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“CORRE, DOM GALO, QUE O MUNDO VAI SE ACABAR”
Neste
dia 14, marcado pela profecia para o fim deste pobre mundo
de Deus – vá lá esta velha historinha, tantas vezes por nós
ouvida a pessoa que nos é muito cara.
Era
uma vez uma galinha que estava mariscando debaixo duma
pimenteira. Nisso, cai-lhe sobre o cocuruto uma pimentinha
madura. Ela, assustada com o ardor na crista, saiu em louca
disparada, esvoaçando as asas. Mais adiante, encontrou o
galo e disse, cacarejando: “Corre, corre, dom Galo, que o
mundo está para se acabar! Quem disse a dona Galinha foi o
cocuruque dela que tanto adivinha!” Saíram os
dois na carreira, até encontrarem com o pato. E disse-lhe o
Galo: “Corre, corre, dom Pato, que o mundo está para se
acabar! Quem disse a dom Galo foi dona Galinha, quem disse a
dona Galinha foi o cocuruque dela que tanto
adivinha!” E saíram os três a correr, desatinados. Adiante,
encontraram o peru. E disse então o pato: “Corre, corre, dom
Peru, que o mundo está para se acabar! Quem disse a dom Pato
foi dom Galo, quem disse a dom Galo foi dona Galinha, quem
disse a dona Galinha foi o cocuruque dela que
tanto adivinha!” Saíram os quatro correndo quando
encontraram, no caminho, o ganso. E disse-lhe o peru:
“Corre, corre, dom Ganso, que o mundo está para se acabar!
Quem disse a dom Peru foi dom Pato, quem disse a dom Pato
foi dom Galo, quem disse a dom Galo foi dona Galinha, quem
disse a dona Galinha foi o cocuruque dela que
tanto adivinha!”
E lá
se foram todos a correr amedrontados, estrada a fora,
avisando os bichos que encontravam: dom Porco, dom Carneiro,
dom Boi, dom Cachorro, dom Gato, dom Rato e outros animais,
e todos iam dando a nova apavorante: “O mundo vai se
acabar!”
Aquela
multidão de bichos encontrou, afinal, um velho bem velhinho
que, tropegamente, ia pela estrada. E disse-lhe o último dos
bichos avisados – a andorinha: “Corre, corre, dom Velho, que
o mundo está para se acabar! Quem disse a dona Andorinha foi
dom Rato, quem disse a dom Rato foi dom Gato, quem disse a
dom Gato foi dom Cachorro, quem disse a dom Cachorro foi dom
Boi, quem disse a dom Boi foi dom Carneiro, quem disse a dom
Carneiro foi dom Porco, quem disse a dom Porco foi dom
Ganso, quem disse a dom Ganso foi dom Peru, quem disse a dom
Peru foi dom Pato, quem disse a dom Pato foi dom Galo, quem
disse a dom Galo foi dona Galinha, quem disse a dona Galinha
foi o cocuruque dela que tanto adivinha!”
Saíram
todos correndo, o velhinho à frente, quando, ao passarem por
uma ponte, o velhinho tropeça num buraco e, coitado! Quebra
a perna.
Aí,
quem conta a história pergunta aos ouvintes: Quem foi o
culpado do velho quebrar a perna? Quem, leitor amigo? –
pergunto eu. A resposta é, naturalmente, que foi a Andorinha
(que falou ao velho) ou que foi a Galinha, causadora
do alvoroço geral. Quem foi? A Andorinha! A Galinha!
Então responde quem conta a história: Ora, m[erda] para quem
tanto adivinha!....
Esta,
a versão capixaba (mateense) que já inúmeras vezes tenho
ouvido contada por gente sisuda e de respeito... No fecho
dela – como se viu – se encaixa uma velha pega infantil,
tirada a conhecida adivinhação (citada, por exemplo, no
livro Namoros com a medicina, de Mário de Andrade
(1939, p. 90), ou em Enigmas populares, de José Maria
de Melo (s/d, p. 38), assim enunciada: “O que é, o que é,
vai a um canto e faz có có có?” Ou: “O que é que vai a um
canto, faz có có có e põe um ovo?” A resposta imediata será
a Galinha. E a pega: “Pois m[erda] para quem tanto
adivinha...”
Conheço outra versão dessa mesma história, mas sem o final o
seu tanto escatológico. Está ela no clássico livro de
Basílio de Magalhães, O folclore do Brasil (1939,
p.194), obra que divulgou uma série de contos populares,
recolhidos da tradição oral por João da Silva Campos no
recôncavo da Bahia. A historinha tem aí o título de “A
raposa e as aves”, e começa assim:
A
galinha estava ciscando debaixo de um limoeiro, quando lhe
caiu um limãozinho peco no cocuruto. A bichinha espantou e
fez: “Cá-cá-cá-cá... corra, amigo galo, que o mundo está
para se acabar.” “Quem lhe disse amiga galinha?” “Foi uma
coisinha que caiu no meu cucurutinho.” Lá saíram os dois nas
carreiras. Adiante encontraram o peru, a quem disse o galo:
“Corra, amigo peru, que o mundo está para se acabar.”
Prossegue a história no mesmo corre-corre e no mesmo
diálogo, em que entram, além dos dois referidos, mais o
pato, o ganso, o conquém etc..., até esbarrarem com a
raposa.
E
assim termina o conto:
Continuaram a correr, a correr, até que chegaram à casa da
raposa. Então disse a raposa: “Entrem aqui em minha casa e
se escondam.” Entraram todos e a raposa ficou na porta.
Depois de passado algum tempo, disse a raposa: “Já podem
sair, mas venham de um em um.” Os pobres dos bichos foram
saindo e raposa passando-os no papo. Não ficou um só para
remédio...
Como
se vê, as duas histórias são idênticas, embora a recolhida
por Silva Campos se possa incluir no “ciclo da raposa”,
patenteando-lhe a proverbial esperteza.
A
variante capixaba substitui o fecho pela facécia mal
odorante, transformando o velho conto em armadilha para...
“quem tanto adivinha”.
Ao
leitor ou leitora, escandalizados com a história que acima
lhes contei, prefiro dizer, como desculpa, aproveitando uma
quadrinha popular referida por Mestre Câmara Cascudo (Contos
tradicionais do Brasil, 1946, p. 22):
E como
encontraram,
Tal
qual encontrei;
Assim
me contaram,
Assim
vos contei!...
[Fonte: A Gazeta, 14.07.1960]
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