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HISTÓRIA PESSOAL
NELSON DE ALBUQUERQUE SILVA
Entrevistas

Entrevista de 22/06/2002
Eu me chamo Nelson de Albuquerque Silva, nasci em Campos, do
estado do Rio, sou maratimba, nasci na beira rio... saí de
Campos com uns 18 anos. A data é 2 de janeiro de 1920, faz
uma idéia, eu tô cheio de rugas assim né? É por isso...
(risos) Eu fiz oitenta e dois anos esse ano, né? Quer dizer,
eu tô emendando o segundo século. Tô no século 21.
[Seus pais se chamavam Ludgero Ferreira da Silva e Lucília
Augusta de Albuquerque Silva, ambos naturais de Campos, RJ.
Casou-se com Dulce Vilella dos Santos, que nasceu a 5 de
dezembro de 1921, em Salvador, BA. Com ela teve cinco
filhos: Álvaro, Vera Lúcia, Flávio, Lucília Helena e Regina
Maria. As três filhas moram atualmente em São Paulo, e os
dois filhos moram em Vitória, ES.]
Meu pai tinha um estabelecimento comercial em Campos, uma
padaria e armazém, vendia tudo, exatamente na região mais
central da cidade, na rua Sete de Setembro — Subida da Praça
— era o nome do local. Acontece que meu pai morreu muito
novo, com 33 anos. Ele morreu do coração então nós tivemos
que assumir, mamãe assumiu a criação dos filhos — em número
de quatro. Eu tinha três anos e meio. Éramos, na verdade,
cinco filhos, pois minha mãe estava esperando o quinto
filho.
Como a casa comercial não era só de meu pai, quando ele
morreu minha mãe recebeu a parte dele, e com esse dinheiro
meu tio comprou uma casa na rua dos Frades, próxima ao
centro da cidade. Era uma rua muito boa, e essa casa existe
até hoje.
Minha mãe mudou pra lá, e lá eu morei até que fui para o Rio
de Janeiro. No tempo que eu vivi em Campos era um menino
muito levado e muito curioso, queria aprender tudo que dizia
respeito a mecânica.
A na nossa rua era na verdade uma pequena travessa, tinha
uns duzentos metros, e nela havia uma Escola de Primeiras
Letras, que funcionava na casa da professora, Dona Cotinha.
Ela usava uma tintura no cabelo, de cujo cheiro ainda me
lembro...
Eu estudei naquela escola, o primeiro ano, vamos dizer
assim. E acontece que em frente a nossa casa morava um
senhor chamado Dr. Freitas, um advogado. E mamãe se dava
muito bem com a família dele. Uma das filhas dele, aliás as
duas, eram professoras. E eu vivia naquela...
Minha educação foi meio truncada. Eu fiz o seguinte: [depois
de ter estudado com D. Cotinha] minha mãe me matriculou de
graça na Escola de Dona Jandira de Freitas, e eu estudei com
ela uns dois ou três anos. Eu tinha então entre dez e doze
anos.
Acontece que eu era muito inquieto, e então um amigo de
família, o Cordeiro, arranjou para que eu estudasse de graça
no melhor colégio de Campos: Colégio Teixeira de Melo. O
prédio hoje está fechado. Já passei umas mil vezes por lá,
tá sempre fechado. É um prédio antigo...
[D. Dulce: "Na rua do Leão morou Celso, um irmão dele."]
É, Celso é meu irmão, morreu, faleceu há um ano mais ou
menos. Ele ficou morando em Campos e a família dele continua
lá, que eles têm uma casa lá, é na rua do Leão.
A rua do Leão justamente termina na praça onde está o
Colégio Teixeira de Melo. Eu estudei lá somente um ano num
nível que corresponderia à segunda série ginasial. O meu
estudo nesse período foi muito puxado. Apesar disso foi
formidável, porque eu gostava muito do colégio. Lá só tinha
filho de fazendeiro, era um colégio especial e um lugar
muito bonito, com muitos pés de jambo — até hoje eu como
jambo lembrando de lá.
Havia problemas com o número de alunos, e eu também era
levado, tudo isso era motivo para eu não continuar a estudar
lá. Mas aprendi, lucrei muito durante aquele ano. Eu já
estava muito adiantado, fiquei mais adiantado ainda em
função desse período de estudo. Saindo de lá mamãe, para me
penalizar, resolveu então me transferir para a Escola
Técnica de Campos. E isso era exatamente o que eu queria.
Eu fui para a escola de mecânica, e fiquei lá somente um ano
e oito meses, mas durante esse período eu corri todas as
matérias da escola técnica. Eu obtive conhecimentos em
mecânica de motores, torno, que é um aparelho para fazer
peças, trabalhei na fresa. Fresa é uma máquina pra fazer
engrenagem. Cursei também funilaria, e aprendi a fazer tudo
de folha de flandres.
Isso pra mim foi uma beleza porque eu gostava muito de
desenhar, então tudo que eu ia fazer eu desenhava primeiro.
É, desenhava em cima da chapa, cortava e fazia peças como
canecas, jarras, máquina de fazer café de cinco minutos, —
que eu passei pra um minuto. E tudo que se pode fazer de
flandres a gente fazia: abajures, porta-retratos, tudo. E
fazia mesmo por economia, porque o governo não soltava muito
dinheiro para as chapas. [Eram objetos utilitários, de
maneira geral].
Às vezes havia encomenda de escolas, que a gente fazia, por
exemplo, havia um colégio de flores, nas imediações, e a
gente fazia, inventava ferramentas pra fazer essas flores de
pano. Minha irmã gostava de fazer flores e eu dei um jogo
[de ferramentas] para ela, de maneira que tudo isso era
feito.
Além disso nós tínhamos também a fundição. Eu cursei
fundição, mas eu fazia muito rápido, eu aprendia muito
rápido, com muita facilidade não. Nós tínhamos lá um
processo que se chama processo de fundição por cera perdida.
Eu fazia uma peça e quando tirava ela do molde ela estava
perfeita, moldada, como se tivesse sido esculpida.
Aliás [esse conhecimento] serviu para mim, porque depois eu
tive uma fundição chamada Termoflux, onde eu confeccionava
peças para automóveis. Tive também duas usinas de aço. A
primeira era em São Paulo, em Água Branca, na entrada da via
Anchieta.
[Álvaro: Nós estamos chegando em 1938.]
Ao fim do meu primeiro ano na Escola Técnica houve uma
exposição em Chicago, e meu professor — meu mestre —
chamava-se Pandolfo, Francisco Pandolfo. Era um gaúcho. Ele
gostava muito de mim e eu dele. É um sujeito muito bom. Ele
perguntou se eu queria fazer um trabalho para mandar para a
tal exposição. Eu disse "o senhor escolhe o que você quer
que eu faça, que eu farei". Eu tinha acabado de fazer uma
cama hospitalar. Ele falou assim, "não seria bom, nós
mandarmos a sua cama, pra lá?"
(Essa cama eu desenhei, projetei e executei. Ela tinha todo
o movimento de uma cama moderna. Eu incluí outros movimentos
além daqueles que eu encontrei nas existentes.)
"Olha, a cama tá pronta, o senhor pode mandar".
"Mas eu queria que você fizesse uma outra coisa, ainda temos
um mês para enviar".
"Olha, eu queria fazer uma espingarda de fogo central".
Ele disse: "você pode fazer".
Eu fiz uma espingarda, de um cano só, de cartucho dobrada,
aquela coisa. Era uma espingarda de caça de calibre 28. Fiz
a espingarda, e essa foi a minha contribuição para a
exposição de Chicago. A cama foi também.
Na escola técnica tinha a escola de letras, tá vendo? Eram
quatro horas de oficina e quatro horas de escola de letras,
e na escola de letras exigiam muito de mim porque sabiam que
eu vinha de uma escola muito adiantada e eu não tive
dificuldade nenhuma, né?
Mas tinha uma professora lá que não gostava de mim. Ela
tinha uma implicância desgraçada de mim, e de vez em quando
ela dava uma reguada, na arte minha. Uma régua comprida ou
então uma vara de bambu.
Palmatórias era mamãe. Mamãe me deixava de joelhos sobre
milho.
Outra coisa lá em casa que me deixava doido. Mamãe botava eu
e meu irmão pelados — isso é divertido — dentro de um
tambor. Ela então chamava uma professora da vizinhança
chamada Lúcia: "ô Lúcia, vem cá ver". Aí Lúcia: "já vou".
Aí, lá ficávamos eu e Celso, se escondendo um no outro que
era um pânico. Era só uma humilhação. Você vê que sistema
educacional era antigamente.
E, então, terminado essa parte de remessa de materiais e
equipamentos pros Estados Unidos, eu me desliguei da escola
técnica porque eu gostava de lá mas não me sentia muito bem
com o nível dos colegas, entende? Eu brigava muito. O
convívio não era bom. Eu saí e fiquei um mês ou dois parado,
fui para o interior — São Gonçalo, uma localidade de Campos
— e quando voltei para Campos arranjei um emprego.
E, então eu voltei de São Gonçalo então eu resolvi estudar,
continuar. Então estava aberta a inscrição na escola de
comércio de Campos. Eu me matriculei e entrei para a escola.
Estudei mais ou menos um ano. Foi quando o meu padrinho me
ofereceu o emprego. Aí já estava eu com os meus 17 pra 18
anos.
Meu padrinho tinha um comissariado. Comissariado hoje tá
fora de época, mas era o seguinte: as cidades que não tinham
curso superior viam-se na situação de mandar os filhos para
o Rio de Janeiro. Era o que acontecia em Campos, todo mundo
ia pro Rio estudar medicina, direito... Era então necessário
um elemento de ligação entre a família e o filho. E os
filhos lá no Rio de Janeiro. Então o meu padrinho fundou
esse comissariado.
As mães levavam lá doce, roupa, tudo isso e nós enviávamos
cobrando uma taxa. Colocávamos numa cesta de vinho grande,
com 50 quilos. Essa cesta ia no trem da Leopoldina — que
tinha noturno todo dia, e ia pro Rio.
Lá no Rio nós tínhamos uma pessoa que retirava a cesta,
botava dentro de uma condução, e levava pra agência, que
ficava na Rua Teófilo Otoni.
Esse comissariado em Campos ficava na rua Sete de Setembro,
em Campos, pertinho da padaria do meu pai. O comissariado do
Rio estava localizado à rua Teófilo Otoni.
No Rio de Janeiro, as remessas ficavam á disposição dos
alunos ou destinatários. Quando eles queriam receber em casa
nós mandávamos, eles autorizavam, nós tínhamos um motorista.
O destinatário pagava a corrida e recebia a remessa em casa.
Era bem organizado o serviço. Então meu padrinho explicou
tudo isso e disse: "você querendo poderá ir para lá tomar
conta da agência. Isso porque o Pedro (que era o filho dele
e tomava conta do negócio lá no Rio) fez concurso pro Banco
do Brasil e passou. De maneira que ele vai ganhar mais. Você
vai ganhar o que ele ganha, (que naquele tempo era trezentos
e cinqüenta mil réis) e tomar conta do negócio."
Mas dava, sabe, porque eu pagava cento e vinte de pensão,
casa e comida. Eu ficava em uma pensão que tinha lá, na
Teófilo Otoni mesmo, saía de uma porta entrava na outra. Eu
tinha que economizar, porque, cento e vinte mil réis custava
a pensão, era de graça.
O restante era pros alfinetes, como se costumava dizer.
Na pensão eu tinha almoço, janta e café de manhã cedo. Eu
tinha tudo.
Só que na pensão eram quatro num quarto né? Eram duas camas
aqui. Eu tinha até um colega que era estudante de medicina,
e embaixo da cama dele era praticamente um necrotério, cheio
de peças, ossos (risos). Ele ia no cemitério e voltava com
um embrulho (risos).
Eu comecei a trabalhar lá foi em 1939. Eu estava com 19
anos. Trabalhei somente seis meses porque acontece o
seguinte, eu tinha contato com muita gente que ia lá, eu
recebia, atendia, a instalação era bem feitinha, tá vendo,
muito organizada, prateleira. Além disso fornecíamos recibo
daquilo que se pagava.
Uma ocasião chegou um senhor alto — parece que tô vendo — se
apresentou, e queria mandar uma encomenda pra Campos. Eu
disse "pois não, é aqui mesmo."
"Eu sou Dr. Antônio Ribeiro de Castro." Pronto.
Antes de dizer o que queria, ele começou a conversar comigo:
e onde é que você mora lá, e tal, aí eu disse, eu moro na
rua dos Frades, e tal, e houve aquele contato, e ele gostou
de conversar comigo.
Então ele disse: "olha, eu queria mandar esses livros para
lá, mas são livros que não podem extraviar, não pode
acontecer nada."
Eu disse "não, aqui se o senhor quiser que a gente mande o
táxi entregar na residência, nós mandamos, porque lá em
Campos quando a encomenda chegar, o escritório telefona e a
pessoa que receber o telefonema."
"Foi uma boa idéia, você pode mandar um táxi." (nós temos um
táxi em cada cidade, de confiança, que faz as entregas).
E, assim eu tive contato com o Dr. Antônio Ribeiro de
Castro, pai do Dr. Flávio Torres Ribeiro de Castro, que é o
padrinho do meu filho Flávio.
Aí ficamos amigos. Passados alguns dias ele voltou lá. "Olha
Nelson, eu vou precisar de um outro favor seu." Ele disse
que tinha mais um assunto pra mim em Campos. Ele tinha uma
sociedade, Socorros Mútuos, e queria regularizar a situação
dele nela. Eu me propus a escrever uma carta para um primo —
Inácio — que trabalha lá.
"Eu vou escrever para ele uma carta, e falar depois por
telefone recomendando tudo o que o senhor pediu."
Inácio era uma pessoa formidável, esse meu primo. Ele
atualizou tudo, mandou toda a despesa, com tudo pago e com
recibo.
A comunicação com Campos era diária através da Leopoldina.
Eu todo dia ia até a estação esperar o noturno. Todo dia
vinha, doze caixas daquelas. Do Rio pra lá era menos, de
Campos para o Rio é que vinham muitas. A volta era quase que
vazia, tanto que uma caixa, ou cesta [de vime], era maior do
que a outra, pra poder caber, evitar muito frete.
O Dr. Flávio conferiu tudo, ficou muito satisfeito, viu
quanto era, tirou um cheque. Quando ele foi emitir o cheque
perguntou se eu permitia que ele aumentasse o valor como
forma de me agradecer, mas eu não aceitei.
Ele então me agradeceu e falou assim: "você não se sente
deslocado aqui nessa agência?"
Eu até olhei para o outro funcionário não ouvir, e disse
"não, eu sou o gerente aqui, [o negócio] é pequeno, mas dá
para comer."
Ele disse "você não quer melhorar?"
"Ah, quem não quer melhorar?"
Então ele me deu o cartão dele e disse "você faz o seguinte,
na hora que tiver tempo, apareça lá no escritório, no
edifício da Noite, sétimo andar."
O edifício da Noite fica na praça Mauá. Era o mais alto
daquele tempo. Hoje já deve ter outro lá. De todos os
elevadores que eu andei na minha vida, o do edifício da
Noite é o mais rápido. Você chega a sair do chão. É um
negócio. O escritório, ele ocupava três salas maiores do que
essa e era uma construtora civil, que pegava serviços de
empreitada. Era a Construtora Mauá.
Aí eu fui lá. No outro dia. Cheguei lá toquei a campainha e
fui atendido por uma moça. Eu me apresentei e pedi para
falar com o Dr. Flávio. Aí ela saiu, foi lá na outra sala,
chamou-o, ele veio.
"Ah, você que é o Nelson?"
"Sim senhor, Dr. Flávio."
"O senhor vai bem?"
"Vou, sim senhor, e o senhor?"
Aí aquela história, né?
Ele me disse: "olha, o papai me falou sobre você, de maneira
que eu quero saber se você quer trabalhar conosco."
Eu disse: "dependendo do que eu for fazer..."
De maneira que eu, aí ele conversou comigo, então me
perguntou o que eu fazia e o que havia estudado. Eu disse o
que ele queria saber, e ele disse o seguinte: "eu tenho um
serviço pra você, mas é um serviço meio difícil."
Eu disse: "eu gosto é de coisa difícil."
"Olha você tem que ir pra roça."
"Sem problema. Eu não sou da cidade, eu sou da roça, eu sou
da sua terra" — Ele também era campista assim como o Dr.
Flávio.
"Pois é, eu tenho várias obras: em Cachoeiro, Vitória [ES],
e Macuco [RJ]. Eu preciso de alguém de confiança para tomar
conta, você não vai ser um escriturário não, você vai tomar
conta de tudo lá [em Macuco]. Lá tem um alemão, procura se
dar bem com ele porque ele é difícil. Nós estamos
construindo lá uma represa.
Eu disse: "ótimo, eu gosto muito dessas coisas."
Ele perguntou se eu precisava de alguma coisa e eu disse que
precisava (eu sou muito sincero). "Preciso de melhorar o meu
guarda-roupa." (risos)
E brincando com ele, disse: "essa calça aqui está meio
puída."
Ele na mesma hora chamou a senhora dele, que era a
contadora, e falou: "Maria, faz um cheque para o Nelson, ele
vai trabalhar conosco e providencie a passagem pra ele ir o
quanto antes para Macuco. Faz uma carta de apresentação,
explique a ele como é que faz pra chegar lá."
Lá eu encontraria o alemão, Dr. Carlos Duenck.
Eu fiz então a minha mala e me preparei. Eu fui a Campos
falar com mamãe, fui falar com meu padrinho, agradeci a ele,
e pedi para que ele o quanto antes para que eu pudesse
seguir viagem, porque o doutor falou que tava com pressa, né?
Meu padrinho autorizou, já tinha uma outra pessoa pra levar
pra lá.
"Você leva esse rapaz e engrena ele antes de ir embora."
Eu mandava então cinqüenta mil réis para minha família, pois
mamãe passava aperto com os outros filhos. O mais novo
morava com a madrinha. Eu tinha minha irmã, Maria, que
morava conosco; José, que era o mais velho; e Celso, que
morreu recentemente. O Dudu, que era o quinto, nasceu mais
ou menos uns quatro meses depois da morte de meu pai. Ele
está à morte. Aqui, em Vitória, e trabalhava ali no DETRAN.
Meu padrinho me dispensou do comissariado, me pagou, me deu
uma gorjeta, né, um, pelo serviço prestado, ficou muito
barato até.
Então, terminado isso, eu retornei ao Rio de Janeiro. Até
aproveitei e ainda fiz a última viagem com as encomendas,
dentro do trem. Cheguei lá no Rio, desembarquei a mercadoria
e levei para a agência. Passei dois dias treinando o novo
funcionário (o outro que trabalhava lá estava treinado), e
depois me apresentei no novo escritório. D. Maria me deu a
correspondência pra eu levar, uma carta de apresentação para
o coronel, que era dono da fazenda de Macuco, coronel Rego
Monteiro (do exército).
Eu fui para lá [1939] cuidar da empreitada para a construção
da represa, e nunca tinha visto esse tipo de construção
antes.
Ela tinha várias obras. Nós tínhamos uma obra da panela. No
Aeroporto Santos Dumont nós construímos um galpão, tudo na
mesma época. Eu vivia andando pra lá e pra cá.
De Macuco eu não saí. Cheguei lá, fiquei um ano, certinho,
trabalhando na represa.
Na represa eu não tinha função certa e fazia de tudo. Eu
fazia a escrita. Durante dois dias eu aprendi a fazer com
dona Maria a escrita, a contabilidade da obra, além disso eu
já tinha algum conhecimento de contabilidade, que eu tinha
passado um ano estudando na Escola de Comércio, de maneira
que eu aprendi aquilo com o rabo nas costas, né?
Meu trabalho na represa, vamos assim dizer, era de um
gerente da Mauá, e aonde eu chegasse era a mesma coisa, e
fazia tudo: a escrituração, fiscalização da obra e
escafandro. Você vestia uma roupa de metal, vidro na cabeça
e mergulhava a cinco metros de profundidade, que era a
profundidade da barragem. Era divertido, eu gostava.
Mas então até isso eu fui, até que chegou uma época que
tínhamos de concretar. Fui mestre de obra, controlava o
corte de madeira para as fôrmas. Aqui por exemplo, tem uma
coluna e dentro vai o concreto e o ferro.
(Por incrível que pareça, eu fabricava três mil toneladas de
aço por mês e não tenho um pedaço de ferro aqui em casa.
Aquele o Flávio levou e eu não tenho pra mostrar outro.
Depois eu peço ao Flávio que mostre um, tinha uma amostra
aí.)
[A represa estava sendo construída no] rio Grande. Era um
rio que não tinha nada de grande, e nós construímos a
represa justamente na parte mais estreita dele. A parte mais
estreita dele tinha uns 150 metros. Era a parte mais
estreita e mais funda, dava pra você juntar maior quantidade
de água.
Tinha uma rópia de um lado, outra de outro. Você construía,
você tinha toda a altura do nível até a crista — porque
chama-se crista — a crista da barragem, pra você encher
aquilo de água.
Lá eu me encarregava de tudo, mas nós tínhamos o engenheiro,
que era Dr. Carlos Duenck, que morou aqui — eu não sei o
nome da empresa que ele tinha aqui não. Que aliás gostava
muito de mim, e me chamava de Nerso.
[Álvaro: "Ele não pronunciava direito o nome dele, seu
português era péssimo."]
Ele era o engenheiro lá, e tinha um encarregado, que era um
compadre meu, que ficava lá junto com os operários, virando
concreto e tudo mais. Eu que ficava a cavalo, acompanhando,
fiscalizando. A represa fica a mais ou menos 50 quilômetros
distante da vila de Macuco, e eu morava na casa da fazenda.
Mais tarde fui morar na vila.
Tudo estava muito abandonado, até a casa era uma coisa
horrível. Uma casa imensa de fazenda caindo aos pedaços. Uma
coisa, o assoalho tudo podre...
O dono não cuidava, morava no rio. Os bois morriam à toa,
uma coisa horrível. Quando um deles morria, a gente comia
carne. Quando acontecia de um boi cair do barranco, a gente
ia lá pegá-lo, assava a carne e comia. Ele atrasava muito o
pagamento, era um buraco, sabe?
Então ele [o coronel] disse pra mim: eu só posso pagar a
você quando eu vendo uma vaca. Eu pedi um crédito. Ele fazia
e tava se movimentando, hipotecou ao Banco do Brasil, mas
ele tinha hipoteca em cima de hipoteca, era um negócio.
Então, eu morava numa pensão lá em Macuco. Aí então a última
discussão que eu tive com ele eu peguei o cavalo, quando eu
vou atravessando a porteira, ele, acendeu, eu nem sei se foi
ele, ou quem foi. A bala pegou na porteira. Aí eu apressei o
cavalo, galopei e saí do alcance da bala dele, de maneira
que o negócio era de amargar.
Depois foi o Numinato. Ele era vaqueiro da fazenda. Eu tinha
uma namorada na fazenda, era aniversário dela e ela me deu
uma porção de comida. Eu peguei aquele pacote enorme e fui
caminhando para a fazenda, que ficava no caminho. Era um
cemitério. Tinha um bambuzal enorme do lado de baixo, que
cobria a estrada. A estrada era escura. A minha sorte foi
isso, que quando eu passei dentro da estrada eu caí, o
cavalo arregou, ele caiu para um lado, eu caí pro outro. Eu
rolei, porque aquelas estradas antigas têm sempre uma vaza
pra correr água. Eu corri e rolei para a beirada, eu andava
armado, ninguém lá andava sem um 'canhão'. Eu descarreguei o
canhão, deixando só uma bala. E ainda dei um tiro nele,
andei até o lado dele, dei um tiro, era o lá de cima, e
cheguei na fazenda. Deixei lá os troços e voltei para o meu
caminho. Ia mais à frente não me recordo bem, não sei se ia
na casa do Mário. Mas nessa altura do campeonato a
construção estava no fim, a barragem foi concretada.
Resumindo: o negócio lá do Macuco, da represa, chegou numa
situação que eu passei um telegrama lá pro Dr. Flávio. O Dr.
Carlos não agüentou e foi pro Rio, deixou a obra lá. Mas
isso não tinha importância, que a obra andava de qualquer
maneira, já estava tudo concretado.
Passei um telegrama para Dr. Flávio dizendo que eu me via
forçado a paralisar a obra, porque depois de quatro meses
sem receber os operários estavam adoecendo e não havia
jeito. Eu pretendia embarcar no outro dia para o Rio, mas
naquele mesmo dia eu recebi telegrama informando que eu
poderia parar a obra, mas em vez de eu ir pela Leopoldina,
deveria voltar para o Rio. Me orientaram para que eu tomasse
o trem em Manoel de Morais, uma outra cidade a 70 ou 100
quilômetros. Parti à noite, a cavalo, para Manoel de Morais,
e de lá fui até Cachoeiro me encontrar com Dr. Flávio.
Quando desembarquei em Cachoeiro de Itapemirim [1940] fui
para o hotel que ele tinha determinado, e ele estava lá me
esperando. Aí eu contei a história toda a ele, que disse: "é
vai ser difícil porque não sei como é que nós vamos arranjar
para pagar todo mundo". Mas ele pagou.
Ele falou para mim: "olha nós vamos começar aqui em
Cachoeiro um serviço de tratamento de água na cidade."
Então eu disse: "olha, aqui nós temos uma barragem, uma
usina de tratamento de água, e temos duas pontes."
"A barragem, a usina de tratamento nós vamos começar, você
vai tomar as primeiras providências. Nós começamos a obra, e
depois que as coisas estiverem andando, você vai ter que
fazer a mesma coisa de sempre."
Eu tinha então uma moto. A moto do Marcelo.
Começamos a obra em Cachoeiro. Construímos o serviço de
tratamento de água e a usina foi terminada, só que eu não
fiquei até o fim.
[Nessa época ele veio pra Vitória — comentário de Álvaro
Silva, seu filho.]
[Comentário sobre a usina]: Você olhava, no fundo, do tanque
de cristalização, você via um alfinete a dez metros, vinte
de profundidade. Não tinha nada, aquela água horrorosa de
[...]. O tratamento era feito da seguinte forma: primeiro a
água é decantada [os sedimentos descem até o fundo]. O
primeiro tanque é o da sedimentação. É por etapa: Você tem
um tanque, depois um degrau, um segundo tanque, de
decantação. No primeiro tanque você só dá uma dose de
sulfato de alumínio.O sulfato de alumínio agrega todos os
corpos, formando flocos brancos que precipitam, vão para o
fundo. Esse material precipitado vai sendo descarregado por
baixo e o que flutua sai por cima, e água ia tá já meia
tratada. E nesse tanque a água vai chegando sempre.
E tem um homem também, que tira o grosso né? Palha, essas
coisas assim. Agora, sempre do primeiro tanque não decanta,
porque há o tempo entre a água que entra no tanque e ela
pula, por cima da crista. Há um tempo que ela leva pra fazer
isso, para ocorrer a reação do sulfato de alumínio, depois
ela passa pro segundo tanque.
Depois disso a água vai pra fora, volta para o rio. Tem uma
calha do lado, que recolhe.
No segundo tanque a água recebe uma quantidade de sulfato de
cobre. Essas duas coisas eu até usava na piscina lá de casa.
Era o sulfato de alumínio. Sulfato de alumínio no primeiro
tanque e sulfato de cobre no segundo, para acelerar a
precipitação, decantação.
Então fica tudo lá embaixo. Esse material é então retirado
por baixo, da mesma forma que é feito no primeiro tanque,
por um dispositivo abre e fecha logo, dependendo do tempo de
decantação. Esse sistema pode ser automático ou manual,
depende da quantidade de sujeira que tem a água.
A água ainda passa por um terceiro tanque, parece uma série
de cachoeiras. É o que se chama de bater a berbatida.
Terminado esse terceiro tanque, a água cai numa canaleta,
num tubo coletor. A água está então limpa, mas ainda não é
tratada.
É quando ela vai para o dosador. Isso só a química. Mas
então ela entra na usina, e nela passa por uma calha que tá
em função da capacidade de vazão E ela recebe do dosador uma
quantidade de cloro, que fica pingando. Aí em função da
composição da água, você bota mais cloro ou adiciona alguns
elementos. Há ocasiões de epidemia, por exemplo, em que se
entra com outros valores, isso o Ministério da Saúde
fornece.
Agora, dessa dosagem de cloro ela cai no tanque de
distribuição e depois tem o segundo tanque. São, ao todo,
três tanques externos e dois internos. É um complexo.
Do último tanque de decantação ela ia pra torre de elevação,
e da torre de elevação no caso ia pro reservatório que
ficava no alto de um morro que daí era distribuído pras
casas.
Isso foi feito em Cachoeiro, na Ilha da Luz, perto de onde
fica a fábrica Pio Coelho.
Participei também de outras obras lá em [...], duas pontes.
Eu não tenho o nome delas, guardei o número, a número um e a
número dois. Eu não sei, eu sei, que desde que eu saí,
terminei o meu serviço lá na Ilha da Luz, nunca mais eu
voltei pra Cachoeiro.
Eu administrava a construção das pontes, como fazia em todas
as obras de que participei. Tudo passava por mim:
escrituração, fiscalização, pagamento de operários, cobrança
etc.
Aqui por exemplo tinha duas pontes lá pro lado de Cariacica.
O trabalho sempre representava risco, por isso "fogo na
cinta".
Lembro de uma passagem muito gozada. Tem um rio aqui, o Bubu,
o outro Murumbu. Nós estávamos fazendo a ponte.
Durante a obra da usina de tratamento de Cachoeiro, eu
voltava aqui e ia a Cachoeiro, voltava, até que eu vim morar
em Vitória. Isso foi mais ou menos em 1942.
Mas eu participava várias obras que estavam andando
paralelamente, não tinha nada parado, esperando não. Eu tava
num lugar e quando queriam falar comigo, ou me achar
precisavam ver lá no mapa onde é que eu estava. Tinha também
uma construção em Jabaquara [lugarejo entre Guarapari e
Alfredo Chaves]. Aquela ponte foi construída por nós.
Iconha. Nós construímos em Iconha três pontes. Uma só tá lá.
As outras afundaram. Para a construção da ponte, foi feita
uma concorrência antes de nós e o sujeito fez o estudo, fez
o desenho e tudo mais, dando a fundação e o tipo de ponte.
Só que a ponte era de pau. Quando nós começamos estávamos no
fim da construção da de Jabaquara, e o governador quis que a
gente fizesse a ponte de Iconha. Isso foi 1943,
aproximadamente. Eu estava então casado.
Bom, aí eu tinha a ponte de Iconha. Eles fizeram o desenho e
tudo mais, mas não realizaram a fundação como estava no
desenho. Eles tapearam. Eu fui até com o Dr. Flávio. Eu fui
ao Departamento de Obras conversar com o engenheiro, o —
esqueço o nome dele — "vocês querem que se construa uma
ponte de concreto em cima dessas fundações? Não fomos nós
que construímos a fundação. Esse rio aqui, espremido, com
chuva pesada a ponte vai embora."
Isso daí o Dr. Flávio falou com o governador.
"Ô, Jones, nós vamos ter que fazer um adendo ao contrato, e
qualquer problema que venha a surgir com a ponte,
relacionado com as fundações, é de inteira responsabilidade
de vocês."
Nós temos duas pontes nessas condições: essa ponte e a de
Aimorés. A de Aimorés uma tromba d'água levantou e levou rio
abaixo. Subiu. Quem viu disse que não acreditar. Não ficou
nenhum remanescente da ponte.
A ponte de Aimorés foi feita pela Mauá sem a minha
participação. Mais tarde passei a trabalhar para a Mauá, mas
nessa época eu ainda não era funcionário dela.
A ponte de Iconha sumiu sob uma tromba d'água, que levou
inclusive suas fundações. Aí nós construímos uma outra que
está lá. Agora além dessa, nós construímos umas dez pontes
ao longo da estrada Jones Santos Neves, até a fronteira,
menos aquela da fronteira.
Essas obras foram realizadas durante o governo Jones dos
Santos Neves e também depois.
Mais tarde eu deixei a Mauá.
Agora pra você ter uma idéia, nas pontes de Murundu e Bubu
[década de 1950?]. Havia pouco dinheiro, então...
Eu ia pagar o pessoal e tinha um motorista que se chamava
Celso Picú.
[Álvaro: "Ele veio de Cachoeiro pra Vitória, acompanhando as
obras da Construtora Mauá. Depois que esteve em Cachoeiro,
ele veio direto pra cá, foi em 1939 ainda. Ele passou por
Cachoeiro e veio pra cá. Aqui a Mauá tinha obras, Uma
pontezinha perto de Paul. Ela é um arco e fica em cima de
roletes. Era uma ponte ferroviária que está totalmente
desativada hoje, cheia de mato. Mas ali passava estrada de
ferro. Essa ponte a Construtora Mauá fez. Era do porto. Era
pra o trem descarregar o minério no porto, no Péla-Macaco. E
essa ponte existe até hoje, que jamais derrubaram, só que
ela liga nada a lugar nenhum. E justamente nessa época, que
ele chegou aqui, aí teve essa obra dessa ponte, tinha a
Construtora Mauá tinha obra do prosseguimento da construção
do cais do hidroavião. Porque o cais do hidroavião já
existia, mas tinha que ser concluída construção dela.]
Bom, além dessa ponte, na verdade chamada de viaduto, eu
construí um outro viaduto atrás da Leopoldina, da estação. É
um viaduto de vigas Gerbel, um tipo de viga reta. Não se vê
viaduto, apesar dele estar lá. Ele não tem aquele arco, nada
disso. É reto. Chama-se viga Gerbel, em alemão. Depois
desse, nós fizemos um outro, que eles chamam de paliteiro, e
que fica lá no Paul.
E tem as pontes de Bubu, Murundu, da Leopoldina, só. Essas.
Mas é ponte pra chuchu.
Construímos um pontilhão que fica dentro do terreno da Vale,
e, além disso, construímos uma ponte em Resplendor. Eu então
já era sócio do Flávio, da Mauá.
Eu tenho que abrir um espaço aqui, depois a gente volta ao
contexto.
Eu me mudei daqui para São Paulo em 1954.
[Álvaro: "O vôo de papai vai cair."]
É, aquele mesmo. "O vôo de papai vai cair". Ele [Álvaro]
entrava no avião comigo e Dulce, e ficava dizendo: "o vôo de
papai vai cair".
* * *
Eu, pro Flávio, era um filho dele.
[Álvaro: "Porque Dr. Flávio era muito mais velho do que
papai. O Dr. Flávio no fim da vida ele perdeu tudo, e acabou
vivendo os últimos dias dele na casa de papai, em São
Paulo."]
Eu que o enterrei. Fui a única pessoa que foi ao enterro
dele.
[Álvaro: "Porque ele não deixou descendentes, não teve
filhos."]
Dr. Flávio apareceu lá na porta em 1954 com um maço de
documentos e disse:
"Ô, Nelson, eu quero uma passagem, mas quero que antes você
leia isso aqui, examine que eu preciso de você em São Paulo
pra fundar essa firma."
Eu disse:
"Ô, Flávio, deixa isso aqui comigo. Eu vou ler."
[Naquela ocasião havia um boato de que as Aerovias estaria
sendo vendida.]
Descasquei o negócio. Li e estudei todo aquele documento.
Era uma patente para a fabricação de vergalhões torcidos.
Eu não teria muita dificuldade na execução daquele projeto
porque eu já conhecia mecânica e metalurgia.
E eu fui e falei assim:
"Caramba, isso aqui é um ovo de Colombo. Eu acho que tem
futuro."
Para você ter uma idéia, um vergalhão de ferro era torcido
numa uma máquina simples, como se fosse um barbante... e se
esse barbante que tinha anteriormente resistência para, por
exemplo, suportar dez quilos, passava depois disso a
suportar vinte.
Chama-se a isso helitraço, hélice tracionada de aço.
Essa tecnologia já existia na Espanha, mas não aqui. Nós
fomos a primeira empresa a adquiri o direito de explorar a
patente no Brasil.
A Armaduras Helitraço de São Paulo S/A era uma empresa com
três sócios: eu, o Dr. Flávio e o espanhol (dono da
patente). Os outros eram só para constar, já que uma
sociedade anônima precisa de no mínimo seis sócios. Assim o
espanhol, que era o dono da patente, tinha garantido o seu
direito. E já que no Brasil a patente espanhola não era
reconhecida, Flávio registrou-a no Brasil.
O nome do espanhol eu não lembro, só sei que era Jesus... e
entrou Jesus no meio, danou. Eu sou ateu, sabe?
Para comprar nossa casa em Vitória eu fiz um empréstimo com
Asdrúbal Resende Peixoto, que dono do Banco [...] Quando fui
para São Paulo eu vendi a casa. Depois disso verifiquei que
daquele empréstimo, já quitado, deixei de receber a
devolução de uma das promissórias, que acabei tendo que
pagar novamente.
Eu botei anúncio na rádio de São Paulo, falando com ele:
"Asdrúbal, esteja você onde estiver, meu escritório é na rua
Ipiranga, avenida Ipiranga, número tal, andar número tal.
Vem, que você encontra o amigo Nelson lá."
E ele foi ao meu encontro.Eu o recebi e emprestei dinheiro a
ele.
Eu cheguei em São Paulo, arranjei um terreno no começo da
Via Anchieta... tem um riozinho. Ali termina São Paulo e
começa o ABC.
* * *
Com a minha vinda para o Espírito Santo, a Mauá começou a se
envolver em muitas obras, e nessa ocasião o governo resolveu
se estender pro Norte. Então nós fizemos um projeto da ponte
de Linhares. Mas não construímos.
Fizemos o projeto e construímos a ponte de Colatina.
Depois disso nós continuamos no rumo de São Mateus e de
Linhares. Em São Mateus não havia nada, era só uma extensão
imensa, uma reta de perder de vista, então nós fizemos isso,
até houve um acidente lá, no meio do caminho um acidente com
bondes. Dr. Flávio tava dirigindo a caminhonete e um homem
dormiu no meio da estrada. De longe o farol não tava muito
bom, nós pensamos: será que é gente ou bicho? E ali era ruim
parar. Aí ele resolveu passar por cima. Passou e era um
homem. Paramos, botamos o corpo do sujeito — que estava vivo
ainda — na caminhonete e continuamos para São Mateus. Isso
foi um incidente na estrada.
Chegamos em São Mateus, já estava pronto o projeto, porque
os projetos todos eram feitos no Rio. Nós construímos uma
pequena usina de tratamento de água para São Mateus, que a
cidade era muito pequena, era uma praça grande, tinha umas
casas velhas, uns sobradões...
Era por volta de 1943, eu já tava casado. Então construímos
a usina e fizemos a ligação domiciliar em todas as casas,
digamos, do campo.
Isso foi no governo Jones, tudo Jones. Acontece que Dr.
Flávio tava achando que o dinheiro que tava entrando era
curto, e falou: "Nelson, vê se você apressa isso daí, e vai
diminuindo a folha, sabe, pra poder ficar mais fácil."
* * *
Tinha um empregado chamava-se Numinato. Era um cearense que
quando soube que eu ia dispensá-lo — e eu ia dispensar todo
mundo — me procurou.
"Ó, senhor Nelson, eu soube que o senhor vai me mandar
embora também, eu tenho onze filhos..."
Eu disse:
"Olha, eu lamento, mas isso aqui é uma obra transitória, e
quando termina a gente tem que dispensar os operários.
Quando tem outra obra a gente aproveita, mas aqui não tem.
De maneira que vou ser obrigado, mas eu vou pagar você
tostão por tostão. Se você quiser, eu mando um caminhão
levar as suas coisas, não tem problema."
"Ah, sim senhor."
Eu tinha um homem que tomava conta de mim, a gente precisava
de um guarda. Era o Teófilo. Teófilo dois dias depois chegou
pra mim e disse:
"Olha seu Nelson, o senhor tá numa enrascada."
"Eu numa enrascada?"
"É. O senhor vai botar o Numinato na rua e ele disse que não
vai não, que vai lhe matar."
Entrevista de 29/06/02
Então eu fui fazer minha partida de bilhar, eu gostava de
matar o tempo jogando bilhar. Fui para o bilhar, joguei umas
quatro ou cinco partidas. Quando eu saí, o Teófilo estava do
lado de fora esperando. Lá tinha uma figueira grande, não
sei se cortaram, no meio da praça, é uma praça grande,
cercada de casarões. Quando eu me aproximei da figueira
Numinato saiu de trás dela e perguntou:
"Seu Nelson, o senhor vai me mandar embora mesmo?"
"Já mandei, Numinato, o que que eu vou fazer?"
"Então o senhor vai comigo. Pegou o revólver, puxou o dedo
cinco vezes."
Aquilo foi tão rápido que eu fiquei parado. Pum, pum, pum,
pum, pum. Aí, quando parou, parou tudo, pararam aqueles
tiros, o Teófilo agarrou, mais dois seguraram ele. Aí eu
tirei a capa — não estava sentindo nada — procurei, mas não
tinha nada, só uns arranhõezinhos. No chão tinha cinco
balas. A arma dele era muito velha. Aí eu peguei as balas e
disse:
"Olha, você me deu cinco tiros e está todo mundo de prova.
Vamos lá para a polícia."
Aí fomos lá no delegado, chamar o delegado, o delegado
estava dormindo. Mas resumindo, o Teófilo não serviu de nada
porque não se moveu, mas no interior tem dessas coisas, a
gente tem que andar sempre preparado. Eu não puxei minha
arma, eu estava armado, mas não puxei porque foi pum, pum,
pum, pum, pum. E aquele negócio, parecia São João, só que
era dezembro. Bom. Então nesse caso, além das obras que já
descrevi, para o sul, nós também fizemos outras para o
norte. De algumas eu nem me lembro direito mais onde estão,
porque este traçado da BR-101 daqui até a fronteira, sofreu
muitas alterações. Era desvio daqui, desvio ali, já está
hoje mais ou menos retilínea, de maneira que, seguramente,
umas quatro ou cinco ou seis pontes foram abandonadas. Dessa
forma você tem já aí a parte que diz respeito às construções
do Sul... tem a construção dos viadutos, o de Paul, o da
Leopoldina, o do péla-macaco... e agora te dei uma dica do
serviço de água.
* * *
Quer dizer que então isso aí tem seguramente tudo em matéria
de ponte sem descrição minuciosa de cada uma. Agora, um
assunto que, muito interessa você também é o cais do
hidroavião. O cais, o aeroporto marítimo de Vitória. É um
nome pomposo. Está escrito lá: Vitória. Mas nem Aeroporto
Marítimo eles botaram. Bom, aquele aeroporto foi construído
pelo Departamento de Aeronáutica Civil.
O projeto e a construção foram da Mauá, tudo nosso. Quando
eu comecei na Mauá, eu já trabalhava — como disse a você —
na parte alta do Espírito Santo. Flávio me tirou de Macuco
(RJ) e me mandou para Cachoeiro de Itapemirim. De lá que eu
vim para aqui.
Então quando eu saí de Cachoeiro e vim para Vitória, o cais
do avião foi o primeiro serviço que tive.
[Álvaro: "Muito provavelmente a obra teria sido iniciada em
fins de 1938, porque em janeiro de 39 houve um acidente,
inclusive com um avião que estava fazendo uma escala de
abastecimento em Vitória, um hidroavião. Então foi no final
de 1938 com toda certeza. O cais de avião de Vitória foi o
segundo a ser construído no Brasil. Agora não sei qual foi o
primeiro. Provavelmente foi o do Rio."]
Quando se fez o contrato para realizar a obra do aeroporto
marítimo não se pensou no flutuante. Nós já estávamos no fim
da obra e o Flávio me chamou ao Rio. Eu fui lá e ele me
falou:
"Olha, nós vamos ao Ministério da Aeronáutica, que eles
querem que a gente faça um flutuante."
Aí eu peguei um, eu nem sei se trem ou avião, para o Rio.
Fomos lá no Ministério da Aeronáutica Civil. O tamanho a
disposição do Dr. Flávio e o, a quantidade de gasolina que
queria e de óleo, de mais materiais para poder ele calcular
o peso, saber o tamanho do flutuante.
Eu esperei lá o Dr. Flávio que em uma semana fez o projeto.
Eu levei o projeto com o Dr. Flávio até o Ministério da
Aeronáutica para eles analisarem. Um mês depois eu voltei ao
Rio — o projeto já estava aprovado — e trouxe a planta com
ordem de começar a obra.
Bom, a obra acabou em 1941. Eu não estava presente na
inauguração. Eu estava no Rio. E então eu trabalhei lá nessa
obra. Essa obra, não era de vulto, mas foi minuciosamente
tratada e executada. Porque se trata de uma construção de
concreto em cima da água do mar, e de água salgada. E a água
salgada ataca muito as ferragens. Mesmo aquelas protegidas
pelo cimento sofrem às vezes. Então quando eu cheguei aqui a
obra estava adiantada. E ela é constante de um edifício de
dois pavimentos, tem uma ponte, que se alonga mais ou menos
100 metros, e que já estava pronta quando eu cheguei.
A ponte lembra um píer coberto até o mar, e lá na ponta
desse píer nós posteriormente, a pedido do Ministério da
Aeronáutica, construímos um flutuante para poder colocar
gasolina, óleo, pessoal, ferramenta, tudo isso. O problema
do píer é muito simples, mas a física explica. Ele foi feito
todo de cimento, mas o navio também é de ferro, e não vai
para o fundo. Está em função sempre do volume da água que
desloca.
Quando ele ficou pronto e nós cortamos as amarras e o
deixamos correr para dentro d'água. Ele ficou que não tinha
um palmo mergulhado, o resto estava tudo de fora, para
receber o óleo.
O píer repousa em cima dos pilares de concreto armado. O
flutuante é importante principalmente pelas mudanças de
maré. Era por onde as pessoas embarcavam, e do píer ao
flutuante havia uma passarelazinha de cimento.O flutuante
ficava preso a um estrado de madeira, e o estrado de madeira
ao píer por correntes.
No edifício funcionava a estação, com bilheteria, banheiros,
bares...
[O flutuante, além de ser o ponto de atracamento do avião
era também o local de embarque e desembarque de passageiros.
O atracamento do hidroavião é semelhante ao dos barcos.]
Tinha o primeiro piso e o segundo piso. A ponte é coberta.
[...] para o vento não passar. Fiz uma biruta bem grande.
Bom. Tem a ponte, e depois uma parte de madeira, que faz a
ligação entre o píer e o flutuante. Ele sobe e desce com a
maré. A variação de maré aqui, na região de Santo Antônio,
chega a mais de um metro.
[Álvaro: "1,10m, 1,15m, porque também tem uma variação
dependendo da época do ano; a maré de março, aquela época
que começa e termina o verão, é a maré mais forte. A
variação é maior também durante o final do verão, menor nas
outras épocas do ano, mas a média é 1,10m, 1,15m."]
O flutuante tem a forma de m cubo. Aqui dentro tinha o
tanque, vamos assim dizer, redondo, como se fosse tonel de
gasolina, que abastecia os aviões. Tem também a caixa de
óleo e outra de ferramentas. Era um depósito que servia para
reabastecer os aviões.
O flutuante ficava preso por correntes a uma base de
concreto — a poita ou âncora — no fundo do mar. Eram ao todo
quatro poitas às quais o flutuante ficava preso por
correntes. Quatro "P". O flutuante é de concreto. É o tal
negócio, com um volume suficientemente calculado, você
consegue fazer até um navio de cimento. Aqui é uma questão
de física. A quantidade de água deslocada é que dá a
sustentação.
A conexão entre a parte fixa e o flutuante é de madeira, e
flexível, assim como o flutuante.
O prédio tinha que ser muito bem construído suportar a
agressividade do mar, haja vista que são decorridos 60 anos
e ele está lá em pé direitinho.
Tinha o caisinho de madeira, com o flutuante, a ponte e o
prédio. Os aviões chegavam e ficavam aqui, amarrados. Então
o funcionário abria lá aquela mangueira e tal e enchia os
tanques dos aviões. Acontece que depois do flutuante
concluído o cais ficou desativado.
Agora, passamos a falar da construção do flutuante. Tinha um
espanhol, Salvador, que era encarregado daqui. Nós
precisávamos construir o flutuante. Ele perguntou:
"Como é que nós vamos fazer isso seu Nelson?"
Dr. Flávio não estava nesse dia. Para fazer esse flutuante,
temos que fazer aqui um deck. O engenheiro era Carlos Duenck,
um alemão, e estava conosco ali, em volta da mesa. Eu falava
com Dr. Flávio todos os dias por telefone, e disse para ele
que teríamos que construir uma rampa, ou deck, para montar o
flutuante. O deck é um suporte, feito uma carreira, com grau
de inclinação devidamente calculado. É uma rampa de madeira,
para se poder construir a parte de cimento, ou flutuante,
por cima. Depois passamos um pouco de graxa, retiramos os
calços e deixamos o flutuante escorregar para dentro d'água
como se fosse um navio. Eu assisti ao lançamento do
flutuante no mar.
As instruções foram todas dadas por Dr. Flávio, por
telefone.
Depois de lançado, o flutuante, no mar, nós o posicionamos
corretamente e o prendemos. O flutuante era todo revestido
com cimento especial para não haver infiltração. Enfim.
Fizemos tudo que era necessário e entregamos a obra, mas na
verdade quem entregou não fui eu.
Depois de alguns anos, isso aí estava criando problemas,
parece que para a Capitania dos Portos. A Capitania estava
implicando com essa história, aí o Flávio me chamou. Com o
cais fora de uso, e excessiva oscilação do flutuante, uma
das poitas quase arrebentou a corrente. O flutuante não
chegou a ser ativado.
Eu fui ao Rio conversar com Dr. Flávio, e com ele fui até a
Aeronáutica. Fomos lá na Aeronáutica e eles deram ordem de
afundar o flutuante. Isso foi na década de 1950.
Eu havia levado para lá todas as plantas, tanto da
construção como o projeto para o afundamento do flutuante.
Aí eu afastei aquele pessoal todo de lá e combinei tudo com
o governador, Jones dos Santos Neves. Eu fiz o seguinte:
tirei o tampo, que servia de entrada. Tinha também uma
escada. Aí fomos lá, fui para primeira e última vez ver o
bicho, que estava todo enferrujado. A água tinha entrado
nele. Aí eu falei com Félix, empregado que estava ali, e
expliquei tudo a ele. Eu disse para ele apanhar uma, duas ou
três bananas de dinamite e amarrá-las, botar o pavio dentro
de uma delas, e colocá-las na proa do flutuante, para ficar
mais longe das pessoas.
"Você pode botar e calçar. Leva uma pedra, um pedaço de pau,
o que você tiver lá. Para calçar e o bicho não rolar. Depois
você acende o pavio. Agora isso aí tem um minuto."
Aí ele fez, eu fiquei lá fora, na ponte. Ele botou, furou,
saiu, pegou a cartela encostou. Aí que o negócio explodiu.
Explodiu, mas rachou para o lado. A água entrou e foi para o
fundo em, mais ou menos, dez minutos. Mas ele foi arrastado
do lugar onde estava, lá mais ou menos uns quinhentos metros
fora da barragem. Está lá até hoje, nunca mais ninguém
mexeu.[1]
O edifício foi construído para durar, porque naquela ocasião
era uma época muito importante, foi o início da Segunda
Grande Guerra. Então já se estava prevendo dificuldades
inúmeras. Para construir aeroportos demorava muito. Então o
Brasil foi um dos primeiros a construir estações de embarque
para aviões. Porque nós tínhamos o Catalina, tinha o Dox,
tinha vários, centenas de aviões e anfíbios que pousavam lá,
além de hidroaviões.
Seguramente, havia no Brasil, ao todo, uns 50 hidroaviões...
por aí, em vôos regulares, comerciais.
[Álvaro: "Olha, o Sindicato Condor tinha 16. Isso eu sei
porque eu vi informações oficiais, a empresa é filiada ao
Ministério da Aeronáutica, que informa isso."]
E no caso, três cais de hidroavião, um aqui em Vitória,
outro em Salvador e mais um no Rio de Janeiro.
[Álvaro: "Em muitos lugares o hidroavião era atracado em
rampas improvisadas, acontecia isso em Natal, por exemplo.
Eram locais improvisados. Estrutura aeroportuária completa
só havia em Vitória, Rio de Janeiro e Salvador."]
Agora, naquele tempo ainda havia muito poucos hidroaviões.
Quando eu estava mexendo com isso, havia muito pouco, porque
o mundo estava em guerra. A demanda era grande, mas o nosso
país estava voltado para Europa. Eu, por exemplo, fui
convocado durante a guerra, mas não fui. Fui depois,
desligado. Meu primo foi convocado e foi, porque ele era —
como se diz? — ele era voluntário. Eu não fui como
voluntário. Eu estava noivo de Dulce.
Durante a construção do cais de hidroavião de Vitória
apareceram alguns problemas, que até hoje existem, problemas
de construção mesmo. Ele não tem telhado, isso aí, é uma
cobertura, mas lá em cima tem umas placas de papel e — como
é que é aquilo? — um piche, papel coberto com piche, para
não penetrar água. Mas sempre penetra. Fizemos várias
reformas. Não pudemos pôr telhado porque aqui tem muito
vento. O vento arranca tudo.
O primeiro avião que pousou aqui trouxe o Dr. Flávio. Esse
eu vi, que eu estava esperando por ele. O cais ainda não
estava pronto. Foi o hidroavião da Pan-Air. Um catalina.
[Álvaro: "Catalina é um hidroavião de fabricação
norte-americana. Ele existe até hoje voando pelo mundo
todo"]
Esse é um avião que voa muito pouco. Para você ter uma
idéia, a velocidade média desse avião é de 200 km/h.
[Álvaro: "A velocidade do hidroavião é muito menor por causa
do arrasto excessivo. Aquele flutuante dele, que é
necessário que ele leve, pesa muito e provoca muita
resistência ao ar, reduzindo a velocidade final. Ele tem
aquelas duas "lanchas" — flutuadores — embaixo. Então,
aquilo tem peso e arrasto. Chama-se arrasto ao atrito. Esse
foi um dos motivos pelos quais o hidroavião foi abandonado.
A partir do momento em que o Brasil passou a ter uma
estrutura aeroportuária razoável, o hidroavião deixou de ser
utilizado. Na verdade ele não morreu de todo, mas o avião
convencional tem muitas vantagens em relação ao hidroavião.
Ele é mais econômico, e de mais fácil manutenção."]
Só para você ter uma idéia, um DC-3, esses aviões comuns que
antigamente pousavam aqui em Vitória, levavam cada um 28
passageiros. A velocidade de cruzeiro era 260, 280 km/h. Mas
havia também DC-3 que pousava na água, com adaptações que
substituíam o trem de pouso. Inclusive os DC-3, que depois
da guerra continuaram voando, pousando em terra, esses
também eram aviões de pouca velocidade, cruzavam 280
quilômetros, mas levavam uma carga grande. A gente decolava
com dois mil e duzentos quilos. Com dois motores de 1.600
cavalos.
Os DC-3 transportavam carga e passageiros. Teve um ano em
que eu mandei um jipe para Maceió num deles num DC-3 147,
que é de terra mesmo.
Havia muitos modelos de hidroavião. O mais antigo que eu me
lembro, — eu fabriquei um, quando criança — era o Dox. (Eu
fazia aeromodelo para as meninas, porque eu adorava aviação.
Depois de velho eu ainda fiz um. Brincava com aquilo no...
como é que chama aquilo lá? No Ibirapuera [São Paulo].)
[Álvaro: "O cais ficou ativo até 1943. O que aconteceu foi o
seguinte: a maior parte dos aviões que voava no Brasil
naquela época era de fabricação alemã. Eram aviões Junker e
Dornier em sua maior parte. Em 1942 o Brasil entrou em
guerra contra a Alemanha e aí cessou o fornecimento de peças
de reposição de aeronaves e tudo. As empresas aéreas tiveram
dificuldades, elas canibalizavam alguns aviões, ou seja,
tiravam o avião de rota e iam passando peças dele para
outros aviões que precisavam de manutenção. Isso foi
diminuindo a frota de hidroaviões e a sua eficiência. E
naquela época o hidroavião já apresentava uma série de
desvantagens operacionais e econômicas em relação ao avião
tradicional.
E começou a haver um crescimento da estrutura aeroportuária
do Brasil. A frota aérea brasileira, que era essencialmente
de fabricação alemã, foi modificada, passou a ser
essencialmente norte-americana. Os aeroportos marítimos
morreram em função disso.
Quando a guerra chegou ao fim, os Estados Unidos se viram
numa situação interessantíssima. Durante a guerra, eles
tinham desenvolvido vários aviões de transporte. Um desses
aviões era o chamado C-47, fabricado pela Douglas, que hoje
também fabrica o MD-11 e outros mais. No final da guerra
havia mais de 2.000 mil C-47 prontos e voando. Com o fim da
guerra não havia mais utilidade para aqueles aviões. Eles
eram aviões que transportavam tropas, equipamento e tudo
mais.
Não se podia simplesmente sucatear esses aviões no final da
guerra, porque havia a indústria aeronáutica americana que
fabricava suas peças. Se isso acontecesse, toda a indústria
quebraria. Então o que os americanos fizeram? Eles adaptaram
esses aviões para transporte de passageiros. O avião
adaptado passou a se chamar DC-3. Era o mesmo C-47 adaptado
para uso civil, para o uso comercial.
Esses aviões, eles foram vendidos para empresas aéreas do
mundo todo a preço de banana. Por quê? Porque a empresa
aérea comprava o avião, fazia as adaptações colocando
poltronas etc.
No momento em que se precisasse de peças para reposição,
elas então eram vendidas a preço real."]
O Brasil depois passou a produzir peças...
[Álvaro: "Foi por causa disso que surgiu naquela época uma
quantidade imensa de empresas de aviação. Era muito fácil
comprar o avião, era barato demais, só que a manutenção era
cara e as empresas quebraram em seguida."]
Algumas empresas não faziam manutenção de qualidade, o que
deu origem a uma série de acidentes. Aí o governo botou
ordem na casa e passou a fazer uma série de exigências.
Entre 1944, 1945 e daí até meados da década de 50, as
empresas aéreas brasileiras operavam basicamente o DC-3. Era
o avião padrão do transporte aéreo comercial brasileiro.
Depois disso a Douglas mesmo começou a desenvolver outros
projetos aéreos e lançou o DC-4, DC-5, DC-6, DC-7. O
primeiro avião a jato dela foi o DC-8, que foi um avião
lançado depois do Boeing 707, que era americano.
A Boing era concorrente da Douglas e lançou o segundo jato
comercial do mundo. Depois disso a Douglas lançou o
terceiro.
O primeiro jato comercial do mundo, para transporte de
passageiros, foi o da empresa aérea inglesa [...] Haveland,
e se chamou Comet. Essa empresa pagou o preço do
pioneireirismo. Eles não conheciam algumas peculiaridades do
avião a jato de grande porte, que é a questão da fadiga do
material, e os primeiros Comets sofreram dois acidentes
aéreos horrorosos. E... então houve uma investigação
violenta para esclarecimentos, descobrindo-se o problema da
fadiga de material provocada nos vôos de alta velocidade.
Esse problema foi logo corrigido.
A Boeing, que estava com o projeto do jato na prancheta,
aguardou mais um tempo até que se descobrisse a falha.
Quando soube dos resultados, corrigiu e aprimorou seu
projeto, lançando o seu jato sem aquele problema e acabou
com a concorrente inglesa. Daí para frente os Estados Unidos
dominaram a indústria aeronáutica de fabricação de aviões
comerciais no mundo todo, principalmente de aviões de grande
porte, posição que eles mantêm até hoje."]
Hoje, para você ter uma idéia, um Concord voa a 2.200 km/h.
Para você ver, 260 para 2.000 km/h.
[Álvaro: "Um jato hoje voa de 900 a 1.000 km/h. Existem
jatos que voam a partir de 800 quilômetros por hora. Os
jatos regionais, de menor porte, eles voam entre 800 e 900
km/h. E os jatos intercontinentais, de 900 a 1.000km/h. Para
distâncias maiores, o avião é projetado para voar mais
rápido."]
E o motor também é diferente. Antigamente era motor a
pistão, como motor de automóvel. Depois passou a ser turbo a
hélice. Era uma turbina sem pistão, que rodava uma hélice.
Ainda existe hoje. E depois passou a ser turbo a hélice.
A asa do avião é lisa embaixo e faz uma curva na parte de
cima. Ela é alta na parte da frente, chama-se bordo de
atraso, faz uma curva para baixo e afila na parte de trás,
que é o bordo de fundo. Então o que acontece? Como ela é
reta embaixo, o ar passa embaixo numa velocidade constante.
Como ela tem uma curva em cima e ela se afila, o ar acelera
quando passa na parte de cima. A parte de cima se torna mais
leve do que a parte de baixo, invertendo a lei da gravidade
e formando uma força que empurra a asa de baixo para cima.
Forma então uma região de turbulência. À medida que o avião
vai acelerando, maior é a força que o empurra para cima, ou
seja, maior é a velocidade do ar que passa por cima e menor
é a velocidade do ar que passa por baixo. Quando essa força
se torna igual ou superior ao peso do avião, o peso do avião
zera. Então ele tem um negócio chamado velocidade de
sustentação, que o faz flutuar no ar. Nessas condições ele
gasta menos combustível, pois pode reduzir a velocidade dos
motores.
O avião só usa motor pleno na decolagem e no freio, na hora
de pouso. No ar, ele precisa apenas manter uma velocidade de
sustentação, reduzindo a potência do motor. É a mesma
técnica de vôo dos pássaros. A asa do avião é copiada da asa
dos pássaros."]
Mas a gente não pode correr muito porque tem que parar em
certos cantos. Por exemplo, os ingleses e os franceses
fizeram um acordo. Para fazer o primeiro avião a jato,
supersônico, que ultrapassasse a velocidade do som. O som
tem velocidade de 1.200... 1.220 km/h. Então fizeram o
Concord. Ele voa a 2.200 km/h. Acontece que não tem freguês
para ele.
E para fazer isso, ele é muito fino, tem asa demais, tem um
nariz mecanizado, abaixa o nariz para poder decolar e
pousar, está vendo? Então o custo para o passageiro acaba
sendo muito alto. E estão sendo usados hoje mais para quem
quer pagar. Vindo de Londres para Nova Iorque uma vez por
semana, ou duas, ou todo dia.
[Álvaro: "O Concord foi suspenso do Brasil."]
Agora o Brasil não aceita. Por causa do barulho. Quando ele
rompe a muralha do som dá um estampido que quebra tudo.
Aquilo é o ar, você não vê, mas, à proporção que o avião vai
aumentando a velocidade, ele vai comprimindo a camada de ar,
como se fosse se espalhasse aqui uma rama de algodão e
depois fosse apertando aquele algodão. Quando chega num
ponto, o algodão envia ao ar, é mais fraco do que a força do
avião, e dá um estrondo e aquela onda de som caminha seis
vezes a velocidade que foi gerada. Com isso ele dispara na
frente do avião a 12.000 km. É até perigoso para outros
aviões, que aí cria um problema.
Para a minha biografia ficar mais completa, eu sou aviador,
eu sou piloto de avião. Eu tenho mais ou menos duas mil e
seiscentas horas de vôo.
O avião que eu pilotava qualquer um pode pilotar, o Zezeco
pilotava e não era piloto, e ele ia uma cidadezinha comigo.
Porque o perigo é na hora de pousar, mas lá em cima eu dava
para a minha sogra!
Todo pessoal da minha família voou. Minha mulher quase
morreu de medo. Eu peguei um temporal, e tivemos que pousar.
Ela sujou o avião todinho. Até hoje não me pagou a limpeza
do avião.
Nos hidroaviões eu voei duas vezes como passageiro. Como
piloto eu viajei daqui a Baixo Guandu, e daqui a São Mateus.
Era um avião que pertencia a Wilson Freitas. Quando ele
vinha aqui eu voava com ele. Eu voei muito com Wilson
Freitas, aliás, o primeiro vôo que eu dei na minha vida foi
com. Ele quis saber se eu gostava de avião, e fez dezenas de
piruetas. Quando ele parou, eu falei: "Não tem mais?
Acabou?"
[Álvaro: "Wilson Freitas é considerado um dos maiores
remadores que o Espírito Santo já teve. E era um prático do
Porto de Vitória, um profissional que trazia navios para o
porto e botava navios no mar. Ele morreu num acidente aéreo
com avião do Aeroclube do Espírito Santo em Barra do
Itapemirim. Ele, de brincadeira com os amigos que estavam
num jipe, fez um vôo rasante, o avião dele bateu com a asa
na capota do jipe e explodiu. E ele se queimou horrivelmente
e foi transportado para Cachoeiro de Itapemirim, morrendo
oito horas depois na Santa Casa de lá."]
Eu sempre adorei aviação. Quando eu era garoto, tudo que
tinha avião mexia comigo. Então, aos quinze anos, no tempo
da Escola Técnica de Campos, eu fiz um, e naquele tempo não
havia solda de alumínio. Então eu procurei tudo quanto foi
jeito, mas não consegui, ninguém soldava. Eu queria fazer de
alumínio, eu tinha uma fotografia do Dox, e eu fui passei,
naquele tempo eu desenhava. Passei para o papel o desenho do
Dox perfeitinho. Cortei todinho em alumínio, peça por peça e
montei com cola. Havia uma cola fabricada na Alemanha e eu
colei as partes por dentro para não ficar preto, porque a
cola era preta, colei tudo. Estava pronto meu Dox. O motor,
tudo, tudo, tudo. Ele tinha um metro, mais ou menos, de
comprimento e asa, porque a cauda é proporcional. Eu fiz
tudo: janela e tudo o mais.
Eu também fui dono de uma empresa fabricante de ultraleve, a
Planatec, em São Paulo. Foi no final do período de minha
permanência naquele Estado. Depois eu desisti de tudo e vim
embora trazendo comigo dois ultraleves. Um eu vendi a um
advogado de Vila Velha e o outro, nem sei que fim levou.

* * *
Bom, na época da construção do cais de avião, em Vitória, eu
era como um inspetor. Eu não tinha cargo definido. Eu
admitia, pagava e demitia empregados e também ia ao Rio de
Janeiro para atender ao Dr. Flávio. Eu fazia de tudo
praticamente.
Nessa época eu morava aqui, numa pensão, num hotel, então,
foi quando eu conheci Dulce [esposa], em 1941. Trabalhávamos
na construção eu, o Dr. Carlos Duenck, e Orlando Paulielo,
que nem sei se vive. E eu saía de manhã cedo, pegava um
bonde, que tinha aqui, Santo Antônio, descia lá e ia para o
cais e passava lá o dia.
Eu gostava de montar esse negócio, Orlando Paulielo não se
dava comigo. Ele era escriturário. E da família Paulielo
tinha lá o Nino Paoliello, que já faleceu. E Carlos Duenck
era pagador como eu. Ele era o engenheiro alemão que
trabalhou comigo na represa de Macuco, em Cachoeiro de
Itapemirim e em Vitória. Trabalhamos juntos um tempo.
Quem é que trabalhava mais... O corpo era pequeno. O resto
era operário. Nós tínhamos uns trinta operários. O corpo de
operários, de técnicos não era muito grande. Houve um outro
engenheiro também, Dr. Jurucey Pocu de Aguiar, que era do
Rio e veio para Vitória acompanhar a obra. Ele não se deu
bem, brigou com o Dr. Carlos e acabou saindo.
* * *
Tem uma passagem muito gozada, vou abrir um parêntesis, que
o Flávio... num dos dias que o Flávio, ele vinha todo mês
aqui, e disse:
"Nelson, faz o seguinte. Apanha esse revólver, leva num
armeiro aí para mim, que de vez em quando ele masca e não
sai a bala."
E eu comecei a usar arma. Nessa época eu estava fazendo a
obra de Murundu e Bubu, lá para o lado de Cariaciaca, e não
estava andando de lancha, mas de caminhonete.
Quando a Morrison estava construindo, ela tinha uns
caminhões todos de aço, que atrapalhavam, ficavam no meio da
estrada e não me davam passagem. Aí eu pedia, insistia, mas
eles não davam. Nesse dia eu estava com o fígado azarado e
com o revólver na cinta. Aí eu falei assim:
"Sai esse inferno desse [...] de caminhão aí. Buzina."
Celso buzinou e ele nem aí.
"Buzina mais duas vezes. Se ele não abrir eu taco fogo."
Aí buzinaram duas vezes e não resolveu. Então eu saí e abri
a porta.
"Seu Nelson!"
"Não tem Nelson, não tem nada."
Pá! No pneu. Pá! Pá! Terceiro tiro. Ti, ti, ti, ti. Eles
encostaram. Aí eu já estava verde.
Eu saí com o revólver na mão, abri a carroça do caminhão,
mandei o americano sair, xinguei ele de tudo quanto era nome
que eu tinha no meu vocabulário, ninguém piou. Trinta e
tantos homens em cima de um caminhão, e ninguém piou.
* * *
Para você ter uma idéia, Dr. Flávio pediu que eu fosse
mergulhar assim no cais do porto. Eu fui na Groenbilv, e lá
me apresentei e falei, muito bem:
"Eu estou com uma obra aí, e queria descer a 14 metros de
profundidade aqui no cais."
"Pois não", e chamou lá um camarada.
"Olha o Dr. Nelson vai descer..."
Me botaram no escafrandro, entrei, abriram um cilindro,
entrei para o cilindro, fecharam o cilindro.
Quando a pressão equilibrou-se, abriu a porta de baixo eu
desci, e estava a 14 metros de profundidade.
De sapato molhado, tudo molhado lá embaixo e eu andando.
Andei uns vinte metros de comprimento, um quadrado. Andei lá
embaixo, fui duas vezes lá embaixo. Lá não se vê a água,
porque a parede é de aço. Você vê a água onde a parede
encosta-se ao chão e não é certo o chão. Tem uma pedra aqui,
outra lá, mas a água não entra porque a pressão é maior.
Lamentavelmente o cais foi pouco utilizado, por não ser
economicamente viável. Mas ele ainda pode vir a ser
utilizado, até pelo governo.
Onde o hidroavião foi muito usado foi na Amazônia, e é usado
até hoje. Agora diminuiu por causa do helicóptero. O
helicóptero fez desaparecer a utilidade disso.
* * *
Bom, agora eu vou falar a respeito do aeroclube.
Eu fui para o Rio, quem arranjou esse emprego foi até a
Dulce. O chefe dela estava procurando um gerente e queria
alguém que conhecesse aviação. Como eu era piloto com mais
de mil horas de vôo, segui para o Rio e me apresentei lá.
Fui muito bem tratado, e já conhecia algumas pessoas lá da
companhia. Depois fui contratado para ser agente de cidade.
[Álvaro: "Do lado do Glória, tinha um café. Este café, o
local existe até hoje. É uma tabacaria que, perto do Glória,
naquela ruelazinha que liga o Glória ao Fábio Ruschi, não
tem? Tem a tabacaria."]
E em frente eu tinha o meu escritório, onde tem o edifício
Martinho de Freitas. Ali tinha um prediozinho velho, que era
a loja, logo depois do Diário Oficial, que ficava na
Capixaba. Era um escritório de representação, que eu
consegui uma representação da Aerovias Brasil S.A., e eu já
era piloto.
Eu tinha ali a agência de aviação. Era bonita a agência.
Essa Agência durou de 1945 a 1954.
A loja funcionava ao lado da Larica [avenida Jerônimo
Monteiro, centro de Vitória, ES]. Montei lá, tudo
direitinho... tem até fotografia. Eu fiz um contrato com
eles, em que, dependendo do desenvolvimento, eu poderia
voltar, vir a ser funcionário da companhia. Então vim para
cá, e fundei a empresa. Eu tinha boas relações. Eu fiz a
loja, uma agência de turismo: Vitória Transporte e Turismo
Ltda.
Eu já tinha a casa pronta mais ou menos, companhia.
Construí, lá no aeroporto, um galpão de mais ou menos uns
oito metros de altura, por dez para botar lá as coisas.
Eu fui criando amor por aquilo, e fiquei nove anos nisso.
Por fim a companhia me convidou para ser gerente de cidade.
Gerente de cidade é um cargo já quase de diretoria. Eu me
dava muito bem com todos eles, tivemos o acidente aéreo
aqui, morreu um piloto, morreu um empregado meu, o sujeito
decolou sem ordem, estava um tempo muito ruim. Foi um vôo de
chefe de instrução, para ver se o avião estava com [...],
porque o avião veio do Rio com o comandante Carlos Gomes
Remo. O avião ficou vários dias aqui porque chovia muito.
Tinha mais ou menos uns trinta aviões parados, aviões de
guerra. Americanos.
Eu não me dava com o Remo. Tive um aborrecimento com ele. Eu
estava pilotando avião. E houve, durante um período em que
os comandantes estavam facilitando muito, e os pilotos
traziam, do norte, artesanato de conchas, água de coco com
cachaça, enfim, todo avião trazia um negócio daquele.
Quatro, cinco caixotes. E os exploradores ali do comércio do
aeroporto eram muito amigos.
[Álvaro: "Naquela época, havia bases americanas ainda no
Brasil, principalmente no Rio Grande do Norte, e muitos
tripulantes de aviões faziam contrabando do Rio Grande do
Norte para o Rio de Janeiro, sobretudo."]
Um dia chegou uma circular. Era uma circular séria. Se eu
autorizasse o desembarque daquelas coisas seria demitido.
Então, levei para cada comandante tomar conhecimento. Eles
tomaram conhecimento e assinaram, menos Remo.
"Ah, não assino nada."
"Então o senhor não traga. Se o senhor trouxer, fica aqui."
No dia de autorizar o vôo fazia um tempo horrível. Eu fui
até o aeroporto e Rômulo, que era um empregado meu, fez o
romaneio de embarque. Eu estava em pé no galpão, quando Remo
chegou. Eu disse:
"Aqui não pode passar, o tempo está fechado, só quando o
aeroporto abrir."
"Então eu vou ficar lá dentro do avião, o senhor faz favor,
manda me avisar."
Ele foi lá para dentro do avião, sentou lá para conversar
com os mecânicos e tudo mais. Aí chegou um, dois, três,
quatro, cinco, perguntando se podia ir eu digo negativo,
negativo, negativo. Um empregado também, eu disse que não
podia voar. Mas ele foi. A comissária chegou,
rádio-operadora, e disse que podia ir. Á aeromoça eu disse:
negativo. Vôo de teste ainda manda para o comissário. Ela
sentou lá no aeroporto e ficou esperando. Salvei a vida
dela. Aí houve uma melhora de tempo, e começou com muita
gente andando por lá. Então eu chamei a torre do aeroporto
para saber se já estava livre, e ela disse que não. Ela
abrira provisoriamente só para um avião da PanAir pousar,
porque estava com o motor falhando. Aí eu fiquei lá
observando: o PanAir pousou, circulou e, falhando mesmo,
encostou lá no pátio. Depois de algum tempo o aeroporto
continuava fechado. Aí alguém me avisou que um avião nosso
estava rodando. Ia em direção à cabeça da pista. Ninguém
havia autorizado e eu mandei que ele regressasse. O piloto
desligou o rádio e continuou. Foi lá pra cabeça da pista e a
gente não via mais, só ouvimos o ronco dele passando em
frente à estação. Nunca mais vi. Eles morreram, e os
destroços nunca foram encontrados.
Eu tenho a impressão de que ele decolou daqui do aeroporto
completamente fora de controle. Você, ao decolar, fala com a
torre e pede autorização, e ela orienta a decolagem,
indicando a pista faixa de segurança etc.
A faixa de segurança é como um túnel aéreo, uma aerovia.
Esse túnel tem, em relação ao solo, a altura que deu a
torre, e depende da viagem e da conformação do trem. Onde é
que ele der, mil e duzentos metros, ele vai voar a mil e
duzentos metros. E isso aqui tem trinta quilômetros de
largura. Ele pode variar dentro dessa faixa, trinta
quilômetros, e não pode sair. Para sair desse lugar ele tem
que falar com a torre. A cada trezentos metros pode ter um
avião.
Mas, para você fazer uma idéia, o tráfego Nova
Iorque-Londres é tão intenso que estão estudando o problema
da [...] de ficar sem piloto. Querem tirar o piloto do avião
e fazer o vôo automático.
Foi uma pesquisa que levou mais de sessenta dias. Não
rigorosamente, mas os... a semana, os sete dias foi tenso.
Eu bati com a asa do meu avião procurando por ele, lá perto
de Guarapari. Porque tinha caído. E veio, do Rio, o
comandante Guimarães, que ficou uma semana comigo.
Acontece o seguinte: quando você está autorizado a voar,
você vem voando e quando chega tem a altura de bloqueio.
Chama-se isso altura de bloqueio. Todo aeroporto tem uma
altura de bloqueio. Depende da situação topográfica. Aqui
são mil e duzentos metros. Você chega sem enxergar nada, o
avião vem voando. Quando esse aparelho está aqui em cima,
quem passa desse ponto, de mil e duzentos metros, aqui tem
um ponteiro, marcando zero. Zero é a posição da estação em
relação ao avião. Enquanto estiver zero o piloto sabe que a
proa dele está virada para a estação, e ele está a mil e
duzentos metros de altura. Tudo indica lá. Quando ele passa
um minuto de lá, esse ponteiro vira, e marca para cauda, ele
está com a estação na cauda. Então você faz uma curva de
dois ponteiros. Ele tem que fazer uma curva, que leva dois
minutos. Mas é impressionante. Tudo é marcado. É dois
minutos e você está na cabeça da pista.
[Álvaro: "Você acompanha a posição que a agulha do gônio
está te mostrando. Que ela está recebendo onda de rádio, e
vai te acusando a quantos ângulos você está."]
E com o relógio na mão marcando. São dois minutos. Se passar
de dois minutos alguma coisa errada. Você faz a curva, mas
primeiro você entra num afastamento. Você tem autorização
para se afastar. Quando você chega a 120 graus, você inicia
a curva dos dois ponteiros. Quando você está no retorno, a
duzentos metros da cabeça da pista e a duzentos metros de
altura, você vê o aeroporto. Se você não vir o aeroporto
arremete porque está fora do lugar, alguma coisa, não está
certo: ou tem neblina, baixou o teto, e você sai fora. De
maneira que isso tudo é controlado assim.
* * *
Eu comecei a sentir que havia alguns problemas, na aerovia.
Eu fui lá, eu tinha um grande amigo, que era o diretor
comercial. Era o Moura. Um dia eu comentei com ele, que
disse: "olha Nelson, você é meu amigo já há sete anos. Isso
aqui tem política para diabo, o Ademar é que é dono disso
aqui. Tinha morrido o presidente da Aerovias, Olavo
Fontoura, num acidente de helicóptero. Ele era também dono
da Fontoura White (que produzia o Biotônico Fontoura)
Depois da morte de Olavo Fontoura, Ademar perdeu um pouco o
apoio necessário, perdeu muito dinheiro, e a Aerovias estava
dando prejuízo, você está vendo aí. Eu normalmente dispunha
de quatro ou cinco passagens diárias para distribuir de
graça: para políticos e amigos.
Meu amigo Moura disse:
"Você se prepare porque a coisa aqui está ficando feia. E
estão querendo vender essa empresa para a Real", que era uma
outra companhia de aviação do mesmo porte da Aerovias. E a
Aerovias, a Real também está sendo vendida para a Cruzeiro.
"Você toma cuidado porque você está se dedicando
praticamente só a isso", e eu estava mesmo.
"Você é piloto, você não quer vir voar aqui?"
Eu disse:
"Olha, é um troço bom, mas não serve. Você precisar se matar
para poder ganhar. Eu não estou com vontade de me matar por
dez contos. Eu vou pensar, eu agradeço."
Foi quando Dr. Flávio chegou do Rio de Janeiro, cheio de
papéis em baixo do braço.
"Preciso de você para analisar isso aqui. A gente conversar
depois."
"O que é isso?" Sentamos lá no hotel, e ele descascou o
verbo.
Um ministro, D. Franco, — ah como tinha gente boa. Aí que eu
comecei a dizer o nome dele, naquele dia parei. D. Jesus e
Ribas de Miguel, D. Pedro Gonzalez Bueno. Para todos os
efeitos, para os ministros que vinham para cá, eu era D.
Nelson. D. Flávio, era tudo Dom. E são meus amigos.
E os ministros vieram aqui, esses dois ministros, me
procurar. Foram lá em casa conversar. Quem indicou o meu
nome foi o dono da refinaria de petróleo de Manguinhos, do
Rio de Janeiro.
Ele foi lá em casa com o cartão do ministro. Eu fiquei sem
jeito de dizer que não. Eu disse a ele que pelo menos ia
estudar. Mas eu tinha outra pessoa para estudar comigo. Eles
propuseram montar duas usinas, uma no Rio, outra em São
Paulo.
Dr. Flávio:
"Eu trouxe isso aqui para você ver. Você tem o tempo que
você quiser, uma semana ou um mês. Se você se interessar
pelo assunto, vá até o Rio para nós conversarmos."
"Está ok." Peguei aquela papelada toda, me debrucei sobre
ela e estudei mesmo. Achei que a idéia valia a pena. Era a
duplicação da resistência de um vergalhão de aço através da
torção. Você poderia economizar trinta por cento do rolo e
de terra, diminuir doze por cento do concreto armado,
sabe-se lá quanto você estava economizando. E pagar dois
cruzeiros? Um cruzeiro e cinqüenta? Que era o que eu ia
cobrar. Eu fornecia cinco toneladas por mês. Isso era uma
maravilha.
Aí eu conversei com Dr. Flávio:
"Nós não temos máquina, mas eu estou de acordo com tudo. A
exploração da patente só vale quinze anos, não tem
prorrogação, vai até vinte anos. Está bem, dá tempo para
ficar rico."
Eu disse:
"Olha Flávio, o problema lá é ver essa máquina, ver se eu
vou poder fazer uma máquina dessa aí."
Fui até lá. Eu olhei, um trambolho.
Ele tinha um torno velho, mas eu não queria desfazer do
torno, que era Dr. Flávio, aí eu pensei, tenho que levar
esse torno para São Paulo. Aí eu falei:
"Olha Dr. Flávio não é muito difícil levar esse torno para
São Paulo?"
"Ah, você deixa comigo. Eu boto esse torno lá a hora que
você quiser." Ou seja, me ferrei todo. Tenho que pegar o
torno.
Os vergalhões eram torcidos um a um.
Quando o negócio [torno] chegou eu disse:
"Olha, Dr. Flávio, eu só quero um favor: que o senhor me dá
a liberdade para fabricar a máquina que eu quiser."
"Você tem liberdade até de jogar essa porcaria no lixo".
Então eu peguei a caminhonete, fui para o Aeroporto, Campo
de Marte (primeiro aeroporto do Estado de São Paulo). Tinha
um sujeito chamado Paulo, que comprava tudo quanto era
avião, e peça de avião.
Fiz projetos de todas as máquinas. Agora não tem mais nada,
está tudo jogado fora. Tinha até de uma máquina de forno. Eu
nem sei se está aí ainda.
Aí eu disse o seguinte:
"Paulo, vamos arranjar engrenagens de avião (Fiz uma porção
delas). Eu quero essa aqui. Com doze dentes, vinte dentes,
quarenta. Você me arranja isso?"
Comprei engrenagem que não acabava mais. Eu pretendia
reduzir o tempo de trabalho e ganhar força. Os eixos
ligados. Até com um dedo, se eu quiser, ela se mexe. Eu fiz
isso. Fiz todas as máquinas.
Fiz um dispositivo para esticar o ferro, porque enquanto ele
girava vai entortando. Fiz um sistema de catraca, para
recuar. Tudo sozinho. Perguntei nada para o Flávio,
perguntei nada para ninguém. Tudo da minha cabeça.
Cada vergalhão ficava pronto em,no máximo, vinte minutos. Eu
tive também uma máquina que fazia três fios de cada vez,
dois fios de cada vez. É, mas não podia passar de três não,
porque às vezes arrebentava e aí dava um trabalho danado.
Em um mês dava para fazer 50 toneladas. Eu tinha lá seis
máquinas.
A parte de divulgação ficou por conta do Flávio. Ele
escrevia em uns livros. A parte comercial era comigo.
Não haveria dificuldade se um bandido não tivesse vindo da
Espanha e montado aqui em São Paulo, da Alemanha, da Itália,
e montado aqui as máquinas. Tudo escondido lá, e estava
vendendo aço. Já tinha vários prédios sendo construídos com
aço torcido. E nós não sabíamos.
Nós tivemos que entrar com uma ação contra eles. Nós fomos
os únicos a obter o direito de explorar aquela patente.
Dr. Flávio não acreditou nisso. Veio a São Paulo e eu
arranjei então o melhor advogado de patente. O advogado
pediu uma fortuna.
Isso aconteceu em 1954.
Aí nós estudamos uma forma de arranjar o dinheiro. O capital
da nossa firma era treze milhões e o advogado queria
quinhentos milhões.
Flávio descobriu uma pessoa que era amiga desse advogado.
Essa pessoa conversou com o advogado.
Então o advogado acabou nos propondo o seguinte:
"Vamos fazer o seguinte: nós fazemos um contrato, e quando
vocês conseguirem produzir e ganhar dinheiro vocês me pagam
parcelado."
Eu pensei: "é um negócio da China, vamos levar toda a vida
para pagar, mas está bom."
Entramos então com uma ação, houve despacho de busca e
apreensão, e nós entramos na fábrica do sujeito, que ficava
pertinho da USP. Nós pegamos um táxi e levamos o advogado.
Fomos em cinco: Flávio, eu, Vanios, que era o engenheiro que
trabalhava comigo, o motorista e o advogado.
Não queriam nos deixar entrar, mas entramos assim mesmo, e
pedimos para falar com o chefe. Veio só o meu inimigo, que
mais tarde deu um tiro na cabeça. Eu disse:
"Olha, esse é o nosso advogado, nós somos da empresa
Armaduras Helitraço de São Paulo S.A."
Foi um pedido de busca e apreensão. Filmamos tudo,
fotografamos. Conseguimos todas as provas.
Aí foi bom, porque tinha um ponto muito interessante numa
máquina dessas — que eu estava construindo as minhas ainda
—, e me abriu a cabeça e melhorei muito, todas as minhas
máquinas eu melhorei muito com os troços que eu vi lá.
No fim de tudo, dissemos:
"O senhor sabe que sua fábrica está sendo fechada, não é?"
Aí veio o pessoal todo de São Paulo para lá, para ver
aquilo, não acreditavam. Lacramos tudo e fomos embora. Aí eu
tratei de fazer uma máquina da noite para o dia e tratei a
trabalhar.
Nós então fazíamos também estruturas. Aumentamos o negócio.
Essa estrutura era um pilar cheio de ferro. Era de vários
tipos: uns que tem quatro, outros de quarenta vergalhões. A
quantidade varia com a finalidade, se o prédio fosse alto, o
esforço seria maior e a estrutura deveria estar preparada
para dar a sustentação necessária. As amarrações eram feitas
com uns vergalhões fininhos chamados estribos. Eu importei
da Itália duas máquinas de dobrar ferro para preparar essas
amarrações.
Eu vendi a máquina de dobrar o ferro, sabe para quem? Para o
filho do Ramos, que havia se formado em engenharia e me
escreveu pedindo para comprar a máquina. Eu já tinha
desistido da fábrica.
[Entrevista realizada, transcrita e editada por Maria Clara
Medeiros Santos Neves. Reprodução autorizada pelo
entrevistado.]

NOTAS
[1]
O entrevistado se equivocou neste ponto. Embora tenha sido
relatado a ele o reboque e o afundamento do flutuante um
pouco distante da praia, na verdade a estrutura de concreto
armado foi afundada bem ao lado do Cais do Avião, e seus
restos estão lá até hoje. |