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“AMANHÃ É DOMINGO”
Uma
velha parlenda infantil, focalizada por vários folcloristas,
entre os quais mestre João Ribeiro, que a achava “muito
graciosa”, é aquela que diz:
Amanhã
é domingo
Pé de
cachimbo;
Galo
monteiro
Pisou
na areia;
A
areia é fina
Que dá
no sino;
O sino
é de ouro
Que dá
no besouro;
O
besouro é de prata
Que dá
na mata;
A mata
é valente
Que dá
no tenente;
O
tenente é mofino
Que dá
no menino;
O
menino é valente
Que dá
em toda a gente.
Essa a
versão de Pernambuco, registrada por Pereira da Costa em seu
Folclore pernambucano (p. 503).
Estudaram essa parlenda infantil – que eu saiba – além de
João Ribeiro, Gustavo Barroso (O sertão e o mundo, p.
207), Veríssimo de Melo (Parlendas, p. 65), Cecília
Meireles (“Infância e folclore”, A Manhã, 01.02.1942)
e, mais recentemente, Câmara Cascudo (Literatura oral,
p. 56). Outros folcloristas têm-se limitado a referir
variantes, como Pereira da Costa (op. cit.), Sílvio Romero (Cantos
populares do Brasil), Fausto Teixeira (Estudos de
folclore, p. 162), Mariza Lira e Leonor Posada (Uma,
duas angolinhas, p. 78) e outros mais.
Entre
as versões capixabas por nós recolhidas, podemos referir
aqui estas duas, a primeira de Colatina e Cariacica, a
segunda, de Domingos Martins:
Hoje é
domingo
do pé
de cachimbo,
cachimbo de barro
bateu
no aro,
aro é
fino
bateu
no sino,
sino é
de ouro
bateu
no touro,
touro
é valente
que
pega a gente.
Hoje é
domingo
pé do
cachimbo,
o
cachimbo é de ouro
que dá
no besouro,
o
besouro é valente
que dá
na gente.
Uma
variante de Minas, colhida aqui no Espírito Santo, diz
assim:
Hoje é
domingo
pé de
cachimbo,
cachimbo de ouro
que dá
no touro,
o
touro é valente
que dá
na gente,
a
gente é fraca
cai no
buraco,
o
buraco é fundo
tamanho do mundo.
Amanhã
é domingo...
Note-se que em todas essas variantes por nós coletadas nem
uma só emprega o verso “Amanhã é domingo”, preferindo, em
seu lugar, “Hoje é domingo”, a indicar brincadeira
dominical, e não de véspera. A versão mineira acima referida
também cita o “Hoje”, tal como a que se lê nos Estudos de
folclore, de Fausto Teixeira:
Hoje é
domingo
pé de
cachimbo
o
cachimbo é de barro
bate
no jarro;
o
jarro é de ouro
bate
no touro;
o
touro é valente
bate
na gente;
a
gente é fraco
cai no
buraco;
o
buraco é fundo...
seu
vagabundo!
Diz
mestre Cascudo que nessa parlenda “o motivo é apenas ritmo.
O texto verbal é uma série de imagens associadas, sem que a
sucessão seja lógica, ou tendo a lógica infantil, nem sempre
a nossa”.
Mero
passatempo de criança, traz em si aquela simpleza e
ingenuidade que dão tanta graça e candura às composições
menineiras do nosso opulento folclore infantil.
[Fonte: A Gazeta, 23.08.1952] |