COLETÂNEA DE ESTUDOS E REGISTROS DO FOLCLORE CAPIXABA: 1944-1982

 

Guilherme Santos Neves

FICAR “FEITO A MÃE DE SÃO PEDRO”

 

Diz-se de quem não tem onde ficar ou é posto entre duas coisas que ambicione, ou dois lugares, ou dois desejos, sem atingir a um nem a outro – diz-se que está feito a mãe de São Pedro.

 

A expressão – como se sabe – prende-se a uma velha história muito popular (afiança Câmara Cascudo) “em Portugal, Espanha, Alemanha, Itália, Finlândia, etc.” – e no Brasil também. (Cf. a nota informativa em seu livro Contos tradicionais do Brasil, 1.ª ed., s/d, p. 326, e 2.ª ed., 1955, p. 356).

 

Essa historinha – segundo uma versão capixaba guardada em meu arquivo – diz assim: A mãe de São Pedro foi uma criatura que nunca fez benefícios para ganhar a salvação. Por isso, quando morreu foi para o inferno, ficando São Pedro no céu muito triste. Vendo a tristeza de São Pedro, Deus perguntou: “Por que anda triste?” Aí São Pedro disse: “Porque minha mãe está no inferno.” Então Deus disse que ela tinha ido para o inferno porque no mundo nunca tinha feito benefícios para ganhar a salvação eterna. E continuou: “Em todos casos, Pedro, vai onde vocês moravam procurar se acha alguma boa ação que ela praticasse. Se achar eu lhe darei a salvação.”

 

São Pedro foi. O primeiro informante que procurou respondeu: que o capeta a carregasse ou a conservasse no inferno! E assim todos falavam pela mesma forma.

 

São Pedro ficou muito triste, e já voltava pro céu desanimado quando, passando por um rio, perguntou: “Rio, minha mãe te fez algum benefício?” O rio respondeu: “Um dia, ela lavando umas folhas de couve, eu arrebatei uma das folhas, que ela fez muito empenho em recolher; mas eu não deixei. E cuja folha está aqui.” E entregou a São Pedro que, chegando no céu, disse a Nosso Senhor: “Só alcancei foi esta folha de couve que minha mãe quis salvar do rio, mas o rio lhe tomou à força...” Deus então disse: “Vai com essa folha de couve no inferno onde sua mãe estiver. Faça que ela pegue na folha, e suspenda, que ela sairá.”

 

São Pedro assim fez. A mãe pegou na folhinha e São Pedro foi puxando, puxando, e ela subindo, subindo. Mas outras almas que estavam também no inferno se pegaram com a mãe de São Pedro, que começou então a dar coices para derrubar as almas, dizendo que seu filho nao tinha ido buscar elas e sim só ela. Com o esforço que fez, a folha de couve rasgou, ficando a mãe de São Pedro nem no céu, nem no inferno.

 

Voltando São Pedro com o pedaço da folha na mão, Nosso Senhor falou: “Aquelas almas que se abraçaram com sua mãe eram para servir de benefícios, que ela não fez na vida, mas faria depois da morte.”

 

Lindolfo Gomes colheu, em Juiz de Fora (Minas) uma variante desse conto (Contos populares, 1ª. ed., vol. II, p. 86), segundo a qual a boa ação da mãe de São Pedro se prende a ter ela dito, certa vez: “Seja tudo pelo amor de Deus,” quando lavava um molhe de folhinhas de cebola, e uma destas se foi pela água abaixo.

 

Informa Câmara Cascudo (op. cit.) que “na tradição italiana é uma simples folha de pereira que a velha agarra para a divina ascensão”, ou – segundo versão da ilha de Córsega – é uma folha de alho que a velha “dera a um pobre – a única esmola feita em sua vida”. Numa outra variante capixaba, seria um fio de teia de aranha – bichinho que a mãe de São Pedro salvara certa vez.

 

No fecho da variante da Córsega, a velha esperneou tanto, querendo livrar-se das almas que se haviam apegado às suas pernas, “que Nosso Senhor a julgou indigna de entrar no céu”. Então “São Pedro soltou a folha de alho e deixou cair a mãe no fundo dos infernos”.

 

Na versão mineira se diz melhor a situação em que ficou a velha: “No mesmo instante a folha de cebola partiu-se e a mãe de São Pedro ficou no espaço. Nao tinha por onde subir ao céu e o pedacinho de folha que conservava nas mãos não a deixava voltar ao inferno. E assim vive até hoje: nem na terra nem no céu.”

 

É para situações como essa – nem lá nem cá – que habitualmente se emprega a velha expressão popular, como se pode ver, por exemplo, nestes dois tópicos, tirados a dois autores brasileiros. O primeiro está numa crônica de Machado de Assis (a de 23 de agosto de 1885), incluída por Magalhães Júnior em Crônicas de Lélio (1958, p. 284). Diz assim o trecho: “O Observatório é que me informa dos fenômenos celestes, e não posso ficar assim sem saber se as informações são exatas ou não, ficar entre o céu e a terra, como a mãe de São Pedro. Comparação estrambótica, mas não tenho outra.”

 

O segundo exemplo figura num dos bons romances lançados pela Editora José Olympio, Marcoré, de Antônio Olavo Pereira. À p. 218 lê-se: “Aquela perua velha põe a mão suja nos doces e não compra nada. Ela há de ver em que vai dar toda essa ridiqueza. Quando morrer, tem de ficar solta no ar como a mãe de São Pedro.”

 

[Fonte: A Gazeta, 29.06.1959]

 

 

 

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