COLETÂNEA DE ESTUDOS E REGISTROS DO FOLCLORE CAPIXABA: 1944-1982

 

Guilherme Santos Neves

“MARAÇAPEBA, A MARÉ ENCHE OU VAZA?”

 

Toda a gente em nosso Espírito Santo conhece a velha historiazinha da “Maraçapeba” e a razão de sua boca torta. Creio, mesmo, que é este o primeiro conto popular que a criança (principalmente a arremedeira ou a careteira) aprende em casa, ouvido da tradição oral.

 

Ei-lo, no registro que consta do precioso livrinho de Afonso Cláudio, Trovas e cantares capixabas (1923, p. 125-6):

 

A maraçapeba deste conto é o peixe conhecido como linguado e que tem a configuração de uma folha de árvore, semelhante à pariparoba ou malvaísco, e a boca torta. O conto encerra a explicação de ambas as particularidades e é assim concebido: Quando Cristo andou pelo mundo, certa vez, no mar, em companhia de São Pedro, desejou saber que horas seriam, porque a maré parecia não encher nem vazar. São Pedro, vendo-o assim preocupado, lhe disse: “Senhor, qualquer peixe lhe dirá que horas serão, porque todos eles têm as horas de suas refeições marcadas.” Jesus, ouvindo-o, passeou os olhos pelo mar e, vendo um linguado ou maraçapeba à superfície, indagou: “Maraçapeba, a maré enche ou vaza?” O peixe, por inexplicável desdém, procurou imitar a voz do Salvador e, fazendo um trejeito como quem torce o queixo para um lado, reproduziu a pergunta sem lhe dar a resposta. Então Jesus assim falou: “De hoje em diante, como pena à zombaria e afronta que fizeste ao teu criador, te arrastarás na lama como uma folha que o vento atira ao lodo, para granjear o teu sustento, e a tua boca será torta, a fim de que todos os teus irmãos te evitem e contigo jamais se confundam.”

 

Câmara Cascudo, em Contos tradicionais do Brasil (1.ª ed., 1946, p. 342; 2.ª ed., 1955, p. 273), transcrevendo a história na versão tirada ao livro de Afonso Cláudio, acresce-lhe várias notas eruditas, depois de a incluir no grupo dos “contos etiológicos”, isto é, conto “sugerido e inventado para explicar e dar a razão de ser de um aspecto, propriedade, caráter de qualquer gente natural” (João Ribeiro). Diz Câmara Cascudo:

 

É o episódio europeu de Nossa Senhora e a solha, popularíssimo em Portugal e Espanha. Teófilo Braga registrou variante da Foz e do Porto, n.º 221 de sua coleção. “Nossa Senhora à beira do rio viu uma solha e perguntou-lhe: Ó Solha! A maré enche ou vaza? A solha pôs a boca à banda, e repetiu com escárnio: Ó Solha! A maré enche ou vaza? Nossa Senhora disse: Assim fiques sempre com a boca à banda.” Em Portugal, segundo Braga e Consiglieri Pedroso, sempre é a Solha o peixe atrevido. No Brasil é a Maraçapeba, a Solha ou o Araçamá, Solea reticulada, pleuronectes araçamá, Cuv. e Val.

 

Mais adiante, refere o Mestre do nosso folclore a presença da lenda em França e Alemanha, onde tem sido referida e estudada.

 

Como se vê, a pequenina história, tão conhecida entre nós, encontra variante em diversas partes do mundo, e isto porque – como se sabe – “os contos voam”.

 

Há dias resolvi tentar a colheita, entre alunas do Colégio do Carmo e do Colégio Estadual, de versões atuais da historinha. Consegui 53, que aqui vamos ligeiramente confrontar e comentar.

 

Das 53 variantes obtidas, 23 davam ao peixe o nome de “Maria Sapeba”, evidente e natural estropiamento de “Maraçapeba”; 18 atribuíam ao peixe o nome de “Solha” ou  “Sólha” (tais como nas histórias contadas em Portugal); dez denominam-no “Maraçapeba” e dois não deram qualquer nome ao peixe.

 

Como se vê, a denominação “Maria Sapeba” vai superando a de “Maraçapeba”. Isso, talvez, porque, em variante conhecida entre nós (citada também por uma das alunas), “Maria Sapeba” seria o nome de “uma menina muito levada”, que gostava de arremedar os outros. E, ao imitar uma senhora (que era Nossa Senhora disfarçada) que lhe perguntara se a maré enchia ou vazava, foi transformada, como castigo, “num peixe pavoroso o qual tem a boca torta”.

 

Note-se, igualmente, que nas enquêtes que tenho feito acerca da historinha não mais aparece nela Nosso Senhor. Quem aí se apresenta para fazer a pergunta e, afinal, dar castigo à Maraçapeba é sempre Nossa Senhora; tal, aliás, como nas variantes portuguesas.

 

Outro ponto interessante é o da localização da Virgem e do peixe nas versões capixabas. Das 53 variantes recolhidas, quinze referem-se ao mar (nesse grupo não se incluindo as que falam apenas em praia (oito); doze registram o peixinho como de rio; nove, como peixe de lago ou lagoa. As restantes não lhe dão indicação clara.

 

Quanto ao lugar de onde Nossa Senhora avistou a Maraçapeba, ora à beira de um rio ou de um lago; ora simplesmente a passar ou passear pelas areias da praia. Em algumas versões o peixe é “um peixe igual aos outros”; noutras, porém, “era um dos peixes mais bonitos”, “muito engraçadinho”, “um lindo peixinho”. Essa formosura do peixe vai ressaltar o castigo que o transformará “num dos peixes mais feios do mar”, com a sua boca torta.

 

Outro ponto em que divergem as versões nossas: à pergunta da Virgem Senhora – ou o peixe repete a frase, torcendo a boca no arremedo desdenhoso, ou então nada diz nem responde, limitando-se a fazer caretas zombeteiras para Nossa Senhora (catorze variantes). Numa só das 53 versões, o peixe responde, embora careteando: “A maré seca.”

 

Outro aspecto dos contos: em apenas seis das versões se diz que Nossa Senhora pretendia atravessar o mar, rio ou lago. As demais não dão o motivo da pergunta. E só numa delas se explica a razão por que se encontrava ela à beira-mar. É que Nossa Senhora saíra aflita “a procurar o menino Jesus que fugira”, e preocupada a pensar “na possibilidade de a maré encher e levar consigo o Menino Santo”.

 

Não se estranhe essa multiplicidade de variações a que se submeteu a historinha da Maraçapeba. Ninguém desconhece a força evidente e incoercível daquele provérbio popular, tantas vezes confirmado, e que diz: “Quem conta um conto, lhe acrescenta um ponto”. Um ou muitos.

 

Não quero encerrar essas nótulas sem o registro de uma das versões atuais – tirada do bloco das 53 que recolhemos no Carmo e no Colégio Estadual. Aqui vai ela:

 

Um dia, Nossa Senhora passava por uma ponte e, ao olhar para baixo, perguntou curiosamente a um peixinho de forma chata: “A maré enche ou vaza?”, e o peixinho, chamado Maria Sapeba, arremedou Nossa Senhora: “Maria Sapeba, a maré enche ou vaza?”. Então, castigada por ter assim procedido, ficou com a boca torta..

 

A informante acrescenta: “Aprendi essa história quando eu tinha cinco anos, e foi contada por uma moça que mamãe criou. E a coisa que eu guardei mais da história foi a boca torta que a empregada fazia quando contava.”

 

[Fonte: A Gazeta, 08.05.1957]

 

 

 

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