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	<title>Estação Capixaba</title>
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		<title>Normas da Qualidade ou coisa que o valha</title>
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		<pubDate>Sat, 05 May 2012 14:17:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Guilherme Santos Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa]]></category>

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		<description><![CDATA[Caiado viu Pedro, Pedro viu Caiado. Abraçaram-se. Interrogaram-se, um querendo saber da vida do outro, aquele papo de colegas do primário que se encontram depois de vinte anos. O que você tem feito, quantos filhos tem, quantas mulheres, quantas sogras, quantos empregos, onde está morando, pegou dengue, está acompanhando a merda geral em que o<a href="http://www.estacaocapixaba.com.br/literatura/normas-da-qualidade-ou-coisa-que-o-valha/">[Ler o restante do artigo]</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caiado viu Pedro, Pedro viu Caiado.</p>
<p>Abraçaram-se. Interrogaram-se, um querendo saber da vida do outro, aquele papo de colegas do primário que se encontram depois de vinte anos. O que você tem feito, quantos filhos tem, quantas mulheres, quantas sogras, quantos empregos, onde está morando, pegou dengue, está acompanhando a merda geral em que o Brasil está se convertendo?</p>
<p>“E as pernas de Dona Risoleta, você ainda se lembra delas?” perguntou Caiado a Pedro, recordando-se da mútua paixão que sentiam pelas pernas da professora, sobretudo quando ela as cruzava embaixo da mesa, mas não tão embaixo que Pedro e Caiado não pudessem flagrá-las numa cruzada à Share Stone, durante as aulas,em São Josédo Calçado.</p>
<p>“As pernas de Risoleta me seguem eternamente” disse Pedro, como se recitasse um verso de Bandeira, mas omitindo o “dona” em benefício do lirismo da frase. “Aliás, as pernas e aquele rabinho empinado que ela tremelicava no ritmo das palavras que escrevia no quadro negro, lembra-se?”</p>
<p>“Meu Deus, que imagem recuperada! E o quadro ainda era negro, nada de quadro verde, um modernismo pedagógico que veio depois,” emocionou-se um Caiado que retrocedeu aos doze anos de idade.</p>
<p>E foi só. No bumbum empinado de Dona Risoleta e no quadro que não era verde, mas negro, esgotou-se o assunto entre os dois amigos, no vazio da separação de vinte anos, instalando-se entre ambos um silêncio de precipício.</p>
<p>“Em que posso ajudá-lo”, investiu-se Pedro da sua função de escrivão de polícia, retornando do fundo do precipício onde o papo despencara.</p>
<p>“Venho atrás de uma orientação sua, ou até mesmo para registrar uma queixa.”</p>
<p>“Vamos primeiro à orientação. Como escrivão de polícia procuro sempre dissuadir as partes de registrar queixas,” explicou Pedro, com solenidade. “Sei como a coisa funciona&#8230; ou não funciona,” e esboçou um sorriso de um Pedro-que-ri-de-lado.</p>
<p>“Então vamos à orientação”, concordou Caiado, abancando-se na cadeira dos queixosos. Abancando e abrindo o verbo.</p>
<p>“Eu estou morando em Morada de Camburi, sabe onde é?”</p>
<p>“Já tive uma namorada por ali,” disse Pedro, o olhar de bons tempos avivando-lhe <em>o</em> menino dos olhos. “É um bairro calmo e dadivoso,” arrematou, sem saber por que usara o termo dadivoso.</p>
<p>“Exceto quando passam os aviões de carreira”, lamentou-se Caiado. “Ai tremem as casas e some o som da televisão. E se você está falando no telefone, parece que um desses monstros entra pelo aparelho adentro. Fora isso, é um bairro realmente calmo. Tão calmo que todos os dias, pela manhã, eu saio de casa para dar uma voltinha de bicicleta.”</p>
<p>“Você ainda anda de bicicleta?” indagou Pedro, lembrando-se que o amigo tinha sido medalha de ouro na modalidade, nas competições escolares de antigamente.</p>
<p>“É o meu hobby. Pelo menos não perdi o equilíbrio até hoje.”</p>
<p>“O seu pedido de ajuda tem a ver com o seu hobby?”</p>
<p>“Diretamente.”</p>
<p>“Por quê?”.</p>
<p>“Andar de bicicleta é bom quando o pneu não fura” sentenciou Caiado. “Se fura, é uma aporrinhação dos diabos. Quando a gente era garoto, consertava a câmara com a maior facilidade. Bastava pregar um remendo sobre o furo, com cola Michelin. Tinha-se todo o tempo do mundo. Agora, é mais fácil levar a bicicleta num borracheiro ou numa oficina especializada. Foi o que fiz, quando o pneu da minha furou.”</p>
<p>Pedro aproveitou a pausa na arenga do amigo para colocar sobre a mesinha da máquina Olivetti o maço de cigarro Carlton. A atenção de Caiado foi momentaneamente desviada para a foto da mulher grávida, de cigarro à boca, a barriga fertilizada aparecendo fora da blusa azul com o umbigo proeminente, acima da qual se lia o aviso cretino: <em>O Ministério da Saúde adverte: fumar na gravidez prejudica o bebê.</em></p>
<p>Antes que o outro fizesse qualquer comentário, Pedro atacou:</p>
<p>“Como era mesmo o nome daquela camisinha que servia para vedar o pisto?”</p>
<p>“Tripa-de-mico, rapaz!” respondeu Caiado, espantado com o esquecimento de Pedro.</p>
<p>“É verdade&#8230; <em>tri-pa-de-mi-co</em>! Como é que pude esquecer esta expressão! “Bem, e aí? Você foi a um borracheiro ou a uma oficina de bicicletas?”</p>
<p>“A uma oficina, embora oficina seja modo de dizer. Na verdade, a tal especializada fica na garagem de uma casa. Primeiro passei lá de carro para saber do dono se ele consertava pneu na hora. Como me garantiu que sim, levei a bicicleta no dia seguinte.”</p>
<p>“Levou de carro?” indagou Pedro, já de cigarro aceso entre os dedos para emprenhar os pulmões de fumaça.</p>
<p>“A pé mesmo, empurrando,” disse Caiado. “Acordei cedo, e fui empurrando a bicicleta da minha casa até a oficina. Às oito da manhã, o cara ainda não tinha chegado. Me enchi de paciência e fiquei esperando, preocupado com meu horário de trabalho. Aí lá vem o sujeito, pedalando uma bicicleta.”</p>
<p>“Um ponto de coerência entre o homem e o seu ofício” observou Pedro.</p>
<p>“Foi o que pensei” disse Caiado. “Ele chegou perto de mim, encostou a bicicleta no meio fio, tirou uma bolsa de couro do bagageiro, me deu bom dia com certo mau humor, e ficou em pé ao meu lado segurando a bolsa velha pela alça. Então eu perguntei: ‘você não vai abrir a oficina?’ E ele respondeu, com uma grosseria correspondente ao seu mau humor: “Quem abre a oficina é o meu ajudante!’ Aí, foram mais dez minutos de espera até que o ajudante chegasse, também de bicicleta.”</p>
<p>“E abriu a porta ou tinha esquecido a chave?” perguntou Pedro, os olhos luzindo atrás de uma nuvem de fumaça.</p>
<p>“Abrir, abriu, e nós entramos”, disse Caiado. “Eles na frente e eu atrás, empurrando a bicicleta de pneu furado. Só que ao invés de me atender, os dois começaram a varrer a oficina, a dar uma arrumadinha no que tinha lá dentro, a procurar a chave do portão de grade que dava para uma área onde tinha uma banheira enferrujada cheia de uma água imunda até os beiços.”</p>
<p>“E você esperando?”</p>
<p>“A esta altura eu já estava subindo pelas paredes e reclamei: ‘Você não vai me atender, meu amigo? Eu preciso ir para o trabalho&#8230;”</p>
<p>“Um minutinho,” disse ele, e me entregou uma folha de papel impressa em computador, que tirou de uma gaveta de ferramentas. “Vai lendo aí, enquanto a gente termina de arrumar a oficina.”</p>
<p>“O que dizia a folha?” quis saber Pedro.</p>
<p>“Veja você mesmo,” respondeu Caiado, entregando o impresso sujo de graxa, dobrado em quatro que o escrivão desdobrou e leu:</p>
<p><strong><em>Organização</em></strong></p>
<p><em>Você abriu? Feche.</em></p>
<p><em>Desarrumou? Arrume.</em></p>
<p><em>Está usando algo? Trate com carinho.</em></p>
<p><em>Quebrou?</em> <em><span style="text-decoration: underline;">Concerte</span>.</em></p>
<p><em>Não sabe <span style="text-decoration: underline;">concertar</span>? Chame quem sabe.</em></p>
<p><em>Para usar o que não é seu? <span style="text-decoration: underline;">Pessa</span> licença.</em></p>
<p><em>Pediu emprestado? Devolva.</em></p>
<p><em>Não sabe como funciona? Não <span style="text-decoration: underline;">mecha</span>.</em></p>
<p><em>É de graça? Não<span style="text-decoration: underline;"> desperdiçe</span>.  </em></p>
<p><em>Prometeu? Cumpra.</em></p>
<p><em>Falou? Assuma.</em></p>
<p><em>Sujou? Limpe.</em></p>
<p><em>Não sabe fazer melhor? Não critique.</em></p>
<p><em>Não veio ajudar? Não atrapalhe.</em></p>
<p><em>É <span style="text-decoration: underline;">apreçado</span>? Conte até 10 e fica calmo.  </em></p>
<p><em>Isso é qualidade!    </em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Pedro explodiu numa gargalhada, pela qual se desculpou com Caiado.</p>
<p>“Você está rindo porque não foi com você”, disse o amigo. “O fato é que eu me senti um idiota com o papel na mão, cheio de erros ortográficos, a bicicleta de pneu furado encostada no balcão e os dois bs da merda entregues à faina de “arrumar” a oficina para depois me atender. Você não acha que foi abuso demais?”</p>
<p>“Sem dúvida,” concordou Pedro sugando mais fumaça do cigarro, já no território da guimba. “E o que você fez?”</p>
<p>“O que eu fiz? Peguei a bicicleta e fui procurar um borracheiro. E sabe o que o cara ainda me gritou? ‘Amigo, espera mais um minutinho que a gente vai te atender!’ Isso foi o cúmulo da provocação. Agora quero que você me diga o que devo fazer contra o abuso daqueles dois ?”</p>
<p>Pedro atirou o toco do cigarro na caixa de lixo, depois foi atrás para evitar que a guimba queimasse os papéis que ali estavam jogados. Em seguida, voltou ao seu lugar e perguntou a Caiado:</p>
<p>“Você quer que eu responda sem rodeios?”</p>
<p>“É tudo que eu quero.”</p>
<p>“Pois fique freguês do borracheiro!”</p>
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		<title>A púcara búlgara ou morte na ladeira de Tabuazeiro</title>
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		<pubDate>Sat, 05 May 2012 14:14:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Guilherme Santos Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa]]></category>

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		<description><![CDATA[Dia de vento sul e chuva fina. Vitória sem cara de cidade-sol ou ilha do mel. Os crimes da rua Morgue (ah os crimes da Rua Morgue!) deviam ter acontecido num dia de vento assim, de chuva assim, no Quartier de St.-Roch. Pedro fechou o guarda-chuva na varanda da delegacia, tirou a capa de plástico<a href="http://www.estacaocapixaba.com.br/literatura/a-pucara-bulgara-ou-morte-na-ladeira-de-tabuazeiro/">[Ler o restante do artigo]</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Dia de vento sul e chuva fina. Vitória sem cara de cidade-sol ou ilha do mel. Os crimes da rua Morgue (ah os crimes da Rua Morgue!) deviam ter acontecido num dia de vento assim, de chuva assim, no Quartier de St.-Roch.</p>
<p>Pedro fechou o guarda-chuva na varanda da delegacia, tirou a capa de plástico transparente e rumou para a cozinha da antiga casa da Chapot Presvot, 272. Lá entregou a dona Lenilda, para guardar na geladeira com porta de dobradiças enferrujadas, a carninha moída que havia comprado para o ensopadinho da noite. Era vidrado em ensopadinho de quiabo, que preparava com técnica de mestre-cuca. Quando, finalmente, entrou na sua sala, deparou-se com a púcara búlgura que se agrandalhou diante dele.</p>
<p>Por que púcura búlgara?</p>
<p>Pedro não saberia dizer. Ele, como nós, e também Campos de Carvalho, nunca vimos uma <em>púcura</em> (se é que existe uma), menos ainda uma púcura búlgara. Mas a estampa feminina que se avantajou à frente de Pedro num vestido aciganado, a cabeleira basta, as olheiras negras como máscara do Zorro a jusante das espessas sobrancelhas, não tinha outra definição senão a que Pedro intuitivamente lhe dera.</p>
<p>Digital, o delegado da Chapot Prevot, costumava dizer que a primeira impressão é a que <em>dedura</em>. Pois Pedro acabara de validar a filosofia de botequim do delegado.</p>
<p>“Já vi que o senhor é o escrivão”, pronunciou-se a búlgara, com voz que correspondia ao seu tipo abrutalhado, recebendo um aceno afirmativo de Pedro.</p>
<p>“Volte a se sentar, por favor,” rogou o escrivão a fim de se livrar do desconforto, uma quase tontura, que lhe causava aquela enorme mulher a sua frente, em forma de Penedo na baía de Vitória.</p>
<p>“Obrigada. Vim aqui para fazer uma denúncia”, disse a massa piramidal ajeitando-se na cadeira.</p>
<p>Pedro se entrincheirara atrás da sua Olivetti. “Pode falar que estou atento.”</p>
<p>Podia ter dito estou ouvindo, mas, naquelas circunstâncias, atento, como sinônimo de alerta, pareceu-lhe mais combativo.</p>
<p>“Eu moro em Tabuazeiro e quero que o senhor mande prender o facínora que matou minha cadelinha. Eu tenho o endereço dele.”</p>
<p>“Minha senhora, para começo de conversa, eu não mando prender ninguém. Esta autoridade quem tem é o delegado. O que eu faço é tomar depoimentos e registrar queixas. Queira ser mais clara. Como sua cadelinha morreu?”</p>
<p>Assassinada com cianureto.”</p>
<p>“Uma morte nazista,” definiu Pedro.</p>
<p>“Foi terrível,” prosseguiu a descomunal figura, e Pedro teve a impressão de ver as olheiras dela se fazerem mais búlgaras, devido ao sofrimento. “Minha cadelinha comeu veneno e foi morrer no fim da rua. Deve ter sofrido à beça&#8230;”</p>
<p>Pedro ia esclarecer que a morte por cianureto é uma morte rápida e indolor, pelo que era do seu conhecimento da história da ascensão e queda do III Reich, mas não se atreveu a tanto. A pergunta que saiu foi outra:</p>
<p>“Por que a senhora afirma que foi cianureto?”</p>
<p>A búlgara olhou Pedro de cima para baixo, como se não tivesse acreditado na indagação, e respondeu do oitavo pavimento:</p>
<p>“Porque eu mandei fazer a autópsia! O senhor pensa o quê? A Sheba tinha veterinário que a visitavaem domicílio. Foiele que confirmou a causa da morte.”</p>
<p>“O nome da cachorrinha era Sheba?” indagou Pedro.</p>
<p>“Eu mesmo que inventei.”</p>
<p>“E como a senhora chegou ao seu suspeito?”, tateou Pedro as certezas da púcara.</p>
<p>“Suspeito, não! Assassino de fato! Todo mundo sabe que ali em Tabuzeiro ele mata gatos com cianureto.”</p>
<p>“Mas se ele mata gatos, por que mataria sua cadelinha?”, interrogou Pedro com uma dose de sarcasmo que escapou às olheiras da búlgara.</p>
<p>“Esse facínora, seu escrivão, não <em>quis</em> – entenda bem – <em>não quis matar</em> a Sheba. Ele preparou o veneno para os gatos, e a pequena Sheba, tadinha, foi lá e comeu&#8230;”</p>
<p>“Comeu onde?”, quis precisar Pedro o local do assassinato.</p>
<p>“Na rua onde fica a casa do facínora, onde ele mata os bichanos da vizinhança!” explodiu a búlgara, desabando em pranto copioso.</p>
<p>Incomodado pelo choro da mulher, Pedro interfonou para a cozinha, clamando, angustiadamente: “Dona Lenilda, traga-me, por favor, um púcaro d´água.”</p>
<p>“O que seu Pedro?” e a voz da faxineira quase se fez audível na sala do escrivão.</p>
<p>“Quero dizer, um copo d´água. Com urgência!”</p>
<p>Quando a água foi trazida, a búlgara a engoliu duma talagada, muito embora se recompusesse aos poucos.</p>
<p>“Podemos continuar?” perguntou o escrivão, depois de uma pausa psicológica. A mulher assentiu, fechando e abrindo as pálpebras de cílios longos, no fundo da máscara negra.</p>
<p>“A senhora, por acaso, chegou a falar com o acusado da morte da Shebinha?”, interrogou Pedro, fazendo-se íntimo da vítima.</p>
<p>“Fui tomar satisfações na casa dele.”</p>
<p>“E o que ele disse?”</p>
<p>“Me ouviu com uma frieza de assassino e respondeu: ‘A senhora me desculpe se vou decepcioná-la, mas não foi o meu cianureto que matou sua cachorrinha. Se fosse, ela não teria andado até o fim da rua. Caía dura aqui no meu jardim! E ainda ia me dar o trabalho de jogá-la no lixo.’ Foi o que ele disse, batendo a porta na minha cara!”</p>
<p>“É uma situação complicada, minha senhora. Há uma acusação que o acusado nega, não existem testemunhas desse suposto crime, menos ainda provas. É um caso digno de Trent.”</p>
<p>“Quem é Trent?” quis saber a búlgara, com a cara púcura.</p>
<p>“Um detetive criado por E.C.Bentley, um escritor inglês,” informou Pedro.</p>
<p>“O senhor está <em>despretensiando</em> de mim?”</p>
<p>Aquele despretensiando de mim ribombou na caixa craniana de Pedro, ricocheteou de um lado para o outro, percorreu-lhe os miolos, fustigou-lhe os neurônios, quase lhe arrepiou os cabelos curtos e negros. Mas durou pouco essa introspecção de intelectual porque, ao lançar a pergunta, a mulher se erguera da cadeira e o escrivão pôde medir-lhe novamente o tamanho e a aspereza. Num átimo, Pedro percebeu que corria o risco de não mais poder recitar o verso de Pessoa, ‘nunca conheci ninguém que tivesse levado porrada.”</p>
<p>“Não precisa ficar exaltada, minha senhora!” disse o escrivão na defensiva. “Vou preparar uma queixa, a senhora assina, eu a passo para o delegado. Qualquer novidade que surgir eu a informo, está bem assim?”</p>
<p>“Está,” concordou a búlgara dominando o impulso que a movera seja lá para que desatino fosse.</p>
<p>Dando-se por salvo, Pedro fez o que disse e a búlgara assinou, com letra infame, o papel que o escrivão lhe passou.</p>
<p>Depois que ela se foi, Pedro se pôs a espremer o cerebelo: “Sheba, Sheba, onde já ouvi esse nome?”</p>
<p>Tanto forçou que lhe veio à memória a frase “come back, little Sheba”, da peça de William Inge que serviu de base ao filme de Daniel Mann <em>A Cruz da Minha Vida.</em></p>
<p>“Preciso baixar este filme na Internet,” assumiu o compromisso consigo mesmo enquanto tragava bulgaramente a fumaça de um cigarro, dos muitos que iria fumar naquele dia que mal começara.</p>
<p>Aliás, que começara mau.</p>
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		<title>Do par ao ímpar ou do ímpar ao par</title>
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		<pubDate>Fri, 06 Apr 2012 17:08:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Guilherme Santos Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa]]></category>

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		<description><![CDATA[“Vamos sentar aqui,” disse Pedro. Era um banco de madeira, de cor indecifrável, tantas as camadas de tinta que recebera e perdera ao longo da sua existência. Ficava embaixo do velho cajueiro, no quintal da delegacia da Chapot Presvot, 272. Ali o escrivão de polícia se recolhia algumas vezes para meditar sobre a literatura e<a href="http://www.estacaocapixaba.com.br/literatura/do-par-ao-impar-ou-do-impar-ao-par/">[Ler o restante do artigo]</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>“Vamos sentar aqui,” disse Pedro.</p>
<p>Era um banco de madeira, de cor indecifrável, tantas as camadas de tinta que recebera e perdera ao longo da sua existência. Ficava embaixo do velho cajueiro, no quintal da delegacia da Chapot Presvot, 272. Ali o escrivão de polícia se recolhia algumas vezes para meditar sobre a literatura e a vida. Como Clarindo pedira uma conversa reservada, Pedro o levou até àquele recanto isolado no Mundo, a salvo de interferências indesejáveis.</p>
<p>Clarindo merecia a atenção de Pedro. Amigos desde trasanteontem, dele o escrivão ganhou de presente a primeira viola em que se especializara nos chorinhos de Pixinguinha e como admirador de Paulinho da Viola (“nunca ninguém fez o que ele faz com a viola”, costumava dizer) até chegar as suas choramingadas próprias, a ponto de gravar um CD denominado Cara-de-Pau. E era.</p>
<p>De cigarro à boca, o escrivão deu a palavra ao amigo, já que um cigarro oferecido junto com a palavra fora recusado pelo outro.</p>
<p>“Preciso muito de um conselho seu. Nada a ver com problemas de delegacia,” desabrochou Clarindo.</p>
<p>“Fique à vontade,” incentivou-o Pedro, enquanto bofe afora baforava (ou esboferava?) uma nuvem de fumaça na direção ao cajueiro, que estava em fase de derrame nupcial em sua floração primaveril.</p>
<p>“Algo muito estranho está se passando com Clarinda,” avançou Clarindo.</p>
<p>Neste ponto, façam-se dois pontos: Clarindo era a única pessoa que Pedro conhecia no mundo que era casado com uma Clarinda. “Vocês fazem um par perfeito até nos nomes,” disse-lhes o escrivão, no dia do casório, quando servira de padrinho a Clarindo e a Clarinda. E completara sincero: “Clarindo &amp; Clarinda, ou C&amp;C, que belo monograma para um enxoval de cama e mesa!”</p>
<p>Só que agora, doze anos depois da frase que Pedro pretendera fosse uma tirada de efeito em honra de uma felicidade imorredoura, veio o seu autor a saber que o monograma estava se esgarçando o que, em bom português, significava uma garça pra cá, outra garça pra lá. E isso dito de viva voz por uma das garças, o garça macho pousado à sombra do cajueiro que se abria por cima de sua cabeça em derrame primaveril de floração nupcial.</p>
<p>“Explique-se melhor,” pediu Pedrinho.</p>
<p>“Você é testemunha de que eu e Clarinda sempre vivemos numa harmonia cotidiana de causar inveja a muitos casais. Digo isso falando em todos os sentidos&#8230;.”</p>
<p>“Sou testemunha sim, no dia-a-dia de todos os seus dias,” confirmou Pedro bombasticamente.</p>
<p>“Mas já não é mais assim,” lamentou-se Clarindo, e Pedro se preparou para ouvir o pior que sua imaginação doentia antecipava. “Também não é o que você possa estar pensando,” ressalvou Clarindo como se tivesse lido a mente enfermiça do escrivão. “Tudo o que está acontecendo entre mim e Clarinda, para que você entenda a situação claramente, está acontecendo de Clarinda <em>para</em> Clarinda”.</p>
<p>“Confesso que&#8230;”</p>
<p>“&#8230; não entendeu ainda? Para mim também foi difícil entender. Mas a verdade é que Clarinda, de uns tempos para cá, deu para&#8230;, bem, deu para gozar sozinha,” desabafou Clarindo, escancarando a alma para o amigo como bandeira despregada.</p>
<p>Pedro deu outra esboferada de fumaça em direção à floração nupcial do cajueiro primaveril, e perguntou, embora meio a contra gosto: “Ela anda se masturbando?”</p>
<p>“Não é isso!” replicou Clarindo, em meia voz que, no caso, era uma voz meio chorosa.</p>
<p>“Ela atinge o orgasmo antes de você?” indagou Pedro, também incomodado pela própria pergunta, mas perguntando.</p>
<p>“Também não!,” replicou a outra meia voz choramingante de Clarindo.</p>
<p>“Então&#8230;</p>
<p>“Clarinda, Pedrinho, vou logo dizendo para encurtar suas más suposições, deu para ter orgasmos diante de qualquer incidente que lhe toque a sensibilidade. E se derrama toda onde quer que esteja pouco se lixando para o mundo ao seu redor.”</p>
<p>“Num repente e sem aviso prévio?”</p>
<p>“Num repente não. Dá para avisar ‘querido, vou sentir’. E sente.”</p>
<p>“Isso tem acontecido muitas vezes?” quis saber Pedro.</p>
<p>“Duas a três vezes por semana.”</p>
<p>“É a média dos orgasmos femininos, segundo as estatísticas das boas relações sexuais nos casamentos,” disse o escrivão.</p>
<p>“Eu sei, eu sei&#8230; Mas Clarinda vem num crescendo de reincidências.”</p>
<p>“Você se lembra da primeira vez?” interrogou um Pedro ainda pouco à vontade com o desdobramento da conversa.</p>
<p>“Foi vendo o filme <em>A Última Ceia</em>.<em> </em>Eu peguei a fita num vídeo e estávamos assistindo juntos até que chegou a cena da transa entre os atores principais. É realmente uma das transas mais fantásticas que já vi em filme. Pois quando a cena estava terminando, Clarinda me disse num sussurro, toda esticadinha no sofá: ‘meu bem, vou gozar também’. “E pumba! – foi aquele êxtase esparramado.”</p>
<p>“Eu vi o filme e concordo que seja uma cena eletrizante.”</p>
<p>“Tudo bem, mas gozar sozinha, sem a minha participação, foi um pouco demais, você não acha?”</p>
<p>“E quando o fenômeno se repetiu?” indagou Pedro, dando-se ares de psiquiatra.</p>
<p>“Algumas semanas depois, num Domingo. Nós estávamos sentados na praia, contemplando o mar, quando uma gaivota deu um mergulho fulminante e pegou um peixe no bico. Eu olhei para Clarinda e perguntei se ela tinha visto. ‘Vi, e está vindo, benzinho.’ E foi aquele estertor à luz do sol.”</p>
<p>“Chamou a atenção de outras pessoas?” interrogou Pedro com alguma ansiedade.</p>
<p>“Para minha sorte, Clarinda é discreta. Não fala, não geme, não uiva, não faz escândalo. São estremeções limpos e límpidos, eu diria até civilizados, chorando e sorrindo ao mesmo tempo, mas sem ruído e sem grunhidos. Como nesse domingo ela estava de óculos escuros, eu vi as lágrimas escorrerem sob as lentes negras, descendo mansamente como um regatinho de encontro aos seus lábios entreabertos.”</p>
<p>“Sorriso e choro beatíficos?”</p>
<p>“Isso mesmo!” teve que admitir Clarindo.</p>
<p>“Essas beatitudes são sempre ao seu lado?” perguntou Pedro, aprofundando a pesquisa freudiana.</p>
<p>“Que eu saiba, sim, mas não sei se posso acreditar nessa exclusividade.”</p>
<p>“Nunca houve quem notasse os orgasmos em público?”</p>
<p>“Uma vez, uma velhinha notou. Nós estávamos num consultório médico, sentados numa dessas poltronas de couro envernizado, fresco e macio, em que o corpo afunda até o umbigo, quando Clarinda começou a alisar o braço da poltrona e a tremer levemente, chorando e sorrindo. Então a velhinha olhou para ela e me disse: ‘Sua mulher está passando mal.’</p>
<p>“E o que você respondeu&#8230;?”</p>
<p>“Eu retruquei: ‘ao contrário, minha senhora, ela está passando muito bem&#8230;’ A velhinha não entendeu nada.”</p>
<p>“Por que você não leva Clarinda a um psicólogo? Se quiser eu lhe indico um amigo meu, muito competente. Ele tem conseguido curas milagrosas, no campo das estranhezas do comportamento humano. Tem até um aparelho que ele usa que quase fala ao identificar as mazelas da mente e da alma dos pacientes.”</p>
<p>“E você acha que Clarinda aceita ir? Sabe o que ela disse quando lhe dei a sugestão? ‘Benzinho, eu estou atingindo o Nirvana sexual por conta própria, por que vou me curar dessa conquista?”</p>
<p>“Então só tem um jeito, meu amigo, é você fingir orgasmos perto dela,” aconselhou Pedrinho acometido por uma idéia que considerou brilhante. “Você viu o filme <em>Harry e Sally – feitos um para o outro</em>, em que Meg Ryan imita um gozo em pleno restaurante? Faz a mesma coisa! Só que você escolhe uma mulher e lhe dedica um orgasmo na frente de Clarinda. Talvez, por ciúme, ela volte a ser o que era antes com você.”</p>
<p>Clarindo se fez meditabundo até que, meditabundo feito, ergueu-se do banco e despediu-se de Pedro dizendo. “Vou pensar no seu conselho. Pelo menos, tem originalidade.”</p>
<p>Para o seu cigarro prestes a virar um toco, Pedro confessou, porém, que não acreditava no êxito do conselho dado. E continuou, por mais algum tempo, apreciando a floração primaveril do cajueiro nupcial que vibrava e sorria levemente ao vento com estremeções limpos e límpidos. Ah se Clarinda te visse, meu amigo cajueiro, pensou Pedro maldosamente, antes de voltar ao trabalho.</p>
<p>Meses depois, o escrivão de polícia recebeu uma carta de Clarindo: “Caro Pedrinho. Estamos em Paris, em repeteco de lua-de-mel. Seu conselho foi de extrema utilidade. Comecei fingindo orgasmos diante de Clarinda e cheguei ao auge de conseguir gozos intensos e verdadeiros. Só que de mãos dadas com ela, sob o efeito das mesmas excitações, e sem precisar de me concentrar em nenhuma outra mulher. A última vez que vibramos juntos como seres eroticamente siameses foi admirando o Arco do Triunfo. Foi realmente&#8230; triunfal (perdoe-me o trocadilho). Chequei à conclusão de que formamos o casal perfeito e já combinamos um próximo orgasmo, na Sala dos Espelhos do Palácio de Versalhes, como diante de um espelho de motel. PS.: Antes que você pergunte, movido por sua mente infame e suja, digo que preventivamente tenho usado camisinha. C&amp;C.”</p>
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		<title>As vinhas da ira ou mulher à beira de um ataque de nervos</title>
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		<pubDate>Fri, 06 Apr 2012 17:07:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Guilherme Santos Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa]]></category>

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		<description><![CDATA[Sábado, manhã de agosto, um começo de verão despachando o falso inverno capixaba pela porta dos fundos. De repente, um entrevero irrompe no meio da livraria Logos, na Praia do Suá. “Isto é um absurdo!” disse a mulher, num brado adamastor. Não era nem alta nem baixa, nem gorda nem magra, nem bonita nem feia,<a href="http://www.estacaocapixaba.com.br/literatura/as-vinhas-da-ira-ou-mulher-a-beira-de-um-ataque-de-nervos/">[Ler o restante do artigo]</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sábado, manhã de agosto, um começo de verão despachando o falso inverno capixaba pela porta dos fundos. De repente, um entrevero irrompe no meio da livraria Logos, na Praia do Suá.</p>
<p>“Isto é um absurdo!” disse a mulher, num brado adamastor.</p>
<p>Não era nem alta nem baixa, nem gorda nem magra, nem bonita nem feia, nem jovem nem velha – em suma, liberdade à imaginação para compor a personagem que liberava os primeiros vinagres da ira, naquela manhã em que o veranículo de agosto chutava o traseiro do inverno capixaba para além do trópico de Capricórnio. Havia perguntado o preço do dicionário do Houaiss e, quando a atendente informou, giganteou o berro.</p>
<p>“É por isso que brasileiro não tem o hábito da leitura! Podem fazer quantas bienais do livro quiserem que não dá para comprá-los pelos preços que são vendidos! Os livros didáticos então, nem se fala! É uma vergonha! Um país que precisa incentivar a educação e os livros para os estudantes custando os olhos da cara! E na cara do governo! Um governo que não é capaz de nomear um ministro da Educação que preste. Ainda bem que os livros da Internet vão acabar com este mercado negro, com esta ciganagem de editoras e livreiros!”</p>
<p>“A senhora me desculpe, mas eu não posso fazer nada,” disse a  atendente toda atrapalhada.</p>
<p>“É óbvio que não pode,” replicou a nem alta nem baixa.  “Mas também não precisa dizer isso como se tivesse me tocando da livraria&#8230;”</p>
<p>“Mas eu não a estou tocando&#8230;” explicou a atendente, sentindo a situação complicar-se. “Jamais me passou pela cabeça&#8230;”</p>
<p>“Passou sim,” cortou a nem gorda nem magra, alteando a voz vários decibéis na escala Ritcher. “Eu sei que pensou! Eu notei claramente pelo modo <em>que</em> você falou. Além de querer me cobrar um preço abusivo por um dicionário, praticamente me mandou às favas porque não tenho condição de comprá-lo. A senhorita me impôs uma dupla humilhação.”</p>
<p>No fundo da livraria, o grupo de amigos que ali se reúne aos sábados, perto do balcão do café, interrompeu sua diletante conversa prosaico-provinciana em torno do que prosaico-provincianamente desse e viesse (ou seja, em torno de nada e de tudo), para se concentrar na diatribe da nem bonita nem feia. Coincidência ou não, a nem jovem nem velha percebeu que estava sendo observada e, fisgando um dos integrantes da roda com o olhar de facada, perguntou à atendente, enquanto apontava para Pedro:</p>
<p>“Aquele ali não é escrivão de polícia?”</p>
<p>“É sim senhora,” rendeu-se a atendente entregando Pedro sem dó nem piedade.</p>
<p>“Pois então vou falar com ele” disse a nem velha nem alta partindo em direção à rodinha das conversas provinciano-prosaicas para o que desse e viesse.</p>
<p>Pedro estava sentado, de cigarro nos dedos, perto da porta que dá acesso ao banheiro dos fregueses, um verdadeiro “quartinho” que fica na área externa da livraria, onde mosquitos costumam fazer domicílio, dizem as boas línguas que domicílio intelectual. Por se tratar literalmente de um beco sem saída, o atacado Pedro ficou à mercê do furibundo assalto da nem alta nem gorda.</p>
<p>“O senhor viu o que aconteceu?” perguntou a nem gorda nem baixa vis a vis com o escrivão, sem nem sequer dar bom dia às demais figurinhas do grupo.</p>
<p>Apesar de escrivão de polícia, Pedro é antes de tudo um gentleman. Creio até que a frase merece retoque: <em>mesmo sendo</em> escrivão de polícia, Pedro é antes de tudo um gentleman. Razão pela qual respondeu calmamente à nem baixa nem magra:</p>
<p>“Para ser sincero, não vi direito&#8230;”</p>
<p>“Mas o senhor <em>ouviu</em>?” corrigiu-se a nem magra nem bonita, contrapondo-se à evasiva de Pedro.</p>
<p>Pedro olhou para o beco sem saída do banheiro e teve de reconhecer:</p>
<p>“Ouvir, eu ouvi, porque a senhora excedeu-se no tom de voz”.</p>
<p>“Excedi-me, uma vírgula! O que eu fiz foi reagir ao agravo de que fui vítima.”</p>
<p>“Tudo bem, minha senhora. Mas o que tenho eu a ver com isso?” perguntou Pedro, não mais tão gentleman como antes.</p>
<p>“O senhor não é escrivão de polícia? Pois quero lavrar uma queixa contra a livraria” disse a nem bonita nem velha (e Pedro teve a impressão de ver o vinagre da ira escorrer pelos cantos da boca da nem velha nem gorda).</p>
<p>“Se é isso que a senhora quer, apareça na delegacia que eu a atenderei,” respondeu o escrivão achando que estava encerrando o assunto com a nem gorda nem feia estacionada desafiadoramente no limite do seu cigarro.</p>
<p>“Não, meu caro! Eu quero lavrar a queixa <em>aqui e agora</em>. E quero invocar o testemunho dos presentes nesta mesa para a injúria que sofri,” retumberrou a nem feia nem alta.</p>
<p>Antes que Pedro dissesse qualquer coisa, Grijó agitou-se na cadeira e sapecou a martelada:</p>
<p>“Se a senhora está contando com o nosso testemunho pode ir tirando o cavalinho da chuva&#8230;”</p>
<p>“Quem é este senhor?” perguntou a Pedro a nem alta nem magra sem se intimidar com o corpanzil de quem a aparteara.</p>
<p>“Este senhor é o meu amigo Francisco Grijó Filho, um dos fundadores da confraria que se reúne aos sábados nesta livraria”, respondeu Pedro, cheio de orgulho e coragem cívica, vibrando com o marketing que fazia.</p>
<p>“Diz pra ela que eu não sou flor que se cheire,” interveio Grijó.</p>
<p>Pedro, porém, conteve o amigo com uma ligeira pressão em sua perna, e disse:</p>
<p>“Deixa que eu resolvo o caso.” E dirigindo-se a nem magra nem jovem explicou: “Minha senhora, não é por ser escrivão de polícia que tenho de atender às pessoas em qualquer lugar em que estejam. Aliás, como escrivão eu só posso atender na delegacia.”</p>
<p>“O senhor está querendo é fugir da sua responsabilidade. Para mim escrivão de polícia é policial. E policial tem a obrigação de atender os cidadãos onde os cidadãos precisarem de atendimento. Sou até capaz de apostar que o senhor tem carteirinha de policia no bolso,” rebateu a nem jovem nem baixa.</p>
<p>Inconformado com o que s vo na conversa Fernando Achiam velha eacabara de ouvir, Michel Minassa resolveu interferir com seu explosivo estilo verborrágico, envernizado de juridicidade.</p>
<p>“A senhora precisa compreender que numa sociedade organizada há padrões de conduta que têm de ser observados. Um escrivão de polícia não é a mesma coisa que um policial. O escrivão atende <em>na</em> delegacia e o policial <em>fora</em> da delegacia. É assim que o sistema funciona.”</p>
<p>A nem baixa nem feia encarou seu novo interlocutor e disse:</p>
<p>“O senhor parece até um <em>adevogado</em> falando. Mas como não pedi sua opinião, faça o favor de ficar com o pé fora da conversa porque&#8230;.” mas não conseguiu terminar a frase pois, neste instante, chegavam Silvio Folli e o cronista Roberto Mazzini, quase de braço dado.</p>
<p>Já avisado pela funcionária da livraria do <em>“quiprocu”</em> reinante, Silvio aproximou-se disposto a apaziguar os ânimos, educado e gentil.</p>
<p>“A senhora está precisando de alguma ajuda?”</p>
<p>A nem feia nem velha<strong> </strong>olhou-o de cima em baixo e contratorpedeou:</p>
<p>“Quem é o senhor?”</p>
<p>“Diz pra ela quem você é,” embedelhou-se na conversa Fernando Achiamé.</p>
<p>“Modestamente eu sou o dono da livraria,” respondeu Silvio, sem tremer a voz.</p>
<p>“O senhor é o dono&#8230;?” perguntou a nem velha nem baixa,<strong> </strong>como se não acreditasse no que os seus ouvidos ouviram, nem no que os seus olhos viam.</p>
<p>“Pode não parecer, mas é o dono mesmo &#8230;” confirmou Roberto Mazzini, concluindo a frase com sua característica risada ultrassônica.</p>
<p>“Pois se é o dono chegou na hora porque estou querendo lavrar uma queixa contra a sua livraria,” investiu a nem baixa nem bonita.</p>
<p>“Queixa por quê?” perguntou o dono na defensiva.</p>
<p>“Porque fui humilhada duplamente: primeiro, pelo preço exorbitante do dicionário do Houaiss que a livraria está cobrando; segundo, porque fui desconsiderada por sua funcionária por não comprar o dicionário.”</p>
<p>“E agora esta senhora quer que eu registre a queixa contra a livraria <em>aqui na livraria</em>”, acrescentou Pedro, esboçando um sorrisinho sardônico.</p>
<p>Neste ponto da narrativa é bom que se frise que se Pedro é um gentleman, Silvio é um diplomata. E foi à sua diplomacia suíça que ele recorreu na tentativa de encerrar a situação constrangedora que envolvia a livraria e seus amigos.</p>
<p>“Vamos fazer o seguinte, minha senhora. Eu a convido para tomar um cafezinho e ainda lhe dou de presente o dicionário do Houaiss. Está bem assim?”</p>
<p>“Em absoluto,” reagiu a nem bonita nem jovem. “Esta proposta me ofende novamente. Pensa que eu não vi o risinho de superioridade debaixo do seu bigode? O senhor está querendo me engabelar com uma proposta que considero outra humilhação. Não entrei nesta livraria para ganhar livro de esmola. Vim comprar dignamente um dicionário sem pensar jamais em passar o que estou passando. Agora é que vou mesmo procurar os meus direitos.”</p>
<p>Neste momento, o silêncio aflitivo que se abateu sobre a roda dos amigos foi quebrado por dois fatos abruptos: primeiro, pela retirada ostensiva de Sergio Bechara que, abraçado a quatro livros que estava amaciando desde cedo, como é de seu costume e hábito, levantou-se irritado de sua cadeira para ir comentar com a funcionária que atendera a nem jovem nem gorda: “Esta mulher é doida!”; o segundo fato, foi o pedido desesperado que Pedro fez a Luiz Guilherme:</p>
<p>“Pô, companheiro, vê se dá um jeito neste pesadelo.”</p>
<p>“Você tem razão, Pedrinho,” reconheceu o solicitado. “Como a situação fugiu inteiramente a controle, só resta uma saída antes que a nem gorda nem bonita, nem bonita nem alta, nem alta nem jovem<strong> – </strong>em<strong> </strong>suma, liberdade à imaginação para compor a personagem com o seu vinagre da ira –, tenha um ataque de nervos e a coisa piore: vamos botar um ponto final nesta história.</p>
<p>E ponto final!</p>
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		<title>Sorte peluda ou dia de índio</title>
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		<pubDate>Fri, 06 Apr 2012 17:00:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Guilherme Santos Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa]]></category>

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		<description><![CDATA[“Que sorte peluda a sua, Pedrinho,” disse o escrivão Nanico para o escrivão Pedro que chegava para substituí-lo na delegacia. “Qual foi o causo?” “Se você tivesse chegado mais cedo ia ter de levar o cacique Jurupiã até Aracruz. Levar no seu carro&#8230;” “Que conversa é essa?” quis saber Pedro tirando um cigarro do maço<a href="http://www.estacaocapixaba.com.br/literatura/sorte-peluda-ou-dia-de-indio/">[Ler o restante do artigo]</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;" align="center">“Que sorte peluda a sua, Pedrinho,” disse o escrivão Nanico para o escrivão Pedro que chegava para substituí-lo na delegacia.</p>
<p>“Qual foi o causo?”</p>
<p>“Se você tivesse chegado mais cedo ia ter de levar o cacique Jurupiã até Aracruz. Levar no seu carro&#8230;”</p>
<p>“Que conversa é essa?” quis saber Pedro tirando um cigarro do maço e oferecendo outro a Nanico que não se fez de rogado.</p>
<p>“É verdade. O cacique, que em português se chama Ubiratan da Silva, apareceu aqui de bermuda, cocar na cabeça e com a cara e a barriga pintadas com listas vermelhas e negras.”</p>
<p>“Ele é flamenguista?” gozou Pedrinho.</p>
<p>“Estava em trajes de guerra, cara! Só não trouxe o arco e as flechas, mas sua disposição era belicosa, pronto para arrasar quarteirão,” informou Nanico tirando do beiço uma talisca de fumo com a unha comprida do dedo mindinho.</p>
<p>“E veio por quê?” quis saber Pedro.</p>
<p>“Por causa de uns boias-frias que ele contratou para catar o café da aldeia e os contratados fugiram com o café e com o dinheiro do pagamento”.</p>
<p>“Ai o cacique virou uma onça e veio se queixar na delegacia?” indagou Pedro rindo.</p>
<p>“Virou uma onça daquelas que havia antigamente em Aracruz, quando ali só tinha matas. Mas Jurupiã, ou Ubirtatan da Silva, tanto faz, não veio apresentar queixa nenhuma. Queixa ele já tinha apresentado no INCRA, na FUNAI, no IBAMA, na Secretaria do Cidadão e dos Direitos Humanos, na Casa Civil do Governo do Estado, na Defensoria Pública e na Assembléia Legislativa. O que ele queria era condução para voltar para a aldeia!” disse Nanico competindo com o risinho anterior de Pedro.</p>
<p>“E veio procurar aqui na delegacia?” estranhou Pedro que se mostrava visivelmente interessado pela narrativa de Nanico.</p>
<p>“É que ele trouxe um cartão do deputado Ribeirinho, para o delegado Digital&#8230;”</p>
<p>“Estou começando a pescar o lelelê dessa cantiga. E Digital resolveu o problema?”</p>
<p>“Com muita má vontade, mas resolveu. Primeiro, ele quis atender o cacique na varandinha aí na frente. Mas o cacique foi logo perguntando, como quem não quer nada: ‘Delegado não vai mandar índio entrar?’ Digital não teve outro jeito senão levá-lo até o gabinete, apertando entre os dedos o cartão de Ribeirinho.”</p>
<p>“Que devia queimar como brasa&#8230;” observou Pedro.</p>
<p>“Que devia, devia. O fato é que quando Digital soube da pretensão do cacique, mandou ver se você já tinha chegado para levá-lo a Aracruz no seu carro&#8230;.”</p>
<p>“Aqui pra ele”, disse Pedro, arietando o dedo médio no espaço sideral da delegacia da Chapot Presvot, 272, em gesto pra lá de fálico.</p>
<p>“Sua sorte foi você se atrasar”, disse Nanico. “Mesmo assim, Digital insistiu para o cacique esperar. Ainda quis convencê-lo de que você é um funcionário exemplar (veja que hipócrita!), que nunca se atrasa, que não deveria demorar.”</p>
<p>“Por que Digital não mandou o cacique na RP da delegacia?”</p>
<p>“Ele bem que tentou. Mas sabe o que o espertalhão do cacique disse? Que em carro de polícia ele não entrava nem morto, porque se chegasse a Aracruz numa viatura policial iam dizer que ele tinha sido preso&#8230;” respondeu Nanico se deliciando com a cena a que assistira.</p>
<p>“Jurupiã disse viatura policial?” perguntou Pedro.</p>
<p>“Disse&#8230; Esses índios estão por dentro das coisas&#8230;”</p>
<p>“E eu é que ia entrar de gaiato?”</p>
<p>“Gaiatíssimo. Só que o cacique não quis saber de esperar o funcionário exemplar que você é (segundo ele, veja bem!) e começou a falar alto, dizendo que tinha uma reunião marcada na Prefeitura de Aracruz com uma ONG internacional para discutir a defesa da mata atlântica para os índios, um encontro que ele não podia faltar porque ia reunir os caciques das aldeias tupiniquins e guaranis contra a exploração das terras que pertencem aos índios desde que Cabral descobriu o Brasil e patati, patatá, culminando sabe com o quê, Pedrinho&#8230;?”</p>
<p>“Fala porque não sou entendido em índio&#8230;”</p>
<p>“&#8230; culminando por tirar do bolso da bermuda um celular do tamanho de uma caixa de fósforos e ligar para o deputado Ribeirinho&#8230;”</p>
<p>“Um celular?! ”</p>
<p>“Juruna não um tinha gravador? Jurupiã carrega um celular no bolso. Pegou o aparelhinho ultramoderno, ligou direto para o deputado, esculhambou com meio mundo, principalmente com Digital na cara dele, e ainda passou o celular para o delegado, depois de dizer ao deputado que esperava que ele resolvesse o caso diretamente com quem de direito&#8230;”</p>
<p>“E aí?”</p>
<p>“Bem, as abobrinhas que o deputado cuspiu para o delegado eu não ouvi. Só vi Digital se desmanchar numa sucessão de ‘claro, meu grande amigo, seus interesses junto da ONG e dos índios não serão prejudicados&#8230; vou dar toda a cobertura ao cacique, não precisa me <em>axingalhar</em>&#8230;’”</p>
<p>“Axingalhar?” indagou Pedro.</p>
<p>“Axingalhar,” confirmou Nanico, soltando uma gargalhada. “Era o nosso Digital em carne e poço de besteira falando no celular&#8230; Mas a história não acabou aí.”</p>
<p>“Teve mais?” E Pedro já estava no seu segundo cigarro e Nanico a acompanhá-lo.</p>
<p>“Teve. Depois de desligar o celular, Digital chamou o nosso motorista Simão e disse pra ele, na frente de Jurupiã: ‘vê se consegue outra viatura pra levar o nosso amigo até Aracruz, o mais depressa possível’. Foi quando o caldo entornou de vez porque a besta do Simão perguntou, ‘Outra viaatura? Que viaatura? Só se for no seu carro, delegado&#8230;’, e o cacique disse mais que depressa, ‘serve!”</p>
<p>“Como Digital saiu da enrascada?”, perguntou Pedro botando os dentes de fora ao imaginar a apertura em que Digital ficou.</p>
<p>“Teve que ceder o carro para Simão levar o cacique.”</p>
<p>“O Honda azul-turqueza?”</p>
<p>“Hiii, Pedro, você está por fora: o Honda já era. Digital agora está de carro novo, um utilitário Mitsubishi L 200 Diesel, de quatro portas, cinzaprateado que é um estouro de tecnologia automobilística! E quando Jurupiã se encaixou no banco do carona, com imponência de cacique em vitrine de shopping center, ainda fez o sinal de positivo para Digital, que o havia acompanhado até a saída da delegacia.”</p>
<p>“Jurupiã foi no Mitsu L200 de cocar na cabeça?” indagou a risível curiosidade de Pedro.</p>
<p>“Com as penas em pé, a cara pintada, o peito e a barriga lambuzados,  recendendo a urucum como um legítimo chefe indígena. E sabe o que Digital disse?</p>
<p>!?</p>
<p>“‘Pícolas! Agora vou gastar uma nota para limpar meu carro novo com detergente.”</p>
<p>“Fala pra ele mandar a conta pra Ribeirinho&#8230;”</p>
<p>“Você quer ver minha caveira, Pedro?”</p>
<p>“Não, Nanico. Como Digital é capaz de seguir o seu conselho, quero ver a caveira dele diante do novo esporro que vai tomar de Ribeirinho&#8230;”</p>
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		<title>Diários das Visitas Pastorais de 1880 e 1886 à Província do Espírito Santo</title>
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		<pubDate>Tue, 20 Mar 2012 09:00:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Estação Capixaba</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Bibliografia &#160; BRUNOW, Ricardo Costa. Anotações sobre a Cartografia Antiga em geral e em especial a de Vitória e do Espírito Santo. In RIHGES, Vitória, n. 61. Vitória: IHGES, 2007. CÓPIA fiel dos autos de sequestro, avaliação, arrematação e transpasse dos bens que pertenceram aos Padres Jesuítas da cidade de Vitória. 66 p., IHGB, lata 124,<a href="http://www.estacaocapixaba.com.br/sem-categoria/4830/">[Ler o restante do artigo]</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<span id="Bibliografia"><h3><strong>Bibliografia</strong></h3></span>
<p>&nbsp;</p>
<p>BRUNOW, Ricardo Costa. Anotações sobre a Cartografia Antiga em geral e em especial a de Vitória e do Espírito Santo. <em>In RIHGES</em>, Vitória, n. 61. Vitória: IHGES, 2007.</p>
<p>CÓPIA fiel dos autos de sequestro, avaliação, arrematação e transpasse dos bens que pertenceram aos Padres Jesuítas da cidade de Vitória. 66 p., IHGB, lata 124, D. 3. [www.estacaocapixaba.com.br]</p>
<p>COUTINHO, José Caetano da Silva. <em>O Espírito Santo em princípios do século XIX: apontamentos feitos pelo Bispo do Rio de Janeiro quando de sua viagem à capitania do Espírito Santo nos anos de 1812 e 1819 </em>(coordenação e transcrição do original por Maria Clara Medeiros Santos Neves). Vitória: Estação Capixaba e Cultural-ES, 2002. [Disponível também em  <a href="http://www.estacaocapixaba.com.br">www.estacaocapixaba.com.br</a>]</p>
<p>KRAUSS, Carlos. <em>Mapa geral das colônias de Santa Leopoldina, Santa Isabel e Rio Novo na Província do Espírito Santo. </em>1866. Arquivo Histórico do Exército, loc. 06.02.1193]</p>
<p>KRAUSS, Carlos. <em>Mapa geral da Província do Espírito Santo relativo às colônias e vias de comunicação. </em>1866. [Arquivo Histórico do Exército, loc. 15.03.3653]</p>
<p>SIQUEIRA, Francisco Antunes de. <em>Memórias do passado: a Vitória através de meio século </em>(estudo e notas de Fernando Achiamé). Vitória: Florecultura / Cultural-ES, 1999.</p>
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		<title>Diários das Visitas Pastorais de 1880 e 1886 à Província do Espírito Santo</title>
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		<pubDate>Tue, 20 Mar 2012 09:00:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Estação Capixaba</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Roteiro das visitas &#160; Com base nos registros dos Diários das duas visitas e também nos rascunhos do bispo (1880-1881), pudemos estabelecer os roteiros que aqui apresentamos. No entanto é importante frisar que, pelo fato de o bispo não ter procedido a todas as anotações, e também de se terem extraviado aquelas referentes a Vitória<a href="http://www.estacaocapixaba.com.br/sem-categoria/diarios-das-visitas-pastorais-de-1880-e-1886-a-provincia-do-espirito-santo-4/">[Ler o restante do artigo]</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<span id="Roteiro_das_visitas"><h3><strong>Roteiro das visitas</strong></h3></span>
<p>&nbsp;</p>
<p>Com base nos registros dos Diários das duas visitas e também nos rascunhos do bispo (1880-1881), pudemos estabelecer os roteiros que aqui apresentamos. No entanto é importante frisar que, pelo fato de o bispo não ter procedido a todas as anotações, e também de se terem extraviado aquelas referentes a Vitória e Vila Velha, este roteiro fica em parte comprometido. No caso de 1880-1881 constatamos, através dos rascunhos, que o bispo deixou de passar a limpo as anotações relativas ao período de 12 de novembro de 1880 a 24 de março de 1881.</p>
<p>Ao estabelecer os roteiros, adotamos como critério mencionar apenas aqueles locais em que o bispo efetivamente permaneceu, mesmo que por um dia, procedendo aos rituais de uma típica visita episcopal: celebração de missas, crismas, batizados etc.</p>
<span id="1880"><h4><strong>1880</strong></h4></span>
<p>Em 20 de julho o bispo diz, quando ainda se encontrava na Serra, que “Todo aquele numeroso povo se ajoelhava para cantar o Bendito em bela solfa semelhante à da Vitória&#8230;” deixando clara sua passagem, em data anterior, por Vitória.</p>
<p><strong>14 de julho</strong> – Serra: “À 1 hora da tarde deste dia chegávamos à Cidade da Serra&#8230;”</p>
<p><strong>17 de agosto</strong> – São José do Queimado (Serra): “montamos a cavalo e seguimos para a próxima Freguesia de S. José do Queimado [...] entramos pela povoação cujos poucos habitantes estavam à porta e janela por curiosidade&#8230;” “A chuva passou e pudemos sem ela montar a cavalo, e regressar para a Serra.”</p>
<p><strong>18 de agosto</strong> – Nova Almeida (Serra): “Já ficou dito quão alegre estava o espírito de todos no momento da chegada a esta Vila.”</p>
<p><strong>14 de setembro </strong>– Fundão: “Já quase no porto do Fundão fiz parar um pou­co minha canoa para esperar as outras, e daí a pouco abicávamos no desejado porto do Fundão.”</p>
<p><strong>20 de setembro </strong>– Nova Almeida (Serra): “Desembarcamos às 6h 35 da tar­de já com chuvisco que foi engrossando a pouco&#8230;”</p>
<p><strong>28 de setembro </strong>– Santa Cruz (Aracruz): “Daqui a pouco estávamos em S. Cruz.”</p>
<p><strong>15 de outubro </strong>– Fazenda Santa Rosa (do Sr. Marins, no Cachoeirinho): “Apenas chegamos logo desceu à praia o Sr. Marins e filhos&#8230;”</p>
<p><strong>23 de outubro </strong>– Cachoeirinho: “Pelas 10 horas mais ou menos chegamos ao Cachoeirinho e nos apeamos à porta da Igreja.”</p>
<p><strong>25 de outubro </strong>– Santa Cruz (Aracruz): “No pouco tempo de 1 quarto de hora isto é às 3h e poucos minutos desembarcávamos&#8230;”</p>
<p><strong>11 de novembro </strong>– Riacho (Aracruz): “Na margem esquerda estavam uns 20 cavaleiros da pequena Freguesia do Riacho, que me esperavam, havendo atirado no ar vários foguetes.”</p>
<p><strong>15 de novembro </strong>– Regência (Linhares): “Chegou-se (com b[om] grado) 11:30.” [Rascunho]</p>
<p><strong>18 de novembro </strong>– Povoação (Linhares): “Parada na Povoação.”; Três Ilhas e Linhares. [Rascunho]</p>
<p><strong>30 de novembro </strong>– Baixo Guandu: “Vim a Guandu por uma ótima estrada pelo mato.” [Rascunho]</p>
<p><strong>6 de dezembro </strong>– Minas Gerais. [Rascunho]</p>
<p><strong>9 de dezembro </strong>– Baixo Guandu. [Rascunho]</p>
<p><strong>17 de dezembro </strong>– Linhares. [Rascunho]</p>
<span id="1881"><h4><strong>1881</strong></h4></span>
<p><strong>14 de janeiro </strong>– Povoação (Linhares). [Rascunho]</p>
<p><strong>23 de janeiro </strong>– Riacho (Aracruz). [Rascunho]</p>
<p><strong>22 de fevereiro </strong>– Lagoa do Aguiar (Linhares). [Rascunho]</p>
<p><strong>5 de março </strong>– Riacho (Aracruz). [Rascunho]</p>
<p><strong>15 de março </strong>– Santa Cruz (Aracruz). [Rascunho]</p>
<p><strong>18 de março </strong>– Nova de Almeida (Serra): “Todos me acompanharam até Almeida.” [Rascunho]</p>
<p><strong>19 de março </strong>– Serra. [Rascunho]</p>
<span id="1886"><h4><strong>1886</strong></h4></span>
<p><strong>15 de fevereiro </strong>– Itapemirim: “Enfim lá está Itapemirim!”</p>
<p><strong>2 de março </strong>– Cachoeiro de Itapemirim: “Enfim chegamos à Vila de S. Pedro dos Cachoeiros de Itapemirim; foi pena ser ao entrar da noite&#8230;”</p>
<p><strong>17 de março </strong>– Fazenda Monte Líbano (do Capitão Francisco de Souza Mon­teiro, em Cachoeiro de Itapemirim): “Junto aos arcos viam-se os escravos da Fazenda de joelhos e como em linhas de atiradores de um e outro lado. Pas­samos pelo meio e a todos eu ia lançando a bênção. Foi pena ser já entrada a noite.”</p>
<p><strong>13 de abril </strong>– Itapemirim: “Eram 11 horas da noite mais ou menos quando chegamos à Vila de Itapemirim.”</p>
<p><strong>16 de abril </strong>– Piúma: “Já de longe avistávamos a frente da Capela de Piúma [...] Entramos (eram 11h e 50’ minutos) [e] tratamos de atracar no trapiche.”; Anchieta (antes Benevente): “Lá está Benevente, a antiga Reritiba!”; Anchie­ta: “Desembarquei e os Padres [em Benevente].”</p>
<p><strong>10 de maio </strong>– Guarapari: “Nunca me hei de esquecer de minha chegada a Guarapari.”</p>
<p><strong>10 de junho </strong>– Anchieta: “Pelas dez horas do dia atracamos na praia de Be­nevente pertinho do cais do Imperador.”</p>
<p><strong>17 de junho </strong>– Alfredo Chaves: “às 5h da tarde abicávamos ao porto de de­sembarque no tão falado Alfredo Chaves&#8230;”</p>
<p><strong>3 e 4 de julho </strong>– Nova Mântua e São João (Alfredo Chaves).</p>
<p><strong>8 de julho </strong>– Fazenda de Feliciano Antunes (em Anchieta).</p>
<p><strong>11 de julho </strong>– Anchieta: “De terra soltaram 2 ou 3 dúzias de foguetes e atracou a canoa não no Cais do Imperador, mas defronte de um pequeno beco quase defronte da porta da casa de nossa residência, que é a mesma das outras vezes.”</p>
<p><strong>24 de julho </strong>– Itapemirim: “Eram pois 11h 15’ da manhã quando chegamos à barra do Rio Itapemirim”.</p>
<p><strong>31 de julho </strong>– Fazenda Monte Líbano: “Eis-nos outra vez na casa do bom Capitão Francisco de Souza Monteiro: Fazenda do Monte Líbano.”</p>
<p><strong>10 de agosto </strong>– Fazenda da Independência (do Sr. Mateus Vieira Machado, em Castelo): “quase às 4 horas chegamos à Fazenda chamada da Indepen­dência&#8230;”</p>
<p><strong>11 de agosto </strong>– Fazenda dos Alpes (do Sr. Agostinho e D. Violante, em Cas­telo).</p>
<p><strong>23 de agosto </strong>– Iúna (antes São Pedro de Alcântara do Rio Pardo): “Apeamo­-nos e alguns senhores se mostravam muito contentes de verem aqui o Bis­po&#8230;”</p>
<p><strong>7 de setembro </strong>– Fazenda de Joaquim Antônio Dias (Iúna).</p>
<p><strong>8 de setembro </strong>– Afonso Cláudio (antes São Sebastião do Alto Guandu): “às 5h 25 começamos a entrar na povoação de S. Sebastião do Guandu&#8230;”</p>
<p><strong>21 de setembro </strong>– Fazenda da Boa Vista (do Sr. Manoel Fernandes Moura, em Afonso Cláudio): “Às 6 horas e 10 minutos da tarde apeávamo-nos na Fazenda da Boa Vista&#8230;”</p>
<p><strong>22 de setembro </strong>– Afonsino (hoje Conceição do Castelo): “Antes de chegar­mos subiram ao ar alguns foguetes, repicaram os sinos&#8230;”</p>
<p><strong>27 de setembro </strong>– Fazenda dos Alpes: “Enfim chegamos tendo feito em 2h ¾ as três léguas que há do Afonsinho aos Alpes&#8230;”</p>
<p><strong>1º de outubro </strong>– Fazenda da Povoação (de D. Lina Laudegária Vieira de Souza, no Castelo): “Fazenda da Povoação de D. Lina, e aqui chegamos em pouco tempo, porque distará apenas uma meia légua.”</p>
<p><strong>2 de outubro </strong>– Fazenda do Pensamento (do Sr. João Vieira, no Castelo): “Era pois já noite quando chegamos. O bom Sr. João Vieira desceu abaixo para receber-me.”</p>
<p><strong>4 de outubro </strong>– Muniz Freire (antes Arraial do Espírito Santo): “Chegamos às 6 h 40’. Poucos foram os foguetes soltados; bastantes os repiques&#8230;”</p>
<p><strong>16 de outubro </strong>– Iúna: “À 1h 55’ tínhamos à frente no alto de um monte o cemitério do Rio Pardo&#8230;”</p>
<p><strong>5 de novembro </strong>– Arraial de N. Sra. da Penha de S. Cruz do Rio Pardo (Iúna): “pelas 3h 40’ chegávamos ao pequeno Arraial de S. Cruz do Rio Pardo.”</p>
<p><strong>12 de novembro </strong>– Fazenda do Espírito Santo (de Joaquina Inácia): “À 1h 45 atravessamos o córrego da Fazenda do Espírito Santo, e às 2h justas em meu relógio eu de um pequeno alto avistei o famoso Rio José Pedro, e logo a Fazenda&#8230;”</p>
<p><strong>13 de novembro </strong>– Quartel do Príncipe (Iúna): “Não havia dúvida, estáva­mos no antigo Quartel da Vila do Príncipe&#8230;”</p>
<p><strong>17 de novembro </strong>– Fazenda do Espírito Santo: “Às 2h 50’ da tarde chega­mos&#8230;”</p>
<p><strong>18 de novembro </strong>– Fazenda de Santo Antônio ou dos Cláudios.</p>
<p><strong>26 de novembro </strong>– Fazenda de São Domingos (do Comendador Francisco Tomás Leite Ribeiro , em Lajinha, MG): “Saí do cemitério às 2h 33 e às 2h 40 apeamo-nos no sobrado da Fazenda&#8230;”</p>
<p><strong>28 de novembro </strong>– Fazenda de São João (do Sr. Gabriel Norberto da Silva, localizada provavelmente em Iúna).</p>
<p><strong>3 de dezembro </strong>– Fazenda Santa Clara (de D. Clara, viúva de Francisco Ber­nardo dos Santos): “apeamo-nos à porta da Fazenda S. Clara, termo de nossa viagem de hoje &#8230;”</p>
<p><strong>4 de dezembro </strong>– Iúna: “À 1h 54’ passamos o sítio do Machado, mais adiante umas casas onde o Pe. Figueiredo havia levado o Viático em Procissão, e eis­-nos no Arraial.”</p>
<p><strong>10 de dezembro </strong>– Muniz Freire: “Apeamo-nos à porta do Sr. Marcílio, onde já estivéramos, e meu relógio marcava 3h 45.”</p>
<p><strong>13 de dezembro </strong>– Fazenda do Tabuleiro (do Sr. Manoel Ribeiro Ramos, provavelmente localizada em Muniz Freire): “às 5h 30 apeamo-nos na Fazenda do Sr. Manoel Ramos, no sítio chamado Tabuleiro banhado pelo S. Domingos.”</p>
<p><strong>14 de dezembro</strong> – Fazenda Boa Vista (de D. Francisca Amélia Correia Braga Teixeira, provavelmente localizada em Muniz Freire).</p>
<p><strong>16 de dezembro</strong> – Fazenda da Fortaleza (do Sr. Alferes Mateus Xavier Monteiro Nogueira da Gama): “enfim às 5h 30’ apeamo-nos na bela casa do Sr. Alferes – na sua Fazenda chamada Fortaleza.”</p>
<p><strong>18 de dezembro</strong> – Alegre (antes Nossa Senhora da Penha do Alegre): “Estávamos com o arraial à vista. Repicaram os sinos e muitos e repetidos foguetes estouraram nos ares. Eram 12h 30’.”</p>
<span id="1887"><h4><strong>1887</strong></h4></span>
<p><strong>15 de janeiro</strong> – Fazenda do Paraíso (do Sr. Vicente Ferreira de Paiva, em Alegre): “Estávamos pelas 7 horas da tarde na Fazenda do Paraíso, onde nos apeamos ao som do sino da Fazenda.”</p>
<p><strong>1º de fevereiro</strong> – Fazenda do Oriente (do Sr. Misael Eugênio, em Mimoso do Sul): “Às 4h 15’chegamos à Fazenda do Oriente.”</p>
<p><strong>4 de fevereiro</strong> – Fazenda Boa Esperança (do Sr. Geraldo Pires de Amorim): “e logo chegamos à porteira onde havia um arco de folhagem e além deste no terreiro mais 3 defronte e perto da frente da casa e outro à porta.”</p>
<p><strong>21 de fevereiro</strong> – Fazenda Monte Líbano: “Eram 9h 20’ da manhã quando pela terceira vez entramos pela casa hospitaleira do Bom Capitão Souza.”</p>
<p><strong>2 de março</strong> – Itapemirim: “Com todas as demoras, gastamos do Cachoeiro até aqui perto de 7 horas de marcha. Fomos recebidos com alguns foguetes, pela banda de música&#8230;”</p>
<p><strong>27 de março</strong> – Volta para a Corte (Rio de Janeiro): “Chegamos ao Vapor, que é o mesmo Mayrink que em Fevereiro de 1886 nos trouxera da Corte a esta Barra, e ainda comandado pelo mesmo bom Costa.”</p>
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		<title>Diários das Visitas Pastorais de 1880 e 1886 à Província do Espírito Santo</title>
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		<pubDate>Tue, 20 Mar 2012 09:00:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Estação Capixaba</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Espero em tua palavra  Que os que temem a ti vejam-me com alegria, pois espero em tua palavra. Salmos 119, 74 &#160; Finalmente, temos em mãos os apontamentos das visitas pastorais do bispo D. Pedro Maria de Lacerda à província do Espírito Santo em 1880-1881 e em 1886-1887. E se dizemos assim é para enfatizar<a href="http://www.estacaocapixaba.com.br/sem-categoria/diarios-das-visitas-pastorais-de-1880-e-1886-a-provincia-do-espirito-santo-5/">[Ler o restante do artigo]</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<span id="Espero_em_tua_palavra"><h3><strong>Espero em tua palavra</strong></h3></span>
<p style="text-align: right;"> <em>Que os que temem a ti vejam-me com alegria,</em></p>
<p align="right"><em>pois espero em tua palavra.</em></p>
<p align="right">Salmos 119, 74</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Finalmente, temos em mãos os apontamentos das visitas pastorais do bispo D. Pedro Maria de Lacerda à província do Espírito Santo em 1880-1881 e em 1886-1887. E se dizemos assim é para enfatizar que, finalmente, cumpriu-se antigo desejo de Guilherme Santos Neves, a justo título o mais celebrado folclorista capixaba. Ele é um dos primeiros dos nossos pesquisadores, se­não o primeiro, a utilizar os documentos episcopais como fonte de pesqui­sa e clamar pela publicação dos que ainda estivessem inéditos. E principia essa campanha quando toma conhecimento, certamente por meio da obra de Nina Rodrigues e Artur Ramos, de notícias sobre a cabula registradas em carta pastoral impressa de D. João Batista Correia Nery, primeiro bispo do Espírito Santo. Utiliza tais notícias em artigo de 1963 e, em outro trabalho, apresenta e publica anotações originais do prelado sobre esse culto afro­-brasileiro, presente no norte capixaba.</p>
<p>Em princípios dos anos 1960, Guilherme Santos Neves, “graças principal­mente ao meu prezado amigo Renato Pacheco (sempre ele!)”, percorre pági­na por página os manuscritos que registram as visitas pastorais de D. Pedro Maria de Lacerda para extrair informações pertinentes à cultura popular do Espírito Santo.<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-1" id="refmark-1">[1]</a> Com base nelas, o folclorista capixaba, possuidor de espírito investigativo para se informar e alma generosa ao informar sobre tudo o que se refere ao seu estado, escreve diversos artigos, a exemplo do relativo a bandas de música então existentes. A partir dessa época, chama a atenção reiteradamente para a importância dos relatos episcopais: “Como se está a ver, esses cadernos dos senhores bispos constituem documentário de alto e valioso teor informativo que – já o dissemos mil vezes – deveriam ser publicados pela Cúria, pelo Estado ou pela Universidade. Pois não? (Pois sim&#8230;)”.<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-2" id="refmark-2">[2]</a></p>
<p>Passado quase meio século desse apelo para valorizar os documentos que interessam à nossa história, com emoção constatamos que familiares do insigne folclorista, fiéis à sua memória, nos proporcionam acesso aos preciosos apontamentos das visitas de D. Lacerda à província do Espírito Santo. Devido ao empenho e competência da museóloga Maria Clara Medeiros Santos Neves, na qualidade de organizadora da edição; ao trabalho de transcrição dos originais, realizado pela historiadora Vanessa Brasiliense; e à revisão e edição final de texto feita pelo escritor Reinaldo Santos Neves, estão acessíveis à comunidade acadêmica e a todos, urbi et orbi, uma fonte primária da importância que possuem os relatórios das visitas ao Espírito Santo de D. Pedro Maria de Lacerda. Finalmente.</p>
<p>Também Maria Stella de Novaes consulta os apontamentos do senhor bispo D. Lacerda. Na sua obra mais conhecida,<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-3" id="refmark-3">[3]</a> registra a visita de 1880-1881 (mas para tanto se vale também de outras fontes, além do respectivo relatório, cf. op. cit. p. 279), a de 1886-1887 (p. 300), e até um retiro espiritual por ele promovido: “Nesse ano [1882], D. Pedro Maria de Lacerda reuniu o clero, para um retiro espiritual, a começar de 7 de maio. Foi o primeiro retiro promovido no Espírito Santo” (p. 286). Ao se referir à visita pastoral de 1886-1887, a ilustre historiadora menciona o bispo em Vitória e na Serra (p. 300) e, assim, faz confusão com aquela ocorrida em 1880-1881, quando o prelado esteve realmente nos mencionados locais. E atribui a esforços do monsenhor João Pires do Amorim, “membro de ilustre família espírito-santense [...] e vigário-geral do Rio de Janeiro”, a segunda visita episcopal ao Espírito Santo (p. 324).</p>
<p>Da mesma forma Renato Pacheco estuda estes registros e divulga sua importância para os interessados em temas do universo capixaba. Em breve artigo, informa as circunstâncias da redescoberta, em 1963, dos manuscritos no Arquivo da Cúria Metropolitana de Vitória; traça ligeiro perfil biográfico do bispo; transcreve sua passagem por Piúma em 26 de abril de 1886; e reproduz</p>
<p>o fac-símile de uma página dos “diários”.<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-4" id="refmark-4">[4]</a> Mais recentemente, padre Adwal­ter Antônio Carnielli faz largo uso dos apontamentos inéditos das duas visi­tas, ao elaborar prestante obra sobre a história do catolicismo no estado do Espírito Santo.<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-5" id="refmark-5">[5]</a> E outros pesquisadores do passado capixaba já conheceram trechos dos relatórios de D. Lacerda e utilizaram informações neles contidas.</p>
<p align="center">* * *</p>
<p>Como fazer a contextualização histórica destes textos raros? De início, lem­brando o evidente – a realidade em que vive e trabalha seu autor é bem di­versa da que existe em nossos dias. E uma das maiores diferenças, na esfera político-religiosa, consiste no regime do padroado, presente no reino portu­guês e que permanece, como uma sobrevivência, no Império brasileiro. Insti­tuído em Portugal e nos seus domínios por meio de diversos acordos entre a monarquia e a Santa Sé, resulta em grande proveito para as duas instituições. A Igreja recebe amplo apoio régio em questões materiais e militares, acresci­do da garantia de, no mundo português, o catolicismo permanecer a religião oficial e exclusiva, todas as outras consideradas seitas inferiores ou perigosas heresias e, portanto, combatidas. Por sua vez, o monarca vale-se da atuação religiosa dos clérigos católicos para manter e aumentar o controle sobre os povos existentes na metrópole e em suas possessões. O regime do padroado sujeita os padres e bispos ao rei, que tinha o direito de intervir em questões religiosas. Por isso, também é conhecido como regalismo.</p>
<p>O Brasil independente manteve o sistema regalista, que prossegue sem maio­res mudanças. A Constituição Política do Império de 1824 determina no seu artigo 5º: “A Religião Católica Apostólica Romana continuará a ser a Religião do Império. Todas as outras Religiões serão permitidas com seu culto domés­tico, ou particular em casas para isso destinadas, sem forma alguma exterior de Templo”. Mas para contrabalançar esse privilégio, a mesma Carta, no arti­go 102, especifica dentre as principais atribuições do imperador, na qualidade de chefe do poder executivo, as seguintes: “II – Nomear Bispos, e prover os Benefícios Eclesiásticos”; e “XIV – Conceder, ou negar o Beneplácito aos Decretos dos Concílios, e Letras Apostólicas, e quaisquer outras Constitui­ções Eclesiásticas que se não opuserem à Constituição; e precedendo apro­vação da Assembleia, se contiverem disposição geral”.<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-6" id="refmark-6">[6]</a> Assim, os prelados católicos e todos os sacerdotes que ocupam cargos com renda são nomeados pelo imperador e, em alguns casos, confirmados pelo Vaticano. E todas as principais determinações emanadas de Roma devem receber aprovação, me­diante despacho favorável (o beneplácito) do poder civil, representado pelo imperador, para serem aplicadas no país. Do contrário, não têm qualquer va­lidade legal, sejam de caráter doutrinário, burocrático ou mesmo disciplinar.</p>
<p>Devido ao regime do padroado, os bispos e padres também exercem funções de competência do governo, e para tanto recebem retribuição financeira – são empregados públicos. Entre tais atribuições estão aquelas hoje conhe­cidas como registro civil. Como vimos, no Brasil Império o catolicismo é a religião de Estado. Pelo menos em princípio, todas as pessoas devem ser batizadas, casar-se na igreja, e ter sua morte registrada por um sacerdote, além de serem enterradas em campo santo. Desta maneira, a vida dos sú­ditos brasileiros, do berço ao túmulo, está submetida à religião católica. O governo imperial incentiva as irmandades, a catolicidade leiga de modo geral; dá preferência aos padres seculares, controláveis com maior facilidade pelo vínculo direto aos bispos; restringe, portanto, a atuação das ordens religiosas, masculinas ou femininas, chegando a proibir o noviciado; cerceia a criação e expansão de seminários&#8230; Essa união entre o Estado e a Igreja, se representa benefícios para ambos, sempre tem o predomínio do poder civil sobre o religioso. E também contribui para tensão permanente entre as duas esferas de autoridade, o que dá margem a contínuas polêmicas e disputas de mando; por vezes culmina em confronto sério, de que faz prova a conhecida Questão Religiosa de 1872-1875.</p>
<p align="center">* * *</p>
<p>O ultramontanismo constitui outra característica que diferencia da atualidade o Brasil e a Igreja Católica de D. Lacerda. A expressão deriva de ultramonta­no, “que ou o que está além dos montes”, quer dizer Roma, situada além dos Alpes em relação à Europa, especialmente à França. Esse “conjunto de ideias e doutrinas que apoiam a autoridade e o poder absoluto do papa”, ou arcabouço teórico defendido pelos católicos tradicionalistas, também é conhecido como romanização, pois luta por uma Igreja extremamente centralizada em Roma e defende estrita observância de normas e práticas do catolicismo emanadas do Vaticano.<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-7" id="refmark-7">[7]</a></p>
<p>A doutrina ultramontana assume seus traços mais evidentes no pontificado de Pio IX (1846-1878), o papa que nomeia D. Pedro Maria de Lacerda bispo do Rio de Janeiro. Ela encontra-se sistematizada na encíclica Quanta Cura, de dezembro de 1864, que traz como anexo o famoso Syllabus Errorum. Segundo Eric Hobsbawm, “todas as igrejas oficiais eram ipso facto conservadoras, embora apenas a maior dela, a Católica Romana, tenha formulado sua posição de aberta hostilidade à crescente tendência liberal”. E enfatiza que o Sílabo dos Erros “condenou, de maneira igualmente implacável, oitenta erros, incluindo o ‘naturalismo’ (que negava a ação de Deus sobre os homens e o mundo), o ‘racionalismo’ (o uso da razão sem referência a Deus), o ‘racionalismo moderado’ (a recusa de supervisão eclesiástica por parte da ciência e da filosofia), o ‘indiferentismo’ (escolha livre de religião ou mesmo ausência dela), a educação laica, a separação da Igreja e do Estado e, em geral (erro nº 80), a ideia de que o ‘Pontífice Romano pode e deve reconciliar-se e chegar a bom termo com o progresso, o liberalismo e a civilização moderna’”.<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-8" id="refmark-8">[8]</a> O ultramontanismo se manifesta de forma concreta por meio do Concílio Vaticano I, que acontece de dezembro de 1869 a dezembro do ano seguinte e do qual D. Lacerda participa, e pela proclamação do dogma da infalibilidade papal, em março de 1870, na quarta sessão do conclave.</p>
<p>No Brasil, a reforma ultramontana ou, como também é conhecida, o Movimento Brasileiro de Reforma Católica do século XIX, tem como pioneiros D. Romualdo Antônio de Seixas, arcebispo da Bahia (1827-1860) e D. Antônio Ferreira Viçoso, bispo de Mariana (1844-1875), apoiados por D. Antônio Joaquim de Melo, bispo de São Paulo (1852-1861). D. Viçoso é o grande mentor espiritual de D. Pedro Maria de Lacerda, que a ele se refere com muito carinho e admiração em várias passagens destes relatórios.</p>
<p>À primeira vista, parece paradoxal que a reforma ultramontana, com os olhos voltados para as diretrizes emanadas de Roma, floresça em um país que su­bordina o clero ao imperador, por manter a união do Trono com o Altar. Ao analisar a institucionalização desse sistema regalista, Augustin Wernet cons­tata que “na fase final da organização do Estado brasileiro, a maioria dos políticos e, sobretudo, os principais conselheiros de D. Pedro II chegaram à convicção de que as ideias do conservadorismo e do catolicismo ultramonta­no serviriam de melhor fundamentação e justificação para a ordem vigente, do que os princípios liberais e as ideias do catolicismo” iluminista. Wernet faz uma correlação entre o pensamento conservador ultramontano e os inte­resses conservadores na política para explicar a supremacia da romanização no Brasil: “O princípio monárquico e a centralização seriam mais adequados do que as ideias republicanas e federalistas. O catolicismo ultramontano, por­tanto, não apenas correspondeu à orientação da Igreja Católica, oficialmen­te apresentada no centro da cristandade, mas também aos interessados na manutenção do <em>status quo </em>no país.”.<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-9" id="refmark-9">[9]</a> Há um encontro de dois interesses. Ao governo imperial importa reformar os costumes e ações do clero, que abri­ga parcela substancial de sacerdotes despreparados, dissolutos e, sobretudo, negligentes em relação às necessidades religiosas dos fiéis e às exigências da hierarquia e do culto católicos. E a Igreja vê-se favorecida com a manutenção do padroado, pois continua como a única religião oficial do Império e, ao mesmo tempo, dele recebe apoio material e institucional. No entanto, como se sabe, essa união cobra alto preço às duas instâncias de poder.</p>
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<p>No âmbito deste escrito, não cabe exame mais profundo da vida e da obra de D. Lacerda. Informações mais minuciosas existem em publicações específi­cas e nos processos de sua ordenação sacerdotal e sagração episcopal, que os arquivos eclesiásticos do Rio de Janeiro e de Mariana devem guardar. Pedro Maria de Lacerda nasce no Rio de Janeiro, paróquia da Candelária, a 31 de janeiro de 1830, filho legítimo de João Maria Pereira de Lacerda e Camila Leonor Pontes de Lacerda, portuguesa que vem para o Brasil com cinco anos de idade. João Maria de Lacerda, de pai português e mãe brasileira, segue carreira na Marinha, sendo reformado em 1861 no posto de capitão de mar e guerra. Ainda como guarda-marinha, faz parte da tripulação do brigue de guerra Pampeiro, que naufraga na barra da baía de Vitória em outubro de 1828, e precisa receber “ordem terminante” de modo que “não arriscasse a vida para salvar alguns objetos da fazenda nacional”. Católico fervoroso, empenha-se em obras de caridade, colabora com jornais fluminenses e publica obras ligadas à economia e matemática.<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-10" id="refmark-10">[10]</a> Dos 11 filhos do casal, além do primogênito Pedro Maria, também se distingue Joaquim Maria de Lacerda, advogado, professor, editor de livros e escritor de obras didáticas, que morre na capital francesa, onde mora há muitos anos, em dezembro de 1886, quando seu irmão encontra-se em visita pastoral no Espírito Santo.<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-11" id="refmark-11">[11]</a></p>
<p>Pedro Maria de Lacerda faz seus estudos iniciais no Rio de Janeiro e frequenta as aulas de latim do padre Antônio Vieira Borges. Em 1841, com 11 anos de idade, seus pais o mandam, na companhia do sacerdote Luís Antônio dos Santos, recém-ordenado, para o famoso Colégio Nossa Senhora Mãe dos Homens na Serra do Caraça, que tem como reitor o padre lazarista português Antônio Ferreira Viçoso, depois bispo de Mariana. Por causa da repressão à Revolução Liberal em Minas Gerais, o estudante Pedro Maria transfere-se, em setembro de 1842, para Congonhas do Campo, onde os padres lazaristas já estavam instalados. O sacerdote Antônio Alves Ferreira dos Santos, o jovem capixaba “padre Alves” tão citado por D. Lacerda nos apontamentos da visita de 1886-1887, e que em 1914 publica um livro sobre a história da arquidiocese do Rio de Janeiro, assim descreve essa etapa da vida de quem seria titular do bispado fluminense: “Dotado de talento superior, terminou dentro de pouco tempo seus estudos preparatórios, inclusive filosofia racional e moral, e passou a cursar a filosofia e teologia e outras matérias eclesiásticas em Mariana, no Seminário Episcopal, para onde foi levado pelo seu antigo reitor D. Antônio Ferreira Viçoso, que passou por Congonhas [em 1844], de volta do Rio de Janeiro onde viera receber a sagração de bispo daquela cidade”.<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-12" id="refmark-12">[12]</a></p>
<p>Ainda bem moço, Pedro Maria acompanha o bispo de Mariana em visitas pastorais por Minas, passagens de sua vida que relembra nostálgico nestes apontamentos. Em 1848, D. Viçoso encaminha a Roma promissoras inte­ligências de Mariana, e futuros bispos: Pedro Maria de Lacerda, então com 18 anos, e os jovens padres João Antônio dos Santos, mais tarde bispo de Diamantina, e Luís Antônio dos Santos, depois bispo do Ceará e arcebispo da Bahia. Na Cidade Eterna, onde chega em julho de 1848 após passar por Paris, Pedro Maria estuda no Colégio Romano às expensas de seu pai e, em setembro do ano seguinte, obtém o grau de doutor em teologia. Informa-nos ainda Antônio Alves F. dos Santos que “de volta ao Brasil emprega-se no Se­minário de Mariana, como professor de geografia e filosofia, e pouco depois é nomeado professor público de geografia e história do Liceu Marianense”. Com apenas 22 anos, “e vencendo todas as perplexidades de sua consciência timorata, é promovido a todas as ordens por D. Viçoso, que lhe confere em Mariana, na capela do seu palácio, tonsura e ordens menores em 18 de abril, subdiaconato em 16 de maio, diaconato em 5 de junho e presbiterato em 10 de agosto de 1852, com dispensa de idade. Celebra sua primeira missa no oratório do pequeno hospital das Irmãs de Caridade da mesma cidade”. No mês seguinte à sua ordenação, é efetivado como cônego da Sé de Mariana, “à qual serviu até junho de 1862, em que renunciou a sua cadeira por motivo de escrúpulos no desempenho de suas obrigações”.<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-13" id="refmark-13">[13]</a> Por ter se formado e tra­balhado com padres da Congregação das Missões de São Vicente de Paulo, também chamados de vicentinos ou lazaristas, alguns autores a ele se referem como membro dessa associação religiosa.</p>
<p>O mundo eclesiástico brasileiro logo toma conhecimento do cônego Lacer­da, por dedicar-se com vigor às atividades da Sé de Mariana, nas quais empe­nha suas qualidades morais e intelectuais. O titular da diocese de São Paulo, D. Antônio Joaquim de Melo, o quer como bispo coadjutor com direito à sucessão, mas D. Viçoso é contra, pretextando não poder ficar sem seu prin­cipal auxiliar que, com trinta anos, se encontra novo ainda para ser elevado à dignidade episcopal. O cônego Lacerda, “de caráter tímido, modesto e des­pretensioso, embora firme e reto, dá graças a Deus, quando se vê dispensado de tanta distinção que o apavorava e livre de maiores responsabilidades. É entretanto decorado pela Nunciatura Apostólica com as honras de Protono­tário a 31 de julho de 1861. Nessa ocasião foi também nomeado examinador pró-sinodal por D. Viçoso”, dignidades conferidas em reconhecimento ao seu trabalho.<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-14" id="refmark-14">[14]</a> Vago o bispado do Rio de Janeiro desde 1863 com a morte de D. Manoel do Monte Rodrigues de Araújo, conde de Irajá, o imperador Pedro II assina, em 1º fevereiro de 1868, decreto de nomeação do religio­so Pedro Maria de Lacerda para ocupá-la. Na escolha imperial deve ter in­fluenciado, além dos dotes pessoais do nomeado, a indicação do marianense José Joaquim Fernandes Torres, detentor no ministério Zacarias da pasta do Império, justamente a que trata das questões entre o governo e a Igreja. O cônego Lacerda solicita ao imperador um mês de prazo para decidir sobre a indicação, a ser confirmada pelo Vaticano. “Chove, então, uma série de cartas para Mariana, animando-o a que aceitasse, não só da família, mas também do clero e episcopado”. Sua mãe também lhe escreve, e apela para que assumisse a nova dignidade, mas um bilhete de D. Viçoso, de 29 de março, é decisivo para sua resolução.<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-15" id="refmark-15">[15]</a></p>
<p>Na catedral daquela cidade mineira, a 10 de janeiro de 1869, acontece sua sagração episcopal, presidida por D. Antônio Ferreira Viçoso. Toma posse a 31 do mesmo mês, por procuração, e faz a entrada solene na diocese do Rio de Janeiro no dia 8 de março.<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-16" id="refmark-16">[16]</a> Na qualidade de prelado reformador, ultramontano, partidário da romanização, D. Pedro Maria de Lacerda atua de forma intensa e coerente, tanto no aspecto doutrinário, quanto nas atividades práticas. Suas palavras e atitudes sempre repercutem de maneira amplificada no país, pois é o titular da diocese que sedia a Corte brasileira, a capital do Império. No tocante à doutrina, trata vigorosa e publicamente de temas cujo enfrentamento julga imprescindível para a reforma da sociedade e do clero brasileiros. Temas no centro de polêmicas exacerbadas à época e que devem ser examinados com cuidado, pois aos olhos de hoje parecem de menor im­portância ou até risíveis. Algumas das posições que adota são percebidas pelo simples exame dos títulos de cartas pastorais e documentos por ele publicados.</p>
<p>O novo bispo começa por arrumar a casa: logo em 1869, passa provisão que divide a diocese do Rio de Janeiro em comarcas eclesiásticas e estabelece regimento para os vigários da vara e arciprestes; ou seja, disciplina a cir­cunscrição territorial e o âmbito de ação dos sacerdotes seus assessores ou representantes. Entre suas primeiras medidas, consta a reforma do Seminário de São José, cuja administração entrega aos lazaristas. O jornal católico <em>O Apóstolo</em>, impresso no Rio de Janeiro de 1866 a 1901, publica textos dirigidos ao clero e à população católica, ordenamentos da Santa Sé e divulga posições doutrinárias ultramontanas e mesmo políticas. Por exemplo: em 1887, na etapa final da campanha abolicionista, reproduz cartas pastorais de bispos brasileiros, apelando aos fiéis para libertarem seus escravos. D. Lacerda utiliza esse periódico para divulgar documentos de interesse da diocese. Há pouco tempo nela empossado, participa em Roma, juntamente com outros bispos brasileiros, do Concílio Vaticano I (1869-1870), no qual se manifesta.<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-17" id="refmark-17">[17]</a></p>
<p>Exerce D. Pedro Maria de Lacerda intensa atividade no vasto território sob sua administração eclesiástica, que compreende as províncias do Rio de Ja­neiro, Espírito Santo e parte de Minas Gerais, o Município Neutro, e Lajes, em Santa Catarina. De acordo com seu biógrafo D. Jerônimo Lemos O.S.B.,<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-18" id="refmark-18">[18]</a> e como se observa nos apontamentos ora publicados, prega constantemente nas igrejas, promove o ensino do catecismo nas paróquias e reúne o clero em exercícios espirituais dos quais também participa, além de enviar padres laza­ristas em missões pela diocese,<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-19" id="refmark-19">[19]</a> e empreender esforços, inclusive junto a D. Bosco, para o Brasil receber em 1883 os salesianos, que instalam sua primeira casa no país em Santa Rosa, Niterói.</p>
<p>Em 1871, D. Lacerda edita tratado canônico-moral acerca da residência dos párocos e curas sob sua administração, doutrinando-os e responsabilizando aqueles que deixam de cumprir seus deveres sacerdotais. Nesse mesmo ano, edita um protesto coletivo do episcopado brasileiro, dirigido ao imperador e à princesa imperial regente, “contra a sacrílega invasão de Roma em 1870” por tropas italianas, episódio que interrompe o Concílio Vaticano I que se realiza naquela cidade; e, em carta pastoral, anuncia a Lei do Ventre Livre, “sobre a libertação dos filhos de escravas e sua criação, recomendando a to­dos sua execução”. Representa ao ministro do Império, em 1872, “para que as eleições políticas se façam fora das igrejas”, considerando que tais espaços devem servir primordialmente ao culto. De 1873 a 1875, expede diversos documentos em que trata das relações entre a Igreja e o Estado e combate tenazmente a Maçonaria no auge da Questão Religiosa, bastando citar a <em>Re­presentação que a S. M. o Imperador dirige sobre a prisão e processo do bispo de Olinda e aderindo à representação do arcebispo da Bahia</em>, de 1874.<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-20" id="refmark-20">[20]</a></p>
<p>O bispo publica, em 1877, carta pastoral “lamentando o carnaval do corrente ano na Corte, e promovendo uma subscrição para se mandar um cálice de ouro a Nossa Senhora de Lourdes em desagravo”, sob alegação de ter havido excessos e brincadeiras momescas com uso de efígie da santa. Nesse mesmo ano, retorna à sede pontifícia em peregrinação organizada por sua diocese pelo jubileu de ouro episcopal de Pio IX e em <em>visita ad limina Apostolorum</em>, a que os bispos são obrigados periodicamente; vai também a Turim e Paris.<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-21" id="refmark-21">[21]</a> De autoria de D. Lacerda existem ainda a <em>Cartilha católica </em>e “o <em>Cerimonial da Visita Pastoral </em>por ele publicado em 10 de maio de 1880”, pouco tempo antes de fazer sua primeira visita pastoral ao Espírito Santo, e que “serviu de mo­delo para muitos dos Srs. Bispos”. Outro documento do bispo a se destacar, devido à importância de que se reveste na época de sua edição, é o <em>Protesto apresentado a S. M. o Imperador pelo Bispo de S. Sebastião do Rio de Janeiro, por ocasião do decreto que manda converter em apólices intransferíveis os bens das Ordens religiosas</em>, datado de 24 de fevereiro de 1884. Por meio dele, o prelado firma posição contra o governo numa polêmica que se arrasta por algum tempo, inclusive com desdobramentos judiciais.<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-22" id="refmark-22">[22]</a></p>
<p>A historiografia brasileira registra o nome de D. Pedro Maria de Lacerda como iniciador da Questão Religiosa, ao punir o padre José Luís Almeida Martins. Este sacerdote, português e maçom, serve como orador oficial na sessão maçônica de 3 de março de 1872, que tem lugar na sede do Grande Oriente do Lavradio, Rio de Janeiro, em comemoração à Lei do Ventre Livre, editada no ano anterior. Referida sessão também homenageia José Maria da Silva Paranhos, visconde do Rio Branco, que ocupa o cargo de grão-mestre da Maçonaria brasileira, e preside o Conselho de Ministros, ou seja, é o chefe do governo. Publicado o discurso do padre maçom, e tendo em vista vasto ordenamento jurídico-canônico, não resta a D. Lacerda alternativa senão suspendê-lo de ordens, quer dizer, proibi-lo de exercer certas funções sacerdotais. Instalada a Questão Religiosa, o titular da diocese do Rio de Janeiro não recebe qualquer punição, por se manter nos estritos limites de sua autoridade eclesiástica, ao contrário dos bispos de Olinda, o jovem D. Vital de Oliveira, e de Belém, D. Antônio Macedo Costa, que interditam irmandades religiosas, instituições mistas subordinadas ao mesmo tempo aos poderes temporal e espiritual. Mas D. Pedro Maria de Lacerda não deixa de apoiar os bispos punidos, também ultramontanos como ele próprio, pois não costuma ser omisso, e se pronuncia ou age sempre que necessário.</p>
<p>Suas iniciativas reformistas adotadas por essa época no campo religioso são como tapas de luva no governo imperial, que contra elas nada pode fazer. No dia a dia mostra-se capaz de gestos dramáticos, alguns dos quais relata nestes apontamentos, e outros narrados por seu secretário particular, como o seguinte, relacionado com a Questão Religiosa: no dia imediato em que D. Vital de Oliveira desembarca, preso, no Rio de Janeiro, vai encontrá-lo, e “ao vê-lo sem as insígnias episcopais, prostrou-se aos seus pés, beijou-lhe as mãos comovido e tirando a própria cruz peitoral, colocou-a no pescoço daquele prelado, dizendo-lhe: ‘Tem V. Excia. Revma. toda jurisdição nesta Diocese’”.<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-23" id="refmark-23">[23]</a> Visita e ampara os bispos em suas prisões na capital do Império. No decorrer das sessões de instrução e julgamento no Supremo Tribunal de Justiça, que condena D. Vital à prisão, senta-se ao seu lado e ali permanece até o pronunciamento final. Distingue mais o titular da diocese de Olinda não somente por se identificar com suas ideias e atitudes, mas também por tê-lo sagrado bispo, poucos anos antes, em São Paulo. Revela-se cauteloso e discreto quando preciso, especialmente a partir do momento em que o governo brasileiro e a Santa Sé negociam os termos para superarem os entraves que originaram a Questão Religiosa.<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-24" id="refmark-24">[24]</a> Mas deve ter guardado certo ressentimento do episódio. Na madrugada de 16 de novembro de 1889, ao saber que o imperador e sua família estão detidos no Paço da Cidade, à espera do embarque para o exílio, comenta, talvez pensando na transitoriedade da glória deste mundo: “Exatamente o que ele fez aos bispos&#8230;”.<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-25" id="refmark-25">[25]</a></p>
<p>D. Lacerda recebe distinções honoríficas, como a Cruz da Ordem de Cristo em 1876, relaciona-se com os grandes do Império e, na condição de inte­grante do conselho de D. Pedro II e de bispo capelão-mor, presta assistência religiosa à família imperial. “Gozara sempre da confiança plena do monarca,” como demonstra nestes apontamentos; contudo, “não era um áulico, mas um servidor franco e leal”. Indicado para arcebispo da Bahia e primaz do Brasil, em 1887, numa manobra tentada pelo internúncio monsenhor Spol­verini, representante da Santa Sé, para afastá-lo do Rio, recusa o cargo. Logo após a promulgação da Lei Áurea, a 17 de maio de 1888, é-lhe conferido o título de Conde de Santa Fé, com grandeza, pela princesa imperial regente, estando o titular do trono muito doente em Milão.<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-26" id="refmark-26">[26]</a> Esse gesto da princesa Isabel, que no mesmo ano recebe de Leão XIII a famosa distinção católica Rosa de Ouro, pode ter sido em reconhecimento ao empenho do bispo pelo fim da escravidão no país, e revela-se mais significativo do ponto de vista político-religioso quando se sabe que, naquela mesma data, outros prelados e membros da elite civil também foram nobilitados. Seria uma tentativa de preparar a sucessão monárquica? Para os clérigos que procuravam conciliar o regalismo com a corrente de pensamento calcada na romanização, o que melhor conviria ao país em termos políticos seria uma espécie de teocracia – o Terceiro Reinado com o cetro e a coroa enfeixados pela beatíssima Isabel, tutelada pela Igreja.</p>
<p>Sobre D. Lacerda, diz Sacramento Blake: “Dotado de certa ilustração, nunca fez gala de orador sacro; só procurava fazer-se compreender das classes mais igno­rantes. Se empregou às vezes linguagem mais áspera, ou menos conveniente, suas intenções eram puras; guiava-o a mais fervorosa fé católica”.<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-27" id="refmark-27">[27]</a> Por sinal, seus esforços para ser compreendido pelas “classes mais ignorantes”, e o uso que fez “de linguagem mais áspera” estão registrados em trechos destes relatórios. O padre Antônio Alves F. dos Santos, seu secretário particular nos últimos anos de vida, nos oferece um depoimento sobre a condição física e a personalidade de D. Lacerda: “Dotado de constituição robusta e boa saúde, guardou sempre os jejuns, as abstinências e penitências prescritas pela Igreja, até o último ano de sua vida, que foi amargurado pelas enfermidades e sofrimentos morais”. E prossegue no perfil do prelado: “As vigílias, os trabalhos excessivos, os dissabores contínuos, as decepções inevitáveis da vida, os escrúpulos que frequentemente o assaltavam, tornaram-no muitas vezes áspero e brusco no seu trato, mas nunca lhe diminuíram a caridade e zelo de pastor pelas suas ovelhas”. O padre Alves nos informa ainda: “Era de caráter naturalmente retraído e concentrado, grave e sério, acostumado desde moço ao silêncio e à meditação”.<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-28" id="refmark-28">[28]</a></p>
<p>Por muitos anos, D. Pedro Maria de Lacerda passa temporadas nos colégios jesuítas de Itu e Nova Friburgo, no intuito de “buscar algum repouso para a sua vida bastante atribulada”. Sofre de “incômodos das pernas, classificados como beribéri”, talvez agravados por constantes jejuns e abstinências. Em 17 de outubro de 1889 tem um “insulto apoplético” e “apenas ficou com a lín­gua embaraçada não sofrendo paralisia e nem sendo afetadas suas faculdades. Socorrido de pronto, acha-se melhorado.” Após guardar o leito por semanas, recupera-se aos poucos, mas no decorrer de 1890 sua saúde se deteriora ra­pidamente, agravada pela insistência daquele mesmo monsenhor Spolverini, representante papal no Brasil, agora para que renunciasse à diocese.<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-29" id="refmark-29">[29]</a></p>
<p>A contar do encerramento da sua segunda visita pastoral ao Espírito Santo, em março de 1887, a realidade institucional brasileira transforma-se num prazo muito curto. Um ano e pouco depois, é extinta no país a escravidão, ao menos na sua forma legal. Passado mais um ano e pouco, acaba o regime monárquico. Amigo do imperador exilado, D. Lacerda sofre com a queda da monarquia. No apagar das luzes do Império, o registro civil tão execrado por ele, em especial no que se refere ao casamento, começa a ser exigido por lei. Por ser bem informado, não ignora que o chefe do governo provisório, Deodoro da Fonseca, também exerce o cargo de grão-mestre da Maçonaria brasileira, da qual são membros <em>todos </em>os componentes do primeiro ministério republicano. E, com certeza, tem notícia dos trabalhos da Constituinte, em que se desmonta o regime do padroado e se estabelecem as bases para efetiva institucionalização no país da liberdade de culto; os protestantes que tanto combatia podem agora praticar livremente sua religião. Já muito doente, re­nuncia ao bispado do Rio de Janeiro em 15 de outubro de 1890, em favor de D. João Esberard que, no entanto, não lhe sucede imediatamente.</p>
<p>Desaparecidas a escravidão, a monarquia e a união do Estado com a Igreja, acabam irremediavelmente os principais componentes do mundo em que o bispo viveu e exerceu o poder. E, nesse contexto hostil às suas convic­ções políticas e doutrinárias, se extingue também a vida de D. Pedro Maria de Lacerda. Recebe os últimos sacramentos, ocasião em que com voz débil reafirma sua fé católica e perdoa aos inimigos. Falece no Seminário de São José, Rio de Janeiro, “depois de muitos dias de ânsia e gemidos profundos, que se ouviam de longe”, às cinco horas da manhã de 12 de novembro de 1890, cercado de alguns sacerdotes e amigos dedicados; contava sessenta e um anos de idade incompletos. Após o embalsamamento, seu corpo é trans­ladado com todas as honras de estilo para o Palácio da Conceição, residência dos titulares da diocese fluminense, em cuja capela baixa à sepultura no dia 14, após exéquias solenes. Seus restos mortais, assim como os de outros ecle­siásticos ali sepultados, são transferidos posteriormente para a nova Catedral Metropolitana, situada à Avenida Chile, Rio de Janeiro.<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-30" id="refmark-30">[30]</a></p>
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<p>Raros, muito raros os diários mantidos por membros das elites brasileiras no período imperial. Por isso que as anotações de D. Lacerda se revestem da maior importância, mesmo que algumas de suas passagens tenham sido escri­tas um bom tempo depois da ocorrência dos fatos a que se referem. O bispo, muito escrupuloso, ressalta com um “parece-me” quando não lembra com precisão do que aconteceu. De qualquer sorte, a manutenção de um diário proporciona aos pesquisadores em geral, particularmente aos historiadores, uma preciosa fonte para entrever parte do real. As críticas ao conteúdo, que também devem ser feitas a esse tipo de fonte historiográfica, não invalidam a rajada refrescante de vida que ele costuma proporcionar.</p>
<p>Ao realizar as visitas pastorais por sua diocese, D. Pedro Maria de Lacerda cumpre um dever a que está obrigado, na dupla condição de prelado católico e de alto servidor público, representante do governo imperial – o regime do padroado não nos deixa esquecer essa realidade. E o cumprimento de tal obrigação implica, também, a elaboração de um relatório. O bispo, ao fazer as anotações diárias, tem em vista duas razões pelo menos. Por um lado, sa­tisfaz aquele dever de ofício: assinalar datas, locais percorridos, o que realizou e em que circunstâncias por meio de uma caderneta de campo, de um diário de trabalho; e assim produz informações de interesse público. Por outro, o documento também possui uma característica privada, somente acessível aos seus sucessores ou a um círculo muito restrito de pessoas, o que poderia servir de estímulo para que o autor derramasse nas páginas seus sentimentos, impressões e angústias, numa espécie de diário “íntimo”.</p>
<p>Seja por uma razão, seja por outra, indissociáveis na prática, o bispo elabora as anotações para uso próprio e consulta eventual: fixar no papel nomes das pessoas e conjunturas que contribuíram, de forma positiva ou negativa, para as visitas; registrar os nomes das paróquias e localidades percorridas e os casos inusitados, além do número de fiéis que atendeu com os respectivos sacramentos ministrados; assinalar as disputas de variada ordem entre reli­giosos, pessoas das comunidades e autoridades; manter viva na memória as questões, de ordem doutrinária ou não, em que se envolveu e as providências tomadas; consignar as carências e problemas existentes na vida profana das regiões visitadas; e muitas outras situações. Uma delas talvez tenha peso sig­nificativo para D. Lacerda – as anotações servem de “espelho” para se mirar e reconhecer onde falhara, como homem e como bispo. Que os destinatários desses apontamentos eram pessoas privilegiadas provam-no as constantes citações em latim, língua oficial da Igreja Católica e de acesso restrito aos clérigos e a poucos indivíduos. Mas o bispo, que procura ser sincero nas ano­tações, também cogita de sua publicação futura, depois de algum interessado separar a “palha do trigo”. Para a pesquisa historiográfica, contudo, todas as informações possuem seu valor; muitas vezes aquelas julgadas como “palha” por quem as produz são mais esclarecedoras que as consideradas “trigo”. O cotidiano das visitas, cumprido por D. Lacerda e pequena comitiva, pode ser assim resumido: paramentar-se; fazer entrada solene em vilas e povoados que comportassem tal procedimento; promover cerimônias e encontros nos quais se beija o anel do bispo em sinal de respeito; catequizar; administrar as primeiras comunhões e as crismas; celebrar casamentos, com as prévias, complicadas e trabalhosas análises das justificações, dispensas dos impedimentos e redação das provisões; dizer missas, algumas delas cantadas, e distribuir a comunhão; conferir os livros de registro de batizados, casamentos e óbito, e os de tombo; pregar; ouvir confissões, batizar, dar a extrema-unção; observar a presença e o estado das instalações e construções religiosas e dos objetos de culto (alfaias, paramentos); conceder indulgências; benzer pessoas, objetos, cemitérios; rezar em público e em privado e encomendar os mortos; além de registrar tudo o que ocorreu, ou quase tudo, nos relatórios que adiante vão&#8230; D. Lacerda e equipe procuram observar, dentro das limitações de cada local, a ritualística prescrita pelo Vaticano. É uma verdadeira assistência espiritual em massa, que busca suprir a costumeira falta de padres.</p>
<p>São constantes as reclamações do bispo acerca dos trabalhos que a burocracia da Igreja e seu próprio zelo apostólico lhe impõem. E tem que cortar na própria carne, arrostando o concubinato de padres. Mas se os problemas que se lhe apresentavam ficassem somente nisso, seria o de menos. Sua verdadeira cruzada contra os protestantes, os maçons, a mancebia lhe valem permanentes dissabores. Em relação à Maçonaria nunca abre a guarda; um exemplo consta no relatório da visita pastoral de 1886-1887: “Soube que alguns Maçons (poucos) desta Vila [de Itapemirim], alguns aliás sisudos, tinham resolvido abster-se de ser Padrinhos, devido isto em parte a Monsenhor Amorim e em parte talvez à notícia que têm do que houve na Visita da Vitória em 1880”. Realmente, Christiano Woelffel Fraga reproduz ou cita longos pronunciamentos e representações de membros da Loja Maçônica União e Progresso de Vitória contra declarações e medidas hostis do prelado, durante sua visita pastoral de 1880-1881.<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-31" id="refmark-31">[31]</a></p>
<p>O bispo D. Lacerda pode ser definido como irritadiço, irascível, mas também era o primeiro a reconhecer isso. Os apontamentos das visitas mostram suas impaciências, intransigências, irritabilidades e até ataques de ira. E seus arrependimentos. Talvez para fugir a essa rotina massacrante, ou satisfazer anseio íntimo, intercala um “calendário pessoal” nos apontamentos. Mas com isso também sofre, pois assiste com temor o passar do tempo e o cemitério crescer à sua volta. Celebra missas e reza em intenção de parentes, amigos e colegas de sacerdócio e pela passagem de datas que dizem respeito à sua vida particular e sacerdotal: participações em ordenações, sagrações e conclaves.</p>
<p>Convive bem com os fazendeiros e donos da terra. Se não pode afrontar os poderosos, sempre lança seu olhar piedoso para escravos e libertos, mesmo agindo segundo os preconceitos da época. Respeita o povo, vê e assiste sua miséria, tenta atraí-lo – nesse contexto, uma barrica de roscas comprada e distribuída antes das confissões e das crismas pode fazer milagres. Procura conciliar suas convicções ultramontanas, algumas delas estranhas à cultura do país, com a crua realidade de um povo pobre, sofrido, analfabeto, mas devoto. De fato, D. Lacerda geralmente é compreensivo com os pobres do seu rebanho e procura facilitar sua vida – prega em italiano para os imigran­tes dessa origem; desconfia das alegações dos fiéis, quanto aos impedimentos para casamento (a maioria devia ignorar seus parentescos ancestrais), mas acaba por condescender. No entanto, em certas atitudes não nega ser um príncipe da Igreja, quase um aristocrata – admira-se quando lhe oferecem café numa xícara sem pires, ou macarrão e arroz em pequenas bacias de lavar o rosto; repara nos cômodos de telha vã, nas simples colchas e cortinas de chita que dividem os ambientes; anota com cuidado a qualidade e quantidade da comida, mas raramente menciona o que lhe é servido; ouve piano e sente saudade disso; com um relógio cronometra a cada passo a viagem; preocupa­-se em mostrar que tem meios financeiros para custear as despesas com suas visitas, pois não quer ser pesado aos fiéis e sacerdotes que o recebem. Mas não nos enganemos: sua escrita, de letra miúda e regular, é feita com sangue. O sangue azul do eclesiástico de nomeada, e o sangue vermelho do homem, com todos os seus defeitos, temores, pecados, limitações. Em ambos os pa­péis se sai muito bem. Como bispo exerce sua autoridade com energia que beira à soberba; como homem procura ser humilde. Se procedesse de modo contrário, comprometeria para sempre sua obra de religioso e sua vida de pessoa temente a Deus.</p>
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<p>Na década de 1880, o mundo transita da era do capital para a era dos impé­rios, como está muito bem explicado nos dois livros de Eric Hobsbawm que possuem esses títulos. Mais do que rainha dos mares, a Inglaterra era uma das senhoras da Terra. Sua influência predomina sobre a economia e a sociedade do Império brasileiro. Por ocasião das visitas de D. Lacerda à província capi­xaba, o regime monárquico no Brasil encontra-se decadente, pressionado por problemas políticos, por uma crise monetário-financeira – que aumenta com a libertação dos escravos –, e pelos ideais abolicionistas e republicanos. O Espírito Santo vê sua economia adquirir nova dinâmica, com sua reinserção nas linhas do comércio internacional. Justo nessa década, o porto de Vitória passa a enviar diretamente para o exterior o café produzido nas colônias de Santa Isabel, Santa Leopoldina, Santa Teresa e Alfredo Chaves. Ainda é exportada pelo Rio de Janeiro a produção cafeeira de fazendas e pequenas propriedades dos vales do Itapemirim e do Itabapoana. Nos anos 1880, mal­grado a grande depressão por que passa a economia mundial, o comércio da rubiácea traz certa prosperidade para o Brasil e para a província capixaba. Na visita de 1886-1887, D. Lacerda ouve em Cachoeiro de Itapemirim os primeiros apitos de trem em terras capixabas, e tem uma reação típica de ultramontano desconfiado, e até descrente, do progresso: “Nesta Freguesia [Cachoeiro de Itapemirim] trata-se de começar uma estrada de ferro, e já se inauguraram os trabalhos a 6 de Janeiro [de 1886] e veio o Presidente da Pro­víncia. Eu não fui ver. Dizem alguns que será a morte desta Vila, não porém de seus Fazendeiros. Não é comigo”.</p>
<p>Um balanço pormenorizado dessas visitas pastorais, que não cabe aqui neste estudo, implica consultar documentos eclesiásticos e oficiais, jornais da Corte e da província, tanto da oposição quanto da situação, e outras fontes histo­riográficas pertinentes. Mas convém adiantar que o presidente da província, Marcelino de Assis Tostes, destaca a visita de D. Lacerda no relatório de março de 1881, na parte denominada “Culto Público”, na qual faz também os registros usuais das carências religiosas, e enfatiza as qualidades do prelado como pastor de almas. Já o presidente da província Antônio Joaquim Rodri­gues não cita a presença do bispo em visita pastoral pelo Espírito Santo no relatório que apresenta à Assembleia Provincial em 1886, também na parte que trata do “Culto Público”, em que ressalta as reiteradas lamentações sobre a precariedade dos objetos de culto, a falta de sacerdotes e de dinheiro para reparos e construções de matrizes etc.<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-32" id="refmark-32">[32]</a></p>
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<p>As duas visitas pastorais de D. Pedro Maria de Lacerda à província do Es­pírito Santo têm roteiros bem distintos. A primeira dura dez meses, como ele próprio declara no relatório de 1886-1887, e abrange a região contígua à capital capixaba e vasto território que lhe fica ao norte. Começa em junho de 1880,<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-33" id="refmark-33">[33]</a> e compreende Vitória, Vila Velha, Serra, Nova Almeida, Fundão, Santa Cruz, Riacho, Linhares, com navegação Rio Doce acima até o povoado de Guandu e a divisa com Minas Gerais, e termina em março de 1881, após retorno pelas vilas litorâneas em que já estivera, para citar algumas freguesias e locais que assistem à passagem do bispo. O relatório respectivo principia com a expressão “Terceira Visita Geral (continuação)”, já que as duas primei­ras tiveram lugar na província do Rio de Janeiro em 1874-1875 e em 1876.<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-34" id="refmark-34">[34]</a> Ele está incompleto, pois abrange somente o trecho da Serra até Barra do Saí, percorrido do dia 14 de julho a 11 de novembro de 1880, quando sabemos que ele chega ao Espírito Santo no mês de junho, certamente por Vitória e, a 3 de julho, está no Convento da Penha, em Vila Velha.<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-35" id="refmark-35">[35]</a> Talvez ainda exista a parte inicial do relatório, elaborada algum tempo depois dos fatos acontecidos, conforme declara o próprio D. Lacerda nos registros de sua passagem por Nova Almeida. Faltam os apontamentos relativos a meados de novembro de 1880 a março de 1881, correspondentes à porção final do rela­tório. Tudo indica que o bispo não os fez, conforme seu lamentoso registro logo no início do relatório da visita de 1886-1887: “Muito sinto que até hoje eu não tenha podido achar tempo, vagar e tempo para continuar as notícias da Visita [de 1880-1881], que ficaram suspensas nas Três Ilhas perto de Li­nhares”. Outros indícios concorrem para reforçar a constatação de que tais apontamentos nunca existiram. O primeiro consiste nas diversas referências que no relatório da visita de 1886-1887 D. Lacerda faz à região do Rio Doce, como forma de compensar o que não escrevera na estada anterior. Outro indício, de natureza mais objetiva, consta nos rascunhos elaborados por D. Lacerda no decorrer da visita de 1880-1881, com informações a serem trans­critas para o relatório final.<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-36" id="refmark-36">[36]</a> O bispo, além de ter<em>guardado </em>tais rascunhos, <em>não riscou </em>(ou não anulou, como queiram) as informações neles existentes a partir do dia 19 de novembro de 1880 em que justamente chega às “Três Ilhas perto de Linhares”; ao contrário do que fez com as já utilizadas no relatório definitivo. E como o documento que registra a visita de 1880-1881 se inter­rompe no início do dia 11 de novembro, talvez ainda exista em algum arquivo o pequeno trecho desse relatório correspondente ao resto daquele dia até 18 de novembro de 1880, período em que o prelado está na freguesia do Riacho, segundo seus rascunhos.</p>
<p>Já a segunda visita pastoral ao Espírito Santo, que dura 13 meses e meio, percorre extensão de terras ao sul da província capixaba. Começa em 14 de fevereiro de 1886 quando o bispo parte da Corte e chega no dia seguinte a Itapemirim. Depois inclui Piúma, Benevente (atual Anchieta), Guarapari, Alfredo Chaves, Cachoeiro de Itapemirim, Castelo, Conceição do Castelo (que ele chama de Afonsino, do nome do extinto aldeamento imperial), Rio Pardo (atual Iúna), arraial do Espírito Santo (depois Espírito Santo do Rio Pardo, atual Muniz Freire), Alto Guandu (hoje Afonso Cláudio), Alegre, Vala do Souza (Jerônimo Monteiro dos nossos dias), e se encerra em Itapemirim em 27 de março de 1887, com chegada à Corte no dia seguinte. D. Lacerda procura manter atualizado seu diário, e menciona em seus apontamentos o envio a <em>O Apóstolo </em>de resumo da visita de 1886-1887: “Apenas vão lista dos lugares visitados, e número de crismados, confessados, casados etc.”.</p>
<p>A história comparada, já disseram, é a “vara de condão” dos historiadores que, de hoje em diante, terão duas fontes de consulta muito ricas para faze­rem seus paralelos. A primeira, os apontamentos de D. José Caetano da Silva Coutinho referentes às visitas pastorais de 1812 e 1819-1820,37 elaborados numa época em que a dominação portuguesa sobre sua colônia americana se encaminha para o final e a religião católica possui feição regalista e iluminista. A segunda fonte, estes relatórios de D. Pedro Maria de Lacerda, escritos no momento em que a nação brasileira assiste ao término do regime monárqui­co e o catolicismo assume características reformistas e ultramontanas. Neste sentido, convém assinalar somente uma circunstância que diferencia as visi­tas pastorais dos dois antístites. As visitas ao Espírito Santo realizadas por D. José Caetano da Silva Coutinho duram cerca de um mês e meio cada uma, ao contrário daquelas levadas a efeito em 1880-1881 (dez meses) e 1886-1887 (13 meses e meio) por D. Pedro Maria de Lacerda, que se deixa ficar por muito mais tempo na província. As comunicações já estão bem melhores do que no início do século XIX, devido à navegação a vapor, ao telégrafo, ao serviço regular de correios, às estradas de ferro e a outros fatores. D. Lacerda exerce o poder a partir de onde se encontra, ao receber e expedir informações e documentos de sua competência. No interior, mesmo bravio, mantém contato com a realidade exterior – no decorrer das visitas pastorais toma conhecimento e comenta questões ligadas à Igreja, à sua diocese. Sabe o que está acontecendo no país e no exterior – o Rio de Janeiro e Roma estão ao seu alcance, quase que imediato. E, com isso, prolonga suas visitas – per­manece mais perto de seu rebanho e mais distante das intrigas da Corte. Um fator que pode ter contribuído para o bispo demorar-se em terras capixabas na visita de 1886-1887, até declarado explicitamente no relatório, é o receio da epidemia de febre amarela que grassava na província fluminense, doença que tinha ceifado a vida do seu querido padre Teles há poucos anos.</p>
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<p>Antigo professor de geografia em Mariana, D. Pedro Maria de Lacerda se esforça por estabelecer um “mapa” da presença católica na parte da diocese que visita. Descreve as vilas e povoados percorridos e a natureza circundante. E, para cumprir com uma obrigação sua, procura estabelecer divisas entre as freguesias. Não se esquece de observar os acidentes naturais e contemplar as belezas da terra, reiteradas vezes registradas com admiração. Preocupa-se com a destruição do ambiente natural e nisso sua postura é atualíssima. Tem o cuidado de registrar manifestações e costumes religiosos, civis e oficiais, desde as circunstâncias da sua despedida da Corte, quando inicia a segunda visita pastoral ao Espírito Santo, até as reações das pessoas ao recebê-lo e cumprimentá-lo nas vilas, arraiais e fazendas do interior capixaba. Cioso de sua autoridade, e para assinalar a religiosidade e a organização do povo, o bispo observa se as pessoas vêm saudá-lo ajoelhadas, em pé, ou montadas a cavalo, de chapéu na cabeça ou com ela descoberta, como estão vestidas, e quantos foguetes são atirados ao entrar ou passar por vilas, povoados, fazendas&#8230; Deus (ou o diabo?) está nos detalhes.</p>
<p>Seu texto está perpassado de angústia – debate-se entre o catolicismo que julga “ideal’ para o país, bem próximo das determinações emanadas de Roma, e o catolicismo “real” praticado pelos fiéis, exteriorizado e nominal. A distância entre um e outro é ocupada por grande abismo que os sofrimentos do bispo não bastam para preencher. Chega a registrar, em algumas passagens, problemas com os fiéis, advindos de incompreensões mútuas: “O pior é que depois houve quem se zangasse e dissesse que eu tinha chamado de porcas a todas as mulheres de Itapemirim!”. Em diversas passagens refere-se a rixas dele e dos padres com fiéis sobre questões de pagamento pela administração dos sacramentos.</p>
<p>Demonstra grande amor por José de Anchieta, de quem já menciona a existência de imagem. Em trechos destes diários, ressalta a figura do jesuíta e registra os esforços para reformar a cela junto à matriz de Assunção na então vila de Benevente, local em que se acredita ele tenha morrido. Em diversas oportunidades, pudemos contemplar uma placa em metal, afixada ao lado da porta de entrada desse cômodo, com dizeres em latim e em português, bem reveladores da passagem marcante de D. Lacerda pela localidade. Os termos em português, com a grafia atualizada, são os seguintes: “Quando aqui outrora, em santa morte, voava para o céu Anchieta, o herói máximo do Brasil, a gente brasílica chorou inconsolável a perda do grande pai, alegrou-se a corte celeste com o novo eleito. Tu, porém ó Reritiba, minúscula, embora, entre as terras tuas irmãs, exulta agora, porque resplendes com uma nova honra. Graças ao zelo e magnanimidade de Pedro, Bispo, levanta-se da longa escuridão dos tempos a humilde cela aonde exalou o último suspiro o amável Anchieta, que te amou sempre com dedicação extrema. Ano do Senhor 1886”.<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-38" id="refmark-38">[38]</a> Dize­res elaborados pelo Bispo Pedro? A placa não se encontra mais naquele local.</p>
<p>Essas iniciativas tinham o propósito de chamar a atenção dos fiéis e visitan­tes para a importância das ações evangelizadoras do Apóstolo do Brasil, e mesmo seu papel “civilizador”. O padre Adwalter Carnielli informa textu­almente: “Em 1887, um pedido do Bispo do Rio de Janeiro, Dom Pedro Maria de Lacerda, ao Imperador Dom Pedro II, fez com que fosse elevada à cidade com o nome de Anchieta” a antiga vila de Benevente.<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-39" id="refmark-39">[39]</a> Referido religioso nos assegurou não se lembrar de que fonte documental obteve essa informação, mas a tem como certa. O que é de todo provável, pois logo em 1887, por meio de lei provincial, ocorreu a mudança do nome e da categoria daquele núcleo urbano.<a class="fn-ref-mark" href="#footnote-40" id="refmark-40">[40]</a> Tal providência revela-se, com o passar dos anos, uma honrosa distinção para os capixabas.</p>
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<p>D. Lacerda considera que, nessas visitas, exerce uma missão, além de cate­quética, civilizadora. Cumpre com coerência sua missão de líder ultramon­tano e nos proporciona uma visão “por dentro” da Igreja. No seu modo de entender, encontra na província capixaba um rebanho decadente, por não observar práticas religiosas adequadas ao serviço de Deus. Combate livros e panfletos protestantes, dando seus ataques “educativos” – rasga-os, atira­-os ao chão, os pisoteia, cospe neles. E destrói imagens que, a seu julgar, os fiéis podem confundir com ídolos. Procura apoio dos potentados locais para as construções e reformas de templos que eram necessárias. Nesse aspecto, como em outros, não costuma transigir – prefere que uma edificação não seja terminada a vê-la fora dos padrões que julga convenientes à prática correta do culto. Do seu ponto de vista, depara-se com uma população cheia de crendices, de superstições, de relaxamento nas práticas religiosas pela falta de padres ou, o que mais teme, pela presença de sacerdotes não sujeitos à sua autoridade ou aos ideais que comunga. Com veemência semelhante à que emprega para atacar os maçons, investe contra certos missionários italianos, por considerá-los inadequados à missão da Igreja.</p>
<p>Exige o cumprimento da liturgia e se apega a detalhes ritualísticos que hoje em dia seriam considerados mero formalismo – por exemplo, no que diz respeito a batizados ou casamentos –, mas não mantém muitas ilusões a esse respeito por conhecer a pobreza e a ignorância das pessoas. Chegam a ser emocionantes os testemunhos que proporciona sobre a devoção do povo. Como não poderia deixar de ser, registra o antigo apego fervoroso dos capi­xabas a Nossa Senhora da Penha. Por saber seu rebanho iletrado, impressio­nável, devoto, usa a pregação, a oralidade, em lugar da palavra escrita. Tenta convencer pela palavra – registra às vezes a reação emotiva dos ouvintes. E, mesmo durante as visitas, prossegue com o trabalho doutrinário e difusor do catolicismo junto a seus fiéis, e não descura de preparar o calendário religioso da diocese e redigir pastorais. É rigoroso com todos e, sobretudo, consigo mesmo, e procura disciplinar o clero a ele subordinado. Em 24 de setembro de 1886, lança no papel o seguinte registro: “Faz hoje 18 anos que Pio IX me confirmou em Bispo deste Bispado! Há 18 anos sou Bispo, mas que Bispo? Bispo além de indigno, inepto e incapaz! Valha-me Jesus Cristo!”. Apesar desse autojulgamento pessimista, sua atividade episcopal rende fru­tos – boa parte da feição institucional e da ação catequética que o catolicismo brasileiro assume na Primeira República, e mesmo depois, resulta dessa po­lítica compartilhada por D. Lacerda. Morto bem no início do novo regime, ele não assiste à Igreja auferir grandes benefícios materiais e institucionais após separar-se do Estado. E essa não é outra história, mas a mesma que continua e já desperta o interesse da academia. Por vezes, o prelado utiliza a ironia – quando deixa o calorento Alegre e chega a uma fazenda com nome de Paraíso, situada em local mais alto e aprazível, escreve: “Enfim eis-me no Paraíso. [...] A minha enxaqueca aqui me fez ver bem que este Paraíso aqui é só de nome”. E gosta de consumir um bom rapé, e não “amostrinha”, como informa no relatório da visita de 1880-1881.</p>
<p>Nosso bispo mostra-se regalista e, em especial, legalista, no sentido de se­guir com rigor as leis da Igreja e do Império. Nestes textos não é difícil inferir suas simpatias por posições ou aficionados do Partido Conservador, no que se mantém fiel às posturas religiosas e doutrinárias que adota; mas também neles se observa facilmente que procura manter-se equidistante ou bem acima das facções políticas, sobretudo locais, de modo a exercer com independência seu ministério episcopal. Por ser ultramontano, não admite a prevalência do poder civil sobre o religioso. Ao contrário, luta para que o poder da religião católica sempre predomine na sociedade. Guarda coerência com essa posição e, assim, reconhece somente o casamento religioso sem o qual, segundo pensa, o casal está em mancebia. Vive uma contradição – vincula-se ao poder temporal e, ao mesmo tempo, acha-se por ele manietado. Nem sequer pode preencher as vagas de pároco nas freguesias (ou seja, prover canonicamente aquelas criadas pela instância civil) por absoluta falta de religiosos, cuja formação o governo imperial dificulta. Suas observações a esse respeito revelam-se constantes na visita de 1886-1887 e mostram, além do surdo protesto do bispo, a inviabilidade da continuação do regime do padroado. No caso capixaba, a população aumenta muito com a imigração incentivada pelo governo, e o número de sacerdotes sempre fica aquém das necessidades.</p>
<p>Em certo sentido, D. Lacerda é um viajante que passa pela província com olhar “estrangeiro”, considerada sua formação lazarista e romanizada. Mas sua alma é brasileira, evidentemente: sente-se à vontade na divisa Espírito Santo-Minas Gerais por estar perto da realidade que conhece tão bem. A partir das indicações dos seus textos, somente listamos alguns temas dos inúmeros possíveis de servirem para o conhecimento da realidade capixaba da década de 1880. Preciosas suas informações e pistas sobre nomes e condições das fazendas visitadas; os fazendeiros, escravos, libertos, imigrantes, sitiantes e suas famílias; os caminhos e percursos então existentes; a dinâmica de ocupação do solo capixaba; os costumes de moradores com quem teve contato; as diferenças entre pessoas pela condição social e as igualdades perante questões de saúde e de morte. Também D. Lacerda fornece indícios sobre a composição de grupos sociais, as funções das autoridades e até tendências políticas dos capixabas daquela época. Os usos e costumes que hoje são objeto de estudos de folclore, os nomes antigos dos locais (uns ainda se conservam, outros se perderam no tempo) constituem, do mesmo modo, fortes referências para os pesquisadores. Sem contar os acidentes naturais (rios ainda com nomes e cursos em discussão) que tenta localizar e comentar, sempre comparando com as cartas geográficas que tem à vista e nas quais aponta muitos erros. Fornece notícias sobre a proveniência de pessoas de Minas e do Rio; assim, estes relatórios servem tanto à história capixaba quanto à de outros lugares. Fala sobre os pioneiros de Piúma e de Alfredo Chaves, e descreve as casas dos colonos e sua situação financeira. Nos diversos territórios que pertenceram à grande Colônia do Rio Novo, já extinta então, indica as sessões coloniais com nomes femininos – Virgínia, Matilde, Carolina, Ale­xandrina (aliás, será mesmo que foram dados em homenagem às parentes de um engenheiro?). Enfim, percorre um Espírito Santo antigo, litorâneo (Vila Velha, Serra, Nova Almeida, Santa Cruz), e que em parte se renova (Itapemi­rim, Benevente, Guarapari, Vitória); assiste ao nascimento de um novo Es­pírito Santo, mais interiorano (Cachoeiro de Itapemirim e a primeira ferrovia em território capixaba, Alfredo Chaves e as colônias de imigrantes); e passa ao longo de um Espírito Santo que está quase todo no futuro (Linhares, a região do Rio Doce). Na questão dos limites com Minas Gerais, suas obser­vações, favoráveis aos capixabas, documentam a expansão mineira rumo ao leste na região do antigo quartel e vila do Príncipe. E transcreve registros di­versos (a maioria de dispensa de casamento) do século XVIII constantes em livros eclesiásticos de Guarapari, que provavelmente não mais existem, com informações que podem servir de pistas para pesquisas sobre temas variados.</p>
<p>No entanto, D. Lacerda gosta de confrontar costumes populares que julga indignos para um bom católico – em pleno Carnaval cachoeirense de 1886, menospreza a apresentação de alguns foliões e do zé-pereira, brincadeira carnavalesca de outrora, e pensa “que daí resultaria algum encontro com os atos da Visita, mas não”&#8230; E cultiva certa ingenuidade: considera que os maçons na província estão circunscritos a meia dúzia e que o protestantismo nunca fincará pé no Espírito Santo. Esse talvez o lado menos valioso do seu relato – quando se arvora em prever o futuro. Todavia, ao descrever e anotar o que ocorre naquele presente, dá um testemunho de primeira mão, muito valioso, e a partir de agora plenamente acessível ao público. Encerrando os registros da sua segunda visita pastoral ao Espírito Santo, o bispo escreve: “Domingo (da Paixão) 27 de Março 1887. Era este o último dia de minha Visita. [...] Muito se fez, mas muito fica por fazer. [...] Creio, porém que ainda tornarei a esta província”. Nunca mais voltou. Mas por meio da publicação destes apontamentos estará para sempre em “visita” ao Espírito Santo, ou me­lhor, presente na história capixaba na qual ingressa para não mais sair.</p>
<p>A Igreja Católica permanece fortemente marcada por tradições monár­quicas do Antigo Regime. Quando da sagração, um novo bispo recebe brasão de armas, que traz curta sentença, síntese da sua missão. O autor destes relatórios escolheu como divisa o final do salmo 119, 74: <em>in verba tua supersperavi. </em>Com vistas ao enriquecimento da historiografia capixa­ba, a frase do salmista, inscrita no brasão episcopal, também resume a confiança depositada nesta obra de D. Pedro Maria de Lacerda: <em>espero em tua palavra.</em></p>
<p align="right">Vitória, dia de Santa Luzia, 2011.</p>
<p align="right"><strong>Fernando Antônio de Moraes Achiamé</strong><strong></strong></p>
<p align="right">Do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo</p>
<p align="right">Pesquisador-associado do Neples/Ufes</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>[[37]] D. José Caetano da Silva Coutinho, <em>O Espírito Santo em princípios do século XIX – apontamentos feitos pelo bispo do Rio de Janeiro quando de sua visita à capitania do espírito Santo nos anos de 1812 e 1819</em>, transcrição do original e coordenação da edição por Maria Clara Medeiros Santos Neves e estudo introdutório de Luiz Guilherme Santos Ne­ves, Vitória, Estação Capixaba e Cultural-ES, 2002.[[37]]</p>
<div id="footnote-list" style="display:inherit"><span id=fn-heading>Notas</span> &nbsp;&nbsp;&nbsp;(↵ volta à nota)
<ol>
<li id="footnote-1" class="fn-text">[ 1 ] Guilherme Santos Neves, <em>Coletânea de estudos e registros do folclore capixaba 1944-1982</em>, Vitória, Centro Cultural de Estudos e Pesquisas do Espírito Santo, 2008, v. 2, p. 256.<a href="#refmark-1">↵</a></li>
<li id="footnote-2" class="fn-text">[ 2 ] Idem, v. 1, p. 120. Nos dois volumes da obra constam alguns daqueles artigos.<a href="#refmark-2">↵</a></li>
<li id="footnote-3" class="fn-text">[ 3 ] Maria Stella de Novaes, <em>História do Espírito Santo</em>, Vitória, FEES, [197-].<a href="#refmark-3">↵</a></li>
<li id="footnote-4" class="fn-text">[ 4 ] Renato Pacheco, “Os ‘diários’ de D. Pedro”, in <em>Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo</em>, Vitória, n. 45, 1995, p. 93-98.<a href="#refmark-4">↵</a></li>
<li id="footnote-5" class="fn-text">[ 5 ] Adwalter Antônio Carnielli, <em>História da Igreja Católica no Estado do Espírito Santo</em> <em>– 1535-2000</em>, Vila Velha, Comunicação Impressa, 2000.<a href="#refmark-5">↵</a></li>
<li id="footnote-6" class="fn-text">[ 6 ] Disponível em: &lt;www.planalto.gov.br&gt;, acesso em: 2 dez. 2011.<a href="#refmark-6">↵</a></li>
<li id="footnote-7" class="fn-text">[ 7 ] Dicionário Eletrônico Houaiss, versão 1.0, Rio de Janeiro, Objetiva, 2001.<a href="#refmark-7">↵</a></li>
<li id="footnote-8" class="fn-text">[ 8 ] Eric Hobsbawm, <em>A era do capital</em> – <em>1848-1875</em>, 15 ed., São Paulo, Paz e Terra, 2009, p. 172-3; e Roque Spencer M. de Barros, “Vida Religiosa”, in <em>História geral da civilização brasileira</em>, v. 6, São Paulo, Difel, 1974, p. 325-6.<a href="#refmark-8">↵</a></li>
<li id="footnote-9" class="fn-text">[ 9 ] Augustin Wernet, <em>A igreja paulista no século XIX – a reforma de D. Antônio Joaquim de Melo (1851-1861)</em>, São Paulo, Ática, 1987, p. 89 e passim.<a href="#refmark-9">↵</a></li>
<li id="footnote-10" class="fn-text">[ 10 ] Inocêncio Francisco da Silva, Diccionario Bibliographico Portuguez, v. 10, Lisboa, Imprensa Nacional, 1883, p. 312-3.<a href="#refmark-10">↵</a></li>
<li id="footnote-11" class="fn-text">[ 11 ] Augusto Vitorino Alves Sacramento Blake, <em>Diccionario Bibliographico Brazileiro</em>, v. 4, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1898, p. 193-5<a href="#refmark-11">↵</a></li>
<li id="footnote-12" class="fn-text">[ 12 ] Antônio Alves F. dos Santos, <em>A Archidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro</em>, Rio de Janeiro, Leuzinger, 1914, apud D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., <em>D. Pedro Maria de Lacerda, último bispo do Rio de Janeiro no Império (1868-1890)</em>, Rio de Janeiro, Lumen Christi, 1987, p. 30.<a href="#refmark-12">↵</a></li>
<li id="footnote-13" class="fn-text">[ 13 ] Idem, p. 42.<a href="#refmark-13">↵</a></li>
<li id="footnote-14" class="fn-text">[ 14 ] Idem, p. 44.<a href="#refmark-14">↵</a></li>
<li id="footnote-15" class="fn-text">[ 15 ] D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 47.<a href="#refmark-15">↵</a></li>
<li id="footnote-16" class="fn-text">[ 16 ] Idem, p. 57-63.<a href="#refmark-16">↵</a></li>
<li id="footnote-17" class="fn-text">[ 17 ] Augusto Vitorino Alves Sacramento Blake, <em>Diccionario Bibliographico Brazileiro</em>, v. 7, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1902, p. 54-6; D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 142-4.<a href="#refmark-17">↵</a></li>
<li id="footnote-18" class="fn-text">[ 18 ] D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., passim.<a href="#refmark-18">↵</a></li>
<li id="footnote-19" class="fn-text">[ 19 ] Existe no Arquivo da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro, segundo D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 583, um documento em bom estado com o título de <em>Relatório das missões dadas pelos PP. da Congregação da Missão na Província do Espírito Santo. Ano 1875</em>, dirigido a D. Lacerda e assinado pelo padre Sisson, diretor das Missões de São Vicente de Paulo. D. Lemos transcreve em sua obra trechos extensos dos relató­rios do bispo do Rio de Janeiro nas visitas pastorais que fez na província fluminense em 1874-1875 e 1876.<a href="#refmark-19">↵</a></li>
<li id="footnote-20" class="fn-text">[ 20 ] Augusto Vitorino Alves Sacramento Blake, 1902, op. cit., p. 55.<a href="#refmark-20">↵</a></li>
<li id="footnote-21" class="fn-text">[ 21 ] Augusto Vitorino Alves Sacramento Blake, 1902, op. cit., p. 54, 56; e D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 278 e 571.<a href="#refmark-21">↵</a></li>
<li id="footnote-22" class="fn-text">[ 22 ] Antônio Alves F. dos Santos, op. cit., apud D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 126 e 415-36.<a href="#refmark-22">↵</a></li>
<li id="footnote-23" class="fn-text">[ 23 ] Idem, p. 201.<a href="#refmark-23">↵</a></li>
<li id="footnote-24" class="fn-text">[ 24 ] D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 200-220 e passim.<a href="#refmark-24">↵</a></li>
<li id="footnote-25" class="fn-text">[ 25 ] D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 464-5, informa que Pandiá Calógeras registra o episódio na obra <em>Formação histórica do Brasil</em>, com base em informação do historiador Capistrano de Abreu. A passagem é reproduzida de forma simplificada em Adriana Lopes e Carlos Guilherme Mota, <em>História do Brasil, uma interpretação</em>, São Paulo, Ed. SENAC, 2008, p. 528, a frase sendo dita por D. Lacerda ao saber a família imperial detida no Paço da Cidade. D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 464-5, considera a passagem inverossímil, por à época o bispo estar acamado&#8230; No entanto, essa circunstância não o impedia de meditar e pronunciar tais palavras ao tomar conhecimento do fato.<a href="#refmark-25">↵</a></li>
<li id="footnote-26" class="fn-text">[ 26 ] Antônio Alves F. dos Santos, op. cit., apud D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 464.<a href="#refmark-26">↵</a></li>
<li id="footnote-27" class="fn-text">[ 27 ] Augusto Vitorino Alves Sacramento Blake, 1902, op. cit., p. 54.<a href="#refmark-27">↵</a></li>
<li id="footnote-28" class="fn-text">[ 28 ] Antônio Alves F. dos Santos, op. cit., apud D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 129.<a href="#refmark-28">↵</a></li>
<li id="footnote-29" class="fn-text">[ 29 ]  <em>O Apóstolo </em>de 14/7 e 20/10/1889; e Antônio Alves F. dos Santos, op. cit., apud D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 466-8.<a href="#refmark-29">↵</a></li>
<li id="footnote-30" class="fn-text">[ 30 ] Antônio Alves F. dos Santos, op. cit., apud D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 466-7, 518-9, 526.<a href="#refmark-30">↵</a></li>
<li id="footnote-31" class="fn-text">[ 31 ] Christiano Woelffel Fraga, Maçonaria no Espírito Santo – Aug. Resp. Ben. e Benf. Loja União e Progresso, Vitória, [s. n.], [1995], p. 103-9.<a href="#refmark-31">↵</a></li>
<li id="footnote-32" class="fn-text">[ 32 ] Relatório apresentado à Assembleia Legislativa da Província do Espírito Santo em sua sessão ordinária de oito de março de 1881 pelo presidente da província exmo. sr. dr. Marcelino de Assis Tostes, Vitória, Tip. Gazeta da Vitória, 1881, p. 30-2; e Relatório apresentado à Assembleia Legislativa Provincial do Espírito Santo pelo presidente da província Antonio Joaquim Rodrigues em cinco de outubro de 1886, Vitória, Tip. Espírito-Santense, 1886, p. 19.<a href="#refmark-32">↵</a></li>
<li id="footnote-33" class="fn-text">[ 33 ] Relatório apresentado à Assembleia Legislativa em março de 1881 pelo presidente da província Marcelino de Assis Tostes, op. cit., p. 30: “Culto Público – Abro este capítulo dando-vos a grata notícia, de que se acha em viagem apostólica pela Provín­cia, desde Junho do ano passado, o nosso preclaro e virtuoso Prelado o Exmo. Sr. D. Pedro de Lacerda”.<a href="#refmark-33">↵</a></li>
<li id="footnote-34" class="fn-text">[ 34 ] D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 321-83.<a href="#refmark-34">↵</a></li>
<li id="footnote-35" class="fn-text">[ 35 ] Cf. seu próprio comentário registrado no trecho correspondente ao dia 28 de setembro de 1880, quando está em Santa Cruz; e Norbertino Bahiense, <em>O Convento da Penha, um templo histórico, tradicional e famoso – 1534 a 1951</em>, Vitória, Escola Técnica de Vitória, 1951, p. 95.<a href="#refmark-35">↵</a></li>
<li id="footnote-36" class="fn-text">[ 36 ] Os originais desses rascunhos e dos relatórios das duas visitas pastorais de D. La­cerda ao Espírito Santo estão no Arquivo da Cúria Metropolitana de Vitória.<a href="#refmark-36">↵</a></li>
<li id="footnote-38" class="fn-text">[ 38 ] Emiliana Gonçalves, <em>Anchieta, cidade dos sonhos</em>, Vitória, [s. n.], 1996, p. 24.<a href="#refmark-38">↵</a></li>
<li id="footnote-39" class="fn-text">[ 39 ] Adwalter Antônio Carnielli, op. cit., p. 71.<a href="#refmark-39">↵</a></li>
<li id="footnote-40" class="fn-text">[ 40 ] Emiliana Gonçalves, op. cit., p. 37.<a href="#refmark-40">↵</a></li>
</ol>
</div>
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		<title>Diários das Visitas Pastorais de 1880 e 1886 à Província do Espírito Santo</title>
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		<pubDate>Tue, 20 Mar 2012 09:00:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Estação Capixaba</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Introdução &#160; Os Diários das visitas pastorais de 1880 e 1886 à Província do Espírito Santo, de autoria do bis­po D. Pedro Maria de Lacerda, aqui transcritos e ora publicados, originam-se de fontes manuscritas que fazem parte do acervo do Centro de Documen­tação e Informação da Arquidiocese de Vitória – CEDAVES –, compreen­dendo três cadernos ou<a href="http://www.estacaocapixaba.com.br/sem-categoria/diarios-das-visitas-pastorais-de-1880-e-1886-a-provincia-do-espirito-santo-3/">[Ler o restante do artigo]</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<span id="Introduo"><h3><strong>Introdução</strong></h3></span>
<p>&nbsp;</p>
<p>Os <em>Diários das visitas pastorais de 1880 e 1886 à Província do Espírito Santo</em>, de autoria do bis­po D. Pedro Maria de Lacerda, aqui transcritos e ora publicados, originam-se de fontes manuscritas que fazem parte do acervo do Centro de Documen­tação e Informação da Arquidiocese de Vitória – CEDAVES –, compreen­dendo três cadernos ou volumes: o primeiro, que abrange o período de 14 de julho a 11 de novembro de 1880, possui 278 páginas; o segundo, de 14 de fevereiro a 24 de julho de 1886, possui 398 páginas, incluindo versos da capa e contracapa do caderno; e o terceiro e último volume, de 24 de julho de 1886 a 28 de março do ano seguinte, possui 354 páginas, incluídas algumas páginas em branco.</p>
<p>As anotações do primeiro volume dos <em>Diários </em>foram feitas a <em>posteriori</em>, con­siderando-se as oito páginas de rascunhos encontradas: o bispo encerra o volume em 11 de novembro de 1880, e os rascunhos vão até 24 de março do ano seguinte.</p>
<p>A publicação desse documento representa a continuação de trabalho seme­lhante feito anteriormente e que deu origem ao livro intitulado <em><a title="O Espírito Santo em princípios do século XIX" href="http://www.estacaocapixaba.com.br/temas/historia/o-espirito-santo-em-principios-do-seculo-xix-2/">O Espírito Santo em princípios do século XIX</a></em>, também publicado neste site, baseado nos <em>Apontamentos </em>de outro bispo – D. José Caetano da Silva Coutinho –, que visitou o Espírito Santo em 1812 e 1819.</p>
<p>Ambas as narrativas compõem um conjunto de documentos que, além do marcante caráter religioso, contêm rico registro de vida e costumes de época sob pontos de vista de viajantes, mencionando personalidades e retratando o dia a dia das localidades visitadas. Constituem assim importante contribuição para a historiografia na qualidade de fontes primárias de pesquisa.</p>
<p>Em comparação com os apontamentos de D. José Caetano, os escritos do bispo Lacerda destacam-se por maior riqueza de informações e detalhes na descrição de suas impressões sobre locais, habitantes e paisagens com os quais teve contato. Como viajante ele dá notícias sobre os caminhos percorri­ dos, os meios de transporte utilizados, os incômodos encontrados e o tempo despendido nos trajetos, especialmente na visita de 1886.</p>
<p>De maneira geral, os Diários do bispo D. Pedro Maria de Lacerda revelam um homem de curiosidade aguçada, o que o levou a realizar por conta própria várias pequenas incursões com o fito de deleite e para conferir cartografias da época. Além de sua natural curiosidade por tudo e todos que estavam a sua volta, encontramos nele um grande observador, e é a esses traços de sua personalidade que devemos tamanha riqueza de detalhes encontrada em seus relatos.</p>
<p>O bispo D. Pedro dirige um olhar atento aos habitantes locais. Menciona nomes e fala de suas preocupações com cada indivíduo, nunca deixando de assisti-los em suas necessidades, fossem eles livres, escravos ou índios. Aliás, não esconde sua admiração especial pelos índios, deixando claro o respeito que sente por sua cultura pelas exortações à preservação da língua e esforços que fez para aprendê-la, como se vê em várias passagens ao longo do texto.</p>
<p>As paisagens têm nele observador atento. Sempre que seu trabalho permitiu ele reservou momentos para suas caminhadas, galopes ou passeios de barco para explorar as redondezas e ter contato com a natureza, tomando nota de tudo quanto considerasse significativo. Assim descreveu exaustivamente paisagens locais com seus rios, córregos, montanhas e outros acidentes, abundância e beleza de matas, sempre comparando suas observações com mapas produzidos na época e apontando suas imperfeições.</p>
<p>Nosso trabalho de edição dos Diários tem como objetivo precípuo disponibilizar o documento ao público em geral. Acreditamos que a sua transcrição e publicação tanto na forma impressa como virtual democratizará o acesso ao documento, permitindo que pesquisadores como também o público leigo interessado em assuntos relacionados ao Espírito Santo conheçam seu conteúdo. Não foi nossa preocupação semear centenas de notas nos rodapés do livro, razão por que boa parte delas se restringe a complementar nomes próprios de pessoas citadas no texto ou a identificar corretamente as citações latinas do bispo, procedimentos adotados para facilitar consultas na internet. No mais, esperamos que os pesquisadores se sintam estimulados a realizar a necessária análise e produção de estudos a partir destes diários.</p>
<p>Restringimos a transcrição aos três volumes, deixando de fazê-lo em relação aos rascunhos, que aqui reproduzimos apenas na forma fac-similar (Anexo II), considerando que a linguagem telegráfica adotada pelo bispo não permi­te uma compreensão precisa das informações neles presentes. No entanto foram importante fonte para o estabelecimento do roteiro da primeira visita, fornecendo subsídios consistentes para esse capítulo como se poderá cons­tatar adiante.</p>
<p>Além dos rascunhos, cuja passagem para o livro não foi completada pelo bispo, observa-se a ausência de parte de seus relatos no que diz respeito a Vi­tória e Vila Velha que, ao que tudo indica, foram registrados separadamente e sobre os quais ainda não se tem notícia. Concluímos que tais registros foram produzidos, considerando que o bispo não deixaria de fazê-lo tendo realiza­do a visita a esses lugares, o que deixa claro em algumas passagens como se vê a seguir: “Eu pretendia fazer hoje em Benevente Missa solene aniversária onde ele morreu, como em 1880 fiz na Vitória onde foi sua sepultura!” (p. 336) “Lembro-me bem que em 1880 do alto da Penha vi muito ao longe quase nos confins do horizonte as ilhas de Guarapari.” (p. 307)</p>
<p>* * *</p>
<p>Quanto às características do documento, observamos o seguinte: em geral a caligrafia é bastante regular, com caracteres pequenos, abreviaturas, mui­tos pós-escritos em entrelinhas e frases em latim (vide Anexo I, p. 64 do original). Quanto ao estado de conservação, este é regular, observando-se perfurações por insetos (p. 195 a p. 201 dos originais) e alguns borrões. Essas características dificultaram medianamente a leitura, levando a poucas lacunas na transcrição.</p>
<p>No que se refere à edição do texto, excetuando-se a atualização da ortografia, procurou-se respeitar ao máximo a redação original. Isso significa que se manteve o padrão pessoal e variável do autor no uso de iniciais maiúscu­las, números cardinais e ordinais (às vezes representados por algarismos, ora por extenso), e abreviaturas (de pronomes de tratamento; as demais foram geralmente desdobradas). A pontuação (sobretudo no caso de vírgulas) foi também respeitada, exceto quando se fez necessária uma intervenção em prol da clareza da frase; no entanto eliminaram-se os travessões aleatórios e os parágrafos, com o objetivo de se compactar cada verbete do diário. As tabelas estatísticas das diversas ações de cunho religioso executadas ao longo das visitas (missas, comunhões, bênçãos, casamentos etc.) foram sistematiza­das para melhor entendimento dos leitores, incorporando também eventuais correções e retificações feitas pelo bispo. As paginações feitas nos originais, apesar de posteriores, são mantidas na publicação, aparecendo em negrito e entre colchetes, para facilitar a localização.</p>
<p>Os trechos truncados foram reproduzidos literalmente, evitando-se interpretações subjetivas. Os lapsos ocorridos durante a redação foram mantidos, intervindo-se, porém, quando o bispo duplicou palavras ou deixou de fechar parênteses. Mantiveram-se os erros de sintaxe em quase todas as ocorrências; e incorporaram-se à narrativa as notas de rodapé quando julgadas equivalentes aos acréscimos em entrelinha, não implicando, portanto, cortes na narrativa. Colchetes e uso de sic marcam (e esclarecem) a maior parte das intervenções.</p>
<p>Por fim, cabe lembrar que os originais digitalizados do manuscrito (assim como todo o conteúdo deste livro) estão disponíveis na íntegra no site da Arquidiocese de Vitória2 e no Estação Capixaba,3 onde os interessados poderão consultá-los.</p>
<p style="text-align: right;"><strong>Maria Clara Medeiros Santos Neves</strong></p>
<p style="text-align: right;">Organizadora e coordenadora editorial</p>
<p style="text-align: right;">Coordenadora de Projetos da Phoenix Cultura</p>
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		<title>Diários das Visitas Pastorais de 1880 e 1886 à Província do Espírito Santo</title>
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		<pubDate>Sat, 17 Mar 2012 09:06:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>D. Pedro Maria de Lacerda</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Especiais]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Temas]]></category>
		<category><![CDATA[Viajantes]]></category>

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		<description><![CDATA[Autor do manuscrito: D. Pedro Maria de Lacerda Organizador: Maria Clara Medeiros Santos Neves Edição final: Reinaldo Santos Neves Autor da transcrição: Vanessa Brasiliense Estudo Introdutório: Fernando Achiamé                                                         <a href="http://www.estacaocapixaba.com.br/temas/historia/diarios-das-visitas-pastorais-de-1880-e-1886-a-provincia-do-espirito-santo-2/">[Ler o restante do artigo]</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a style="text-align: right;" href="http://www.estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2012/03/capa.jpg"><img class="size-medium wp-image-4925 alignleft" title="capa" src="http://www.estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2012/03/capa-202x300.jpg" alt="" width="182" height="270" /></a></p>
<p style="text-align: center;"><strong>Autor do manuscrito</strong>: D. Pedro Maria de Lacerda</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Organizador</strong>: Maria Clara Medeiros Santos Neves</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Edição final</strong>: Reinaldo Santos Neves</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Autor da transcrição</strong>: Vanessa Brasiliense</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Estudo Introdutório</strong>: Fernando Achiamé</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2012/03/1_Recursos_Funcultura.jpg"><img class="alignnone size-medium wp-image-4923" style="border-style: initial; border-color: initial;" title="1_Recursos_Funcultura" src="http://www.estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2012/03/1_Recursos_Funcultura-300x168.jpg" alt="" width="126" height="71" /></a>              <a href="http://www.estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2012/03/2_Realização_Phoenix-Cultura.jpg"><img class="alignnone size-medium wp-image-4924" title="2_Realização_Phoenix Cultura" src="http://www.estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2012/03/2_Realização_Phoenix-Cultura-300x168.jpg" alt="" width="102" height="58" /></a>      <a href="http://www.estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2012/03/3_Apoio_Arquidiocese.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-4922" title="3_Apoio_Arquidiocese" src="http://www.estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2012/03/3_Apoio_Arquidiocese.jpg" alt="" width="64" height="74" /></a></p>
<p style="text-align: center;"><strong>                                                                                                                                                                                                          </strong></p>
<p style="text-align: left;"><strong> <a href="http://www.estacaocapixaba.com.br/?p=4818">Introdução</a></strong></p>
<p><strong><a href="http://www.estacaocapixaba.com.br/?p=4820">Roteiro das visitas</a></strong></p>
<p><strong><a href="http://www.estacaocapixaba.com.br/?p=4824">Espero em tua palavra</a></strong></p>
<p><strong>Volume 1</strong></p>
<p><strong>    <a href="http://www.estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2012/03/arquivo_II_volume_1.pdf">Transcrição</a> </strong></p>
<p><strong>    <a href="http://www.estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2012/03/Bispo_vol_1.pdf">Manuscrito</a></strong></p>
<p><strong>Volume 2</strong></p>
<p><strong>    <a href="http://www.estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2012/03/arquivo_III_volume_2.pdf">Transcrição</a></strong></p>
<p><strong>    <a href="http://www.estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2012/03/Bispo_vol_2_parte-1.pdf">Manuscrito, Parte I </a> </strong></p>
<p><strong>    <a href="http://www.estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2012/03/Bispo_vol_2_parte-2.pdf">Manuscrito, Parte II</a></strong></p>
<p><strong>Volume 3</strong></p>
<p><strong>    <a href="http://www.estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2012/03/arquivo_IV_volume_3.pdf">Transcrição</a></strong></p>
<p><strong>    <a href="http://www.estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2012/03/Bispo_vol_3_parte-1.pdf">Manuscrito, Parte I</a></strong></p>
<p><strong></strong><strong>    <a href="http://www.estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2012/03/Bispo_vol_3_parte-2.pdf">Manuscrito, Parte II</a> </strong></p>
<p><strong><a href="http://www.estacaocapixaba.com.br/?p=4830">Bibliografia</a></strong></p>
<p><strong><a href="http://www.estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2012/03/Rascunhos1.pdf">Rascunhos do Bispo</a></strong></p>
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