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	<title>Arquivos Viajantes &#8902; Estação Capixaba</title>
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	<description>Patrimônio Cultural Capixaba</description>
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	<title>Arquivos Viajantes &#8902; Estação Capixaba</title>
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		<title>Cenas e paisagens do Espírito Santo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 31 May 2017 17:57:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[História / Sociologia]]></category>
		<category><![CDATA[Júlia Lopes de Almeida]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Vitória. Acervo Biblioteca Central da Ufes. Observações sobre o texto e a autora A autora, em visita ao Estado do Espírito Santo durante o governo Jerônimo Monteiro (1908-1912), parece ter ficado impressionada com a modernização de Vitória empreendida naquele período, produzindo um artigo que é uma verdadeira propaganda da cidade e da administração de então. [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://4.bp.blogspot.com/-ukyd5m5SpKY/WJzHcbgvh7I/AAAAAAAALmg/oB8G2sm2TZEDNsEDHIS7DweHeRSCNQVwgCLcB/s1600/Vit%25C3%25B3ria-Biblioteca%2BCentral%2Bda%2BUfes.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img fetchpriority="high" decoding="async" alt="Vitória. Acervo Biblioteca Central da Ufes." border="0" height="400" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2017/05/Vit25C325B3ria-Biblioteca2BCentral2Bda2BUfes.jpg" class="wp-image-5173" title="Vitória. Acervo Biblioteca Central da Ufes." width="640" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Vitória. Acervo Biblioteca Central da Ufes.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>
<b>Observações sobre o texto e a autora</b><br />
<b><br /></b><br />
<br />
A autora, em visita ao Estado do Espírito Santo durante o governo Jerônimo Monteiro (1908-1912), parece ter ficado impressionada com a modernização de Vitória empreendida naquele período, produzindo um artigo que é uma verdadeira propaganda da cidade e da administração de então. Esse artigo foi publicado na <i>Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro</i> do ano de 1912.</p>
<p>Em junho de de 1994 a Revista <i>Você</i>, n.23, da Secretaria de Produção e Difusão Cultural/Ufes, também utilizando o mesmo material que possuímos, publicou as três primeiras partes desse texto.</p>
<div style="text-align: center;">
***</div>
<p></p>
<div style="text-align: center;">
<b>I</b></div>
<p>
<span style="font-size: 85%;">Propaganda do Brasil – o que se dizia do Estado do Espírito Santo – viagem – Os trens da Leopoldina – Jornais de Campos – Itabapoana – Paisagens espírito-santenses – O Saturno – Habitações camponesas – O destino das terras marginais da linha férrea – A construção dessa linha e a iniciativa do Governo espírito-santense – A estação terminal de Argolas – A luz – a travessia do canal em lanchas – As senhoras de Vitória – Cais de embarque, etc.</span></p>
<p>
Estou convencida, agora mais do que nunca, de que precisamos fazer a propaganda do Brasil—não só na Europa, onde ela deve ser feita com extrema habilidade, como no próprio Brasil. Porque a verdade é esta: nós conhecemos muito imperfeitamente o nosso país. Acabo eu própria de obter uma prova disto, observando num estado vizinho coisas, que estava bem longe de imaginar.</p>
<p>Deliberei por esse motivo expô-las a quem tinha delas a mesma ignorância que eu tinha. Escrevo com inteira e absoluta isenção, por não ser presa à política por nenhum vínculo quer de família, quer de simpatia pessoal.</p>
<p>Comecemos:</p>
<p>Quando constou que eu arrumava minhas malas para uma excursão à Vitória, alguém, que não há muitos anos viveu por algum tempo nessa cidade, correu a avisar-me que as suas ruas eram fétidas, verdadeiros depósitos de lixo, não devendo eu esquecer-me de carregar comigo frascos de desinfetante e perfumarias. Obedeci sem hesitação, pondo um vidro de Feno, em cada canto da mala e enchendo de frascos de essências a bolsinha de mão. Além dessa calamidade, avisava-me o meu informante, há a da falta d&#8217;água. Um chafariz pinga uma lágrima hipócrita de cinco em cinco minutos, ainda assim espremida com inaudito esforço e esperada pela população com enorme anseio. Em frente do chafariz há sempre uma multidão de carregadores, homens, mulheres e crianças, com bilhas e latas vazias de querosene, fazendo cauda, à espera do momento feliz de ir aparar o choro da fonte quase exaurida.</p>
<p>Só esse espetáculo basta para demonstrar a apatia daquela gente. Quem quiser, após as agruras de uma longa viagem, refrescar-se, ao chegar ao hotel, com um banho geral, terá de avisar o hoteleiro com certo tempo de antecedência por carta ou por telegrama, para que ele possa dar para isso as suas providências.</p>
<p>Ouvindo tais palavras eu não sabia se havia de sorrir, se de tremer, tanto elas me pareciam mentirosas ou apavorantes! Logo a onda das informações engrossou. Toda a gente que dizia conhecer o Espírito Santo me descrevia com pena o seu atraso material. Além do mais afirmava-se que o fanatismo do seu atual presidente criara por todo o estado uma atmosfera opressiva de desconfiança e de terror. Ninguém dobrava uma esquina sem se benzer. Falava-se em funcionários exonerados de cargos vitalícios por não assistirem à missa (!); em ruas coalhadas de batinas e de gente escorrida, de olhos postos no chão ou espreitando pelas frinchas a vida alheia para fazer ressuscitar na terra brasileira a alma terrível da Inquisição.</p>
<p>Procuro orientar-me pela leitura dos jornais. Mas o jornais não me orientam. Ao contrário, agravam-se a expectativa, comentando com acrimônia um contrato de madeiras firmado pelo governo do Espírito Santo com uma firma estrangeira, em que, segundo dizem, as florestas famosas desse estado serão devastadas, pondo a nu a terra e amesquinhando os mananciais dos rios. Eu, que sou uma defensora das florestas, toda me sinto arrepiar a esses comentários. Diante de tantas informações desagradáveis, não será muito mais prudente deixar-me ficar quietinha em casa? Voltando-me, entretanto, a falar da beleza da baía de Vitória, Afonso Celso, alma de artista e de poeta, recomenda-me que não deixe de navegar em horas de vária luz por entre as sua penedias e as suas ilhas maravilhosas. Há qualquer coisa que me chama, que atrai o meu coração e o meu pensamento para essas terras tão nossas vizinhas e tão nossas desconhecidas; tomo uma resolução e invisto para o trem.</p>
<div style="text-align: center;">
***</div>
<p>
Às nove horas de uma sexta-feira parti da estação de Santana, em Niterói, para a Vitória num confortável vagão-leito da Leopoldina. O quarto, iluminado a luz elétrica, fornecida ao trem pelo movimento das rodas e nunca interrompida, porque ele dispõe de acumuladores, permite que, mesmo deitada, eu continue a leitura de um livro que me interessa. A cama é boa, de alvos lençóis de linho e cobertor branco, de lã. Para início da viagem não estou mal; de resto, o movimento de tangage (dos pés para a cabeça) imprimido ao corpo por esse leitos transversais parece-me menos enjoativo que os colocados no sentido longitudinal, como os da Central. Com pequenas interrupções, durmo até a vizinha cidade de Campos, onde se passa ao carro-salão, e onde há uns tantos minutos de demora para o café. Percorro a gare — olho para todos os lados, a ver se lobrigo algo da cidade: pontas de torre ou dorsos de telhados. Mas a cidade deve ficar longe; não vejo nada e verifico com alegria que, se nada posso julgar, embora furtivamente, da sua grandeza material, tenho do seu desenvolvimento intelectual uma prova ao alcance das minhas mãos: os jornais. Nada menos de cinco. Compro-os com avidez e atiro-me para o trem, que partiu logo.</p>
<p>Da minha travessia pelo estado do Rio tinha-me ficado um desgosto: não ter visto a estação, já que não podia ser mais, da velha cidade de Macaé, a que sou afeiçoada por tradições de família e que não conheço. Mas agora, à luz da manhã toda azul e ouro, eu não tinha tempo para lamentar coisa nenhuma e só para ver.</p>
<p>A região descampada que percorríamos respondia à nossa curiosidade amiga com uma nuvem de pó, e foi só transposto o rio da divisa, o claro e manso Itabapoana, que essa nuvem loura e importuna se dissipou, como que por encanto.</p>
<p>Por maior que seja a simplicidade com que procuro escrever estas linhas, desornando-as de todo o luxo de uma adjetivação embaraçosa, tornando-as, tanto quanto possível, numa espécie de fotografia intelectual, em que se veja mais a nudez da verdade do que a atmosfera que a envolve, é bem possível que me fuja da pena uma ou outra expressão, que possa parecer ao leitor demasiada em relação à beleza dessa estrada que sobe em voltas de valsa de longas elipses até a uma altura de setecentos e dezesseis metros, e que desce do mesmo modo até quase ao nível do mar.</p>
<p>Os cortes das montanhas desenham pórticos de roxo antigo no fundo verde da vegetação. A estrada, evitando a perfuração de túneis, como se tivesse medo ao escuro, coleia pelo dorso das montanhas, quase na grimpa, ora aproximando-se, ora fugindo de águas que se despenham ou que deslizam. Aqui ondeia o Muqui, de leito tachonado como uma pele de tigre, e de alma sossegada como uma pomba juriti. Apertado entre colinas e penedias, acompanha por algum tempo a estrada, dando lugar depois a outros rios mais fortes e cachoeirosos.</p>
<p>Há, porém, um trecho nesta belíssima estrada da Leopoldina, de que jamais se esquecerá quem o tenha percorrido com a cabeça fora da portinhola do trem: é o &#8220;Soturno&#8221; ou Garganta do Inferno. O trem corta o flanco da penedia imensa, cosendo o seu corpo de réptil negro e fumegante ao corpo duro e frio de pedra branca. O precipício é terrível. Não tem mistérios. É a ribanceira enorme, íngreme, alvadia, em que se despedaçaria, implacavelmente, carne humana ou ferro bruto, que nele fosse despenhado.</p>
<p>Vista de cima, do caminho estreito em que parece haver apenas espaço para os trilhos, cortado parte na rocha, parte suspenso sobre um viaduto, a pedreira do Soturno, na sua nudez e austera simplicidade, acorda fatalmente em quem a veja a idéia da morte. Vista de fora, de uma curva da estrada, tem o aspecto de uma obra de arte monumental, escultura da nossa natureza posta ali pela mão formidável de um ignoto Miguel Ângelo.</p>
<p>A par de belezas imponentes há doçuras de paisagens, que atraem a imaginação para outras idéias.</p>
<p>Não me sinto nunca afagada pela sombra fria de florestas densas. As regiões que atravesso devem ser antes propícias a campos de criação, embora todas ondeadas pelos dorsos dos morros sucessivos. Há de longe em longe restos de cafezais e um ou outro canavial sem importância.</p>
<p>O destino daquelas terras deve estar realmente preso ao gado. Entre montes de vegetação rasteira e clara aparecem aqui e além grandes tufos de árvores. São os bosques de mataria, em que sobressaem as umbaúbas e imbaíbas com os seus troncos altos, esguios, muito brancos, como ossos descarnados ou grossos traços verticais de giz sobre o fundo verde-negro da vegetação.</p>
<p>Sempre que viajo pelo interior dos nossos estados procuro, embora de passagem, observar o tipo de habitação dos nossos camponeses. Estes, do Espírito Santo, parece terem certos instintos de gosto. As casa, se ainda têm telhados de palha, esta é subjugada por linhas paralelas de trançados de embiras aparadas com maior ou menor perfeição. Entretanto, entre estes telhados são freqüentes outras cobertas de escamas de madeira com a sua cor natural. As casa são em geral bem caiadas, resplandecendo de alvura no meio dos prados, e tanto os seus umbrais como as suas portas vêm-se ao longe pela violenta tinta azul anil com que são pintadas. O aspecto é agradável e dá, francamente, a quem o vê, uma impressão saudável de alegria e de asseio. Uma outra nota que afina com essa é a de fazerem paredes divisórias de terrenos com pés de laranjeiras, plantadas tão perto umas das outras que os seus ramos se embaralham e confundem, a ponto que elas mesmas, interrogadas, não poderiam dizer quais seriam os seus galhos, quais os das suas vizinhas.</p>
<p>Isto, que parece coisa nenhuma, é já, aos meus olhos, um magnífico sintoma. Passam-se, todavia, largos trechos sem que veja nenhuma habitação. A terra está à espera do trabalhador que a fecunde, do rebanho que a anime. Ao longe, a famosa pedra Itabira aponta silenciosamente o azul limpo do céu, entre os grandes rochedos — o Frade e a Freira. Por mais curvas que o trem faça, vejo-a sempre ao longe como uma sentinela sonhadora, coberta pelo véu azul da idealidade.</p>
<p>Eis-me, porém, sobre o raso Itapemirim, largo e cantante, em frente à cidade do Cachoeiro, que, a julgar pelo movimento da gare, deve ser animada.</p>
<p>Tendo almoçado no próprio trem, no seu bem organizado salão-restaurante, eu não tinha, desde a véspera à noite, posto o pé em terra senão na curta estadia em Campos, para o café matinal. Não me sentia, contudo, enfadada pela viagem; ao contrário, tinha a convicção de que, só por si, ela justificaria interesse de uma excursão à Vitória.</p>
<p>Essa estrada, inaugurada pelo Dr. Nilo Peçanha, creio que no último mês da sua administração, é um verdadeiro desafogo para o estado do Espírito Santo . Ela é tanto uma estrada estratégica como um traço de união entre o progresso da capital da República e a Vitória, e representa um golpe de alto tino administrativo do homem que, como depois observei, à energia silenciosa de um esforço incansável, alia a habilidade de um fino diplomata: o Dr. Jerônimo Monteiro.</p>
<p>Quando esse senhor assumiu a presidência do Espírito Santo, encontrou feito um trecho dessa estrada, entre a cidade da Vitória e a do Cachoeiro, tendo, portanto, princípio e fim em terras do mesmo estado, numa zona de insignificante produção agrícola e pequeno movimento comercial. O custo desse trecho da estrada tinha sido excessivamente caro e sua manutenção era incompensada, mesmo onerosa. À vista desse embaraço econômico, o governo do estado tomou a resolução progressista de o vender por preço reduzidíssimo à Leopoldina, impondo-lhe a obrigação de, em prazo determinado, inaugurar a viação férrea entre Vitória e Niterói e exigindo ainda dessa Companhia outras obrigações entre as quais figura a construção de uma grande ponte movediça que ligue a cidade da Vitória ao continente. Houve naturalmente quem pusessem as mãos na cabeça, clamando contra o desperdício de ver vender por quase nada o que tanto dinheiro tinha custado ao estado; mas tudo leva a crer que essas mesmas pessoas estejam hoje convencidas de que, mesmo que o governo tivesse feito presente desse trecho de caminho de ferro à Leopoldina, ainda assim teria lucrado com a transação. Graças a esse rasgo administrativo, nem as pessoas nem os progressos da Capital Federal precisam esperam, com oito dias de intervalo, o enjoativo transporte marítimo, a fim de seguirem para a terra capixaba.</p>
<p>Estas primeiras informações foram-me fornecidas no próprio trem por um viajante português, que eu conheci há anos no rio de Janeiro e que é atualmente morador na Vitória. Nenhum laço o prende à política nem às pessoas da representação oficial. É, pois, uma voz insuspeita, a primeira voz que me revela alguma coisa sobre a organização administrativa do Espírito Santo.</p>
<p>É ainda esse viajante quem me aponta, na vertiginosa corrida do trem, uma grande represa de águas e uma usina fornecedora de eletricidade.</p>
<p>— Então a cidade da Vitória&#8230;</p>
<p>— É iluminada a luz elétrica. Devemos também esse melhoramento ao governo atual. E vai ver que boa luz!</p>
<p>— Antes, havia gás?</p>
<p>— Não; havia lampiões de querosene e lanternas. Quem se aventurasse a sair à noite teria de levar luz consigo&#8230; Passar-se do petróleo e da vela à lâmpada elétrica é caminhar aos saltos!</p>
<p>Era já noite quando o trem parou na sua estação terminal, em Argolas, em face da cidade da Vitória. A gare estava coberta de povo, sendo grande parte dele constituído por senhoras, elegantemente trajadas. A estação tem o caráter provisório; é feia e de madeira. Espera naturalmente o lançamento da ponte para se mudar definitivamente para a outra margem. Mas não há tempo de olhar para isso, já as lanchas estão atracadas à espera dos passageiros, e temos todos de saltar para elas sem perda de um minuto.</p>
<p>Ainda não rompeu o luar, mas no céu de veludo azul ferrete brilham os astros com um esplendor diamantino. Nas águas escuras tremeluzem reflexos de ouro e de escarlate de várias luzes, as lanchas partem, e em poucos minutos pisávamos o solo da Vitória, desembarcando no Éden-parque. A cidade tinha uma feição alegre e tumultuosa, a que não me referirei por ser anormal; somente posso assegurar que ao adormecer, tarde, nessas noite no hotel, eu me sentia abalada pela doce impressão de uma agradável surpresa.</p>
<p></p>
<div style="text-align: center;">
<b>II</b></div>
<p>
<span style="font-size: 85%;">Cidade de granito e de mangue – O estilo da cidade – Maria Ortiz e os Holandeses – Casas comerciais – Uma esperança – Uma crisálide que rompe o casulo abandonado – Vila Moscoso – Um parque e duas avenidas – O quartel de Polícia – Lodaçais e mangues que desaparecem – O hospital novo – Habitações populares -A cidade acorda de um letargo – O Bairro do Rubim ou a cidade de palha – Os telhados – A água – Os filtros – Elementos de salubridade – O astro saudoso encarregado do policiamento da cidade – A luz elétrica – Águas servidas – Os esgotos – Quando as famílias dos oposicionistas devem discordar dos seus chefes – O futuro Mercado – O futuro hotel – O papel desempenhado pelos frascos de Fenol e de essências -Serviço de limpeza pública e domiciliária – Em duas horas de passeio – O Suá – A capela do Rosário – O palácio presidencial; o cais do imperador; o jardim da Esplanada – Velhos conventos – Maravilhosa transparência da atmosfera – Os astros – Partida para Vila Velha.</span></p>
<p>
Vitória, se não é, como a Lisboa cantada pelo poeta, uma cidade de mármore e de granito, é uma cidade de granito e de mangue.</p>
<p>A casaria apertada, no estilo das velhas cidades minhotas, encarrapita-se pelo morro acima formando ladeiras e vielas que fazem, a quem as veja pela primeira vez, pensar nas aventuras dos romances de capa e espada.</p>
<p>Aqui na rua estreita descendo em sucessivos lances de escadas entre prédios altos, de janelas à antiga, de uma das quais Maria Ortiz despejou água a ferver sobre os holandeses invasores; acolá a sinuosidade de um caminho beirando as paredes de um convento ou de um colégio fundados pelos jesuítas nos tempos coloniais e, de repente, um corte de terreno, de onde se descortina o azul do mar ou o dorso verde das colinas da outra banda, isto é, do continente.</p>
<p>Na linha plana, em baixo, as ruas comerciais têm muito maior movimento do que eu poderia supor, à vista do que me diziam no Rio da apatia do povo e do atraso do lugar. Nessa parte da cidade as casas, já com fachada à moderna, infundem, muitas delas, a idéia da abastança e da prosperidade.</p>
<p>Há coisas que não se vêem nem se explicam — sentem-se. O ambiente de um lugar tem a sua voz que, embora intraduzível, nos assegura se nele se vive com esperança ou desespero. E tudo, neste torrãozinho pitoresco que é a velha cidade de Vitória, me fala do futuro, porque, todo ele é uma esperança que lateja, uma crisálide que rompe o tosco casulo abandonado para espanejar à luz as asas multicores.</p>
<p>Basta olhar, de qualquer ponto em que se descortine uma área considerável, para se observar o seu esforço de transformação. Os mangues, a que aludi, começam a desaparecer sob as camadas do aterro. Na parte baixa da cidade, em uma planície conquistada a um antigo e extenso lodaçal, Vila Moscoso, vi o debuxo de duas avenidas e um parque já com o leito do seu lago pronto e já combinadas as suas futuras sombras pelo agrupamento das plantas, indicadas nos relvados nascentes.</p>
<p>Em frente a esse campo, agora todo drenado e enxuto, onde em vez de caranguejos patinhando em lama correrão em breve as crianças por sob a galharia das árvores benéficas, o Quartel de Polícia, livre agora das umidades geradoras do béri-béri, que se infiltravam nas suas paredes precipitando a ruína do edifício e a morte dos soldados, firma-se em terra seca e mostra internamente condições de higiene, que não sei se serão comuns em outros quartéis. No alojamento das praças, por exemplo, vi camas com lastros de arame revestido de sola. Essas camas são móveis, ficando durante o dia suspensas, para que toda a sala livre e nua possa ser lavada sem estorvo. O ofício rude do soldado é adoçado assim na sua hora de repouso. Não tive tempo de visitar as aulas de leitura e de música no curso policial, porque a minha visita a esse estabelecimento foi apenas uma visita de passagem, matinal e apressada.</p>
<p>Não longe desse lodaçal desaparecido, está desaparecendo também um mangue, engolido pelo aterro do hospital novo. Esse hospital é edificado em pavilhões separados, quase concluídos, olhando do alto de uma colina para a cidade e para o mar. Se bem entendi o meu cicerone, para construírem esses pavilhões em terreno nivelado fizeram um platô no alto da colina, e é com a terra tirada para esse efeito que aterram o mangue próximo, saneando o local e prolongando uma das ruas mais bonitas de Vitória, que é a avenida Schmidt.</p>
<p>Foi um curto passeio matinal que tive ocasião de observar estas coisa, que desejaria descrever com absoluta clareza, porque tenho a convicção que serviriam de estímulo a muitas atividades ainda adormecidas&#8230;</p>
<p>Realmente a impressão, que tive naquele curto passeio, foi uma alegre impressão de trabalho.</p>
<p>Enquanto as carroças cobriam o lodo salgado com a terra seca do morro; enquanto os trolhas e os pintores davam a última demão a uma grande série de habitações populares higiênicas e baratas, feitas por iniciativa do governo de acordo com um poderoso capitalista do lugar, com quem contratou a edificação de duzentas casas sob várias condições de preço, de tipo e de tamanho, prestando com isso grande benefício à população crescente da Vitória, enquanto as paredes do hospital novo cresciam para refúgio de futuros padecimentos, cá em baixo na estrada os engenheiros eletricistas se apressavam mandando a turma dos seus empregados abrir covas no chão para os postes dos bondes elétricos.</p>
<p>A cidade acorda de um letargo de séculos e quer ganhar tempo aos saltos.</p>
<p>Foi no bairro Rubim, antigamente Cidade de Palha, que eu vi as obras, que acabo de citar. Essa visita não figurava no programa estabelecido para os seis dias da minha demora na Vitória.</p>
<p>Para ver a Cidade de Palha não roubei nada ao meu programa, mas roubei ao meu sono algumas horas, que só no Rio recuperei. Pelo menos isto indica que a Vitória tem que ver!</p>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="float: left; margin-right: 1em; text-align: left;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://4.bp.blogspot.com/-hL5NSpXqupM/WJzIzICichI/AAAAAAAALms/XxtyG9zEj5kxrEEl7HvbsoR0RPgM6iO2wCLcB/s1600/Vila%2BRubim%252C%2B1910.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img decoding="async" alt="Vila Rubim, 1908. Acervo Biblioteca Central da Ufes." border="0" height="170" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2017/05/Vila2BRubim252C2B1910.jpg" class="wp-image-5174" title="Vila Rubim, 1908. Acervo Biblioteca Central da Ufes." width="320" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Vila Rubim, 1908. Acervo Biblioteca Central da Ufes.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>
Que é a cidade de palha? Uma vila de operários, uma espécie do nosso Morro de Santo Antônio, mas sem lixo, com alegria, com asseio, com água. Até ao alto do mais alto barranco, onde se aninha um casebre, ali vereis uma torneira jorrando água em abundância.</p>
<p>Antigamente todas as cobertas das habitações desse bairro eram trançadas com folhas de palmeira ou com sapé.</p>
<p>Era o canto da pobreza, bem significativo e bem pitoresco, entretanto.</p>
<p>Numa colina, em frente ao canal que divide a ilha do continente, esse bairro policromo e modesto dá a impressão de um quadro curioso, uma grande tela coberta de borrõezinhos de tintas disseminadas sem ordem, ao salpicar dos pincéis, pela mão fantasiosa de um paisagista risonho.</p>
<p>Hoje as casas têm paredes caiadas, e a maioria delas é coberta de telhas. Pode-se ainda assim, conforme observou o ilustre médico que me acompanhava, presidente do Congresso espírito-santense sr. dr. Júlio Leite, a cujo espírito e a cuja amabilidade seria ingratidão muito feia não fazer eu aqui uma referência, estudar nesses telhados da Vila Rubim, alinhados em vários planos como nas camadas geológicas, as diferentes épocas da sua história.</p>
<p>Ao lado de um ou outro teto de palha ainda refratário, vê-se um de zinco com a sua cor natural, para logo adiante aparecerem outros também de zinco, mas já pintados de vermelhão ou verde, até aos outros, de telha comum. Não será preciso esperar muito para surgirem entre eles alguns de terraço, com as competentes balaustradas e tinas para flores&#8230;</p>
<p>Mas a principal alegria para os habitantes do Rubim, como para os de toda a cidade, é a água. Se para os ricos e os remediados a água era ainda há três anos na Vitória um líquido quase tão precioso como o Champagne, imagine-se o que seria para os operários, que a não podiam comprar com a mesma facilidade, porque na estação estival cada lata (das de querosene) cheia de água custava 200 réis, 500 réis e, quando a seca apertava, dez tostões e por muito favor! Então ela era colhida dos mananciais escassos da ilha, distribuída em quatro chafarizes da cidade, fora alguns poços para serventia pública. Parece impossível que um tal estado de coisas pudesse durar perto de um século, para só agora ser remediado, mas felizmente remediado de um modo absoluto e definitivo. Disseram-me haver na Vitória água pura para uma cidade de dez vezes maior população, e que haverá em breve para uma cidade de cem vezes maior população, porque está sendo atacada com vigor uma nova obra para abastecimento de água aos arrabaldes do continente, bem como outra muito importante — que é a construção dos filtros. A água sairá já filtrada das torneiras, e não em pranto gotejado como outrora, mas em torrentes copiosas.</p>
<p>Tanto este elemento de alegria e de salubridade como o da luz elétrica, que substituiu as lâmpadas belgas a querosene que alumiavam as ruas, com exceção das noites de luar, em quem de boa ou de má vontade, o astro saudoso ficava encarregado do policiamento da cidade; tanto esses dois melhoramentos como ainda o dos esgotos, inaugurado no ano passado, deram tamanha popularidade na Vitória ao atual governo do Espírito Santo, que não se pode deixar de falar num, e com justo louvor, sempre que se tenha de falar da outra.</p>
<p>Até há bem pouco tempo era um problema saber-se nessa cidade, em que a maioria das casas não tem quintais, onde atirar-se um pouco de água servida, visto que nem sempre pode ser considerada obra meritória vazar-se de uma varanda qualquer tachada de barrela a ferver sobre a cabeça de quem passe, seja holandesa ou cabocla, pacífica ou belicosa.</p>
<p>Mas foi sobretudo o abastecimento da água, primeira comodidade estabelecida pelo sr. Jerônimo Monteiro na capital do Espírito Santo, que lhe granjeou a simpatia da cidade, e muito especialmente a de todas as donas de casa. As próprias famílias dos oposicionistas discordam com certeza dos seus chefes sempre que abrem as torneiras dos seus banheiros ou das suas cozinhas.</p>
<p>A par das obras que observei nessa excursão matinal, citam-me outras já contratadas e com proteção do governo, como por exemplo o mercado. O de agora será substituído por um outro de ferro e de vidro, com aquário para peixes e câmaras frigoríficas para carnes e frutas. Falam-se também da construção de um hotel com cerca de oitenta quartos e todos os rigores da higiene e do conforto moderno, preocupação que não pode ser adiada, porque já é considerável o número de forasteiros nessa cidade. E esse número crescerá em pouco tempo enormemente, sem a menor dúvida.</p>
<p>Volto para o meu hotel com a cabeça cheia de surpresas. Realmente, será esta a gente apática, de que me falavam, e esta a cidade fétida atapetada de lixo? Para certificar-me ainda, chego à janela do meu quarto. Em frente, a ladeira da Matriz sobe apertada entre casaria de paredes brancas; em baixo, ondeia outra rua edificada em estilo mais moderno. Olhei: tanto uma como outra estavam limpas. Inclinei-me da sacada, dilatei as narinas no esforço de perceber a qualidade do cheiro dessa cidade marítima. Não senti nada. Se nas varandas não havia rosas, também nas portas não havia lixo. Lembrei-me então dos meus vidros de fenol e de essências, ainda arrolhados, e não pude deixar de sorrir.</p>
<p>Contando eu isto a algumas pessoas nesse mesmo dia, retrucaram-me que na verdade até pouco tempo o leito das ruas da Vitória permanecia por longas horas enfeitado por pequenos montículos de retalhos e de detritos de toda a espécie. O atual governo estabeleceu o serviço de limpeza e de higiene pública e domiciliária, de modo a fazer cessar por completo essa vergonhosa exibição de imundícies.</p>
<p>Em duas horas de passeio, feito ora de bonde, ora a pé, tive assim nessa manhã ensejo de observar, colhendo-a a bem dizer, em flagrante, a ânsia de progresso que se está desenvolvendo na capital do Espírito Santo, essa pequena cidade, hoje de tão originais aspectos e tão alegres coloridos e destinada a ser em futuro não remoto um grande empório marítimo; assim lhe sucedam a este atual outros governos igualmente patrióticos e ativos.</p>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://1.bp.blogspot.com/-uWUFjtzgco0/WJzKVV-ItmI/AAAAAAAALm4/OG1x07uMJ6wD6wUH6rHU3RVeetyaPbhQACLcB/s1600/Praia%2Bdo%2BSu%25C3%25A1-1.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"><img decoding="async" alt="Praia de banhos do Suá." border="0" height="131" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2017/05/Praia2Bdo2BSu25C325A1-1.jpg" class="wp-image-5175" title="Praia de banhos do Suá." width="200" /></a></div>
<p>Em contraposição ao bairro dos operários, a antiga Cidade de Palha, há o bairro elegante da Praia do Suá, preferido por toda a gente que pode hoje na Vitória construir um chalé ou um palacete, Fica um pouco distante do centro. Corresponde em ponto muito mais pequeno e em relação à cidade à nossa Copacabana. Demais a mais, é a melhor, se não única praia de banhos da Vitória, e parece que muito concorrida, pela facilidade de condução, indo o bonde até à praia em viagens amiudadas. O bonde atravessa grandes extensões ainda por edificar, ora em linhas retas, ora em estradas curvas marginando golfos e mangues. Mas esses mangues estarão em breve cobertos de bosques de eucaliptos e essas colinas alegradas pelos talhões das hortas e dos jardins.</p>
<p>O seu destino está escrito pelo progresso da cidade que desperta, guardada à vista pelo penhasco majestoso do Penedo, que desempenha na baía da Vitória, com mais austeridade, o mesmo papel ornamental do nosso Pão de Açúcar.</p>
<p>Conquanto a cidade seja constituída num terreno rochoso, há nela em vários pontos alguns tufos de vegetação forte de um verde intenso, como um, do qual se destaca o palacete do coronel Guaraná, e o outro que serve de fundo à capela do Rosário, que se vê de longe com a sua branca escadaria de pedra e o seu adro cingido de pilastras e de grades.</p>
<p>Como em toda a parte do mundo por onde andem, os jesuítas souberam escolher na Vitória os pontos mais culminantes e melhores para suas edificações. Dá disso testemunho o próprio palácio presidencial, que é um antigo convento construído na parte alta da cidade, e dominando por uma das suas faces laterais uma larga escadaria de pedra que vai até a baixo, o cais do Imperador. Em frente à sua fachada principal há um novo jardim, de esplanada, sustentado por muralhas, e onde duas vezes por semana tocam as bandas locais para alegrar o povo. Junto ao palácio, tem a igreja de S. Tiago, que não visitei, como não visitei também o velho convento de S. Francisco, o que lamento, porque deve haver dentro deles algum assunto antigo e artístico digno de atenção. Nem ousei falar nisso, porque havia um programa a cumprir, e eu começava a perceber que a pequena e tão singular cidade de Vitória não se mostrava toda em poucos dias a ninguém.</p>
<p>O que notei ali desde o primeiro dia até ao último, foi uma admirável transparência na atmosfera, uma claridade puríssima que envolvia as coisas, fazendo-as realçar com todos os seus detalhes.</p>
<p>Essa nitidez que deleitava os meus olhos deve fazer o desespero dos pintores que tentem passar para a tela as encantadoras paisagens espírito-santenses. Águas, troncos, pedras, galharias de árvores, telhados de casas ou barrancos de estradas, não se dissimulam nem se fazem adivinhar sob nenhum véu de névoa que os idealize; mostram-se cruamente, nuamente, em todas as minúcias da sua cor e da sua contextura. O céu tem por isso tintas de um fulgor delicioso, manhãs de turquesa líquida, crepúsculos cor de rosa que tingem de vermelho as águas fundas do mar. Mas é sobretudo à noite, que na sua transparência e profundidade o firmamento mais se embeleza pelo clarão lucilante dos seus astros.</p>
<p>
Mas não nos detenhamos a olhar para as estrelas feiticeiras, porque é tempo de tomar a lancha e partirmos para Vila Velha.</p>
<p></p>
<div style="text-align: center;">
<b>III</b></div>
<p>
<span style="font-size: 85%;">A baía da Vitória – Um canteiro ambulante de papoulas – Vila Velha – O fim destes artigos – Um período de transformação – A sociedade – Pedro Palácios – O Convento da Penha – Um quadro de Velasquez – Efeitos da fé – A construção do Convento no alto da Penha – Rivalidade de Vila Velha e da Vitória – A Diamantina e seus prodígios futuros – Ladeira mais fácil de subir que descer – Promessas – Hospedagem fidalga – Escolas – Governo Municipal de Vila Velha – Fortaleza de Piratininga – Beleza do local – Ordem do estabelecimento – Ginástica sueca – &#8220;Five o&#8217;clock tea&#8221; – Doçura ambiente – Volta à Vitória.</span></p>
<p>
Eram oito horas da manhã, quando &#8220;Santa Cruz&#8221; zarpou da Vitória com rumo à cidade do Espírito Santo.</p>
<p>Ora, até que enfim, ia eu ver essa poética baía tão recomendada pelos poetas e pelos navegantes. Propensa às contemplações da natureza, desviei a atenção das pessoas que me rodeavam, o que posso garantir não ser coisa fácil, visto que a sociedade da Vitória tem na singeleza do seu trato seduções imperiosas, e abri bem os olhos para as maravilhas dessa porção de mar em que a &#8220;Santa Cruz&#8221; ia estendendo o lençol do seu rasto escumoso.</p>
<p>A quem já conhece a baía Guanabara parece impossível poder encontrar motivo de admiração em outra baía, de mais a mais do mesmo país, o que quer dizer da mesma natureza e a pequena distância, relativamente. E, todavia, encontra-o. A da Vitória tem surpresas. Toda ela é feiticeira, toda ela é um misto de poema e de graça, de transparências lúcidas e de recortes airosos. Porque eu levasse talvez nos olhos a impressão majestosa da baía do Rio, tudo nessa do Espírito Santo me parecia de proporções reduzidas e tendo nisso mesmo um encanto muito peculiar e muito interessante. As montanhas que a rodeiam não assombram ninguém; guardam proporções perfeitamente compreensíveis e de uma normalidade de formas quase inquietante.</p>
<p>Em certos pontos, quem está dentro dela pode julgar-se em um lago, tanto a conformação das terras que a cingem parece isolá-la do grande Atlântico.</p>
<p>Alguém, dentro da lancha, chama a minha atenção para os pontos mais pitorescos: aqui uma ilhota; acolá uma linha branca de praia, ou a habitação de um inglês, de bom gosto, numa colina solitária e verde, ou um bosque à beira da água. No cimo de tal montanha azul, cujo nome a minha triste memória esqueceu, descrevem-me uma cavidade natural, para onde os índios atiravam os seus mortos.</p>
<p>Ficava assim o seu alto cemitério de fácil comunicação com o céu.</p>
<p>Reconheço de longe a graciosa Praia do Suá com as suas barracas brancas ainda armadas para os banhistas; e perto o forte de S. João, Penedo, e o contorno de terras vistas na véspera. O mar está de um azul veemente. Cruzamos com outra lancha, em que escolares de vestidos escarlates, uniforme dos colégios, fazem lembrar a floração de papoulas num canteiro ambulante.</p>
<p>Sacodem-se lenços, mas já alguém me faz voltar a cabeça para a Pedra dos Ovos, ilhota que lembra as da vizinhança de Paquetá.</p>
<p>Seria estultice tentar sequer descrever com esta minha pena rombuda e trôpega o encanto das terras, que circundam a baía da Vitória. De resto, o fim destes artigos não é fazer literatura, mas dar, com a possível clareza, idéia do movimento de um dos nossos estados de menores recursos e em um período que é para ele, positivamente, de transformação.</p>
<p>Foi a verificação deste fato que me impulsionou a escrever estas linhas, com a esperança de que elas possam servir de alento a outros estados de mais frouxa iniciativa.</p>
<p>Fique, pois, entendido que a baía da Vitória não desmentiu, antes confirmou absolutamente todo o bem, que dela me tinham dito, e que foi com os olhos cheios da sua beleza que aportei a Vila Velha, primeiro pouso desse desventurado boêmio Vasco Fernandes Coutinho, a quem por mercê de D. João III foi doada a capitania do Espírito Santo.</p>
<p>Rodeada, ali como na Vitória, por uma sociedade fina e carinhosa, empreendi corajosamente a subida do convento da Penha, proeza de que me sinto ainda agora um pouquinho espantada. Não sei a quantos metros de altura fica esse templo, mas posso assegurar que jamais pisei rampas mais resvaladiças nem mais íngremes do que as da Penha, em que ele está assente.</p>
<p>Antes de subir, para que eu tomasse fôlego, levaram-me a ver, perto do portão da entrada, uma pequena gruta natural, onde um frade, frei Pedro Palácios, salvo de um naufrágio, se acolheu, ou antes se escondeu, talvez com medo dos índios, guardando consigo um registo a óleo da Senhora da Penha, que atribuem a Velasquez, não sei por quê, e que também não sei como pode escapar são e perfeito do naufrágio aludido. Mas lendas não são assuntos de comentário neste gênero de artigos meramente descritivos, não se podendo gastar com eles senão o tempo da referência. Não sei quantos dias viveu frei Palácios agachado no seu obscuro buraco, sob uma lapa suspensa e úmida.</p>
<p>O caso espantoso não é esse; o caso espantoso é que todas as noites o quadro a óleo da Senhora da Penha, com o seu bendito filho nos braços, via na gruta da planície adormecer o frade em santa paz, para, ao romper da aurora, aparecer bem do alto da alta penha, em que vive agora definitivamente! O poder do milagre fez os seus efeitos. índios e colonos, tocados por ele, consentiram em carregar à cabeça as pedras, as madeiras, todos os materiais, enfim, com que lá em cima se construiu o grande convento, com a sua torre quadrangular, a sua capela, em que a obra de talha conserva a cor natural da madeira em que é feita, as suas grandes cisternas, porque não havendo fontes no morro seria preciso prevenirem-se para conservar as águas da chuva; as suas celas e corredores e as suas escadarias e terraços. Bem como as pedras, foi carregada à cabeça a água com que se argamassou o barro e a areia para edificação de tantas e tão grossas paredes!</p>
<p>O caso espanta o touriste, mesmo o menos impressionável, e que ainda arquejante dá por bem empregado o esfalfamento da subida, quando lá em cima espalha a vista pelo panorama em redor e vê de um lado o mar, de que emergem aqui e além dorsos de rochas ou pontas de serras de vários cambiantes, estendendo-se depois azul e largo até ao infinito horizonte. Em baixo, a grande planície de Vila Velha, verde-clara e branca, toda ela coberta de gramíneas curtas e de areais, com os seus grupos de casas aqui e além, ruas bem alinhadas e campos cortados de esteiros, que lampejam ao sol e que ali estão à espera da futura cidade, que os há de aproveitar como elemento de graça, margeando-os de árvores, cobrindo-os de longe em longe por pontes elegantes.</p>
<p>Parece-me perceber uma certa rivalidade entre Vila Velha e Vitória, mas essa rabugice ingênua desaparecerá logo que as duas cidades formem uma só, ligada que seja a ilha ao continente pela ponte móvel da Leopoldina. Se as distâncias hoje são grandes entre si, também grande será o incremento dado à capital do Espírito Santo pela Estrada de Ferro da Leopoldina, destinada a transformar o porto da Vitória num dos portos mais ativos do Brasil.</p>
<p>Calculam-se já as toneladas de ferro bruto, que os comboios dessa estrada trarão diariamente de Minas e dos confins do próprio estado do Espírito Santo, para despejarem nos porões dos transatlânticos estrangeiros à sua espera na Vitória, e o número dessas toneladas atinge a uma soma enorme. Mas, voltemos a falar do convento.</p>
<p>Como a ladeira do fado português, que é mais fácil de subir que de descer, porque ao subi-Ia levava o namorado a esperança de ver lá em cima a sua amada, e descendo-a já vinha carregado de saudades suas — assim, mas por outras razões, está claro, é a do convento da Penha de Vila Velha.</p>
<p>Para cima, o peito arfa, mas os pés não escorregam; para baixo, é necessário vir-se executando prodígios de equilíbrio para não se cair redondamente sobre os duros calhaus denegridos e lustrosos, que revestem o solo. E ao pisá-los pensa a gente com espanto na resistência de certas criaturas, que sobem aquelas rampas de rastos por promessa, chegando a cima quase exânimes, ensangüentadas, mas, enfim, ainda vivas!</p>
<p>Parece que hoje não são permitidos tais excessos e que mesmo as ofertas de cera, de cabelos, de trabalhos a miçanga e de quadrinhos ingênuos e grotescos, que ali, como em todos os templos milagrosos, cobrem as paredes das sacristias, vão ser pouco a pouco substituídas por pequenas placas de mármore com o voto do ofertante.</p>
<p>Creio bem que a imaginação do povo relute em aceitar essa substituição, não encontrando na pedra fria o símbolo correspondente ao ardor da sua fé.</p>
<p>Chegamos a baixo com os joelhos trêmulos, mas com os pulmões revigorados por um grande hausto de ar puro e livre, e trazendo para sempre refletida nos olhos a visão maravilhosa dessas terras e rochedos, desse imenso mar, e desse imenso céu todo azul e ouro.</p>
<p>Depois de algumas horas de repouso numa hospedagem fidalga, de uma visita ao governo municipal de Vila Velha e outras visitas aos colégios públicos do lugar, cujas aulas estavam repletas de crianças robustas e alegres, seguimos por uma linda estrada para a Fortaleza de Piratininga, Escola de Aprendizes Marinheiros.</p>
<p>Tinha de notável essa estrada, perfeitamente construída, ter sido feita pelos aprendizes da Escola, sob a direção de um dos seus oficiais. E eis aí uma iniciativa, que deve ter lisonjeado a municipalidade de Vila Velha, por facilitar a comunicação do povo da terra com a pitoresca e velha fortaleza. Aí, ao transpor o portão da entrada, não tive a impressão de penetrar numa praça militar, mas num belo e vasto parque de castelo europeu, com as suas largas alfombras veludosas e as suas aleias de belas perspectivas.</p>
<p>O local é amplo, todo numa curva de terra beijada pelo mar. No pátio do edifício, de forma convexa, tocava a banda dos aprendizes com muito garbo e afinação, embora constituída havia poucos meses.</p>
<p>O diretor da Escola, comandante Maurício Pirajá, oficial distinto e que alia às suas qualidades de militar severo as de um perfeito gentleman, teve a delicadeza de percorrer conosco todo o estabelecimento: enfermaria, farmácia, alojamentos, aulas, refeitório, cozinha, lavanderia e paiol, fazendo notar em tudo o maior asseio e a ordem mais absoluta.</p>
<p>Sobre uma das portas da fortaleza, hoje remoçada e até florida, vê-se ainda, como documento histórico, uma pedra gravada com dizeres no português do tempo relativos à sua fundação.</p>
<p>Depois de ter percorrido todo o interior do edifício saí, a ver no parque os exercícios de ginástica sueca executados com precisão admirável pelos menores.</p>
<p>De cima de um terraço eu dominava o grande tapete relvado onde os aprendizes, dirigidos por um companheiro, faziam ao mesmo tempo que ele todos os movimentos disciplinares, do mais suave ao mais torturado, como se os músculos de todos eles obedecessem a um só maquinismo e a uma só vontade.</p>
<p>A tarde estava de um encanto inesquecível. Numa parte do jardim lateral do edifício, uma grande quantidade de pequeninas mesas brancas e floridas para o <i>five o&#8217;clock</i>, e dispostas com arte de modo a poderem os que estavam em uma delas ver os que estavam em outras, traziam à lembrança naquele cenário de macias relvas, de praias claras, em que o murmúrio das ondas se casava ao ramalhar das árvores e ao som dá música ao ar livre, cenas de outros lugares distantes, talvez Nice, talvez Cannes&#8230;</p>
<p>E até sol-posto foi um rumor alegre de vozes naquele jardim, e um correr de meninos pelos gramados, tachonando-os com as cores alegres dos seus vestidos e dos seus chapéus floridos.</p>
<p>E se o mar não prometesse mau embarque, ali ficaríamos até o romper do luar, para navegarmos depois em mar de prata e gozarmos por mais tempo as doçuras daquele ambiente delicioso&#8230;</p>
<p></p>
<div style="text-align: center;">
<b>IV</b></div>
<p>
Ora, pois, abro um parêntese na série destes artigos descritivos, para me referir a um fato, que nos impressionou a todos no Rio de Janeiro, porque teve na imprensa carioca uma horrível repercussão. Não é preciso uma extraordinária perspicácia para se adivinhar qual ele seja; já o leitor percebeu que aludo ao contrato feito pelo Governo do Estado do Espírito Santo com a firma Lichtenfels &amp; Cª para exploração de matas do Estado e desenvolvimento da sua imigração.</p>
<p>Quando parti para a cidade da Vitória levava o espírito apoquentado por esse assunto e vou dizer por quê, para que não pareça exagerada a minha sensibilidade. É o caso que desde que peguei na pena, resolvida a escrever para o público, me arvorei, por minha conta própria, em advogada das nossas árvores urbanas e florestais.</p>
<p>Corajosamente, sem medo de criar com a minha insistência fama de monótona a propósito de tudo, e manda a boa verdade dizer que muitas vezes fora de propósito, procurei sempre fazer entre nós a propaganda da árvore e da flor, e, se a minha vaidade, ou veleidade, já se tem consolado com alguns triunfos nesse sentido, confesso que ainda estou bem longe de ver confirmados todos os meus propósitos. Tendo em artigos de jornais, em conferências, em livros, clamado sempre contra a devastação inútil das nossas matas e a favor do plantio e replantio do arvoredo benéfico, é fácil de imaginar qual seria a minha opinião em face desse famoso contrato, destinado, segundo diziam, a desnudar por uma miséria a linda terra espírito-santense!</p>
<p>E, por isso mesmo, porque esse assunto me interessasse vivamente, ardia em curiosidade de indagar de alguém bem informado todos os seus detalhes e circunstâncias, não ousando fazê-lo, com receio de ferir susceptibilidades e melindres, tanto o caso me parecia monstruoso.</p>
<p>Em face, porém, dos progressos que via realizados na Vitória e que me atestavam a boa orientação do Governo do Espírito Santo, comecei a duvidar do meu critério anterior, e, sem poder sopitar curiosidades, pedi a alguém, cujo espírito me pareceu Imparcial e justo, que me demonstrasse o verdadeiro espírito da questão. A nossa palestra, no pacato recanto do velho salão do hotel, foi rápida e concisa. O meu ilustre informante afirmou, com espanto para mim, considerar o contrato, em volta do qual se levantou tanta celeuma, de magníficos resultados para o Estado, acrescentando:</p>
<p>&#8220;Minha senhora, não se podem abrir estradas em matarias; fazer vilas em pontos disseminados dos sertões para colônias agrárias; cultivar terras até hoje inexploradas, sem que muitas árvores das florestas gemam sob os golpes do machado derrubador. O progresso também faz as suas vítimas, e parece-me de boa política aproveitar-lhes os corpos inermes, não para aquecer locomotivas das estradas de ferro, como se faz em alguns lugares, mas para convertê-Ias em dinheiro para os magros cofres do Estado. Já que se interessa pelo assunto, eu lhe arranjarei algumas notas positivas a seu respeito. Os meus vagares de aposentado permitem-me esse trabalho.&#8221;</p>
<p>A palavra foi cumprida. As notas vieram, e é sobre elas que ou escrevo estas linhas.</p>
<p>Entre os problemas nacionais, que mais nos preocupam, existe um que no conceito geral merece a primazia:</p>
<p>&#8220;Atrair imigrantes o localizá-los definitivamente no país.&#8221;</p>
<p>Não há sacrifícios a que não nos tenhamos submetido para conseguir semelhante resultado, e ainda a esta hora até humilhações recebemos mesmo das nações de 2a. ordem em troca deste triste papel de mendigos de colonos que representarmos, batendo às portas de quem abertamente nos repele e injuria.</p>
<p>Espalhar agentes pelo mundo civilizado, subvencionar a imprensa, banquetear autoridades, derramar folhetos e mapas em todas as línguas, pagar passagens em linhas terrestres e marítimas, fazer gastos com alojamentos, alimentação, assistência de toda ordem, despender com transportes, salários, adiantamentos, ferramentas, sementes, casas e até com caprichos, eis o que nos custa o agenciamento de meia dúzia de colonos, que, não raro, meses depois nos abandonam em busca da Argentina, ou se transformam em mascates drenadores de nossas economias para o Oriente.</p>
<p>Mas não é tudo: — Os núcleos exigem direção, fiscais, intérpretes, instrutores, escolas, boas estradas, cercados seguros, mercados garantidos, centros industriais e outros complementos, representando no conjunto avultado dispêndio, arriscado e aleatório. Tomemos no Brasil os últimos quatro anos; somemos as quantias todas empregadas com a introdução e manutenção de imigrantes, computadas as despesas acima enumeradas, o dividamo-las pelo número de famílias realmente localizadas.</p>
<p>— Qual o resultado? Nem com dois contos de réis conseguiremos representar a quota de cada uma!</p>
<p>A colônia Afonso Pena custara ao Estado do Espírito Santo mais de 120 contos de réis ao ser transferida à União e, no entanto, não recebera ainda um só colono. Rios de dinheiro tem custado ao Governo o núcleo Itatiaia; e quais as suas atuais condições? Que produz? Que importância representa para atrair imigrantes?</p>
<p>De agora em diante a imigração vai-se tornar cada vez mais difícil e dispendiosa, porque pouco a pouco nos estão fechando os portos as nações, onde nos habituáramos a abastecer-nos. Mas não levemos em conta essa circunstância e digamos que cada família introduzida e localizada em nosso país, de bons imigrantes, vale somente por dois contos de réis. É essa quantia que em plena consciência e acertadamente está buscando aplicar a União para povoar alguns dos nossos Estados, entre outros o Paraná, Minas e mesmo (em escala reduzida) o Espírito Santo.</p>
<p>Este Estado que, todo ele com uma superfície superior várias vezes à da Bélgica, não conta senão duzentos mil habitantes, isto é a quinta parte, tão somente, da população do Rio de Janeiro, precisa antes de tudo cuidar de povoar o seu território, coberto em grande parte de matas e montanhas.</p>
<p>Preocupação constante de alguns dos seus governos, não tardou que se lhes apresentasse como insolúvel o problema, em face da renda exígua do Tesouro, dificilmente mantida, ainda assim, por uma população pobre e desaparelhada.</p>
<p>Foi em uma situação de tal ordem que, ao atual presidente do Estado, se apresentou a casa Lichtenfels &amp; Cª pretendendo extrair madeiras do Estado, alegando dispor de facilidades excepcionais para lhe colonizar o território. Era a solução que se oferecia, afinal, tão ansiosamente buscada, por isso, após acurado estudo, tendente a harmonizar os recíprocos interesses, o acordo se estabeleceu, traduzido em um contrato que é uma glória para o Governo, a despeito dos repetidos mais infundados ataques, de que tem sido alvo até por quem confessa nunca ter lido as cláusulas que firmaram na transação.</p>
<p>A casa contratante viu diante de si terras abundantes, cobertas de cerradas matas virgens, e muito naturalmente acreditou que mediante um bem estudado plano de exploração, apoiado em um conjunto de medidas que mutuamente se auxiliassem, poderia gerar para os capitais, com que contava, uma razoável fonte de renda. Sabia onde encontrar colonos, que acudissem ao seu chamado e viessem ocupar as terras oferecidas, não somente sem lhe exigir as despesas, a que jamais se podem furtar os governos no pagamento e colocação de imigrantes, como dos mesmos colonos recebendo até, e muito justamente, uma certa soma pelo patrimônio recém-adquirido.</p>
<p>Para tornar acessíveis os núcleos projetados seria necessário construir centenas de quilômetros de estradas de rodagem, mediante uma despesa inevitável e sem duvida no valor de muitas centenas de contos de réis, mas era possível atenuá-la utilizando essas novas vias de comunicação com o transporte de madeiras até os rios navegáveis ou as linhas férreas em tráfego.</p>
<p>Esse plano inteligente, governo algum poderia utilizá-lo, porque se existe trabalho fora do alcance dos meios oficiais, esse trabalho é sem dúvida o de explorar madeiras. Assim, aquilo que seria ruinoso e inexequível para o Governo, tornava-se nas mãos de um particular arguto uma medida complementar de alto valor econômico.</p>
<p>Cumpre acentuar que a exploração de madeiras, no Brasil, somente pode ser lucrativa se aquele que as quiser extrair dispuser de abundantes capitais e estiver seguro dê lhe não faltarem avultadas reservas de matas que assegurem compensações pelas despesas a fazer com a abertura de estradas e com a indispensável e dispendiosa organização comercial, que o abrigue contra o ruinoso monopólio exercido por meia dúzia de casas da praça do Rio. Não fora a necessidade de tais reservas e certamente a casa contratante preferiria comprar madeiras em matas particulares à razão de um ou dois mil réis o metro cúbico — como é corrente no interior do Estado — a pagá-las a 5$000 em regiões desprovidas de meios de transporte e de população. Só os que não conhecem o assunto acreditarão que 800.000 metros cúbicos de madeiras nas brenhas de um Estado despovoado podem fornecer 20 a 30 mil contos de lucros aos que se abalançaram a extraí-las. Basta refletir que é 9$000 a diferença apontada entre os ônus fiscais que gravam os atuais possuidores de matas e os que vão pesar sobre o novo contratante, para, feitos os cálculos, verificar-se que o lucro, se o houvesse, seria no máximo de 9$000 vezes 800.000, isto é, 7.200 contos, tão-somente.</p>
<p>Esse lucro, conforme deixamos dito, só se verificaria se o contratante não fosse onerado de outros encargos e se obtivesse as suas madeiras ao longo das estradas ou dos rios navegáveis, como acontece com os terrenos particulares. No entanto, nada disso acontece; muito ao contrário. Assim, pois, o contratante só poderá ter lucros (e é muito justo que os tenha), nas seguintes condições:</p>
<p>1º, se dispuser de grandes capitais;</p>
<p>2º, se puder, sem despesas, atrair colonos para o Estado, colonos que tenham recursos e sejam realmente agricultores;</p>
<p>3º, se tiver tino comercial para bem colocar as madeiras que extrair;</p>
<p>4º, se desenvolver qualidades administrativas para, de modo econômico, extrair e transportar as madeiras contidas nas matas devolutas, que lhe forem concedidas.</p>
<p>Aceitando ele o contrato, é de presumir que possua esses requisitos: será para o Espírito Santo uma felicidade, que assim seja!</p>
<p>E o Governo sob que móveis agiu?</p>
<p>O seu pensamento fundamental foi colonizar o Estado. Como consegui-lo? Sendo dispendioso e difícil realizar tão legítima aspiração, um caminho somente se oferecia a quem não dispunha de dinheiro: ceder terras e o que nelas se contivesse, em troca dos braços que deverão cultivá-las, para enriquecimento do Estado. Ceder gratuitamente terras devolutas a colonos. Que é que fazem os Estados, às claras, doando-as ou, veladamente, vendendo-as a preços irrisórios, sem juros, a prazos que sempre se prorrogam e mediante pagamento proveniente do salários elevados, pagos por compromissos formais o expressos pelos cofres oficiais? Milhares de hectares recebeu do Estado a União a título gratuito, quando lhe foi transferido a Colônia Afonso Pena, mediante menos ainda da quantia, que em benfeitorias despendera o Governo que a fundara. Por que motivo não investiram contra ambos? O complemento da paga ao contratante forneceu-o o Governo dispensando de impostos a madeira das terras cedidas. Examinemos, para fulminá-lo, o ato perdulário. A madeira em causa é das terras devolutas. Esta, se não fosse dispensada do imposto, não seria evidentemente exportada, porque outras, ao longo das linhas de transporte, existem que se vendem por menos de cinco mil réis, preço cobrado pelo Governo no contrato. E nesse caso, que sorte teriam tais madeiras?</p>
<p>Seriam queimadas sem proveito para ninguém.</p>
<p>Com efeito, sendo impossível colonizar terras sem lhes derrubar as matas e transformá-las em culturas, claro é que em breve estariam reduzidas a cinzas as suas madeiras. E é Isso mesmo que se tem feito em toda a parte, a despeito de estéreis clamores da imprensa e das vãs promessas interventoras das administrações. Assim, o Governo dispensou de impostos aquilo que jamais poderia ser taxado, porque estava condenado a ser devorado nas queimadas.</p>
<p>Vendendo árvores por 4 mil contos, o Governo salvou para o Estado essa grande soma. Foi hábil e tornou-se um benemérito.</p>
<p>Cem contos, que as matas produzissem, já seria uma bela conquista ao incêndio. Quando, porém, não militassem tão justos motivos para a transação, é fácil demonstrar que o preço de 5$000 por metro cúbico de madeira em pé, nos sertões do Espírito Santo, não é um preço baixo. Informem-se dos preços vigentes em regiões mais acessíveis, e verão que ninguém vende por mais, nem por tanto. Próximo à linha da Leopoldina, na Serra do Frade, em Macaé, as madeiras escolhidas podem ser e são compradas a 2 e 3 mil réis o metro, se não menos. E ainda mais perto, à margem da Central, a 3 léguas apenas de distância, paga-se 3 a 4 mil réis, somente, pela mesma unidade de madeira de 1a classe em árvore. Se levantam os preços, afastam-se os compradores o não tarda então que o fogo realize a sua obra&#8230;</p>
<p>Eis aí os fatos esmagadores, que não receiam contestação.</p>
<p>Mas, na realidade, por quanto foram vendidos os 80.000 metros cúbicos de madeira que figuram no contrato? Vejamos:</p>
<div align="center">
<table border="1" cellpadding="10" style="width: 80%;">
<tbody>
<tr>
<td align="left" valign="middle" width="80%">1º Em dinheiro </td>
<td align="right" valign="bottom" width="20%">4.000</td>
</tr>
<tr>
<td align="left" valign="middle" width="80%">2º Como renda dessa quantia, por ter sido fornecia adiantada. Sendo de 10 anos o prazo concedido, tomemos metade desse prazo para média do tempo, em que devem ser contados os juros, que suporemos de 7,5% ao ano, teremos: 4.000 contos, a 7,5% ao ano, em 5 anos</td>
<td align="right" valign="bottom" width="20%">1.500</td>
</tr>
<tr>
<td align="left" valign="middle" width="80%">3º Custo de introdução e localização de 3.500 famílias a 1 conto de réis somente (em lugar de 2 contos)</td>
<td align="right" valign="bottom" width="20%">3.500</td>
</tr>
<tr>
<td align="left" valign="middle" width="80%">
<div style="text-align: right;">
Total</div>
</td>
<td align="right" valign="middle">9.000</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>Eis o que diretamente vai receber o Estado pelos 800.000 metros cúbicos de madeira, em árvore, nos sertões do Espírito Santo.</p>
<p>Em árvores disputadas ao fogo! Mas de modo menos expresso, mas não menos categórico, são bem maiores os serviços e vantagens auferidos pelo Estado no contrato. Em primeiro lugar há a obrigação de introduzir mais 300 famílias para a lavoura, e isso não vale menos de 200 a 300 contos de réis. Em segundo lugar, em virtude da cláusula 35a. combinada com a cláusula 3a., obrigou-se o contratante a introduzir mais 1400 famílias, sob pena de reverterem ao domínio do Governo os lotes a elas destinados. Eis aí mais uma verba de mil contos, pelo menos. Em resumo: as vantagens do Governo, traduzidas em dinheiro, não somam menos de 10 a 11 mil contos de réis.</p>
<p>As conseqüências de outra ordem são extraordinárias para o Estado:</p>
<p>1º – O número de imigrantes, que nele se deverão localizar, será de cerca de 20.000. Ora, sendo de 200.000 apenas o número total de habitantes do Estado, conclui-se que a sua população vai ser de pronto aumentada em 10%.</p>
<p>E esse colossal resultado se fará sem ônus ou incômodos de qualquer natureza para o Governo Federal.</p>
<p>2º – Sendo, no presente momento, de cerca de 40.000 contos de réis o valor da produção do Estado, é lícito admitir que essa produção será em breve elevada de 10%, isto é, a 44.000 contos, só por influência do contrato.</p>
<p>3º – A renda fiscal do Estado, avaliada no corrente ano em cinco mil contos, poderá em breve, sob aquela mesma influência, elevar-se a 5.500 contos.</p>
<p>Se se quisesse aprofundar o estudo dos resultados da introdução e localização de 3.500 famílias nas terras devolutas do Estado do Espírito Santo, a abertura de estradas, daí decorrentes, a movimentação do interior atualmente despovoado, a repercussão no país de origem dos colonos, e inúmeros outros efeitos evidentes, não haveria louvores bastantes para galardoar o ato de quem assinou o novo contrato. Se este se realizar, como tudo faz prever, acontecerá com este caso o mesmo que se passou com outros na apreciação dos atos administrativos do atual Governo: as mais acerbas criticas e os mais sombrios vaticínios seguidos dos mais retumbantes sucessos. Arguiu-se de ruinosa loucura a execução das obras que deram água, luz e esgotos à Capital. — &#8220;Despender 3.000 contos era empobrecer o Estado, porque, se a obra se fizesse, não daria senão prejuízos&#8221; — eis o que de todos os lados se ouvia.</p>
<p>Pois bem! Fizeram-se as obras. Não são passados senão meses, e aquilo que custou 2.500 contos está vendido por mais de 5.000. O Governo fez construir casas na Capital, e não faltou quem condenasse a resolução. Resultado: as casas estão sendo disputadas e não bastam para as necessidades da população acrescida. O mesmo acontecerá ao contrato das madeiras e a quantos atos administrativos praticar o Governo, inspirado pela confiança nas condições naturais daquele solo privilegiado, na energia de seus filhos e no futuro brilhante, que aguarda o Estado do Espírito Santo.</p>
<div style="text-align: center;">
***</div>
<p>
A estas informações, que aqui ficam expostas, vieram juntar-se ainda, a meu pedido: um esquema representativo da superfície do Estado do Espírito Santo, contendo os terrenos ocupados, os devolutos e a área suficiente para a extração de 800.000 metros cúbicos de madeiras, e mais as seguintes ponderações sobre o mesmo assunto:</p>
<p>Se considerarmos um hectare de terras cobertas por mata virgem, podemos representar esta área por um quadrado que tem 100 metros de lado.</p>
<p>Se supusermos que haja apenas uma árvore de 20 em 20 metros, teremos, que em um hectare existirão 5&#215;5, ou 25 árvores. Tendo cada uma dessas árvores, em média, três metros cúbicos, teremos 75 metros cúbicos de madeira em um hectare, e, portanto, em 10.667 hectares encontraremos 800.025 metros cúbicos de madeira.</p>
<p>A área 10.667 hectares é equivalente à de um retângulo cujos lados são: 10.667 e 10.000 metros. Neste retângulo não há lado que atinja sequer a duas léguas, pois o maior lado tem uma légua, três quartos e uma pequena fração, e o menor tem exatamente uma légua e três quartos.</p>
<p>O Estado tem cerca de 6.000.000 de hectares de terras devolutas, e há proprietários no Espírito Santo de duas e meia sesmarias cobertas de matas virgens ou de 2.222,5 alqueires, área esta que representa 1/282 aproximados dos 3.000.000 de hectares. Esses proprietários poderiam, pois, extrair e exportar os 800.000 metros cúbicos de madeiras.</p>
<p>O contrato para extração dos 800.000 metros cúbicos de madeira estabelece a obrigação da fundação de sete núcleos coloniais por parte da firma concessionária. Será feita para cada uma das &#8220;500 famílias&#8221; de colonos, que compõem cada núcleo, uma derribada de 5 hectares.</p>
<p>Já vimos acima que cada hectare contém 75 metros cúbicos de madeira e, portanto, cada lote colonial fornecerá na derribada dos 5 hectares 375 metros, e cada núcleo 187.500 metros cúbicos. Fundados os 7 núcleos coloniais, a firma concessionária terá feito a derribada de árvores, cujo volume é de 1.312.500 metros.</p>
<p></p>
<div style="text-align: center;">
ESQUEMA</div>
<p>
representativo da superfície do Estado do Espírito Santo, contendo os terrenos ocupados, os devolutos e nestes a área suficiente para a extração de 800.000 metros cúbicos de madeiras, representada pelo quadrado que tem o sinal A.</p>
<p>
Superfície do Estado&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.. 44.800 km<br />
Superfície das terras devolutas&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;30.000 km<br />
Área para a extração dos 800.000 metros cúbicos de madeira&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.106.67 km</p>
<div style="text-align: center;">
Escala: 0ms,01=20k².</div>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://1.bp.blogspot.com/-P2wx9i2Plfs/WJy3FwYKl2I/AAAAAAAALmQ/4fWc41_A5GUFAtgRuekitxptjW-7CJGAACLcB/s1600/julia.gif" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="171" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2017/05/julia.gif" class="wp-image-5176" width="320" /></a></div>
<p>
E depois deste eloquente quadro, que mostra de modo prático e evidente quão exígua é a área, não já do Estado, mas das &#8220;terras devolutas&#8221;, bárbaras e incultas do Estado, comprometidas no malsinado contrato, o que deu azo à acusação fantasiosa e mirabolante, de que o presidente do Espírito Santo vendera o seu Estado ao concessionário, só me resta esperar a publicação deste artigo para entregar ao Jornal o 5º e último das &#8220;Cenas e paisagens do Espírito Santo&#8221;.</p>
<p></p>
<div style="text-align: center;">
<b>V</b></div>
<p>
<span style="font-size: 85%;">Comparação de aspectos — Partida pela Diamantina — O que será dentro em pouco tempo essa via férrea — Fazenda Modelo da Sapucaia — Terras do Sul e terras do Norte — Pastor e arado — Primeira condição de agrado da Fazenda Modelo; exemplos admiráveis que devem ser seguidos pelos governos de intenções sinceras — A segunda condição de agrado; simplicidade, rusticidade; como se deve ensinar os pobres; a casa; a hospedagem; passes gratuitos — Prêmios; seu estímulo — Máquinas — Ceifadeira de arroz ; quadro de José Malhôa; as moças no arrozal; os discípulos; o mestre; cereais; produções; diversas instalações; substituição de jacarés por feijão; capitães que hão de correr por seus pés — Vias de comunicação; construções de estradas; colônias; fábricas e ainda mais núcleos coloniais e ainda fábricas — O maior benefício prestado pelo senhor Jerônymo Monteiro — O ensino público — A alma da Vitória — O entusiasmo do estudo — Instituto de Pintura — As crianças do Espírito Santo — A freqüência dos colégios — Asilo do Coração de Jesus — Nem uma batina nas ruas nem hábitos de frade — A impressão da viagem — Saudade e agradecimento.</span></p>
<p></p>
<div style="text-align: right;">
<i>Só os fatos louvam sem mentira</i></div>
<div style="text-align: right;">
Ruy Barbosa.</div>
<div style="text-align: right;">
</div>
<p>
Porque o aspecto da capital do Espírito Santo me tivesse impressionado, não só pela sua feição original e pitoresca, como pelo seu frêmito de progresso, desejei conhecer também o de seus campos de lavoura.</p>
<p>Para isso, partimos por uma lindíssima manhã pelo trem da Diamantina, estrada que será muito breve a grande artéria propulsora de progresso e de fortuna desse esperançoso Estado, para a Fazenda Modelo da Sapucaia, a poucos quilômetros da Vitória.</p>
<p>As terras cortadas pela Diamantina fazem já promessas diferentes das outras atravessadas pela Leopoldina. Deram-me estas a impressão de terem nascido para a fartura dos rebanhos e as lidas do pastor; e aquelas, mais coloridas, mais exuberantes, para os sulcos do arado e a glória das sementeiras.</p>
<p>A primeira condição de agrado que me proporcionou a &#8220;Fazenda Modelo Sapucaia&#8221;, criada pelo doutor Jerônymo Monteiro, e inaugurada em 4 de dezembro do ano passado, foi a de ser organizada mesmo às margens da estrada de ferro, que a corta pelo meio. Assim, e há nisso uma tática muito inteligente, quem passar no trem, verá forçosamente por qualquer dos lados do comboio por que olhe, os talhões das diferentes culturas da fazenda estendendo-se, como mostradores em exposição permanente, pelos campos e alegrando a paisagem aqui com um tapete dourado de trigo maduro ou de arroz seco, ali com um azul, de linho em flor; acolá com um outro verde de um feijoal novo ou de um canavial. O exemplo oferecido assim a prevenidos e desprevenidos é de conseqüências admiráveis e deve ser seguido, sempre que for possível, pelos organizadores de escolas dessa natureza; porque enterrar tais estabelecimentos em lugares de condução difícil e longe da vista das populações, quase sempre preguiçosas e indiferentes, é gastar dinheiro sem pena e perder grande parte de trabalhos e de exemplos, que ficam desaproveitados.</p>
<p>Há coisas que parecem insignificantes e que têm, entretanto, um grande alcance administrativo. Esta pareceu-me uma delas. Na realidade, a um povo sem educação é preciso meter-lhe pelos olhos dentro tudo que possa cooperar para a sua felicidade e que a sua inércia não descobrirá de outro modo. Um apeadeiro na própria fazenda facilita a visita dos curiosos.</p>
<p>A segunda condição de agrado, que me proporcionou aquela propriedade agrícola, criada para educar agricultores pobres, foi a sua simplicidade, mais do que simplicidade: a sua rusticidade.</p>
<p>Ali, tudo o que pôde ser feito com materiais fornecidos pela própria fazenda: madeira, barro ou pedra bruta, é — o de preferência a ser executado em metais mais ou menos caros, madeiras envernizadas ou pedras britadas a capricho. Em face daquele exemplo o lavrador pobre não levantará os ombros desdenhosamente com a convicção de que objetos de preço só podem servir nas propriedades dos ricos, ou do Governo, e nunca nas suas propriedades modestíssimas. Ao contrário, observando os processos postos ali em prática, aprenderá a fazer obras de utilidade agrícola aproveitando com acerto em seu beneficio os elementos naturais oferecidos pela terra em que trabalha.</p>
<p>O muxoxo, com que o caipira olha sempre para tudo que está fora da sua compreensão ou das suas posses, é assim substituído por um olhar de curiosidade, de surpresa e de estudo. Porque o que ele vê diante de si é iam modelo que não lhe será impossível imitar. Certamente que aquela fazenda não foi feita para ser mostrada à gente pomposa das cidades, mas só para servir de escola a populações pobres e sem engenho.</p>
<p>Quantos infelizes desesperam por não saber tirar partido de recursos que tem muitas vezes mesmo embaixo das mãos! É essa facilidade e essa independência, que a &#8220;Fazenda Modelo Sapucaia&#8221; estimula e sugere com o seu exemplo, visando facilitar assim a aplicação das teorias que difunde.</p>
<p>A casa, no mesmo estilo singelo, verdadeiramente roceiro, tem acomodações para hospedagem gratuita, até o prazo de trinta dias, para os agricultores que desejarem demorar-se nela, estudando os processos agronômicos modernos. Para facilitar tanto quanto possível a freqüência dessas visitas, o Estado fornece, também gratuitamente, passes da Estrada de Ferro a todos os agricultores que os solicitarem. Procura desse modo animar a lavoura, que vinha de longe arrastando uma crise pesada, de desesperança.</p>
<p>Foi também com o intuito de fazer vibrar os ânimos dos lavradores que o mesmo Governo estabeleceu uma lei, em 1908, criando 241 prêmios em dinheiro para os agricultores, que mais se distinguissem em produção, qualidade e exportação de culturas agrícolas, além de outros prêmios, representados por um reprodutor de raça, já aclimado no país, para o criador que no Estado criasse mais de duzentas cabeças de gado lanígero, vacum, muar ou cavalar.</p>
<p>Essa lei, traduzida em alemão e em italiano, que são os idiomas da maioria dos colonos do Espírito Santo, foi publicada, assim como em português, em folhetos, largamente distribuídos pelos principais centros agrícolas do Estado.</p>
<p>O fruto dessa sementeira não tardou a aparecer. Tanto o nosso povo rural carece de estímulo! Já no ano seguinte foram distribuídos vários prêmios e, desde então, a roda nunca mais parou, fazendo, na sua rotação, salpicar prêmios para um lado ou para outro, sob vários pretextos: a este industrial, porque mantém uma usina; àquele criador, porque exportou tantos mil quilos de toucinho, de truta em conserva, ou uma quantidade considerável de sacos de arroz beneficiado, etc.</p>
<p>Não é nada? É como um punhado de milho louro, espalhado para o alvoroço e alegria de pintos, que, já na contenda de apanharem os grãos mais gordos, encontram meio de satisfação e de atividade. Eu aprecio essas coisas, achando nelas assunto de interesse especial, porque representam gestos independentes, livres de peias, com que a política costuma embaraçar os Governos dos Estados, e, muito, principalmente os Estados de poucos recursos.</p>
<p>Assim, ora acoroçoando lavradores e industriais agrícolas com certas somas de dinheiro, ora criadores com exemplares de reprodutores de raça, o Governo do Espírito Santo tratou pari-passu de combater os processos rotineiros, ainda empregados na lavoura do Estado, estabelecendo um campo de demonstração (fazenda-modelo da Sapucaia), onde o lavrador pode fazer praticamente a sua aprendizagem, manejando instrumentos agrários que o estabelecimento lhe fornece pelo preço do custo, mediante pagamento em prestações, previamente combinadas.</p>
<p>Quando o lavrador não se quiser sujeitar a isso, o Governo mandará, a seu requerimento, montar as máquinas e ensinar a manejá-las, gratuitamente, à sua propriedade. Tudo isso me pareceu muito bem determinado e muito digno de divulgação.</p>
<p>Na manhã em que visitei a &#8220;Fazenda&#8221; fazia-se nela a experiência de uma nova máquina de ceifar e de enfeixar arroz. E a essa experiência cabiam perfeitamente as palavras da chapa: estava sendo coroada de magnifico êxito. O arrozal maduro lourejava ao sol. Lembrava um quadro pintado por José Malhôa, e várias vezes as alegres tonalidades desse artista exuberante e rural me acudiram à memória naquela transparente a luminosa manhã de maio.</p>
<p>A Ceifadeira mergulhava na onda loura o seu pesado corpo de ferro, atirando o arroz, já em feixes atados rapidamente por ela mesma com um solido nó, de embira para o campo devastado, onde ficavam apenas pequenas touceiras do arrozal, rentes ao chão. Aos lavradores que dirigiam a máquina e a outros lavradores que acompanhavam para observá-la de perto, reuniu-se um grupo de senhoras, curiosas, cujas toilettes claras e sombrinhas de cor juntaram ao bucolismo do quadro uma nota risonha, que o completava. Dentro de poucos minutos não havia ali chapéu nem cinto que não estivesse enfeitado com um penacho de arroz.</p>
<p>Do lado oposto da estrada, em outros campos da mesma propriedade, empregavam-se alguns discípulos na aprendizagem dos processos aratórios, preparando o terreno para novas plantações. Surpreendi assim, a fazenda numa hora de atividade, e de aplicação dos modernos processos de trabalho. O mestre de culturas, senhor Agostinho de Oliveira, que se me afigurou sinceramente apaixonado pela sua profissão, informou-me, mostrando-me uma vitrina, em que estavam vários punhados de cereais, que já se têm feito ali experiência de 57 variedades de plantas forraginosas, alimentícias, têxteis, oleaginosas, etc. Dando a aveia na razão de 46 hectolitros por hectare; alfafa, 10 cortes por ano; trigo, 12 hectolitros por hectare; linho, 80 centímetros de altura; algodão, 0,m60 de extensão de fibra; sorgo, 700 alqueires por alqueire de semente, etc.</p>
<p>Embora as terras em que está organizada a fazenda, não sejam das melhores do Estado, tendo sido escolhidas pela sua situação, a cujas vantagens aludi, e pela sua facilidade de comunicação, ainda assim o quadro comparativo da sua produção de trigo, por exemplo, com a de outros países, é-lhes extremamente lisonjeiro.</p>
<p>Enquanto Portugal colheu 9 hectolitros por hectare, a Argentina 11, a Austrália 40, os Estados Unidos 7, — o Espírito Santo colheu 12, o que já constitui uma diferença razoável, guardando as mesmas proporções nas diferentes qualidades de trigo que cultivou como experiência e demonstração, tendo igualmente obtido magníficos resultados de plantas estrangeiras, ainda não conhecidas no Brasil, ao mesmo tempo que, provado as vantagens das plantas conhecidas quando tratadas pelos processos mecânicos que aumentam, melhoram e barateiam a sua produção.</p>
<p>As instalações da fazenda para os seus animais estão ainda de acordo com o seu tipo modesto. São modelos de fácil imitação e em que, na sua rudeza, estão previstas todas as condições de higiene.</p>
<p>Entretanto, falava-se na construção de novas baias, de um posto zootécnico e não me lembra mais o quê. Em todo caso, os carneiros Lincoln, os touros Gersey, ou as galinhas Plymouth encontram condições de vida farta nos campos da fazenda da Sapucaia, para onde têm sido remetidos alguns exemplares deles, e que sempre serão mais proveitosos que os terríveis jacarés que ali habitavam um charco, hoje transformado, pelo aterro, num vistoso e fértil feijoal!</p>
<p>Ainda com o sentido de animar a lavoura, tendo sido fundado o Banco de Crédito Agrícola e Hipotecário, o jornal oficial da Vitória começou a imprimir uma seção diária, de tipo gordo e entrelinhado, com explicações e conselhos sobre agricultura. Este ardil facilita a leitura, pelo menos desse trecho do jornal, às pessoas de vista cansada, ou que saibam apenas soletrar.</p>
<p>É alguma coisa: é o interesse levado a toda gente, em doses de fácil assimilação, pelo mais portentoso assunto do país.</p>
<p>Observando esses pequenos nadas, penso com alegria que o nosso vício de politicagem começa a transformar-se em séria atividade administrativa&#8230; Mas quem me dirá se nos outros Estados se faz o mesmo?</p>
<p>Nós os brasileiros gostamos pouco de viajar em nosso país; desde que se não possa ir para o estrangeiro proferimos a tudo ficar em casa; daí a ignorância de muitos aspectos curiosos e de muitos fatos interessantes de nossa terra e da nossa gente. Quando porém, por qualquer circunstância inesperada, visitamos um ou outro dos nossos Estados, dizemos não trazer deles impressões que valham a pena de ser comunicadas a ninguém! É um mal e um erro, porque da nossa crítica ou do nosso louvor podem resultar benefícios imprevistos para o país.</p>
<p>Por minha parte confesso que tive intenso prazer surpreendendo no Estado do Espírito Santo, tão acoimado de pobre e de rotineiro, um tão grande movimento de progresso e de transformação, e que julgo cumprir um dever de patriotismo afirmando a convicção que nutro de que essas terras, dentro em pouco tempo, atrairão só por si capitais importantes que para elas irão espontaneamente, na certeza de ótimas recompensas. Já não é um Estado rotineiro; é um Estado progressista. Ao mesmo tempo que o Governo dava à cidade principal água, luz, esgotos, serviço de higiene publica e domiciliaria, escolas, habitações populares e um novo e moderno hospital; ao mesmo tempo transformava os seus lodaçais em parques secos e drenados, contratava diversas vias de comunicação: linhas de bondes elétricos, construções de estradas para carros e automóveis; navegação a vapor pelos rios Doce e Itapemirim, construções de estradas de ferro que atravessam regiões feracíssimas; e tudo em vários pontos do Estado, simultaneamente. Não contente com isso, o Governo põe outros serviços em execução, contratando com particulares construções de outras estradas e a fundação de colônias, de fábricas, de serrarias, de usinas, do plantio do cacau, de exploração de matas e desenvolvimento da imigração com a fundação de 7 núcleos coloniais de 500 famílias cada um; e ainda de mais estradas e ainda de mais imigrantes, e ainda de mais fábricas e de mais usinas elétricas!</p>
<p>Mas sobrepujando a todos, o grande beneficio prestado pelo doutor Jerônimo Monteiro ao seu Estado natal está na reforma do seu ensino publico. Hoje a alma da Vitória é a colegial. Ela dá à cidade, provinciana e sossegada, uma nota de alegria vibrante pelo seu ar decidido e entusiasmado e pelo seu traje encarnado ou azul, segundo o grupo escolar a que pertence. A certas horas, quem chegar às janelas ou andar pelas ruas, verá surgir em vários pontos essas manchas luminosas, e inconfundíveis, que fazem pensar que também as hortênsias e as papoulas andam!</p>
<p>Não são só as pequenas, também as mocinhas vestem com orgulho os seus uniformes de normalistas. Toda a mocidade da Vitória estuda e fá-lo com um entusiasmo como jamais observei em parte alguma; o seu Instituto de pintura é frequentado com imenso interesse por muitos moços e moças da sua melhor sociedade.</p>
<p>Mas o seu maior encanto está sobretudo nas escolas publicas refundidas pelo modelo das de São Paulo, que são as mais afamadas do país. Em geral as crianças no Espírito Santo são fortes e desembaraçadas, o que duplica o encanto das salas escolares, que estão bem organizadas, com aparelhos e mobílias modernas. A prova do grande interesse que há na Vitória pelo estudo está bem expressa pelas suas estatísticas escolares.</p>
<p>No mês de maio, em que visitei essa cidade, foram as suas escolas públicas freqüentadas por mil e oitenta e sete crianças, o que representa uma soma respeitável numa cidade de pequena população, tanto mais quanto nela não há só escolas publicas, mas também particulares de grande freqüência. Eu mesmo visitei uma, o &#8220;Asilo Coração de Jesus&#8221;, em que era muito grande o numero de discípulas, aparte as órfãs pobres do Estado, ali recolhidas, se me não engano, em número de 200, e por cuja manutenção o Governo subvenciona esse estabelecimento com uma determinada quantia.</p>
<p>E o engraçado é que foi preciso entrar num edifício religioso para eu ver a primeira touca de religiosa no católico Estado do Espírito Santo! Foi só então que ma ocorreu à lembrança o que me tinham afirmado no Rio, isto é, que eu iria esbarrar com batinas de padres e hábitos de monges por todos os ângulos e curvas da Vitória, quando a verdade é que, em cinco dias, eu ainda não vira nem uma só batina, nem um só habito de freira ou de frade, nas ruas da Vitória nem nas estações do caminho de ferro do Estado do Espírito Santo!</p>
<p>Isso não acontece em São Paulo nem em Minas, nem aqui, verdadeiro refúgio de religiosos exilados da Europa.</p>
<p>Ora pois, até nisso aquela terra era diferente do que me tinham afirmado antes da minha partida.</p>
<p>De fato, em vez de uma sociedade fanática, tristonha, desconfiada, achei-me no centro de uma sociedade carinhosa, risonha, desembaraçada e vivaz, de que guardarei sempre saudades.</p>
<p>E porque de tudo trouxe uma impressão de agrado, de esperança, ou de surpresa, quis fixá-la nestas linhas, em que escondi quanto pude a gratidão pelo excepcional acolhimento que devo a esse Estado, para só deixar transparecer a verdade nua dos fatos que nele observei, sem véus de fantasia, nem parcialidade de sentimento.</p>
<p>E, também, para isso, não escrevi precipitadamente. Esperei; dei tempo a que as minhas idéias amadurecessem antes de rever as notas feitas no tropel das horas movimentadas, que passei na Vitória e que tão imperfeitamente descrevi. Sinto-me, porém, satisfeita de poder afirmar a todos os brasileiros, mesmo aos mais indiferentes, que esse pedaço da Pátria achou quem o despertasse do sono letárgico que ha tanto tempo o entorpecia e que, agora, despertado e fortalecido, caminhará ativamente, alegremente, para um futuro nobre e feliz.</p>
<p>
<span style="font-weight: normal;">[ALMEIDA, Júlia Lopes de. Cenas e paisagens do Espírito Santo.&nbsp;<i>Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil</i>, 75 (126), 1912, p.175-217.]</span></p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2000 Estação Capixaba</span></b>.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Júlia Lopes de Almeida</b> (Rio, 1862; Rio, 1934), romancista e contista, tem sido injustamente omitida pelos historiadores e críticos da literatura brasileira, o que se explica, aliás, por lhe faltarem características nitidamente próprias. Pertenceu a um período que vai de 1895, isto é, do declínio do romance naturalista, a 1902, data do <i>Canaã</i> de Graça Aranha. A esse período pertenceu, como figura de primeira grandeza, Coelho Neto — o que basta para definir como fase em que o gosto pela expressão literária em si fatalmente prejudicaria a obra novelesca. Apesar disso, alguns romances de Júlia Lopes de Almeida merecem ser lidos e talvez perdurem como retratos da sociedade brasileira do seu tempo, em especial <i>A Família Medeiros</i>, de 1894. Ficcionista de grande facilidade de inventiva e expressão, e regular poder de análise, retrata em suas obras a evolução material, social, intelectual e moral do Rio de Janeiro do seu tempo. Sob o ponto de vista estilístico procurou aliar a técnica do romance naturalista de Zola a uma constante preocupação de linguagem artística. Publicou, além do romance citado: <i>A viúva Simões&nbsp;</i>(1897); <i>A falência&nbsp;</i>(1901); <i>Ânsia eterna&nbsp;</i>(1903); <i>A intrusa&nbsp;</i>(1908); <i>A herança&nbsp;</i>(1908); <i>Eles e elas&nbsp;</i>(1910); <i>Cruel amor&nbsp;</i>(1911); <i>Correio da roça&nbsp;</i>(1913); <i>A Silveirinha&nbsp;</i>(1914). (Dados extraídos do <i>Dicionário de Literatura Portuguesa e Brasileira</i>, de Celso Pedro Luft)</p></blockquote>
<p></p>
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		<title>Ingleses na costa – Impressões de um aspirante de marinha sobre o Espírito Santo em 1851</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 02 Mar 2017 19:19:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Edward Wilberforce]]></category>
		<category><![CDATA[História / Sociologia]]></category>
		<category><![CDATA[Luiz Guilherme Santos Neves]]></category>
		<category><![CDATA[Viajantes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Corveta de guerra &#8220;Driver&#8221;, irmã da &#8220;Geyser&#8221;. James Cowan &#8211; &#8220;The New Zealand Wars&#8221;. Pelo menos dois marinheiros ingleses, documentadamente, navegaram, em diferentes épocas, o litoral do Espírito Santo, deixando registros de viagem. O primeiro foi Anthony Knivet, grumete na expedição que o célebre corsário Thomas Cavendish empreendeu ao Brasil no começo da última década [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://2.bp.blogspot.com/-t45bAiuo1d8/WLWyNm7okaI/AAAAAAAAMJ4/jp86PuYhn0M8nd5JpmrVm67QziTspxNjgCLcB/s1600/1024px-HMS_Driver-Wilberforce.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Corveta de guerra &quot;Driver&quot;, irmã da &quot;Geyser&quot;. James Cowan - &quot;The New Zealand Wars&quot;." border="0" height="281" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2017/03/1024px-HMS_Driver-Wilberforce.jpg" class="wp-image-5233" title="Corveta de guerra &quot;Driver&quot;, irmã da &quot;Geyser&quot;. James Cowan - &quot;The New Zealand Wars&quot;." width="400" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Corveta de guerra &#8220;Driver&#8221;, irmã da &#8220;Geyser&#8221;. James Cowan &#8211; &#8220;The New Zealand Wars&#8221;.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p><b><br /></b><br />
<b><br /></b><br />
Pelo menos dois marinheiros ingleses, documentadamente, navegaram, em diferentes épocas, o litoral do Espírito Santo, deixando registros de viagem. O primeiro foi Anthony Knivet, grumete na expedição que o célebre corsário Thomas Cavendish empreendeu ao Brasil no começo da última década do século XVI; o outro, o aspirante a oficial de marinha Edward Wilberforce, integrante da oficialidade da corveta de guerra&nbsp;<i>Geyser</i>&nbsp;que esteve no Espírito Santo na primavera de 1851 sob o comando do capitão de fragata Edward Tatham, em missão repressiva ao contrabando de africanos.</p>
<p>Distanciados entre si cerca de dois séculos e meio, súditos, respectivamente, das notáveis rainhas Elizabeth II e Vitória, da Inglaterra, Knivet e Wilberforce deixaram-se tomar por idêntico impulso narrativo pondo no papel as principais impressões que colheram de suas passagens pelo litoral brasileiro. Contribuíram, desta forma, para que seus apontamentos e registros se tornassem documentos de valor para a historiografia como fontes de informação de nossa história.</p>
<p>No relato de Knivet, que cobre a navegação de corso que Cavendish empreendeu, em 1591, nos mares da costa sul brasileira, a parte relativa ao Espírito Santo é bastante sucinta. Nela o marujo limita-se a narrar, como testemunha participante, a frustrada tentativa de saque ensaiada pelos ingleses contra a vila de Vitória. Seu depoimento foi editado sob o título &#8220;Vária fortuna e estranhos fados&#8221; pela Editora Brasiliense Limitada (São Paulo, 1947) em versão do original inglês feita por Guiomar de Carvalho Franco, da qual se transcreve o trecho que trata da investida contra Vitória:</p>
<p>&#8220;No nosso navio havia um português que recolhêramos da embarcação apreendida, em Cabo Frio; este português, que fora conosco ao estreito de Magalhães, e aí testemunhara a nossa falência, falou-nos duma vila chamada Espírito Santo, dizendo-nos que poderíamos chegar à frente da mesma com os nossos navios, e aí, sem perigo, lograríamos tomar muitos engenhos de açúcar e boa quantidade de gado.</p>
<p>As palavras deste português fizeram-nos renunciar ao projeto de ida a São Sebastião, tomando o rumo do Espírito Santo; em oito dias chegamos à embocadura do porto, acabando por lançar âncora na baía e mandar nossos botes sondar o canal; não encontrando estes nem a metade da profundidade que o português nos dissera que encontraríamos, supôs o general que o luso nos havia traído e, sem nenhuma comprovação, fê-lo enforcar de imediato. Neste local, todos os fidalgos que restavam a bordo manifestaram desejo de ir à terra tomar a povoação. O general não o queria de modo nenhum, objetando-lhes diversos inconvenientes; nenhum argumento porém os convenceu, e foram os moços tão insistentes que o general, escolhendo cento e vinte homens dentre os melhores que possuía em ambos os navios, enviou ao capitão Morgan, praça de terra singularmente boa, e ao tenente Royden, como comandantes neste empreendimento. Desembarcaram, pois, diante dum pequeno forte, com um dos seus botes e dele expulsaram os portugueses; o outro bote seguiu mais além, onde houve uma escaramuça muito violenta, e a vida desses moços depressa se abreviou, pois apearam num rochedo fronteiro ao forte e à medida que saltavam fora do bote, escorregavam com suas armas para dentro do mar; assim a grande maioria deles pereceu afogada. Em conclusão, perdemos oitenta homens neste lugar, e dos quarenta que se salvaram, nem um só voltou sem uma flechada em seu corpo, chegando alguns a ter cinco e seis ferimentos.&#8221;</p>
<p>O depoimento de Wilberforce sobre o Espírito Santo é bem mais extenso e informativo do que o de Anthony Knivet. o marinheiro vitoriano levou, sobre seu compatriota e antecessor, a vantagem de contacto mais demorado com a costa capixaba ao sul de Vitória, tanto com o litoral em si, por onde navegou em patrulhamento vigilante, quanto com algumas localidades que conheceu, inclusive a própria sede da então Província. Aliás, é a partir da cidade de Vitória que Wilberforce começa seus informes sobre o Espírito Santo.</p>
<p>Fica-se sabendo, assim, que os ingleses tiveram oportunidade de visitar a cidade, acanhada e sem conforto, renitentemente colonial embora aprazível em suas condições naturais. Aproveitando folgas e criando momentos de lazer, a oficialidade da&nbsp;<i>Geyser&nbsp;</i>percorreu os arredores de Vitória, enfiou-se por florestas e rios cujos nomes Wilberforce não registrou, enfrentou chuvas torrenciais, adquiriu peças de rendas e redes de dormir, viu como se fabricavam as redes de algodão cru. No palácio do governo os oficiais britânicos foram recebidos pelo presidente da Província, o bacharel José Bonifácio Nascente de Azambuja.</p>
<p>Impedido, por motivo de saúde e por proibição médica, de ir ao Convento da Penha, dele Wilberforce recebeu singela descrição feita por seus companheiros de bordo que não convenceu ao cronista, tendo-a atribuído ao espírito herético dos informantes.</p>
<p>Vê-se, por aí, que o escritor marinheiro entremeia informações de sua observação pessoal com outras, resultantes do testemunho de terceiros, chegando até a transcrever notícia de jornal brasileiro, cujo nome não cita, sobre a recepção que houve a bordo da&nbsp;<i>Geyser&nbsp;</i>reunindo personalidades da Província e que terminou sob o clarão de rojões.</p>
<p>Junto com os registros sobre a terra e seus habitantes, seus costumes e produção, Wilberforce, dando mostra de sua formação de oficial de marinha, anota referências, com valor de orientação náutica, sobre localidades do litoral espírito-santense para uso dos navegantes da época nas quais as indicações utilizadas são prosaicos identificadores da costa.</p>
<p>Olhos postos nos escravos contrabandeados, a eles faz diversas menções inclusive acerca dos locais em que se davam desembarques clandestinos, como em Guarapari e Piúma, por exemplo.</p>
<p>Como convinha a observador crítico dotado ainda de pendores literários, Wilberforce incluiu em sua narrativa pitadas de ironia e humor bem mais interessantes do que os extravasamentos líricos a que dá vazão ante a beleza natural da baía de Vitória que ele verteu em marolas poéticas de discutível qualidade literária.</p>
<p>Depois do regresso à Inglaterra, o texto de Wilberforce foi editado pela primeira vez, em Londres, em 1856, sob o título <i>Brazil viewed through a naval glass with notes on slavery and the slavetrade</i> (Brasil visto através de uma luneta com notas sobre escravidão e tráfico de escravos). A esta edição fez referência o escritor Norbertino Bahiense na obra <i>O Convento da Penha</i> (Vitória, Escola Técnica de Vitória, 1952), reportando-se ao ensaio crítico publicado por Afonso de E. Taunay no <i>Jornal do Comércio</i>, de 26 de agosto de 1945, denominado &#8220;Impressões de Vitória e seus arredores&#8221;.</p>
<p>Impressões do Espírito Santo de 1851 foi bem o que captou Wilberforce através de sua esquadrinhadora luneta de oficial de marinha, e que se contêm nos capítulos XV e XVI do texto original, ora publicados em separata, visando-se a colocar ao alcance do público interessado mais um relato de um viajante estrangeiro que esteve em terras e mares capixabas no século XIX.</p>
<div style="text-align: right;">
Luiz Guilherme Santos Neves</div>
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</div>
<p></p>
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* * *</div>
<p><b><br /></b><br />
<span id="INCI_RP1V"><b>PREFÁCIO</b></span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP1" title="É o prefácio geral da obra."><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a></p>
<p>
Este volume contém um simples relato do que vi na costa do Brasil. É forçosamente incompleto e fragmentado; a condição de um aspirante de marinha não lhe permite absorver muitos conhecimentos sobre os lugares que visita. Mas, seja como for, é todo de minha autoria, à exceção de duas ou três passagens, pelas quais tenho que agradecer a um cavalheiro, cujo nome não publico, uma vez que os oficiais do Serviço a que Pertence são avessos a qualquer publicação por parte de seus subordinados. Enquanto me empenhava em contar minha história de maneira divertida, entremeei diversas informações práticas relativas a ancoradouros e baías da costa, que poderão ser úteis a capitães que naveguem por aquelas bandas.</p>
<div style="text-align: right;">
Edward Wilberforce.</div>
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</div>
<div style="text-align: right;">
28, Old Burlington street</div>
<div style="text-align: right;">
2 de outubro de 1855.</div>
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</div>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p><b><br /></b><br />
<span id="INCI_RP2V"><b>CAPÍTULO 1</b></span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP2" title="É o capítulo XV do texto original."><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a></p>
<p>
Rio e cidade do Espírito Santo. Lenda. Fortificações. A vila velha. O que é a verdade? No campo. Redes de algodão. Vendedores. Festividades. Excelsior! Pássaros de várias plumagens. Navios negreiros.</p>
<p>A cidade mais importante entre Rio de Janeiro e Bahia é a do Espírito Santo, que era o limite norte de nossa área de patrulha. O verdadeiro nome dessa cidade é Vitória, mas estando situada às margens do rio Espírito Santo, assumiu o nome deste, de acordo com o costume do país. Localiza-se a cerca de 250 milhas do Rio de Janeiro. Esse rio deságua na baía do Espírito Santo, onde ancoramos à espera de um piloto. A entrada do rio é estreita, ladeada por duas altas montanhas, das quais o Morro do Moreno é a mais notável. Permanecemos ali um dia até que algum piloto viesse, obedecendo ao nosso sinal. Finalmente um bote encostou, trazendo um homem vestido com uma espécie de uniforme naval, que melhor seria chamado multiforme, pela ausência de regularidade e ordem. A pessoa apresentou-se como piloto e afirmou que poderíamos atravessar a barra na preamar, quando haveria três braças de profundidade na parte mais rasa. Medimos duas braças e um quarto, de modo que era necessário certa precaução ao subirmos a corrente. Avançamos a passo de caracol, descendo os prumos constantemente, com capitão, arrais e piloto sobre a caixa das pás.</p>
<p>A paisagem em torno era tão extraordinária que um piloto poeta teria certamente deixado o navio encalhar, pela constante admiração das margens. O lado esquerdo era montanhoso, o direito, um volume de água salpicado de ilhas cobertas de cactus, embora não houvesse terra alguma sobre elas, não sobrando espaço nem para duas pessoas em pé. A água entre as ilhas era calma e bonita, como se não conhecesse outra forma. No cume de uma das montanhas do lado esquerdo, entre rochas fantasticamente empilhadas uma sobre a outra, como se tivessem sido petecas de gigantes, erguia-se altiva o que pensamos ser uma fortaleza e que, no entanto, revelou-se um convento<span id="INCI_RP3V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP3" title="Trata-se do convento da Penha."><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a> Às vezes abria-se uma bela enseada, mostrando praias cobertas com folhagem verde-escura, e algumas casinhas brancas ao fundo, repousando tranqüilas e à vontade num oceano de beleza. Pequenas rochas saltavam da água em ambos os lados, enquanto a vegetação derramava-se das montanhas mais altas. Era o lugar para poesia, e o viajante exausto poderia ser perdoado por dar vazão a seus sentimentos em verso e encher uma página, <i>more majorum</i><span id="INCI_RP4V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP4" title="À maneira dos antigos. Em latim no original."><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a></p>
<p>
Levemente desliza o nosso navio<br />
Como uma ave marinha de asas abertas<br />
Através de estreitas correntes onde a fragrância insufla<br />
Fecundantes sopros primaveris.<br />
Altas, em uma das margens, às grimpas das montanhas<br />
Enrugam rochas, amontoadas sobre rochas,<br />
De onde muitos ribeiros se precipitam<br />
Claros como fios de prata.</p>
<p>Ali, no cume, entre rochedos eretos<br />
Ergue-se velho edifício<br />
Que deve ter desafiado os mais violentos embates da tempestade<br />
Ou as mãos presunçosas do inimigo.</p>
<p>Do outro lado ilhas baixas se avistam<br />
Onde os verdes cactos vicejam<br />
E onde por baixo de ramalhenda cortina<br />
Descansam os beija-flores.</p>
<p>E o enrugado oceano brandamente sorri<br />
Onde, em suave quietude, repousam<br />
Os espessos cachos de pequenas ilhas<br />
Em seu seio <span id="INCI_RP5V">enganadora</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP5" title="Essa é a tradução que Taunay fez dos versos de Wilberforce, incluindo-os em seu ensaio 'Impressões de Vitória e seus arredores', publicado no Jornal do Comércio, em 1945. (Apud Norbertino Bahiense, O convento da Penha, Vitória, 1 95 I.)"><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a></p>
<p>
Uma rocha à entrada de uma dessas enseadas tinha uma pequena cruz branca de pedra erguida sobre ela. Ao inquirirmos sobre o significado daquilo, a tradição, falando pela boca do piloto, nos informou que, toda vez que os escravos de Vitória têm uma folga se dirigem a uma pequena vila a meio-caminho rio abaixo para festejar. Não era coisa rara os escravos se embriagarem e discutirem — na verdade, era o habitual. Não era menos comum sacarem-se facas e alguém do grupo ser morto. Se, nesse trágico desfecho da festa, o assassino conseguisse embarcar em sua canoa e alcançar a pedra da cruz antes de ser capturado, estava salvo; todavia, se apanhado antes, pagava com a vida o seu crime. Este certamente é um costume curioso, e nos lembra as cidades de refúgio de que nos fala o Velho Testamento.</p>
<p>As únicas fortificações que observei foram dois pequenos fortins de barro, contendo, a imaginar pelo seu tamanho, seis ou oito canhões cada. Estes não pareciam prometer grande segurança, uma vez que uma bala de 68 libras, bem arremessada, lançaria forte, paredes e tudo aos quintos dos infernos. Passávamos exatamente agora sob a sombra do imponente Pão de Açúcar<span id="INCI_RP6V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP6" title="Atualmente morro do Penedo. Era assim chamado pelos portugueses, como a outros morros de mesma configuração e talhe arredondado, numa alusão aos torrões de açúcar para exportação."><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a> através de um estreito canal, os cutelos da embarcação quase roçando as rochas de cada lado. No minuto seguinte, defrontamos a cidade e o porto, no qual ancoramos em quatro braças. Apesar de haver alguns belos prédios nesta cidade, entre os quais o palácio do governador <span id="INCI_RP7V">(?)</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP7" title="É o palácio Anchieta. A interrogação entre parênteses está no texto original."><sup><b>[ 7 ]</b></sup></a> é o mais visível, sua aparência geral é tudo, menos florescente. A maioria das casas é pequena, suja e insignificante, enquanto as construções maiores rapidamente se vão deteriorando.</p>
<p>A meio-caminho rio abaixo fica uma vila, chamada vila velha, na qual os principais artigos aí produzidos, isto é, redes de algodão, são vendidos a preço mais barato que em qualquer outro lugar. A gentileza de um de meus <span id="INCI_RP8V">companheiros</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP8" title="O primeiro-tenente Jonh H. Crang que, juntamente com o capitão Edward Tatham, visitou o convento da Penha em 3 de setembro de 1851 (cf. Norbertino Babiense, op. cit., p. 8."><sup><b>[ 8 ]</b></sup></a> me permite dar a seguinte descrição da fábrica, que a indelicadeza do médico me impediu de visitar:</p>
<p>Alguns de nós descemos à vila velha, situada na margem direita do rio, a cerca de uma milha da foz; abaixo do convento e no fundo de uma linda enseada. Há aí muitas fábricas de redes de algodão, e nós entramos em várias casas à sua procura. Um estoque era logo apresentado, com preços variando de seis a oito mil réis. Como o grupo estava ansioso por passear, não pude fazer muitas observações a respeito da fabricação; mas, pelo visto, o processo parecia muito simples. As armações tinham sete pés de comprimento por três de largura; e o material era algodão sul-americano cru, muito resistente.<br />
Tendo finalmente concluído as compras a contento, partimos para o convento que se elevava sobre nós. Da vila, a estrada prosseguia em ziguezague através de uma pequena floresta, e pelos vestígios de calçamento mostrava sinais evidentes de que outrora muito mais cuidado lhe fora dispensado do que agora. A posição do convento é muito conspícua, e como está situado no pináculo de uma alta montanha, dali se vê uma longa extensão da costa de norte a sul. A face da montanha voltada para o rio é quase perpendicular, mas a outra descai suavemente até uma imensa planície coberta de mata, que a sudeste se estende por milhas ao longo da, costa e, a oeste, até encontrar uma cadeia de montes férteis.</p>
<p>O convento em si tinha pouca coisa digna de registro<span id="INCI_RP9V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP9" title="Wilberforce interpelou no texto de Crang, entre parênteses, a seguinte observação: 'Estou envergonhado de você, herético colega, por dar vazão a semelhante sentimento'."><sup><b>[ 9 ]</b></sup></a> A capela era pequena, embora possuísse um órgão, e o convento era usado por freiras mestiças, nenhuma das quais foi vista por nós, hereges.</p>
<p>Apesar de meu colega não ter visto nenhuma dessas internas, os grumetes, que desembarcaram sob o comando do mestre de armas, afirmaram que viram algumas delas vestidas do modo mais primitivo. Deve-se lembrar, porém, que esses jovens eram protestantes, e os protestantes nunca conseguem dizer a verdade, mesmo quando não têm motivo para agir de outra maneira. Esses jovens provavelmente aprenderam a mentir desde o berço, e poderiam não saber que todos os santos são virtuosos, ou então poderiam pretender lançar um estigma sobre a santidade de &#8220;Sua Santidade&#8221;.</p>
<p>Quando desembarquei pela primeira vez em Vitória, encontrei-a invadida por um grupo de marinheiros bêbados, cujos rostos facilmente reconheci. Tinha sido concedida folga a nossos homens, e as conseqüências disso podem ser facilmente imaginadas. Alguns estavam vagueando desvairados pela cidade, outros sentavam-se nas esquinas, como lamentadores queixando-se das loucuras e vícios da época, e produzindo surpreendentes textos para suas próprias meditações. Depois de espiar em algumas lojas, e deparar uma lamentável escassez de sólidos de todo tipo, e uma igualmente lamentável abundância de líquidos, partimos para o campo, emergindo das ruas imundas como borboletas de seus casulos, trocando toda a miséria de uma cidade brasileira pelo frescor de um campo brasileiro. A brisa afagava suavemente o prado perfumado e sussurrava musicalmente por entre a floresta, beijando as tranças das árvores, trazendo em suas asas os mais puros deleites. Passamos por uma colina coberta de grama, e seguimos caminho através de uma floresta. Estávamos em tal labirinto de beleza que mal podíamos parar para contemplar as largas folhagens, firmes e rígidas como espadas, as partes inferiores tingidas do mais delicado vermelho, que se erguiam a cada lado da trilha. Além desse bosque, Paramos em uma campina, no cume de um monte, e observamos então o rio, serpenteando em curvas graciosas pelo vale, as marolas incontáveis refletindo os raios do sol, enquanto casas agrupavam-se ao longo das margens, destacadas por arbustos verdejantes em viçosa exuberância.</p>
<p>
Tais coisas enchem o coração de silêncio<br />
profundo, porque, supõe-se, seja esse o seu papel<span id="INCI_RP10V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP10" title="Não foi possível localizar o autor desses versos, em inglês no original."><sup><b>[ 10 ]</b></sup></a></p>
<p>
Nessa campina havia uma casa, onde paramos para conseguir algo de beber. Uma mulher, um menino e um cachorro eram os únicos moradores. Este último, depois de latir e me morder, desapareceu pelos fundos; os dois primeiros foram mais corteses. O garoto apanhou para nós um coco de um coqueiro perto da casa, derrubando-o com uma vara comprida. Ao pé da árvore havia uma pedra, na qual se refletia minuciosa e cuidadosamente o delicado rendilhado das folhas do coqueiro. Em outra pedra, várias espigas de milho estavam secando ao sol. A palha das espigas é usada pelos brasileiros para o preparo de cigarros, sendo o tabaco enrolado nela tal como se faz na Turquia com finas folhas de papel.</p>
<p>Tendo apreciado suficientemente o interior, estávamos melhor preparados para explorar a cidade. Fomos até a residência do governador, e encontramos aquele autêntico potentado, um pequeno e robusto cavalheiro, vestindo casaco azul com botões de latão. Caminhamos pela praça coberta de capim, que tinha evidentemente produzido sementes, e visitamos algumas lojas em busca de redes e renda brasileira. Consegui adquirir uma rede certamente menor e mais cara do que teria sido na fábrica, mas nem por isso de se desprezar.</p>
<p>Contavam-se histórias a respeito dessas rendas. Um tenente comprara algumas de finíssima qualidade, que se comprazia em considerar uma pechincha, e que agradariam uma certa pessoa na Inglaterra. Se a referida pessoa fosse tão perita em renda como era de se esperar de alguém do belo sexo, logo perceberia que o artigo brasileiro havia sido feito na Inglaterra, e exportado para os Brasis. Ela então perguntaria o preço, e informaria a seu viajado amigo que a mesma renda poderia ser comprada no estabelecimento dos Senhores Bobbins por um quarto do que fora pago por ela no Espírito Santo. Às vezes aprendemos mais em casa sobre os lugares que visitamos do que nos próprios lugares, com os olhos bem abertos e os ouvidos bem atentos. Achamos a renda brasileira extremamente grosseira, e de boa qualidade só a que vinha da Inglaterra. Os vendedores, não tendo motivos para ocultar esses pormenores informavam-nos francamente a sua procedência.</p>
<p>Pode parecer curioso para uma nação de comerciantes, mas o fato é que os brasileiros têm certa aversão ao trabalho de vender. Nenhum John Gilpin brasileiro teria apeado de seu cavalo à vista de dois fregueses. Na Inglaterra, se alguém perguntar por alguma coisa que o vendedor não tenha em estoque, este insistirá em vender outra coisa que considere um substituto à altura. No Brasil, se alguém perguntar por alguma coisa que o vendedor tenha em estoque, este insistirá em que o freguês peça outra coisa de que ele não disponha, para poupar-se o trabalho de atendê-lo.</p>
<p>Graças a alguns meninos maltrapilhos, cujos corações foram abertos com o presente de um vintém cada, conseguimos algumas galinhas e ovos, retomando a bordo, onde encontramos um grupo de convidados reunidos. Um acontecimento tão elegante não poderia prescindir o seu <span id="INCI_RP11V"><i>vates sacer</i></span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP11" title="Poeta sagrado, ou eleito pelos deuses. Em latim no original."><sup><b>[ 11 ]</b></sup></a>, que adequadamente, assinando-se &#8220;nosso correspondente&#8221;, fez o seguinte relato da cerimônia, que apareceu em algum jornal.</p>
<p>
<b>FESTIVIDADFS NO ESPÍRITO SANTO</b><span id="INCI_RP12V"></span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP12" title="Trata-se de um texto de autoria de um capixaba anônimo e publicado em jornal do Rio (como o atesta a indicação 'de nosso correspondente'), cuja tradução Wilberforce incluiu em seu relato."><sup><b>[ 12 ]</b></sup></a><br />
(de nosso correspondente)</p>
<p>
Ontem um grupo, consistindo de alguns membros da elite desta cidade, foi a bordo do vapor de guerra inglês, a convite do capitão. Depois de compartilhar uma refeição, servida com grande esplendor no camarote do nobre milorde, o grupo passou ao convés superior, onde um toldo decorado com bandeiras cobria suas cabeças. A música começou a tocar, e os convidados entregaram-se à nobre diversão da dança. O galante capitão instou um dos jovens oficiais do navio a tomar parte da dança, tomando a mão de uma jovem; mas este convite o indelicado oficial recusou, desculpando-se polidamente, e sem empregar a exclamação nacional inglesa. Evidentemente os britânicos assumiram seus melhores modos para nos recepcionar a bordo, pois nem sequer uma vez durante minha visita escutei a praga nacional <i>God dam</i>! É de uso tão freqüente que um erudito inglês publicou um livro mostrando que ela é proferida a cada cinco minutos por todo homem, mulher ou criança da Grã-Bretanha. Isso é certamente espantoso. Observei um grupo de aspirantes em pé, afastados dos que dançavam, conversando com um pequeno pajem moreno, cujo traje era elegante, consistindo em um chapéu lustroso com uma fita dourada, jaqueta azul com botões amarelos e um par de botas de cano alto. Uma senhora idosa era observada com especial atenção por esses aspirantes, e percebi que circulavam alguns rumores a respeito de sua idade, alguns assegurando que ela tinha trinta e dois anos, outros, apenas dezoito. Por informação de determinada pessoa, fui capaz de confirmar que esta conjectura estava correta; mas como nossas mulheres envelhecem quando ainda muito novas, comparativamente falando, e essa senhora tinha um filho de quatro anos, e um outro de idade mais tenra, a primeira opinião não deveria ser considerada infundada.</p>
<p>Terminada a dança, os marinheiros no castelo de proa entretiveram os visitantes com algumas canções, uma das quais era o pedido de um negro a uma moça chamada Susana para que não chorasse por ele, pois estava vindo vê-Ia, causando efeito impressionante, já que todos os marinheiros cantavam o refrão em coro<span id="INCI_RP13V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP13" title="Canção folclórica norte-americana."><sup><b>[ 13 ]</b></sup></a> O cantor principal teve uma vida extraordinária, tendo até se apresentado uma vez no palco. Em minha próxima carta, pretendo iniciar uma biografia desse homem notável.</p>
<p>Retornando os convidados à terra, o cordial e alegre capitão ordenou que luzes azuis fossem acesas e rojões disparados, para iluminar o retorno deles. Os fogos de artifício clareavam os prédios próximos à beira-mar, e iluminavam os moradores atônitos, que se juntavam nas ruas, boquiabertos e maravilhados. Quando subi atrás da carruagem de minha esposa, não pude deixar de lançar um olhar de despedida ao navio, em prejuízo de minhas meias de seda, que foram salpicadas de lama.</p>
<p>Hoje o vapor brasileiro Maria chegou aqui, e esteve ocupado carregando madeira, geralmente usada por vapores brasileiros em lugar de carvão, que ficaria muito caro. Não eram boas as relações entre o capitão e o governador do Espírito Santo, o que explica a ausência do governador em nossas festividades.</p>
<p>Na manhã seguinte, desembarquei cedo com alguns de meus companheiros para uma excursão rio acima. Eram então cerca de cinco da manhã, e chovia intensamente.</p>
<p>Enquanto os outros foram procurar uma canoa, subi, com uma arma e uma cesta de provisões, até uma casa em ruínas, ficando com um cômodo só para mim. O resto da casa parecia fechado e abandonado; o quarto que eu ocupava estava aberto de um lado por falta de parede e tinha vários buracos no chão. A chuva, entretanto, não penetrava. Vi meus colegas vagueando desconsoladamente pelas ruas, que brilhavam com a chuva, e logo um brasileiro veio preparar uma canoa, onde nos alojamos com as provisões, quando o tempo melhorou um pouco. Partimos então rio acima, cinco pessoas com quatro remos. O brasileiro tomou lugar na popa como piloto, e desviou a canoa uma milha de seu rumo, dirigindo-se ao lado oposto de uma ilha, de modo que pudesse nos conduzir a uma venda onde esperava passar bem. Quando a canoa se aproximou da pequena casa branca à margem de um córrego, ele apontou para ela e exclamou: &#8220;<i>Bono venda la!</i><span id="INCI_RP14V">&#8220;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP14" title="Como no original.Como no original."><sup><b>[ 14 ]</b></sup></a> Atentos às suas artimanhas, recusamo-nos a saltar. <i>Excelsior</i>!<span id="INCI_RP15V"></span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP15" title="Para o alto! Em latim no original."><sup><b>[ 15 ]</b></sup></a> foi nosso grito. A canoa prosseguiu deslizando rio acima, os ocupantes levantando-se e remando valentemente. Em nossa ânsia por segurança e firmeza, havíamos conseguido uma canoa pesada e não podíamos impeli-Ia tão rápido como desejávamos. Isso, entretanto, não era uma falta grave, pois uma canoa mais leve teria provavelmente virado, provocando a perda de nossas armas e outros valores. Finalmente, colhidos por um aguaceiro, seguimos para a margem e nos refugiamos em uma cabana, colocando a cesta de provisões num depósito contíguo.</p>
<p>Como nosso desjejum fora de carne fria, começamos a preparar um rápido almoço de presunto e ovos. O dono da cabana foi indenizado de qualquer incômodo com um copo de rum, que engoliu com uma expressão de divertido êxtase, pulando e assobiando de alegria. O fogo na cabana era muito forte, e a fumaça penetrava-nos nos olhos, picando como miríades de mosquitos. Em tais circunstâncias, não pudemos lograr nenhuma excelência culinária; mas há sempre algo de mais especial no que se prepara do que nas mais finas iguarias de um <i>cordon bleu</i><span id="INCI_RP16V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP16" title="Cozinheiro exímio. Em francês no original."><sup><b>[ 16 ]</b></sup></a> Não que esse prazer pudesse durar sempre; mas a mesma inspiração que preside ao primeiro poema preside também ao primeiro prato que se prepara. Tínhamos terminado nossa refeição e a chuva cessara, quando se aproximaram alguns senhores mais respeitáveis, que andavam ocupados na construção de uma casa na praia. Todos usavam facões nos cintos, e haviam talvez feito uso deles para propósitos menos inocentes que cortar madeira. As árvores e trilhas estavam ainda cintilando com a chuva, e pérolas espalhavam-se abundantes sobre cada arbusto. Dois de nosso grupo seguiram por uma trilha com o propósito de caçar, mas logo retornaram, de modo que embarcamos e seguimos corrente acima. Enquanto avançávamos, íamos atirando nos pássaros que nos apareciam; para caçar um fugitivo de plumas, metíamo-nos por algum córrego de água estagnada, com arbustos baixos crescendo na lama fértil, ou então descíamos nas margens pedregosas para atirar num bem-te-vi que nos fugia de galho em galho.</p>
<p>Desembarcamos logo depois em outra ilha, e subimos até uma casa grande, que encontramos habitada por negros, de quem compramos ovos e bananas. Muitas galinhas perambulavam por ali, mas não estavam à venda, pois não se encontrou o dono. Os ovos e as bananas foram colocados em nossa frigideira com um pouco de presunto, e acendendo-se o fogo, o cômodo logo se encheu de fumaça. De repente, o vento marinho irrompeu quarto adentro, batendo as janelas umas contra as outras, saindo com fúria por um lado para entrar de novo pelo outro. A fumaça, desnorteada e incapaz de sair pela janela, impedida pelos batentes, retornava ao quarto, refugiando-se em nossos olhos. As árvores envergavam e agitavam-se sob a rajada de vento, e o rio arrebentava furiosamente contra as pedras abaixo da casa. Em meio a essa ventania, tendo deixado nossa canoa em segurança, prosseguimos calmamente o jantar. O piloto nos informou, com a boca cheia, que aqueles negros eram &#8220;contrabanda<span id="INCI_RP17V">&#8220;,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP17" title="Como no original."><sup><b>[ 17 ]</b></sup></a> em que sentido ele não explicou.</p>
<p>Quando descíamos para a praia para o reembarque, uma grande canoa passou a todo pano, correndo rio acima com incrível velocidade. Com o vento e a maré contra nós, e ambos muito fortes, não pudemos seguir rio abaixo, mas fizemos um desvio para a margem oposta, a canoa jogando sobre as ondas como um navio de três conveses na baía de Biscaia. Ao alcançarmos o outro lado, encontramo-nos entre mangues, com árvores cobertas de ostras, largadas ali pela maré. Ali percebemos de relance alguns cisnes, mas muito arredios para permitir aproximação.</p>
<p>Perseguimos outra canoa que estava entrando no córrego e, chegando perto, os ocupantes ficaram tão assustados com nossa aproximação que encalharam. A água aqui era escura e barrenta, e os galhos compridos das <span id="INCI_RP18V">siriúbas</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP18" title="Siriúba (Avicennia nitida) e mangue (Rhizophora mangles), duas árvores tropicais típicas da vegetação dos mangues, ambas frequentemente traduzidas pelo vocábulo mangrove, usado pelo autor no original."><sup><b>[ 18 ]</b></sup></a> se juntavam sobre nossas cabeças num arco triunfante. Metemo-nos por um córrego e abicamos a canoa numa praia onde algumas pranchas nos livraram de um abismo de lama negra. Subindo um morro, chegamos a uma fábrica, donde se avistava a cidade e o rio sinuoso . Ali foram abatidas algumas viúvas<span id="INCI_RP19V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP19" title="Ave passeriforme de cor negra (Pipraeidae m. melanonota)."><sup><b>[ 19 ]</b></sup></a> e também um pequeno bem-te-vi, marrom e de modesta aparência, mas possuidor de variegado topete de plumas vermelhas e amarelas, que podia eriçar à vontade. Quando o sol brilhava sobre ele, e seu topete cintilava e dançava na luz, esquecia-se seu corpo marrom e feio, e dava-se a ele justa admiração. As viúvas atraíram a atenção de nossos caçadores de uma longa distância devido à sua lustrosa plumagem negra, possuindo em algum grau o mesmo poder de fascinação de suas homônimas da raça humana.</p>
<p>Um ou dois dias depois, partimos da cidade do Espírito Santo. Uma ressaca estava começando, e as pequenas ilhas cuja paisagem comentei tão poeticamente ao chegarmos, ficavam visíveis agora só por um instante, quando o mar recuava ou quando as ondas quebravam sobre elas. Um pequeno navio costeiro estava ancorado a meio caminho rio abaixo, jogando muito, enquanto seu convés era uma cena de verdadeira confusão de mercadorias.</p>
<p>Uma vez fora do rio, desembarcamos e pagamos ao piloto, navegando então para sudoeste. As autoridades do Espírito Santo parecem ser contrárias ao tráfico de escravos. Fora da cidade estavam parados dois navios, recentemente capturados com escravos a bordo. Um deles era um barco de <span id="INCI_RP20V">Cabinda</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP20" title="Atual Angola, região de origem de boa parte dos escravos brasileiros."><sup><b>[ 20 ]</b></sup></a> improvisado, cuja capacidade certamente não excedia a trinta toneladas, mas que havia trazido em seu porão cento e oitenta escravos da costa da África!</p>
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<span id="INCI_RP21V"><b>CAPÍTULO II</b></span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP21" title="É o capítulo XVI do texto original."><sup><b>[ 21 ]</b></sup></a></p>
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<span style="font-size: x-small;">Guarapari. Mulheres do campo. Nec vox hominem sonat. A cana. Benevente. Linha da costa. Piúma. Itabapoama. Itapemirim. Assassinato.</span><br />
<span style="font-size: x-small;"><br /></span><br />
<br />
Entre Espírito Santo e Rio de Janeiro, Guarapari é a vila de maior importância. Está situada às margens de um rio que desemboca numa baía, e o mesmo nome designa baía, rio e cidade. A ancoragem ali é difícil, devido à ressaca permanente, que sempre começa e nunca termina. Essa vila era famosa até recentemente devido ao patrocínio que dava ao tráfico de escravos. Os barcos do Harpy conseguiram apresar um navio negreiro rio acima, a despeito da vigorosa resistência dos cidadãos e da tripulação do navio. Nenhuma parte da vila é visível da baía, e mesmo próximo à foz do rio apenas algumas poucas cabanas aparecem. Sinais de decadência mostram-se por todos os lados. A igreja e o convento erguem-se sobre um alto promontório à entrada do rio, e estão ambos muito dilapidados. O convento especialmente está coberto de ervas daninhas e arbustos, que alcançam grande altura dentro de suas paredes. Não há flores aí, atualmente. Ao lado desses dois edifícios ergue-se uma altíssima palmeira que, sendo a única no promontório, é visível a longa distância, servindo para indicar a posição de Guarapari a navios com destino àquele porto.</p>
<p>Tão logo se cruza a barra do rio, na qual a profundidade é de cerca de três braças, descortina-se subitamente a vila, no lado leste ou na direção do mar, e o porto com um estaleiro, onde pequenos barcos costeiros estão geralmente em fase de construção. O rio, que não tem mais de trezentos pés de largura, estende-se ao sul, paralelamente à costa, e a povoação está situada no istmo entre o rio e o mar.</p>
<p>Em nossa primeira visita a Guarapari, uma canoa comprida e estreita, manejada por dois remadores, veio em nossa direção por sobre os vagalhões. As canoas nessas regiões são muito mais estreitas e compridas do que as de Ilha Grande, sendo sua proa mais pontuda, enquanto a proa das canoas do sul é larga e plana. Quando essa canoa veio encostando, os homens tiveram muita dificuldade em mantê-la a salvo junto à escada, enquanto o navio estava em movimento. Gritos e berros vinham da popa para a proa, e retornavam com juros da proa para a popa.</p>
<p>
<i>Pueri nautis, pueris convitia nauta</i><br />
<span id="INCI_RP22V"><i>Ingerere.</i></span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP22" title="Os meninos lançavam impropérios aos marinheiros, os marinheiros aos meninos. Não foi possível identificar o autor latino."><sup><b>[ 22 ]</b></sup></a></p>
<p>
Amarrado firmemente o barco, um homem subiu com duas caixas de ovos e algumas pobres galinhas subnutridas. Foram comprados imediatamente, mas depois que a canoa retornou à praia os ovos revelaram-se todos podres e velhos, duas qualidades quase sinônimas. Não posso culpar o homem por nos vender tais coisas. Ele deve ter sido informado de que na Inglaterra só honramos o que é velho e inútil.</p>
<p>Mais tarde naquele dia, quando alguns oficiais desembarcaram, depararam com esse homem, que imediatamente fugiu, com todos os terrores de uma consciência pesada, acreditando sem dúvida que uma delegação do navio viera prendê-lo, a fim de enforcá-lo, sendo a forca na Inglaterra a punição mais comum para qualquer crime.</p>
<p>Em nossa visita seguinte a Guarapari, continuamos a explorar as curiosidades do lugar sozinhos<span id="INCI_RP23V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP23" title="É de suspeitar que Wilberforce estivesse sozinho nessa ocasião, narrando suas aventuras em plural majestático."><sup><b>[ 23 ]</b></sup></a> já que o único cicerone, o presidente da Câmara, estava atendendo ao capitão. Numa pequena rua secundária, chegamos diante de uma porta aberta sobre a qual não havia nenhuma tabuleta pendurada para avisar-nos de que a entrada era proibida exceto a negócios. Espiamos lá dentro, o que era muito natural de nossa parte. Se as pessoas deixam as portas abertas, o que podem esperar? Não vimos nada além de algumas crianças brincando no chão, e uma magnífica rede pendurada do teto, desocupada. Afastamo-nos imediatamente, mas não sem atrair sobre nós as mais terríveis conseqüências.</p>
<p>Quando saíamos do recinto, encontramos uma velha que começou a matraquear contra nós tão implacavelmente como se fosse dotada do fôlego de trinta perus. Felizmente ela era parcialmente humana, não totalmente diabólica, e o pouco de humanidade que tinha transparecia na falta de ar depois de longo palavrório. Mas tão logo se calou, seu discurso foi retomado por um velho que parecia digno de ser seu marido, e a quem não desejo destino pior do que esse. Em tal discurso, porém, só eles é que falavam e só nós que ouvíamos, o que era a parte mais difícil. O marido seguiu o mesmo estilo da esposa, mas logo mostrou a inferioridade natural do homem em relação à mulher. Antes que tivesse terminado, ela começou de novo, puxando um coro de mulheres de várias idades, as vozes variando em cadência desde o grito estridente das jovens até o berro rascante das velhas. Inconscientes de nosso crime, batemos em retirada, com o coro atrás, mantendo sempre a cantoria melodiosa. Por último veio um homem ofegante que se pôs a dar pulos frenéticos e socos em nossa direção, praguejando e gritando feito um louco. Naturalmente, nosso único recurso foi praguejar e gritar em resposta, o que fizemos com toda honra até o inimigo se retirar.</p>
<p>Em seguida travamos conhecimento com um personagem sorridente e gracioso, que nos acenou para chegarmos à sua casa. Foi muito cordial conosco e falava com amável franqueza; contudo, seu rosto parecia insincero e assemelhava-se exatamente ao de Simon Renard, nas ilustrações da Torre de Londres feitas por G.C<span id="INCI_RP24V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP24" title="Provavelmente George Cruikshank (1792-1878), famoso caricaturista inglês."><sup><b>[ 24 ]</b></sup></a> Mas essa insinceridade se explica facilmente pela referência ao seu cargo. Ele era, na verdade, o mestre-escola, um daqueles ilustres cavalheiros de quem freqüentemente ouvimos falar — os mestres-escola do estrangeiro. Mostrou-nos todos os seus instrumentos de ensino, a <span id="INCI_RP25V">tabuada</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP25" title="Termo obscuro. Poderia referir-se também ao quadro-negro."><sup><b>[ 25 ]</b></sup></a> e a palmatória, execrável instrumento do qual nem o Brasil está livre. Os brasileiros, portanto, podem alegar afinidade com o resto do mundo, citando o verso de Juvenal, que deveria funcionar como um sinal de maçonaria e unir num laço indissolúvel todos aqueles que pudessem afirmar</p>
<p>
<i>Et nos ergo manum ferulae subduximus</i><span id="INCI_RP26V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP26" title="E nós que subtraímos a mão à palmatória."><sup><b>[ 26 ]</b></sup></a></p>
<p>
O mestre-escola falava um pouco de inglês e tinha um dicionário de inglês-português e uma gramática, que nos mostrou e que lhe serviram de ajuda para traduzir algumas frases. Lendo uma frase literalmente, com o sentido de &#8220;Minha esposa está aqui&#8221;, ele traduziu desta maneira: &#8220;<i>May wumman ees he-ar</i><span id="INCI_RP27V">&#8220;.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP27" title="Transcrição fonética da pronúncia do mestre-escola. A tradução literal é 'Minha mulher está aqui'."><sup><b>[ 27 ]</b></sup></a></p>
<p>Numa loja que tinha persianas de cana e vime servindo de janelas, eu estava comprando algumas laranjas quando entrou uma velha querendo aguardente. Suponho que ela tivesse por volta de quarenta anos, contudo seu rosto era o mais enrugado e medonho que já vira. Uma mulher de oitenta anos na Inglaterra seria bonita em comparação com essa bruxa. Mas o clima tropical, que desenvolve as mulheres aos quatorze anos, as faz envelhecer muito prematuramente.</p>
<p>Em outra loja havia um carola mal-encarado, parecido com um pregador, ou com o imortal Mr. Stiggins dos Documentos de Mr. Pickwick, do saudoso Mr. Boz<span id="INCI_RP28V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP28" title="Pseudônimo de Charles Dickens (1812-1870), autor do livro citado. De estranhar o adjetivo empregado por Wilberforce (no original, late lamented), visto que, nessa época, Dickens ainda estava vivo."><sup><b>[ 28 ]</b></sup></a> que vigiava a linda esposa enquanto ela cuidava dos negócios da venda. Comprei um peru, e outros perus foram comprados em outras lojas. Estavam todos tão calados que concluímos, recordando a aventura da manhã, que os perus de Guarapari haviam transferido suas vozes às mulheres dessa vila, recebendo a beleza delas em troca.</p>
<p>Prosseguiremos agora fornecendo uma descrição de outras partes notáveis dessa costa no estilo guia de viagem.</p>
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<b>Benevente</b><br />
<b><br /></b><br />
<br />
<b><br /></b><br />
A baía de <span id="INCI_RP29V">Benevente</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP29" title="Atual cidade de Anchieta."><sup><b>[ 29 ]</b></sup></a> é larga, rasa e aberta. Navios de mais de dez pés de calado não podem chegar a uma milha da praia, mas podem ancorar a alguma distância fora dela, em quatro braças e meia, orientando-se pela última quarta lessueste e pela casa mais visível do lugar, norte por nordeste.</p>
<p>A povoação está situada no lado direito da foz de um rio que deságua no mar. Fica, em sua maior parte, em terreno baixo, com exceção da igreja e de um prédio junto a ela, que aparentemente foi um mosteiro, apesar da parte mais baixa estar agora transformada em prisão. Ficando a outra parte da vila quase no mesmo nível do rio, as ruas, que antes devem ter sido parcialmente calçadas, são hoje uma sucessão de poças de algo que deve ter sido água um dia. As casas estão, em grande número, em triste estado de decadência, sendo algumas restos de belos edifícios, com cortinas, persianas e entalhes de madeira.</p>
<p>Vários pequenos navios estão no estaleiro, e muitos barcos costeiros comerciam os produtos das fazendas situadas rio acima. O suprimento é abundante e de fácil obtenção; mas como é trazido do interior, é preciso uma antecedência mínima de um dia no pedido. O rio é navegável por canoa até duas milhas além da vila, encontrando-se boa caça em suas margens. No ponto extremo da baía existe um recife chamado Ponta do Cormorant, por ter o vapor <span id="INCI_RP30V"><i>Cormorant</i><span id="INCI_RP30V"></span><a href="https://www.blogger.com/null" span=""></a><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP30" title="Com esse mesmo cruzador inglês, também ocupado na repressão ao tráfico de escravos na costa brasileira, deu-se incidente na baía de Paranaguá, em julho de 1850, conforme relata Helio Vianna em sua História do Brasil (Melhoramentos, São Paulo, 9 ed., 1972): 'Tendo este navio aí realizado o apresamento de uma galera e dois brigues, foi hostilizado com tiros partidos da Fortaleza da Barra, disso resultando a morte de um tripulante e ferimentos em dois'. (p. 151 da segunda parte)."><sup><b>[ 30 ]</b></sup></a> encalhado ali.</p>
<p>O relevo da costa entre o cabo São Tomé e Guarapari é baixo; mas quarenta milhas para o interior se ergue uma cadeia de montanhas de talhe o mais rebuscado. Entre esses montes e a costa há extensas florestas de madeira de boa qualidade, principalmente pau-rosa<span id="INCI_RP31V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP31" title="Aniba rosaeodora. Árvore que contém um óleo composto fundamentalmente de linalol, de grande emprego em perfumaria."><sup><b>[ 31 ]</b></sup></a> habitadas por índios vivendo em estado de barbárie. Diz-se que eles ocasionalmente se casam com colonos e que em certas estações do ano visitam as fazendas a fim de trabalhar, sendo pagos sobretudo com cachaça, bebida alcoólica local, semelhante à <i>aqua ardente</i>. Poderíamos deduzir, entretanto, que esses selvagens nem sempre visitam a civilização com tão amistosos motivos, mas são freqüentemente seduzidos pela esperança de saque. Os habitantes do litoral vivem principalmente da pesca, e quando nossos navios de guerra navegavam nessas águas para reprimir o tráfico de escravos, as pessoas entravam em aflição, impedidas de fazer-se ao mar em suas canoas devido à proximidade dos navios. Laranjas e bananas, entretanto, são encontradas aí em abundância, e com elas os brasileiros conseguem sobreviver, à falta de outro alimento.</p>
<p><b><br /></b><br />
<b>Piúma</b></p>
<p>
Trata-se de um vilarejo próximo a Benevente, às margens de pequeno rio, e notável pela farta produção de pau-rosa, que pode ser adquirido a baixo custo.</p>
<p>Em frente à foz do rio de Piúma encontra-se a pequena ilha dos Franceses<span id="INCI_RP32V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP32" title="Franceza, no original."><sup><b>[ 32 ]</b></sup></a> a leste da qual se estende uma linha de recifes rochosos, que servem de abrigo às embarcações. Aí se pode obter areia, tendo os navios de guerra descoberto que é um lugar propício para treinamento de tiro ao alvo com seus canhões. Outro bom ancoradouro fica ao largo dos Três Rochedos Vermelhos, que formam uma visível interrupção na cor parda que predomina à direita e à esquerda. Ao pé desses rochedos, no fundo da praia arenosa, há uma pequena floresta, discernindo-se cabanas entre as árvores. Há também um baixio com duas braças e meia na parte mais rasa em frente a esses rochedos, cujas orientações são as seguintes:</p>
<p>Grande Casa Branca no topo dos Rochedos Vermelhos, sudoeste por oeste quatro milhas.</p>
<p>Dois montes impressionantes (representados no diário de bordo por um rabisco indeciso, com um borrão em cada ponta), noroeste por norte.</p>
<p>
<b>Itabapoana</b></p>
<p>
Vila também às margens de um rio, com uma casa grande perto da barra. O ancoradouro está em latitude 21° 23&#8242; sul e longitude 40° 51&#8242; oeste. Posições, casa grande sudoeste, por sul duas milhas. Recifes a sueste por leste duas milhas.</p>
<p>Ponta dos Rochedos Vermelhos nordeste por norte. Os baixios ficam a cerca de seis milhas a oeste da casa grande. Dentro desse rio estava uma escuna de velas latinas. Ela havia desembarcado cento e sessenta escravos na véspera e foi apreendida imediatamente pelas autoridades governamentais, que ocupam a casa grande da barra. Era pouco maior que muitos navios negreiros, em proporção ao número de escravos que transportava.</p>
<p>
<b>Itapemirim</b><br />
<b><br /></b><br />
<br />
Vila de certo tamanho, situada uma milha ou duas rio acima. É notável sobretudo devido ao seu estágio de civilização, que mostra que a simplicidade de um refúgio rural nem sempre assegura paz e boa-vontade. Enquanto passeávamos com o presidente da Câmara, o capitão viu uma casa inacabada. Imediatamente parou para examiná-la com um sobressalto melodramático. Ela parecia sombria e desolada, como se cada tijolo soubesse do crime que retardara seu progresso, e que nem todas as lamentações e uivos angustiados de um vento forte em sua chaminé poderiam jamais revelar. Havia algo de sinistro e terrível na mera contemplação de suas obras inacabadas. O vento soprava suavemente? Era somente por comiseração pelo infeliz construtor; era apenas um lamento plangente pelo seu súbito, fim. O vento estava silencioso? Ele ainda parecia remoer serenamente aquele lugar e embalar-se naquele monte de argamassa que se deteriorava a um canto. A tempestade caía, o relâmpago brilhava; o trovão bramia, a chuva despejava suas grossas gotas? Tudo isso caía sobre a casa por motivos que nenhum mortal pode descrever. As desoladas súplicas de seus tijolos mudos, os gemidos e assobios da chaminé, tudo mostrava que ali se fizera algo que poderia ferir os ouvidos e sufocar a fala.</p>
<p>Por que a casa estava inacabada? Ah, sim! — disse serenamente o presidente da Câmara — ela pertence a um homem que foi apunhalado outro dia.</p>
<p>— Apunhalado! Por que razão?</p>
<p>— Realmente não sei; nada pessoal, eu acho. Uma simples provocação, ou coisa assim. Há indivíduos terríveis por aqui; sem exceção, os mais sanguinários que já vi.</p>
<p>Depois de tal exemplo, o depoimento do presidente da Câmara não era difícil de acreditar.</p>
<p>_____________________________<br />
</span></p>
<h4>
<span id="INCI_RP30V"><br />
<span style="font-size: 90%;"><br />
NOTAS</span></span></h4>
<p><span id="INCI_RP30V"><br />
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</span></p>
<div id="INCI_RP1">
<span id="INCI_RP30V"><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP1V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a>&nbsp;É o prefácio geral da obra.</span></div>
<p><span id="INCI_RP30V"><br />
</span><br />
</p>
<div id="INCI_RP2">
<span id="INCI_RP30V"><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP2V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a>&nbsp;É o capítulo XV do texto original.</span></div>
<p><span id="INCI_RP30V"><br />
</span><br />
</p>
<div id="INCI_RP3">
<span id="INCI_RP30V"><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP3V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a>&nbsp;Trata-se do convento da Penha.</span></div>
<p><span id="INCI_RP30V"><br />
</span><br />
</p>
<div id="INCI_RP4">
<span id="INCI_RP30V"><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP4V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a>&nbsp;À maneira dos antigos. Em latim no original.</span></div>
<p><span id="INCI_RP30V"><br />
</span></p>
<div id="INCI_RP5">
<span id="INCI_RP30V"><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP5V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a>&nbsp;Essa é a tradução que Taunay fez dos versos de Wilberforce, incluindo-os em seu ensaio &#8220;Impressões de Vitória e seus arredores&#8221;, publicado no<i> Jornal do Comércio</i>, em 1945. (Apud Norbertino Bahiense, <i>O convento da Penha</i>, Vitória, 1 95 I.).</span></div>
<p><span id="INCI_RP30V"></p>
<div id="INCI_RP6">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP6V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a>&nbsp;Atualmente morro do Penedo. Era assim chamado pelos portugueses, como a outros morros de mesma configuração e talhe arredondado, numa alusão aos torrões de açúcar para exportação.</div>
<div id="INCI_RP7">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP7V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 7 ]</b></sup></a>&nbsp;É o palácio Anchieta. A interrogação entre parênteses está no texto original.</div>
<div id="INCI_RP8">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP8V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 8 ]</b></sup></a>&nbsp;O primeiro-tenente Jonh H. Crang que, juntamente com o capitão Edward Tatham, visitou o convento da Penha em 3 de setembro de 1851 (cf. Norbertino Babiense, op. cit., p. 8.</div>
<div id="INCI_RP9">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP9V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 9 ]</b></sup></a>&nbsp;Wilberforce interpelou no texto de Crang, entre parênteses, a seguinte observação: &#8220;Estou envergonhado de você, herético colega, por dar vazão a semelhante sentimento&#8221;.</div>
<div id="INCI_RP10">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP10V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 10 ]</b></sup></a>&nbsp;Não foi possível localizar o autor desses versos, em inglês no original.</div>
<div id="INCI_RP11">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP11V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 11 ]</b></sup></a>&nbsp;Poeta sagrado, ou eleito pelos deuses. Em latim no original.</div>
<div id="INCI_RP12">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP12V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 12 ]</b></sup></a>&nbsp;Trata-se de um texto de autoria de um capixaba anônimo e publicado em jornal do Rio (como o atesta a indicação &#8220;de nosso correspondente&#8221;), cuja tradução Wilberforce incluiu em seu relato.</div>
<div id="INCI_RP13">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP13V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 13 ]</b></sup></a>&nbsp;Canção folclórica norte-americana.</div>
<div id="INCI_RP14">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP14V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 14 ]</b></sup></a>&nbsp;Como no original.</div>
<div id="INCI_RP15">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP15V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 15 ]</b></sup></a>&nbsp;Para o alto! Em latim no original.</div>
<div id="INCI_RP16">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP16V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 16 ]</b></sup></a>&nbsp;ozinheiro exímio. Em francês no original.</div>
<div id="INCI_RP17">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP17V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 17 ]</b></sup></a>&nbsp;Como no original.</div>
<div id="INCI_RP18">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP18V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 18 ]</b></sup></a>&nbsp;Siriúba (<i>Avicennia nitida</i>) e mangue (<i>Rhizophora mangles</i>), duas árvores tropicais típicas da vegetação dos mangues, ambas frequentemente traduzidas pelo vocábulo mangrove, usado pelo autor no original.</div>
<div id="INCI_RP19">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP19V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 19 ]</b></sup></a>&nbsp;Ave passeriforme de cor negra (<i>Pipraeidae m. melanonota</i>).</div>
<div id="INCI_RP20">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP20V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 20 ]</b></sup></a>&nbsp;Atual Angola, região de origem de boa parte dos escravos brasileiros.</div>
<div id="INCI_RP21">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP21V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 21 ]</b></sup></a>&nbsp;É o capítulo XVI do texto original.</div>
<div id="INCI_RP22">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP22V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 22 ]</b></sup></a>&nbsp;Os meninos lançavam impropérios aos marinheiros, os marinheiros aos meninos. Não foi possível identificar o autor latino.</div>
<div id="INCI_RP23">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP23V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 23 ]</b></sup></a>&nbsp;É de suspeitar que Wilberforce estivesse sozinho nessa ocasião, narrando suas aventuras em plural majestático.</div>
<div id="INCI_RP24">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP24V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 24 ]</b></sup></a>&nbsp;Provavelmente George Cruikshank (1792-1878), famoso caricaturista inglês.</div>
<div id="INCI_RP25">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP25V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 25 ]</b></sup></a>&nbsp;Termo obscuro. Poderia referir-se também ao quadro-negro.</div>
<div id="INCI_RP26">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP26V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 26 ]</b></sup></a>&nbsp;E nós que subtraímos a mão à palmatória.</div>
<div id="INCI_RP27">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP27V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 27 ]</b></sup></a>&nbsp;Transcrição fonética da pronúncia do mestre-escola. A tradução literal é &#8220;Minha mulher está aqui&#8221;.</div>
<div id="INCI_RP28">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP28V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 28 ]</b></sup></a>&nbsp;Pseudônimo de Charles Dickens (1812-1870), autor do livro citado. De estranhar o adjetivo empregado por Wilberforce (no original, <i>late lamented</i>), visto que, nessa época, Dickens ainda estava vivo.</div>
<div id="INCI_RP29">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP29V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 29 ]</b></sup></a>&nbsp;Atual cidade de Anchieta.</div>
<div id="INCI_RP30">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP30V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 30 ]</b></sup></a>&nbsp;Com esse mesmo cruzador inglês, também ocupado na repressão ao tráfico de escravos na costa brasileira, deu-se incidente na baía de Paranaguá, em julho de 1850, conforme relata Helio Vianna em sua <i>História do Brasil </i>(Melhoramentos, São Paulo, 9 ed., 1972): &#8220;Tendo este navio aí realizado o apresamento de uma galera e dois brigues, foi hostilizado com tiros partidos da Fortaleza da Barra, disso resultando a morte de um tripulante e ferimentos em dois&#8221;. (p. 151 da segunda parte).</div>
<div id="INCI_RP31">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP31V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 31 ]</b></sup></a>&nbsp;<i>Aniba rosaeodora</i>. Árvore que contém um óleo composto fundamentalmente de linalol, de grande emprego em perfumaria.</div>
<div id="INCI_RP32">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP32V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 32 ]</b></sup></a>&nbsp;<i>Franceza</i>, no original.</div>
<p>[WILBERFORCE, Edward.&nbsp;<i>Ingleses na costa – Impressões de um aspirante de marinha sobre o Espírito Santo em 1851</i>. (Tradução de Eliziane Andrade Paiva) Vitória: Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo; Academia Espírito-santense de Letras, Cultural-ES; 1989. 37p.]<br />
</span></p>
<p><b>&#8212;&#8212;&#8212;</b><br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia&nbsp;autorização&nbsp;</b>dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
<b>&#8212;&#8212;&#8212;</b></p>
<div>
<span id="INCI_RP30V"><br /></span><br />
</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Edward Wilberforce</b>, integrante da oficialidade da corveta de guerra&nbsp;<i>Geyser</i>&nbsp;que esteve no Espírito Santo na primavera de 1851 sob o comando do capitão de fragata Edward Tatham, em missão repressiva ao contrabando de africanos.</p></blockquote>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Guilherme Santos Neves&nbsp;</b>(autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/luiz-guilherme-santos-neves-bio/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)&nbsp;</p></blockquote>
<p></div>
<p><span id="INCI_RP30V"><br />
</span></p>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/">Ingleses na costa – Impressões de um aspirante de marinha sobre o Espírito Santo em 1851</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>Viagem à província do Espírito Santo (III &#8211; Province d&#8217;Espirito Santo)</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/viagem-provincia-do-espirito-santo/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 16 Feb 2017 13:39:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Auguste-François Biard]]></category>
		<category><![CDATA[História / Sociologia]]></category>
		<category><![CDATA[Viajantes]]></category>
		<guid isPermaLink="false"></guid>

					<description><![CDATA[<p>Bandeira do forte no porto de Vitória. Prefácio (luiz Guilherme Santos Neves) O rio Sanguaçu A floresta virgem III &#8211; Province d&#8217;Espirito Santo&#160;[In BIARD, Auguste-François. Deux années au Brésil. Paris: Librairie de L. Hachette et Cie., 1862.] Ilustrações [BIARD, Auguste-François.&#160;Viagem à província do Espírito Santo. (Deux années au Brésil &#8211; III Province d&#8217;Espirito Santo, Tradução [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
</div>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://2.bp.blogspot.com/-jzAbpc8jk-M/WJ4KOS9LhgI/AAAAAAAALn4/sj90Lg8IzYENLISPcNX8vhcMe7WwKoMQACLcB/s1600/Bandeira%2Bdo%2BForte%2Bno%2Bporto%2Bde%2BVit%25C3%25B3ria..jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Bandeira do forte no porto de Vitória." border="0" height="468" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2017/02/Bandeira2Bdo2BForte2Bno2Bporto2Bde2BVit25C325B3ria..jpg" class="wp-image-5246" title="Bandeira do forte no porto de Vitória." width="640" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Bandeira do forte no porto de Vitória.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/prefacio/" target="_blank" rel="noopener">Prefácio</a> (luiz Guilherme Santos Neves)</p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-rio-sanguacu/" target="_blank" rel="noopener">O rio Sanguaçu</a></p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-floresta-virgem/" target="_blank" rel="noopener">A floresta virgem</a></p>
<p><a href="https://dl.dropboxusercontent.com/u/38539432/11-ESTA%C3%87%C3%83O%20CAPIXABA_em%20vigor/Blogger/Textos/Viajantes/Biard/Biard-completo.pdf" target="_blank" rel="noopener">III &#8211; Province d&#8217;Espirito Santo</a>&nbsp;[In BIARD, Auguste-François. <i>Deux années au Brésil</i>. Paris: Librairie de L. Hachette et Cie., 1862.]<br />
<a href="https://goo.gl/photos/pHHgxjFpryyVYrDk9" target="_blank" rel="noopener"><br /></a><br />
<a href="https://goo.gl/photos/pHHgxjFpryyVYrDk9" target="_blank" rel="noopener">Ilustrações</a></p>
<p>
<span style="font-weight: normal;">[BIARD, Auguste-François.&nbsp;<i>Viagem à província do Espírito Santo</i>. (</span><i>Deux années au Brésil &#8211; </i>III Province d&#8217;Espirito Santo, Tradução de José Augusto Carvalho) Vitória: Cultural-ES; Aracruz Celulose; Fundação Jônice Tristão, s/d. 123p.&nbsp;<span style="font-weight: normal;">Ilustrações de Édouard Riou com base nos croquis de Auguste-François Biard.</span>]</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2000&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação <b>sem prévia autorização</b> dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Auguste-François Biard</b>, pintor e viajante francês, nasceu em Lion, França, em 1799, e faleceu em Fontainebleau, no ano de 1882. Esteve no Brasil de 1858 a 1860, &nbsp;passando também pelo Espírito Santo, e dessa viagem resultou a publicação do livro <i>Deux années au Brésil</i> (Paris: Librairie de L. Hachette e Cia., 1862), no qual o pintor reuniu suas impressões de viagem sobre a terra brasileira. A obra saiu com ilustrações de Riou calcadas em desenhos originais de Biard. Segundo Gustavo Barroso, essa viagem teria sido programada para pintar retratos da família imperial, retratos esses que foram, de fato, produzidos.</p></blockquote>
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		<item>
		<title>Uma viagem de estudos ao Espírito Santo</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/uma-viagem-de-estudos-ao-espirito-santo/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 30 Dec 2016 17:10:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ernst G. Nauck]]></category>
		<category><![CDATA[Gustav Giemsa]]></category>
		<category><![CDATA[Imigração]]></category>
		<category><![CDATA[Imigração Alemã]]></category>
		<category><![CDATA[Viajantes]]></category>
		<guid isPermaLink="false"></guid>

					<description><![CDATA[<p>Gustav Giemsa. SUMÁRIO Explicação do tradutor Nota Prefácio I. Plano e realização da viagem II. Generalidades sobre o Espírito Santo: solo, clima, meios de transporte III. História e extensão da colonização no Espírito Santo IV. Agricultura e produção V. Roupa, habitação, alimentação e água VI. Situação Econômica VII. Medicina e salubridade VIII. Estatística demográfica IX. [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://3.bp.blogspot.com/-syc0IdzNJOU/WGFMumj53VI/AAAAAAAALKw/QBzp7pyIIiwjxdhpus2YW7sgi0FdeJWAACLcB/s1600/Gustav_Giemsa.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Gustav Giemsa." border="0" height="320" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/12/Gustav_Giemsa.jpg" class="wp-image-5272" title="Gustav Giemsa." width="251" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Gustav Giemsa.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>SUMÁRIO</p>
<p>
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/explicacao-do-tradutor/" target="_blank" rel="noopener">Explicação do tradutor</a></p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/nota/" target="_blank" rel="noopener">Nota</a></p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/prefacio/" target="_blank" rel="noopener">Prefácio</a></p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/i-plano-e-realizacao-da-viagem/" target="_blank" rel="noopener">I. Plano e realização da viagem</a></p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ii-generalidades-sobre-o-espirito-santo/" target="_blank" rel="noopener">II. Generalidades sobre o Espírito Santo: solo, clima, meios de transporte</a></p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/iii-historia-e-extensao-da-colonizacao/" target="_blank" rel="noopener">III. História e extensão da colonização no Espírito Santo</a></p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/iv-agricultura-e-producao/" target="_blank" rel="noopener">IV. Agricultura e produção</a></p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/v-roupa-habitacao-alimentacao-e-agua/" target="_blank" rel="noopener">V. Roupa, habitação, alimentação e água</a></p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-situacao-economica/" target="_blank" rel="noopener">VI. Situação Econômica</a></p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vii-medicina-e-salubridade/" target="_blank" rel="noopener">VII. Medicina e salubridade</a></p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/viii-estatistica-demografica/" target="_blank" rel="noopener">VIII. Estatística demográfica</a></p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ix-observacoes-genealogicas-e/" target="_blank" rel="noopener">IX. Observações genealógicas e antropológicas</a></p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/x-igreja-escola-os-costumes/" target="_blank" rel="noopener">X. A igreja, a escola, os costumes</a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/xi-o-mundo-espiritual-dos-colonos/" target="_blank" rel="noopener"><br /></a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/xi-o-mundo-espiritual-dos-colonos/" target="_blank" rel="noopener">XI. O mundo espiritual dos colonos</a></p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/xii-aclimacao/" target="_blank" rel="noopener">XII. Aclimação</a></p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/conclusao/" target="_blank" rel="noopener">Conclusão</a></p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/apendice-i/" target="_blank" rel="noopener">Apêndice I</a></p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/apendice-ii/" target="_blank" rel="noopener">Apêndice II</a></p>
<p>
[GIEMSA, Gustav, NAUCK, Ernst G. Uma viagem de estudos ao Espírito Santo: pesquisa demo-biológica, realizada, com o fim de contribuir para o estudo do problema da aclimação, numa população de origem alemã, estabelecida no Brasil Oriental. Trabalho publicado pela Universidade de Hanseática, Anais Geográficos (continuação dos&nbsp;<i>Anais</i>&nbsp;do Instituto Colonial de Hamburgo, vol. 48), série D, Medicina e Veterinária, vol. IV, Hamburgo, Friederichsen, De Gruyter &amp; Co., 1939, traduzido para o português por Reginaldo Sant&#8217;Ana e publicado no&nbsp;<i>Boletim Geográfico do Conselho Nacional de Geografia</i>, n. 88, 89 e 90, 1950].</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Gustav Giemsa</b> nasceu na Alemanha a 20 de novembro de 1867 e faleceu a 10 de junho de 1948. Foi químico e bacteriologista e alcançou notoriedade pela criação uma solução de corante conhecida como &#8220;Giemsa&#8221;, empregada para o diagnóstico histopatológico da malária e outros parasitas, tais como Plasmodium, Trypanosoma e Chlamydia. Estudou Farmácia e mineralogia na Universidade de Leipzig, e Química e Bacteriologia na Universidade de Berlim. Entre 1895 e 1898 Giemsa atuou como farmacêutico na África Oriental Alemã. Em 1900 tornou-se chefe do Departamento de Química Institut für Tropenmedizin em Hamburgo.<br />
<b>Ernst G. Nauck</b> nasceu em São Petersburgo, Alemanha, em 1867, e faleceu em Benidorm, Espanha, em 1967. Especialista em doenças tropicais.&nbsp;</p></blockquote>
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		<title>1950: Diário de um engenheiro no Espírito Santo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 05 Oct 2016 22:33:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Luiz Edmundo Appel]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Viajantes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Meu pai, Luiz Edmundo Appel Luiz Carlos Seara Appel Meu pai, Luiz Edmundo Appel (1924-2006), ainda era um jovem e recém formado engenheiro de minas, metalurgia e geologia, quando em 1950 andou pelo Espírito Santo. Naqueles idos, num vai-e-vem entre Linhares, Colatina, São Mateus, Nova Venécia, Vitória e outros lugares menores, realizou um trabalho de [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
</div>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/10/caderneta.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" width="600" height="553" border="0" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/10/caderneta.jpg" class="wp-image-5299" /></a></div>
<p></p>
<h3>
Meu pai, Luiz Edmundo Appel</h3>
<div style="text-align: right;">
Luiz Carlos Seara Appel</div>
<p>
Meu pai, Luiz Edmundo Appel (1924-2006), ainda era um jovem e recém formado engenheiro de minas, metalurgia e geologia, quando em 1950 andou pelo Espírito Santo. Naqueles idos, num vai-e-vem entre Linhares, Colatina, São Mateus, Nova Venécia, Vitória e outros lugares menores, realizou um trabalho de levantamento topográfico, de mapeamento e demarcação, com cálculo de distâncias percorridas, em algumas estradas de rodagem. Para essa tarefa virava-se com um teodolito, um cronômetro e o velocímetro do “jeep”. Não me perguntem o objetivo desse levantamento. Ele nunca me contou e desconfio de que tampouco soubesse.</p>
<p>Gaúcho, “apenas nascido em Santa Maria”, como gostava de informar, cumpria aqui, logo depois de formado, sua primeira missão em seu primeiro e único emprego público. Falava que tomou verdadeira ojeriza das repartições técnicas do governo e da Petrobras (na época, Conselho Nacional do Petróleo) onde, dizia, “só advogados e políticos dirigem assuntos de engenharia”. Em 1953 ele já trabalhava para a iniciativa privada, de onde nunca mais saiu.</p>
<p>Enquanto escreve o seu diário, distante de suas duas amadas – a “noivinha” e a sua querida cidade de Porto Alegre, onde moravam meus avós –, deixa claro que suportar as saudades era uma tarefa colossal, muito mais penosa do que passar fome e sede nas estradas esburacadas, rios sem pontes ou com pontes quebradas e nas canoas furadas em que, vira e mexe, se via metido.</p>
<p>Naqueles tempos qualquer um que saísse de casa para ganhar a vida como engenheiro era um Indiana Jones. Diferente de hoje, havia muitos. Meu jovem futuro pai certamente foi um deles. Muito entediado, apaixonado e melancólico, mas um deles.</p>
<p>Enquanto realizava seus trabalhos de campo sempre escrevia uma espécie de diário. Essas poucas anotações sobre sua passagem por terras capixabas foram retiradas de uma das suas cadernetas. Daqui seguiu para o sul da Bahia, Minas Gerais e interior de São Paulo, sempre no levantamento das estradas, sempre escrevendo sobre o tédio e suas saudades.</p>
<p>Antes de voltar a Porto Alegre ainda passou pelo Rio de Janeiro, onde encontrou-se com meus avós e uma de suas irmãs, para uns poucos dias de férias. Só então, finalmente, pode voltar para a sua amantíssima “noivinha” (nove anos de noivado) com quem afinal não se casou. Pois, passado um ano e durante uma crise de origem religiosa (a família da noiva era católica apostólica romana e ele e nossa família gaúcha eram anglicanos episcopais), num baile no Colégio Sacre Coeur de Porto Alegre, conheceu e foi fulminado por minha mãe – sabemos bem como essas coisas acontecem – para casarem-se três meses depois.</p>
<p>Quem o conheceu (e não foi um de seus companheiros de aventuras) jamais imaginaria que aquele sujeito pacato, educadíssimo – um verdadeiro lorde –, apegado à família e ao conforto sossegado, é o mesmo que ainda se pode ver em dezenas de fotos, tiradas durante suas andanças, onde sempre está lá, em suas roupas cáqui suadas, botas de cano alto e chapéu na cabeça (estilo Indiana Jones, claro) montado num jegue, pendurado num vagão de trem em algum lugar na Amazônia ou no lombo de um autêntico “jeep”.</p>
<p>Entremeadas com períodos de empregos mais calmos no Rio de Janeiro, em Porto Alegre (não tanto quanto ele adoraria) e uma breve volta a Vitória, nos idos de 1970, suas andanças se repetiram até sua aposentadoria, que aconteceu logo depois de sua última aventura: a complicada gerência de uma operação de prospecção de água, para uma empreiteira brasileira a serviço da Petrobras, no meio do deserto, nos cafundós da Líbia do finado Kadafi.</p>
<p>
<b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-vies-socio-historiografico-de-um/" target="_blank" rel="noopener">SANTOS NEVES &#8211; O viés sócio-historiográfico de um diário escrito no Espírito Santo em meados do século XX.</a></b><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/1950-diario-de-um-engenheiro-no/" target="_blank" rel="noopener"><br /></a><br />
<b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/1950-diario-de-um-engenheiro-no/" target="_blank" rel="noopener">APPEL, Luiz Edmundo &#8211; 1950: Diário de um engenheiro no Espírito Santo.</a></b><br />
<b><br /></b><br />
<b><br /></b><br />
</p>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://4.bp.blogspot.com/-9XFblyGQ-JA/V_QerKsJORI/AAAAAAAAKVM/iqFpFWH9JKM2w7Xh3gH9PAQHSRPrDkcVgCPcB/s1600/1-Luiz%2BEdmundo%2BAppel%252C%2Bpr%25C3%25B3ximo%2Ba%2BLinhares%252C%2BES%252C%2Babril%2Bde%2B1950..jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="1-Luiz Edmundo Appel, próximo a Linhares, ES, abril de 1950." border="0" height="262" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/10/1-Luiz2BEdmundo2BAppel252C2Bpr25C325B3ximo2Ba2BLinhares252C2BES252C2Babril2Bde2B1950..jpg" class="wp-image-5300" title="1-Luiz Edmundo Appel, próximo a Linhares, ES, abril de 1950." width="400" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">1-Luiz Edmundo Appel, próximo a Linhares, ES, abril de 1950.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p><b><br /></b><br />
<b><br /></b><br />
<b><br /></b><br />
<b><br /></b></p>
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		<title>O Espírito Santo em princípios do século XIX &#8211; Apontamentos feitos pelo bispo do Rio de Janeiro quando de sua visita à capitania do Espírito Santo nos anos de 1812 e 1819</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/o-espirito-santo-em-principios-do/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 21 May 2016 17:21:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[D. José Caetano da Silva Coutinho]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[História / Sociologia]]></category>
		<category><![CDATA[Viajantes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>PREFÁCIO Terra de poucos habitantes, a maioria iletrada, foi graça de Deus que muitos prelados, em suas visitas pastorais, dessem em seus diários e apontamentos testemunho de andanças pela então Capitania do Espírito Santo. Assim foi com nosso primeiro Bispo, D. João Baptista Nery, em cujos Diários, Mestre Guilherme Santos Neves encontrou a solução para [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://2.bp.blogspot.com/-Bl56G3xKodM/V0Byp1HtXJI/AAAAAAAAH8s/0cOx9aLeIpEnh6mbhiWJr2Yir_6lWWGRgCLcB/s1600/Bispo-d.jos%25C3%25A9-capa.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="640" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/05/Bispo-d.jos25C325A9-capa.jpg" class="wp-image-5340" width="430" /></a></div>
<h3>
PREFÁCIO</h3>
<div>
</div>
<p>Terra de poucos habitantes, a maioria iletrada, foi graça de Deus que muitos prelados, em suas visitas pastorais, dessem em seus diários e apontamentos testemunho de andanças pela então Capitania do Espírito Santo.</p>
<p>Assim foi com nosso primeiro Bispo, D. João Baptista Nery, em cujos Diários, Mestre Guilherme Santos Neves encontrou a solução para o problema suscitado no século XIX por Nina Rodrigues, sobre onde se cultuava a Cabula.</p>
<p>Isto também ocorreu com os preciosos Diários de D. Pedro Maria de Lacerda, que nos visitou em 1880 e 1886, sobre os quais dei breve notícia na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, ano de 1995, n. 45, p.93 a 98.</p>
<p>O mesmo posso dizer, agora, aos ler estes Apontamentos secretos que são publicados graças ao apoio da Lei Rubem Braga da Prefeitura Municipal de Vitória.</p>
<p>São eles firmados por D. José Caetano da Silva Coutinho, visitante ilustre ao final do Brasil Colônia e início do Reino Unido, superiormente analisados, no Estudo, por Luiz Guilherme Santos Neves, amigo de mais de meio século, e com o qual tive o prazer de editar tantas obras sobre nossa terra que quando me perguntam quantas digo sempre perdi a conta, mas são mais de quinze livros.</p>
<p>A mim, o que mais chama a atenção nos Apontamentos é que quando o diligente antístite por aqui andou éramos uma nesga de terra litorânea, quase apenas uma passagem do Rio de Janeiro para a Bahia. Impedido de fazer entradas para as minas gerais (“Onde há muito caminho, há muito descaminho” dizia sisudo Desembargador lisboeta, isto é se estradas fossem abertas seria fácil o contrabando do ouro, diamantes e pedras preciosas pelas praias do Espírito Santo) o desbravador dos sertões do século XVII, que saía de Porto Seguro ou Vitória, se tomou bandeirante, demandando o interior através do planalto de Piratininga.</p>
<p>Por isto o Senhor Bispo andou por ínvios caminhos, encontrou pouca gente e mínimos sinais de civilização. Por isto ele, aqui e ali, registra a presença de tantos padres velhos, rancorosos, amancebados há décadas, com filhos adolescentes, ignorantes, celebrando missas “frias e acanhadas&#8230;”</p>
<p>Como observador participante, antropólogo sem ser, antes que a ciência do homem fosse sistematizada, produziu documento para uso próprio, cuja divulgação permite-nos maior compreensão da ocupação do solo espírito-santense ao longo do século. Por exemplo, quando D. Pedro aqui esteve, concertou com seu colega Arcebispo de Mariana, Minas Gerais, a fixação dos limites no sudoeste da já então Província, sob o império do rei Café que dominava desde o primeiro cachoeira do rio Itapemirim até as grimpas de São Miguel do Veado, em prósperas fazendas. Ao tempo de D. José Caetano da Silva Coutinho era mata atlântica contínua, com uma pouca de índios puris atacando, de quando em quando, os luso-brasileiros confinados na beira do mar.</p>
<p>Estamos na presença de fonte primária da mais alta valia para o entendimento da formação histórica de nossa terra, e temos de entoar loas a Reinaldo Santos Neves pela redescoberta do texto e o trabalho beneditino de sua restauração e publicação com 272 notas realmente esclarecedoras</p>
<div style="text-align: right;">
</div>
<div style="text-align: right;">
Vitória, 12 de outubro de 2001.</div>
<div style="text-align: right;">
</div>
<div style="text-align: right;">
RENATO PACHECO</div>
<div style="text-align: right;">
Presidente de honra do Instituto Histórico&nbsp;</div>
<div style="text-align: right;">
e Geográfico do Espírito Santo</div>
<p></p>
<h3>
INTRODUÇÃO</h3>
<div>
</div>
<div>
<div>
Os apontamentos do bispo D. José Caetano sobre suas duas visitas ao Estado do Espírito Santo encontram-se em dois livros. O primeiro, que recebeu o número 12, intitula-se <i>Apontamentos Secretos Sobre a Visita de 1811 e 1812</i> e nele encontram-se, no que se refere ao Espírito Santo, apenas o registro de sua passagem por Itapemirim, Benevente (Anchieta) e Guarapari. O restante se acha no segundo livro, de número 18, e intitulado Visita de 1819-1820, juntamente com os apontamentos da segunda viagem, seguindo a mesma ordem desta.</div>
<div>
</div>
<div>
Esses livros encontram-se no Arquivo da Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro. A transcrição foi feita inicialmente a partir de uma antiga cópia xerográfica — provavelmente dos anos 70 — encontrada em meio aos papéis do falecido professor e folclorista Guilherme Santos Neves. Para a finalização deste trabalho, com elucidação de dúvidas e preenchimento de lacunas, foi necessária a consulta aos documentos originais, realizando-se para isso uma viagem até o Rio de Janeiro.</div>
<div>
O estado de conservação desses documentos dificultou a compreensão de certas palavras ou trechos, resultando daí algumas lacunas. Em algumas delas tentamos apontar uma possível leitura, deixando clara nossa dúvida ao incluir explicação entre colchetes.</div>
<div>
</div>
<div>
Infelizmente constatamos o desaparecimento, no documento original, das quatro páginas referentes a São Mateus (1819). Assim, a leitura dessa parte do texto foi feita exclusivamente com base na cópia xerográfica, verificando-se aí, por isso, uma incidência bem maior de lacunas.</div>
<div>
</div>
<div>
A caligrafia do bispo é, em geral, bastante uniforme, com caracteres de tamanho reduzido, e sua leitura é por vezes bastante difícil. O texto inclui muitas citações latinas. Há trechos acrescentados em entrelinha, que por vezes não foi possível decifrar em sua totalidade.</div>
<div>
</div>
<div>
No que se refere à ordenação do texto, respeitou-se a estrutura original dos documentos, apesar de ferir a seqüência cronológica da primeira viagem. Na transcrição, optou-se pela atualização da ortografia, inclusive dos nomes próprios, inserindo-se notas explicativas quando julgado necessário. Algumas vezes o bispo grafou o nome de uma mesma localidade de formas diferentes. Nesses casos todas as formas utilizadas por ele ao longo do texto encontram-se assinaladas em notas. A pontuação foi corrigida para facilitar a compreensão da frase. Com relação às iniciais maiúsculas, empregadas com freqüência pelo bispo, foram substituídas, conforme o caso, por minúsculas, enquanto as abreviaturas foram desdobradas por extenso: Pe. = Padre, Revdo. = Reverendo, N. S. = Nossa Senhora etc.</div>
<div>
</div>
<div>
As notas de rodapé tanto abrangem questões de natureza histórica como explicam termos pouco conhecidos hoje e que não se encontram nos dicionários convencionais.&nbsp;</div>
<div>
De maneira geral, na transcrição foram adotadas poucas convenções preferindo-se um texto limpo e de fácil compreensão para o leitor comum, mantendo-se fidelidade aos documentos originais.</div>
</div>
<div>
</div>
<div style="text-align: right;">
MARIA CLARA MEDEIROS SANTOS NEVES</div>
<div style="text-align: right;">
Organizadora e coordenadora do site Estação Capixaba</div>
<h3>
<br />FICHA TÉCNICA</h3>
<p>Transcrição a partir do original manuscrito,<br />
produção de mapas e coordenação editorial:<br />
Maria Clara Medeiros Santos Neves</p>
<p>Estudo introdutório:<br />
Luiz Guilherme Santos Neves</p>
<p>Revisão:<br />
Reinaldo Santos Neves</p>
<p></p>
<div style="text-align: center;">
<b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-espirito-santo-em-principios-do/" target="_blank" rel="noopener">Ilustrações</a></b></div>
<div>
</div>
<div style="text-align: center;">
Para visualizar o texto completo <b><a href="https://drive.google.com/open?id=1bVjW7dboR4ZBmlVi80VaT4edhGeh83gP" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a></b></div>
<div>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<p><span style="font-size: normal;"><b><span style="color: #660000;">© 2002</span></b></span><b><span style="color: #660000;">&nbsp;Estação Capixaba</span></b>&nbsp;&#8211; Todos os direitos de reprodução a partir das imagens digitalizadas e tratadas pela equipe do site, assim como estudos e demais textos produzidos especialmente para esta publicação online estão reservados exclusivamente para o site ESTAÇÃO CAPIXABA (www.estacaocapixaba.com.br) e para os respectivos autores. A reprodução de qualquer item sem prévia consulta e autorização configura violação à lei de direitos autorais, desrespeito à propriedade dos acervos e aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<span style="font-size: x-small;"><br /></span></div>
<div>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>D. José Caetano da Silva Coutinho</b>, 8º bispo do Rio de Janeiro — Filho de Caetano José Coutinho e natural de Portugal, mas brasileiro por ter aderido à constituição do império, nasceu na vila de Caldas da Rainha a 13 de fevereiro de 1768 e faleceu no Rio de Janeiro a 27 de janeiro de 1833. &nbsp;(Para obter mais informações sobre o autor&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/d-jose-caetano-da-silva-coutinho/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
</div>
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		<item>
		<title>Diários das visitas pastorais de 1880 e 1886 à Província do Espírito Santo</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/diario-das-visitas-pastorais-de-1880-e/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 17 May 2016 18:11:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[D. Pedro Maria de Lacerda]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Viajantes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Introdução Os Diários das visitas pastorais de 1880 e 1886 ao Espírito Santo, de autoria do bispo D. Pedro Maria de Lacerda, aqui transcritos e ora publicados, originam-se de fontes manuscritas que fazem parte do acervo do Centro de Documentação e Informação da Arquidiocese de Vitória – CEDAVES –, compreendendo três cadernos ou volumes: o [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://3.bp.blogspot.com/-x27rGk_O3GE/VztUWyGqs2I/AAAAAAAAH64/Fv5JrF9Nf6YL4dW2NCVtBazNxdlYnakmQCLcB/s1600/Capa-2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="640" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/05/Capa-2.jpg" class="wp-image-5342" width="448" /></a></div>
<p></p>
<h3>
Introdução</h3>
<p>
Os Diários das visitas pastorais de 1880 e 1886 ao Espírito Santo, de autoria do bispo D. Pedro Maria de Lacerda, aqui transcritos e ora publicados, originam-se de fontes manuscritas que fazem parte do acervo do Centro de Documentação e Informação da Arquidiocese de Vitória – CEDAVES –, compreendendo três cadernos ou volumes: o primeiro, que abrange o período de 14 de julho a 11 de novembro de 1880, possui 278 páginas; o segundo, de 14 de fevereiro a 24 de julho de 1886, possui 398 páginas, incluindo versos da capa e contracapa do caderno; e o terceiro e último volume, de 24 de julho de 1886 a 28 de março do ano seguinte, possui 354 páginas, incluídas algumas páginas em branco.</p>
<p>As anotações do primeiro volume dos Diários foram feitas a posteriori, considerando-se as oito páginas de rascunhos encontradas: o bispo encerra o volume em 11 de novembro de 1880, e os rascunhos vão até 24 de março do ano seguinte.</p>
<p>A publicação desse documento representa a continuação de trabalho semelhante feito anteriormente e que deu origem ao livro intitulado O Espírito Santo em princípios do século XIX, baseado nos Apontamentos de outro bispo – D. José Caetano da Silva Coutinho –, que visitou o Espírito Santo em 1812 e 1819, também neste site [<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-espirito-santo-em-principios-do/" target="_blank" rel="noopener">O Espírito Santo em princípios do século XIX: apontamentos feitos pelo bispo do Rio de Janeiro quando de sua visita à capitania do Espírito Santo nos anos de 1812 e 1819</a>,&nbsp;Vitória: Estação Capixaba e Cultural-ES, 2002].</p>
<p>Ambas as narrativas compõem um conjunto de documentos que, além do marcante caráter religioso, contêm rico registro de vida e costumes de época sob pontos de vista de viajantes, mencionando personalidades e retratando o dia a dia das localidades visitadas. Constituem assim importante contribuição para a historiografia na qualidade de fontes primárias de pesquisa.</p>
<p>Em comparação com os apontamentos de D. José Caetano, os escritos do bispo Lacerda destacam-se por maior riqueza de informações e detalhes na descrição de suas impressões sobre locais, habitantes e paisagens com os quais teve contato. Como viajante ele dá notícias sobre os caminhos percorridos, os meios de transporte utilizados, os incômodos encontrados e o tempo despendido nos trajetos, especialmente na visita de 1886.</p>
<p>De maneira geral, os Diários do bispo D. Pedro Maria de Lacerda revelam um homem de curiosidade aguçada, o que o levou a realizar por conta própria várias pequenas incursões com o fito de deleite e para conferir cartografias da época. Além de sua natural curiosidade por tudo e todos que estavam a sua volta, encontramos nele um grande observador, e é a esses traços de sua personalidade que devemos tamanha riqueza de detalhes encontrada em seus relatos.</p>
<p>O bispo D. Pedro dirige um olhar atento aos habitantes locais. Menciona nomes e fala de suas preocupações com cada indivíduo, nunca deixando de assisti-los em suas necessidades, fossem eles livres, escravos ou índios. Aliás, não esconde sua admiração especial pelos índios, deixando claro o respeito que sente por sua cultura pelas exortações à preservação da língua e esforços que fez para aprendê-la, como se vê em várias passagens ao longo do texto.</p>
<p>As paisagens têm nele observador atento. Sempre que seu trabalho permitiu ele reservou momentos para suas caminhadas, galopes ou passeios de barco para explorar as redondezas e ter contato com a natureza, tomando nota de tudo quanto considerasse significativo. Assim descreveu exaustivamente paisagens locais com seus rios, córregos, montanhas e outros acidentes, abundância e beleza de matas, sempre comparando suas observações com mapas produzidos na época e apontando suas imperfeições.</p>
<p>Nosso trabalho de edição dos Diários tem como objetivo precípuo disponibilizar o documento ao público em geral. Acreditamos que a sua transcrição e publicação tanto na forma impressa como virtual democratizará o acesso ao documento, permitindo que pesquisadores como também o público leigo interessado em assuntos relacionados ao Espírito Santo conheçam seu conteúdo. Não foi nossa preocupação semear centenas de notas nos rodapés do livro, razão por que boa parte delas se restringe a complementar nomes próprios de pessoas citadas no texto ou a identificar corretamente as citações latinas do bispo, procedimentos adotados para facilitar consultas na internet. No mais, esperamos que os pesquisadores se sintam estimulados a realizar a necessária análise e produção de estudos a partir destes diários.</p>
<p>Restringimos a transcrição aos três volumes, deixando de fazê-lo em relação aos rascunhos, que aqui reproduzimos apenas na forma fac-similar (Anexo II), considerando que a linguagem telegráfica adotada pelo bispo não permite uma compreensão precisa das informações neles presentes. No entanto foram importante fonte para o estabelecimento do roteiro da primeira visita, fornecendo subsídios consistentes para esse capítulo como se poderá constatar adiante.</p>
<p>Além dos rascunhos, cuja passagem para o livro não foi completada pelo bispo, observa-se a ausência de parte de seus relatos no que diz respeito a Vitória e Vila Velha que, ao que tudo indica, foram registrados separadamente e sobre os quais ainda não se tem notícia. Concluímos que tais registros foram produzidos, considerando que o bispo não deixaria de fazê-lo tendo realizado a visita a esses lugares, o que deixa claro em algumas passagens como se vê a seguir: “Eu pretendia fazer hoje em Benevente Missa solene aniversária onde ele morreu, como em 1880 fiz na Vitória onde foi sua sepultura!” (p. 336) “Lembro-me bem que em 1880 do alto da Penha vi muito ao longe quase nos confins do horizonte as ilhas de Guarapari.” (p. 307)</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Quanto às características do documento, observamos o seguinte: em geral a caligrafia é bastante regular, com caracteres pequenos, abreviaturas, muitos pós-escritos em entrelinhas e frases em latim (vide Anexo I, p. 64 do original). Quanto ao estado de conservação, este é regular, observando-se perfurações por insetos (p. 195 a p. 201 dos originais) e alguns borrões. Essas características dificultaram medianamente a leitura, levando a poucas lacunas na transcrição.</p>
<p>No que se refere à edição do texto, excetuando-se a atualização da ortografia, procurou-se respeitar ao máximo a redação original. Isso significa que se manteve o padrão pessoal e variável do autor no uso de iniciais maiúsculas, números cardinais e ordinais (às vezes representados por algarismos, ora por extenso), e abreviaturas (de pronomes de tratamento; as demais foram geralmente desdobradas). A pontuação (sobretudo no caso de vírgulas) foi também respeitada, exceto quando se fez necessária uma intervenção em prol da clareza da frase; no entanto eliminaram-se os travessões aleatórios e os parágrafos, com o objetivo de se compactar cada verbete do diário. As tabelas estatísticas das diversas ações de cunho religioso executadas ao longo das visitas (missas, comunhões, bênçãos, casamentos etc.) foram sistematizadas para melhor entendimento dos leitores, incorporando também eventuais correções e retificações feitas pelo bispo. As paginações feitas nos originais, apesar de posteriores, são mantidas na publicação, aparecendo em negrito e entre colchetes, para facilitar a localização.</p>
<p>Os trechos truncados foram reproduzidos literalmente, evitando-se interpretações subjetivas. Os lapsos ocorridos durante a redação foram mantidos, intervindo-se, porém, quando o bispo duplicou palavras ou deixou de fechar parênteses. Mantiveram-se os erros de sintaxe em quase todas as ocorrências; e incorporaram-se à narrativa as notas de rodapé quando julgadas equivalentes aos acréscimos em entrelinha, não implicando, portanto, cortes na narrativa. Colchetes e uso de sic marcam (e esclarecem) a maior parte das intervenções.</p>
<p>Por fim, cabe lembrar que os originais digitalizados do manuscrito (assim como todo o conteúdo deste livro) estão disponíveis na íntegra no site da Arquidiocese de Vitória e no Estação Capixaba, onde os interessados poderão consultá-los.</p>
<div style="text-align: right;">
Maria Clara Medeiros Santos Neves</div>
<div style="text-align: right;">
Organizadora e coordenadora editorial</div>
<div style="text-align: right;">
Coordenadora de Projetos da Phoenix Cultura</div>
<h3>
Ficha Técnica</h3>
<p></p>
<div style="font-size: normal; font-weight: normal;">
Organização e coordenação editorial:</div>
<div style="font-size: normal; font-weight: normal;">
Maria Clara Medeiros Santos Neves</p>
<p>Estudo introdutório:<br />
Fernando Achiamé</div>
<div style="font-size: normal; font-weight: normal;">
</div>
<div style="font-size: normal; font-weight: normal;">
Transcrição:</div>
<div style="font-size: normal; font-weight: normal;">
Vanessa Brasiliense</div>
<div style="font-size: normal; font-weight: normal;">
</div>
<div style="font-size: normal; font-weight: normal;">
Edição final do texto:</div>
<div style="font-size: normal; font-weight: normal;">
Reinaldo Santos Neves</div>
<p></p>
<h3>
Sumário</h3>
<p>
Introdução<br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/roteiro-das-visitas/" target="_blank" rel="noopener">Roteiro das visitas</a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/" target="_blank" rel="noopener">Espero em tua palavra</a></p>
<p><b>Volume 1</b><br />
&nbsp; &nbsp; <a href="https://dl.dropboxusercontent.com/u/38539432/11-ESTA%C3%87%C3%83O%20CAPIXABA_em%20vigor/Blogger/Textos/Hist%C3%B3ria/Bispo-D.Pedro/Bispo-livro_volume_1.pdf" target="_blank" rel="noopener">Transcrição</a><br />
&nbsp; &nbsp; <a href="https://dl.dropboxusercontent.com/u/38539432/11-ESTA%C3%87%C3%83O%20CAPIXABA_em%20vigor/Blogger/Textos/Hist%C3%B3ria/Bispo-D.Pedro/Bispo-manuscrito-vol_1.pdf" target="_blank" rel="noopener">Manuscrito</a></p>
<p><b>Volume 2</b><br />
&nbsp; &nbsp; <a href="https://dl.dropboxusercontent.com/u/38539432/11-ESTA%C3%87%C3%83O%20CAPIXABA_em%20vigor/Blogger/Textos/Hist%C3%B3ria/Bispo-D.Pedro/Bispo-livro-volume_2.pdf" target="_blank" rel="noopener">Transcrição</a><br />
&nbsp; &nbsp; <a href="https://dl.dropboxusercontent.com/u/38539432/11-ESTA%C3%87%C3%83O%20CAPIXABA_em%20vigor/Blogger/Textos/Hist%C3%B3ria/Bispo-D.Pedro/Bispo-manuscrito-vol_2-1.pdf" target="_blank" rel="noopener">Manuscrito, Parte I</a><br />
&nbsp; &nbsp; <a href="https://dl.dropboxusercontent.com/u/38539432/11-ESTA%C3%87%C3%83O%20CAPIXABA_em%20vigor/Blogger/Textos/Hist%C3%B3ria/Bispo-D.Pedro/Bispo-manuscrito-vol_2-2.pdf" target="_blank" rel="noopener">Manuscrito, Parte II</a></p>
<p><b>Volume 3</b><br />
&nbsp; &nbsp; <a href="https://dl.dropboxusercontent.com/u/38539432/11-ESTA%C3%87%C3%83O%20CAPIXABA_em%20vigor/Blogger/Textos/Hist%C3%B3ria/Bispo-D.Pedro/Bispo-livro-volume_3.pdf" target="_blank" rel="noopener">Transcrição</a><br />
&nbsp; &nbsp; <a href="https://dl.dropboxusercontent.com/u/38539432/11-ESTA%C3%87%C3%83O%20CAPIXABA_em%20vigor/Blogger/Textos/Hist%C3%B3ria/Bispo-D.Pedro/Bispo-manuscrito-vol_3-1.pdf" target="_blank" rel="noopener">Manuscrito, Parte I</a><br />
&nbsp; &nbsp; <a href="https://dl.dropboxusercontent.com/u/38539432/11-ESTA%C3%87%C3%83O%20CAPIXABA_em%20vigor/Blogger/Textos/Hist%C3%B3ria/Bispo-D.Pedro/Bispo-manuscrito-vol_3-2.pdf" target="_blank" rel="noopener">Manuscrito, Parte II</a></p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/bibliografia_2/" target="_blank" rel="noopener">Bibliografia</a><br />
<a href="https://dl.dropboxusercontent.com/u/38539432/11-ESTA%C3%87%C3%83O%20CAPIXABA_em%20vigor/Blogger/Textos/Hist%C3%B3ria/Bispo-D.Pedro/Rascunhos1.pdf" target="_blank" rel="noopener">Rascunhos do Bispo</a></p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<p><span style="font-size: normal;">© 2016 Estação Capixaba &#8211; Todos os direitos de publicação impressa e online estão reservados exclusivamente para o site ESTAÇÃO CAPIXABA (www.estacaocapixaba.com.br). A reprodução da transcrição e textos que a acompanham sem prévia consulta e autorização configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.</span><br />
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<span style="font-size: x-small;"><br /></span><br />
</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>D. Pedro Maria de Lacerda</b> nasceu no Rio de Janeiro, paróquia da Candelária, a 31 de janeiro de 1830, filho legítimo de João Maria Pereira de Lacerda e Camila Leonor Pontes de Lacerda, portuguesa que vem para o Brasil com cinco anos de idade. Aos 11 anos, em 1841, foi enviado para o Colégio Nossa Senhora Mãe dos Homens na Serra do Caraça, seguindo daí para Congonhas do Campo, também em Minas Gerais, em 1842, e depois para Mariana, em 1844. Recebeu tonsura, ordens menores, subdiaconato, diaconato e presbiterato, todos em 1852. Em 1869 foi sagrado bispo e assumiu a diocese do Rio de Janeiro, onde permaneceu até 1890, quando renunciou por motivo de doença, vindo a falecer em outubro daquele mesmo ano. (Para obter mais informações sobre o autor <a href="https://estacaocapixaba.com.br/d-pedro-maria-de-lacerda-biobibliografia/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/diario-das-visitas-pastorais-de-1880-e/">Diários das visitas pastorais de 1880 e 1886 à Província do Espírito Santo</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>A exploração do rio Doce e seus afluentes da margem esquerda</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 07 Apr 2016 19:48:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[botocudos]]></category>
		<category><![CDATA[Geografia]]></category>
		<category><![CDATA[Rio Doce]]></category>
		<category><![CDATA[Viajantes]]></category>
		<category><![CDATA[William John Steains]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O Rio Doce em 1815 (Gravura do príncipe Maximilian Alexander Philipp Wied-Neuwdied, Fundação Biblioteca Nacional). Introdução O texto que se segue, de autoria de William John Steains, foi lido em sessão da Royal Geographical Society, de Londres, no dia 16 de Janeiro de 1888, e publicado no Boletim de fevereiro do mesmo ano, p. 61-79. [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/">A exploração do rio Doce e seus afluentes da margem esquerda</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://3.bp.blogspot.com/-Pvc0n1nhNAQ/VwWWyJpajJI/AAAAAAAAHys/c5by745G1qEPeEMtvJ_0CTF-uGAimnPHQ/s1600/O%2BRio%2BDoce%2Bem%2B1815%2B%2528Gravura%2Bdo%2Bpr%25C3%25ADncipe%2BMaximilian%2BAlexander%2BPhilipp%2BWied-Neuwdied%2BFunda%25C3%25A7%25C3%25A3o%2BBiblioteca%2BNacional%2529..jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="O Rio Doce em 1815 (Gravura do príncipe Maximilian Alexander Philipp Wied-Neuwdied, Fundação Biblioteca Nacional)." border="0" height="532" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/04/O2BRio2BDoce2Bem2B18152B2528Gravura2Bdo2Bpr25C325ADncipe2BMaximilian2BAlexander2BPhilipp2BWied-Neuwdied2BFunda25C325A725C325A3o2BBiblioteca2BNacional2529..jpg" class="wp-image-5350" title="O Rio Doce em 1815 (Gravura do príncipe Maximilian Alexander Philipp Wied-Neuwdied, Fundação Biblioteca Nacional)." width="640" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">O Rio Doce em 1815 (Gravura do príncipe Maximilian Alexander Philipp Wied-Neuwdied, Fundação Biblioteca Nacional).</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>
<b>Introdução</b></p>
<p>O texto que se segue, de autoria de William John Steains, foi lido em sessão da Royal Geographical Society, de Londres, no dia 16 de Janeiro de 1888, e publicado no <i>Boletim</i> de fevereiro do mesmo ano, p. 61-79. Graças ao interesse da Fundação Ceciliano Abel de Almeida, que adquiriu à Biblioteca Nacional cópia em microfilme do texto original e providenciou sua tradução, se publica pela primeira vez em vernáculo para conhecimento dos interessados. Em correspondência com o Royal Geographical Society, a FCAA obteve também algumas informações sobre o autor: William John Steains desde criança manifestou vivo interesse pela exploração geográfica e pelos estudos etnológicos. Veio para o Brasil aos 18 anos, a fim de trabalhar como desenhista na construção de uma ferrovia em Alagoas. Aos 22 anos concebeu e realizou a expedição ao rio Doce de que trata o presente relatório. Em 1891 estabeleceu-se na costa ocidental da África, como agente consular junto ao Protetorado da Costa do Níger. Sua saúde sofreu ali os rigores do clima, o que não o impediu de regressar àquela região em setembro de 1894, para ali morrer em novembro desse ano, com a idade de 31 anos.</p>
<p>A tradução aqui publicada é de Reinaldo Santos Neves<span id="AERD_RP1V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP1" title="Introdução feita para a publicação do texto na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, n.5, p.103-27, 1984."><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a></p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Tenho a honra, esta noite, de chamar sua atenção para uma pequena região do grande império do Brasil que, atualmente, é muito pouco conhecida não só dos europeus em geral como também da maioria dos próprios brasileiros. Tendo residido cerca de três anos e meio numa das províncias do norte do Brasil, resolvi, nos primeiros meses de 1885, realizar uma exploração do rio Doce e de seus afluentes da margem esquerda. Essa exploração, que se estendeu de junho de 1885 a janeiro de 1886, foi realizada inteiramente sob minha própria responsabilidade, e por nenhum outro motivo senão pelo &#8220;simples amor à tarefa&#8221;.</p>
<p>Sendo limitados os recursos de que dispunha, evidentemente eram poucos os homens sob o meu comando, assim como, com relação às nossas provisões, tudo que posso dizer é que eram elas, por vezes, também poucas, e que, em conseqüência, nossas refeições eram feitas vez por outra. Contudo, apesar desses e de outros obstáculos, minha pequena expedição prosseguiu teimosamente o seu caminho para, depois de oito meses de sacrifício, retornar ao seio da civilização com a consciência de ter concluído de forma inteiramente satisfatória a missão a que se propôs.</p>
<p>O rio Doce está situado entre os paralelos 19° e 21° de latitude sul, e é formado por vários pequenos cursos d&#8217;água que descem da vertente oriental de uma importante cadeia de montanhas conhecida pelo nome de serra da Mantiqueira<span id="AERD_RP2V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP2" title="O ponto culminante dessa serra é Itatiaia-açu que, de acordo com Wells, está 10.040 pés acima do nível do mar, sendo 'o ponto mais alto que se conhece do Brasil'."><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a> Esta cadela, que se estende em direção nordeste, faz parte do irregular maciço litorâneo do Brasil, formando, por assim dizer, um &#8220;muro de arrimo&#8221; para a série de ondulosos planaltos que compõem a maior parte da região centro-sul do Brasil<span id="AERD_RP3V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP3" title="Vide o interessante trabalho do Sr. Wells sobre a 'Geografia física do Brasil', lido perante esta Sociedade em 8 de fevereiro de 1886."><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a> A extensão total do rio Doce é de pouco mais de 450 milhas.</p>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://1.bp.blogspot.com/-ubpwyFem45A/VwWWxD8ksFI/AAAAAAAAHy8/neG3wVSvjQsJFMfPRuAC8LUGZ80ASmc2Q/s1600/9-mapa-do-rio-doce-e-jequitinhonha.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Mapa dos rios Doce e Jequitinhonha." border="0" height="450" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/04/9-mapa-do-rio-doce-e-jequitinhonha.jpg" class="wp-image-5351" title="Mapa dos rios Doce e Jequitinhonha." width="640" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Mapa dos rios Doce e Jequitinhonha.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>A região da bacia do rio Doce que se situa a leste da serra dos Aimorés é uma planície coberta por densas florestas, que de uma elevação de cerca de 900 pés desce gradualmente até a costa. Próximo à costa essa planície se transforma numa extensa baixada de aluvião, coberta em grande parte por lagoas pouco profundas que se comunicam entre si por meio de longos, estreitos e sinuosos cursos d&#8217;água chamados valões<span id="AERD_RP4V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP4" title="Em português no original, como todas as demais palavras em destaque no texto. (N. do T.)."><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a> A maior dessas lagoas é a Juparanã, que se comunica com o rio Doce, cerca de 30 milhas acima da foz, através de um canal estreito, tortuoso e profundo com sete milhas de extensão. A lagoa tem um comprimento de 18 milhas, e uma largura de aproximadamente duas e meia milhas em sua extremidade sul. É muito profunda e, à exceção de certos terrenos baixos de aluvião em suas extremidades norte e sul, está cercada de altos paredões cobertos de matas, compostos principalmente de barro avermelhado sobre uma camada de áspero cascalho vermelho. Ao norte da lagoa deságua um rio — o São José<span id="AERD_RP5V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP5" title="Nos mapas dessa região do Brasil até agora publicados, esse rio tem o nome de São Rafael, erro porém que não é muito de admirar, considerando o número de incorreções que se encontra em qualquer mapa que pretenda representar o vale do rio Doce. Um dos mapas que compulsei no Brasil mostrava três ou quatro grandes ilhas na lagoa Juparanã, quando nela só existe uma única ilha, a do Imperador, e por sinal muito pequena."><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a> que nasce na serra dos Aimorés e banha um território inexplorado, habitado por grupos nômades de ferozes botocudos. Na totalidade de seu curso, o São José atravessa densas florestas em que se encontra grande quantidade dessa árvore tão procurada que é o jacarandá (<i>Bignonia cocrulea Will</i>).</p>
<p>Com a exceção de dois deles, nenhum dos afluentes do rio Doce é navegável, em razão das numerosas quedas d&#8217;água e corredeiras que, em muitos trechos, obrigam o viajante a carregar por terra a sua canoa. Os rios Suçuí-Grande e Santo Antônio são os afluentes que se prestam melhor para a navegação, o segundo apresentando-se livre de obstáculos num trecho relativamente pequeno de 20 milhas de extensão. Já o rio Suçuí-Grande apresenta uma forte queda d&#8217;água pouco antes de sua confluência com o rio Doce, mas desse ponto em diante permite uma navegação ininterrupta por várias milhas.</p>
<p>Em seu curso principal, o rio é navegável até Porto do Souza, a 120 milhas de distância de sua foz. Logo acima de Porto do Souza se encontra uma série de fortes corredeiras conhecidas como Escadinhas. Sendo impraticável a sua travessia, nesse ponto as canoas precisam ser puxadas por terra, com o uso de bois, num trecho de três e meia milhas. Daí em diante, sucedem-se, em maiores ou menores intervalos, as quedas d&#8217;água e corredeiras.</p>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://3.bp.blogspot.com/-tzQ3I049S2A/VwWWybH-JnI/AAAAAAAAHzE/xT3lsnDRekggwAS0ldc-cQBmzfYdb_qGQ/s1600/Shipping%2Bon%2Bthe%2BRio%2BDoce%252C%2BDecember%2B1815.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Viagem no rio Doce, Dezembro de 1815." border="0" height="438" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/04/Shipping2Bon2Bthe2BRio2BDoce252C2BDecember2B1815.jpg" class="wp-image-5352" title="Viagem no rio Doce, Dezembro de 1815." width="640" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Viagem no rio Doce, Dezembro de 1815.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>O grande encanto dessa região do Brasil está nas imensas florestas virgens que cobrem, com grandiosidade sem par, quase a totalidade da área banhada pelo rio Doce e seus numerosos afluentes. Em ambas as margens do rio, e durante a maior parte do seu curso, essas belas florestas, abundantes em uma centena de espécies da melhor madeira, chegam até à beira d&#8217;água, formando uma muralha quase impenetrável da vegetação tropical mais esplendidamente natural que possa ser imaginada. No momento em que o viajante, mediante o uso por assim dizer sacrílego de machado e facão, logra forçar sua entrada nos recônditos sombrios desses vastos templos da natureza, a grandeza e a imobilidade como que de morte que dominam o cenário lhe transmitem a impressão de se encontrar em terreno sagrado. As vastas áreas de mata virgem que se estendem ao norte do rio Doce mantêm-se até hoje praticamente invioladas pelo homem civilizado<span id="AERD_RP6V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP6" title="Os primeiros colonizadores do Brasil foram atraídos ao interior do país pela esperança de encontrar ouro, e nessa busca sempre utilizavam os rios como vias de penetração. Daí por que em muitas partes do Brasil encontramos regiões inteiramente inexploradas embora exista civilização em torno delas."><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a> razão por que seus soturnos interiores oferecem refúgio seguro para as numerosas tribos de botocudos, que por ali vagueiam nas mesmas primitivas condições em que viviam seus ancestrais à época do descobrimento do Brasil, cerca de quatro séculos atrás. Vez por outra esses índios assaltam as povoações mais avançadas, ocasiões em que aproveitam para saldar, com juros terríveis, &#8220;velhas contas&#8221; que ficaram arraigadas no espírito por natureza vingativo desses selvagens. A antropofagia é ainda a ordem do dia entre algumas das tribos mais selvagens, mas é consolador saber que esse hediondo costume está desaparecendo rapidamente, devendo deixar de existir dentro de pouco tempo.</p>
<p>Para que se possa explorar o vale do rio Doce, esses índios, que totalizam, eu diria, cerca de 7.000 indivíduos, precisam antes ser civilizados, ou pelo menos trazidos a um estado parcial de civilização. Os botocudos têm resistido tenazmente a todas as tentativas de civilização feitas nos últimos 380 anos, mas acredito firmemente que uma expedição bem organizada possa realizar essa tarefa em espaço de tempo relativamente curto. Daí adviriam enormes benefícios; as margens do rio Doce poderiam ser não digo colonizadas, mas povoadas, e o Brasil teria aberta e em condições de prosperidade uma das mais ricas regiões de seu vasto império.</p>
<p>Existem hoje somente três pequenas povoações nas margens do rio Doce, nenhuma das quais se pode chamar de próspera. Linhares, situada na margem esquerda do rio, a 30 milhas da foz, é um lugarejo decadente, de que teremos ocasião de falar mais adiante. Guandu, povoado bem próximo à confluência do rio do mesmo nome, não é o que poderia ser, devido às dificuldades de comunicação com outros portos. Todos os produtos, de que o principal é o café, precisam ser levados por <span id="AERD_RP7V">terra</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP7" title="Quando se tiver inaugurado a navegação a vapor no curso inferior do rio Doce, essa fatigante viagem terrestre se tornará coisa do passado. Um vapor poderá vencer em dois dias, ou no máximo dois dias e meio, a distância que vai de um ponto pouca abaixo de Guandu até a foz do rio. Alguns anos atrás propôs-se construir uma ferrovia de Vitória até Natividade (três milhas além de Guandu), chegando de fato a empresa Waring Brothers, do Rio de Janeiro, a executar os trabalhos de sondagem, etc., mas até o presente momento as obras da ferrovia em si não tiveram início."><sup><b>[ 7 ]</b></sup></a> até Vitória (a capital da província), num percurso de dez dias. Em Guandu vivem quatro ou cinco colonos americanos, miseráveis remanescentes de um grupo que imigrou para o Brasil logo após a Guerra Civil. Estes colonos, assim que desembarcaram no Rio de Janeiro, foram despachados para o rio Doce, a fim de explorarem os recursos naturais do território e, ao mesmo tempo, fazerem suas próprias fortunas. Levados a acreditar que, dentre todas as regiões da terra, o vale do rio Doce era o lar ideal para os sulistas, entregaram-se com entusiasmo à oportunidade que se lhes oferecia. Logo perceberam, todavia, que tinham sido enganados por quem os persuadira a deixar sua terra natal. Os que puderam fazê-lo, partiram daquele pretenso &#8220;lar&#8221;, mas os que permaneceram, por não terem outra alternativa, foram gradualmente de mal a pior, de forma que hoje não há quase um só deles que não daria de bom grado tudo que possui (que aliás, é praticamente nada) em troca de uma oportunidade de dar as costas para sempre ao rio Doce e à sua triste experiência. A terceira e última povoação às margens do rio é Figueira. Os habitantes, em número de 700 aproximadamente, claro que conseguem subsistir de um dia para o outro, mas além disso não há muito a ser dito.</p>
<p>O sal constitui o principal artigo de comércio no rio Doce mas, devido à dificuldade de seu transporte, em canoas, do litoral até o interior, se torna, no final da jornada, um artigo de luxo extremamente caro. No Rio de Janeiro uma saca de sal pesando 60 libras custa, por alto, ls. 8d. Na foz do rio Doce, seu valor se eleva para 3s. 4d. Em Guandu a mesma saca de sal já é vendida por 5s., em Cuité por 13s. e em Figueira por algo em torno de 16s. 8d.</p>
<p>O vale do rio Doce pode ser descrito como uma grande lacuna no edifício de civilização que, nos últimos 370 anos, se vem lentamente erigindo ao longo das 4.900 milhas de litoral brasileiro. Há poucas dúvidas de que o Espírito Santo é hoje a mais pobre de todas as províncias do império ou pelo menos a mais pobre dentre as províncias litorâneas. E no entanto não vejo por que essa pobreza deva continuar numa província que tem condições de gerar os mesmos produtos que as outras. Não existe em todo o Brasil um território mais rico que aquele situado entre os rios Mucuri e Doce, e todavia aquilo é, metaforicamente falando, um deserto. Quase 25.000 milhas quadradas de terra rica e habitável jazem ali inaproveitadas devido ao pavor que aos moradores do Espírito Santo, como também aos de Minas Gerais, os índios inspiram. É mais do que provável que o povo das duas províncias nunca tomará providências para o melhoramento desse território; portanto, se alguma coisa há de ser feita no sentido do progresso dessa rica região do Brasil, terá de ser feita pelo governo imperial.</p>
<p>A propósito, alguns dos matutos fazem uma ideia bastante curiosa do significado do termo &#8220;governo&#8221;. Um deles informou-me que, se lhe acontecesse de ir um dia ao Rio de Janeiro, faria questão de &#8220;visitar o cavalheiro&#8221;. E com toda a sua simplicidade rústica ainda me perguntou se por acaso eu sabia qual o horário de expediente do cavalheiro (ou seja, do governo).</p>
<p>Não resta dúvida de que a futura riqueza dessa região do Brasil está na imensa reserva de valiosas madeiras que suas matas virgens contêm. Algumas das principais variedades ali encontradas são as seguintes:</p>
<div>
<table border="1" cellpadding="10" style="width: 100%;">
<tbody>
<tr>
<td align="center" rowspan="2" width="25%"><b>Nome popular</b></td>
<td align="center" colspan="2" width="45%"><b>Nome científico</b></td>
<td align="center" rowspan="2" width="30%"><b>Utilização</b></td>
</tr>
<tr>
<td align="center" width="25%"><b>Espécie</b></td>
<td align="center" width="20%"><b>Família</b></td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">jacarandá</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Bignonia caerulea, Willd.</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Bignonaceae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Marcenaria etc.</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Peroba</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Bignonia similiatrapea</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Bignonaceae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Construção, especialmente naval</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Maçaranduba</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Mimusops excelsa</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Sapotaceae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Construção de esteios</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Ipê</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Tecoma Ipê</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Bignonaceae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Construção e propriedades medicinais</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Sapucaia</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Lecythis ollaria, L.</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Myrtaceae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Construção</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Coração de negro</td>
<td valign="top" width="25%"></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Leguminosae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Construção</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Pau d&#8217;arco</td>
<td valign="top" width="25%">Bignonia chrysantha, Willd.</td>
<td valign="top" width="20%">Bignonaceae</td>
<td valign="top" width="30%">Construção, especialmente dormentes de via férrea; propriedades medicinais</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Vinhático</td>
<td valign="top" width="25%"></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Leguminosae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Mobiliário etc.</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Angico</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Acácia angico, Mart.</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Leguminosae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Construção e propriedades medicinais</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Argelin pedra</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Andira spectabilis, Sald.</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Leguminosae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Construção</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Braúna</td>
<td valign="top" width="25%"></td>
<td valign="top" width="20%"></td>
<td valign="top" width="30%">Construção</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Bicuíba</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Myristica officinalis</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Myristicaceae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Construção e propriedades medicinais</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Araribá</td>
<td valign="top" width="25%"></td>
<td valign="top" width="20%"></td>
<td valign="top" width="30%">Idem</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Sicupira</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Robinia coccinea, Aubl.</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Leguminosae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Construção. Sua casca contém propriedades medicinais</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Pequiá</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Marfim</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Leguminosae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Construção, mais especificamente das vigas das casas</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Guarabu</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Astronium coccineum</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Terebinthaceae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Idem</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Copaíba</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Copaifera officinalis, L.</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Leguminosae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Propriedades medicinais</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Andiroba</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Carapa guyanensis, Aubl.</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Meliaceae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Idem</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Almecegueiro</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Bursera gumifera, L.</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Terebinthaceae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Idem</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%"><b>Plantas:</b></td>
<td valign="top" width="25%"></td>
<td valign="top" width="20%"></td>
<td valign="top" width="30%"></td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Guaxima</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Helicteres meliflua?</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Sterculiaceae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Idem</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Ipecacuanha</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Cephoelis ipecacuanha, Rich.</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Rubiaceae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Idem</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Salsaparrilha</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Smilax salsaparrilha, Linn.</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Asparagineae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Idem</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Sassafrás</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Ocotea cymbarum, Hunt.</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Laurineae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Idem</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Jumbeba</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Cactus opuntia, L.</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Cactaceae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Idem</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
O valioso pau-brasil (<i>Caesalpinia brasiliensis Linn., Fam. Leguminosae</i>) é encontrado em diversas áreas do rio Doce, sobretudo no curso inferior do São José.</p>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://3.bp.blogspot.com/-Y780qp5oS6I/VwWicOkGn3I/AAAAAAAAHzM/JQVe-Z_Q6UwSztbDF-Z5ItjV3XeC20Qgg/s1600/Pau-brasil-painel.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Pau-brasil." border="0" height="234" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/04/Pau-brasil-painel.jpg" class="wp-image-5353" title="Pau-brasil." width="640" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Pau-brasil.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>No que se refere às riquezas minerais dessa região do Brasil, não posso informar senão pouca coisa. O ouro existe em vários locais, principalmente nas vizinhanças de Cuité. Em Onça encontramos numerosos espécimes do mineral conhecido como cristal brasileiro, e no curso superior dos rios Pancas e São José encontramos granadas. Sinais da existência de minério de ferro podem ser vistos em quase toda parte, e em muitos pontos do rio descobrimos uma espécie de talco. Segundo se conta, grandes quantidades de ouro teriam sido descobertas, anos atrás, perto das cabeceiras do rio São José.</p>
<p>O clima dessa região é de modo geral saudável. Se não fosse assim, acredito que meu pequeno grupo de exploradores, exposto a ele durante oito meses fatigantes, teria sofrido piores efeitos do que foi o caso. O calor é por vezes bastante forte, mas tornam-no mais tolerável os ventos alísios, carregados de umidade, que provocam uma equilibrada distribuição de chuva ao longo do ano, fazendo do vale do rio Doce um dos pontos mais férteis e luxuriantes do Brasil.</p>
<p>O primeiro explorador que tentou subir o curso do rio Doce parece ter sido Sebastião Fernando Tourinho. No <i>Dicionário da Província do Espírito Santo</i> constatamos que, no ano de 1572, Tourinho partiu de Porto Seguro com o objetivo de explorar o rio Doce, mas a insuficiência de meios levou-o de volta a Porto Seguro a fim de renovar suas provisões, retomando a seguir sua jornada. Até que ponto do rio Tourinho chegou, não sabemos; tampouco sabemos, com exatidão, o caminho por ele seguido. Consta, porém, que os índios o teriam ajudado em sua exploração, em mais de uma oportunidade.</p>
<p>O príncipe Maximiliano von Neuwied informa que, durante suas viagens pelo Brasil (1815-17), visitou o curso inferior do rio Doce, embora me pareça que sua exploração se tenha limitado às regiões próximas da vila de Linhares, distante 30 milhas da foz do rio.</p>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://2.bp.blogspot.com/-LNSwng37DU0/VwWWxDaEmrI/AAAAAAAAHy8/tWhRlkzY0206L2oie3yOqW4FQKpOm2ENw/s1600/Navega%25C3%25A7%25C3%25A3o%2Bpelo%2Brio%2BDoce-5%2B-%2BNavigacion%2Bsur%2Bun%2Bbras%2Bdu%2BRio%2BDoce.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Navegação pelo rio Doce (Navigacion sur un bras du Rio Doce)." border="0" height="556" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/04/Navega25C325A725C325A3o2Bpelo2Brio2BDoce-52B-2BNavigacion2Bsur2Bun2Bbras2Bdu2BRio2BDoce.jpg" class="wp-image-5354" title="Navegação pelo rio Doce (Navigacion sur un bras du Rio Doce)." width="640" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Navegação pelo rio Doce (Navigacion sur un bras du Rio Doce).</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>A época em que a grande Expedição Agassiz procedia às suas pesquisas no Brasil (1865), o professor Hartt, um dos seus líderes, subiu o rio Doce até Porto do Souza. Em trabalho valioso intitulado <i>Resultados científicos de uma viagem ao Brasil</i>, aquele eminente geólogo americano fez um relato de sua exploração, realizada em companhia de um certo Sr. Edward Copeland, um dos voluntários da Expedição Agassiz.</p>
<p>Algumas tentativas têm sido feitas no sentido de melhorar as condições comerciais dessa rica região brasileira, fracassando todas elas, infelizmente, até o momento. Devo mencionar ao menos uma dessas tentativas, organizada, em 1857, por um filantropo brasileiro, Dr. Nicolau Rodrigues da França Leite. Esse cavalheiro, tendo obtido autorização (e algo mais substancial) do governo imperial, esforçou-se para instalar um certo número de colonos — sobretudo italianos — nas margens do rio Doce, numa localidade conhecida como Fransilvânia e também numa outra chamada Limão. Mas o bem-intencionado trabalho do Dr. França Leite fracassou, e de tal forma que não resta hoje o mais leve sinal de que essa tentativa de colonização tenha sido jamais feita. Não há dúvida de que foi o assassinato, por um grupo de botocudos, do jovem Avelino (parente próximo do Dr. França Leite), a causa principal que levou à dissolução da colônia. Esse lamentável incidente ocorreu em 1860, em circunstâncias realmente trágicas. O Dr. França Leite, supervisor da colônia, foi chamado ao Rio de Janeiro a negócios, sendo substituído em sua ausência por Avelino. Era costume dos nackinhapmás — a tribo de botocudos que habitava as vizinhanças — visitar a colônia de vez em quando a fim de obter um ou dois artigos, como tabaco, além de provar alguma coisa da comida civilizada. As coisas correram assim tranquilamente durante algum tempo até que, gradualmente, os índios começaram a tomar antipatia por Avelino. Por quê, ou como, não sou capaz de dizer. Um dia os índios vieram à colônia e, na presença de Avelino, mataram o seu cão, deliberadamente, a tiros. Diante disso, dois ou três amigos de Avelino (entre eles o meu intérprete Moreira) aconselharam-no com veemência a deixar a colônia, mas o jovem não lhes deu ouvidos e permaneceu corajosamente em seu posto. Passaram-se algumas semanas e os mesmos índios apareceram novamente na colônia. Desta vez, não havendo outros cães para matar, assassinaram o próprio Avelino, golpeando-lhe a nuca com um machado no momento em que ele fazia calmamente sua refeição. Em seguida os índios puseram fogo às poucas choças, cobertas por folhas de palmeira, que compunham a colônia, e, dividindo o corpo do pobre Avelino em postas, assaram-no e, depois de descansar um pouco para facilitar a digestão, partiram novamente para seus redutos. Esse incidente se torna ainda mais trágico tendo em vista que Avelino deveria casar-se em breve com uma prendada jovem que, na época, vivia em Linhares.</p>
<p>Passo agora a dar um roteiro aproximado de minha viagem:</p>
<p>A 7 de junho de 1885 saí do Rio de Janeiro, num pequeno navio-costeiro brasileiro com destino a Santa Cruz, na província do Espírito Santo. Antes de deixar o Rio de Janeiro, adquiri todas as provisões, munições, etc., que calculei seriam necessárias para a viagem. Previa então que a exploração do rio Doce exigiria de mim cerca de seis meses. Os principais artigos adquiridos foram carne seca, bacalhau e farinha, compreendendo sessenta grandes pacotes.</p>
<p>Na noite de 8 de junho o pequeno vapor <i>Mayrink</i> chegou a Vitória, capital da província do Espírito Santo, e na manhã seguinte fui a terra a fim de cumprimentar o presidente da província, Dr. Laurindo Pitta de Castro, que pareceu interessar-se vivamente por minha exploração. A 10 de junho chegamos ao pequeno porto marítimo de Santa Cruz, onde saltei com minhas provisões. Um pequeno vapor costumava fazer ocasionalmente o trajeto entre Santa Cruz e Linhares, vila às margens do rio Doce, mas por ocasião de minha chegada esse vapor estava quebrado, o que não me deixou alternativa senão dirigir-me a Linhares por terra. Felizmente um certo Senhor Pinto estava se preparando para fazer essa viagem, de forma que pude acompanhá-lo. Deixando Santa Cruz no dia 11 de junho, chegamos ao rio Doce após dois dias de penosa marcha, a cavalo, por um terreno algo montanhoso. Linhares é uma vila insignificante, que consiste em pouco mais do que uma praça, com casas pequenas e, em sua maior parte, habitadas por roceiros que não pareciam ter outra ocupação regular senão a de ficar à toa.</p>
<p>O príncipe Maximiliano, em suas <i>Viagens</i> (1815), descreve Linhares como “um lugarejo pobre e insignificante, as casas baixas e modestas (…) feitas de barro, sem reboco, e pequenas. Foi construída em forma de quadrado; não existe igreja ainda, mas somente uma grande cruz de madeira. A missa é rezada no interior de uma pequena casa”. Lamento dizer que, assim como era em 1815, assim é Linhares hoje, com uma única exceção. Na época da visita do príncipe não havia nem tinha havido igreja, enquanto hoje se pode ver, por suas ruínas, que pelo menos duas igrejas foram iniciadas, em períodos diferentes, sem que nenhuma delas tenha sido concluída. Uma dessas igrejas redundou em malogro total, e a outra, ou melhor, o que dela resta, transformou-se numa ferraria.</p>
<p>O passado histórico de Linhares bem serve para justificar sua condição atual. Segundo lemos no <i>Dicionário da Província do Espírito Santo</i> (já citado antes), Linhares foi fundada no ano de 1792, povoando-se com criminosos que, tendo escapado ao braço da lei, encontraram nas regiões banhadas pela rio Doce uma espécie de refúgio.</p>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
</div>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://4.bp.blogspot.com/-6vTdDs7wZok/VwbU6gbLDbI/AAAAAAAAHzs/wcWDpHv70_gJlgepHRO8zWRZ8ewbX_ZPQ/s1600/Perspectiva%2Bda%2Bpovoa%25C3%25A7%25C3%25A3o%2Bde%2BLinhares%252C%2B1819.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Perspectiva da povoação de Linhares, 1819." border="0" height="462" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/04/Perspectiva2Bda2Bpovoa25C325A725C325A3o2Bde2BLinhares252C2B1819.jpg" class="wp-image-5355" title="Perspectiva da povoação de Linhares, 1819." width="640" /></a></div>
<p>
Apesar de todas as suas limitações, porém, creio que em alguma época futura Linhares há de tornar-se um próspero centro comercial. O terreno em que se levanta é sem dúvida o local mais adequado para uma cidade em todo o vale do rio Doce, situando-se bem acima do nível do rio e, portanto, fora do alcance das grandes cheias que aí ocorrem anualmente.</p>
<p>Por volta de 28 de junho eu já tinha adquirido minhas canoas e posto a expedição de certa forma em funcionamento. Tinha contratado seis homens (quatro brasileiros, um escocês e um intérprete português) para acompanhar-me. Assim, minha primeira viagem foi até à foz do rio. Chegamos aí ao meio-dia de 1º de julho, montando acampamento numa longa e arenosa faixa de terra na margem norte do rio, do lado oposto a Regência. Aí o rio Doce tem uma largura de cerca de milha e meia. Era meu desejo demorar-me aí algum tempo, a fim de fazer um exame detalhado do que, segundo se pode esperar, será um dia um importante porto brasileiro. Mas atualmente a barra do rio Doce não é incluída na mesma categoria de outros portos do Império, ainda que, em alguns casos, bem inferiores. Além do fato de que alguns pequenos veleiros, vindos do Rio de Janeiro, atracam aí vez por outra com o objetivo de embarcar madeira (principalmente jacarandá), não há atividade comercial nenhuma.</p>
<p>A 9 de julho regressamos a Linhares, partindo de novo a 16 a fim de explorar a lagoa Juparanã e o rio São José. Nessa viagem descobri um erro que tem sido cometido em todos os mapas dessa região até agora impressos, ou seja, o erro que mostra dois rios (o São Rafael e o rio Preto) desaguando na extremidade norte da lagoa Juparanã, quando na realidade existe apenas um rio que deságua nessa lagoa, e esse rio tem o nome de São José. Ademais, esse rio nunca tinha sido explorado antes<span id="AERD_RP8V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP8" title="O Professor Hartt, em seu trabalho Resultados científicos de uma viagem ao Brasil (Agassiz), informa: 'Ao norte da lagoa (Juparanã) deságua um pequeno rio. (…) Ele nasce na floresta, em plena região dos botocudos, e nunca foi explorado'."><sup><b>[ 8 ]</b></sup></a> até que eu e meus companheiros subíssemos o seu curso. Um mês inteiro foi gasto em subir e descer esse rio.</p>
<p>Nosso maior problema foi a destruição quase total de nossa canoa ao atravessarmos uma corredeira, e o menor foi termos de tomar café sem açúcar durante mais de uma quinzena. Deparamo-nos ao todo com mais de uma dúzia de cachoeiras, e corredeiras em grande número. A primeira cachoeira, subindo-se o rio, tinha cerca de 100 jardas de comprimento, com uma queda total de 24 pés, o que representou, no que nos dizia respeito, um dia e meio de ingentes esforços. Refiro-me ao tempo que levamos para subir a cachoeira. Em nossa viagem de regresso, porém, não levamos mais que meio minuto para descê-la. Além das corredeiras, outro tipo de obstáculo com que nos defrontávamos eram as moitas cerradas de uma árvore leguminosa conhecida pelo nome de ingá, que abunda no curso superior do rio. Em muitos trechos éramos forçados simplesmente a abrir caminho por entre essas moitas de ingá<span id="AERD_RP9V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP9" title="Existem cerca de 140 espécies de ingá. Aqui se trata da espécie conhecida pelo nome de Ingá bahiensis Benth. Essa árvore é notável devido à maneira como se espalha. Só é encontrada nos trechos em que os rios atravessam terreno pantanoso. Nos pontos em que os rios se estreitam (18 pés de largura, por exemplo) os ingás, cujas raízes principais crescem nas margens, lançam um sem número de ramos que se estendem sobre as águas e dentro delas, entrelaçando-se de maneira muito cerrada, o que cria obstáculos à navegação."><sup><b>[ 9 ]</b></sup></a></p>
<p>O ponto extremo do rio São José por nós atingido, foi uma catarata pitoresca a que chegamos na tarde de 26 de julho. Ficamos dois dias acampados junto a ela, iniciando o regresso na manhã de 29. Dei à catarata o nome de Leila. O aspecto que apresenta é de grande beleza, com cerca de 40 pés de altura e 80 de largura. Estávamos então no centro do território habitado por uma tribo de botocudos, os pojixa. A certa distância da catarata Leila, bem no meio da floresta, descobrimos uma choça desabitada, pertencente a esses índios. Mais tarde fui informado de que, enquanto estávamos subindo o São José, esses índios pojixa estavam rondando a vila de São Mateus, levando pânico, às vezes, aos fazendeiros instalados nos pontos mais distantes daquele lugar. Os índios roubaram gado e além disso, tendo desaparecido as duas filhas de um rico fazendeiro, supõe-se que teriam sido levadas pelos índios, bem para o interior da região, onde seria impossível resgatá-las.</p>
<p>Foi então que tive de enfrentar o pior problema que se me deparou durante toda a minha exploração, que reduzia a nada, em comparação, todo e qualquer perigo representado pelas cachoeiras, pelos índios, pelas feras, febres ou malária.</p>
<p>Pouco depois de meu regresso a Linhares descobri que, em razão de despesas imprevistas, esgotara-se todo o dinheiro que trouxera comigo do Rio de Janeiro. O que fazer? Não pude admitir a ideia de vender e certamente com prejuízo as provisões, munições, etc., destinadas à expedição, e abandonar assim o meu projeto; resolvi portanto expor aos meus homens o estado de coisas, e, reunindo-os, informei-os de que não havia como receberem seu pagamento até que a expedição retornasse ao Rio de Janeiro. Os homens já estavam preparados para tal notícia, pois sua contratação tinha sido feita nesses termos. Informei-os ainda de que não receberiam nem um centavo de adiantamento além do que já lhes fora pago; em suma, que o dinheiro de que dispunha se esgotara inteiramente. Os homens ficaram um tanto chateados, e um ou dois começaram a resmungar que, nesse caso, eles não iriam adiante. Apelei então para os seus bons sentimentos num discurso estudado, e minhas palavras produziram o efeito desejado. Eles ficaram sentados em silêncio alguns momentos, entreolharam-se como ovelhas desgarradas e depois disseram em coro: “Doutor! nós vamos com o senhor até o fim.” Não houve necessidade de mais palavras: com um cordial aperto de mão selou-se o contrato de fidelidade. Tendo assim conquistado a lealdade dos homens, decidi partir de Linhares o mais breve possível. Deste modo, a 31 de agosto iniciamos nossa longa e árdua jornada.</p>
<p>A 3 de setembro alcançamos a confluência do rio Pancas, um dos afluentes da margem esquerda do Doce, a 54 milhas acima de Linhares. Era minha intenção subir esse rio da mesma forma como subira o São José; assim, no dia seguinte, quatro dos homens, juntamente comigo, partiram na canoa menor, a <i>Lily</i>, deixando Adriano e William por conta do acampamento principal e do grosso das provisões. Pouco depois do meio-dia chegamos à primeira cachoeira do rio Pancas (cachoeira dos Bugres). Aí tivemos de descarregar a canoa a fim de transportá-la através das pedras. As cinco horas da tarde tivemos a satisfação de acampar acima da cachoeira.</p>
<p>No dia seguinte passamos por duas corredeiras, a pequena distância uma da outra, e para vencê-las tivemos novamente de retirar a carga da canoa. Às 2 da tarde chegamos a mais uma corredeira, com cerca de 200 jardas de comprimento, muito estreita e violenta. Descarregamos a canoa para transportá-la pelas pedras da margem oriental da corredeira, num percurso de 160 jardas. O resto da tarde velejamos com tranqüilidade, à exceção de um trecho do rio que estava mais ou menos bloqueado por ingás.</p>
<p>A 6 de setembro percebemos as primeiras pegadas de índios e, no dia seguinte, após superarmos outras quatro corredeiras, encontramos uma ponte usada pelo índios — um estreito tronco de árvore caído através do rio — com um longo cipó esticado de fora a fora e atado a uma árvore de cada lado de forma a servir como uma espécie de corrimão; os índios tinham utilizado essa ponte natural a fim de permitir a passagem de suas mulheres e filhos. Outras evidências da presença dos índios nas proximidades apareciam à medida que continuávamos subindo o rio. Passamos por outra ponte rústica, percebendo nítidas pegadas em quase todos os bancos de areia. Fizemos a medida de algumas dessas pegadas e constatamos que os índios (quaisquer que sejam seus outros defeitos) em todo caso possuem pés pequenos. Descobrimos também um aparato de pesca. Era coisa simples, consistindo de algumas estacas enterradas no leito de um trecho raso do rio, formando assim uma espécie de cerca ou armadilha.</p>
<p>Próximo ao entardecer nosso progresso foi impedido por um grande jequitibá que tinha tombado sobre o rio. Tivemos de esperar cerca de um quarto de hora até que os homens cortassem a machado o obstáculo. Foi nesse momento que tivemos a certeza de que os índios ou bugres estavam bem próximos de nós, pois, quando os homens pararam um pouco para descansar, pudemos ouvir distintamente um ruído como se alguém estivesse fugindo pela floresta. Mandei que Moreira gritasse ao fugitivo para se mostrar, que não havia perigo; mas o fugitivo, quem quer que fosse, não obedeceu. Removida a árvore, continuamos nossa viagem rio acima. O rio, aliás, começava a fazer-se muito estreito, e nosso avanço era com freqüência dificultado por troncos caídos e por densas moitas de ingá.</p>
<p>Às 5:30 da tarde, os homens já inteiramente exaustos, avistamos um pequeno banco de areia, onde passamos a noite, dormindo em terreno coberto por grande número de pegadas recentes dos bugres.</p>
<p>No dia seguinte tivemos nosso primeiro encontro com os índios. Tínhamos acabado de dobrar uma curva do rio quando percebi uma figura avermelhada espiando por entre as árvores, a uma distância de não mais que dez jardas da canoa. Isso foi o bastante. No profundo silêncio daquele local primevo, a voz do velho Moreira, em obediência a ordem minha, soou forte e claramente, gritando: “Juck-jum-nook Jacarung!… ning amancoot… ouroohoo-o-o-o!” — o que significa: “Somos amigos; venham comer alguma coisa conosco”. Durante muito tempo não houve resposta, embora pudéssemos distinguir os sussurros de uma conversa que se processava na floresta. Os bugres estavam, evidentemente, consultando-se uns aos outros sobre o que fazer. Mas foi preciso Moreira renovar o convite para que então nos respondessem que viriam até nós se prometêssemos que não lhes faríamos mal. “Fazer-lhes mal, Moreira? Eu diria que não. Diga-lhes que se aproximem como homens, que os trataremos como irmãos”. O velho Moreira interpelou-os mais uma vez, e subitamente vimo-nos face a face com oito homens esguios, fortes, inteiramente nus, levando nas mãos um arco e várias flechas; dois ou três deles usavam, em torno do pescoço, pedaços de imbira dos quais pendiam pequenas facas de fabricação grosseira.</p>
<p>A <span id="AERD_RP10V">tribo</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP10" title="Essa tribo de botocudos é conhecida pelo nome de nackinhapmá, que significa linda terra."><sup><b>[ 10 ]</b></sup></a> a que pertenciam esses selvagens contava cerca de setenta almas. Estivemos na companhia deles durante quase um mês, e nesse período tive a oportunidade de estudar seus modos e costumes, diariamente, desde o amanhecer até tarde da noite. Pela aparência física os <span id="AERD_RP11V">botocudos</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP11" title="Os colonizadores portugueses, no começo do presente século, deram a esses índios o nome de botocudos em razão de usarem eles o ornamento labial chamado botoque. os botocudos anteriormente eram conhecidos pelo nome de aimorés ou aimurás. Martius classificou seis tribos (ou clãs) de índios, que encontrou nesta região do Brasil, sob uma só denominação, chamando-os crens, devido ao fato de essa palavra, que significa cabeça, estar presente em todos os vocabulários das línguas faladas pelas seis tribos, a saber, botocudos, puris, coroados, malalis. araris e xumetos. Descobriu-se também uma semelhança craniológica entre os sambaquis, uma nação pré-histórica que habitava o Brasil, e os botocudos. Essa descoberta levou algumas pessoas a imaginar serem os botocudos, possivelmente, os últimos remanescentes de uma época remotíssima. Usei aqui o termo sambaquis como se fosse o nome dessa nação pré-histórica. Na realidade, porém, o termo serve para designar apenas os amontoados de conchas, ou túmulos, em que são encontrados com freqüência os crânios e instrumentos de pedra, etc., desses homens e mulheres (?) primevos. No Brasil esses restos humanos passam por pertencer ao homem dos sambaquis. As conchas mencionadas em relação a esses amontoados são conchas de ostras."><sup><b>[ 11 ]</b></sup></a> dificilmente poderão ser tidos como atraentes. Algumas das jovens, é verdade, são bonitas e bem formadas, mas essa beleza menineira não é duradoura, uma vez que, entre os botocudos, persiste o costume (provocado pela necessidade) de as moças casarem muito cedo. Foi-me dado ver um exemplo impressionante de um desses casamentos prematuros, em que o marido já tinha os seus vinte anos, enquanto sua companheira, que ficaria com ele por toda a vida, mal chegara à idade de nove anos. A altura média dos botocudos é cinco pés e quatro polegadas. Têm o peito muito largo, o que explica a facilidade com que envergam os arcos, que são muito rijos, sendo feitos da madeira dura e flexível da palmeira airi ou brejaúba (<i>Astrocaryum Ayri Mart.</i>). Os pés e mãos dos botocudos, embora pequenos, não são delicados, mantendo-se porém proporcionais às suas pernas e braços, que são finos mas musculosos. Quanto à cor da pele, encontram-se os mais variados matizes, sendo alguns indivíduos de um marrom-avermelhado escuro, enquanto outros, sobretudo as mulheres, são bastante claros. Com respeito às feições, impressionou-me o fato de esses botocudos mostrarem notável semelhança com os chineses, de modo que, se em vez de cortarem o cabelo em forma de cuia eles usassem um rabicho, quem os olhasse superficialmente mal poderia distinguir a diferença entre uns e outros.</p>
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<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
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<td style="text-align: center;"><a href="https://4.bp.blogspot.com/-_F3xjHFU1O0/VwWWxPRpBZI/AAAAAAAAHy8/NPok8cii6tsq0Kd_DLrFipyUzRggnzqSw/s1600/Fotos%2Bbotocudos-%2BVale%2Bdo%2BRio%2BDoce%2B-%2Bin%25C3%25ADcio%2Bdo%2BS%25C3%25A9culo%2BXX%2B%2Bdesenhos%2BDebret%2Be%2BRugendas-%2BSec.%2BXIX.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Fotos botocudos- Vale do Rio Doce - início do Século XX." border="0" height="400" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/04/Fotos2Bbotocudos-2BVale2Bdo2BRio2BDoce2B-2Bin25C325ADcio2Bdo2BS25C325A9culo2BXX2B2Bdesenhos2BDebret2Be2BRugendas-2BSec.2BXIX.jpg" class="wp-image-5356" title="Fotos botocudos- Vale do Rio Doce - início do Século XX." width="353" /></a></td>
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<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Fotos botocudos- Vale do Rio Doce &#8211; início do Século XX.</td>
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<p>Os botocudos são conhecidos principalmente pelo horrível costume de usar nos lábios e nas orelhas enormes ornamentos de madeira, costume que está desaparecendo rapidamente, e que atualmente só se encontra entre alguns dos índios mais velhos, que preservam inalterados todos os hábitos e costumes de seus antepassados.</p>
<p>Esses ornamentos labiais são feitos de uma madeira leve, a da barriguda (<i>Bombax ventricosa</i>, fam: <i>Bombaceae</i>). Há todo um processo a ser seguido, que se estende por toda a vida do indivíduo, para que o botocudo possa exibir um ornamento labial de, digamos, três polegadas de diâmetro. Aos três anos de idade tem início o processo, quando os pais fazem uma pequena perfuração no centro do lábio inferior da criança e em cada um dos lóbulos das orelhas, inserindo nos orifícios um pequeno tarugo de madeira com o diâmetro aproximado de um lápis. Daí a algumas semanas esse tarugo é substituído por outro maior, e assim por diante, até que o lábio (tendo-se esticado gradualmente) possa receber um botoque com a dimensão acima referida, ou seja, três polegadas de diâmetro. É comum ocorrer, com o passar do tempo, que o lábio, esticando-se em torno do botoque como se fosse uma tira de elástico, acaba por partir-se. isso, porém, não impede que se continue a usar o botoque. Nesse caso o índio limita-se a atar as duas pontas de seu lábio por meio de um pequeno pedaço de imbira, solucionando o problema de uma forma muito mais prática do que ornamental.</p>
<p>De modo geral os botocudos vivem até uma idade avançada. Aquele que se reúne aos antepassados aos setenta anos é lamentado por seus parentes por ter falecido na flor da juventude, o que, porém, não impede os parentes de abandonar o moribundo no meio da mata se acontecer de estarem em viagem. Argumentam dizendo que, se o doente se recuperar, sempre poderá levantar-se e alcançá-los outra vez. E esse é realmente o caso, ainda mais que, quando viajam, os bugres têm o costume de marear o caminho para quaisquer membros da tribo que se tenham atrasado na marcha, o que é feito quebrando-se ramos de árvores ao logo do trajeto.</p>
<p>Os botocudos se alimentam principalmente da noz de duas ou três espécies de palmeiras. Essas nozes (cuja casca é quebrada com o auxílio de pedras) são extremamente duras, e assim, para que os mais idosos e as crianças possam digerir adequadamente o alimento, as mulheres precisam mastigar as nozes até transformá-las numa polpa, que então retiram da boca e oferecem aos pais ou aos filhos, conforme o caso. Uns e outros aceitam com avidez esse alimento assim preparado e além disso, parecem apreciá-lo bastante. As principais palmeiras que fornecem alimento aos botocudos são a airi (<i>Astrocaryum Ayri Mart</i>.) e a indaiá (<i>Attalea compta Mart</i>.). As nozes desta última são, porém, mais apreciadas pelos índios do que as da airi, que têm um sabor um tanto amargo. As nozes da indaiá contêm ainda uma grande quantidade de óleo.</p>
<p>Esses índios passam os dias caçando, pescando e cuidando de seus arcos e flechas, enquanto as mulheres cuidam das crianças, juntam nozes e outros frutos para o consumo diário e executam o grosso do trabalho pesado para os seus senhores. Sempre que se precisa erguer uma nova choça, as mulheres é que se fazem de arquitetas e construtoras, e sempre que a tribo está em mudança, as mulheres se transformam simplesmente em veículos de transporte, já que os homens não se dignam a carregar nada a não ser seus arcos e flechas. Vestimentas de qualquer tipo são inteiramente desconhecidas por esse povo selvagem.</p>
<p>Os bugres não têm hora certa para as refeições, não sabendo, aliás, se de uma hora para outra encontrarão alguma coisa para comer. Dessa forma não estão sujeitos a nenhuma lei ou norma doméstica. Dormem à hora que lhes apraz; caçam, pescam, cantam e dançam sempre que lhes der vontade, e comem quando podem.</p>
<p>Entre os botocudos é permitida a poligamia, embora raramente se encontre quem se dê ao luxo de ter mais de uma esposa, sabendo-se muito bem que teria de obter comida (através da caça, etc.) não somente para uma outra esposa mas, com toda a probabilidade, para uma outra família; e isso representa uma grande preocupação, já que as florestas virgens não contêm de forma alguma uma reserva inexaurível de caça; muito pelo contrário, a caça é extremamente rara, e exige um trabalho de rastejamento muito cuidadoso da parte do caçador. Essa escassez de animais, contudo, se verifica apenas nos setores da mata mais frequentados pelos índios. Daí por que encontramos em certos locais (no trecho superior do rio Tambaquari, por exemplo) grande quantidade de caça, enquanto em outros locais ela se acha quase extinta<span id="AERD_RP12V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP12" title="A escassez de animais nos territórios índios será sem dúvida a causa principal para o futuro desaparecimento dos índios selvagens nessa região do Brasil. Tome-se como exemplo o caso da tribo nackinhapmá do rio Pancas. Esses índios dominam uma certa área que percorrem livremente sem serem incomodados por nenhuma outra tribo. Suponha-se porém que, devido à falta de caça, os nackinhapmás penetrassem no vizinho território dos incutcracks. Qual seria a consequência? Assim que os incutcracks tivessem conhecimento da invasão, pegariam em armas para se entregarem a um renhido conflito, de que resultaria o completo extermínio de uma ou outra das duas tribos."><sup><b>[ 12 ]</b></sup></a></p>
<p>Os botocudos não dispõem de nenhuma forma de governo, embora cada tribo tenha o seu chefe (capitão). O chefe, porém, não exerce nenhuma autoridade real sobre sua tribo. Geralmente é ele o melhor caçador e, sendo assim, cabe-lhe em grande parte a responsabilidade de obter caça, principalmente em períodos difíceis.</p>
<p>A religião desses índios é primitiva ao extremo. Acreditam na existência de um certo grande espírito que criou o mundo (o mundo deles), mas não lhe oferecem nem preces nem sacrifícios. Sobrevindo uma tempestade, interpretam-na como um sinal de que o grande espírito (cupã) está furioso, o que lhes provoca em consequência um grande temor. Alguns dos membros mais corajosos da tribo, porém, atiram tições para o ar, na crença de que esse gesto aplaca a fúria do grande espírito, amainando-se então a tempestade. Acreditam que, quando um homem morre, seu fantasma fica errando pela terra como se à procura de alguém a quem possa devorar, isto é, o fantasma do bugre causará danos a todos os que o maltrataram em vida ou, por outro lado, trará benefícios aos que lhe possam ter feito bem neste mundo. Esses índios fazem apenas uma vaga ideia do maligno, que acreditam residir no corpo de um certo pássaro noturno, que tem o hábito de guinchar durante as mais absurdas horas da noite, despertando o bugre de seu sono.</p>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
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<td style="text-align: center;"><a href="https://3.bp.blogspot.com/-xPNqjMExcrQ/VwWWytPUUHI/AAAAAAAAHy8/IJWw1YkpAlch65Yjq08spte6WytU9J9Ig/s1600/post-famc3adlia-de-botocudos.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Família de botocudos em viagem." border="0" height="318" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/04/post-famc3adlia-de-botocudos.jpg" class="wp-image-5357" title="Família de botocudos em viagem." width="640" /></a></td>
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<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Família de botocudos em viagem.</td>
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<p>A 27 de setembro continuamos nossa viagem rio acima, chegando no dia seguinte a uma localidade chamada Mutum. Aqui, na margem direita do rio, existe uma pequena aldeia de índios semi-civilizados, compreendendo vinte e quatro almas, sendo seis homens (com calças), oito mulheres (com anáguas), e dez crianças (com coisa alguma). Essa aldeia está sob a supervisão do governo imperial. Na margem esquerda — bem em frente à aldeia — estão as ruínas de uma missão fundada, cerca de quinze anos atrás, por um digno monge capuchinho, frei Bento. O objetivo da missão era civilizar os índios das vizinhanças de Mutum, mas em razão de um desentendimento surgido entre os índios civilizados da missão e a tribo selvagem conhecida pelo nome de incutcrack, todo o projeto fracassou; o intérprete de frei Bento, Daniel, foi morto, e os demais membros do pequeno núcleo, se não tivessem fugido para o outro lado do rio, teriam sem dúvida partilhado o mesmo destino. A partir desse episódio trágico a missão foi relegada ao mais completo abandono, dela restando hoje apenas as ruínas desoladas de algumas moradias e uma grande cruz de madeira a assinalar o local em que a filantropia tentou fixar residência, mas sem ter êxito.</p>
<p>A 6 de outubro chegamos a Guandu. Estávamos então ao pé das imensas quedas d’água chamadas Cachoeira das Escadinhas. Fui obrigado a abandonar a pequena canoa em Guandu, já que teria sido absurdo tentar transportá-la mais além devido ao ímpeto das águas que nos seria dado enfrentar pelo restante da viagem.</p>
<p>Com certa dificuldade providenciamos com um natural de Guandu a utilização de seis bois e, com a ajuda deles, conseguimos arrastar nossa canoa grande por terra — uma distância de três milhas — até um lugar chamado Natividade. Aí pudemos retomar o rio, só que antes disso foi preciso trazer de Guandu também o nosso acampamento. Essa tarefa não contou com a ajuda dos bois, pois já não tínhamos condições de pagar novo aluguel. Da primeira vez tivemos de lançar mão de nossas provisões a fim de recompensar o dono dos bois pelo serviço de forma que não nos era possível ceder nada mais em forma de alimento. Quanto a pagamento em dinheiro, estava fora de questão. Começamos a 12 de outubro a mudança do acampamento, e somente após uma semana de tediosas marchas pela floresta densa é que tivemos a satisfação de acampar acima das quedas que tanto problema nos tinham causado.</p>
<p>Na cachoeira chamada do Inferno, e na do M, fomos obrigados a puxar a canoa por meio de cordas feitas de cipós. Amarra-se uma corda à proa da canoa e dois homens, segurando-a com firmeza, pulam de uma pedra para outra e vão assim rebocando a canoa. Um terceiro homem permanece à proa da canoa, evitando por meio de uma longa vara que a canoa se choque contra as pedras; ao mesmo tempo o piloto, com seu pesado remo de largas pás, dirige a canoa através das estreitas passagens entre as pedras, gritando ordens para os homens de uma tal maneira que leva a pensar que a canoa e toda a sua carga estão à beira de uma perda inevitável. O ruído da correnteza vem completar o quadro de confusão que sempre prevalece durante a subida de uma corredeira.</p>
<p>A 29 de outubro atingimos a confluência do Suçuí-Grande, um dos principais afluentes do rio Doce. Nele penetrando, verificamos ser um afluente largo e profundo. Nosso percurso foi fácil por cerca de duas milhas ou mais, até que tivemos de parar. Como de regra, o obstáculo era uma cachoeira. Logo abaixo dela, num banco de areia, armamos o acampamento. Nossas provisões tinham-se finalmente esgotado, e lá estávamos nós, ao pé dessa primeira cachoeira do Suçuí-Grande, dependendo de nossas armas para futura subsistência. A última colher de açúcar se tinha dissolvido, a última caneca de café tinha sido servida, o último grão de farinha já se fora, e o único pedaço que restava de carne seca, com suas três polegadas de tamanho e meia polegada de espessura, dera bolor naquela manhã mesma. Os homens se comportaram admiravelmente nessas circunstâncias, deixando escapar pouquíssimas queixas, embora bem sei que os coitados se sentiam por vezes tentados ao motim. Apesar de tudo subimos o Suçuí-Grande e, a 5 de novembro, penetramos no Tambaquari, afluente daquele.</p>
<p>Decidi subir o Tambaquari da mesma forma como subira os rios São José e Pancas. Os homens, contudo, embora eu os tivesse por mais de uma vez inteirado da minha intenção de explorar esse rio, fingiram não saber nada a respeito, perguntando, após termos remado uma curta distância, se já não era a hora de voltar. “Não, adiante, até que eu diga que é hora de voltar” respondia eu a essa insinuação da parte deles. Os homens prosseguiram comigo; e não foi senão a partir de 24 de novembro que começamos a regressar.</p>
<p>A 12 de novembro, tendo chegado a uma cachoeira que a canoa grande não tinha condições de ultrapassar, começamos a construir uma canoa menor, tarefa que nos ocupou durante três dias, ainda mais porque só dispúnhamos de machados para trabalhar. Terminada a canoa, que foi feita de uma madeira um tanto macia, descobrimos que nela só cabiam cinco pessoas, e mesmo assim o nível da água ficava a apenas três polegadas da amurada. Assim, foi necessário deixarmos dois homens no acampamento de Cachete, enquanto os outros cinco partiram nesse arriscado meio de transporte, continuando nossa exploração do rio Tambaquari. A 24 de novembro regressamos dessa exploração, que nos levou até um ponto à distância de 32 milhas de sua confluência.</p>
<p>Às vezes dispúnhamos de comida até de sobra, enquanto outras vezes a nossa dispensa (a proa da canoa) se mantinha completamente vazia.</p>
<p>Como substituto para o pão, recorríamos a um vegetal chamado palmito, que é constituído pela polpa de uma espécie de palmeira (<i>Euterpe oleracea Mart</i>.) que cresce em abundância nas densas florestas do rio Tambaquari. A fim de obter o palmito éramos obrigados a cortar a árvore inteira, daí por que, durante nossa exploração do Tambaquari, fizemos enorme devastação entre essas belas e esguias palmeiras. Abatíamos cerca de quinze árvores em média por dia, e posso calcular em torno de 450 o número de palmeiras que derrubamos durante aquela incursão, a fim de prover de alimento nosso pequeno e faminto grupo. É claro que não subsistimos unicamente à base do palmito, que, como indiquei, era um mero substituto do pão. Nossas armas nos prestavam um bom serviço abatendo uma variedade de caça.</p>
<p>Alguns dos animais, como macacos, pacas, cotias, capivaras, etc., constituíam uma deliciosa alimentação, enquanto outros eram inteiramente o inverso. O mesmo se aplica aos vários tipos de pássaros que caçávamos. No que se refere aos animais, os macacos eram os que mais apreciávamos, sobretudo os da espécie conhecida por “barbados” (<i>Myeetes ursinus</i>). Entre os pássaros, nossa carne preferida era a de patos selvagens, mutuns, jacus, jacutingas e jacupembas (<i>Penelope marail L.</i>). Em uma ocasião tentamos comer uma arara, mas não foi possível. Chegamos à metade do que pensávamos que ia ser um bom petisco, e então resolvemos dar a sobra ao cachorro. Capivara também não é uma comida gostosa, por ser dura a carne e de sabor muitíssimo forte.</p>
<p>Às vezes fazíamos boa pescaria, sendo surubim o maior peixe que pescamos, e piau, piaba e piabanha os mais saborosos.</p>
<p>A 10 de dezembro atingimos mais uma vez a confluência do Suçuí-Grande, chegando no dia seguinte ao povoado de Figueira. O percurso de oito milhas entre a confluência do Suçuí-Grande e Figueira apresentou extremas dificuldades. Vimo-nos forçados a navegar junto à margem, com a ajuda de ganchos, para podermos fazer algum progresso. A época das cheias estava começando, e o rio Doce estava cheio. Devido à profundeza da água e à corrente extremamente forte, o uso de varas ou de remos estava fora de questão. Por conseguinte só nos restava puxar a canoa com a ajuda de ganchos presos às forquilhas das árvores que cresciam abundantemente nas margens do rio junto à água. Esse é um processo tedioso, mas ao mesmo tempo é o único processo seguro que se pode adotar em certos trechos do rio durante as cheias.</p>
<p>Demoramo-nos em Figueira alguns dias, em vista de estarem doentes três dos meus homens, mas a 18 de dezembro a expedição prosseguiu rio acima, procurando adiantar- se o mais possível antes que as cheias chegassem ao seu nível mais alto. A viagem foi relativamente fácil até que chegamos à cachoeira de Baguari, vinte milhas acima de Figueira. Essa foi a primeira cachoeira pura e simples que encontramos no rio principal, e por sinal muito bonita — não muito alta (30 pés), porém alta o bastante para nos dar muito trabalho em ultrapassá-la. Tivemos a sorte de encontrar, ao pé da cachoeira, um pequeno grupo de pescadores vindos de Figueira e, com sua ajuda, obtida em troca de alguma pólvora e balas, conseguimos carregar a canoa sobre a cachoeira em menos tempo do que normalmente nos seria possível.</p>
<p>No dia de Natal chegamos à confluência do rio Santo Antônio. Penetramos nele e acampamos cerca de seis milhas rio acima. O rio Santo Antônio foi o mais fácil dos afluentes do Doce que tínhamos explorado, sendo largo, profundo, e bastante apropriado à navegação numa distância de 20 milhas a partir de sua confluência. Depois disso, porém, o rio perde inteiramente essas características, e, como tantos dentre os pequenos rios brasileiros, torna-se uma sucessão de quedas d’água e de corredeiras. Cerca de 10 milhas rio acima existe uma pequena povoação chamada Naque, assim chamada em virtude de ter havido aí anos atrás uma aldeia da tribo nackerehé, dos botocudos. Permanecemos em Naque algum tempo, já que o meu intérprete (Moreira) tinha ali alguns parentes que ele não via há vinte anos . O que serve para demonstrar como são raros os contatos entre um lugar e outro nesta parte do mundo. Moreira vivia em Guandu e (embora a distância entre Naque e Guandu, em linha reta, seja de apenas 85 milhas) nunca tivera oportunidade visitar aqueles parentes.</p>
<p>Percebi que um grande número dos moradores de Naque apresentavam bócios no pescoço. Por vezes todos os membros de uma família possuíam uma dessas excrescências disformes, e em alguns casos o bócio atingia tão grande dimensões que pendia do pescoço da pessoa. Disseram-me que esses bócios são causados pela fato de a água das redondezas conter multa cal.</p>
<p>Outra doença muito comum entre essas pessoas é a lepra. Ouvi de fonte segura que, na cidade de Joanésia, uma pessoa com o corpo sadio é uma ave rara. A lepra é causada talvez pela comida de muita caloria que os mineiros, por ignorância, estão acostumados a comer, ou seja, toucinho e farinha de milho. Os lavradores fazem questão de criar porcos com o único objetivo de obterem seu tão cobiçado toucinho.</p>
<p>A 29 de dezembro partimos de Naque, chegando no dia seguinte diante da cachoeira do Escuro. Essa cachoeira pareceu-nos muito semelhante, por seu tamanho e aparência, à de Baguari, só que um pouco menos larga. A expedição prosseguiu viagem rio acima no dia de Ano Novo.</p>
<p>Há algum tempo vínhamos sofrendo terrivelmente com mosquitos e outros insetos. Durante o dia todo, mutucas (grandes moscas marrons de índole muito malévola), capotes (moscas menores, cujas asas parecem ter sido cortadas nas pontas) e borrachudos (pequenos mosquitos) não nos davam descanso; e à noite, depois que esses insetos deixavam o campo, grandes reforços de mosquitos chegavam para terminar o que seus aliados tinham começado.</p>
<p>A 5 de janeiro a expedição atingiu a cachoeira do Surubim, a pior de quantas encontramos desde as Escadinhas, agora 150 milhas às nossas costas. O trabalho de transportar a canoa por terra até o alto da cachoeira foi longo e tedioso. Tiramos a canoa da água na manhã de 6 de janeiro, e somente no final da tarde do dia 11 conseguimos colocá-la de novo flutuando.</p>
<p>Nesses seis dias não fizemos mais do que um progresso cerca de 80 jardas.</p>
<p>Essa foi a última cachoeira por que passamos no rio Doce, e nossa exploração daquele rio selvagem e estranho estava chegando ao fim. Um dia depois meu pequeno grupo acampou ao pé de outra cachoeira, a da Ponte Queimada, mas não chegamos a ultrapassá-la. Os homens, coitados, devido aos sacrifícios e privações dos últimos dois meses e meio, não tinham perdido apenas as forças, mas também o ânimo, e eu mesmo sofri um ataque de febre, que me deixou fraco e inerme, a que se seguiu quase imediatamente um agudo ataque de malária.</p>
<p>Num povoado chamado Sacramento (13 milhas a lés-sueste de Ponte Queimada) foram tomadas providências para uma tropa de mulas transportar minha exausta expedição até São Geraldo, onde havia uma estação da Estrada de Ferro Leopoldina. A viagem durou doze dias, abrangendo uma distância de cerca de 160 milhas. Passamos por três ou quatro vilarejos, cujos habitantes nos olhavam com aquelas expressões suaves que os matutos brasileiros sempre assumem quando não compreendem inteiramente as coisas.</p>
<p>Chegamos a São Geraldo no dia 30 de janeiro. No dia seguinte tomei um trem para o Rio de Janeiro, onde cheguei após uma viagem de 16 horas. Minha primeira visita foi ao London and Brazilian Bank. Quatro dias depois retornei a São Geraldo, acertei as contas com o digno proprietário da tropa de mulas, e a 6 de fevereiro trouxe meus homens até a capital do país, de onde regressaram por mar às suas namoradas e esposas em Linhares. Nossas andanças, sacrifícios, tribulações e aborrecimentos estavam terminados, mas minha malária não. Ela não me deixou senão às vésperas de meu retorno à velha Inglaterra, onde cheguei no dia 29 de maio de 1886.</p>
<p>Autor: William John Steains<br />
Tradução: Reinaldo Santos Neves</p>
<p>_____________________________</p>
<h4>
NOTAS</h4>
<p></p>
<div id="AERD_RP1">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP1V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a>&nbsp;Introdução feita para a publicação do texto na <i>Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo</i>, n.5, p.103-27, 1984.</p>
</div>
<div id="AERD_RP2">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP2V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a>&nbsp;O ponto culminante dessa serra é Itatiaia-açu que, de acordo com Wells, está 10.040 pés acima do nível do mar, sendo “o ponto mais alto que se conhece do Brasil”.</p>
</div>
<div id="AERD_RP3">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP3V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a>&nbsp;Vide o interessante trabalho do Sr. Wells sobre a “Geografia física do Brasil”, lido perante esta Sociedade em 8 de fevereiro de 1886.</p>
</div>
<div id="AERD_RP4">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP4V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a>&nbsp;Em português no original, como todas as demais palavras em destaque no texto. (N. do T.).</p>
</div>
<div id="AERD_RP5">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP5V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a>&nbsp;Nos mapas dessa região do Brasil até agora publicados, esse rio tem o nome de São Rafael, erro porém que não é muito de admirar, considerando o número de incorreções que se encontra em qualquer mapa que pretenda representar o vale do rio Doce. Um dos mapas que compulsei no Brasil mostrava três ou quatro grandes ilhas na lagoa Juparanã, quando nela só existe uma única ilha, a do Imperador, e por sinal muito pequena.</p>
</div>
<div id="AERD_RP6">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP6V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a>&nbsp;Os primeiros colonizadores do Brasil foram atraídos ao interior do país pela esperança de encontrar ouro, e nessa busca sempre utilizavam os rios como vias de penetração. Daí por que em muitas partes do Brasil encontramos regiões inteiramente inexploradas embora exista civilização em torno delas.</p>
</div>
<div id="AERD_RP7">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP7V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 7 ]</b></sup></a>&nbsp;Quando se tiver inaugurado a navegação a vapor no curso inferior do rio Doce, essa fatigante viagem terrestre se tornará coisa do passado. Um vapor poderá vencer em dois dias, ou no máximo dois dias e meio, a distância que vai de um ponto pouca abaixo de Guandu até a foz do rio. Alguns anos atrás propôs-se construir uma ferrovia de Vitória até Natividade (três milhas além de Guandu), chegando de fato a empresa Waring Brothers, do Rio de Janeiro, a executar os trabalhos de sondagem, etc., mas até o presente momento as obras da ferrovia em si não tiveram início.</p>
</div>
<div id="AERD_RP8">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP8V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 8 ]</b></sup></a>&nbsp;O Professor Hartt, em seu trabalho <i>Resultados científicos de uma viagem ao Brasil</i> (Agassiz), informa: “Ao norte da lagoa (Juparanã) deságua um pequeno rio. (…) Ele nasce na floresta, em plena região dos botocudos, e nunca foi explorado”.</p>
</div>
<div id="AERD_RP9">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP9V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 9 ]</b></sup></a>&nbsp;Existem cerca de 140 espécies de ingá. Aqui se trata da espécie conhecida pelo nome de <i>Ingá bahiensis Benth</i>. Essa árvore é notável devido à maneira como se espalha. Só é encontrada nos trechos em que os rios atravessam terreno pantanoso. Nos pontos em que os rios se estreitam (18 pés de largura, por exemplo) os ingás, cujas raízes principais crescem nas margens, lançam um sem número de ramos que se estendem sobre as águas e dentro delas, entrelaçando-se de maneira muito cerrada, o que cria obstáculos à navegação.</p>
</div>
<div id="AERD_RP10">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP10V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 10 ]</b></sup></a>&nbsp;Essa tribo de botocudos é conhecida pelo nome de nackinhapmá, que significa linda terra.</p>
</div>
<div id="AERD_RP11">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP11V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 11 ]</b></sup></a>&nbsp;Os colonizadores portugueses, no começo do presente século, deram a esses índios o nome de botocudos em razão de usarem eles o ornamento labial chamado botoque. os botocudos anteriormente eram conhecidos pelo nome de aimorés ou aimurás. Martius classificou seis tribos (ou clãs) de índios, que encontrou nesta região do Brasil, sob uma só denominação, chamando-os crens, devido ao fato de essa palavra, que significa cabeça, estar presente em todos os vocabulários das línguas faladas pelas seis tribos, a saber, botocudos, puris, coroados, malalis. araris e xumetos. Descobriu-se também uma semelhança craniológica entre os sambaquis, uma nação pré-histórica que habitava o Brasil, e os botocudos. Essa descoberta levou algumas pessoas a imaginar serem os botocudos, possivelmente, os últimos remanescentes de uma época remotíssima. Usei aqui o termo sambaquis como se fosse o nome dessa nação pré-histórica. Na realidade, porém, o termo serve para designar apenas os amontoados de conchas, ou túmulos, em que são encontrados com freqüência os crânios e instrumentos de pedra, etc., desses homens e mulheres (?) primevos. No Brasil esses restos humanos passam por pertencer ao homem dos sambaquis. As conchas mencionadas em relação a esses amontoados são conchas de ostras.</p>
</div>
<div id="AERD_RP12">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP12V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 12 ]</b></sup></a>&nbsp;A escassez de animais nos territórios índios será sem dúvida a causa principal para o futuro desaparecimento dos índios selvagens nessa região do Brasil. Tome-se como exemplo o caso da tribo nackinhapmá do rio Pancas. Esses índios dominam uma certa área que percorrem livremente sem serem incomodados por nenhuma outra tribo. Suponha-se porém que, devido à falta de caça, os nackinhapmás penetrassem no vizinho território dos incutcracks. Qual seria a consequência? Assim que os incutcracks tivessem conhecimento da invasão, pegariam em armas para se entregarem a um renhido conflito, de que resultaria o completo extermínio de uma ou outra das duas tribos.</div>
<div style="text-align: center;">
[Reprodução autorizada pelo tradutor.]</p>
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<span style="font-size: normal;"><b><span style="color: #660000;">© 2016 Reinaldo Santos Neves</span></b>&nbsp;&#8211; Todos os direitos reservados ao tradutor. A reprodução sem prévia consulta e autorização configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.</span></div>
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</div>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>William John Steains</b> desde criança manifestou vivo interesse pela exploração geográfica e pelos estudos etnológicos. Veio para o Brasil aos 18 anos, a fim de trabalhar como desenhista na construção de uma ferrovia em Alagoas. Aos 22 anos concebeu e realizou a expedição ao rio Doce de que trata o presente relatório. Em 1891 estabeleceu-se na costa ocidental da África, como agente consular junto ao Protetorado da Costa do Níger. Sua saúde sofreu ali os rigores do clima, o que não o impediu de regressar àquela região em setembro de 1894, para ali morrer em novembro desse ano, com a idade de 31 anos.</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/">A exploração do rio Doce e seus afluentes da margem esquerda</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
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		<title>Memória sobre o reconhecimento da foz e porto do rio Doce</title>
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		<pubDate>Wed, 06 Apr 2016 20:15:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Geografia]]></category>
		<category><![CDATA[Luís D'Alincourt]]></category>
		<category><![CDATA[Rio Doce]]></category>
		<category><![CDATA[Viajantes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Vista do rio Doce, 1944. &#160;Acervo Vale. Até duas léguas e meia acima da mesma foz, respondendo-se aos artigos das instruções dadas sobre este objeto; e também acerca da parte da costa, que decorre desde a mencionada foz até à do Riacho, e subindo por este à confluência do rio Comboios:[ 1 ] trata mais [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://2.bp.blogspot.com/-CYRs5w7X1kI/Vwk7wwMp9QI/AAAAAAAAH0I/qaP2xswAYk442BsVk_SeB-tmqo9Pqyl4Q/s1600/Paisagem%2Bdo%2Brio-doce-19441.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Vista do rio Doce, 1944.  Acervo Vale." border="0" height="640" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/04/Paisagem2Bdo2Brio-doce-19441.jpg" class="wp-image-5359" title="Vista do rio Doce, 1944.  Acervo Vale." width="488" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Vista do rio Doce, 1944. &nbsp;Acervo Vale.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>
Até duas léguas e meia acima da mesma foz, respondendo-se aos artigos das instruções dadas sobre este objeto; e também acerca da parte da costa, que decorre desde a mencionada foz até à do Riacho, e subindo por este à confluência do rio Comboios<span id="MRFP_RP1V">:</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-sobre-o-reconhecimento-da-foz-e/#MRFP_RP1" title="No original Comboys."><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a> trata mais do reconhecimento dele, e termina no do rio Preto, e lagoa Parda; organizada segundo as instruções e ordens do Ilmo. e Exmo. Sr. Manuel José Pires da Silva Pontes, presidente da província do Espírito Santo.</p>
<div style="text-align: right;">
Por</div>
<div style="text-align: right;">
Luiz D&#8217;Alincourt, sargento-mor engenheiro.</div>
<div style="text-align: right;">
Vila de Linhares, em agosto de 1833.</div>
<p>
Dignou-se o Excelentíssimo senhor presidente comunicar-me por sua respeitável portaria a resolução do conselho do governo, para o fim de cumprir-se a Lei de 23 de outubro do ano próximo passado, pela qual tem de levar ao conhecimento do ministério a planta do canal do rio Doce, com observações sobre os obstáculos que dificultam a sua navegação, e sobre os meios de removê-los; em virtude, pois, desta resolução, tive a honra de ser encarregado de tão importante tarefa, à vista das instruções que juntas à mencionada portaria me foram entregues.</p>
<p>Conhecendo o Excelentíssimo senhor presidente que não seriam poucos os dias a empregar até chegar-se ao resultado final desta comissão, e desejando prestar prontos esclarecimentos ao ministério, ao menos sobre alguns pontos mais importantes, houve por bem dirigir-me segunda portaria a este respeito, com duas cópias de informações que marcam estes pontos, e porque eles entram nas instruções juntas à primeira portaria, eu as segui, dando princípio ao meu trabalho do modo seguinte: e assim julgo preencher as vistas de Sua Excelência, senão em toda a plenitude, conforme aos meus desejos, ao menos quanto foi possível à curta esfera de minhas idéias. Desenvolverei, pois, na presente Memória o que exigem os artigos 1º, 2º, 3º, 4º, 5º (este até duas léguas e meia acima da foz do rio Doce), 6º, 7º, 8º, 12° e 13° (somente por agora no que diz respeito à barra e porto). À Memória juntarei quatro mapas (por enquanto em borrão, pois falta-me tempo para os desenhar melhor)<span id="MRFP_RP2V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-sobre-o-reconhecimento-da-foz-e/#MRFP_RP2" title="Nota do editor da Revista: faltam no manuscrito. Nota da Estação Capixaba: trata-se, pelo que pudemos entender, dos quatro documentos a que o autor já se refere mais adiante como plantas."><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a></p>
<p>O primeiro mostrará no maior grau de exatidão possível o rio Doce desde a sua foz até duas léguas e meia acima dela, ou à curvatura do rio para terceiro estirão. Devo declarar, que este mapa ou planta foi levantado em fins de junho e princípios de julho do corrente ano, o que se faz mister por ser variável a formatura do álveo do rio relativamente à direção dos canais, altura d&#8217;água nos mesmos, posição das coroas de areia, e extensão dos baixios, e dos pontais que limitam a barra, ou barras, e à do cordão, ou grande cinta que semi-circunda as mesmas; dependendo estas variações da maior, ou menor pressão das torrentes periódicas do mesmo rio, e dos ventos fortes que açoitam sua ampla superfície.</p>
<p>O segundo mapa descreve a costa atlântica desde a foz do rio Doce até a do Riacho, o curso deste a contar da confluência do rio Comboios para baixo, toda a extensão do mesmo Comboios até acima do arruinado quartel, o rio Preto, o finalmente a grande lagoa Parda.</p>
<p>O terceiro apresenta o ancoradouro do rio Preto, o melhoramento fácil que se lhe pôde fazer para tornar-se em um excelente molhe, aonde as embarcações fiquem ao abrigo de todos os ventos, e o curso do mesmo rio até que sai, pelo seu braço da direita, da lagoa Parda, notando-se que do ponto — A — para cima deixa de ser navegável, não por falta de altura d&#8217;água até ao braço, mas por muito atravancado.</p>
<p>O quarto finalmente patenteia a barra do Riacho, o seu porto, a concha formada por meio de recifes, que demora ao sul-sudeste da mesma barra, junto à praia; a valeta por onde se deve encanar o rio, e a direção da muralha que se precisa construir, para tornar-se este porto, atualmente insignificante, em uma doca proveitosa.</p>
<p>Antes de dar princípio ao desenvolvimento dos supracitados artigos, julgo conveniente apresentar algumas idéias acerca do rio Doce e terrenos adjacentes, idéias formadas das minhas observações, com o auxilio do juízo crítico que fiz combinando as disposições de uns com as de outros práticos, e conhecedores do país.</p>
<p>A posição geográfica do rio Doce o torna de um interesse reconhecido às províncias de Minas Gerais e do Espírito Santo; a esta porque a sua prosperidade depende incontestavelmente de francas e livres relações comerciais com aquela, que a seu turno obtém por este canal comunicação fácil com o oceano; e porventura serão somente estas províncias as que tirem real proveito de facilitar-se a navegação do rio Doce? Não certamente; as de Goiás e Cuiabá a devem ambicionar também: seus comerciantes escusarão de descer dos 16 graus e meio, com pouca diferença, de latitude austral, aos 23 e mais, para chegarem aos portos marítimos, conduzindo seus efeitos (os poucos que o podem fazer) às costas de animais pelo espaço de centenas de léguas, com tantos riscos, e fadigas: encare-se bem a direção do rio Doce relativamente a estas províncias e às suas principais povoações, que, de certo não restará a menor dúvida em concluir-se que é um bem necessário aos povos, e mui proveitoso ao Estado, cuidar-se com eficácia dos meios que, podem tornar cômoda a sua navegação.</p>
<p>Mas que outras e grandes vantagens resultam de facilitar-se a navegação do rio Doce! A indústria, a agricultura, o comércio e a mineração partilham estas vantagens. Os terrenos adjacentes a este rio produzem exuberantemente diversas e ricas plantas, frutas e legumes; por eles se estendem longas e pingues vargens, fundas o piscosas lagoas; dilatadas e virgens matas, auríferos rios; preciosas e ainda não revolvidas serras, e morros; finalmente terrenos tanto na província do Espírito Santo, como na de Minas, em que a natureza prodigalizou seus dons para ventura e regalo da espécie humana: todavia tão grandes bens têm sido até agora desprezados! A idéia terrível, que se há concebido e espalhado acerca da barra do rio Doce, será talvez a causa motriz deste país abençoado estar ainda tão escassamente povoado; nunca se entrou em serão e rigoroso exame dos motivos por que se julga mui perigosa a entrada deste rio, nem tão pouco porque se hão perdido nela facilmente algumas e pequenas embarcações; e é tal o terror pânico, que nem o seguro quer segurar para este porto: vamos, pois, à exposição destes motivos.</p>
<p>É, perigosa a barra do rio Doce para os ignorantes que a demandam, e por falta de providências que auxiliem a sua entrada; eis aqui tudo. Conhecendo os navegantes que devem esperar no seguro e franco porto da Aldeia Velha vento próprio para demandar a dita barra, e que saindo com ele firme, como geralmente se mostra em ocasião de luas, nos meses de maio, junho, julho, agosto e setembro, ele não lhes faltará de certo no curto espaço de 26 a 27 milhas, que têm a navegar para chegarem à mencionada barra; e que, ou com diminuição de pano, ou com algum bordo no mar e na terra, se devem sustentar para não varar a mesma barra, esperando que a maré chegue a meia enchente, para então a buscarem com força de vela, caso não seja despropositado o vento; conhecendo mais os navegantes a simples linguagem do sinal que se lhes há de fazer da atalaia, e que, sendo mais de uma embarcação, devem guardar entre si distâncias suficientes para se não embaraçarem na entrada, podem sem receio acometer o cordão, que facilmente hão de vencer, bem como o esganadouro, ficando a salvo em poucos minutos. O cordão nunca apresenta menos de 14 palmos d&#8217;água, quase em baixa-mar, como observou o patrão-mor, e mais no canal do esganadouro, altura bastante para as embarcações de cabotagem, que demandem 10 palmos, que são as próprias para este porto: isto acontece quando há duas barras; mas quando o rio apresenta somente uma, como o ano passado, e como é geral, então ainda sobe a sonda a maior altura.</p>
<p>Está, pois, o primeiro risco na passagem do cordão caso o navegante não haja tomado as indicadas precauções, e não esteja atento a obedecer ao sinal, que lhe indica o rumo para vencer o mesmo cordão, e logo se há de orçar ou arribar para correr o esganadouro, onde encontra já maior fundo, e é nele que está o segundo risco, no caso de acalmar o vento de repente, porque não podendo a embarcação voltar atrás, e correndo o rio sempre para fora, ainda que encha a maré, forçosamente há de encostar à praia: é pois para desviar este risco, que proponho adiante o auxílio de uma catraia, com espias firmes nos arganéus de boias, como igualmente proponho; pois que neste lugar não pode a embarcação usar de seus ferros, que não unham, por ser o fundo de areia mui ligada e dura, de superfície lisa e escorregadia. Aqui temos, pois, desviados os dois únicos riscos, com estas poucas atenções a executar.</p>
<p>Suponhamos agora, que a embarcação que se dirige à barra é de porte de 10 palmos d&#8217;água, e que o cordão não está capaz de consentir-lhe a entrada, até por ser mui forte nele o rolo do mar; neste caso o patrão-mor, ou o prático da barra faz-lhe sinal para não acometer, e a embarcação tem amplo mar para navegar, sem o menor receio de dar à costa; pois que a posição da foz do rio Doce relativamente à mesma costa, tanto para o norte como para o sul, assim o permite, mesmo por não haver ali travessia, favor que não experimentam todas as barras de areia; e até se quiser, não sendo rijo o vento, pode fundear ao mar do cordão, porque acha excelente fundo de lama, e não tem que temer baixio ou recife algum, que o não há, tendo somente cuidado de não fundear de 12 braças d&#8217;água para a terra.</p>
<p>Guardadas estas precauções, e com o auxilio do sinal da atalaia, eu vi entrar pela barra do sul, no dia 15 de julho, duas lanchas e um iate carregados de sal, tocados por vento sul fresco, e sem o menor risco salvaram o cordão e o esganadouro em 4 a 5 minutos cada uma, e correram velozmente a amarrar-se dentro do rio Preto; com a mesma facilidade tenho visto sair duas. Com que desabusem-se os incrédulos, a barra do rio Doce é má só para os loucos, que a procuram temerariamente, entregando-se aos vaivéns de cega fortuna; foi assim que se perdeu o iate novo do negociante da Vitória Domingos Rodrigues Souto, e é assim que se têm perdido outras embarcações; mas nem uma só, se conta havendo-se tomado as convenientes, precauções, e com o auxílio somente do sinal.</p>
<p>Diz-se mais. os canais, as coroas, os baixios, os esganadores, e até a barra do rio Doce, sofrem mudanças o alterações, causadas, já pela força das cheias, já pela veemência dos ventos. Respondo, que isso nada influo para este porto deixar de ser frequentado, porque sempre há canais, sempre há barra, e sempre há fundo bastante para as embarcações que não excedam a 10 palmos d&#8217;água; o que resta, pois, averiguar é a nova direção dos canais, posição de coroas e baixios, estado do cordão, do esganadouro e da sonda: eis o que deve conhecer o patrão-mor; eis aqui necessária a mudança das boias como proponho, e com estas medidas estamos no primeiro caso. Além disto a barra é quase sempre, a que se dirige para sudeste, e é raro apresentarem-se duas, como este ano, o que proveio da exorbitante cheia, que obrigou o rio a subir muito além das suas barreiras, a romper o pontal do sul e a deslizar grande porção d&#8217;água pelo sítio do capitão José Maria Nogueira da Gama, duas léguas e meia acima da foz, para ir entrar em um pequeno rio, e sair ao mar pela medíocre barra de Monsarás.</p>
<p>Espanta o rio Doce nas suas máximas cheias, que carregam nos meses de dezembro, janeiro, fevereiro, e ainda em março; isto é, na força das chuvas, principalmente nas províncias centrais, como a de Minas, onde ele tem as suas remotas fontes: mas teremos só um meio de comunicação do rio Doce com oceano, e reciprocamente? Eu me lisonjeio de mostrar mais de um no fim da minha comissão, assegurando desde já o do rio Preto, Lagoas, e rio Comboios à barra do Riacho, como em seu lugar demonstrarei. Passo agora ao desenvolvimento dos indicados artigos das instruções; queira a minha estrela que acerte no seu justo desempenho, para que, preenchendo assim as sábias intenções de Sua Excelência, se torne o meu trabalho proveitoso à nação e ao Estado.</p>
<p><b>Artigo I</b> — Reconhecer a capacidade do porto da Regência, com a determinação da altura a que chegam as marés ordinárias, e a duração do preamar.</p>
<p><b>Respondo</b>: O porto da Regência dentro do rio Preto, onde as embarcações se vão amarrar, tem fundo suficiente, e pode tornar-se com facilidade em um excelente molhe, como adiante descrevo; fora deste rio há também bom ancoradouro, mui perto da margem direita do rio Doce, à sombra da ilha das Bexigas, como mostra a planta n. 1<span id="MRFP_RP3V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-sobre-o-reconhecimento-da-foz-e/#MRFP_RP3" title="Nota da Estação Capixaba: a planta número 1 não aparece no artigo da Revista."><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a> que igualmente manifestam com precisão as sondas tomadas em baixa-mar, subindo as marés ordinárias a perto de 4 palmos, e a 6 na ocasião de águas vivas. A maré gasta 6 horas, com pouca diferença, a tocar o preamar, e outras 6 a vazar, varia, porém a hora de começar a encher, com a variação da lua, e, na ocasião de lua nova, ou cheia, é preamar às 2 horas pouco mais depois do meio-dia, ou da meia-noite. A inclinação do rio Doce é tal que, não obstante o fluxo do mar, ele corro sempre para fora, conservando-se a água doce até nos esganadouros mesmo nas marés grandes; o que sucede é que, no fluxo do mar, torna-se a corrente mais branda, subindo a superfície do rio não só pela pressão resultante do mesmo fluxo, como por causa da água salgada que penetra por baixo da doce: no rio Preto, porém, há enchente e vazante, quero dizer, vê-se correr a água para cima naquela, e para baixo nesta, entrando-lhe água do rio Doce na enchente.</p>
<p><b>Artigo II</b> — Sondar também o ancoradouro, declarando a natureza do fundo, e os melhoramentos que precisa.</p>
<p>A planta n.1 mostra a altura do fundo do ancoradouro em baixa-mar, o de fora, ou no rio Doce é de areia grossa, bom, e permanente; e porque as águas correndo à margem direita, e deslizando-se pela curva do barranco com força, não consentem que por ali se formem coroas, o ancoradouro do rio Preto tem o fundo de lama, e, pode melhorar-se como direi.<br />
<b><br /></b><br />
<b>Artigo III</b> — Reconhecer as causas que tornam perigosa a entrada deste porto, oferecendo as reflexões que ocorrerem sobre os meios de remover ou prevenir o perigo.</p>
<p>Já expus as causas que tornam perigosa a entrada no rio Doce, que não são outras mais do que a falta das indicadas precauções e de providências; causas nascidas, portanto, na maior parte, da ignorância, temeridade, e mesmo do interesse dos que geralmente têm acometido a barra: o maior número de embarcações que se têm perdido hão sido grandes canoas de coberta, governadas e manobradas por índios, não só ignorantes, mas até, saindo de Aldeia Velha com a cabeça enfumaçada, tornam-se temerários e assim acometem a barra, dando-se-lhes pouco de perder-se a embarcação, porque, salvando eles facilmente suas vidas, tiram o proveito, e outros companheiros que logo aparecem, de colher os despojos do naufrágio.</p>
<p>A barra do rio Doce é boa; fora do cordão não se encontra um só baixio, um só recife, e o fundo é excelente, e não há vento que lhe seja travessia: esta barra não é, como geralmente são as de areia, encravada no fundo de uma enseada, sofrendo ventos de travessia, e outros obstáculos; ela existe em uma espécie de tromba mui saliente, fugindo-lhe de repente a costa tanto para o norte como para o sul, seguindo para o Riacho ao sudoeste e para São Mateus ao norte e ao norte-nordeste; vê-se, portanto, que as embarcações, que estiverem ao mar do cordão, têm bordada franca com todos os ventos, ou seja para o norte ou para o sul.</p>
<p>Chegada a embarcação à barra, pode correr dois riscos, o primeiro na passagem do cordão, o segundo no esganadouro; o primeiro eu o julgo menor que o segundo, porque deve contar-se que o cordão será varado facilmente, em meia maré de enchente, tendo o navegante atendido às citadas precauções e ao sinal da atalaia; ficando este perigo assim inteiramente desvanecido; o segundo dentro do esganadouro só pode provir de faltar o vento de repente, e neste caso perder-se-á a embarcação por causa da corrente do rio, e por não poder usar de seus ferros, como já expus: é para evitar no todo este segundo perigo que proponho as providências seguintes:</p>
<p>Necessita-se uma catraia de 12 remos, bem equipada, que possa subir a barra quando se fizer mister, e de popa aberta para poder suspender ferros; esta catraia vem a servir de grande auxilio à barra, não só para com ela se observar o fundo do cordão, e esganadouro, como para suspender os ferros das boias, que igualmente proponho, e fornecer espias às embarcações em ocasião oportuna, indicar-lhes o canal, etc. Deste modo providenciada a barra, conte-se de certo ficar também desvanecido este segundo perigo. Havendo já o patrão-mor, que é sem dúvida excelente prático, faz-se absolutamente necessário que se lhe forneça quanto antes a catraia, para que de uma vez fiquem desvanecidos os terrores pânicos, e bem depressa acreditada a barra, o que fará aumentar a população neste paraíso admirável, conspirando-se assim para lapidar-se este brilhante bruto, que desgraçadamente até aqui tem estado mergulhado no imundo pélago do esquecimento; desafio, pois, aos entendedores e amantes verdadeiros do Brasil para que visitem este rico país, e conhecerão então que não sou exagerado, e suplico ao governo para que haja por bem dar providências a fim dele ser aproveitado em tão grande e manifesto proveito da nação e do Estado.</p>
<p>Sendo duas as barras, precisam de 4 ou 6 boias, com seus fortes arganéus e ferros, ou âncoras capazes, com cadeias, para serem colocadas as ditas boias bem fixas nos lugares convenientes, a fim de marcarem não só o canal de boa entrada, como também de poderem suportar em seus arganéus as espias quando se façam mister. Estas boias postas no esganadouro serão mudadas com a mudança que se experimentar na barra, no que o patrão-mor terá todo o cuidado, e no mesmo lugar serão suspendidos os ferros todos os oito dias, e lançados de novo para não arearem.</p>
<p>Devem haver cabos de cairo de 4 a 5 polegadas para espias; digo de cairo por serem mais duráveis, e boiantes, não fazendo tanto corso, ou peso dentro da água, como os de linho.</p>
<p>Necessita-se mais de duas ostaxas de 7 a 8 polegadas (podem ser de linho) para dar socorro a qualquer embarcação, quando seja preciso, largando-se um ferro suficiente em lugar asado, e seguindo a ostaxa para a embarcação com os cabos de espia, que devem ir dentro da catraia, isto nos casos em que, as boias não venham a ficar em situação proveitosa: para este fim haverá três âncoras de 4, 5 e 6 quintais, que julgo bastar. Precisa-se também uma peça do cairo para uma estralheira, ou talha de suspender as âncoras tanto das boias, como as outras, com seus competentes cadernais bronzeados prontos.</p>
<p>Além destes auxílios deve construir-se uma atalaia em cada barra (havendo mais de uma como agora), de bons paus fincados à prumo, com altura bastante para ser vista de longe, com seu girão e escada de mão fixa: serve a atalaia não só para dela se observar o mar à larga distância, por ser o terreno baixo por ali, como também para se fazerem os convenientes sinais às embarcações, que demandarem a barra.</p>
<p>É de absoluta necessidade cuidar-se já no quartel para o comandante, patrão-mor, e guarnição; pois que o atual está a cair, aproveitando-se dele a telha, e alguma madeira, bem como a telha de outro que existe próximo, com vários portais, o qual pelo estado de ruína em que se acha já não pode ser habitado, nem reparado. Por esta ocasião lembro que se devia aproveitar quanto antes a telha de outro quartel, que está abandonado na barra de Monsarás, telha que se pode conduzir facilmente pelo pequeno rio, que vai daquela barra até ao sítio do capitão José Maria Nogueira da Gama, e dali passar-se ao rio Doce, cujo trajeto é mui curto, e a barra de Monsarás fica perto do dito sítio; do contrário perde-se esta telha, porque o quartel, que dantes ficava à boa distância do rio, está hoje junto ao barranco, e não tarda a cair.</p>
<p>Julgo também mui proveitoso construir-se um armazém por conta da fazenda pública, com suas repartições, para estas se alugarem aos comerciantes por conta da mesma fazenda, a fim de terem onde depositem o sal, e mais mercadorias, pois não há ali uma só casa onde o possam fazer: assim aproveitará o público, e a fazenda bem depressa cobrirá a despesa, vindo a lucrar para o futuro.</p>
<p>Com estas precauções e auxílios, contem os incrédulos que é muito boa a barra do rio Doce, e que até pode ser acometida no tempo das cheias com vento fresco desde o sudoeste até leste-sudeste pelo sul, buscando-se sempre as grandes marés em meia enchente, o que já se tem visto.</p>
<p><b>Artigo IV</b> — Informar que embarcações entram, ou podem entrar no porto.</p>
<p>Por segurança digo, que podem entrar todas aquelas que não demandem mais de 10 palmos d&#8217;água, como lanchas, sumacas etc. Além das três embarcações, que eu citei, e vi entrar, e das duas que saíram, já entraram mais duas lanchas, e saiu uma e um iate, com a mesma facilidade, e já se vê em Linhares alguns gêneros de comércio que dantes não havia, como vinho, carne-seca, louça de cozinha etc.</p>
<p><b>Artigo V</b> — Reconhecer a direção e largura do rio Doce desde a foz no oceano até ao sítio em que ele se precipita nas gargantas e catadupas das Escadinhas etc.</p>
<p>Do que exige este artigo está somente satisfeito o que pertence à distância da foz até ao sítio do capitão José Maria, distância que monta a duas léguas e meia; portanto, a planta responde a esta exigência no maior grau de exatidão que me foi possível; enquanto à velocidade da corrente neste espaço, é variável segundo a direção dos estirões, e da correnteza das águas, sendo mais veloz nos canais, e menor nos espraiados e coroas: próximo aos esganadores e nos mesmos pode reputar-se a velocidade média do rio neste tempo da seca de 45 segundos para 20 braças, e nos baixios, ou fora dos canais, de 55; quero dizer, gasta a corrente 45&#8243; ou 55&#8243; em 20 braças.</p>
<p><b>Artigo VI</b> — Reconhecer até onde chega a maré, e até onde pode ter lugar o auxílio de velas.</p>
<p>O máximo luxo do mar faz-se sentir somente até meio da povoação dos índios, marcada na planta; e o auxílio de velas pode empregar-se em toda a extensão de duas léguas e meia de rio, que reconheci; daqui para cima a seu tempo direi o que ocorrer a este respeito: a inclinação do leito do rio tornando veloz a corrente, apesar da sua largura, é a causa de não subir mais longe a maré, ainda em águas vivas.</p>
<p><b>Artigo VII</b> — Indagar a época e duração das enchentes periódicas, e se elas obstam ou facilitam a navegação, no todo ou em parte.</p>
<p>Estas cheias acontecem nos meses em que chuvas copiosas ensopam a superfície das províncias centrais; principiam em outubro algumas pancadas d&#8217;água, tornam-se mais repetidas em novembro, e grandes torrentes desprendem as nuvens em dezembro, janeiro, fevereiro, e ainda em março; então os mais humildes ribeiros ficam soberbos e pujantes, e como à porfia vão conduzir as suas águas aos amplos rios, formando-lhes suas enchentes periódicas: tal acontece ao rio Doce, que tem as suas fontes na província central de Minas; é, pois, em dezembro, janeiro, fevereiro e março, que este rio se esforça para romper suas barreiras, principalmente em janeiro e fevereiro, dependendo a maior ou menor veemência de suas cheias de ser a estação chuvosa mais ou menos abundante. O ano passado foi notável a enchente deste rio, subiu a 25 palmos, alagando terrenos que há longos anos estavam intactos das cheias, rompeu o pontal do sul, de não pequena largura, abriu a barra que hoje demora àquele rumo, e cobriria todo o terreno aonde está o quartel da Regência se não trasbordasse, como já disse, logo acima da casa do dito capitão José Maria. Quando para o futuro se empregarem na navegação deste rio barcos de vapor, construídos tanto para servirem no tempo das águas como da seca, ver-se-á que as cheias favorecem a navegação até onde tenho idéias claras do rio, quero dizer até às Escadinhas; porque livremente se navega por cima das coroas, tanto subindo como descendo, havendo só o cuidado de buscar a curvatura dos estirões para cima, em que for menor a correnteza: as canoas podem também navegar para cima naquela época, ou buscando as coroas onde firmem as varas, ou sirgando: e para facilitar-se a sirga tanto a canoas, como a outros barcos, que se venham a empregar nesta navegação, devem descortinar-se os barrancos do mato que os cobre, que geralmente oferecem bom cômodo para a sirga.</p>
<p><b>Artigo VIII</b> — Informar que embarcações podem ser empregadas na sua navegação.</p>
<p>As ordinárias são canoas de mais ou menos porte; mas frequentando-se a navegação deste rio devem construir-se embarcações de propósito, que demandem pouca, quantidade d&#8217;água e satisfaçam, ao mesmo tempo a carregar volumes do maior número de arrobas que for possível; para estas embarcações devem-se preferir-se madeiras leves, serem de fundo de prato, e carregadas que não demandem mais de 4 palmos d&#8217;água. Temos barcaças em Campos, que não excedem a 4 palmos d&#8217;água, carregadas com 20 e 25 caixas de açúcar, e pode ser melhorada a construção praticando-se o método moderno anunciado este ano nas folhas públicas, e aplicado à embarcações do lote que se pretende.</p>
<p><b>Artigo XII</b>&nbsp;— Reconhecer a barra, o curso e profundidade do rio dos Comboios, com observações sobre a sua capacidade, ou incapacidade de servir à união do oceano com o rio Doce, defronte de Linhares, pelo rio Preto e enfiada de lagos adjacentes.</p>
<p>Falando primeiro do rio Comboios, digo, que por ele se pode comunicar o rio Doce com o oceano: o Comboios segue em rumo geral ao norte-nordeste e nordeste, quase paralelo à costa; ele deságua no rio Riacho (de que tratarei) por um esteiro de pouco fundo, em repetidas voltas, e de perto de meia légua; navegando aquele esteiro, entra-se em espaçosos, fundos e lindos estirões, limpos e unidos por brandas curvas, de modo que a variação dos rumos destes estirões, ou lagos contíguos, é de uma quarta até quarta meia (a planta n. 2 mostra a direção deste rio), estirões de 200 braças de comprido, e alguns de mais, e largos de 30, 40 e mesmo 50 braças, e seu fundo geralmente de 10, 12 e 14 palmos, e em partes de 20 e 30, e no penúltimo estirão, antes de chegar-se ao arruinado quartel, me aportou o prático de nome Benedito Barbosa, um lugar onde ele pescando emendava duas linhas de 20 braças cada uma para chegar ao fundo! Este rio é fechado por alta mataria, tanto a leste como a oeste, à exceção de alguns espaços baixos junto ao mesmo rio, que ficam geralmente cobertos d&#8217;água no tempo das cheias; e a passada subiu por ali a 16 palmos acima da superfície atual do rio, que tem desde a sua barra no Riacho até ao dito quartel arruinado 4 léguas e 3 quartos. É este rio abundante de peixe, como tainhas, robalos, jundiás, carapebas, piáus, acarás, traíras, marobás etc.; e suas matas e margens de caça, como antas, cutias, pacas, lontras, capivaras, macacos, barbados, preguiças, tamanduás grandes e pequenos porcos e animais ferozes, onças; aves, grandes taboiaiás, papagaios, pavoas, mutuns, jacupemas, araçaris e diversas qualidades de pequenos pássaros; as águas são claras, saborosas e frescas neste tempo da seca.</p>
<p>Logo acima do sobredito quartel estreita o rio, e vai ao norte 1/4 noroeste procurar a língua da mataria, que brevemente encontra; para seguir então ao norte-nordeste, começando a ficar atravancado com madeiras, diferentes arbustos, aguapé etc.; o dito prático que me acompanhou, que foi pedestre, e esteve anos destacado no dito quartel dos Comboios, segurou-mo que, andando várias vezes à caça, observara que este rio para cima do quartel vem de lagoas, que se unem, e vão puxando ao nordeste; eu mesmo vi que ele alarga para cima do quartel. Com efeito, a comprida lagoa <span id="MRFP_RP4V">Parda</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-sobre-o-reconhecimento-da-foz-e/#MRFP_RP4" title="Nota da Estação Capixaba: aqui menciona-se uma planta número dois, que também não aparece no artigo da Revista."><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a> fica em posição tal que, dirigindo-se na sua maior extensão ao sudoeste, vem a frontear o rio Comboios, ou lagos seguidos que o formam: aquela lagoa acaba em um brejo, inclinando ele algum tanto para o sul, e ao mesmo rumo sudoeste há um esteiro, que, me afirmaram caçadores ir a outras lagoas; e em Linhares acabam de certificar-me o mesmo, ao que dou inteiro crédito por combinarem as disposições de uns com as de outros; o dito esteiro tem 11 palmos d&#8217;água na sua entrada; eu o não segui por estar muito atravancado: a distância da lagoa Parda aos lagos observados do Comboios não é grande, e nada há que faça ajuizar que esta enfiada de lagos não seja continua e sucessiva, acompanhando o grande e largo areal que vai à costa, seguindo do sudoeste ao nordeste.</p>
<p>Do princípio daquela lagoa sobe um braço, que, juntando-se a outro, que parte duma lagoa fronteira à povoação dos índios, formam o rio Preto<span id="MRFP_RP5V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-sobre-o-reconhecimento-da-foz-e/#MRFP_RP5" title="Idem, planta número três."><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a> que vai alargando em estirões abundantes d&#8217;água, mas muito atravancados por madeiras, que para ali deitaram no tempo das derrubadas para plantações, tempo em que se empregou bastante gente, no serviço dos quartéis da Barra, administrado pelo coronel, já falecido, Julião Fernandes Leão, de cujos quartéis só existe o da Regência arruinado. Acha-se, pois atravancado o rio Preto até ao ponto — A — da planta, seguem-se dali lindos estirões de bom fundo, entre 10, 12 e 14 palmos geralmente, e em partes 16 e 20 neste tempo da seca. Tem o rio Preto desde que principia a alargar em seus aprazíveis estirões 495 braças até ao portinho do caminho que mandei abrir para a lagoa Parda<span id="MRFP_RP6V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-sobre-o-reconhecimento-da-foz-e/#MRFP_RP6" title="Idem."><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a> e por onde se varou uma pequena canoa para fazer o reconhecimento da mesma lagoa. No fim dos estirões estreita este rio muito, por algum espaço, de maneira que não tem mais de 10 a 12 palmos de largura, e fundo de 4, 5 e 6, ao mesmo tempo que não descreve grandes voltas; o motivo de existir por ali tão estreito é porque de suas margens se estendem sobre ele densas ramagens, crescendo por entre elas o capim; entra depois a ser mais largo e mais fundo, descrevendo então voltas mais fortes até ao ancoradouro, e portinho da Regência, seguindo daqui a leste em estirão de 26 braças até à sua barra no rio Doce, contando-se ao todo desde que principia a estreitar até à dita barra 525 braças. A planta mostra os rumos que descreve o rio até que pelo seu braço direito vai à lagoa Parda, da qual o fundo e a direção também o manifesta a mesma planta; é esta lagoa limpa, de livre navegação, águas turvas, e duma légua de comprido, e somente de 150 braças na sua maior largura.</p>
<p>O rio Preto para baixo dos seus estirões formava, em outro tempo, um medíocre esteiro; mas o coronel Julião o mandou limpar, e alargar desde a sua foz, e de então para cá serve de mui bom ancoradouro aos poucos navegantes que têm freqüentado o rio Doce. Tem portanto, a cadeia de lagos dois escoantes, um para o rio Doce, que é o rio Preto, o outro para o Riacho, que é o já citado esteiro do Comboios; e eis aqui uma comunicação do rio Doce com o oceano, sem ser pela sua barra. Que resta, pois, fazer? Melhorar esta comunicação profundando e alargando competentemente os canais estreitos, que a natureza apresenta, fazendo-se o mesmo que facilmente fez o coronel Julião no baixo rio Preto; cortar algumas voltas nos esteiros, pois o terreno baixo por onde serpenteiam bem o permite, e deste modo se tornará fácil a navegação por dentro desde o rio Doce até à barra do Riacho no oceano.</p>
<p>Respondo mais a este artigo, que pelo rio Preto, e Comboios, nunca se comunicará o Doce com o oceano defronte de Linhares; a planta o mostra. Outra comunicação pode ter lugar fronteando esta vila para o sul, e é pela comprida lagoa de Aguiar e Riacho, que dela nasce, como a seu tempo tratarei depois de medir o trajeto o reconhecer a lagoa e o rio.</p>
<p>Para que o porto do Riacho, de medíocre que é, se torne em uma doca proveitosa a lanchas e a sumacas, precisa fazer-se-lhe os seguintes melhoramentos, ou outros que se julguem mais adequados. O Riacho logo para cima da ilha, ou, coroa de areia perto da barra, apresenta mui bom fundo; está, pois, o caso no curto espaço que, vai dali para baixo, em que o fundo é, em partes de areia, e geralmente de pedra carcomida e arenosa, fácil a despedaçar-se; é mister, portanto, fazê-lo, levar o rio a desaguar na concha ao sul-sudeste<span id="MRFP_RP7V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-sobre-o-reconhecimento-da-foz-e/#MRFP_RP7" title="Nota da Estação Capixaba: menciona-se aqui uma planta de número quatro que não aparece na Revista."><sup><b>[ 7 ]</b></sup></a> construir-se um paredão (para o que pode servir a pedra arrancada do leito) da parte do mar, desde a terra firme até ao recife, da Concha, cuja direção se mostra pela linha grossa — A B —<span id="MRFP_RP8V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-sobre-o-reconhecimento-da-foz-e/#MRFP_RP8" title="Idem."><sup><b>[ 8 ]</b></sup></a> com 194 braças; é de acreditar que este paredão vá assentar em rocha, senão no todo, ao menos em grande parte, pois que o alvêo do rio e da valeta assim o indica, o que muito convém: desta sorte escorregando pelo paredão as águas do rio, sem grande pressão, por causa do rumo do curso que trazem, irão pela valeta a entrar na Concha, impedindo-se, como se pretende, que o rio rompa o pontal que lho fica a leste, em qualquer ponto, o que torna incerta e de nenhuma capacidade a barra: a atual serve só para canoas, e à do ano passado, também no tempo da seca, aconteceu o mesmo; ela ficava 15 braças mais ao sul da existente: o barranco da margem direita do Riacho será cortado quando se faça mister para dar ao porto a capacidade conveniente. O paredão, e pontal, e os recifes da Concha, suportando a fúria do mar, tornam abrigado o porto, semelhantemente ao de Pernambuco; a boca da Concha não muda, demora a Leste-sudeste, e, colocando-se na terra firme duas boas balizas na direção deste rumo, as embarcações, enfiando-as e correndo à Concha, têm segura a entrada: há nesta Concha outra entrada da parte do sudoeste, que serve para canoas, que venham costa a costa da parte do pequeno rio Saí que fica a uma légua de distancia, aproveitando-se da serenidade do mar, que quebra a sua força na linha do recife, que acompanha a mesma costa alguma distância: a dita concha tem fundo para as lanchas, e sumacas, não sendo estas de grande porte.</p>
<p>O quartel do Riacho é mui necessário, por isso mesmo que não há outro lugar onde se abriguem os caminhantes; ele se acha abandonado, e já em ruína pela parte de trás, tendo ainda as paredes da sala, cozinha, e quartos em bom estado; é, pois, para lamentar deixar-se perder aquela casa por se lhe não assentar nova coberta, que é de palha, e por se não reparar o que está arruinado, conservando ali dois homens que tenham conta dele, e das passagens, do contrário sofre muito o público, e os correios demorados muitas vezes por não haver quem passe, porque os moradores do Riacho ficam distantes, e há ocasiões em que nem existem na sua casa; com aquela mui pouco dispendiosa providência tudo fica sanado.</p>
<p>O porto do rio Preto precisa também melhorar-se, fazendo-se-lhe um molhe capaz para conter as embarcações, que assim ficam ao abrigo de todos os ventos; para isto não há mais que limpar o fundo e margens do pequeno estirão de 26 braças que vai da barra a oeste até ao portinho da Regência, garganta que não precisa alargar-se, e desde o dito portinho para cima cortar-se o barrando de um e de outro lado, a fazer-se o molhe com a forma elíptica, como mostra o retângulo junto à planta n.3<span id="MRFP_RP9V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-sobre-o-reconhecimento-da-foz-e/#MRFP_RP9" title="Nota da Estação Capixaba: planta mencionada anteriormente que não aparece no artigo da Revista."><sup><b>[ 9 ]</b></sup></a> Com estes melhoramentos aqui temos uma boa e segura comunicação do rio Doce com o oceano.</p>
<p>É pena que o capitão-mor dos índios da vila de Nova Almeida, Francisco José Pinto, falecesse repentinamente na madrugada do dia seguinte ao da sua chegada à margem do rio Doce, ficando assim privado da relação exata da sua viagem desde o rio Piraqué, braço setentrional do rio da Aldeia Velha: todavia sabe-se que aquele capitão-mor dirigiu a picada pela parte superior, ou pelo poente dum morro de nome Cavalinho, para melhor subir ao Pau Gigante, ou ainda acima se lhe fosse possível; isto porque, quando ele, há anos, acompanhou um seu tio na mesma diligência, saiu este abaixo do dito Pau Gigante, deflorando-lhe o mencionado morro à esquerda, ou para o poente; carregou, portanto, em demasia o dito capitão-mor para o noroeste até que, encontrando uma grande lagoa, teve de costeá-la, puxando então para leste, e veio sair muito abaixo do sobredito Pau, com 6 dias de viagem, e de trabalho, o qual sendo praticado por índios é de acreditar que menos tempo se gastaria fazendo-se a picada por outra qualidade de gente: julgo, portanto, que este mesmo caminho, que de certo não segue a direção mais curta, se pode fazer em dois dias: disseram os índios que o capitão-mor tinha tenção de endireitar a picada na volta para Aldeia Velha, tanto ele conheceu a má direção da mesma picada; disseram mais que o terreno por onde vieram é plano, sem dificuldades, nem morros. Por esta exposição, ainda que sucinta, sou conduzido à probabilidade de que o trajeto do Piraqué ao rio Doce, pela direção conveniente, não é grande, e que talvez se possa ainda diminuir usando-se da navegação de alguma das muitas, fundas e grandes lagoas, que acompanham as margens deste notável rio, a mais ou menos distância delas: eu vou mandar dois homens a examinar a picada, para ver escoteiros quanto tempo gastam até ao dito Piraqué.</p>
<p>Juntarei ao expendido as minhas reflexões baseadas em dados positivos: da Aldeia Velha em linha reta ao nordeste à barra do rio Doce contam-se 27 milhas, ou 9 léguas, e se as barras estivessem na linha norte sul contar-se-iam somente 19 milhas ou 6 léguas e 1/3 (lado do triângulo retângulo isósceles); ora, o mencionado Piraquê vai puxando para o sul, em seus respectivos quadrantes de noroeste e de sudoeste, de maneira que os morros do Pau Gigante ficam ao sudoeste 1/4 oeste, de Linhares, e esta vila já se acha em paralelo ao sul do da foz do rio; eis aqui cada vez mais diminuída a distância das 19 milhas contando-se também norte-sul; portanto, aproximando-se, como mostro, o Piraquê do rio Doce, posso assegurar, se me não engana a fantasia, que virá a ser a jornada do trajeto dum só dia, sem fadiga; que proveitosa circunstância! Bem depressa se comunicará pelo novo caminho de Linhares com Aldeia Velha, e abrindo-se outro, pelo grande assentado, daquela vila para São Mateus, virá a distância desta última vila para a cidade a ser muito mais curta e cômoda.</p>
<p>Enquanto ao que exige o <b>Artigo XIII</b>, só direi por agora, que a barra da Aldeia Velha é muito boa, e não mudável, por causa do recife que a limita pelo sul; a qual pode tornar-se excelente, aplicando-se-lhe a máquina de roçagar, para dar mais fundo à sua entrada; o porto é ótimo, as embarcações até estão chegadas à terra, com prancha lançada, como vi o patacho da madeira, achando-se já carregado: pode acometer-se a dita barra com quase todos os ventos, e fica no fundo de uma notável sinuosidade. Quando escrever a Memória em resultado final da minha comissão, falarei do grande local sobranceiro ao porto daquela aldeia para assento duma linda povoação , da totalidade do rio até onde é navegável, e do proveito que dele pode tirar a navegação do rio Doce, facilitando-se o trajeto.</p>
<p>Vastíssimo campo oferece o rio Doce, com seus terrenos adjacentes, para discorrerem e se recrearem os sábios! Enquanto a mim, escasso de princípios, mas não de ardentes desejos de tornar-me útil ao Brasil, esforçar-me-ei quanto me for possível para satisfazer, noutra Memória mais difusa, as providentes vistas do governo.</p>
<p>Linhares, 16 de agosto de 1833.<br />
Luiz d&#8217;Alincourt.<br />
sargento-mor engenheiro.</p>
<p>[Publicado na <i>Revista </i>do IHGB, tomo 29, parte I, 1866. Vol. 32, p. 115-38.]<br />
_____________________________</p>
<h4>
NOTAS</h4>
<p></p>
<div id="MRFP_RP1">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-sobre-o-reconhecimento-da-foz-e/#MRFP_RP1V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a>&nbsp;No original <i>Comboys</i>.</div>
<div id="MRFP_RP2">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-sobre-o-reconhecimento-da-foz-e/#MRFP_RP2V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a>&nbsp;Nota do editor da Revista: faltam no manuscrito. Nota do site Estação Capixaba: trata-se, pelo que pudemos entender, dos quatro documentos a que o autor já se refere mais adiante como plantas.</div>
<div id="MRFP_RP3">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-sobre-o-reconhecimento-da-foz-e/#MRFP_RP3V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a>&nbsp;Nota do site Estação Capixaba: a planta número 1 não aparece no artigo da <i>Revista</i>.</div>
<div id="MRFP_RP4">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-sobre-o-reconhecimento-da-foz-e/#MRFP_RP4V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a>&nbsp;Nota do site Estação Capixaba: aqui menciona-se uma planta número dois, que também não aparece no artigo da <i>Revista</i>.</div>
<div id="MRFP_RP5">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-sobre-o-reconhecimento-da-foz-e/#MRFP_RP5V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a>&nbsp;Idem, planta número três.</div>
<div id="MRFP_RP6">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-sobre-o-reconhecimento-da-foz-e/#MRFP_RP6V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a>&nbsp;Idem.</div>
<div id="MRFP_RP7">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-sobre-o-reconhecimento-da-foz-e/#MRFP_RP7V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 7 ]</b></sup></a>&nbsp;Nota do site Estação Capixaba: menciona-se aqui uma planta de número quatro que não aparece na <i>Revista</i>.</div>
<div id="MRFP_RP8">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-sobre-o-reconhecimento-da-foz-e/#MRFP_RP8V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 8 ]</b></sup></a>&nbsp;Idem.</div>
<div id="MRFP_RP9">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-sobre-o-reconhecimento-da-foz-e/#MRFP_RP9V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 9 ]</b></sup></a>&nbsp;Nota do site Estação Capixaba: planta mencionada anteriormente que não aparece no artigo da <i>Revista</i>.</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luís D&#8217;Alincourt</b> nasceu em Oeiras, em 1787 e faleceu no Espírito Santo, em 1841. Foi militar, oficial do Real Corpo de Engenheiros, escritor, ensaísta, memorialista, pensador, ativista, intelectual e pesquisador português radicado no Brasil. (Para obter mais informações sobre o autor,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/luis-dalincourt-biobibliografia/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
</div>
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		<title>O rio Sanguaçu</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Feb 2016 19:24:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Auguste-François Biard]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[História / Sociologia]]></category>
		<category><![CDATA[Viajantes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Incêndio no mar. Os índios. – O senhor X&#8230; – Travessia do rio até Vitória. – o navio incendiado. – Vitória. – Tenha paciência! – Nova Almeida. – Santa Cruz. – Um pórtico de catedral visto de frente e de perfil. – O rio Sanguaçu.[ 1 ] – Cenas e paisagens. Muitas vezes perguntei aos [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://2.bp.blogspot.com/-aIUim1l5IC8/WJ4jVV9WwVI/AAAAAAAALo0/Gs4suGjVLPkyecEUnBDGqW0URdb_OyuywCLcB/s1600/Inc%25C3%25AAndio%2Bno%2Bmar..jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Incêndio no mar." border="0" height="435" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/02/Inc25C325AAndio2Bno2Bmar..jpg" class="wp-image-5400" title="Incêndio no mar." width="640" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Incêndio no mar.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p><span style="font-size: 85%;"><br /></span><br />
<span style="font-size: 85%;"><br /></span><br />
<span style="font-size: 85%;">Os índios. – O senhor X&#8230; – Travessia do rio até Vitória. – o navio incendiado. – Vitória. – Tenha paciência! – Nova Almeida. – Santa Cruz. – Um pórtico de catedral visto de frente e de perfil. – O rio Sanguaçu<span id="ORSA_RP1V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-rio-sanguacu/#ORSA_RP1" title="Trata-se provavelmente do rio Piraquê-açu."><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a> – Cenas e paisagens.</span></p>
<p>
Muitas vezes perguntei aos franceses residentes de longa data no Brasil onde poderia encontrar índios, sem receber porém nenhuma resposta satisfatória. Segundo a maioria desses senhores, os índios quase não mais existiam, sendo uma raça perdida; parecia-me, no entanto, que ainda deviam restar alguns, espalhados pelo país. Eu os queria encontrar a qualquer preço. Negros eu vira na África. Há negros até em Paris. Não fazia questão deles. Finalmente, um dia, ouvi falar de um italiano que, morando há cerca de oito anos no interior do Brasil, tinha comprado terras nas florestas virgens da província do Espírito Santo e se dedicava ao comércio de jacarandá. Esse deveria ter informações a respeito dos índios. Manifestei o desejo de conhecê-lo e prometeram-me apresentar-me a ele logo que viesse ao Rio. De fato, trouxeram-no ao meu estúdio, precisamente num dia em que eu fazia o retrato de corpo inteiro de uma brasileira encantadora e espirituosa, a filha do ministro dos negócios estrangeiros. A oportunidade era boa para o italiano que, naturalmente, carecia de proteção. Fiz tudo para lhe pagar antecipadamente a hospitalidade que ele estava feliz, segundo dizia, por oferecer-me. Intercedi em seu favor mais do que teria feito por mim mesmo, e, se ele não se aproveitou da boa vontade com que me cumulavam, foi um pouco por sua própria culpa. Não poupou, aliás, nenhuma fórmula de agradecimento comigo. Portanto, bastava-me confiar nele para superar todas as dificuldades da viagem; tudo que era dele seria meu, e ele se apressaria em pôr à minha disposição a sua casa e todo o seu pessoal. O que chamava de todo o seu pessoal eram índios. Fiquei maravilhado. Decidiu-se então que me embrenharia nas regiões mais selvagens sob a orientação e proteção de senhor X..<span id="ORSA_RP2V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-rio-sanguacu/#ORSA_RP2" title="Tudo indica que era Pedro Tabachi o hospedeiro italiano de Biard. Em primeiro lugar, embora não se conheça a data exata da chegada de Tabachi ao Espírito Santo, presume-se que tenha sido em 1851, ou no ano seguinte. Fotografias de Tabachi mostram-no alto e magro, usando bigodes e óculos, como no desenho feito a partir do croqui de Biard. Além disso, Tabachi tinha uma propriedade no interior de Santa Cruz e explorava o comércio de jacarandá naquele município. Dando prosseguimento aos seus planos de colonização da região — citados por Biard — Tabachi fundou em 1874 a colônia Nova Trento, nela instalando 56 famílias italianas recrutadas pessoalmente por ele na Itália, num total de 386 pessoas. O descontentamento logo se fez sentir, agravado talvez pelo caráter difícil de Tabachi (mais um ponto de contato com o senhor X de Biard), seguindo-se a revolta dos colonos e a dissolução da colônia. Maiores detalhes sobre Pedro Tabachi e a colônia Nova Trento podem ser encontrados no ensaio 'A imigração italiana no Espírito Santo', de Luiz Busatto (in Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, n.38, Vitória, 1987/8) e no livro Colonie imperiali nella terra del caffe, de Renzo M. Grosselli, parte II (Trento, Itália, 1987). Grosselli, inclusive, não tem dúvidas em identificar como Pedro Tabachi o hospedeiro de Biard. Todos os elementos utilizados na composição desta nota se devem a Luiz Busatto, que sugere, inclusive, que a jovem mulata encontrada por Biard na casa de Santa Cruz ( a 'contramestra') seria Ana Fontoura, com quem Tabachi teve dois filhos e com quem se casou in extremis pouco antes de morrer, em 1874, 'ao que parece, de desgosto.'"><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a></p>
<p>Na hora de partir, veio-me à cabeça fazer uma coisa de que não tinha qualquer experiência: fotografia. Assim, comprei instrumentos desencontrados, produtos avariados, e mais um livro para estudar em viagem.</p>
<p>No dia 2 de novembro, embarcamos no navio Mucuri<span id="ORSA_RP3V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-rio-sanguacu/#ORSA_RP3" title="Biard grafa Mercury. Esse vapor tinha 146 toneladas de calado e fazia rota regular entre o Rio e o porto de Caravelas (cf. Levy Rocha, Viajantes estrangeiros no Espírito Santo.)."><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a> que levava a reboque um pequeno vapor destinado a subir o rio do mesmo nome. O mar estava péssimo; ventava. O vapor a reboque atrasava sensivelmente nossa viagem. A maior parte dos passageiros eram colonos alemães que iam engrossar o número de seus compatriotas já instalados nas margens do rio. Nosso navio não era muito grande, e várias pessoas tinham de dormir em beliches construídos na coberta. Eu era uma delas e, como o navio jogava muito, tomei a decisão de ficar na posição horizontal o dia inteiro; não era esse porém o único motivo para me manter deitado: andava doente já algum tempo por excesso de trabalho e também porque vivia comendo muitas frutas e coisas salgadas. Ultimamente vinha sofrendo de insônia, e além disso era tempo, como todos diziam, de sair da cidade. À entrada do inverno, a terrível febre amarela faz fugir todos aqueles cujos recursos o permitam. No entanto, na terceira noite de navegação<span id="ORSA_RP4V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-rio-sanguacu/#ORSA_RP4" title="O acidente ocorreu na altura da barra do rio Itapemirim (cf. Levy Rocha, op.cit.)."><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a> o sono, cujas doçuras há algum tempo eu não experimentava, acabava finalmente de envolver-me quando uma explosão terrível me despertou em sobressalto: um grande clarão, parecendo brotado do mar, refletiu-se em nossos mastros e cordames num brilho sinistro; gritos se fizeram ouvir do navio a que estávamos atrelados; a esses gritos sucederam gemidos, e à luz avermelhada sucedeu também a escuridão mais profunda. Botes foram deitados ao mar, apesar do perigo de naufragarem.</p>
<table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="float: left; margin-right: 1em; text-align: left;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://2.bp.blogspot.com/-aIUim1l5IC8/WJ4jVV9WwVI/AAAAAAAALo0/Gs4suGjVLPkyecEUnBDGqW0URdb_OyuywCLcB/s1600/Inc%25C3%25AAndio%2Bno%2Bmar..jpg" imageanchor="1" style="clear: left; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Incêndio no mar." border="0" height="217" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/02/Inc25C325AAndio2Bno2Bmar.-1.jpg" class="wp-image-5401" title="Incêndio no mar." width="320" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Incêndio no mar.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>
Foi preciso um certo tempo para se entender a natureza do sinistro . Deve-se saber que os navios brasileiros são em grande parte tripulados por marinheiros negros; falta-lhes um pouco de habilidade, apesar da boa vontade dos oficiais. Um homem se postou junto às amarras, com um machado na mão, e, apesar do vento e da escuridão, vi afastar-se, finalmente, um primeiro bote, que se perdeu completamente nas trevas espessas; outro não pôde fazer o mesmo: foi empurrado com força pelas ondas e quase se partiu.</p>
<p>Viam-se, ainda, com terror, pequenas centelhas elevando-se de segundo em segundo acima do navio. Bem longe de nós, então, ouvíamos um barulho confuso, queixas longínquas; o vento as levava; vozes de lamento, misturando-se com o barulho das ondas, vinham de momento em momento trazer inquietação a nossas almas. Finalmente, um ponto se ergueu entre duas ondas, perdeu-se, reapareceu e, no meio de um silêncio de morte, trouxeram para o navio três corpos que quase não tinham mais forma humana. Soubemos então que, para não atrasar a nossa marcha, os homens a bordo do pequeno vapor a reboque tinham esquentado a caldeira além da medida, fazendo-a explodir. Um incêndio começava a se propagar quando, felizmente, os marinheiros do bote chegaram bem a tempo de apagá-lo, cortando as partes já destruídas e prestando os primeiros socorros a seus infelizes companheiros. Esses homens não estavam mortos, como de início se acreditou; envolvidos em lençóis umedecidos com cachaça, aguardente de cana-de-açúcar, voltaram a si com a dor, sendo deitados com o maior cuidado. Decidiu-se que seriam deixados em Vitória. O médico de bordo tinha esperança de salvar dois; o terceiro, um negro, era uma chaga da cabeça aos pés. Mas esse também não morreu; revi-o muito tempo depois; sua pele estava mosqueada. Revendo-o assim, aprendi uma coisa que de outra forma nunca teria sabido: que as queimaduras em peles negras deixam marcas brancas.</p>
<p>Essa triste aventura nos tomou muito tempo: para que os botes pudessem chegar até o pequeno vapor, fora preciso parar as máquinas e, retomando a viagem com uma carga bem mais pesada a reboque, porque agora completamente inerte, tivemos de ancorar em alto-mar, evitando os riscos da entrada em Vitória durante a noite.</p>
<table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="float: right; margin-left: 1em; text-align: right;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://1.bp.blogspot.com/-YosBiv13yHE/WKSskccAtBI/AAAAAAAALyY/hmGCMEYMIRwQiuSaHGDWOZ6SuYcUg_U_QCLcB/s1600/4-Bandeira%2Bdo%2BForte%2Bno%2Bporto%2Bde%2BVit%25C3%25B3ria..jpg" imageanchor="1" style="clear: right; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="A bandeira do forte no porto de Vitória." border="0" height="275" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/02/4-Bandeira2Bdo2BForte2Bno2Bporto2Bde2BVit25C325B3ria..jpg" class="wp-image-5402" title="A bandeira do forte no porto de Vitória." width="400" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">A bandeira do forte no porto de Vitória.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>Foi somente por volta das oito horas da manhã que chegamos e, bem antes de entrarmos na cidade, trocamos algumas palavras com um personagem trepado numa carreta de canhão e armado com um megafone. Estávamos passando diante do <span id="ORSA_RP5V">forte</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-rio-sanguacu/#ORSA_RP5" title="É o forte de São Francisco Xavier da Barra (cf. Levy Rocha, op. cit.)."><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a> e, não sei se por ilusão de ótica, a bandeira que tremulava em cima me pareceu maior que o próprio forte.</p>
<p>A condessa de Barral tivera a cortesia de me conseguir cartas de recomendação; porque no Brasil, onde são raras as hospedarias, é indispensável a hospitalidade, e ninguém a pratica tão nobremente como o brasileiro.</p>
<p>Certamente eu não esperava, ao desembarcar em Vitória, encontrar compatriotas. No entanto, dois franceses estavam no cais, esperando a chegada do navio; eu tinha jantado no Rio com um deles e não conhecia o outro, mas sua simpática fisionomia me predispôs logo em seu favor. O Sr. Pénaud, depois de tentar diversos meios de enriquecer, teve a ideia de se tornar padeiro, no que foi bem sucedido. O outro conseguira terras que pretendia explorar.</p>
<p>Meu anfitrião italiano foi procurar pela cidade um hotel. Havia um, e que hotel! E sobretudo que cama! Mandei colocar um colchão em cima de uma mesa de bilhar e, para grande desapontamento de alguns fregueses, interrompi bruscamente as reclamações passando um ferrolho que poderia rivalizar com minha chave do palácio<span id="ORSA_RP6V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-rio-sanguacu/#ORSA_RP6" title="Em capítulo anterior, Biard se refere a uma enorme chave que lhe cederam para ter acesso à noite ao palácio onde estava alojado no Rio e que, por seu tamanho, lhe causava muitos incômodos."><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a> Morto de cansaço por causa da viagem desagradável e das emoções que são fáceis de entender, teria dormido, creio, em cima do meu bilhar mesmo sem colchão, quando por volta das oito horas da noite gritos, ou, antes, urros, que nada tinham de humano, me fizeram saltar subitamente ao chão, e me levaram até a janela, de onde pude ver uma multidão se dirigindo para um grande edifício. Esses gritos eram cantos religiosos de um grupo de pessoas de cor, useiras e vezeiras nisso e que, berrando, pensam que estão entoando preces.</p>
<p>No dia seguinte, meu anfitrião foi comigo apresentar minhas cartas de recomendação ao presidente da província<span id="ORSA_RP7V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-rio-sanguacu/#ORSA_RP7" title="Era o coronel José Francisco de Almeida Monjardim (cf. Levy Rocha, op. cit.)."><sup><b>[ 7 ]</b></sup></a> ao chefe de polícia e a alguns ricos cidadãos. Desde o início percebei com prazer que o senhor X&#8230; sabia tirar proveito de tudo; isso me fez ter boa opinião a seu respeito. Essas cartas se referiam particularmente a mim, e ao serem lidas, ele me traduzia algumas palavras de cumprimento e de oferta de serviços, mas depois, sem transição e demoradamente, punha-se a falar de seus interesses a esses cavalheiros, recomendando-se à sua indulgência e explicando com detalhe os projetos maravilhosos que desejava realizar, com o único pensamento de ser útil ao país. Feito isso, fomos embora, e eu me perguntava se fora bem esse o objetivo da condessa de Barral ao se dar ao trabalho de pedir por mim a altos protetores essas cartas que outra pessoa utilizava em benefício próprio.</p>
<p>No entanto, devo reconhecer que, graças a uma dessas epístolas benevolentes, emprestaram-nos cavalos para nos transportar e um negro para trazê-los de volta. Nossas bagagens ficariam em Vitória e, assim que chegássemos a Santa Cruz, se enviariam canoas para buscá-las. Como tivesse tempo, fui percorrer a cidade e os arredores. Aí vi índios pela primeira vez, concentrados numa espécie de subúrbio. Esses índios, bastante numerosos, já eram, para meu gosto, muito civilizados; sua habitação não se poderia chamar de casa, nem tampouco de cabana. Entrei em várias dessas moradas; em quase todas, as mulheres faziam renda de bilro; em todas havia um periquito preso a um pau fixado na parede. Vi nesse passeio alguns papagaios em estado selvagem.</p>
<p>No dia seguinte os cavalos estavam à nossa porta; só que as selas tinham sido esquecidas, e para obtê-las foi necessário correr a cidade, o que nem sempre era fácil, porque certos bairros ficam sobre colinas; as ruas, muito freqüentemente, não são mais do que pedras sobre as quais se escorrega a cada passo. Enfim, o jeito foi sair de casa em casa, ouvindo meu companheiro repetir mil vezes, com gestos de desespero: um cavalo sem selim<span id="ORSA_RP8V">!</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-rio-sanguacu/#ORSA_RP8" title="No texto original: um cavallo sam sellim."><sup><b>[ 8 ]</b></sup></a> — frase que todos repetiam, indo embora, levantando os olhos para o céu: um cavalo sem selim! Mas ninguém deixava de nos consolar com estas duas palavras, que são típicas da língua portuguesa, como o <i>goddem </i>na Inglaterra, o <i>dam </i>na França: Tenha paciência<span id="ORSA_RP9V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-rio-sanguacu/#ORSA_RP9" title="No texto original: Tenho patientia."><sup><b>[ 9 ]</b></sup></a></p>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://3.bp.blogspot.com/-M5nAUyngauA/WKStJNSnEjI/AAAAAAAALyc/LKKSZn1RpVcZ5MaUeT3idg4XxWxascXxACLcB/s1600/5-O%2Bnaturalista%2Ba%2Bcavalo..jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="O naturalista a cavalo." border="0" height="428" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/02/5-O2Bnaturalista2Ba2Bcavalo..jpg" class="wp-image-5403" title="O naturalista a cavalo." width="640" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">O naturalista a cavalo.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>Como nossa desdita estava se tornando quase uma calamidade pública, pessoas prestativas se espalharam por todos os lados, e duas selas guarnecidas de estribos nos foram trazidas triunfalmente, permitindo-nos partir de uma vez por todas.</p>
<p>A região que percorremos no primeiro dia era bem diferente do que eu tinha imaginado. A natureza, bem longe de ser virgem, já tinha sofrido grandes modificações. Passávamos no meio de antigos roçados, já então abandonados. Muitas vezes era-nos necessário entrar na água com os cavalos, que afundavam até a barriga, o que nos obrigava a ficar quase de joelhos e, mesmo assim, ainda saíamos molhados; uma vez, tendo ficado para trás, quando quis atravessar um rio mais largo, não peguei o caminho certo e meu cavalo foi forçado a nadar um instante. O banho foi por inteiro; infelizmente, a água estava suja, senão eu teria feito bom proveito, porque o calor era grande. Doíam-me os pés, pois os estribos, segundo o costume do país, eram tão apertados que só se podia enfiar a ponta dos sapatos. O cavalo do meu anfitrião já escorregara várias vezes, e outras tantas quase afundara nesses pântanos que encontrávamos a toda hora, o que fez com que, depois de pararmos numa barraca para um breve descanso, meu companheiro tivesse a gentileza de montar no meu cavalo, dizendo-se mais habituado do que eu a esse tipo de estribo. Fiquei muito sensibilizado com tanta consideração, que me fazia trocar uma boa montaria por outra ruim.</p>
<p>Tinham-nos dado para comer no caminho um pão com fatias de salame<span id="ORSA_RP10V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-rio-sanguacu/#ORSA_RP10" title="Chamava-se matula esse alimento (cf. Levy Rocha, op. cit.)."><sup><b>[ 10 ]</b></sup></a> A massa era tão grossa que, com a ajuda do salame, eu teria, depois de provar, dado tudo no mundo por um copo d&#8217;água; não dessa água utilizada pelos cavalos, bois, etc., mas água fresca e pura. Deixei meu hospedeiro seguir na frente e, chamando o negro que nos guiava, tentei fazê-lo compreender, em mau português, que tinha sede; ele entendeu, sem dúvida, uma parte do meu discurso, porque pouco tempo depois me fez notar a uma pequena distância, através dos matos altos, alguma coisa branca. Água! água! e eis-me correndo a galope. O pequeno fugitivo do navio <span id="ORSA_RP11V"><i>Tynes</i></span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-rio-sanguacu/#ORSA_RP11" title="No capítulo 1, o Autor grafa Tyne. O pequeno fugitivo é um pássaro (verdelhão) que, sofrendo de sede, fugiu da gaiola para beber água salgada. Foi apanhado a tempo. Uma chuva providencial matou-lhe a sede. (N. do T.)."><sup><b>[ 11 ]</b></sup></a> me voltou forçosamente à lembrança porque, infelizmente, o que vi era um braço de mar cuja água salgada não me convinha.</p>
<p>A lembrança recente do verdelhão morrendo de sede no meio da água não era a única que então se apresentava ao meu pensamento. Lembrava-me também do primeiro dia de uma travessia no deserto, em companhia de ingleses. No almoço, tínhamos comido camarão e bebido champanha. Por volta do meio-dia, a sede chegou; já sentindo bem o quanto vale um copo d&#8217;água, dirigimo-nos alegremente para um belo lago em que se refletiam com nitidez algumas palmeiras esparsas aqui e ali na areia. Qual não foi nossa decepção: era miragem! Contudo, não nos importamos muito, porque mais adiante havia água de verdade. Uma tropa de camelos, tropeçando nas longas pernas, passava tão perto dela que se multiplicava com nitidez nessa água transparente como um espelho: ai de nós! era miragem de novo, diante de nós, atrás de nós, ao lado, sempre esses mesmos lagos fantásticos. O sol esmorecia-nos o ânimo e, no entanto, certos de estarmos outra vez enganados, nos enganávamos sempre, dizendo: ah, se dessa vez fosse água. Foi assim que se passou esse primeiro dia, começado com camarões e champanha.</p>
<p>Agora a massa com salame tinha produzido a mesma necessidade, que no lugar não havia como satisfazer. Alguns índios estavam esperando ali com canoas, porque de Santa Cruz a Vitória aquela era, eu acho, a única passagem. Prendemos nossas montarias na embarcação, e a curta travessia ocorreu sem acidente. Corno estávamos molhados, o inconveniente de remontar a cavalo foi coisa à toa, ainda mais que teríamos ocasião de tomar outros banhos forçados.</p>
<p>Eu já havia notado magníficos insetos, alguns voejando, outros pousados nas folhas. Chamei o negro e aí acabou-se a monotonia do lugar, porque comecei uma caçada muito proveitosa, não somente pelos espécimes que eu mesmo indicava, mas por aqueles que o negro descobria sozinho, com esse instinto de animal selvagem, essa visão perfeita que as pessoas de cor geralmente têm.</p>
<p>Mesmo comendo, íamos avançando, apesar das poças d&#8217;água; várias vezes tivemos de entrar por caminhos muito estreitos, cobertos de sombra, saindo deles para andar algum tempo pela praia. Aí, nova caçada, novo esboço de coleção; depois dos insetos, vinham os mariscos. Se não me matavam a sede, pelo menos essas distrações me faziam esquecê-la tanto quanto possível.</p>
<p>Finalmente avistamos fumaça por entre as árvores; era tempo de chegar; só que faltava ainda apear do cavalo; eu estava arrebentado dessa primeira marcha; além do mais, o animal, tão prestativamente cedido por meu anfitrião em troca do meu, era por coincidência muito manhoso, o que ele, sem dúvida, não sabia; isso me deixara cauteloso, o que veio somar-se ao cansaço provocado pelo sol e pela marcha forçada; quando quis apear, tive grande dificuldade. Os estribos estavam muito baixos, ajustados para as pernas do meu companheiro, mais longas que as minhas. E, como não quisesse depender de favores que me levassem ao ridículo, aproveitei as sombras da noite para tentar apear-me sozinho, com todas as caretas necessárias, conseguindo, ao cabo de uns quinze minutos, cair no chão com um baque surdo. Estávamos na aldeia indígena de Nova Almeida, habitada outrora pelos jesuítas. No meio da praça existe ainda uma grande pedra onde os padres mandavam prender os índios culpados de algum delito. A influência e o poder dos jesuítas sobre esses pobres selvagens, mal instruídos com as primeiras noções do cristianismo, eram tais que se perpetuaram nessa província de geração em geração, e ainda hoje eles respeitam profundamente os padres.</p>
<table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="float: left; margin-right: 1em; text-align: left;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://2.bp.blogspot.com/-PSXpidtiH0w/WKSuOUKF6xI/AAAAAAAALyo/vWJfn-UArYEaYO11XxSEvTvnjH-D3HJIwCLcB/s1600/6-Banho%2Bde%2Bfonte..jpg" imageanchor="1" style="clear: left; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Banho de fonte." border="0" height="400" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/02/6-Banho2Bde2Bfonte..jpg" class="wp-image-5404" title="Banho de fonte." width="242" /></a></td>
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<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Banho de fonte.</td>
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</tbody>
</table>
<p>Minha primeira ação, ao levantar-me, como se pode adivinhar, foi beber e lavar-me numa fonte, onde fiquei algum tempo, sem me saciar desse prazer tão desejado. Depois desse banho, porque certamente posso chamar assim os incontáveis mergulhos que ali me permiti, me dei conta de que há muito se passara a hora de jantar. Com o cansaço da estrada e o consumo do pão com salame, que, aliás, repartira com dois cães no caminho, o apetite me chegou; meu anfitrião tinha na aldeia um conhecido que nos daria uma cama, mas, quanto a comida, como o dono da casa era pobre, seria indiscrição pedir qualquer coisa. Isso ele falava bem à vontade, tendo já comido religiosamente a sua ração; eu o tinha visto mordiscando alguma coisa, daí por que lhe era fácil esperar. Quanto a mim, dispus-me a dar um giro pela aldeia, para pedir a esmola de um Maço de pão; ele me suplicou que não o fizesse, sob pena de desagradar àquele que tão generosamente nos dava hospitalidade; era seu compatriota. — Mas não se preocupe, disse ele, ao nascer do dia faremos provisões antes de nos pormos em marcha. — Parecia duro deitar assim sem cear, sobretudo para quem não jantou. Começava a perceber que o companheiro, em cujas mãos me entregara tão irrefletidamente, não tinha por mim a mesma consideração que, em caso semelhante, eu teria tido por ele; mas, comprometido com ele como estava, era preciso resignar-me.</p>
<p>No dia seguinte, fiel à sua promessa, ele veio bater à minha porta às três horas da madrugada: como não quis fazê-lo esperar, logo me pus de pé; saí para selar meu cavalo mas, quando voltei à casa, o senhor X&#8230; não se encontrava mais lá; procurei-o em vão. Felizmente não tinha esquecido da expressão: Tenha paciência. Esperei até as sete horas, depois pus-me de novo a percorrer a aldeia, onde sem dúvida ele tinha conhecidos que o faziam esquecer que eu estava pronto há quatro horas. Começava a sentir algum temor, quando o encontraram na cama, dormindo sono profundo. É inútil dizer que lhe fiquei cada vez mais agradecido.</p>
<table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="float: right; margin-left: 1em; text-align: right;">
<tbody>
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<td style="text-align: center;"><a href="https://2.bp.blogspot.com/-2vn1s8xvxzY/WKSutmjNwjI/AAAAAAAALyw/cErijUrWJ-keWlTyIFtyELmH9hrhiRPXACLcB/s1600/7-A%2Bigreja%2Bde%2BSanta%2BCruz%2Bvista%2Bde%2Bfrente..jpg" imageanchor="1" style="clear: right; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="A igreja de Santa Cruz vista de frente." border="0" height="400" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/02/7-A2Bigreja2Bde2BSanta2BCruz2Bvista2Bde2Bfrente..jpg" class="wp-image-5405" title="A igreja de Santa Cruz vista de frente." width="255" /></a></td>
</tr>
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<td class="tr-caption" style="text-align: center;">A igreja de Santa Cruz vista de frente.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>O trajeto, como na véspera, se fez metade pela praia, metade pelas trilhas abertas no meio da mata. Mas, à medida que avançávamos, a região adquiria um aspecto mais pitoresco; naquele dia vi, pela primeira vez, orquídeas pendentes das árvores. Passamos por alamedas de cactos gigantes cujo caule chega a ter trinta a quarenta pés de altura; serve para substituir a cortiça, sendo vendido em pedaços nos mercados do Rio<span id="ORSA_RP12V">;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-rio-sanguacu/#ORSA_RP12" title="Trata-se de articum do brejo, que servia para substituir a cortiça nas boias de rede e salva-vidas (ef. Levy Rocha, op. cit.)."><sup><b>[ 12 ]</b></sup></a> como ninguém me avisou disso, trouxe um estoque deles comigo. Se era leve, em compensação ocupava muito espaço. Como no dia anterior, meu companheiro ia na frente; deixei-o ir e, sempre acompanhado pelo negro, transformado em apaixonado entomólogo e conquiliólogo, continuei minhas coleções sem apear do cavalo. Tínhamos almoçado muito bem, carne-seca com feijão; por precaução, trazíamos não somente vinho, mas também, muito oportunamente, dessa vez, uma moringa d&#8217;água; pois encontramos naquele dia várias fontes de água muito fresca. O calor, pelo meio do dia, ficou opressivo, e agoniava-me deixar a sombra das árvores para retomar a marcha pela praia. Ressentia-me ainda dos sofrimentos por que passara no Rio, cujos sintomas indicavam uma doença que, nos países quentes, costuma ser fatal; estava ansioso por chegar. Como o resto da viagem seria feito em canoa, fiquei muito feliz quando, da praia, percebi ao longe um campanário que se desenhava contra o céu; só podia ser Santa Cruz. Contava com alguns dias de <i>far niente</i><span id="ORSA_RP13V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-rio-sanguacu/#ORSA_RP13" title="Em italiano, no original. Ao pé da letra. 'fazer nada', isto é, 'ócio', 'ociosidade'. (N. do T.)."><sup><b>[ 13 ]</b></sup></a> porque teria de aguardar o regresso das canoas com nossas bagagens. Como não me informaram que eu ia para um lugar importante e como eu pensava que Santa Cruz fosse simplesmente uma aldeia indígena, não foi sem surpresa que vi uma igreja de aparência imponente. Foi preciso atravessar a mata para chegar à vila, e, quando desembarcamos na planície, vi muitas choças cobertas com folhas de palmeira e algumas casinhas caiadas; vi muitos pescadores, e também mulheres da cor de pão queimado, vestidas de amarelo, rosa, laranja, os pés descalços; aqui e ali, alguns senhores de terno preto, gravata branca e mãos sujas.</p>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
</div>
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<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://4.bp.blogspot.com/-VFubVrL9SU0/WKSvMX3_vZI/AAAAAAAALy4/6MfXBYXhvSskHaQGDGhHqaqGz6UqeP7dgCLcB/s1600/8-A%2Bigreja%2Bde%2BSanta%2BCruz%2Bvista%2Bde%2Bperfil..jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="400" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/02/8-A2Bigreja2Bde2BSanta2BCruz2Bvista2Bde2Bperfil..jpg" class="wp-image-5406" width="327" /></a></div>
<p>O campanário, porém, desaparecera e, no entanto, como podia ter-me enganado? Tinha a mesma forma dos campanários espanhóis, portugueses e brasileiros em geral. De longe, com a ajuda desse sol que permite distinguir uma mosca a cem pessoas, tinha-o visto perfeitamente, pintado de branco, com ornamentos, vasos esculpidos e sinos; estava certo da existência dos sinos, ainda mais porque os tinha ouvido tocar. Que pensar da ausência de um objeto que certamente não havia imaginado? Não podendo permanecer nessa incerteza, decidi pedir ao meu companheiro que me esclarecesse esse enigma: mostrou-me então uma parede de três pés de largura que, por ser muito alta, não me passara despercebida, não lhe dando mais atenção porque estava à procura do monumento desaparecido. Preparava-me para questionar o meu vizinho quando, tendo-nos aproximado mais, um poema inteiro se desenrolou diante dos meus olhos, revelando-se a mais completa obra-prima do orgulho, na sua mais ingênua expressão. Essa parede era efetivamente a igreja destinada a causar efeito sobre o povo, porque se, de perfil, só tinha três pés de largura, de frente tinha a forma de uma fachada. Através das janelas superiores viam-se dois sinos que deixavam pressupor os que não se viam. Ornamentos e vasos esculpidos davam a esse monumento um exterior grandioso, prelúdio das riquezas de arte que não podiam deixar de decorar o interior. Eis aí o que eu tinha entrevisto; e eis aqui o que vi de outro ângulo. Essa parede tão bem ornamentada de frente era solitária; apoiava-se em contrafortes que a defendiam do vento; os que subiam os degraus dessa catedral passavam pelo vão aberto na parede e desciam por trás para entrar na igreja, uma barraca triste pouco maior que as outras cabanas. Quanto aos sinos, podia-se ver agora um andaime onde comodamente se instalara o sineiro para tocar o carrilhão. Tudo fora feito exclusivamente para atender as aparências, pois a própria parede só recebera reboco e caiação na parte da frente; a parte de trás só exibia pedras brutas, mas que importa? A honra, ou antes, o orgulho, estava satisfeito.</p>
<p>Meu anfitrião tinha uma pequena casa na cidade; mas tão abarrotada de caixas e pacotes que, não querendo desarrumá-los, pediu emprestado para mim, a um vizinho, um grande cômodo úmido que servia de depósito de cal. Varreram um canto para meu colchão e transformaram em toalete um barril de bacalhau.</p>
<p>Enquanto tomavam tais providências, acreditei que poderia me pôr à vontade, apesar da suntuosidade da igreja e apesar dos ternos negros usados por certos indivíduos que são verdadeiras personagens, porque em suas lojas se encontram vasilhas com rachaduras, pólvora sempre estragada e fósforos invariavelmente úmidos.</p>
<p>Apesar de toda a aparência aristocrática dos habitantes de Santa Cruz, cometi a impropriedade de me livrar das botas e de sair passeando na relva que cresce abundante nas ruas; daí cheguei à praia, onde me deitei na areia, sob as árvores de mangue que tinha visto de longe. Era ainda ingênuo a ponto de acreditar que se pode dormir ao ar livre no Brasil; assim que me deitei, fui atacado por insetos de toda ordem: como pregar olhos, coisa que porém eu precisava tanto fazer? Tive então de sair dali, voltando à casa para deitar-me no colchão que me tinham preparado; como, no entanto, segundo disse, tinham acabado de varrer o cômodo, me vi obrigado a suportar uma nuvem de cal. Meu anfitrião, cuja extrema decência nunca se desmentiu, veio informar-me pressuroso que os comerciantes tinham adivinhado logo que eu era um colono ou um novo criado destinado a substituir sua cozinheira, com quem ele não andava satisfeito. Como se pode supor, foi-me muito agradável saber o lugar honroso que eu ocupava na opinião publica.</p>
<p>No dia seguinte, mandou-se alguém procurar índios para buscar nossas bagagens em Vitória. Infelizmente, o tempo não ajudou; leves canoas feitas de tronco de árvore não podem lutar contra o vento; era preciso esperar. Travei então conhecimento com o padre<span id="ORSA_RP14V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-rio-sanguacu/#ORSA_RP14" title="É o padre Francisco Antunes de Sequeira, natural do lugar, que mais tarde se destacaria como poeta e escritor. As obras de construção da igreja estavam sob sua responsabilidade (cf. Levy Rocha, op. cit.)."><sup><b>[ 14 ]</b></sup></a> um jovem sem preconceito, que não recuava diante de uma garrafa de porto ou de aguardente, nem diante de muitas outras coisas. Mas como, após alguns dias, ele tivesse declarado aos que não davam nada por mim que eu parecia ter alguns conhecimentos a respeito de diversos assuntos, embora francês, restringirei a isso as minhas observações. Esse padre me emprestou um fuzil e, munidos de pólvora e chumbo, partimos um dia bem cedinho numa caçada em que rivalizamos em imperícia. Se de lá para cá me tornei excelente caçador, não dando nunca um passo sem meu fuzil, primeiro por diversão, depois, mais tarde, por necessidade, a coisa antes era bem diferente. Era antiga a minha aversão pela caça em conseqüência de um acidente em que quase matara um dos meus companheiros.</p>
<p>Sentindo instintivamente que dia viria em que teria necessidade de saber atirar, saía todos os dias ao campo para treinar tiro ao alvo; tão bem que, quando chegou o dia da partida, eu já estava em condições de fazer maravilhas.</p>
<p>O vento sempre contrário fez regressar os índios ao sertão, à espera de uma mudança. Enquanto isso, eu ia de cabana em cabana, olhando tudo, pedindo para explicarem o uso de cada objeto, passeando na praia e procurando mariscos, sempre seguido por um bando de crianças que, logo que compreenderam o que eu procurava, se dedicaram, por sua vez, à tarefa. Foi assim que, graças aos seus olhos, melhores que os meus, achei um lugarzinho repleto de mariscos microscópicos em perfeito estado de conservação. Graças aos meus ajudantes de história natural, aumentei minha coleção de insetos. Vários deles, tendo pegado pássaros num alçapão, vieram oferecê-los a mim. Eu não era um estrangeiro para eles; mas o que eu ganhava em importância junto aos índios adultos e crianças, perdia junto aos brancos, o que me importava muito pouco.</p>
<p>Sabe-se já que a cidade de Santa Cruz possui uma fachada de catedral. Não vi lá nenhum outro monumento digno de ser citado, a não ser uma fonte recentemente construída<span id="ORSA_RP15V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-rio-sanguacu/#ORSA_RP15" title="A fonte, na verdade, fora construída no século anterior, tendo sido recentemente remodelada (cf. Levy Rocha, op. cit.)."><sup><b>[ 15 ]</b></sup></a> O resto é pouca coisa: casinhas alinhadas sem simetria, mato crescendo por toda a parte nas ruas, um pequeno porto protegido por quebra-mares. Durante minha permanência forçada, ouvia todo dia a tripulação de três navios que carregavam madeira cantar canções bem monótonas, seja virando o cabrestante, seja erguendo peças de madeira. Decidi, quando passasse por ali, tapar os ouvidos para não guardar essas notas na minha memória; inútil cuidado, porque hoje, ao escrever, me apercebo de que as canto por inspiração. Geralmente é palissandra essa madeira que se envia para o Rio e de lá para a Europa; na região chamam-na de jacarandá.</p>
<p>Os donos de terras que fazem esse comércio se limitam principalmente a essa espécie; do interior de Santa Cruz só trazem os troncos, cortados à altura dos primeiros galhos. Ali serram-nos em dois, antes de embarcá-los.</p>
<p>Com o tempo de novo favorável, mandou-se buscar os índios. Foi preciso bater vários lugares; eles vieram com relutância, e pude ver que a viagem não lhes agradava, nem tampouco aquele que os mandava chamar. Não pareciam ter pelo italiano muita consideração. As canoas finalmente partiram; o vento foi excelente na ida mas, como não mudou na hora de voltarem, o regresso foi outra coisa.<br />
Três semanas se passaram. Todo dia eu consultava o vento: sempre o mesmo. Enfim chegou, e as canoas voltaram, mas em que estado! Nossos bens deteriorados, nossas malas encharcadas. Nem houve tempo de esperar, e o dia da chegada foi o da partida, e dessa vez a viagem seria longa. Três canoas foram carregadas com diversos produtos. Eu os tinha trazido de Vitória, e sobre eles me tive de instalar de maneira bastante incômoda. Vendo isso, meu anfitrião, sempre atento ao meu interesse, foi para outra canoa, deixando-me na minha, que era a mais abarrotada.</p>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
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<td style="text-align: center;"><a href="https://1.bp.blogspot.com/-xY8lFf6v_GM/WKSwCE5NS_I/AAAAAAAALzE/k9eLR8o0kawgY9xrbMF4o65xvmEbRJP8ACLcB/s1600/9-Foz%2Bdo%2Brio%2BSangua%25C3%25A7u..jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Foz do rio Sanguaçu." border="0" height="435" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/02/9-Foz2Bdo2Brio2BSangua25C325A7u..jpg" class="wp-image-5407" title="Foz do rio Sanguaçu." width="640" /></a></td>
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<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Foz do rio Sanguaçu.</td>
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</table>
<p>À força de remos começamos a subir o rio Sanguaçu<span id="ORSA_RP16V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-rio-sanguacu/#ORSA_RP16" title="É o rio Santa Cruz, no qual desaguam os rios Piraquê-açu e Piraquê-mirim (cf. Levy Rocha, op. cit.)."><sup><b>[ 16 ]</b></sup></a> ainda sob a influência do mar, o que era fácil de ver, pois florestas de mangue esticavam suas raízes entrelaçadas para dentro d&#8217;água. Uma meia hora depois da partida, um aguaceiro veio abater-se sobre nós, o que se repetia de quinze em quinze minutos; meu guarda-chuva se quebrou, as malas ficaram inundadas e a canoa ficou de tal modo cheia d&#8217;água que, se um dos índios não se tivesse apressado em esvaziá-la, teríamos inevitavelmente naufragado. Não dispondo de vertedouro nem de balde para esse caso urgente, ele teve a feliz ideia de usar um copo, ao mesmo tempo que os outros empurravam a canoa para a margem.</p>
<p>Chegamos a salvo e ficamos esperando que o tempo melhorasse. Não tendo mais a temer um banho forçado, empreguei a meia hora que passamos presos num rochedo a calcular quantos dias seriam necessários para esvaziar nossa embarcação com o copo que o índio usara, chegando à conclusão de que três dias teriam bastado.</p>
<p>Finalmente o céu ficou azul e pudemos continuar nossa viagem. Aproximávamo-nos agora das matas virgens. O rio era largo; ao longe eu via grandes aves brancas, que eram garças-reais, e garças com bico azul-celeste, ornadas de penachos que caíam de cada lado da cabeça, e martins-pescadores gigantes, etc.</p>
<p>Perto de nós passou uma pequena piroga tripulada por um jovem casal, o marido ao leme, a mulher no meio, segurando nos braços um ramo de árvore que servia de vela. Era um tema encantador para um quadro; essa pequena canoa, levada assim pelo vento, desapareceu em pouco tempo.<br />
Eu estava chegando finalmente às florestas virgens tão desejadas. Ia ver uma natureza quase desconhecida onde nunca passou o machado. Pés humanos nunca pisaram essa terra. Parecia-me que uma vida nova se tinha revelado a mim; essa tendência de perceber o lado ridículo das coisas observadas até então dava lugar a pensamentos graves, a um recolhimento quase religioso; cada remada, levando-me para mais perto dessas cenas grandiosas, apagava pouco a pouco a lembrança do passado. O rio se estreita sensivelmente, as duas margens se aproximam, as árvores de mangue desaparecem, a água doce substitui a água salgada, plantas aquáticas escondem a margem, e depois vêm árvores imensas, inteiramente cobertas de parasitas em flor, dessas orquídeas tão adequadamente chamadas de filhas do ar, vivendo sem raízes, suspensas freqüentemente a cipós, sem que se possa entender como e por que o acaso as colocou lá.</p>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="float: left; margin-right: 1em; text-align: left;">
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<td style="text-align: center;"><a href="https://4.bp.blogspot.com/-_FEYjIND2u8/WKSwg-7_ZMI/AAAAAAAALzM/nIWRWJGp2RIhOhz26Ed-JboJdyAZX3NKwCLcB/s1600/10-O%2Brio%2BSangua%25C3%25A7u..jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="O rio Sanguaçu." border="0" height="277" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/02/10-O2Brio2BSangua25C325A7u..jpg" class="wp-image-5408" title="O rio Sanguaçu." width="400" /></a></td>
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<td class="tr-caption" style="text-align: center;">O rio Sanguaçu.</td>
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</table>
<p>O rio se torna pouco a pouco tão estreito que é necessário abaixar-se a fim de evitar as árvores inclinadas pela ação da água que tirou o ponto de apoio de suas raízes. A cada momento passamos por baixo das arcadas formadas por miríades de palmitos de troncos tão frágeis, tão delicados, que parece, vendo-os de longe, que o menor sopro de vento é capaz de quebrá-los.</p>
<p>Meu anfitrião não compreendia minha admiração, vendo-me extasiado à vista das formas estranhas que as plantas trepadeiras, carregadas de flores, davam às árvores que envolviam, a ponto de fazê-las tomar todos os aspectos que a mais rica imaginação pode conceber. Não eram somente as minhas sensações que me faziam ver templos, circos, animais fantásticos, transformados, a cada passo que dávamos, em outras imagens; porque, nessa parte do rio, cada árvore se tornara presa dos cipós, que a enlaçavam de todos os lados, subindo até à copa, descendo em cachos entrelaçados, depois subindo para descer de novo, formando por toda parte redes inextricáveis, sempre verdes, sempre floridas.<br />
Do alto dessas árvores caíam, como cordames de um navio, outros cipós, tão regulares que se poderia tomá-los por obras de arte; a esses cipós se penduravam famílias de saguis que nossa presença não espantava, e que nos olhavam com curiosidade, soltando gritinhos semelhantes a assobios.</p>
<p>Em todas as coisas há contrastes. Um deles eram horríveis caranguejos que, à nossa aproximação, fugiam com a força de suas patas de pinças formidáveis, e sapos do tamanho de um gato, cujo olhar, no entanto, é meigo, sob um envoltório repulsivo. Chegou um momento em que avistamos de um lado uma clareira. Tinham derrubado as árvores para roçar, deixando porém uma fileira delas de pé. O rio, assim resguardado da luz do sol, tornava-se o lugar mais agradável do mundo para o banhista: uma areia fina e amarela como ouro me convidava a aproveitar a oportunidade, mas tive de reprimir o desejo dessa vez, porque estávamos chegando ao fim da viagem.</p>
<table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="float: right; margin-left: 1em; text-align: right;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://4.bp.blogspot.com/-6224wFhh7aU/WKSw9-G7XAI/AAAAAAAALzU/Oo9z2gVX8bob1c7ex1Y8lf5psg-9xBh6QCLcB/s1600/11-Meu%2Bquarto..jpg" imageanchor="1" style="clear: right; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Meu quarto." border="0" height="390" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/02/11-Meu2Bquarto..jpg" class="wp-image-5409" title="Meu quarto." width="400" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Meu quarto.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>Minhas impressões poéticas se dissiparam imediatamente ao pôr o pé em terra. Primeiro vi, num outeiro, uma cabana maior do que as dos índios de Santa Cruz, um grande terreno plano, cortado por poças d&#8217;água e coberto de mato, e depois, até onde alcançava a minha vista, matas virgens, cujo aspecto não me interessava mais. Para fazer o roçado de que falei, tinham queimado por toda a parte as árvores derrubadas, assim como as plantas parasitas das que tinham ficado em pé. Por isso essas últimas me pareciam magras e descarnadas. Como o entusiasmo não é um estado normal, de tanto admirar eu não admirava mais; além disso, a visão do hospedeiro em cuja casa eu ia passar seis meses teria bastado para esfriar a minha imaginação; finalmente, sem que pudesse explicar por que, sentia-me triste e desencantado no momento de realização dos meus desejos mais caros. Os índios do lugar vieram buscar as coisas, que eram difíceis de carregar outeiro acima por causa do capim escorregadio. Levaram primeiro tudo que pertencia ao patrão, conforme ordem dele. Quanto a mim, sentado num tronco de árvore, observava em silêncio as atenções delicadas de que eu era alvo. Minha vez chegou, contudo. Conduziram-me ao meu novo lar; acontece que o quarto com que me homenageavam estava repleto de caixas, barris e pacotes de carne-seca. Impossível entrar lá.</p>
<p>Retirei-me, então, e fui sentar-me de novo no capim, esquecido do que me acontecera em Santa Cruz: uma nuvem de insetos veio me fazer lembrar. Forçado a voltar à casa, fui, enquanto esperava o jantar, visitar a cabana por dentro e por fora. Na cozinha, de uma sujeira impossível de descrever, uma velha índia assava um tatu estendido por cima da brasa, e o acreditei destinado à nossa refeição. O fogão, no meio do cômodo, se compunha de uma dúzia de pedras; à direita e à esquerda do fogo havia bancos, onde estavam dormindo os índios que fizeram nossa mudança. Enganava-me com relação ao tatu: nosso jantar se preparava à parte; uma jovem mulata estava encarregada dele. Meu anfitrião, esquecendo que eu não sabia onde me instalar, talvez até mesmo que eu existia, conversava com o <span id="ORSA_RP17V">feitor</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-rio-sanguacu/#ORSA_RP17" title="Em português no original."><sup><b>[ 17 ]</b></sup></a> ou, como se diz nas colônias, seu capataz. Continuei então minha visita e, depois da cozinha, tive tempo de examinar, inteiramente à vontade, a sala de jantar, onde encontrei um pequeno sagui bravo que mordia todo mundo, seis ou sete cães esqueléticos, outro tanto de gatos grandes e pequenos, galinhas, patos, bacorinhos; tudo vivendo familiarmente com os donos e cometendo, como pude verificar mais tarde, muitas ações repreensíveis durante as refeições. Finalmente, o dono da propriedade veio me dizer de maneira muito amável: &#8220;Meu bravo, vamos jantar!&#8221; Fiquei lisonjeado com o epíteto, e fui jantar.</p>
<p>Depois da refeição, o melhor que havia a fazer era deitar. Foi então que o cansaço me fez achar o colchão estendido no chão tão bom quanto a melhor cama. O local em que me haviam colocado de mistura com tantos pacotes só tinha, como todo o resto da cabana, para me resguardar do sol ou dos insetos, um pedaço de pano esbranquiçado de algodão preso com pregos.</p>
<p>Nessa primeira noite ouvi gritos de todos os lados; vários me pareceram muito desagradáveis&#8230; sobretudo o de uma ave de que me tinham falado. Essa ave, que os índios chamam saci porque parece pronunciar essas duas sílabas, é para eles motivo de superstição; acreditam que sob a forma dela subsiste a alma de algum parente. Passei mais tarde muitos dias tentando caçá-la: guiado pelo seu grito, avançava lentamente, com cautela, retendo a respiração; de repente, ela se calava e, quando eu dava um passo a mais, o grito se repetia, mas atrás de mim. Nunca pude vê-Ia. Inclinado à tristeza, como estava desde minha chegada, esse grito, que ouvia pela primeira vez, me impressionou muito. Não podendo dormir, fiquei à janela; fui recompensado pelo espetáculo que se ofereceu a meus olhos.Na sombra projetada pelas florestas que nos cercavam ao longe, do sopé do outeiro até o cume, miríades de moscas luminosas brilhavam como se fossem estrelas. Esqueci logo o saci, os gritos agudos das garças, os urros dos gatos selvagens, diante desses fogos de artifício naturais; teria passado ali o resto da noite, se insetos de toda ordem não me tivessem obrigado a fugir e a me refugiar atrás da minha cortina com seus pregos.</p>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="float: left; margin-right: 1em; text-align: left;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://4.bp.blogspot.com/-o114XrQApQs/WKSxXNvDhzI/AAAAAAAALzY/-6QRM7sjrtAYKzfM4E1ixMZQ-hw9zgnBgCLcB/s1600/12-Meu%2Bhospedeiro..jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Meu hospedeiro." border="0" height="320" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/02/12-Meu2Bhospedeiro..jpg" class="wp-image-5410" title="Meu hospedeiro." width="269" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Meu hospedeiro.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>No dia seguinte, pedi ao meu anfitrião para esvaziar o meu quarto. Ele achou mais do que justo, mas só cuidou de mandar desfazer as suas malas e arrumar tudo que era dele. Vários dias se passaram assim. Tive tempo de pensar em todos os favores que prestara a esse personagem para garantir sua colaboração. Não me empenhara em expor e recomendar seus planos de colonização ao imperador? Ele próprio me dissuadira de trazer dinheiro, encarregando-se, dizia, de me custear todas as despesas. Quando voltasse ao Rio comigo, eu o reembolsaria. Eu estava, pois, à sua mercê. A perspectiva não era animadora. Achava-me sem socorro, sem dinheiro, não podendo ir embora sem depender daquele que eu queria deixar, seja para obter canoas ou homens, seja para pagar minha passagem de volta; todos esses pensamentos, essa situação, esse impasse em que estava acuado me tolhiam completamente a felicidade que eu pretendia atingir. Não podendo suportar por mais tempo tão inconveniente conduta, na noite do terceiro dia interrompi uma conversa do meu anfitrião com o feitor para declarar-lhe que estava farto de sua hospitalidade, o que o espantou muito; e não o espantei menos ao afirmar que, se ele estivesse no meu lugar e eu no dele, a primeira coisa que eu faria seria preocupar-me com suas coisas e não com as minhas. Ele custou a crer; porque, dizia ele, não tinha ficado combinado que agiríamos sem cerimônia? Era verdade. Mas, como as quotas de sem-cerimônia não eram iguais, pedi-lhe que me desse os meios de regressar. Essa primeira discussão não teve outro resultado senão o de servir de desabafo, e eu permaneci no alojamento .</p>
<table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="float: right; margin-left: 1em; text-align: right;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://2.bp.blogspot.com/-mBHltYjMhYQ/WKSxzc3oO8I/AAAAAAAALzg/5oM_rbNauTY1GXocQRuen205zTPUNAYTgCLcB/s1600/13-Instalado..jpg" imageanchor="1" style="clear: right; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Instalado." border="0" height="311" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/02/13-Instalado..jpg" class="wp-image-5411" title="Instalado." width="320" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Instalado.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>No dia seguinte consegui a ajuda de um operário que, armado com martelos e sobretudo com verrumas, veio ajudar-me a fabricar um pequeno laboratório para meus primeiros ensaios de fotografia. Se mencionei as verrumas em especial foi porque as madeiras do Brasil, de tanto que são duras, não se deixam simplesmente furar por pregos. O que se chama prancha no Brasil pesa como nossos pranchões na Europa. O pequeno cômodo destinado a me servir de gabinete, de oficina, de quarto de dormir e de laboratório de história natural só recebia iluminação da porta. O telhado, coberto por folhas de palmeira, avançava muito para a frente e dava mais sombra do que devia; mas o que era de certa forma um inconveniente compensava pelo conforto de evitar um pouco o sol. Na minha instalação, as pranchas maciças e os barris vazios desempenharam os papéis principais. Dois barris serviram de mesa, e como cadeira usei uma caixa de velas. Com uma velha esteira improvisei uma porta. Só tinha espaço para entrar e sair, mais nada. No sentido do comprimento do quarto dispus em prateleiras as duas maiores pranchas, enchendo os dois barris maiores com mil objetos necessários. À toda volta do gabinete se espalhavam minhas roupas, preenchendo os espaços vazios das pranchas, já tomados em parte com papel. Arrumei então as ferramentas de cada uma das atividades que pretendia executar na mata. Dispus em quadrado, sobre as pranchas, pequenas achas de madeira formando compartimentos em que coloquei, em primeiro plano, a caixa de cores e os papéis de desenho destinados a compor mais tarde um álbum. Em seguida vinham os frascos, os alfinetes para insetos, as pranchetas de aloés que eu tinha serrado e passado na lima. O terceiro compartimento continha, escalpelos, tesouras, o sabão arsenical para conservar o produto de minhas caçadas; finalmente, num quarto compartimento ficavam os produtos químicos, as balanças, e o livro no qual pretendia aprender os primeiros elementos de fotografia, arte em que era tão ignorante então quanto na de preparar os animais que, aliás, nem tinham ainda sido mortos.</p>
<p>Meu anfitrião, com quem eu já fizera as pazes, escolheu para mim, dentre vários fuzis novos, de fabricação belga, que ele vendia aos índios, o único que não era quase imprestável, não querendo ser meu inimigo o bastante para me pôr nas mãos um fuzil de dois canos, porque a pessoa pode ferir-se se, por descuido, põe carga dupla no mesmo cano. Ele me recomendou, sobretudo, que prestasse bem atenção ao caçar, para que não ocorresse de, atirando num pássaro, acertar num dos seus bois, que gostavam de deitar no mato. Para não mais voltar ao assunto, acrescento a essa série de excelentes conselhos um outro que ele me deu mais tarde ao me ver montar a cavalo, que foi o de soltar as rédeas quando o animal quisesse beber, a fim de que ele pudesse abaixar a cabeça.</p>
<p>Classificados os meus diversos ramos de ofício, tratava-se agora de trabalhar; mas nem tudo estava terminado. Para fazer economia, eu tinha deixado de comprar a tenda necessária à fotografia: em pouco tempo me convenci de que não podia passar sem ela. No primeiro dia quebrei meu vidro fosco e, como as chuvas tinham chegado, a umidade fez descolar todos os meus instrumentos. Passei quinze dias consertando os danos e fazendo uma tenda para mim com a ajuda de alguns panos que achei nas malas e de saias compradas à velha cozinheira. Terminada a tenda, costurada com cuidado, adaptei-a ao meu guarda-sol de paisagista, amarrei em cada vareta uma cordinha e assim, com a ajuda de estacas cravadas no chão, pude evitar que minha máquina fosse muito sacudida pelo vento que, no Brasil, começa a soprar regularmente todo dia por volta das oito horas da manhã. Portanto, antes das oito horas, há umidade demais, depois das oito, vento demais: como fazer qualquer coisa de bom, sobretudo quando são folhas o que se tem a reproduzir? O jeito então foi abandonar a fotografia e voltar à pintura, tanto mais que as chuvas, que então caíam copiosamente, não permitiam sair. Estando os índios à mão, decidi compor um quadro; mas não tinha contado com meu anfitrião. À primeira palavra sobre o assunto, ele começou a fazer objeções. Os índios são supersticiosos, não iriam querer posar; e, quanto a ele, achava embaraçoso propor-lhes isso. Consegui, contudo, convencer e pintar um dos índios da casa. Nem pensar em convencer um segundo; o primeiro já tinha ficado muito descontente, a julgar pelo que me assegurou o senhor X&#8230;</p>
<p>Eu vivia querendo conseguir uma canoa e um homem para subir esse rio de que guardava ainda tantas lembranças. Esperei em vão; o homem e a canoa não apareceram. Queria também, para evitar o vento, penetrar na mata e fazer ali minhas experiências fotográficas; para tanto precisava de um homem que carregasse minha bagagem. Impossível encontrar esse homem.</p>
<p>Um dia, no entanto, encontrei um índio; emprestei-lhe meu fuzil, pólvora, chumbo; ele matou algumas aves; com jeito então propus-lhe que me servisse, explicando-lhe que, uma vez minha bagagem na mata, ele estaria livre para caçar enquanto me esperava. Devo reconhecer, aliás, que foi meu anfitrião quem me sugeriu a idéia de contratar alguém às minhas custas para fazer esse serviço. Aceitei, embora achando original esse procedimento num indivíduo que ia pôr todo mundo à minha disposição e que podia, sem prejuízo, me ceder um escravo por algumas horas.</p>
<p>Logo percebi, pelos olhares espantados do índio, que ele não me estava compreendendo; fiz-lhe sinal para vir à cabana, esperando que ali tudo se arranjasse, mas logo o meu hospedeiro o mandou embora trabalhar, dizendo-me que se tratava de um preguiçoso que não me convinha. Assim tudo me faltava, tudo me escapava, graças à hospitalidade do senhor X&#8230; Minha única atividade era a caça, quando a chuva permitia sair. Em pouco tempo me tornei muito hábil. De volta à cabana, preparava os pássaros, os mamíferos, as cobras. Quanto aos insetos, precisava de caixas para guardá-los, e eu esquecera de trazê-las. Felizmente as caixas de charutos não eram raras; serrei pequenas talas de cacto, colei-as no fundo das caixas, e pude assim guardar as minhas coleções. Mas era preciso ter pressa, porque, se eu largasse algumas horas um dos meus bichos sem prepará-lo, as formigas, em qualquer lugar, que estivesse o dissecavam em poucos instantes, começando sempre pelos olhos. Passei assim o fim de novembro e o mês de dezembro ocupado com outros afazeres que não aqueles que para mim tinham realmente importância; era-me impossível sair para fazer estudos, com essas chuvas que tinham alagado todas as trilhas. Não podia pintar as árvores do rio, a menos que entrasse n&#8217;água até a cintura, porque o rio tinha transbordado. Com o hábito de andar descalço, adquiri feridas que durante vários meses me incomodavam muito ao caminhar; eram causadas por enxames de pequenas moscas que, atirando-se às pernas, faziam vir uma gotinha de sangue a cada picada; essas picadas, multiplicadas, superpostas, se transformavam em chagas, tanto mais difíceis de curar porque, continuando a andar descalço, outros insetos, além dos dípteros, autores do mal, vinham todo dia irritá-las, sem falar das plantas armadas de farpas e de espinhos.</p>
<p>
_____________________________</p>
<h4>
<span style="font-size: 90%;"><br />
NOTAS</span></h4>
<p></p>
<div id="ORSA_RP1">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-rio-sanguacu/#ORSA_RP1V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a>&nbsp;Trata-se provavelmente do rio Piraquê-açu.</div>
<div id="ORSA_RP2">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-rio-sanguacu/#ORSA_RP2V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a>&nbsp;Tudo indica que era Pedro Tabachi o hospedeiro italiano de Biard. Em primeiro lugar, embora não se conheça a data exata da chegada de Tabachi ao Espírito Santo, presume-se que tenha sido em 1851, ou no ano seguinte. Fotografias de Tabachi mostram-no alto e magro, usando bigodes e óculos, como no desenho feito a partir do croqui de Biard. Além disso, Tabachi tinha uma propriedade no interior de Santa Cruz e explorava o comércio de jacarandá naquele município. Dando prosseguimento aos seus planos de colonização da região — citados por Biard — Tabachi fundou em 1874 a colônia Nova Trento, nela instalando 56 famílias italianas recrutadas pessoalmente por ele na Itália, num total de 386 pessoas. O descontentamento logo se fez sentir, agravado talvez pelo caráter difícil de Tabachi (mais um ponto de contato com o senhor X de Biard), seguindo-se a revolta dos colonos e a dissolução da colônia. Maiores detalhes sobre Pedro Tabachi e a colônia Nova Trento podem ser encontrados no ensaio &#8220;A imigração italiana no Espírito Santo&#8221;, de Luiz Busatto (in <i>Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo</i>, n.38, Vitória, 1987/8) e no livro <i>Colonie imperiali nella terra del caffe</i>, de Renzo M. Grosselli, parte II (Trento, Itália, 1987). Grosselli, inclusive, não tem dúvidas em identificar como Pedro Tabachi o hospedeiro de Biard. Todos os elementos utilizados na composição desta nota se devem a Luiz Busatto, que sugere, inclusive, que a jovem mulata encontrada por Biard na casa de Santa Cruz ( a &#8220;contramestra&#8221;) seria Ana Fontoura, com quem Tabachi teve dois filhos e com quem se casou <i>in extremis</i> pouco antes de morrer, em 1874, &#8220;ao que parece, de desgosto.&#8221;</div>
<div id="ORSA_RP3">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-rio-sanguacu/#ORSA_RP3V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a>&nbsp;Biard grafa Mercury. Esse vapor tinha 146 toneladas de calado e fazia rota regular entre o Rio e o porto de Caravelas (cf. Levy Rocha, <i>Viajantes estrangeiros no Espírito Santo</i>.).</div>
<div id="ORSA_RP4">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-rio-sanguacu/#ORSA_RP4V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a>&nbsp;O acidente ocorreu na altura da barra do rio Itapemirim (cf. Levy Rocha, op.cit.).</div>
<div id="ORSA_RP5">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-rio-sanguacu/#ORSA_RP5V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a>&nbsp;É o forte de São Francisco Xavier da Barra (cf. Levy Rocha, op. cit.).</div>
<div id="ORSA_RP6">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-rio-sanguacu/#ORSA_RP6V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a>&nbsp;Em capítulo anterior, Biard se refere a uma enorme chave que lhe cederam para ter acesso à noite ao palácio onde estava alojado no Rio e que, por seu tamanho, lhe causava muitos incômodos.</div>
<div id="ORSA_RP7">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-rio-sanguacu/#ORSA_RP7V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 7 ]</b></sup></a>&nbsp;Era o coronel José Francisco de Almeida Monjardim (cf. Levy Rocha, op. cit.).</div>
<div id="ORSA_RP8">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-rio-sanguacu/#ORSA_RP8V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 8 ]</b></sup></a>&nbsp;No texto original: <i>um cavallo sam sellim</i>.</div>
<div id="ORSA_RP9">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-rio-sanguacu/#ORSA_RP9V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 9 ]</b></sup></a>&nbsp;No texto original: <i>Tenho patientia</i>.</div>
<div id="ORSA_RP10">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-rio-sanguacu/#ORSA_RP10V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 10 ]</b></sup></a>&nbsp;Chamava-se matula esse alimento (cf. Levy Rocha, op. cit.).</div>
<div id="ORSA_RP11">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-rio-sanguacu/#ORSA_RP11V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 11 ]</b></sup></a>&nbsp;No capítulo 1, o Autor grafa <i>Tyne</i>. O pequeno fugitivo é um pássaro (verdelhão) que, sofrendo de sede, fugiu da gaiola para beber água salgada. Foi apanhado a tempo. Uma chuva providencial matou-lhe a sede. (N. do T.)</div>
<div id="ORSA_RP12">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-rio-sanguacu/#ORSA_RP12V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 12 ]</b></sup></a>&nbsp;Trata-se de articum do brejo, que servia para substituir a cortiça nas boias de rede e salva-vidas (ef. Levy Rocha, op. cit.)</div>
<div id="ORSA_RP13">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-rio-sanguacu/#ORSA_RP13V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 13 ]</b></sup></a>&nbsp;Em italiano, no original. Ao pé da letra. &#8220;fazer nada&#8221;, isto é, &#8220;ócio&#8221;, &#8220;ociosidade&#8221;. (N. do T.)</div>
<div id="ORSA_RP14">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-rio-sanguacu/#ORSA_RP14V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 14 ]</b></sup></a>&nbsp;É o padre Francisco Antunes de Sequeira, natural do lugar, que mais tarde se destacaria como poeta e escritor. As obras de construção da igreja estavam sob sua responsabilidade (cf. Levy Rocha, op. cit.).</div>
<div id="ORSA_RP15">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-rio-sanguacu/#ORSA_RP15V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 15 ]</b></sup></a>&nbsp;A fonte, na verdade, fora construída no século anterior, tendo sido recentemente remodelada (cf. Levy Rocha, op. cit.).</div>
<div id="ORSA_RP16">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-rio-sanguacu/#ORSA_RP16V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 16 ]</b></sup></a>&nbsp;É o rio Santa Cruz, no qual desaguam os rios Piraquê-açu e Piraquê-mirim (cf. Levy Rocha, op. cit.).</div>
<div id="ORSA_RP17">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-rio-sanguacu/#ORSA_RP17V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 17 ]</b></sup></a>&nbsp;Em português no original.</p>
<p>
<span style="font-weight: normal;">[BIARD, Auguste-François.&nbsp;<i>Viagem à província do Espírito Santo</i>. (Tradução de José Augusto Carvalho) Vitória: Cultural-ES; Aracruz Celulose; Fundação Jônice Tristão, s/d. 123p.&nbsp;</span><br />
<span style="font-weight: normal;">Ilustrações de Édouard Riou com base nos croquis de Auguste-François Biard.</span>]</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2000 Estação Capixaba.&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<div>
</div>
<div>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Auguste-François Biard</b>, pintor e viajante francês, nasceu em Lion, França, em 1799, e faleceu em Fontainebleau, no ano de 1882. Esteve no Brasil de 1858 a 1860, &nbsp;passando também pelo Espírito Santo, e dessa viagem resultou a publicação do livro&nbsp;<i>Deux années au Brésil</i>&nbsp;(Paris: Librairie de L. Hachette e Cia., 1862), no qual o pintor reuniu suas impressões de viagem sobre a terra brasileira. A obra saiu com ilustrações de Riou calcadas em desenhos originais de Biard. Segundo Gustavo Barroso, essa viagem teria sido programada para pintar retratos da família imperial, retratos esses que foram, de fato, produzidos.</p></blockquote>
</div>
</div>
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