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“MARAÇAPEBA, A MARÉ ENCHE OU VAZA?”
Toda a gente em nosso Espírito Santo conhece a velha
historiazinha da “Maraçapeba” e a razão de sua boca
torta. Creio, mesmo, que é este o primeiro conto popular que
a criança (principalmente a arremedeira ou a
careteira) aprende em casa, ouvido da tradição oral.
Ei-lo, no registro que consta do precioso livrinho de Afonso
Cláudio, Trovas e cantares capixabas (1923, p.
125-6):
A maraçapeba deste conto é o peixe conhecido como
linguado e que tem a configuração de uma folha de
árvore, semelhante à pariparoba ou malvaísco, e a boca
torta. O conto encerra a explicação de ambas as
particularidades e é assim concebido: Quando Cristo andou
pelo mundo, certa vez, no mar, em companhia de São Pedro,
desejou saber que horas seriam, porque a maré parecia não
encher nem vazar. São Pedro, vendo-o assim preocupado, lhe
disse: “Senhor, qualquer peixe lhe dirá que horas serão,
porque todos eles têm as horas de suas refeições marcadas.”
Jesus, ouvindo-o, passeou os olhos pelo mar e, vendo um
linguado ou maraçapeba à superfície, indagou: “Maraçapeba, a
maré enche ou vaza?” O peixe, por inexplicável desdém,
procurou imitar a voz do Salvador e, fazendo um trejeito
como quem torce o queixo para um lado, reproduziu a pergunta
sem lhe dar a resposta. Então Jesus assim falou: “De hoje em
diante, como pena à zombaria e afronta que fizeste ao teu
criador, te arrastarás na lama como uma folha que o vento
atira ao lodo, para granjear o teu sustento, e a tua boca
será torta, a fim de que todos os teus irmãos te evitem e
contigo jamais se confundam.”
Câmara Cascudo, em Contos tradicionais do Brasil (1.ª
ed., 1946, p. 342; 2.ª ed., 1955, p. 273), transcrevendo a
história na versão tirada ao livro de Afonso Cláudio,
acresce-lhe várias notas eruditas, depois de a incluir no
grupo dos “contos etiológicos”, isto é, conto “sugerido e
inventado para explicar e dar a razão de ser de um aspecto,
propriedade, caráter de qualquer gente natural” (João
Ribeiro). Diz Câmara Cascudo:
É o episódio europeu de Nossa Senhora e a solha,
popularíssimo em Portugal e Espanha. Teófilo Braga registrou
variante da Foz e do Porto, n.º 221 de sua coleção. “Nossa
Senhora à beira do rio viu uma solha e perguntou-lhe: Ó
Solha! A maré enche ou vaza? A solha pôs a boca à banda, e
repetiu com escárnio: Ó Solha! A maré enche ou vaza? Nossa
Senhora disse: Assim fiques sempre com a boca à banda.” Em
Portugal, segundo Braga e Consiglieri Pedroso, sempre é a
Solha o peixe atrevido. No Brasil é a Maraçapeba, a Solha ou
o Araçamá, Solea reticulada, pleuronectes araçamá,
Cuv. e Val.
Mais adiante, refere o Mestre do nosso folclore a presença
da lenda em França e Alemanha, onde tem sido referida e
estudada.
Como se vê, a pequenina história, tão conhecida entre nós,
encontra variante em diversas partes do mundo, e isto porque
– como se sabe – “os contos voam”.
Há dias resolvi tentar a colheita, entre alunas do Colégio
do Carmo e do Colégio Estadual, de versões atuais da
historinha. Consegui 53, que aqui vamos ligeiramente
confrontar e comentar.
Das 53 variantes obtidas, 23 davam ao peixe o nome de “Maria
Sapeba”, evidente e natural estropiamento de “Maraçapeba”;
18 atribuíam ao peixe o nome de “Solha” ou “Sólha”
(tais como nas histórias contadas em Portugal); dez
denominam-no “Maraçapeba” e dois não deram qualquer nome ao
peixe.
Como se vê, a denominação “Maria Sapeba” vai superando a de
“Maraçapeba”. Isso, talvez, porque, em variante conhecida
entre nós (citada também por uma das alunas), “Maria Sapeba”
seria o nome de “uma menina muito levada”, que gostava de
arremedar os outros. E, ao imitar uma senhora (que era Nossa
Senhora disfarçada) que lhe perguntara se a maré enchia ou
vazava, foi transformada, como castigo, “num peixe pavoroso
o qual tem a boca torta”.
Note-se, igualmente, que nas enquêtes que tenho feito
acerca da historinha não mais aparece nela Nosso Senhor.
Quem aí se apresenta para fazer a pergunta e, afinal, dar
castigo à Maraçapeba é sempre Nossa Senhora; tal, aliás,
como nas variantes portuguesas.
Outro ponto interessante é o da localização da Virgem e do
peixe nas versões capixabas. Das 53 variantes recolhidas,
quinze referem-se ao mar (nesse grupo não se incluindo as
que falam apenas em praia (oito); doze registram o
peixinho como de rio; nove, como peixe de lago ou
lagoa. As restantes não lhe dão indicação clara.
Quanto ao lugar de onde Nossa Senhora avistou a Maraçapeba,
ora à beira de um rio ou de um lago; ora simplesmente a
passar ou passear pelas areias da praia. Em algumas versões
o peixe é “um peixe igual aos outros”; noutras, porém, “era
um dos peixes mais bonitos”, “muito engraçadinho”, “um lindo
peixinho”. Essa formosura do peixe vai ressaltar o castigo
que o transformará “num dos peixes mais feios do mar”, com a
sua boca torta.
Outro ponto em que divergem as versões nossas: à pergunta da
Virgem Senhora – ou o peixe repete a frase, torcendo a boca
no arremedo desdenhoso, ou então nada diz nem responde,
limitando-se a fazer caretas zombeteiras para Nossa Senhora
(catorze variantes). Numa só das 53 versões, o peixe
responde, embora careteando: “A maré seca.”
Outro aspecto dos contos: em apenas seis das versões se diz
que Nossa Senhora pretendia atravessar o mar, rio ou
lago. As demais não dão o motivo da pergunta. E só numa
delas se explica a razão por que se encontrava ela à
beira-mar. É que Nossa Senhora saíra aflita “a procurar o
menino Jesus que fugira”, e preocupada a pensar “na
possibilidade de a maré encher e levar consigo o Menino
Santo”.
Não se estranhe essa multiplicidade de variações a que se
submeteu a historinha da Maraçapeba. Ninguém desconhece a
força evidente e incoercível daquele provérbio popular,
tantas vezes confirmado, e que diz: “Quem conta um conto,
lhe acrescenta um ponto”. Um ou muitos.
Não quero encerrar essas nótulas sem o registro de uma das
versões atuais – tirada do bloco das 53 que recolhemos no
Carmo e no Colégio Estadual. Aqui vai ela:
Um dia, Nossa Senhora passava por uma ponte e, ao olhar para
baixo, perguntou curiosamente a um peixinho de forma chata:
“A maré enche ou vaza?”, e o peixinho, chamado Maria Sapeba,
arremedou Nossa Senhora: “Maria Sapeba, a maré enche ou
vaza?”. Então, castigada por ter assim procedido, ficou com
a boca torta..
A informante acrescenta: “Aprendi essa história quando eu
tinha cinco anos, e foi contada por uma moça que mamãe
criou. E a coisa que eu guardei mais da história foi a boca
torta que a empregada fazia quando contava.”
[Fonte: A Gazeta, 08.05.1957] |