COLETÂNEA DE ESTUDOS E REGISTROS DO FOLCLORE CAPIXABA: 1944-1982

 

Guilherme Santos Neves

“CORRE, DOM GALO, QUE O MUNDO VAI SE ACABAR”

 

Neste dia 14, marcado pela profecia para o fim deste pobre mundo de Deus – vá lá esta velha historinha, tantas vezes por nós ouvida a pessoa que nos é muito cara.*

 

Era uma vez uma galinha que estava mariscando debaixo duma pimenteira. Nisso, cai-lhe sobre o cocuruto uma pimentinha madura. Ela, assustada com o ardor na crista, saiu em louca disparada, esvoaçando as asas. Mais adiante, encontrou o galo e disse, cacarejando: “Corre, corre, dom Galo, que o mundo está para se acabar! Quem disse a dona Galinha foi o cocuruque dela que tanto adivinha!” Saíram os dois na carreira, até encontrarem com o pato. E disse-lhe o Galo: “Corre, corre, dom Pato, que o mundo está para se acabar! Quem disse a dom Galo foi dona Galinha, quem disse a dona Galinha foi o cocuruque dela que tanto adivinha!” E saíram os três a correr, desatinados. Adiante, encontraram o peru. E disse então o pato: “Corre, corre, dom Peru, que o mundo está para se acabar! Quem disse a dom Pato foi dom Galo, quem disse a dom Galo foi dona Galinha, quem disse a dona Galinha foi o cocuruque dela que tanto adivinha!” Saíram os quatro correndo quando encontraram, no caminho, o ganso. E disse-lhe o peru: “Corre, corre, dom Ganso, que o mundo está para se acabar! Quem disse a dom Peru foi dom Pato, quem disse a dom Pato foi dom Galo, quem disse a dom Galo foi dona Galinha, quem disse a dona Galinha foi o cocuruque dela que tanto adivinha!”

 

E lá se foram todos a correr amedrontados, estrada a fora, avisando os bichos que encontravam: dom Porco, dom Carneiro, dom Boi, dom Cachorro, dom Gato, dom Rato e outros animais, e todos iam dando a nova apavorante: “O mundo vai se acabar!”

 

Aquela multidão de bichos encontrou, afinal, um velho bem velhinho que, tropegamente, ia pela estrada. E disse-lhe o último dos bichos avisados – a andorinha: “Corre, corre, dom Velho, que o mundo está para se acabar! Quem disse a dona Andorinha foi dom Rato, quem disse a dom Rato foi dom Gato, quem disse a dom Gato foi dom Cachorro, quem disse a dom Cachorro foi dom Boi, quem disse a dom Boi foi dom Carneiro, quem disse a dom Carneiro foi dom Porco, quem disse a dom Porco foi dom Ganso, quem disse a dom Ganso foi dom Peru, quem disse a dom Peru foi dom Pato, quem disse a dom Pato foi dom Galo, quem disse a dom Galo foi dona Galinha, quem disse a dona Galinha foi o cocuruque dela que tanto adivinha!”

 

Saíram todos correndo, o velhinho à frente, quando, ao passarem por uma ponte, o velhinho tropeça num buraco e, coitado! Quebra a perna.

 

Aí, quem conta a história pergunta aos ouvintes: Quem foi o culpado do velho quebrar a perna? Quem, leitor amigo? – pergunto eu. A resposta é, naturalmente, que foi a Andorinha (que falou ao velho) ou que foi a Galinha, causadora do alvoroço geral. Quem foi? A Andorinha! A Galinha! Então responde quem conta a história: Ora, m[erda] para quem tanto adivinha!....

 

Esta, a versão capixaba (mateense) que já inúmeras vezes tenho ouvido contada por gente sisuda e de respeito... No fecho dela – como se viu – se encaixa uma velha pega infantil, tirada a conhecida adivinhação (citada, por exemplo, no livro Namoros com a medicina, de Mário de Andrade (1939, p. 90), ou em Enigmas populares, de José Maria de Melo (s/d, p. 38), assim enunciada: “O que é, o que é, vai a um canto e faz có có có?” Ou: “O que é que vai a um canto, faz có có có e põe um ovo?” A resposta imediata será a Galinha. E a pega: “Pois m[erda] para quem tanto adivinha...”

 

Conheço outra versão dessa mesma história, mas sem o final o seu tanto escatológico. Está ela no clássico livro de Basílio de Magalhães, O folclore do Brasil (1939, p.194), obra que divulgou uma série de contos populares, recolhidos da tradição oral por João da Silva Campos no recôncavo da Bahia. A historinha tem aí o título de “A raposa e as aves”, e começa assim:

 

A galinha estava ciscando debaixo de um limoeiro, quando lhe caiu um limãozinho peco no cocuruto. A bichinha espantou e fez: “Cá-cá-cá-cá... corra, amigo galo, que o mundo está para se acabar.” “Quem lhe disse amiga galinha?” “Foi uma coisinha que caiu no meu cucurutinho.” Lá saíram os dois nas carreiras. Adiante encontraram o peru, a quem disse o galo: “Corra, amigo peru, que o mundo está para se acabar.” Prossegue a história no mesmo corre-corre e no mesmo diálogo, em que entram, além dos dois referidos, mais o pato, o ganso, o conquém etc..., até esbarrarem com a raposa.

 

E assim termina o conto:

 

Continuaram a correr, a correr, até que chegaram à casa da raposa. Então disse a raposa: “Entrem aqui em minha casa e se escondam.” Entraram todos e a raposa ficou na porta. Depois de passado algum tempo, disse a raposa: “Já podem sair, mas venham de um em um.” Os pobres dos bichos foram saindo e raposa passando-os no papo. Não ficou um só para remédio...

 

Como se vê, as duas histórias são idênticas, embora a recolhida por Silva Campos se possa incluir no “ciclo da raposa”, patenteando-lhe a proverbial esperteza.

 

A variante capixaba substitui o fecho pela facécia mal odorante, transformando o velho conto em armadilha para... “quem tanto adivinha”.

 

Ao leitor ou leitora, escandalizados com a história que acima lhes contei, prefiro dizer, como desculpa, aproveitando uma quadrinha popular referida por Mestre Câmara Cascudo (Contos tradicionais do Brasil, 1946, p. 22):

 

E como encontraram,

Tal qual encontrei;

Assim me contaram,

Assim vos contei!...

 

[Fonte: A Gazeta, 14.07.1960]

 


* O autor refere-se ao seu sogro, Ceciliano Abel de Almeida, que se divertia em contar essa história aos netos.

 

 

 

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