturais capixabas? Onde se encontra este conjunto interseção vazio, esta pedra filosofal impossível, logicamente inconsistente e que não existe?</p>
<p>Se adicionássemos modéstia à dicção empregada no trabalho, substituiríamos <i>identidade</i> por <i>características</i>, cunhando nova expressão, meramente descritiva dos elementos que compõem um sistema. Se adicionássemos exatidão, contudo, preferiríamos <i>ideologia</i>, em sua acepção clássica de <i>sistema de idéias</i>.</p>
<p>O código genético que interliga nossas diferentes microrregiões culturais se materializa na ideologia da cultura capixaba. Por meio dela, o Espírito Santo passa a ter uma geopolítica, limites territoriais, símbolos, hinos, problemáticas, defensores, amigos e inimigos. Sem ela, seríamos todos irmãos. Mas abrir mão de sua proteção, em um mundo mudo dominado pela globalização neocolonialista, corresponde, exatamente, a deixar de existir.</p>
<p>A gestação da ideologia da cultura capixaba começou no século XIX, quando se iniciou a produção do <i>capital cultural</i> regional. Desenvolveu-se lentamente, a partir de então, para nascer, de fato, no governo de Jerônimo Monteiro.</p>
<p>C<i>apital Cultural</i> é a soma que, derivada direta ou indiretamente do enriquecimento social, está empregada em setores relacionados à cultura, levando ao aumento de suas atividades.  O capital cultural se valoriza mais ideológica do que economicamente, por meio do investimento em uma mercadoria — a cultura — que será &#8220;vendida&#8221; de forma primordialmente ideológica para a sociedade, originando ganhos diversos, também monetários, que se estruturarão em um Aparelho Cultural (instituições de arte, academias, editoras etc. ).</p>
<p>O nosso conceito de <i>Aparelhos de Estado</i> pode ser traduzido mais ou menos pelo mesmo que Instituições e se liga à teoria althusseriana por distantes  parentescos de que os sensatos duvidam.</p>
<p><b>III &#8211; Tratado da razão do Brasil</b></p>
<p>Voltemos ao momento do parto, do nascimento do Estado brasileiro. Tudo fica claro-sangue e o século XVI incha como o útero da mãe-terra prestes a dar à luz ao monstro gerado sem a participação paterna. Sim, o Brasil nasceu por clonagem, sem o <i>pai</i> que caracteriza o surgimento de qualquer Estado: o <i>povo</i>.</p>
<p>Colônia criada &#8220;por decreto&#8221;, no Brasil quinhentista, paradoxalmente, as leis, as instituições, o governo e a religião foram preparados e implantados fora daqui, no estrangeiro Portugal, <i>a priori</i>, de cima para baixo, antes da presença daquele elemento que deveria produzi-los: o povo. Por incrível que pareça, na formação nacional, o Estado precedeu o povo. Qualquer semelhança com a atualidade não é mera coincidência. E, se não havia povo, não se pode dizer que existia pátria. Os únicos que, nesse pré-Brasil, possuíam algo parecido com a noção de pátria — se é que tinham — eram os índios. A pátria dos brancos obviamente estava em Portugal. Como o povo existente — o gentio — não se tratava do povo brasileiro, muito menos do capixaba ou do português, e não tinha a confiança da Coroa, tornou-se necessário dissolvê-lo cultural e fisicamente para se formar um outro.</p>
<p>A criação de um Estado sem a participação popular produziu sérios problemas. Sem pai, não foi possível a ocorrência da castração edípica. Sem a castração edípica, não aconteceu a introjeção da proibição paterna, base do superego. Sem superego, não pudemos contar com uma instância censória, com uma moral verdadeira.</p>
<p>Sua condição marginal à lei desde sempre inscreveu o Brasil em um processo que, inicialmente obsessivo, com seus rituais — religiosos, políticos, culturais, científicos — esconjuradores de um mal invisível, mas presente, evoluiu para um quadro psicótico. Desprovido da marca legal primitiva, ele não pôde se inscrever na lei e nem, tampouco, aceitá-la. Restou-lhe apenas o espaço vital da loucura.</p>
<p>Concluímos que a esquizofrenia do país se originou no fato de que o Estado brasileiro surgiu antes do seu pai. Vivemos, portanto, atualmente, no segundo momento, em que o surto fragmentou a sua identidade até atingirmos o &#8220;espírito dividido&#8221; a que se refere a origem etimológica de &#8220;esquizofrenia&#8221;. Este resultado aponta, sempre e necessariamente, para um caco-átomo indivisível — resistente ao processo de desintegração — que apenas a palavra <i>individualidade</i> traduz, como veremos no final do ensaio.</p>
<p>Porém, quando o mesmo povo se revestir de cidadania, recuperará a sua brasilidade e passará a ocupar o lugar simbólico do pai no inconsciente nacional, tornando possível tanto o resgate de sua macroidentidade sã quanto o da microidentidade capixaba.</p>
<p><b>IV &#8211; Ideologia da cultura periférica capixaba</b></p>
<p>Os dois eventos que consolidaram o lugar cultural periférico ocupado pelo Espírito Santo, no contexto nacional, datam do século XVIII.</p>
<p>O primeiro deles determinou que a capitania fosse transformada quase que em uma simples barreira de proteção das &#8220;Minas Gerais&#8221; e nos privou do capital cultural gerado pelas ricas lavras de ouro que, descobertas em terras capixabas em 1693, seriam incorporadas a São Paulo em 1709: Portugal, temeroso do ataque de piratas, decretou que os territórios situados a leste das minas — e a oeste do Espírito Santo — fossem considerados &#8220;áreas proibidas&#8221;, de acesso vedado, e interditou a construção de estradas por elas. Ao mesmo tempo, a Coroa comprou a capitania, impediu a prospecção de ouro, aprimorou suas fortificações e desestimulou as poucas atividades e iniciativas econômicas que ainda ocorriam.</p>
<p>Tais medidas, além de terem condenado a população à pobreza, retardaram e dificultaram o povoamento, a exploração e a expansão do território. Em conseqüência, não pudemos nem progredir internamente nem, ao menos, vender produtos aos mineiros, o que garantiria uma participação indireta na riqueza dos garimpos e aumentaria o capital cultural circulante.</p>
<p>Com a segunda tragédia, perdemos os jesuítas, que, expulsos do país em 1759, eram detentores do monopólio das instituições escolares e do controle da maioria absoluta das atividades artísticas. A Companhia de Jesus participava, de forma ativa e intensa, do Aparelho Econômico espírito-santense. Possuía, entre muitos outros bens, ricas fazendas que garantiam a sua subsistência e a continuidade dos seus trabalhos por aqui: — destacavam-se Araçatiba, como engenho de açúcar; Muribeca, na criação de gado; Itapoca, na fabricação de farinha.</p>
<p>Esses acontecimentos deixaram marcas profundas na cultura, que entrou de vez em um marasmo comatoso de que despertou com a injeção de capital ocorrida, graças ao café, em meados do século XIX. No entanto, a predominância do capital cultural agrícola, enquanto em todo o Brasil surgia o capital cultural industrial — mais dinâmico, resistente, modernizador e capaz de auto-reprodução — levou-nos a perder um terreno que começaria a ser recuperado no século XX, na década de 1970, quando o processo de industrialização capixaba, produzindo um capital cultural inaudito, garantiu que suas instituições se estruturassem de forma definitiva.</p>
<p>Não achamos correto falar de identidade, de nação brasileira ou de nacionalismo — de nativismo, sim — antes de 1808, ano em que a corte portuguesa se instalou no Rio de Janeiro e em que deixamos de ser uma mera colônia, com os olhos voltados para Portugal, para nos tornarmos, em 1815,  Reino Unido a Portugal e Algarves. Não podíamos, obviamente, construir uma ideologia por falta dos <i>Aparelhos Ideológicos de Estado</i> necessários, criados por diversas medidas de D. João VI. Seu governo revogou as restrições impostas à indústria, ao comércio e ao funcionamento de tipografias. A partir de 1808,  passou a haver liberdade de imprensa, de instalação de indústrias e os portos nacionais foram abertos às nações amigas — o que representou, na prática, o fim do monopólio do Reino sobre a colônia. Além disso, sua política instituiu a Imprensa Régia, o ensino superior, o Banco do Brasil, o Jardim Botânico, a Academia Real Militar, a Biblioteca Real, a Fábrica de Pólvora, o Arsenal Real da Marinha etc. Por fim, em 1816, a missão artística francesa desembarcou no país.</p>
<p>Repetindo, compulsivamente, a tendência primitiva de implantar a realidade por decreto, de cima para baixo, sem ouvir as razões mercantis ou populares, o governo produziu, assim, estruturas econômicas e ideológicas que a conjuntura colonial não engendraria tão cedo e que foram responsáveis pela formação da nação e dos organismos indispensáveis à sua sobrevivência e à reprodução das suas condições de produção.</p>
<p>Como era de se esperar, logo depois de estruturado, o conjunto primitivo de entidades adquiriria vida própria e se encarregaria de criar uma segunda geração de Aparelhos e de agentes que dessem conta da tarefa de compor uma ideologia da cultura nacional. Tal objetivo nortearia a organização do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1838. Por outro lado, a liberdade de imprensa permitiu a criação de editoras e a publicação de jornais, livros e revistas que, provocando uma efervescência artística, científica, crítica, intelectual e política, aceleraram a maturação da nacionalidade.</p>
<p>No entanto, só em 1826,  com a publicação, em Paris e em francês, do <i>Résumé de l&#8217;Histoire Littéraire du Portugal, suivi du Résumé de l&#8217;Histoire Littéraire du Brésil</i>, de Ferdinand Denis, pela Lecointe &amp; Durey, pela primeira vez a literatura brasileira passou a ser estudada como um <i>corpus</i> textual diferente do português.</p>
<p>Ainda que o sermos portugueses não comprometesse a formação <i>natural</i> das características capixabas, de certa forma impedia seus movimentos <i>culturais</i>, já que o modelo ideal paradigmático da sociedade brasileira da época se identificava com a Europa portuguesa. E a ela, portanto, os como nós oitocentistas se voltavam, considerando-a o modelo da perfeição a ser alcançada: nossa meta de Meca.</p>
<p>Podemos compreender, agora, o paradoxo lógico com que abrimos este ensaio: se ninguém percebeu a árvore cair, de que forma saberemos se ela caiu? Analogamente, ainda que nossas características estivessem possivelmente sendo desenvolvidas, em <i>estado bruto, natural</i>, até mesmo antes do século XVI — afinal, a participação indígena na nossa formação ultrapassa a doação da palavra <i>capixaba</i> —  é necessário o <i>pensamento da cultura</i> para captar os dados produzidos e integrá-los em um sistema de idéias do porte de uma ideologia. Melhor dizendo: preparar  muqueca<sup>1</sup>  em panela de barro não basta. Precisamos do olhar penetrante do folclorista — melhor seria um <i>folkman</i>? — para perceber suas peculiaridades, cruzá-las com outras referências e produzir seu estudo comprovando que estamos diante de uma manifestação popular típica.</p>
<p>O Espírito Santo, contudo, apenas conseguiu desenvolver uma infra-estrutura econômica forte o bastante para produzir o capital cultural necessário à montagem de um Aparelho Ideológico completo a partir da segunda metade do século XIX, quando o café passou a ser o principal artigo de exportação.</p>
<p>Em 1840 viria à luz o jornal pioneiro, <i>O Estafeta</i>, que circulou uma vez. <i>O Correio da Vitória</i> surgiria em 1849; <i>A Regeneração</i>, em 1853; <i>O Capixaba</i>, em 1856 e assim por diante. A imprensa passou a servir de púlpito para as discussões dos intelectuais da província que, ainda timidamente, esforçavam-se para buscar os legítimos valores e costumes da plaga.</p>
<p>Os trabalhos de José Marcelino Pereira de Vasconcelos são uma boa mostra de tal esforço. Em 1856, ele publicou, em Vitória, na tipografia de Pedro Antônio d&#8217;Azeredo, o volume inicial da prima antologia de que temos notícia: o <i>Jardim Poético ou coleção de poesias antigas e modernas, compostas por naturais da Província do Espírito Santo</i>. O segundo tomo sairia quatro anos depois, em 1860. Entre ambos, José Marcelino lançou, em 1858, o <i>Ensaio Sobre a História e Estatística da Província do Espírito Santo</i>.</p>
<p>O fato de terem sido impressas — precursoramente — em Vitória nos autoriza a considerarmos estas obras de José Marcelino como evidências da presença de um movimento romântico estruturado em um Aparelho Cultural. Trata-se de uma etapa heróica, de procura de uma linguagem para o ensaísmo, em que encontramos muito do espírito da coletânea caótica — de poemas, no <i>Jardim Poético</i>; de nomes, feitos, descrições, números, documentos e geografias no <i>Ensaio</i> — e pouco da luz racionalizadora da ciência. Fase ainda obsessiva e primeva do  desenvolvimento, similar à da busca da nacionalidade empreendida em termos de Brasil, nela parece ser mais importante invocar e comprovar a existência do Espírito Santo e de seus fenômenos do que compreendê-lo.</p>
<p>Fazendo parte do novo Aparelho Ideológico Cultural que se formava, surgiu a <i>Sociedade Dramática</i>, primeira companhia regional — depois que os jesuítas foram expulsos, no século XVIII —, responsável pela encenação, em 20/8/1841, da peça <i>Maria Teresa, Imperatriz da Alemanha ou o Heroísmo do Amor Filial</i>.</p>
<p>Em virtude da intensa participação dos românticos, muitos deles políticos de relevo, as entidades culturais capixabas foram se constituindo. Em 16/7/1855, ocorreu a inauguração da Biblioteca Pública da capital. Em 1832, a maçonaria instalou, em Vitória, a Loja Beneficência, que seria seguida pela Loja União e Progresso, fundada em 1872.</p>
<p>Os intelectuais abraçaram, com entusiasmo, as causas de interesse do neocolonialismo: a campanha pela abolição da escravatura teve ampla repercussão. Garantiu, sabemos hoje, a ampliação dos mercados consumidores dos produtos ingleses e a passagem do modo de produção escravista para o capitalista. Em 1869, seria criada a Sociedade Abolicionista da Escravatura do Espírito Santo, que, em breve, estaria acompanhada de inúmeras associações congêneres.</p>
<p>A ideologia da cultura capixaba começou a se delinear melhor quando se tornou necessária para a implantação do projeto desenvolvimentista promovido, com mais vigor, a partir do governo de Jerônimo Monteiro (1908-12). Em 1909, ele instituiu o selo e as armas do Espírito Santo. Antes de sua posse, cantava-se, nas cerimônias públicas, a  <i>Marseillaise</i>, o tradicional hino francês. Este despropósito foi mais ou menos corrigido por meio de determinações que, imediatamente, o substituíram pelo hino nacional brasileiro.</p>
<p>Os símbolos podem ser comparados a verdadeiros retratos do Estado e, à semelhança das imagens de deuses e de santos, têm a função de tornar o abstrato concreto e o irreal, palpável. Sua implantação constituiu, assim, uma &#8220;prova&#8221; sensorialmente perceptível da existência do Espírito Santo como unidade distinta do resto da nação. O advento de Jerônimo Monteiro, portanto, marcou o nascimento do saudável bairrismo que vigoraria até o governo Eurico Rezende (1979-83).</p>
<p>Eurico Rezende, com uma única medida administrativa, transformou os principais organismos encarregados da promoção da ideologia da cultura capixaba em inexpressivos departamentos de seu governo, ferindo de morte o bairrismo de que se nutrem os elementos típicos. Entre os moribundos, lamentamos, em especial, pela Fundação Jones dos Santos Neves e pela Fundação Cultural do Espírito Santo — esta última se encontrava, quando de sua facada nas costas, sob a direção  iluminista do  maior conhecedor da terra: o brilhante escritor Renato Pacheco. Ficamos, então, à mercê do neocolonialismo cultural oriundo do estrangeiro e dos grandes centros que nos cercam: Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia.</p>
<p>O tiro de misericórdia — &#8220;até tu, Brutus&#8221;- , com direito a <i>grand finale</i>, foi desferido pela UFES, matando dois coelhos de uma só cajadada. Com um golpe, extinguiu, em 1996, a Editora da Fundação Ceciliano Abel de Almeida, responsável, sob a batuta de Reinaldo Santos Neves, por uma das poucas épocas de ouro literárias que tivemos, sem deixar sucessores com verbas e programas à altura. Com o mesmo, em cruel engano, vendeu a quilo, em 1995, como papel higiênico, o acervo  de obras raras que havíamos reunido. Carlos Nejar, que situamos na relação dos melhores poetas brasileiros de todos os tempos, descreveu a catástrofe em seu artigo &#8220;A queima da Biblioteca de A<br />
lexandria&#8221; ( jornal <i>A Gazeta</i>, Vitória, 25/1/96, Caderno Dois, p. 4):</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<span style="font-size: 85%;">A violência, ou ignorância, ou prepotência não necessitam de argumentos. Mas tivemos em Vitória, neste ano que se findou, conforme informação do próprio editor da Fundação, bem como de escritores locais, um fato pungente e bárbaro. Não foi a queima de uma biblioteca, por acidental engano ou lapso. Foi pior. A Fundação Ceciliano Abel de Almeida, de grata e feliz tradição, através de seu diretor, em face da mudança de sede, agora menor, teria vendido trinta e duas peças do teatro capixaba do século 19, diversas partituras de operetas, obras raras, vários livros de poemas do século 19 e início de 20, os primeiros livros de contos e novelas espírito-santenses, do acervo descoberto pelo historiador e psicólogo Oscar Gama Filho, em árduo trabalho (de 1978 a 1992), além dos originais de autores publicados, constantes do arquivo, como, por exemplo, os de Rubem Braga e José Carlos Oliveira. Esse material insubstituível de nossa memória criadora teria sido vendido, leitores — o que é de pasmar! —, em quilos e quilos, para a confecção do augusto e solene papel higiênico.</span></p></blockquote>
<p>Devemos acrescentar que, após a tragédia, lançamo-nos em trabalho de campo e conseguimos recuperar parte do material destruído. Guardamos conosco, a salvo do vandalismo, inúmeros textos datados de fins do século XIX-início do séculoXX, à espera de alguma entidade com verba e interesse para microfilmá-los. Entre eles, constam as primeiras incursões provincianas no conto, na novela e no teatro.</p>
<p>Depois da produção do <i>selo</i> e das <i>armas</i>, o passo seguinte foi o estabelecimento de associações que desempenharam a dupla tarefa de formação das elites e de criação das bases teóricas &#8220;comprobatórias&#8221; da especificidade e da peculiaridade da cultura regional. Esses objetivos nortearam a fundação do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, em 1916, e da Academia Espírito-santense de Letras, em 1921. Em 1923, nasceu a revista <i>Vida Capixaba</i>, que seria, por mais de três décadas, a principal divulgadora de nossas características.</p>
<p>A Segunda Guerra Mundial abalou as raízes agrícolas tradicionais da sociedade  e introduziu novas empresas, a exemplo da Companhia Vale do Rio Doce e da Companhia Ferro e Aço de Vitória, ambas surgidas em 1942. Ao mesmo tempo, a difusão do modo de vida e dos valores norte-americanos pelo cinema e pelo rádio contribuiu para a modernização do Estado. Essa dinamização se estendeu às artes. Em 1946, jovens escritores — como Christiano Dias Lopes Filho, futuro governador —  lançaram a Academia Capixaba dos Novos, que se propunha a diminuir o marasmo literário vitoriense. Em 1947, ocorreu  a Quinzena de Arte Capixaba, uma amostragem ampla que incluiu recitais poéticos, teatro, palestras, concursos, concertos e exposições. Finalmente, em 1947, foi instituído o Hino do Espírito Santo, único símbolo que faltava. Em seu lugar, desde o governo Jerônimo Monteiro, o Hino Nacional Brasileiro era cantado nas cerimônias oficiais.</p>
<p><b>V &#8211; Artes de criação da cultura capixaba</b></p>
<p>De todos os agentes de construção da ideologia de que necessitamos — para continuarmos a existir —, os artistas merecem ser destacados pelo seu poder divino de introduzir vida, voz e personalidade no que era barro: intuitivamente, os habitantes de um local se reconhecem em certas características culturais produzidas por eles. Seus olhares genesíacos ressuscitam o que é matéria bruta e inerte e criam uma grande personagem: o Espírito Santo. Sim, pois o Estado necessita de uma construção psicológica que o transforme em ser social maior do que a simples soma de dados, pessoas, ruas e moradias. Eles têm o poder de nos apresentar a interessantíssimos tipos populares e — mágica! — fazê-los se reunirem, suspensos no ar, sob a forma do mosaico eternizado que nos define.</p>
<p>Do todo de características desarmônicas e mosaicas, só a arte pode dar conta, graças a seu díspar poder  de apreender até mesmo o futuro. Compõe, assim, o universo cultural, captando-o de sua desarmonia abstrata natural e dando-lhe o toque harmônico da variante estética.</p>
<p>A arte transforma em código estético qualquer tipo de ocorrência, possibilitando a incorporação ao tesouro social e contribuindo para a preservação de preciosas reservas das características humanas que ajuda a alterar.</p>
<p>Ainda que uma indústria pareça absolutamente concreta, houve o arquiteto que  a idealizou em belos projetos que precederam a sua edificação. Em suma, o real se constrói por meio de sonhos que se transformam em &#8220;realidade&#8221;.</p>
<p>Portanto, uma das funções da arte — mosaical e intertextual alicerce da língua —  está centrada na absorção especializada e estética de uma multidão de dados desencontrados para construir sua invariante essencial à revelia da razão. Isso ocorre, não no mundo ideal e irreal de Platão, e sim dentro de uma prática — que podemos sentir porque a ideologia da cultura, em vez de ser abstrata, se materializa em atos, costumes e posturas rituais que deságuam em edificações, em cidades, em ruas e, <i>quem sabe</i>?, na disposição do homem sobre os campos. Muito mais do que pousa sobre os símbolos do Estado, repousa sobre nós sua mão disciplinadora com padrões que — se quisermos ser capixabas — devemos ser capazes de incorporar. É como o ritual de entrada em uma ordem tão secreta, que mesmo nós desconhecemos nossa entrada. Mas os membros reais dariam a própria vida por ela.</p>
<p><b>VI &#8211; Projeto Muqueca<span id="OCMF_RP1V">Muqueca</span><a 1982="" 1986="" a="" africana="" alguma="" ant="" assar="" aur="" buarque="" caldeirada="" carne="" com="" criada="" cunha="" da="" de="" dicion="" do="" e="" etimol="" ferreira="" fronteira="" gena="" geraldo="" gico="" grelha="" holanda="" href="https://www.estacaocapixaba.com.br/#OCMF_RP1" icion="" ind="" janeiro="" l="" lio="" m="" moqu="" moqueca="" n="" ngua="" nio="" nova="" o="" origem="" ou="" ovo="" palavra="" para="" partir="" peixe="" portanto="" portuguesa="" possui="" que="" refere="" rela="" rio="" se="" secar="" segundo="" termo="" title="Muqueca parece a melhor grafia, única usada no Espírito Santo desde o século XIX  até meados do século XX. Apesar de os dicionários adotarem a grafia moqueca, a forma adequada seria a que respeita a sua etimologia, derivada do quimbundo mu'keka, que significa " uma="" ur="" varas=""><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a></b></p>
<p>
Os poderes públicos deveriam se movimentar, repondo este vocábulo perdido e exclusivamente &#8220;capixaba&#8221;. O uso de <i>muqueca</i> em todos os livros didáticos, bem como sua adoção oficial — em documentos, mapas culturais etc. — preservaria o nome do mais típico e festejado prato regional, resgatando-o do esquecimento e do erro e ajudando a manter presente a INDIVIDUALIDADE  da cultura capixaba.</p>
<p>Ah, quase esquecemos!&#8230; Superior à imprecisão de &#8220;identidade&#8221; e ao peso de &#8220;ideologia&#8221;, INDIVIDUALIDADE DA CULTURA CAPIXABA é o conceito que buscamos. Etimologicamente, denota aquilo que não pode ser dividido, que nos torna únicos, conceito que deságua na essência metafísica, átomo de Demócrito, enfim.</p>
<p>A  busca da individualidade aponta para o toque de tempero capixaba que faz únicos os pomeranos de Santa Maria do Jetibá, ainda que eles existam em outros lugares. Proferindo esta palavra-chave da alquimia verbal, espécie de &#8220;abre-te, sésamo!&#8221;, podemos nos referir às várias microrregiões culturais de que somos compostos, diferentes entre si, mas que guardam um sensível sentido de peculiaridade  local em relação a outras microrregiões culturais semelhantes encontráveis no restante do país: apenas nós temos nosso caboclo indígena das praias — filhos espirituais dos jesuítas —, nossos negros suaves, nossos baianos amineirados do norte, nossos italianos alegres, nosso português bem falado,  nossos agropecuaristas tradicionais das montanhas do sul.</p>
<p>É o <i>tempero capixaba</i>, leve toque da poesia típica do Espírito Santo, paraíso terreal da individualidade, onde todos podem se comportar do jeito que quiserem, graças à sua democrática &#8220;pasmaceira&#8221; — uma de nossas características, segundo o dramaturgo romântico Amâncio Pereira —  que, cordialmente, não impõe formas de ser. Sejam bem-vindos!</p>
<p><b>Apêndice</b></p>
<p>Monofonia a Vitória (1551 &#8211; 1981)</p>
<div align="right">
<table border="0" cellpadding="0" cellspacing="0" style="width: 90%px;">
<tbody>
<tr>
<td>Porque as marcas de quatrocentos e trinta anos<br />
subsistem sob o solo e nas sombras e nos segundos andares<br />
de sobrados anciãos alicerçados por lojas comerciais;<br />
Porque são quatrocentos e trinta anos,<br />
Não quatrocentos homens nem quatrocentos e trinta ventos,<br />
Mas quatrocentos e trinta anos que me empurram e que me levam<br />
a passar por todo o supérfluo das lojas do primeiro andar<br />
e as escadas subir e tocar em prostitutas Vitórias do amar;</p>
<p>Tudo em teu corpo cicatricial me leva com 430 anos<br />
a atravessar teus homens e seus desejos de hoje<br />
com a espada silenciosa que uso para não os ouvir<br />
e a seus desejos de novos carros,<br />
E deste sangue despejado em formas<br />
compor aquilo que se foi demolido<br />
contra o desejo não ouvido de homens mais antigos<br />
— e tão os mesmos — <br />
que te pisaram também esquecidos.</p>
<p>Sim, e algo virá do sangue silencioso que agora já corre pelas ruas<br />
mesclando-se ao meu em minhas artérias<br />
mais concretas do que as da parede que veda os buracos<br />
por onde poderia brotar Vitória antiga do sangue que brotará<br />
em mim, refugiada de tempos tão indignos dela,<br />
Refugiada de tempos que nunca a mereceram<br />
e à sua filosófica indiferença<br />
pelo que passa — e tudo passa — <br />
ao largo da alegria prazerosa<br />
e de boa comida na pança.</p>
<p>E do sangue envolvido em muitas partidas para o mesmo ponto,<br />
Envolvido em partos ao avesso feitos dentro de cada artéria,<br />
Virá múltipla brotada em mim a mulher que desceu dos morros<br />
para invadir o mar com lugares por muito procriados,<br />
Virá em mim o Solar dos Monjardins<br />
passar pela mesma rua desmemoriada<br />
em que ingressam a FAFI, a casa do Anísio na Av. Marcos de Azevedo<br />
e as oitocentas casas 197 e 203 da Rua José Marcelino,<br />
Passar por tijolos aposentados que estudaram no Maria Ortiz,   <br />
&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Por tijolos aposentados que lecionaram no secular Convento do Carmo,<br />
&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Por aposentados que se curaram no Convento da Penha,<br />
Aposentados lugares que vão todos os dias — menos domingo —<br />
ao Parque Moscoso ouvir um samba inaudível que desce das favelas<br />
às buzinadas e invade casarões velhos sobreviventes<br />
dos cancerígenos remédios que não respeitaram<br />
a sujeira ancestral do Hotel Europa<br />
e das casas das Ruas Muniz Freire e Duque de Caxias.<br />
Aos domingos, no entanto, trabalham na Empresa Capixaba de Turismo.</p>
<p>Trabalham de graça na mesma empresa em que todos enriquecem,<br />
Com exceção dos aposentados, do antigo Mercado da Capixaba<br />
e de muitas igrejas profanadas quase que pela mesma Rádio Capixaba<br />
que invadiu a igreja de São Francisco<br />
e quase que pelo mesmo governo que instaurou o seu neoluxuoso Palácio<br />
no Colégio dos Jesuítas e na pobre Igreja de São Tiago,<br />
Igreja que Anchieta ajudou a erguer e em que foi sepultado;<br />
E é porque a menor descaracterização descaracteriza toda a cidade<br />
que a culpa de tudo não deixa de ser do governo e da Rádio Capixaba,<br />
Ambos demolidores — não do caos, que é eterno — <br />
Mas da beira de cais capixaba,<br />
Que sobrevive em antigos retratos de sal e de pesca<br />
tirados ao lado de tudo que foi demolido pelos irmãos hunos:<br />
Bernardino e Jerônimo, Monteiros que — junto com D. Fernando bispo — <br />
já-já exorcizo<br />
para alívio das sombras que vêm envolvidas<br />
e disfarçadas em livros perdidos e largados<br />
que surgem, voadores de prateleiras,<br />
E que, subitamente, quando abrem suas páginas solares,<br />
Se tornam carregadores de sombras<br />
que deles são irradiadas<br />
para um papel fotográfico que se impregna e se revela.</p>
<p>Mas não me basta tua foto desnuda<br />
de todos os espigões com que te revestiram,<br />
É preciso — ó bela esquartejada — tomar as sombras<br />
e inventar uma alma enxuta de todo corpo descrente<br />
que não te toca enquanto não for mergulhado<br />
no sangue silencioso de minhas artérias,<br />
Enquanto não for restituída uma glória<br />
que minta sobre a mentira de hoje:<br />
A glória verdadeira de casarões-cogumelos<br />
que límpidos cresceram do esterco e da miséria.</p>
<p>(Eis que alguns pedaços do Penedo dinamitado,<br />
Cansados de beber a água salgada, podre e oleosa<br />
pela qual o Penedo é banhado,<br />
Foram beber água doce no que resta da Fonte da Capixaba,<br />
Fonte de onde jorrou água e de onde jorrou o nome &#8220;capixaba&#8221;,<br />
Mas, se fonte e água ainda existem, as torneiras estão arrebentadas,<br />
E é raiva que o Penedo bebe com a força com que bebia o mar<br />
até a maré baixar. E diz o Penedo:<br />
&nbsp; &nbsp; —&nbsp;&#8220;Rua Barão de Monjardim, rua da Fonte da Capixaba, fica com a rua<br />
e me dá o barão, que hoje não tem mais água, não;<br />
Me dá um barão que suba pelo Morro do Vigia,<br />
De onde desce, em aqueduto de telhas, a Fonte da Capixaba;<br />
Me dá um barão que suba pelo morro que eu via<br />
e que veja o calçamento pé-de-moleque feito pela gente escravizada;</p>
<p>Me dá um barão que aprecie as árvores imensas<br />
como a angústia de Oscar apreciava;<br />
Me dá um barão que me dê muletas<br />
para que eu me levante sem as pernas esquartejadas;<br />
Me dá um barão muito influente,<br />
Pois só pela influência o Poder ouve, vê, fala e sente;<br />
Me dá um barão que defenda Vitória da destruição total<br />
mais do que o forte São João defendia Vitória das invasões estrangeiras;<br />
Me dá um barão com mais glória<br />
do que a glória do concreto armado do Edifício Glória;<br />
Me dá um barão com muito ouro<br />
que vá comigo ao Teatro Carlos Gomes entoar este coro:</p>
<p>CORO:<br />
Aterraram o contorno da ilha porque era negro e de barro,<br />
Aterraram com terra, com edifícios e com carros;	</p>
<p>Aterraram os teus mangues,<br />
Aterraram os veios de lama,<br />
Aterram os teus mangues,<br />
Veias por onde corria teu sangue.</p>
<p>Eras uma terra molhada,<br />
E hoje, que aterraram teu molho,<br />
Terra molhada, onde estão teus mares,<br />
Onde está teu álcool,<br />
Onde estão teus santos bares?</p>
<p>Onde estão todas as coisas centenárias,<br />
Onde estão os Caramurus e Peroás<br />
da Igreja de São Francisco<br />
e da Igreja do Rosário,<br />
Onde está a procissão?&#8221;</p>
<p>Onde está? e só  a pergunta refaz a procissão,<br />
E só  a pergunta anda pelo chão;<br />
Mas, como perguntas não são cristãs, <br />
Elas não rezam para deus, <br />
E sim para seus representantes:<br />
Estas Igrejas de Santa Luzia e de São Gonçalo,<br />
Símbolos da decadência de uma classe dominante.</p>
<p>Teu povo olha pra baixo, ó bela avoada,<br />
Envergonhado por ser igualado às outras massas<br />
logo pela mudança na direção de passos já dados,<br />
Logo pela demolição de teus primeiros passos, <br />
Mas, sem base que os sustentem,<br />
Os segundos andares dançam no espaço<br />
um balé desorbitado que levanta pescoços, <br />
Um balé em que pesados prédios libertos reconstroem a antiga cidade<br />
erguendo nos braços — leves bailarinas do guardado —  <br />
estampas e letras inumanamente gravadas pelo passado.)</p>
<p>[GAMA FILHO, Oscar. <i>O Despedaçado ao Espelho</i>. Vitória, Fundação Ceciliano Abel de Almeida/Universidade Federal do Espírito Santo, 1988. pp. 90-4.]</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<div style="text-align: left;">
</div>
<div style="text-align: left;">
_____________________________</div>
<h4 style="text-align: left;">
NOTAS</h4>
<div id="OCMF_RP1">
<div style="text-align: left;">
<a href="https://www.estacaocapixaba.com.br/#OCMF_RP1V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a>&nbsp;<i>Muqueca</i> parece a melhor grafia, única usada no Espírito Santo desde o século XIX  até meados do século XX. Apesar de os dicionários adotarem a grafia <i>moqueca</i>, a forma adequada seria a que respeita a sua etimologia, derivada do quimbundo <i>mu&#8217;keka</i>, que significa &#8220;caldeirada de peixe&#8221;, segundo Antônio Geraldo da Cunha (<i>Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa</i>, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1982). A palavra, portanto, é de origem africana e não possui relação alguma com moqueca, criada a partir do termo indígena <i>moquém</i>, que se refere, segundo o <i>Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa</i>, a uma &#8220;grelha de varas para assar ou secar a carne ou o peixe&#8221; [Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1986].</div>
</div>
<div style="text-align: left;">
</div>
<p></p>
<div style="text-align: left;">
[GAMA Filho, Oscar.&nbsp;<i>O capixaba metafísico</i>. Texto inédito reproduzido com autorização do autor.]</p>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
</div>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
</div>
<p></p>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://2.bp.blogspot.com/-cSP1d67i2oE/WFGkMm6tN-I/AAAAAAAALGA/F7BteoUPsxw-q6XT8thW0randFqs4l06wCLcB/s1600/4.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img decoding="async" border="0" height="43" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/4.jpg" class="wp-image-5956" width="200" /></a></div>
</div>
<p></p>
<div style="text-align: left;">
&#8212;&#8212;&#8212;</div>
<div style="text-align: left;">
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.</div>
<div style="text-align: left;">
&#8212;&#8212;&#8212;</div>
<p><b><br /></b><br />
</p>
<blockquote class="tr_bq" style="text-align: left;"><p>
<b>Oscar Gama Filho&nbsp;</b>é psicólogo, poeta e crítico literário com diversas obras publicadas.(Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/oscar-gama-filho-bio-bibliografia/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
</div>
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			</item>
		<item>
		<title>Pavana para um macaco pré-socrático</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 18:05:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Gilbert Chaudanne]]></category>
		<category><![CDATA[Identidade Capixaba]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#8220;Pavana para um macaco pré-socrático&#8221;. Desenho de Gilbert Chaudanne. &#160;Santa Teresa de todas as Rosas. Seu bosque — Arca de Noé — o chamado Museu, com sua parafernália de bichos presos e soltos e a majestade monárquica das suas vegetações. E o homem a flanar pelo labirinto da natureza levemente humanizada, demorando na contemplação de [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/chaudanne_5.gif" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" width="197" height="250" alt="&quot;Pavana para um macaco pré-socrático&quot;. Desenho de Gilbert Chaudanne." border="0" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/chaudanne_5.gif" class="wp-image-5972" title="&quot;Pavana para um macaco pré-socrático&quot;. Desenho de Gilbert Chaudanne." /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">&#8220;Pavana para um macaco pré-socrático&#8221;. <br />Desenho de Gilbert Chaudanne.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>&nbsp;Santa Teresa de todas as Rosas.</p>
<p>Seu bosque — Arca de Noé — o chamado Museu, com sua parafernália de bichos presos e soltos e a majestade monárquica das suas vegetações.</p>
<p>E o homem a flanar pelo labirinto da natureza levemente humanizada, demorando na contemplação de um gato do mato com seu olhar imenso e assim como noturno e imensamente cósmico imensamente. Flutuação de outros olhares de outros bichos: cavalos na feira de Carapina, olhares dessa vez femininos, como os das marro- quinas por cima do véu islâmico, uma tristeza junto com uma delicadeza que faz olhar para dentro do homem como uma consciência cheia de brandura, uma consciência de mel, pode ser, que não é mais aquela espada do olhar da pedra cortada — não — olhar consciência da colmeia, mel-néctar de que pulo por cima do conhecimento?</p>
<p>Entretanto, na surpresa de uma senda à meia-luz, o estremecer de um olhar debaixo das folhas mas por cima de uma árvore, um olhar inquieto, raciocinante, bisbilhoteiro, curioso que só uma criancinha, redondo como o botão de um casaco, um olhar moleque e meio amigo, meio safadinho: o macaco, funcionário eficiente da mata com suas suíças, vigia de primeira e filósofo dessa mata toda, o único a olhar o homem com um olhar de homem — de igual para igual — surgindo dessa mata, não como o leão, como o rei pela majestade e a força, não, o macaco surge da mata como o homem surge do macaco — quer dizer com um não-sei-o-quê no olhar que diz que ali pára o afresco monumental dos Grandes Carnívoros e dos paquidermes hiperbólicos; é o fim da ópera cósmica, com as girafas fatais: Carmen, com as traviatas asmáticas: hienas, os otelos desvairados: leão, as Butterfly de São Nunca: antílopes e todas as beldades transmundanas do palco da mata, meu Deus, não.</p>
<p>Com o macaco, o homem entra na roda, (e) exatamente o homem-Voltaire. Com o macaco há de mandar para as favas a parafernália operística e olhar na sua frente aquela mata barroca — e resolver ou não, mas pelo menos tentar resolver esse problema sério do espaço primato: &#8220;il faut cultiver notre jardin&#8221; (há que cultivar nosso jardim). Esse olhar do macaco é o de Voltaire olhando para o jardim do espaço humano e cortando, talhando os galhos da mata doída, da ópera da mata. Esse olhar redondo como a crítica da Razão Pura chama a razão prática — aquele espírito dos limites que nos cercam e a volta ao lar, renunciando definitivamente às aventuras, dentro da mata divina e feroz. Descartar a loucura, mesmo sendo inspirada pelos deuses — descartar a encenação dos Bichos Divinos e recolher-se por cima do bom senso de um Descartes não descartável e da pequena razão prática sobre esse galho que é meu porque eu o plantei e que dá as costas para os galhos cósmicos da mata, mesmo se esta, grande, salada que ela é, me apunhala por trás — traiçoeira como os felinos do último suspiro.</p>
<p>Porém, havia também, e isto simultaneamente com a presença voltairiana no olhar do macaco, algo que não tinha nada a ver com a crítica da Razão Pura e prática. Era como uma coluna de pedra preta — parecida com os lingás da Índia — que erguia-se dentro da menina dos olhos, que era como uma árvore de pedra parecendo sustentar a mata — ou então parecia que a mata toda se refletia dentro dessa pedra preta barrando a pupila — era como uma noite aberta, e nesse &#8220;pas de deux&#8221; entre o aberto e a noite, não havia mais lugar para qualquer tipo de razão, ou pura ou pratica — se havia lugar, era para uma espécie de espinha dorsal se espinhando todinha e que era como o eco plástico dos vagidos, dos gritos que enchiam a mata. O macaco não era mais o primo do homem, ele era então o antiesboço do humano, era uma gaiola torácica cheia do canto rouco da mata, um sopro que não respirava ao ritmo nosso, mas que ria nas nossas costas como a conclusão mal educada do nosso macaco, baixando as calças que ele nem tinha, mostrando para mim, humano, — o buraco do seu cu — e cagando magnificamente sobre minha humanidade.</p>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/chaudanne_7.gif" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" width="188" height="250" alt="&quot;O macaco cagando em cima da minha humanidade&quot;. Desenho de Gilbert Chaudanne." border="0" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/chaudanne_7.gif" class="wp-image-5973" title="&quot;O macaco cagando em cima da minha humanidade&quot;. Desenho de Gilbert Chaudanne." /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">&#8220;O macaco cagando em cima da minha humanidade&#8221;. <br />Desenho de Gilbert Chaudanne.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>[CHAUDANNE, Gilbert. Pavana para um macaco pré-socrático. Revista&nbsp;<i>Você</i>, Vitória: Ufes, n.17, II, nov. 1993. Terceiro texto da segunda trilogia. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 1993&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação<b>&nbsp;sem prévia&nbsp;autorização&nbsp;</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Gilbert Chaudanne&nbsp;</b>é artista plástico e escritor. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-gilbert/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Pedra, dragão, bailarina</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 17:57:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Gilbert Chaudanne]]></category>
		<category><![CDATA[Identidade Capixaba]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#8220;Pedra Azul&#8221;. Desenho: Gilbert Chaudanne. &#160;Você sabe — há aquelas viagens de ônibus-do-Brasil, flutuando na fofura dos seus assentos e no asfalto-fita da estrada. O viajar profundo das estradas, e que mais? Sonolento o passageiro &#8220;dentro da noite veloz&#8221; sonolento e como magnífico analgésico de todas as dores do pobre espaço humano, aquele acordar que [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/chaudanne_1.gif" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" width="210" height="250" alt="&quot;Pedra Azul&quot;. Desenho: Gilbert Chaudanne." border="0" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/chaudanne_1.gif" class="wp-image-5984" title="&quot;Pedra Azul&quot;. Desenho: Gilbert Chaudanne." /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">&#8220;Pedra Azul&#8221;. Desenho: Gilbert Chaudanne.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>&nbsp;Você sabe — há aquelas viagens de ônibus-do-Brasil, flutuando na fofura dos seus assentos e no asfalto-fita da estrada.<br />
O viajar profundo das estradas, e que mais?<br />
Sonolento o passageiro &#8220;dentro da noite veloz&#8221;<br />
sonolento e como magnífico analgésico de todas as dores do pobre espaço humano,<br />
aquele acordar que não sabe se acordou realmente que flutua como o ônibus na fita-estrada entre o consciente e o reino dos peixes dourados dentro da abóbada de nossos crânios ocos, meu deus!<br />
Há a estrada-fita do Brasil e o cenário montado na beira dessas estradas e que o homem chama de paisagem.<br />
Porém não há nenhuma certeza que essa paisagem exista e pode ser que isso tudo, essa paisagem pode ser apenas uma encenação grandiosa de um artista oculto que mora e trabalha na beira da estrada, meu deus!<br />
Sonolento então eu, e a pedra se levantou diante do meu olhar semi-fechado e meu olho via o mundo-paisagem através da grade dos meus cílios<br />
e a pedra se levantou diante dos meus cílios<br />
e ela foi logo dona do meu olhar que se tornou oco,<br />
e ela enchia o espaço do meu olhar oco,<br />
e meu olhar se tornara então um olhar de pedra como<br />
o dos deuses de mármore e granito das civilizações mortas<br />
a pedra enorme, exaustiva era azul<br />
e meu olhar pois, azul também era,<br />
azul, a cor do absoluto<br />
a cor doce de um absoluto que faz gritar<br />
e se erguer definitivamente no derradeiro espasmo<br />
antes de toda morte<br />
O corpo duro e o olhar fixo da pedra<br />
o homem duro e morto como a pedra morta<br />
o amigo-homem morto! oh cristãos-vivos, uma perda dura!</p>
<p>Entretanto isto era apenas uma face dos mil rostos de pedra, era a face da pedra dura;<br />
mas havia também a face da pedra azul, naquela hora, no meio da noite oca, era um azul escuro mas trespassado por uma luz-transparência e difusa que fazia o olhar se perder na ausência de um centro<br />
dentro desse azul de ópera<br />
e naturalmente<br />
logicamente<br />
o olhar ia deslizando como um trenó dentro da neve até vir bater na cristalização desse azul do céu na pedra azul de todos os céus.<br />
A pedra erguida era o dedo indicador, a última manifestação da terra morena já angelizada pelo azul absoluto e oco, era o sexo da terra erguida com sua epiderme de anapiê e de capim santo querendo penetrar o imponderável do céu diáfano e assexuado como os Anjos-de-Nosso-Senhor<br />
e por cima da pedra, havia o holofote da morte veloz: a lua,<br />
toda cheinha de ginga, de meiguice enfeitada, arrumadinha como para uma festa junina, falsa matuta e ao mesmo tempo imensamente rainha, pálida<br />
porém radiante<br />
Salomé<br />
marcando seu próprio ponto<br />
na frase hieroglífica da paisagem;<br />
enfim uma nuvem de extrema delicadeza, algo como uma musselina, uma gaze não usada dos hospitais, flutuando dentro da sua própria leveza e na leveza de uma bailarina e seu &#8220;tutu&#8221;<br />
gaseosa e vapor / a bailarina debaixo da lua, dançando, voando por cima da pedra imensa- erguida,<br />
meu deus! e dentro da menina dos meus olhos como uma homenagem à pedra e aos meus olhos<br />
uma homenagem absoluta da leveza para a potência turgescente e erguida na quase eternidade do granito:<br />
núpcias!<br />
núpcias da introversão do granito com o nunca-estar-aqui da bailarina e sua imponderabilidade infinita.</p>
<p>E agora surgindo dos anapiês e do capim santo,<br />
com sua face milenar e enrugada, boiando simbolicamente no sangue de 10.000 virgens, o Rei-lagarto celebrando sua realeza esfregano sua barriga de couro velho no couro cristalizado da pedra, tentando abraçá-la, essa pedra ou o quê? Que tipo de bodas desta vez tétricas, caduceu, e traumatizantes para o zé-humano vão florescer nessa noite sem fim por cima da montanha e debaixo da lua pré-histórica ou o que é? que antiga estória mal-assimilada está sendo contada aqui na base do granito, da escama e da musselina. Pedra, dragão, bailarina, o Dragão-Rei, o lagarto largado desvairado, lentamente se imobiliza, entra na fascinação da<br />
pedra<br />
e se torna pedra fascinada pela bailarina<br />
e assim o triângulo se fecha:<br />
no cume a bailarina<br />
na base a pedra e o lagarto<br />
e no centro do triângulo<br />
o olhar do meu olho que já não é mais o meu<br />
mas algo imensamente feroz como o Rei-lagarto<br />
algo imensamente terno e cheio de graça como a bailarina<br />
algo de imensamente azul como a pedra.</p>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/chaudanne_2.gif" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" width="177" height="250" alt="&quot;O rei lagarto&quot;. Desenho: Gilbert Chaudanne." border="0" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/chaudanne_2.gif" class="wp-image-5985" title="&quot;O rei lagarto&quot;. Desenho: Gilbert Chaudanne." /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">&#8220;O rei lagarto&#8221;. Desenho: Gilbert Chaudanne.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>
[CHAUDANNE, Gilbert. Pedra, dragão, bailarina. Revista&nbsp;<i>Você</i>, Vitória: Ufes, n.16, II, out. 1993. Segundo texto da segunda trilogia. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 1993&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação<b>&nbsp;sem prévia autorização&nbsp;</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Gilbert Chaudanne&nbsp;</b>é artista plástico e escritor. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-gilbert/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Mitologia do beija-flor: um beijo de princípios</title>
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		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 17:55:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#8220;Um beijo de princípios&#8221; Desenho: Gilbert Chaudanne. A Bíblia conta a história desses anjos que acharam as filhas dos homens tão bonitas que acabaram se apaixonando por elas. Ora, temos na natureza alguma coisa que se parece bastante com essas bodas míticas — quero falar do beija-flor e da flor e do beijo que o [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/chaudanne_4.gif" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" width="125" height="250" alt="&quot;Um beijo de princípios&quot; Desenho: Gilbert Chaudanne." border="0" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/chaudanne_4.gif" class="wp-image-5989" title="&quot;Um beijo de princípios&quot; Desenho: Gilbert Chaudanne." /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">&#8220;Um beijo de princípios&#8221; Desenho: Gilbert Chaudanne.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>
A Bíblia conta a história desses anjos que acharam as filhas dos homens tão bonitas que acabaram se apaixonando por elas. Ora, temos na natureza alguma coisa que se parece bastante com essas bodas míticas — quero falar do beija-flor e da flor e do beijo que o beija-flor dá na flor.</p>
<p>A flor pode ser considerada como uma espécie de prima das filhas dos homens. Como ela, como a moça, ela é delicada, feita de uma carne que não sente o peso da sua própria gravidade e, como a moça, se abre para a vida toda, para a luz do dia, para o mundo aqui diante dela; ela não está sozinha na sua beleza — sua beleza é para todos, sem que isto seja uma prostituição, ela é gratuita, não cobra nada, é tão pura como a claridade do céu, do dia. Sua beleza irradia simplesmente com a majestade de uma rainha ou de uma rosa — menina-rosa e outras moças-flores — gentilmente oferecidas ao nosso desejo-borboleta e suas carícias reais ou sonhadas.</p>
<p>A flor como a moça, de tão bela e delicada que é, termina deixando a impressão de que é imaterial — quer dizer, que não é mais terrestre, mas que, nela, há um princípio angelical que foi ali depositado para trabalhar no sentido da beleza transparente. Mas tanto a flor como a moça não deixam de ser terrestres, bem nutridas pela Terra-mãe que generosamente dá seu suco, sua seiva, seu leite.</p>
<p>Mas então, a flor como a moça, a moça-flor como a flor-moça (formosa) contém em si uma parcela do princípio angelical e, para completar essa natureza angelical, tem que se juntar ao anjo em si, ao anjo puro. Ela chama o anjo para ser beijada por ele e, no caso da flor, o anjo é o pássaro: o beija-flor vai assumir este papel. O pássaro, ali, é o pendente natural e lógico do anjo: como ele, voa, não conhece o peso das coisas e dos corpos; como ele, o pássaro é provido de asas e havia de ser um ser que escapasse à gravidade para beijar a flor ou a moça — já que essas, como vimos anteriormente, conseguem, pela sua beleza e seu frescor, nos fazer esquecer a gravidade da Terra que as sustenta. A flor — como a moça — não podia ser beijada por seres comuns, feitos de carne pesada e de lábios sangüíneos. Para que a leveza absoluta pudesse sobreviver, havia que Ter seres que viessem do céu, que vivessem por cima da Terra e da sua gravidade e cujos beijos fossem tão leves como o vento.</p>
<p>E o que é que o anjo vem buscar na moça, e o pássaro na flor? Eles vêm buscar o suco, o leite, a seiva da Terra, a essência da Terra, a sua força sublimada no céu dos princípios. E tanto o anjo como o pássaro precisam, para manter uma forma, para não se evaporarem no céu dos princípios, desse líquido requintado, desse licor — uma verdadeira bebida para os deuses. (É bem conhecido que o colibri procura o néctar fabricado pela flor — quanto à moça, seu néctar pode ser sua virgindade, mas a própria palavra néctar é também sinônimo de essência — essência da flor junto com mais uma essência, que é a do seu perfume — essência de toda a virgindade, a moça.)</p>
<p>Pois é evidente agora a necessidade irreversível do beijo — sua fatalidade — entre o pássaro e a flor. Trata-se também de umas núpcias que não são totalmente consumidas, núpcias em afloramento na flor apenas esboçadas na beleza do gesto e na sua elegância — o beijo — e é também a conjunção da beleza-leveza celeste absoluta (anjo ou pássaro).</p>
<p>Porém, na Bíblia, os anjos consumam as bodas com as moças, com as filhas dos homens. Mas núpcias desse tipo não podem ser consumadas através do acasalamento carnal, elas têm que ficar no plano espiritual, onde o corpo participa pela sua dança para manter assim a leveza que é sua marca. Em caso contrário, caímos de novo no pesadume do instinto com seres que trasncendem a esse instinto — isto por causa de suas essências angelicais — e o acasalamento consumado torna-se monstruoso; resultado: nasce uma raça de gigantes altamente destruidores e anarquistas, pesados esmagando a leveza tão procurada.</p>
<p>Porque trata-se, aqui nessa aproximação do anjo-pássaro com a moça-flor, de uma aproximação dos princípios, amis exatamente da poesia dos princípios; não se trata de um simples ato curto e grosso — como o ato sexual —, mas de um gesto, quer dizer, um ritual, e, já que a leveza é a componente essencial dos dois parceiros, essas bodas, para conservar a leveza, devem realizar-se apenas como elegância e dança: um beijo leve e não guloso — não um beijo de carne, mas um beijo de princípios. Isto que é o beijo do beija-flor na flor.</p>
<p>E, finalmente, esse beijo-do-beija-flor-na-flor lembra mais os anjos mensageiros (como o Anjo Gabriel na Anunciação) que não têm contatos carnais com o humano, mas que apenas fazem o gesto de tocar o ombro dos homens com a ponta dos dedos para adverti-los de uma presença imponderável e meio assustadora, e esse gesto na sua leveza é o verdadeiro beijo do anjo, igual ao sopro do vento ou a afloração da flor, o gesto e a dança do beija-flor diante da boca da flor.</p>
<p>[NB. Esse texto continua a evocação poético-mítica do espaço &#8220;Espírito Santo&#8221;. As preserpadas eleganes e carinhosas do beija-flor capixaba são a ilustração de um certo angelismo dentro desse espaço real-mítico que vem se juntar ao dionisismo, ao apolinismo para reforçar o efeito mosaico.]<br />
[CHAUDANNE, Gilbert. Mitologia do beija-flor: um beijo de princípios. Revista&nbsp;<i>Você</i>, Vitória: Ufes, n.15, II, set. 1993. Primeiro texto da segunda trilogia.]</p>
<p>[CHAUDANNE, Gilbert. Mitologia do beija-flor: um beijo de princípios. Revista&nbsp;<i>Você</i>, Vitória: Ufes, n.15, II, set. 1993. Primeiro texto da segunda trilogia. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://4.bp.blogspot.com/-cSP1d67i2oE/WFGkMm6tN-I/AAAAAAAALGA/IqH0TV1dMekkOLLdaSkGZ4tBB8PvUu7NQCEw/s1600/4.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="43" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/4-1.jpg" class="wp-image-5990" width="200" /></a></div>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 1993&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação<b>&nbsp;sem prévia&nbsp;autorização&nbsp;</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Gilbert Chaudanne&nbsp;</b>é artista plástico e escritor. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-gilbert/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<item>
		<title>Identidade capixaba — O efeito mosaico</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/identidade-capixaba-o-efeito-mosaico/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 17:47:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Gilbert Chaudanne]]></category>
		<category><![CDATA[Identidade Capixaba]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Desenho: Gilbert Chaudanne. O Brasil é por excelência uma terra sincrética — quer dizer que ele justapõe vários elementos muito diferentes, por exemplo a cultura européia, a negra e a indígena. Mas, se não há sínteses dessas culturas, há um jogo de coabitação harmônica criadora de uma cultura própria: a cultura Brasileira, a cultura Morena. [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://2.bp.blogspot.com/-9D7ijwAZ0Uo/WE2SJo-0cmI/AAAAAAAALDg/KmWzziD5lko8Ba3bI2FRCYYyWghGs-crgCLcB/s1600/chaudanne_3.gif" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Desenho: Gilbert Chaudanne." border="0" height="200" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/chaudanne_3.gif" class="wp-image-6001" title="Desenho: Gilbert Chaudanne." width="173" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Desenho: Gilbert Chaudanne.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>
O Brasil é por excelência uma terra sincrética — quer dizer que ele justapõe vários elementos muito diferentes, por exemplo a cultura européia, a negra e a indígena.</p>
<p>Mas, se não há sínteses dessas culturas, há um jogo de coabitação harmônica criadora de uma cultura própria: a cultura Brasileira, a cultura Morena. Tudo acontece como se esses vários aspectos, no lugar de se erguerem como focos de conflitos e de asperidade friccional entre as diferentes culturas, foram, no decorrer do tempo, amansando seus aspectos mais extremistas, misturando-se com o outro absoluto, que é a cultura do outro, e encontrando nessa outra cultura semelhanças que permitem uma convivência pacífica — assim pode ser visto o papel duplo dos santos do cristianismo e os orixás do candomblé, ou a introdução de um pensamento europeu (Kardec) nesse mesmo candomblé africano.</p>
<p>E em geral, as várias facetas do gênio brasileiro estão sendo polidas para — de mosaico que elas formam inicialmente — transformar-se em um verdadeiro espelho capaz de refletir o Ser Brasileiro, sua identidade. E assim acontece nos pontos mais evidentes dessa identidade: Nordeste, Minas, Rio Grande do Sul, assim como em outros cuja identidade é mais complexa mas não menos solidificada: Rio de Janeiro, Maranhão, etc&#8230;</p>
<p>Porém há uma região, um estado que não parece obedecer a essa &#8220;política&#8221; do espelho brasileiro: o Espírito Santo — E por quê? É que neste estado o efeito mosaico tem uma presença quase que ditatorial do Brasil mosaico de povos, de culturas — sim, já fizemos esta observação —; mas o mosaico pelo sincretismo conseguiu fazer desaparecer as pastilhas do mosaico e fundi-las num espelho geral. O que acontece pois no Espírito Santo?</p>
<p>O efeito mosaico é, de fato, o efeito &#8220;espelho quebrado&#8221;, porque, viajando pelo estado, além de uma paisagem montanhosa que é como uma reformulação de uma antiga criação da mãe-terra e que participa do isolamento (ou da colocação em ilha, &#8220;ilhação&#8221;, de cada município —, as montanhas funcionam como muralhas naturais), há o cintilar do mosaico de várias culturas, etnias, línguas: alemães, pomeranos, italianos, austríacos, poloneses, luxemburgueses, suíços, negros, índios (esses de várias tribos) usando sua própria língua (nem sempre, entretanto) e até a roupa típica do seu povo, e isto provoca um efeito altamente onírico ou efeito de irrealidade.</p>
<p>Presenciar a atuação ao vivo, no espaço reduzido de alguns quilômetros, de um índio, de um louro, de um negro, de um mestiço, cada um carregando seus mitos, seus deuses, seus filhotes, assim como se essa terra do Espírito Santo fosse um imenso congresso permanente de todas as raças ou um caldeirão de antes da divisão da terra em países e onde elas podem conviver — essas raças — sem se defrontarem diante de uma balcanização (que é o caso da Iugoslávia hoje ou do ex-império soviético).</p>
<p>O plurilinguismo do estado (alemão, italiano, pomerano, línguas indígenas, etc&#8230; ) obedece casualmente ou logicamente ao &#8220;selo do nome próprio&#8221; já que o estado é dedicado ao Espírito Santo que é o que dá o dom das línguas. Ou ao contrário esse plurilinguismo pode ser visto como um efeito &#8220;Torre de Babel&#8221; — confusão das línguas, que seria confirmado pela estrutura de torre de certas montanhas.</p>
<p>Mas também sem que houvesse uma tentativa para casar a concertina com o batuque, ficando assim numa justaposição de elementos divergentes que consagra justamente o efeito mosaico — ou o espelho quebrado.</p>
<p>Quanto à capital, Vitória — ela se torna nessa maneira de conceber a identidade capixaba uma capital lógica no plano simbólico, já que é o mosaico do mosaico. Vitória é uma ilha, melhor, um agrupamento de ilhas (ilha do Boi, do Frade, do Príncipe, etc&#8230;), na verdade a baía de Vitória é um mosaico de ilhas, uma verdadeira renda marítima e terrestre.</p>
<p>Vitória é uma ilha e assim ela lembra a pastilha que é o elemento pelo qual se constrói um mosaico. Mas ela é a pastilha por excelência já que é delimitada da maneira mais nítida, mais franca possível — geograficamente falando — delimitada por água enquanto que as outras pastilhas (municípios, microrregiões) têm fronteiras não tão nítidas já que são puramente terrestres.</p>
<p>Mas se Vitória pelo fato de ser ilha é a pastilha por excelência, a pastilha-mãe, ela se manifesta ainda de outra maneira em relação ao efeito mosaico: é que ela é, em si, também um mosaico, como lugar de confluência dos povos vindos do interior (italianos, alemães, etc&#8230;) como de outros chegando diretamente do exterior (libaneses, gregos, etc&#8230;), além do fato de que sua geografia de montanhas conturbadas e de pedaços de mar entrando na terra, junto com o jogo das ilhas como visto anteriormente, participa também dessa divisão extrema e extrema diversificação do espaço na sua morfologia e na sua cor que é o caráter do mosaico.</p>
<p>Povos do exterior: gregos, libaneses. Os gregos? Participando do mosaico capixaba, parece até redundância, porque os gregos como alicerces do Império Bizantino se identificaram durante essa fase da sua história com a arte do mosaico, além do mais a Grécia, como Vitória, é um mosaico de ilhas e montanhas e a Grécia da antiguidade clássica não era uma nação unida mas uma constelação de povos diferentes embora todos gregos como acontece aqui também no Espírito Santo, todos diferentes e todos capixabas.</p>
<p>E certamente não é por acaso se encontramos aqui um artista e artesão grego que espalha seus mosaicos pela cidade-capital: Yannis Zavoudakis, obedecendo ao velho antigo instinto do mosaico greco-capixaba.</p>
<p>Os libaneses, muito presentes, apresentam — se assim se pode dizer — características de mosaico: de etnia árabe, de religião cristã, falando várias línguas além da língua materna — com uma preferência tradicional pelo francês, vocação cultural de fineza e requinte —, com um talento nato pelo comércio (antiga herança fenícia provavelmente), com aquela antiquíssima tradição de emigração sem, entretanto, perder o contato com a pátria — aspectos muito diferentes que lembram o cintilar do nosso mosaico da identidade.</p>
<p>Assim Vitória, por causa da sua geografia física e humana, se torna no plano simbólico o mosaico do mosaico, o que a faz alcançar assim como naturalmente o estatuto de capital — ali temos um exemplo implacável de lógica dos símbolos.</p>
<p>Porém, além do efeito mosaico há outro efeito: é o efeito paraíso que é um fenômeno nacional no Brasil. Nesses povos, tão diversos, reunidos num espaço relativamente pequeno do Espírito Santo pelas vontades dos deuses ou os soluços da história, há uma antiga crença que está correndo debaixo das suas peles: é a busca do país perfeito, do país-maravilha, do Eldorado, o paraíso aqui e agora, nesta terra mesmo e não no céu do catecismo e da morte feliz do cristianismo.</p>
<p>Essa busca no estado do Espírito Santo apresenta um perfil perfeito: para os povos europeus e especialmente os louros germânicos, o Brasil sempre assumiu o papel de paraíso tropical, fartura e prazeres sobretudo.</p>
<p>E assim chegaram os louros e, no lugar da fartura tropical, depararam-se com a Via Crucis da subida na montanha, verdadeira epopéia mortífera, onde o paraíso não se concretizava e conseguiam, ao contrário do previsto, realizarem-se na paz de toda morte. Os sobreviventes entravam no inferno tropical até sair dele depois de uma longa luta de gerações contra a maldição da Terra. Mas essa busca do paraíso aqui e agora, se ela parece mais marcada pelo espírito europeu, não deixa de atuar também no índio, no próprio nativo.</p>
<p>Esses índios têm uma tradição que fala da &#8220;terra-sem-males&#8221; e por causa disso uma tribo saiu lá do Rio Grande do Sul à procura dessa terra e finalmente parou no Espírito Santo como os alemães, os italianos e outros, e concluindo como os louros que o paraíso não se encontrava nessa terra do Espírito Santo — apesar de todo o misticismo do seu nome — e o guia espiritual da tribo concluiu que pode ser do outro lado do mar&#8230; de lá onde os italianos, alemães e outros chegaram, pode ser que lá se encontrasse a &#8220;terra-sem-males&#8221;.</p>
<p>Trata-se de um verdadeiro vai-e-vem do efeito paraíso, nesse estado do Espírito Santo, que faz papel de verdadeira garagem desse paraíso. Neste aspecto o Espírito Santo encarna com força dupla esse efeito paraíso e nesse sentido ele é sintomaticamente brasileiro já que esse efeito paraíso é um dos mitos fundadores do Brasil e das Américas. Mas já que o paraíso não se concretizava todos, louros, índios, negros, ficaram ali mesmo, certamente cansados de tanta busca estéril, não tendo solução a não ser a de ilustrar mais uma vez a velha danação: &#8220;ganharás teu pão com teu suor&#8221;, em outros termos: &#8220;trabalha,e confia&#8221;.</p>
<p>E assim cada comunidade se organizou num espaço fechado (que a geografia proporcionava com abundância — efeito mosaico de geografia), pode ser para, depois do fracasso da busca paradisíaca, recentrar-se na saudade da terra-mãe, da pátria longínqua e rapidamente idealizada; mas esse fechamento provoca a fragmentação da identidade que é a do espelho quebrado, quer dizer, do mosaico. O paraíso aqui e agora, essa busca típica do imaginário brasileiro, desemboca, no Espírito Santo, no mosaico.</p>
<p>Esse espelho-quebrado-mosaico, se tem uma poesia que é a de uma pedagogia da surpresa, é também problemático. Olhar-se no espelho é o primeiro passo do reconhecimento da identidade: eu sei que sou eu quem está lá; aquela imagem, sou eu — bem — Mas se o espelho está quebrado eu vejo uns pedaços, pedaços de mim! E assim minha identidade está quebrada ou está para ser construída ou então no lugar de ver um só rosto eu vejo vários e isso me deixa perplexo no que se refere a mim — Quem sou eu, finalmente? é a pergunta que surge dessa multiplicidade e dessas rachaduras do eu regional.</p>
<p>E o perigo é que dentro dessas rachaduras se infiltrem elementos que não vão participar do mosaico mas que vão passar a orquestrá-lo segundo outra identidade, uma identidade que já se firmou na fase do espelho e que, próxima do Espírito Santo, pode investir nele no plano da identidade: geograficamente Minas Gerais e Rio de Janeiro com uma influência mais nítida do Rio porque assumindo ainda simbolicamente o papel de capital orgânica do país e porque o jogo de cintura, o samba carioca, em tudo se insinuam, reptilianos que eles são, achando sem dificuldade o caminho das rachaduras, enquanto que o mineiro monolítico, olhando para dentro, nas minas da sua identidade e do seu queijo (Guimarães Rosa: &#8220;O sertão está dentro da gente&#8221;) não tem essa vocação de insinuar-se quase que femininamente como o carioca.</p>
<p>Então o efeito mosaico do Espírito Santo tem como conseqüência essa onipresença do Rio de Janeiro que faz correr o risco de bloquear a construção da identidade capixaba. Porque essa identidade está em construção e ela consiste, essa construção, em juntar as pastilhas do mosaico capixaba e fundi-Ia num espelho que vai refletir um rosto único e imensamente rico e diverso dentro dessa unicidade e que será o do Estado Capixaba de conceber o mundo e as coisas.</p>
<p>O batuque e a concertina aqui e agora.</p>
<p>[CHAUDANNE, Gilbert. Identidade capixaba — O efeito mosaico. Revista&nbsp;<i>Você</i>, Vitória: Ufes, n.9, I, mar. 1993. Terceiro texto da primeira trilogia.]</p>
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<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 1993&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação<b>&nbsp;sem prévia autorização&nbsp;</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Gilbert Chaudanne&nbsp;</b>é artista plástico e escritor. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-gilbert/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Maestro do jardim</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 17:42:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
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		<category><![CDATA[Gilbert Chaudanne]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Subindo na montanha. Deixar para trás o caldeirão da Grande Vitória, a estufa tropicalista já com toque de babilônia moderna. Subir — corpo mais leve — Chegar no chamado lugar Vista Linda: um hotel. Deparar-se — neste hotel — com uma montagem de brinquedos e miniaturas mecanizadas; e já: essa sensação germânica tomando conta da [&#8230;]</p>
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<p>
Subindo na montanha.</p>
<p>Deixar para trás o caldeirão da Grande Vitória, a estufa tropicalista já com toque de babilônia moderna.</p>
<p>Subir — corpo mais leve —</p>
<p>Chegar no chamado lugar Vista Linda: um hotel. Deparar-se — neste hotel — com uma montagem de brinquedos e miniaturas mecanizadas; e já: essa sensação germânica tomando conta da percepção: arrumação, ordem, montanhas, brinquedos, lourice, calmaria.</p>
<p>Porém há mais: Campinho: Hotel Imperador, salas imensas, jardins labirínticos — mas labirinto sem minotauro, onde há como a expectativa de algo que pode surgir, mas não algo monstruoso — ao contrário — um senhor de meia-idade, daquela idade ingrata onde a pessoa não é mais jovem e ainda não se encaixa na categoria mítica dos velhos sábios — um senhor de meia-idade, muito elegante, de terno branco e chapéu Borsalino branco, uma bengala de ébano com botão de prata trabalhada, rugas discretas ao redor dos olhos azuis — imensamente — olhar de quem já viu muita coisa e que veio aqui para esquecer o mundo, para reencontrar o jardim — não o da sua juventude porque ele não tem no olhar aquele saudosismo lusitano — não. Ele veio a Hotel Imperador / pode ser / para se tornar imperador de si.</p>
<p>Porque estes jardins, com mil jogos de esconderijos com surpresas quase que femininas (fru-fru de grandes saias fantasmáticas), ali, imitam a mata mas censuram o lado desumano dessa mata, tirando da natureza somente o que adquire um sentido para o humano e assim essa estadia no Hotel Imperador é como uma romaria mas sem nenhuma conotação igrejeira — há ali uma romaria bem humana em toda sua delicadeza-fragilidade de verdadeira rosa do humano — crescendo talvez no jardim do Hotel Imperador.</p>
<p>E se o olhar é logo seduzido pelo jogo em quincunce do jardim e das suas diferentes partes, há nesse jardim assim como uma música implícita, ou um coro de vozes abafadas que, na verdade, parece cantar por dentro e cujo maestro é nosso homem de meia-idade, de terno branco, com o olhar azul dos desmaios vividos: o Maestro do Jardim.</p>
<p>E há uma piscina que parece ser como o coração flutuante do jardim — folhas mortas nos azulejos, algumas cadeiras de ferro branco, um ar meio bizantino, neo-romano, algo como um classicismo que teria caído na mão de um maquiador, a solidão — folha morta, a solidão povoada pelo grande silêncio do jardim/natureza que enfim homenageia a presença do homem, de um homem inteiro como o compositor ali presente, de terno branco com o olhar azul-flutuante.</p>
<p>Imperador de si — e não dos outros — e como?</p>
<p>O senhor de terno branco, compositor de meia-idade, com aquela elegância de quem já bebeu demoradamente de todas (ou quase) as taças, inclusive a do amor e da glória, e que lentamente foi enjoando daquilo tudo, como se essa bebedeira elegante não fosse o fino do prazer mas a sua negação — já que o prazer sempre desembocava num buraco no meio do seu próprio peito — um buraco onde o vento da montanha pura soprava e que, assim, confeccionava o que os homens, os cristãos-vivos, chamam de música. Ele se tornou músico por ausência porque nunca conseguiu estar realmente presente nas festas dos homens e nas igrejas dos cristãos-vivos.</p>
<p>Ele sempre foi um adepto da &#8220;Montanha Mágica&#8221; e isto apesar de um verdadeiro tomar-conta-de-mim que era o efeito do mar nele — um adepto das alturas sem cair nas acrobacias circenses dos alpinistas, nunca teve vocação para circo, a não ser / às vezes / diante do seu espelho — do espelho do armário, no quarto 12 do Hotel Imperador: mímicas privadas, como o fazer-cocô da manhã, o cigarro turco, achatado e perfumado, do almoço, sentado / de terno branco / na beira da piscina onde nunca ninguém tomava banho, a se lembrar dos seus amigos Gustav Mahler e Egon Schiele — outras épocas — outros impérios já falecidos como todos, e a conclusão estava escrita em letras de ouro na madeira lisa e envernizada do hotel: &#8220;Vós é que sois o Imperador&#8221; ou teria sido simples alucinação visual, essa frase escrita, porque ninguém conseguiu confirmar sua presença — Frase soprada no vento da montanha pura. — Talvez.</p>
<p>O que deixava o observador meio aturdido neste hotel era isso: essa presença-não-presença.</p>
<p>Ao mesmo tempo havia algo como um abandono, uma presença levemente sorridente — que podia ser ou não o rosto de uma moça loura e encolhida no seu corpo e sua saia frufrutando entre os galhos, uma pálpebra feminina abaixando-se lentamente, o olho ocupando repentinamente o espaço todo do jardim e fazendo-o flutuar dentro do seu azul absoluto, para desaparecer da maneira mais doce possível — esvanecimento quase que imperceptível e que deixava dúvidas a respeito do princípio de toda realidade e especialmente a, incontornável, da dor; essa presença-não-presença do hotel e do jardim do hotel confirmada na presença dos casais, no restaurante em nível inferior comprido e bem aberto sobre o jardim e que parecia com uma estufa (sem dar a essa palavra aquele sentido de calor estonteante) dando-lhe o sentido de &#8220;casa-dentro-do-jardim&#8221;, casa completamente filha do jardim e assim servindo de ponte. Esse restaurante orientado perpendicularmente ao resto do hotel parecia ser uma ponte entre o jardim que o cercava e o hotel &#8220;a casa dura&#8221; solidificada nos quartos fechados sobre si, e essa &#8220;casa dura&#8221; olhava o resto da cidade que então assumia o papel de casa-das-casas. Restaurante embaixador entre a Mãe-Natureza (já um pouco humanizada pelo jardim) meio maluca lá nos arredores da cidade e a casa dos homens por excelência: a cidade. E os casais ali presentes comiam, em silêncio ou deixando apenas escapar sussurros, como se o espaço do restaurante fosse algo parecido com uma capela (pode ser porque ali o fato de comer era um ato quase que sagrado: o da deglutição pelo humano da Mãe-Natureza sob a forma dos alimentos, uma comunhão que criava o espaço humano do restaurante e a partir dali do hotel e da cidade).</p>
<p>Entretanto essa semelhança com uma capela era apenas superficial. Espaço místico com todos os arrebatamentos que isso supõe? Não — nada de arrebatamento — calmaria, analgesia, fantasmáticos ou quase — os casais — mas nada de morte rodeando, ou então uma morte lógica e doce que contradiz as mortes naturais que apesar de serem naturais nunca deixam de ser idiotas. E esses casais jovens ou velhos ou maduros não tinham o aspecto de casais legítimos no sentido da lei. Eram casais tranquilamente fora de toda lei e que se amavam perfeitamente, compartilhando seu jantar como uma ceia, mas uma ceia que é apenas uma ceia de frutos da terra e não o prelúdio a mil arrebatamentos celestiais por cima deste hotel, dessa montanha pura e borbulhando de tanta pureza. Os seus corpos, à noite, se encontravam como sempre se encontram os corpos dos amantes, com aquela infinita aproximação e estremecimento dos dedos formigando, com aquele suspender do fôlego e de toda visão do mundo, até que a mão se deita sobre uma anca e nesse momento — nos quartos do hotel — a madeira canta para se lembrar também do tempo em que ela era amada, lá na montanha, para se lembrar do tempo em que ela cantava, essa madeira, no vento puro da montanha, junto aos pássaros-reis e aos macacos pré-socráticos.</p>
<p>[Este texto faz parte de uma série que tem como objetivo uma tentativa de evocação, no plano mítico-poético e no plano conceitual, da identidade capixaba. Este texto, ao contrário do anterior, &#8220;O barco ébrio&#8221;, que mostrava o lado dionisíaco dessa identidade, quer apontar agora seu lado apolínico.]</p>
<p>[CHAUDANNE, Gilbert. Maestro do jardim. Revista&nbsp;<i>Você</i>, Vitória: Ufes, n.8, I, fev. 1993. Segundo texto da primeira trilogia. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
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<a href="https://1.bp.blogspot.com/-UwcRt-gzN9c/WFGl2Rnf2eI/AAAAAAAALGQ/eqobNQyapaA8QlYTu-Hd5SH6Qs_5FI_ZQCLcB/s1600/vectorstock_207-b.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="161" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/vectorstock_207-b.jpg" class="wp-image-6016" width="200" /></a></div>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 1993&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação<b>&nbsp;sem prévia&nbsp;autorização&nbsp;</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Gilbert Chaudanne&nbsp;</b>é artista plástico e escritor. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-gilbert/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>O barco ébrio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 17:37:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Gilbert Chaudanne]]></category>
		<category><![CDATA[Identidade Capixaba]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Foto e intervenção de Maria Clara Medeiros Santos Neves, 2016. Fundão: janeiro. Calor-caldeirão. O fundo do caldeirão. Uma bacia — com a cidade no fundo é uma festa, o Santo Negro e o Santo Branco. O Deus Negro e o Deus Branco. Barracas, cerveja, pinga, música, álcool no ar, música no álcool — sinfonia azul-bala [&#8230;]</p>
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</div>
<p></p>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://2.bp.blogspot.com/-Ze1xQsJqKwU/WFGmoDmgbSI/AAAAAAAALGg/Nltg4GyPj64NvmXZ48inBzoPK8DNPpH-wCLcB/s1600/Barco%2B%25C3%25A9brio.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Foto e intervenção de Maria Clara Medeiros Santos Neves, 2016." border="0" height="320" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/Barco2B25C325A9brio.jpg" class="wp-image-6023" title="Foto e intervenção de Maria Clara Medeiros Santos Neves, 2016." width="227" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Foto e intervenção de Maria Clara Medeiros Santos Neves, 2016.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>
Fundão: janeiro. Calor-caldeirão. O fundo do caldeirão. Uma bacia — com a cidade no fundo é uma festa, o Santo Negro e o Santo Branco. O Deus Negro e o Deus Branco. Barracas, cerveja, pinga, música, álcool no ar, música no álcool — sinfonia azul-bala outras verde-chiclete — grupos de músicos surgindo — ritmos — &#8220;o barco está chegando! O barco está chegando!&#8221; Sim, o barco está chegando, é só entrar na multidão — mar de homens — sim e nadar contra a corrente, rio de homens —, a multidão cada vez mais densa — nadar no corpo da rua e ver enfim o mastro do barco oscilando por cima dos ombros assim como fazendo sinais para o rebanho humano aglutinado aos seus flancos, no meio de gestos grandiloquentas que parecem procurar a materialização de algo encolhido no espaço de ouro por cima ou por dentro do espaço humano, e se aproximar com relevante dificuldade do barco e ver a multidão curvada sobre uma corda grossa, maciça, como cordão umbilical do mar ou da terra, e assim puxar o barco oscilando, feito bebo-bebaço por cima do mar de ombros-ondas, como se essa massa compacta de corpos estivesse extraindo o barco do mar, e realizando esse milagre de fazê-lo mover-se sobre a terra como ele se movia sobre o mar.</p>
<p>Barco adorado pelos homens-estivadores de que deus?</p>
<p>O barco divindade oscilando por cima dos ombros — ou parecendo oscilar por cima dos ombros — mas de qualquer maneira: este barco na terra dos homens.</p>
<p>O barco de que deus bêbado?</p>
<p>Já que não há só a homenagem ali prestada pelos homens ao barco, é a homenagem da embriaguez feliz, que faz a terra girar, os homens rir e as mulheres abrir religiosamente as pernas, que faz os meninos se tornarem homens e as moças deixarem o vestido de noiva. São as núpcias anônimas e erguidas como um carvalho por cima da terra mãe, como o mastro erguido do barco, no arroto da terra.</p>
<p>E a multidão ficando cada vez mais densa, selva de corpos virgens de toda divindade, homenageando seu barco-deus, titubeando e subindo a coluna da Igreja, fazendo um S comprido como a serpente cósmica que abraça a terra com seus anéis de mil bodas, meu Deus!</p>
<p>E foi nessa altura, quer dizer, na primeira curva do caminho em S subindo para a Igreja que um homem jovem, todo dourado e nu como a serpente de nosso senhor, apareceu junto ao mastro de nosso barco — formas perfeitas e neogregas com coroa de louros na cabeça, rindo às gargalhadas, lançando sementes ao ar e dançando uma dança de arabescos femininos, lânguida como uma carioca na praia, tornando-se quase serpente de ouro velho ou de ouro preto mas sem que a serpente e a mulher potencial fossem ligadas uma à outra, porque ali nesse rapaz belo: &#8220;a mulher era a serpente e a serpente era a mulher&#8221;, os dois reunidos no ouro maciço, reluzente como o carvão. E a serpente longe de ter aquela auréola diabólica e humana demais que os cristãos-vivos lhe dão — ao contrário tinha um ar de professor que sabe das coisas — essas coisas que o homem morre de não saber.</p>
<p>E o mar-multidão dos homens, com os olhos arregalados como discos voadores e reluzentes de que luz de desrazão, bebia o espetáculo do deus-mancebo de ouro — do grande Deus macho e fêmea e serpente e que fazia girar lentamente a máscara de ouro de seu rosto — boca larga aberta ao vento — como um farol por cima dos seus — doravante — adeptos.</p>
<p>Atuando as membranas na música, atuando o nervo erguido como mastro por cima da terra-cachorro, atuando o músculo tetanizado, jogado contra o rochedo próximo contra o granito ou o asfalto, atuando também outra música vinda de cima da colina oca, música de mil evanescências, vinda da igreja rapidamente engolida pela música da serpente que dança no barco fazendo a terra terremotar como a tempestade do mar fazendo a Igreja aberta imensamente se abrir sobre o nada ou sobre a plenitude da serpente.</p>
<p>[CHAUDANNE, Gilbert. O barco ébrio. Revista&nbsp;<i>Você</i>, Vitória: Ufes, n.7, I, jan. 1993. Primeiro texto da primeira trilogia. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
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<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 1993&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação<b>&nbsp;sem prévia autorização&nbsp;</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Gilbert Chaudanne&nbsp;</b>é artista plástico e escritor. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-gilbert/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
<p></p>
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		<title>Qual Espírito Santo?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 17:32:00 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Fernando Achiamé]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>(&#8230;), pois o que vive tem sempre razão. J. H. Rodrigues O português não descobriu o Espírito Santo, que ainda não existia com nome e configuração portuguesas, mas conformou este território aos seus desígnios e interesses. A história tem suas ironias. O colonizador, presente neste lugar durante trezentos anos, não comemorava sua chegada, o que [&#8230;]</p>
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<div style="text-align: center;">
</div>
<p>
(&#8230;), pois o que vive tem sempre razão.</div>
<div style="text-align: right;">
J. H. Rodrigues</div>
<p>
O português não <i>descobriu</i> o Espírito Santo, que ainda não existia com nome e configuração portuguesas, mas conformou este território aos seus desígnios e interesses. A história tem suas ironias. O colonizador, presente neste lugar durante trezentos anos, não comemorava sua chegada, o que hoje se denomina de <i>Colonização do Solo Espírito-santense</i>. A necessidade de se marcar a data (tomada como natalício da terra) vai surgir depois de encerrado o período colonial, quando as elites provinciais, e depois estaduais, buscam formas de se legitimar no poder e controlar a população através de um civismo formal. Tais eventos são incentivados no período dos Estados Unidos do Brasil, em que durante certo tempo os presidentes do nosso estado tomavam posse no dia 23 de maio (não havia coincidência de mandato dos governantes estaduais brasileiros) e os símbolos espírito-santenses foram criados ou restabelecidos — o selo e as armas a partir da primeira década do século XX, o hino e a bandeira atual em 1947. Tivemos mesmo uma época em que muitos prédios do governo estadual eram pintados de rosa (o palácio Anchieta, sobretudo), seguindo disposições regulamentares que elegeram aquela cor, junto com o branco e o azul claro, para integrarem os símbolos estaduais. O que, de resto, pode ser apelidado de <i>heráldica dos meios-tons</i>. </p>
<p>Estes símbolos e datas são meras referências transitórias na história capixaba, e sabemos que nem tudo em seu transcorrer foi cor-de-rosa. Pelo contrário. Já que existem efemérides e comemorações oficiais, devemos sugerir, apesar delas, alguns temas para reflexão tendo como elemento comum a pergunta: qual é, para nós capixabas, o principal sentido de tudo o que foi feito nestas terras, da época dos portugueses aos dias atuais? </p>
<p>Existe uma resposta mais ou menos evidente para os que fazem do estudo da história espírito-santense uma atividade profissional — as grandes decisões que sempre presidiram o destino capixaba foram tomadas para atender aos interesses de grupos e pessoas que vivem longe daqui. Em outras palavras: o Espírito Santo sempre se constituiu numa área periférica, situada em um território dependente — a margem da margem. </p>
<p>Do colonialismo português ao neocolonialismo atual existe uma distância — nem tão grande assim — que separa, por exemplo, a montagem de uma empresa colonial exportadora, iniciada por Vasco Fernandes Coutinho, do funcionamento da Companhia Siderúrgica de Tubarão, empresa neocolonial que deve produzir a custos baixos e vender a preços vis. Se tais empresas representam diferentes momentos históricos, elas têm em comum o fato de que decisões tomadas em longes terras (antes Portugal, agora Japão e Itália) condicionam toda a vida e toda a obra dos capixabas. Porque o mais que aconteceu e acontece é conseqüência destas realidades coloniais e neocoloniais maiores. Toda a economia, toda a sociedade e quase toda a política estão direcionadas para manter e reproduzir esta situação. Então, falar de arte e cultura, ou de estética e moral, de transportes e urbanização, ou de água e luz, de saúde e educação, ou de segurança pública e abastecimento, de justiça e ética, de imprensa e lazer e de outros aspectos de nossa vida fica sem sentido se não colocarmos nossas reflexões fundamentadas no contexto maior antes referido. </p>
<p>A história está sempre sendo escrita e reescrita, o que, além de saudável, é indispensável. Quem cria e recria constantemente a interpretação histórica são as sucessivas gerações descobrindo novos temas, novas abordagens, de acordo com seus interesses e idéias. A história capixaba possui muitos complexos de fatos praticamente virgens de pesquisa e tão variados como a participação das igrejas (em especial a católica) na nossa formação, a inquisição no Espírito Santo, as contribuições culturais trazidas pelos vizinhos baianos, fluminenses e mineiros e muitos outros. Selecionamos alguns assuntos para rápidas considerações. </p>
<p><b>As Populações Autóctones</b></p>
<p>Muito pouco ainda se conhece sobre a existência dos habitantes originais desta região por duas razões — não há interesse em se pesquisar este tema, e os poucos estudos existentes têm divulgação restrita. As populações indígenas aqui encontradas pelo colonizador receberam, em resumo, dois tipos de tratamento — eliminação rápida ou eliminação lenta. Do índio pode-se dizer, neste contexto e sem conotação desrespeitosa, o que se diz de um vegetal (o coqueiro) ou de um animal (o boi) — dele tudo se aproveita. O colonizador aproveitou tudo do índio. Suas terras para moradia e implantação de estabelecimentos econômicos; seu suor para movimentar a economia, construir igrejas, fortalezas, casas, estradas, pontes e cidades; sua comida (a mandioca, os peixes) para sustento; suas mulheres para reprodução; seus conhecimentos para dominar a terra e se apropriar das plantas e animais; sua força numérica para defesa contra os inimigos americanos ou europeus; sua música, sua língua, seus hábitos para melhor neutralizar os próprios nativos; e, enfim, sua morte para desocupar o território e dar exemplo aos demais indígenas. </p>
<p>O genocídio legal e legitimado sobre populações aborígines que o colonizador praticou neste lugar durante muitos anos (as aldeias do Cricaré incendiadas, os índios mortos por doenças ou por outros índios&#8230;) não se deveu a uma tara inata do português para o extermínio. É que ele tinha por objetivo a montagem de uma empresa colonial exportadora e, dentro desta lógica, eliminou ou neutralizou tudo o que a ela se opunha. Porque fatos que hoje condenamos eram prática comum. De forma a tornar mais inteligível nossa história, é importante enxergar com a maior nitidez possível, sem pieguices ou ilusões, este processo histórico em que milhares e milhares de seres humanos foram eliminados por representarem um empecilho à dominação portuguesa. </p>
<p>Os sucessivos governos da Coroa, do Império e da República, e seus representantes locais, sempre tiveram suas políticas em relação ao indígena habitante do território espírito-santense. A título meramente exemplificativo podemos destacar: a existência dos aldeamentos jesuíticos; a declaração de guerra justa aos botocudos do rio Doce feita pelo Príncipe Regente, depois D. João VI; a presença do Aldeamento Imperial Afonsino em terras do atual município de Conceição do Castelo; a organização do Aldeamento de Pancas que ainda existia há poucas décadas atrás; os índios aculturados de Caieira Velha&#8230; </p>
<p>Também estão para ser devidamente estudados os complicados e longos processos que resultaram na destruição gradual das culturas indígenas e na assimilação de seus elementos ao saber comum capixaba. De real, temos a presença no povo espírito-santense de estoques genéticos originados dos índios (basta olhar muitos rostos da nossa população para vislumbrar este legado) e de características culturais respeitantes à comida, à língua, aos comportamentos sociais, às crenças. Tudo isto, e muito mais, que foi bastante reprimido nos índios e em seus descendentes (como foi difícil obrigar o povo a esquecer sua língua materna, sua língua geral!), hoje começa a ser revalorizado. Mas, por favor, não digam que o nome de Ibiraçu, para citar um exemplo, foi dado pelos índios. Os colonos italianos e seus descendentes que ocuparam aquela região, com grande ocorrência de árvores frondosas, denominaram-na de <i>Pau Gigante</i> — nome <i>traduzido</i> para o tupi-guarani, por iniciativa oficial, na última década de quarenta por ter assumido conotações outras. </p>
<p>Os indígenas, ao contrário das populações escravas de origem africana, nem sequer tiveram uma lei áurea. Até hoje seus remanescentes são considerados incapazes civilmente — suas terras e riquezas sendo espoliadas em diversas partes do território nacional e, quando a isto se opõem, continuam a ser destruídos fisicamente. </p>
<p><b>Os Colonizadores Portugueses</b></p>
<p>A contribuição portuguesa predomina no processo de aculturação, que vem acontecendo no território espírito-santense desde o século XVI, pelo simples fato de o colonizador ter sido desta etnia. O domínio português se exerceu sobre nosso território não sem resistência dos indígenas. No início houve a ocupação de estreita faixa litorânea: a fundação das primeiras localidades — futuras vilas e cidades — ocorreu no litoral ou perto dele. E até inícios do século XIX os principais sítios urbanos espírito-santenses resumiam-se a Itapemirim, Benevente (atual Anchieta), Guarapari, Vila Velha, Vitória, Serra, Nova Almeida, Santa Cruz, Linhares e São Mateus, que entre si e com outros locais mantinham contato, sobretudo, através das estradas líquidas (e já prontas) dos rios e do mar. </p>
<p>Sociedade patriarcal, ruralizada, com uma minoria de brancos dominando a grande maioria de índios, negros e miscigenados, e utilizando-se de todos os meios para manter esta situação. Tudo controlado, tudo censurado, tudo proibido autoritariamente. Por exemplo: as pessoas que se deslocavam para fora da capitania, depois província, precisavam de licença expressa, de um passaporte. A elite sempre voltada para o exterior, onde estavam seus interesses, copiava padrões de comportamento vigentes na Europa e nos Estados Unidos. Mesmo no período imperial e no da República Velha, quando o controle político do Brasil era exercido indiretamente por outros países, assistimos à veiculação de idéias que objetivavam adequar melhor a sociedade brasileira ao consumo de produtos estrangeiros. O Espírito Santo exportava açúcar, madeiras, algodão, depois café, e recebia, em geral, baixos pagamentos pelos produtos. E estes poucos recursos eram empregados, em grande parte, na construção de melhor infra-estrutura para atender à própria exportação, ou na importação de quase tudo — da manteiga à vela, das telhas à madeira, da tinta ao papel, do azeite ao vinho, dos tecidos aos equipamentos e ferramentas. Certos membros das elites econômicas, até hoje, querem nos fazer pensar que os produtos importados são melhores que os nacionais, o que nem sempre é verdadeiro. </p>
<p>Neste contexto de dependência econômica, de rígida estratificação social, com os capixabas polarizados entre a grande maioria despossuída e um pequeno grupo de poderosos, como ficava a produção cultural? Cultura na acepção restrita do termo, para designar as artes e o trabalho intelectual. Em região marginal de uma colônia é fácil perceber que as condições para aquela produção não eram as mais propícias. </p>
<p>No campo das idéias predominou a ideologia cristã com diversas variações e modificações. Durante todo o período colonial, que não foi tão uniforme nem tão estático como querem alguns pesquisadores, a repressão portuguesa foi feroz e constante. A publicação de livros e periódicos era proibida e a grande massa da população, mantida ignorante e embrutecida, não tinha acesso à leitura. Os poucos livros que circulavam eram severamente controlados pelas autoridades civis e eclesiásticas. Produziam-se escritos de inspiração religiosa e laudatória elaborados por padres, na maioria dos casos. No entanto, as manifestações artísticas, produtos de seu tempo, sempre estiveram presentes no Espírito Santo. O colonizador, principalmente nas atividades ligadas à religião, utilizou as artes como um importante instrumento de aculturação dos habitantes da capitania. A arquitetura dos templos, os autos freqüentemente representados dentro das igrejas ou em seus adros, as festas religiosas, os cânticos, as pinturas e esculturas retratando motivos sacros — é a arte posta a serviço dos interesses daquela elite dominante. A arte feita pelo povo e produzida fora dos padrões consagrados pelo dominador era considerada inferior e desprezada. </p>
<p>A presença da Igreja, que só com a República se separou do Estado, era permanente e se exercia em todas as regiões e em todos os espaços sociais do universo capixaba. Os sacerdotes, em especial os párocos, com acesso a conhecimentos ignorados pela maioria da população, sabiam o que se passava nas comunidades devido à confissão auricular, aos registros — como o batistério — que eram obrigados a fazer, à influência que possuíam sobre toda a sociedade. Porque os principais acontecimentos na vida dos indivíduos tinham por referência a igreja católica e a assistência espiritual de padres — as pessoas eram batizadas, crismadas, casadas no religioso e, por fim, sepultadas em campo santo. E isto também se constituía em regra geral para as populações do interior, ainda que elas possuíssem acesso irregular aos considerados, na época, benefícios da religião. As práticas e festas religiosas não só alcançavam a vida em seus ciclos anuais. Nas vilas, os sinos das igrejas e capelas comandavam o cotidiano das pessoas — os chamamentos para o culto, os anúncios alegres ou tristes, os toques de ângelus. </p>
<p>Na assistência social e hospitalar tivemos desde cedo no Espírito Santo a presença de uma instituição típica do mundo português — a Santa Casa de Misericórdia, por sinal uma das primeiras fundadas na colônia. A história desta instituição se confunde com a história da própria sociedade capixaba; é um seu retrato. Escravos e senhores, pobres e ricos, comerciantes, artífices, profissionais liberais, grandes e pequenos funcionários, a Igreja, todos envolvidos nas atividades que, a partir de certo momento de predomínio da ideologia cristã, se convencionou chamar caridade (uma espécie de amor). A força presente no lema da instituição, <i>Caritas nunquam excedit</i> — caridade nunca é demais —, se fez presente durante muito tempo nas obras de beneficência empreendidas pelos espírito-santenses. </p>
<p>Como em outros lugares do Brasil, diversos capixabas buscavam pertencer a irmandades (a da Misericórdia era uma delas) para ajuda mútua na vida e na morte — assistir aos irmãos doentes, amparar suas viúvas e órfãos, realizar enterros, celebrar missas, promover rezas. Ações que naqueles tempos possuíam imensa importância coletiva, diferente da dimensão social que assumem hoje em dia. De modo geral, as irmandades e ordens terceiras correspondiam aos estamentos sociais de então — os escravos negros (Rosário, São Benedito), os senhores brancos (São Francisco, Carmo, Santíssimo Sacramento) e, de permeio, os pardos livres (Amparo, Boa Morte e Assunção). </p>
<p>Destaque deve ser dado aos jesuítas, que se autodenominavam <i>soldados de Cristo</i>, e formaram no Espírito Santo, por cerca de dois séculos, um poderoso sistema de governo paralelo. E com diversas propriedades que incluíam, dentre outras, as fazendas de Muribeca (no atual município de Presidente Kennedy), de Araçatiba (em Viana), de São João Batista de Carapina (Serra), e os aldeamentos de Reritiba (Anchieta), Guarapari e Reis Magos (Nova Almeida), tudo comandado pelo colégio de São Tiago em Vitória (no prédio que abriga agora o palácio Anchieta). A divisa destes religiosos, que se organizavam em companhia de inspiração militar, era <i>AMDG, Ad Majorem Dei Gloriam</i> — Para a maior glória de Deus. </p>
<p><b>Os Povos Africanos</b></p>
<p>O antigo sistema colonial da época mercantilista esteve presente em nossa terra por meio dos seus três elementos essenciais — a dominação política da metrópole sobre a colônia, como condição; o exclusivo metropolitano do comércio colonial, como mecanismo; o escravismo e tráfico negreiro, como decorrência. O escravismo, forma predominante de trabalho compulsório no Espírito Santo (e, de resto, em todo o império colonial português), origina-se da exigência de um grau acentuado de concentração de renda (de apropriação de renda) na camada mercantil da metrópole. Para que o intercâmbio do exclusivo pudesse continuar era preciso que a renda se concentrasse. A concentração no limite leva à compulsão no limite, ou seja, a concentração de renda no limite exige que o trabalho seja compulsório no seu limite — a escravidão, onde o trabalhador não possui de seu nem o próprio corpo. </p>
<p>A economia colonial é mercantilista, escravista e de acumulação externa. A produção econômica aparece sempre como desdobramento da circulação de mercadorias, passando de predatória para sistemática e assumindo o caráter especializado para complementar a produção dos países centrais com especiarias, produtos tropicais, metais nobres. A característica primeira da economia colonial é sua especialização, a que se relaciona sua regionalização, daí se seguindo o caráter itinerante da mesma. O setor de produção de subsistência é sempre subordinado ao de exportação. E o ritmo de produção é definido pelas flutuações do mercado central, que determina não só o que se produz, mas com que ritmo. O processo produtivo da economia colonial envolve uma grande concentração de capital fixo (como característica essencial) porque o capital circulante neste processo é fixo. Como conseqüência, o investimento inicial cresce e a produção é dominada pelo setor da circulação. </p>
<p>Todo este economês, no caso do escravo africano, pode ser assim resumido — é o tráfico negreiro que explica a existência da escravidão negra na colônia, e não o contrário. A burguesia mercantil metropolitana não tinha interesse em incentivar a escravidão indígena. A <i>mercadoria</i> representada pelo índio escravizado circulava somente dentro da colônia, sem ganho, ou com rendimento restrito, para os negociantes da metrópole. Por outro lado, os mercadores portugueses (ou seus representantes na colônia brasileira) auferiam altos lucros com o tráfico dos escravos negros e sua venda aos colonos. A introdução dos africanos em nossas terras representou um atendimento aos interesses mercantilistas dos portugueses que, inclusive, apregoavam a superioridade de sua <i>mercadoria</i> dizendo serem os negros mais trabalhadores que os índios <i>preguiçosos</i>, entre outras coisas, por já conhecerem a escravidão na África. Eis uma das origens de preconceitos, que sofrem ainda hoje descendentes de povos índios e negros. </p>
<p>Estudar o escravismo moderno a partir do século XIX é não compreender sua verdadeira gênese. Por esta época ele representava uma sobrevivência modificada de um dos elementos que tinham composto o antigo sistema colonial. Tal escravismo é essencialmente de caráter colonialista e se explicita no contexto do antigo sistema colonial e, quando não está nele inserido, é preciso ver em que novo contexto ele se amarra. </p>
<p>De qualquer maneira, era muito grande o grau de repressão necessário para se manter todo um edifício social com base no escravismo. Aos escravos e descendentes, com suas vidas estritamente vigiadas e controladas, não se permitia o pleno desabrochar de seus quereres e saberes. Intrinsecamente violento caracterizava-se este transplante de milhares e milhares de pessoas de um determinado contexto social e sua inserção nos campos e nas vilas espírito-santenses. </p>
<p>Os africanos tiveram grande parte de sua cultura reprimida e desarticulada; os dominadores, contudo, não lograram destruir totalmente estes povos e suas criações culturais. Apesar de toda repressão, os cativos no território espírito-santense passaram boa parte de suas práticas de vida para os demais capixabas. Fossem eles escravos nas fazendas de Itapemirim ou de São Mateus, alugados para trabalhos urbanos ou escravos de Nossa Senhora da Penha, que o convento os possuía e numerosos. Além dos aspectos mais ou menos típicos e mais ou menos tradicionais, encarados como contribuições importantes do negro para a constituição do povo do Espírito Santo (nos hábitos alimentares, no artesanato, no idioma, nos folguedos), estão para serem conhecidas e valorizadas outras contribuições, igualmente valiosas, dos africanos e seus descendentes para a formação capixaba. Como, para exemplificar, os movimentos organizados de resistência negra à dominação branca, antes e depois da libertação oficial. </p>
<p>A libertação veio como simples ato jurídico. É como se a lei assinada pela Princesa Imperial Regente — e tendo como objeto os escravos analfabetos, sem identidade cultural estável, sem perspectivas em sua vida profissional —, os tivesse libertado através de um único artigo: — Virem-se daqui pra frente! As populações negras do Espírito Santo, com raríssimas exceções, não tiveram acesso à posse da terra — bem econômico maior à época. As elites nacionais e locais optaram pela solução imigratória <i>branca</i>, e prepararam sua adoção em doses graduais. Primeiro proibindo o tráfico negreiro. Em seguida mercantilizando a terra para torná-la atrativa para os camponeses europeus sem propriedade. Neste processo <i>libertam</i> os filhos de mulheres escravas (só a partir de certa idade) e os escravos maiores de 65 anos. Escravos e escravas que, naquela época, conseguiam atingir tal idade eram pouquíssimos e não representavam maiores prejuízos para seus donos. Demais, com esta idade, quem os acolheria, para onde iriam, o que fariam, como se manteriam? Situações guardando certa correlação com estas existem no presente. Se a atual população tivesse dignas condições de existência não haveria necessidade de se manter a merenda escolar como única refeição para os estudantes pobres, ou dispensar, do pagamento de passagem de ônibus, os idosos com mais de 65 anos&#8230; </p>
<p><b>Os Imigrantes Europeus</b></p>
<p>A importação deliberada de mão-de-obra européia para o trabalho nas lavouras de nossa província e de nosso estado deveu-se, em primeiro lugar, a uma política de substituição do trabalho escravo pelo trabalho livre. Vinha ao encontro dos interesses da elite econômica. O escravo, considerado um bem semovente, era capital imobilizado, além de que sua morte ou invalidez representava sempre um prejuízo para seu proprietário. Tinha o escravo que ser alimentado, vestido e tratado quando doente. Aquela política de importar mão-de-obra européia para o Espírito Santo teve o incentivo e a participação constantes da iniciativa oficial. Os imigrantes, em sua maior parte, foram instalados em colônias do governo; muitos deles trabalharam depois, em troca de baixa remuneração, nas fazendas dos nacionais. Aos recém-chegados eram destinadas terras devolutas ou terras particulares desapropriadas. </p>
<p>Diferente do colono europeu no sul do país, que em pequenas propriedades praticava uma agricultura de sustentação (milho, feijão e outros produtos necessários para a subsistência, com sobra para comercializar), e diferente do imigrante assalariado nas grandes fazendas paulistas de café, o trabalhador estrangeiro em terra capixaba produziu o café para o mercado exterior, mas em pequenas propriedades e com mão-de-obra familiar. </p>
<p>Nesta altura deve-se fazer um parêntese para afirmar que a política, sempre reiterada com variações ao longo da história brasileira, de destinar todos os melhores esforços da produção econômica para a exportação ocasiona uma dentre muitas distorções na vida cotidiana dos capixabas — até hoje os nossos produtos <i>tipo exportação</i> são considerados de qualidade superior aos demais. Mesmo descontando os exageros da propaganda, sabemos ser isto verdade — os melhores produtos originados desta terra foram e são destinados ao consumo nos países estrangeiros. </p>
<p>Numa postura errônea, costumamos considerar os imigrantes da mesma maneira que fazemos em relação aos índios ou aos negros — é tudo igual, homogêneo, genérico. Não nos importamos em conhecer os chamados <i>índios</i> com suas características específicas (se de tradição tupi-guarani, aratu ou una), ou os considerados <i>negros</i> (se de origem ioruba, fanti-axanti, eve, nupê, mandinga, hauçá, fulani, angola-congolês, moçambique), ou os denominados <i>alemães</i> (se descendentes de pomeranos, bávaros, hesseanos, austríacos, tiroleses), ou os designados como <i>italianos</i> (se oriundos de calabreses, napolitanos, trentinos, genoveses, paduanos, parmesãos, vênetos). </p>
<p>Ao contrário dos índios que, em muitos casos, só deixaram como documentos de suas vidas os próprios ossos fossilizados, ou dos negros, com suas culturas desprezadas ou sincretizadas à força, os imigrantes europeus não foram obrigados a destruir rápida e violentamente as suas características culturais. No caso, os processos de aculturação foram diferentes. Afinal, eles eram pessoas livres, pequenos proprietários de terra, possuidores de uma cultura que poderia interagir com a nova realidade em melhores condições do que as oferecidas para os índios e os negros. Com isto não queremos desconhecer os indizíveis sofrimentos e privações por que passaram — por meio de um mesmo sistema econômico, que rapidamente se internacionalizava, os imigrantes foram expulsos da Europa e colocados em terras americanas para produzir visando, regra geral, o mercado externo. Não podemos ignorar a Hospedaria da Pedra d&#8217;Água, depois significativamente transformada em penitenciária, e local em que as famílias recém-chegadas observavam a quarentena. Não devemos esquecer os barracões em regiões inóspitas, onde elas eram alojadas provisoriamente, à espera da sua destinação para os lotes coloniais. E não esqueçamos, da mesma forma, os maus-tratos, as injustiças, as perseguições, a fome que muitos dos imigrantes sofreram. </p>
<p>Entretanto, o processo foi diverso do acontecido com os indígenas e os negros, no que se refere à intensidade da desagregação étnica e cultural. Só uma prova — ao contrário de descendentes de outras etnias, muitos pesquisadores de origem alemã e italiana conseguem localizar os nomes, a proveniência e a data da chegada ao Espírito Santo de seus antepassados (bisavós ou tataravós), consultando documentos guardados em arquivos públicos, refazendo sua ascendência em direção às terras européias. E não se diga que tal fato ocorre por ser a imigração uma política governamental mais recente. Existiram outras políticas migratórias contemporâneas a esta em que as autoridades não providenciaram ou preservaram os registros referentes às pessoas. Pode ser citada como exemplo a localização, em diversas regiões espírito-santenses, de retirantes nordestinos provenientes da Grande Seca de 1877. Por estas e outras razões, é que devemos conservar nosso patrimônio cultural, as construções e os documentos (oficiais ou não) mais significativos, para que as futuras gerações possam deles se apropriar corretamente. </p>
<p>Pouco se estuda a arquitetura dos imigrantes (como, de resto, a arquitetura vernácula capixaba) e sua possível contribuição para as construções contemporâneas. Só se valorizam nos descendentes de alemães e italianos os aspectos pitorescos, culinários, folclóricos. Algumas famílias originárias desta corrente imigratória, por terem melhores oportunidades de vida proporcionada por causas várias, rapidamente ascenderam na sociedade espírito-santense. A maioria dos descendentes dos imigrantes, no entanto, continua em condições humildes de existência ou foram constrangidos, por falta de terra e de condições para produzir, a migrar para outras regiões brasileiras. Após a última Guerra Mundial tais pessoas sofrem ainda outras discriminações. São chamados pejorativamente de branquelos, russos, alemães&#8230; A pobreza e o preconceito não têm cor. </p>
<p><b>E Agora?</b></p>
<div style="text-align: right;">
<i>Toda história é escolha</i></div>
<div style="text-align: right;">
L. Febvre</div>
<p>
A história não pode mais ser estudada somente a partir de heróis e acontecimentos excepcionais. De tudo o que se falou do passado capixaba, originou-se uma sociedade que agora vem sendo urbanizada compulsoriamente, o povo em êxodo, tangido do campo pela miséria. A verdadeira violência continua residindo no fato de se manterem as grandes desigualdades sociais. </p>
<p>Destruir um povo é destruir sua cultura. No Espírito Santo, bendito o pluralismo de nossas etnias formadoras, que nos confere flexibilidade de espírito e, por isto mesmo, nos protege contra a intolerância em relação ao bom e ao novo que vem de fora, e nos resguarda (até quando?) do lixo cultural que tentam nos impor! </p>
<p>As decisões fundamentais da história capixaba quase sempre foram tomadas para beneficiar, em primeiro lugar, o não-capixaba. O autoritarismo — marca registrada dos governantes portugueses e brasileiros — só agora começa a ser superado. As elites, sobretudo as econômicas, continuam voltadas para fora do Espírito Santo, onde estão seus interesses de classe. A existência autônoma do nosso Estado é pouco mais do que uma expressão jurídica. A grande corrupção, a maior de todas, é o depauperamento dos capixabas (ricos, remediados e pobres) devido a decisões tomadas por pessoas que vivem longe deste lugar e não possuem conosco nenhum compromisso, a não ser a perpetuação da realidade na qual as riquezas daqui, aqui não permanecem. Na arte, na cultura, na atividade profissional, no lazer, tudo o que é feito em nossa vida cotidiana está submetido a este fato — somos um povo sem plena autonomia. </p>
<p>No entanto, a história nos mostra os caminhos. E agora podemos os capixabas dizer a nós mesmos — que não estamos obrigados a reproduzir indefinidamente este modelo de sociedade; que a felicidade de uns não pode ser atingida em detrimento de outros; que a vida é mutável; que sabemos da riqueza cultural a nós legada pelos nossos antepassados; que as questões negativas (poluição, desigualdade social, miséria, fome, ignorância, doenças) podem e devem ser enfrentadas e que um dia, afinal, não mais haverá o Espírito Santo de hoje, porque neste lugar pessoas felizes coexistirão numa nova realidade, que nós todos ajudamos a construir.</p>
<p>[ACHIAMÉ, Fernando. Qual Espírito Santo?&nbsp;<i>A Tribuna</i>, Vitória — ES, de 01, 14, 15 e 21 de julho de 1987. Texto com algumas modificações feitas pelo autor. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://4.bp.blogspot.com/-cSP1d67i2oE/WFGkMm6tN-I/AAAAAAAALGA/IqH0TV1dMekkOLLdaSkGZ4tBB8PvUu7NQCEw/s1600/4.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="70" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/4-4.jpg" class="wp-image-6041" width="320" /></a></div>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 1987&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação <b>sem prévia autorização</b> dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Fernando Achiamé&nbsp;</b>nasceu em Colatina, ES, em 22/02/1950 e fixou-se em Vitória a partir de 1955. Formado em história pela Universidade Federal do Espírito Santo e em língua e literatura francesas pela Universidade de Nancy II (Pela Aliança Francesa do Brasil). Especialista em arquivos pela Ufes. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-fernando/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Identidade Capixaba</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 17:23:00 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Identidade Capixaba]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Foto: Guilherme Santos Neves, anos 1950. ACHIAMÉ, Fernando. Qual Espírito Santo? A Tribuna, Vitória — ES, de 01, 14, 15 e 21 de julho de 1987 [texto com algumas modificações feitas pelo autor] CHAUDANNE, Gilbert. O barco ébrio. Revista Você, Vitória: Ufes, n.7, I, jan. 1993. [Primeiro texto da primeira trilogia.] CHAUDANNE, Gilbert. Maestro do [&#8230;]</p>
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</div>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://4.bp.blogspot.com/-K4EQBfMiSsI/WFgse-orluI/AAAAAAAALH4/8bY1mgppfCw30ougEYjFRXlv82Pr8EDdwCLcB/s1600/identidade-1.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Foto: Guilherme Santos Neves, anos 1950." border="0" height="400" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/identidade-1.jpg" class="wp-image-6065" title="Foto: Guilherme Santos Neves, anos 1950." width="310" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Foto: Guilherme Santos Neves, anos 1950.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<h3 style="font-family: 'times new roman'; text-align: center;">
</h3>
<div>
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/qual-espirito-santo/" target="_blank" rel="noopener">ACHIAMÉ, Fernando. Qual Espírito Santo?</a> <i>A Tribuna</i>, Vitória — ES, de 01, 14, 15 e 21 de julho de 1987 [texto com algumas modificações feitas pelo autor]</p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-barco-ebrio/" target="_blank" rel="noopener">CHAUDANNE, Gilbert. O barco ébrio.</a> Revista <i>Você</i>, Vitória: Ufes, n.7, I, jan. 1993. [Primeiro texto da primeira trilogia.]</p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/maestro-do-jardim/" target="_blank" rel="noopener">CHAUDANNE, Gilbert. Maestro do jardim.</a> Revista <i>Você</i>, Vitória: Ufes, n.8, I, fev. 1993. [Segundo texto da primeira trilogia.]<br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/identidade-capixaba-o-efeito-mosaico/" target="_blank" rel="noopener"><br /></a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/identidade-capixaba-o-efeito-mosaico/" target="_blank" rel="noopener">CHAUDANNE, Gilbert. Identidade capixaba — O efeito mosaico.</a> Revista <i>Você</i>, Vitória: Ufes, n.9, I, mar. 1993. [Terceiro texto da primeira trilogia.]<br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/mitologia-do-beija-flor-um-beijo-de/" target="_blank" rel="noopener"><br /></a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/mitologia-do-beija-flor-um-beijo-de/" target="_blank" rel="noopener">CHAUDANNE, Gilbert. Mitologia do beija-flor: um beijo de princípios</a>. Revista <i>Você</i>, Vitória: Ufes, n.15, II, set. 1993. [Primeiro texto da segunda trilogia.]</p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/pedra-dragao-bailarina/" target="_blank" rel="noopener">CHAUDANNE, Gilbert. Pedra, dragão, bailarina.</a> Revista <i>Você</i>, Vitória: Ufes, n.16, II, out. 1993. [Segundo texto da segunda trilogia.]</p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/pavana-para-um-macaco-pre-socratico/" target="_blank" rel="noopener">CHAUDANNE, Gilbert. Pavana para um macaco pré-socrático.</a> Revista <i>Você</i>, Vitória: Ufes, n.17, II, nov. 1993. [Terceiro texto da segunda trilogia.]</p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-capixaba-metafisico-identificacao/" target="_blank" rel="noopener">GAMA Filho, Oscar. <i>O capixaba metafísico: Identificação cultural capixaba</i>.</a> Texto inédito.</p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/identidade-capixaba-alguns/" target="_blank" rel="noopener">HERSCOVICI, Alain. Identidade capixaba: Alguns questionamentos.</a> In <i>Escritos de Vitória:&nbsp;Identidade Capixaba</i>, Vitória: Prefeitura Municipal de Vitória/Secretaria de Cultura, 2001.</p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/sobre-identidade-e-individualidade/" target="_blank" rel="noopener">NEVES, Getúlio Marcos Pereira. Sobre identidade e individualidade capixabas.</a> In <i>Escritos de Vitória: Vitória de Todos os Ritmos — Música e Músicos</i>. Vitória: Prefeitura Municipal de Vitória/Secretaria de Cultura, n° 19, 2000, pp. 94/102.</p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/nos-os-capixabas/" target="_blank" rel="noopener">SALLES, Carlos Augusto. Nós, os capixabas.</a> Revista <i>Você</i>, Vitória: Ufes, n.42, set. 1996.</p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/por-que-somos-capixabas/" target="_blank" rel="noopener">SANTOS NEVES, Guilherme. Por que somos capixabas?</a> <i>A Gazeta</i>, Vitória-ES, 19, 21, 22 e 23 de maio de 1963.<br />
<a href="https://issuu.com/mariaclaramedeiros7/docs/o_capixaba_e_o_outro/14" target="_blank" rel="noopener"><br /></a><br />
<a href="https://issuu.com/mariaclaramedeiros7/docs/o_capixaba_e_o_outro/14" target="_blank" rel="noopener">SIMONETTI Jr., João Carlos.&nbsp;<i>O Capixaba e o Outro: representação da identidade cultural no jornalismo impresso do Espírito Santo</i>.</a> Vitória: Cândida / Estação Capixaba, 2017 (Série Estação Capixaba, vol. 4) [versão digital ISBN&nbsp;978-85-64258-10-5] &#8211;&nbsp;Dissertação de mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da Universidade Federal da Bahia para obtenção do Grau de Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas.</div>
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Consulte também no menu&nbsp;<b>MULTIMÍDIA&nbsp;</b>(<b>Fotografia / Som / Vídeo</b>) todo o material de multimídia postado relacionado com o tema.</p>
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&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">©&nbsp;</span></b>Textos com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação <b>sem prévia autorização</b> dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
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