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FICAR “FEITO A MÃE DE SÃO PEDRO”
Diz-se de quem não tem onde ficar ou é posto entre duas
coisas que ambicione, ou dois lugares, ou dois desejos, sem
atingir a um nem a outro – diz-se que está feito a mãe de
São Pedro.
A expressão – como se sabe – prende-se a uma velha história
muito popular (afiança Câmara Cascudo) “em Portugal,
Espanha, Alemanha, Itália, Finlândia, etc.” – e no Brasil
também. (Cf. a nota informativa em seu livro Contos
tradicionais do Brasil, 1.ª ed., s/d, p. 326, e 2.ª ed.,
1955, p. 356).
Essa historinha – segundo uma versão capixaba guardada em
meu arquivo – diz assim: A mãe de São Pedro foi uma criatura
que nunca fez benefícios para ganhar a salvação. Por isso,
quando morreu foi para o inferno, ficando São Pedro no céu
muito triste. Vendo a tristeza de São Pedro, Deus perguntou:
“Por que anda triste?” Aí São Pedro disse: “Porque minha mãe
está no inferno.” Então Deus disse que ela tinha ido para o
inferno porque no mundo nunca tinha feito benefícios para
ganhar a salvação eterna. E continuou: “Em todos casos,
Pedro, vai onde vocês moravam procurar se acha alguma boa
ação que ela praticasse. Se achar eu lhe darei a salvação.”
São Pedro foi. O primeiro informante que procurou respondeu:
que o capeta a carregasse ou a conservasse no inferno! E
assim todos falavam pela mesma forma.
São Pedro ficou muito triste, e já voltava pro céu
desanimado quando, passando por um rio, perguntou: “Rio,
minha mãe te fez algum benefício?” O rio respondeu: “Um dia,
ela lavando umas folhas de couve, eu arrebatei uma das
folhas, que ela fez muito empenho em recolher; mas eu não
deixei. E cuja folha está aqui.” E entregou a São Pedro que,
chegando no céu, disse a Nosso Senhor: “Só alcancei foi esta
folha de couve que minha mãe quis salvar do rio, mas o rio
lhe tomou à força...” Deus então disse: “Vai com essa folha
de couve no inferno onde sua mãe estiver. Faça que ela pegue
na folha, e suspenda, que ela sairá.”
São Pedro assim fez. A mãe pegou na folhinha e São Pedro foi
puxando, puxando, e ela subindo, subindo. Mas outras almas
que estavam também no inferno se pegaram com a mãe de São
Pedro, que começou então a dar coices para derrubar as
almas, dizendo que seu filho nao tinha ido buscar elas e sim
só ela. Com o esforço que fez, a folha de couve rasgou,
ficando a mãe de São Pedro nem no céu, nem no inferno.
Voltando São Pedro com o pedaço da folha na mão, Nosso
Senhor falou: “Aquelas almas que se abraçaram com sua mãe
eram para servir de benefícios, que ela não fez na vida, mas
faria depois da morte.”
Lindolfo Gomes colheu, em Juiz de Fora (Minas) uma variante
desse conto (Contos populares, 1ª. ed., vol. II, p.
86), segundo a qual a boa ação da mãe de São Pedro se prende
a ter ela dito, certa vez: “Seja tudo pelo amor de Deus,”
quando lavava um molhe de folhinhas de cebola, e uma
destas se foi pela água abaixo.
Informa Câmara Cascudo (op. cit.) que “na tradição italiana
é uma simples folha de pereira que a velha agarra para a
divina ascensão”, ou – segundo versão da ilha de Córsega – é
uma folha de alho que a velha “dera a um pobre – a única
esmola feita em sua vida”. Numa outra variante capixaba,
seria um fio de teia de aranha – bichinho que a mãe de São
Pedro salvara certa vez.
No fecho da variante da Córsega, a velha esperneou tanto,
querendo livrar-se das almas que se haviam apegado às suas
pernas, “que Nosso Senhor a julgou indigna de entrar no
céu”. Então “São Pedro soltou a folha de alho e deixou cair
a mãe no fundo dos infernos”.
Na versão mineira se diz melhor a situação em que ficou a
velha: “No mesmo instante a folha de cebola partiu-se e a
mãe de São Pedro ficou no espaço. Nao tinha por onde subir
ao céu e o pedacinho de folha que conservava nas mãos não a
deixava voltar ao inferno. E assim vive até hoje: nem na
terra nem no céu.”
É para situações como essa – nem lá nem cá – que
habitualmente se emprega a velha expressão popular, como se
pode ver, por exemplo, nestes dois tópicos, tirados a dois
autores brasileiros. O primeiro está numa crônica de Machado
de Assis (a de 23 de agosto de 1885), incluída por Magalhães
Júnior em Crônicas de Lélio (1958, p. 284). Diz assim
o trecho: “O Observatório é que me informa dos fenômenos
celestes, e não posso ficar assim sem saber se as
informações são exatas ou não, ficar entre o céu e a terra,
como a mãe de São Pedro. Comparação estrambótica, mas não
tenho outra.”
O segundo exemplo figura num dos bons romances lançados pela
Editora José Olympio, Marcoré, de Antônio Olavo
Pereira. À p. 218 lê-se: “Aquela perua velha põe a mão suja
nos doces e não compra nada. Ela há de ver em que vai dar
toda essa ridiqueza. Quando morrer, tem de ficar solta no ar
como a mãe de São Pedro.”
[Fonte: A Gazeta, 29.06.1959] |