COLETÂNEA DE ESTUDOS E REGISTROS DO FOLCLORE CAPIXABA: 1944-1982

 

Guilherme Santos Neves

“AMANHÃ É DOMINGO” 

 

Uma velha parlenda infantil, focalizada por vários folcloristas, entre os quais mestre João Ribeiro, que a achava “muito graciosa”, é aquela que diz:

 

Amanhã é domingo

Pé de cachimbo;

Galo monteiro

Pisou na areia;

A areia é fina

Que dá no sino;

O sino é de ouro

Que dá no besouro;

O besouro é de prata

Que dá na mata;

A mata é valente

Que dá no tenente;

O tenente é mofino

Que dá no menino;

O menino é valente

Que dá em toda a gente.

 

Essa a versão de Pernambuco, registrada por Pereira da Costa em seu Folclore pernambucano (p. 503).

 

Estudaram essa parlenda infantil – que eu saiba – além de João Ribeiro, Gustavo Barroso (O sertão e o mundo, p. 207), Veríssimo de Melo (Parlendas, p. 65), Cecília Meireles (“Infância e folclore”, A Manhã, 01.02.1942) e, mais recentemente, Câmara Cascudo (Literatura oral, p. 56). Outros folcloristas têm-se limitado a referir variantes, como Pereira da Costa (op. cit.), Sílvio Romero (Cantos populares do Brasil), Fausto Teixeira (Estudos de folclore, p. 162), Mariza Lira e Leonor Posada (Uma, duas angolinhas, p. 78) e outros mais.

 

Entre as versões capixabas por nós recolhidas, podemos referir aqui estas duas, a primeira de Colatina e Cariacica, a segunda, de Domingos Martins:

 

Hoje é domingo

do pé de cachimbo,

cachimbo de barro

bateu no aro,

aro é fino

bateu no sino,

sino é de ouro

bateu no touro,

touro é valente

que pega a gente.

 

Hoje é domingo

pé do cachimbo,

o cachimbo é de ouro

que dá no besouro,

o besouro é valente

que dá na gente.

 

Uma variante de Minas, colhida aqui no Espírito Santo, diz assim:

 

Hoje é domingo

pé de cachimbo,

cachimbo de ouro

que dá no touro,

o touro é valente

que dá na gente,

a gente é fraca

cai no buraco,

o buraco é fundo

tamanho do mundo.

Amanhã é domingo...

 

Note-se que em todas essas variantes por nós coletadas nem uma só emprega o verso “Amanhã é domingo”, preferindo, em seu lugar, “Hoje é domingo”, a indicar brincadeira dominical, e não de véspera. A versão mineira acima referida também cita o “Hoje”, tal como a que se lê nos Estudos de folclore, de Fausto Teixeira:

 

Hoje é domingo

pé de cachimbo

o cachimbo é de barro

bate no jarro;

o jarro é de ouro

bate no touro;

o touro é valente

bate na gente;

a gente é fraco

cai no buraco;

o buraco é fundo...

seu vagabundo!

 

Diz mestre Cascudo que nessa parlenda “o motivo é apenas ritmo. O texto verbal é uma série de imagens associadas, sem que a sucessão seja lógica, ou tendo a lógica infantil, nem sempre a nossa”.

 

Mero passatempo de criança, traz em si aquela simpleza e ingenuidade que dão tanta graça e candura às composições menineiras do nosso opulento folclore infantil.

 

[Fonte: A Gazeta, 23.08.1952]

 

 

 

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