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TRÊS
CONTOS POPULARES
Dentro
do campo do folclore, vários são os contos em que se inserem
versos, cantados no decorrer do relato. Disse “no decorrer
do relato” e não no fecho do conto, pois não me refiro às
quadras que se entoam – ou se entoavam – mal a história
acabava: “Entrou por uma porta, / Saiu por outra; / Manda
el-rei meu senhor / Que me conte outra.” – “Entrou por uma
porta, / Saiu por um pé de pato; / Manda o rei meu senhor /
Que me conte quatro.” – “Entrou por uma porta, / Saiu por um
canivete; / Manda o rei meu senhor / Que me conte sete”...
Dessas
histórias, a mais divulgada é, sem ponta de dúvida, a da
“Madrasta”, conhecida também como da “Menina enterrada” ou
do “Figo da figueira”, onde se encastoam aqueles versos com
que a criança espantava os pássaros:
Xô, xô,
passarinho,
ai,
não toques o biquinho,
vai-te
embora pro teu ninho,
xô, xô,
passarinho,
xô, xô!...
E,
quase no fecho deste conto, aquela canção triste, ouvida
pela capineiro, quando cortava o capim que cobria o lugar
onde estava enterrada a menina:
Capineiro de meu pai,
não me
cortes o cabelo,
minha
mãe me penteava,
minha
madrasta me enterrou,
pelo
figo da figueira
que o
passarinho bicou.
Uma
variante transcrita por Mestre Câmara Cascudo em seus
Contos tradicionais brasileiros (1955, p. 420) inclui os
seguintes versos (além da melodia fixada pelo maestro
Waldemar de Almeida): “Capineiro de meu pai! / Não cortes os
cabelos... / Minha mãe me penteou, / Minha madrasta me
enterrou, / Pelo figo da figueira / Que o passarinho
picou... / Xô passarinho!”
Noutras histórias também se incluem versos, como – para
citar apenas algumas – a da “Melancia, coco mole”, a dos
“Compadres corcundas”, a da “Menina dos brincos de ouro”, a
do “Chapim del-rei”, a do “Rei Andrada”.
Mais
um exemplo desses contos contendo partes em versos é o do
“Cego e seus três filhos”, do qual aqui vai uma versão
recolhida, há tempos, em Vitória:
Era
uma vez um homem que tinha três filhos. Um dia ele foi pra
roça e quando ia passando perto de um pé de pico, caiu o
leite do pico nos dois olhos dele e ficou cego. Então ele
mandou o filho mais velho ir buscar a água de japu
que curava a cegueira. O filho foi, mas quando ia passando
por uma casa, tinha festa e ele ficou. O pai esperou, mas
ele não vinha, e então mandou o filho do meio. Ele foi e,
vendo o irmão na festa, entrou na casa e ficou também. Agora
só tinha o filho mais novo. O pai não sabia o que fazer e
falava: “Meu Deus, só me resta meu filhinho Joãozinho, mas
ele é ainda tão novinho e não sabe nada...” O filho escutou
o que o pai estava falando e disse: “Meu pai, eu vou e trago
a água, eu sei.” E então o pai mandou. Quando ele ia
passando pela casa, ele viu os irmãos e chamou eles e
começou a brigar: “Vocês, em vez de panhar água pra papai,
ficaram aqui dançando. Eu vou contar a ele.” Os dois irmãos
ficaram olhando pra ver onde é que tinha água. Quando João
chegou, os dois pegaram ele e mataram numa pedra oqueira;
depois enterraram na lama e foram levar a água de japu pro
pai, que perguntou pelo filho menor e os dois disseram que
não viram ele não. Então o pai ficou bom da vista e foi
procurar Joãozinho. Andou, andou, e quando ia passando por
uma pedra escutou uma voz cantar:
Me
mataram na pedra oqueira,
Me
enterraram na lama lameira,
Água
de japu para papai.
Água
de japu para papai...
Ouvindo isto ele reconheceu a voz do filhinho e logo
depressa desenterrou ele e levou o corpo pra casa. Chegando
lá perguntou aos dois por que eles tinham matado o irmão,
mas eles não disseram e então o pai matou os dois filhos, e
enterrou no mesmo lugar onde tinha estado João. Depois, fez
um enterro bem bonito pro caçulinho e ficou sempre triste
porque não tinha mais filho nenhum.
Noutra
variante capixaba, de Viana, ouvida a D. Felismina Siqueira
Nascimento por nosso amigo Paulo Nascimento, a canção que se
entoa é assim:
Tocai,
tocai, meu pretinho,
Me
mataram na pedra furada,
Me
enterraram na lama lameira.
Água
de jatu para os olhos de meu pai!
Água
de jatu para os olhos de meu pai!...
Como
se vê, o mesmo pai cego, a mesma água de japu (mudada
em água de jatu), e a mesma lama lameira.
Quanto à pedra oqueira, aí está ela substituída por
expressão possivelmente sinônima: pedra furada, isto
é, pedra oca.
O
termo lameira, embora pareça prender-se a lama,
tem outro sentido. Lá está, no velho dicionário de Antônio
Morais Silva, Dicionário da língua portuguesa: “Lameira
– Planta, a que o vulgo supersticiosamente atribui certas
virtudes.”
Variantes desse conto não incluem a voz que sai da “pedra
oqueira”. É o que se nota, por exemplo, na história “A fonte
do Getume”, versão paulista coletada por Aluísio de Almeida
e divulgada em “142 histórias brasileiras” (Revista do
Arquivo Municipal, São Paulo, 1951, p. 189).
Também
variantes desse conto se lêem em Folklore de la República
Dominicana, de Manuel José Andrade (tomo I), às p. 100,
“La flor del calbolial”, 101, “La flor de Beliar”, 102, “Lo
tre hermano”, e 105, “El agua de la vida”. Em todas essas
versões há um pai cego ou doente, três filhos que vão mundo
afora, em busca do remédio para curá-lo; água da flor do
calbolial ou de beliar; insucesso dos irmãos mais
velhos; êxito do caçula; e inveja dos irmãos que, diferente
das versões capixaba e paulista, não matam o menor mas
furtam-lhe o remédio e o trocam por outro ineficaz.
Passemos, agora, ao conto universal do “Chapim del-Rei”.
Digo universal porque, dele, há versões no Brasil,
Portugal, Argentina, Porto Rico e, por certo, no folclore de
outros países.
Também
no Espírito Santo se conta (ou contava) essa história
cativante. Ei-la, na variante que ouvimos, há tempos, a D.
Adelaide Bastos Vieira:
Era
uma vez um príncipe que era casado com uma princesa muito
bonita, e por essa razão ele tinha loucos ciúmes dela. De
tal forma que a trazia presa em um quarto, onde somente ele
entrava. Nunca ninguém viu a princesa, desde que casou-se.
Quando o príncipe saía para a caça, semeava farinha do reino
pelo quarto, para que, se alguém ali penetrasse, deixasse o
rasto no chão. Com eles morava um sobrinho do príncipe, que
tinha grande desejo de conhecer a princesa. Um dia, o
príncipe esqueceu a chave do quarto na fechadura; o
sobrinho, percebendo o esquecimento, aproveitou a
oportunidade e penetrou no quarto. A princesa estava
dormindo e ele ficou admirado ao ver tanta beleza.
Contemplou-a por uns instantes e saiu de mansinho para não
acordá-la. Logo que o príncipe notou que havia esquecido a
chave, voltou aflito para casa, e aí chegando encontrou a
princesa dormindo ainda, e no chão o rastro que demonstrava
haver entrado um homem ali. Furioso saiu, recomendou à
governante que tomasse conta da princesa não deixando que
lhe faltasse nada, mas também não permitindo que ela saísse
do quarto. A princesa, vendo-se presa e desprezada sem saber
por quê, escreveu uma carta a seu pai, que era rei,
pedindo-lhe que mandasse organizar uma festa e oferecesse um
almoço ao príncipe e a ela, pois somente assim ela teria
ocasião de se encontrar com o marido. Tudo foi feito
conforme o pedido, e quando estavam em meio do almoço, ela
disse para o rei, seu pai:
Eu era
uma bela empada
Que
dantes era querida
E hoje
sou desprezada.
O por
quê e o por que não,
Senhor, não sei.
O
príncipe, ouvindo isto, respondeu:
Eu fui
à caça,
Farinha deixei,
Quando
cheguei,
Rastro
de ladrão
Na via
achei.
Se
roubou ou não roubou,
Senhor, não sei.
O
sobrinho do príncipe, que também estava presente,
compreendeu tudo e levantando-se disse:
Eu fui
o ladrão
Que na
via entrei.
Ricas
uvas vi.
Juro
pela coroa del-Rei
Como
nelas não buli.
O
príncipe, reconhecendo o seu erro, procurou a princesa logo
após o almoço, pediu-lhe perdão, e passaram a viver felizes.
Câmara
Cascudo transcreveu e anotou, com a erudição de sempre, uma
versão por ele ouvida, no Rio Grande do Norte, à velhinha
Luísa Freire. Está ela em Vaqueiros e cantadores
(1939) e, também, nas Trinta estórias brasileiras
(1955). Neste livro se transcrevem, além de algumas fontes
originárias da história, as versões conhecidas em Portugal,
na Argentina e em Porto Rico.
A
variante capixaba não inclui, no contexto, nenhum chapim
(que o rei perde no quarto onde dorme a condessa – versão de
Almeida Garrett – ou que o rei viúvo aí perde – versão
norte-riograndense). Também não há referência a nenhuma luva
perdida (versões portuguesas).
Está,
porém, a nossa história mais diretamente ligada à variante
baiana (de Silva Campos), onde o rastro do príncipe se nota
através da farinha do reino espalhada previamente no quarto
da moça:
Quando
de casa saí
Pós
brancos espalhei.
Rastro
de ladrão achei.
Se
roubou, se não roubou,
Só
Deus sabe. Eu não sei.
Na
variante portuguesa de Garrett fala-se na “dona emparedada”
que deve ter dado origem à nossa estranha “bela empada”. O
verso, é possível, seria assim: “Eu sou uma bela
emparedada”. Também, em lugar de via (“Eu fui o
ladrão que na via entrei”) devera estar vinha, como
se lê nos versos garrettianos: “Eu fui que na vinha entrei.”
Do mesmo modo na versão de Teófilo Braga: “Eu à tua vinha
fui / Parras verdes eu abri.”
Frise-se, afinal, que a variante de Conceição da Barra,
guardando o mesmo fio temático das demais, também faz alusão
a uvas – simbolização das belezas feminis. Talvez as
mesmas belas frutas que, noutra metáfora, se vêem
nesta adivinha capixaba: “Laranjeira do meu bem / duas
laranjas tem”...
[Fontes: A Gazeta, 26.08.1952 e 30.09.1977, e texto
datilografado sem data] |