COLETÂNEA DE ESTUDOS E REGISTROS DO FOLCLORE CAPIXABA: 1944-1982

 

Guilherme Santos Neves

TRÊS CONTOS POPULARES

 

Dentro do campo do folclore, vários são os contos em que se inserem versos, cantados no decorrer do relato. Disse “no decorrer do relato” e não no fecho do conto, pois não me refiro às quadras que se entoam – ou se entoavam – mal a história acabava: “Entrou por uma porta, / Saiu por outra; / Manda el-rei meu senhor / Que me conte outra.” – “Entrou por uma porta, / Saiu por um pé de pato; / Manda o rei meu senhor / Que me conte quatro.” – “Entrou por uma porta, / Saiu por um canivete; / Manda o rei meu senhor / Que me conte sete”...

 

Dessas histórias, a mais divulgada é, sem ponta de dúvida, a da “Madrasta”, conhecida também como da “Menina enterrada” ou do “Figo da figueira”, onde se encastoam aqueles versos com que a criança espantava os pássaros:

 

Xô, xô, passarinho,

ai, não toques o biquinho,

vai-te embora pro teu ninho,

xô, xô, passarinho,

xô, xô!...

 

E, quase no fecho deste conto, aquela canção triste, ouvida pela capineiro, quando cortava o capim que cobria o lugar onde estava enterrada a menina:

 

Capineiro de meu pai,

não me cortes o cabelo,

minha mãe me penteava,

minha madrasta me enterrou,

pelo figo da figueira

que o passarinho bicou.

 

Uma variante transcrita por Mestre Câmara Cascudo em seus Contos tradicionais brasileiros (1955, p. 420) inclui os seguintes versos (além da melodia fixada pelo maestro Waldemar de Almeida): “Capineiro de meu pai! / Não cortes os cabelos... / Minha mãe me penteou, / Minha madrasta me enterrou, / Pelo figo da figueira / Que o passarinho picou... / Xô passarinho!”

 

Noutras histórias também se incluem versos, como – para citar apenas algumas – a da “Melancia, coco mole”, a dos “Compadres corcundas”, a da “Menina dos brincos de ouro”, a do “Chapim del-rei”, a do “Rei Andrada”.

 

Mais um exemplo desses contos contendo partes em versos é o do “Cego e seus três filhos”, do qual aqui vai uma versão recolhida, há tempos, em Vitória:

 

Era uma vez um homem que tinha três filhos. Um dia ele foi pra roça e quando ia passando perto de um pé de pico, caiu o leite do pico nos dois olhos dele e ficou cego. Então ele mandou o filho mais velho ir buscar a água de japu que curava a cegueira. O filho foi, mas quando ia passando por uma casa, tinha festa e ele ficou. O pai esperou, mas ele não vinha, e então mandou o filho do meio. Ele foi e, vendo o irmão na festa, entrou na casa e ficou também. Agora só tinha o filho mais novo. O pai não sabia o que fazer e falava: “Meu Deus, só me resta meu filhinho Joãozinho, mas ele é ainda tão novinho e não sabe nada...” O filho escutou o que o pai estava falando e disse: “Meu pai, eu vou e trago a água, eu sei.” E então o pai mandou. Quando ele ia passando pela casa, ele viu os irmãos e chamou eles e começou a brigar: “Vocês, em vez de panhar água pra papai, ficaram aqui dançando. Eu vou contar a ele.” Os dois irmãos ficaram olhando pra ver onde é que tinha água. Quando João chegou, os dois pegaram ele e mataram numa pedra oqueira; depois enterraram na lama e foram levar a água de japu pro pai, que perguntou pelo filho menor e os dois disseram que não viram ele não. Então o pai ficou bom da vista e foi procurar Joãozinho. Andou, andou, e quando ia passando por uma pedra escutou uma voz cantar:

 

Me mataram na pedra oqueira,

Me enterraram na lama lameira,

Água de japu para papai.

Água de japu para papai...

 

Ouvindo isto ele reconheceu a voz do filhinho e logo depressa desenterrou ele e levou o corpo pra casa. Chegando lá perguntou aos dois por que eles tinham matado o irmão, mas eles não disseram e então o pai matou os dois filhos, e enterrou no mesmo lugar onde tinha estado João. Depois, fez um enterro bem bonito pro caçulinho e ficou sempre triste porque não tinha mais filho nenhum.

 

Noutra variante capixaba, de Viana, ouvida a D. Felismina Siqueira Nascimento por nosso amigo Paulo Nascimento, a canção que se entoa é assim:

 

Tocai, tocai, meu pretinho,

Me mataram na pedra furada,

Me enterraram na lama lameira.

Água de jatu para os olhos de meu pai!

Água de jatu para os olhos de meu pai!...

 

Como se vê, o mesmo pai cego, a mesma água de japu (mudada em água de jatu), e a mesma lama lameira. Quanto à pedra oqueira, aí está ela substituída por expressão possivelmente sinônima: pedra furada, isto é, pedra oca.

 

O termo lameira, embora pareça prender-se a lama, tem outro sentido. Lá está, no velho dicionário de Antônio Morais Silva, Dicionário da língua portuguesa: “Lameira – Planta, a que o vulgo supersticiosamente atribui certas virtudes.”

 

Variantes desse conto não incluem a voz que sai da “pedra oqueira”. É o que se nota, por exemplo, na história “A fonte do Getume”, versão paulista coletada por Aluísio de Almeida e divulgada em “142 histórias brasileiras” (Revista do Arquivo Municipal, São Paulo, 1951, p. 189).

 

Também variantes desse conto se lêem em Folklore de la República Dominicana, de Manuel José Andrade (tomo I), às p. 100, “La flor del calbolial”, 101, “La flor de Beliar”, 102, “Lo tre hermano”, e 105, “El agua de la vida”. Em todas essas versões há um pai cego ou doente, três filhos que vão mundo afora, em busca do remédio para curá-lo; água da flor do calbolial ou de beliar; insucesso dos irmãos mais velhos; êxito do caçula; e inveja dos irmãos que, diferente das versões capixaba e paulista, não matam o menor mas furtam-lhe o remédio e o trocam por outro ineficaz.

 

Passemos, agora, ao conto universal do “Chapim del-Rei”. Digo universal porque, dele, há versões no Brasil, Portugal, Argentina, Porto Rico e, por certo, no folclore de outros países.

 

Também no Espírito Santo se conta (ou contava) essa história cativante. Ei-la, na variante que ouvimos, há tempos, a D. Adelaide Bastos Vieira:

 

Era uma vez um príncipe que era casado com uma princesa muito bonita, e por essa razão ele tinha loucos ciúmes dela. De tal forma que a trazia presa em um quarto, onde somente ele entrava. Nunca ninguém viu a princesa, desde que casou-se. Quando o príncipe saía para a caça, semeava farinha do reino pelo quarto, para que, se alguém ali penetrasse, deixasse o rasto no chão. Com eles morava um sobrinho do príncipe, que tinha grande desejo de conhecer a princesa. Um dia, o príncipe esqueceu a chave do quarto na fechadura; o sobrinho, percebendo o esquecimento, aproveitou a oportunidade e penetrou no quarto. A princesa estava dormindo e ele ficou admirado ao ver tanta beleza. Contemplou-a por uns instantes e saiu de mansinho para não acordá-la. Logo que o príncipe notou que havia esquecido a chave, voltou aflito para casa, e aí chegando encontrou a princesa dormindo ainda, e no chão o rastro que demonstrava haver entrado um homem ali. Furioso saiu, recomendou à governante que tomasse conta da princesa não deixando que lhe faltasse nada, mas também não permitindo que ela saísse do quarto. A princesa, vendo-se presa e desprezada sem saber por quê, escreveu uma carta a seu pai, que era rei, pedindo-lhe que mandasse organizar uma festa e oferecesse um almoço ao príncipe e a ela, pois somente assim ela teria ocasião de se encontrar com o marido. Tudo foi feito conforme o pedido, e quando estavam em meio do almoço, ela disse para o rei, seu pai:

 

Eu era uma bela empada

Que dantes era querida

E hoje sou desprezada.

O por quê e o por que não,

Senhor, não sei.

 

O príncipe, ouvindo isto, respondeu:

 

Eu fui à caça,

Farinha deixei,

Quando cheguei,

Rastro de ladrão

Na via achei.

Se roubou ou não roubou,

Senhor, não sei.

 

O sobrinho do príncipe, que também estava presente, compreendeu tudo e levantando-se disse:

 

Eu fui o ladrão

Que na via entrei.

Ricas uvas vi.

Juro pela coroa del-Rei

Como nelas não buli.

 

O príncipe, reconhecendo o seu erro, procurou a princesa logo após o almoço, pediu-lhe perdão, e passaram a viver felizes.

 

Câmara Cascudo transcreveu e anotou, com a erudição de sempre, uma versão por ele ouvida, no Rio Grande do Norte, à velhinha Luísa Freire. Está ela em Vaqueiros e cantadores (1939) e, também, nas Trinta estórias brasileiras (1955). Neste livro se transcrevem, além de algumas fontes originárias da história, as versões conhecidas em Portugal, na Argentina e em Porto Rico.

 

A variante capixaba não inclui, no contexto, nenhum chapim (que o rei perde no quarto onde dorme a condessa – versão de Almeida Garrett – ou que o rei viúvo aí perde – versão norte-riograndense). Também não há referência a nenhuma luva perdida (versões portuguesas).

 

Está, porém, a nossa história mais diretamente ligada à variante baiana (de Silva Campos), onde o rastro do príncipe se nota através da farinha do reino espalhada previamente no quarto da moça:

 

Quando de casa saí

Pós brancos espalhei.

Rastro de ladrão achei.

Se roubou, se não roubou,

Só Deus sabe. Eu não sei.

 

Na variante portuguesa de Garrett fala-se na “dona emparedada” que deve ter dado origem à nossa estranha “bela empada”. O verso, é possível, seria assim: “Eu sou uma bela emparedada”. Também, em lugar de via (“Eu fui o ladrão que na via entrei”) devera estar vinha, como se lê nos versos garrettianos: “Eu fui que na vinha entrei.” Do mesmo modo na versão de Teófilo Braga: “Eu à tua vinha fui / Parras verdes eu abri.”

 

Frise-se, afinal, que a variante de Conceição da Barra, guardando o mesmo fio temático das demais, também faz alusão a uvas – simbolização das belezas feminis. Talvez as mesmas belas frutas que, noutra metáfora, se vêem nesta adivinha capixaba: “Laranjeira do meu bem / duas laranjas tem”...

 

[Fontes: A Gazeta, 26.08.1952 e 30.09.1977, e texto datilografado sem data]

 

 

 

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