Digital, o delegado, irrompeu na delegacia da Chapot Presvot empurrando aos tropeções um negro algemado. O detido vestia uma bata que caía até a cintura sobre um bermudão com florões coloridos, usava óculos com lentes espelhadas, calçava sandálias franciscanas e tinha na cabeça uma touca tricolor, com listas verdes, amarelas e vermelhas, debaixo da qual pendiam cabelos à Carlinhos Brown.
Assustado com a irrupção súbita, Pedro, o escrivão, preveniu o delegado:
“Calma, doutor, olha os direitos humanos!”
“Direitos humanos porra nenhuma. Isso aí é um legítimo 171.”
O delegado referia-se ao artigo do Código Penal que definia o crime de estelionato.
“Mesmo assim, delegado, não é bom pocar o homem. Daqui a pouco a imprensa vai dizer que somos racistas.”
“Racista, eu? Tinha graça! Você se esquece de que tenho sogra mulata?”
“Com todo o respeito, delegado, não é tão mulata assim não.”
“Você diz isso porque não a conhece de perto, mas ela tem os sabugos das unhas roxos. Você sabe que detalhes como estes não escapam a meus olhos de lance.”
“Não é lance, delegado, é lince. Olhos de lince,” corrigiu o escrivão, respirando fundo.
“Pra você pode ser lince, que não sei nem o que é, nem quero saber. Pra mim é lance, ou seja, eu bato os olhos e vejo logo o ômega da questão,” exaltou-se o delegado.
“Também não é ômega, Digital, mas âmago, que quer dizer cerne, ou miolo, pra ficar mais fácil,” esclareceu o escrivão.
“Merda, Pedro, perde esta mania de professor de português e não se esqueça de que o delegado aqui sou eu e falo como quiser. Vê se aprende que um pai de santo só se deita diante de uma mãe de santo, entendeu?”
Pedro não havia entendido nem a oportunidade, nem a profundidade da tirada de Digital, mas não quis esticar querela e reatou o diálogo: “Voltando à vaca fria, Digital, um mínimo de respeito humano não pega mal com os detidos. Na hora em que os jornais e a televisão caírem em cima da gente não são os sabugos roxos da senhora sua sogra que vão aliviar as marretadas.”
“Fica frio, Pedro, que eu sei o que estou fazendo. Um meliante como este,” e o delegado indicou o detido com o queixo, “tem que ser tratado na porrada. De mais a mais, estou agindo em defesa dos próprios negros.”
O escrivão lançou ao delegado, por cima das lentes redondas dos seus óculos, um olhar de interrogação.
Já vi que você quer saber por quê, não é?”
“Se for possível…”
“Pois saiba que estou encanando este puto porque ele está se passando por bisneto de Chico Prego…”
“O da insurreição do Queimado?”
“Sem tirar nem pôr. Olha bem para o tipo, examina ele de cima em baixo, e me diz se um merdinha desses, obesso e baixinho, pode ser parente de Chico Prego! Fala, Pedro, qual a idéia que você faz de Chico Prego?”
Com gestos calmos, o escrivão acendeu um cigarro, ganhando tempo para responder. Na verdade, nunca parara para imaginar como teria sido Chico Prego, o da insurreição do Queimado, se alto ou baixo, negro retinto ou apenas negro, magro ou obesso como disse o delegado. Só agora, desafiado em sua imaginação, é que se pôs a pensar no assunto.
“Bem, a julgar pelo nome, Chico Prego devia ser alto, magro e desempenado,” respondeu o interrogado.
“Bingo!” exultou Digital. “Você foi na mosca! Chico Prego era magro e alto, tenho certeza disso, um puta africano com culhão para enfrentar os brancos no Queimado, concorda? Agora, veja este pentelho aí na sua frente: tem alguma coisa de Chico Prego?”
O escrivão soprou uma baforada de fumaça e concluiu que nada no algemado parecia ligá-lo aparentemente a um Chico Prego, magro e desempenado, da insurreição do Queimado. Mesmo assim, fez outra observação:
“Mas isso não prova nada, Digital. Para ser franco, nem é um indício confiável. Olha que já se passaram três gerações de lá pra cá, se não erro nas contas.”
“Você e suas frescuras. Mas se quer uma prova, toma,” disse o delegado, atirando sobre a mesa uma xerox amarrotada. “Sabe o que é isso? É a falsificação de uma certidão de nascimento em que o babaca aí datilografou o nome Chico Prego da Encarnação. É a prova capal que você queria. E sabe como apurei a safadeza? Conferindo, por fax, o número desta certidão com o da verdadeira, lavrada num cartório de Teixeira de Freitas. O número é o da certidão de outra pessoa. Quer dizer que, ainda por cima, o neguinho aí é um baiano vigarista.”
“Mas existe alguma queixa contra o detido?” quis saber Pedro.
“Claro que existe. Você pensa que eu estou na sola dele por quê?”
“É, por quê?”
“Porque este elemento está correndo um livro de ouro para encenar o Auto da Insurreição do Queimado. Há dois anos arrecada a grana e o auto não sai da promessa. E não vai sair nunca, porque ele está vivendo disso. Só da Afro-Serrana-Brasileira do Queimado, dirigida por minha sogra, foram mais de dez mil reais. Dinheiro vivo que a associação conseguiu através da lei Chico Prego, na Prefeitura da Serra. Vê que sacanagem, um bisneto explorando a lei do bisavô! E por quê? Porque não é bisneto coisíssima nenhuma. Depois, cadê a peça, cadê o dinheiro? Vai, pergunta a ele pelo dinheiro. E você ainda quer que meu sangue não esquente, que meus glòbos vermelhos não peguem fogo?”
Pedro voltou a olhar o detido, que se mantinha cabisbaixo, o gorro enterrado até as orelhas, olhos ocultos atrás dos óculos negros.
“Devo tomar o depoimento dele?” perguntou afinal.
“Tome o depoimento e tome as digitais também. Tome, não: arranque linha por linha! E depois meta este jacaré de óculos na Gruta da Onça,” ordenou o delegado.
A Gruta da Onça era o cubículo, nos fundos da Delegacia, onde os detidos eram trancafiados.
“Tiro as algemas dele?” arriscou o escrivão.
“Tira nada, nem pra arrancar as digitais,” replicou o delegado, entrando em seu gabinete estouvadamente. Mal entrara, retrocedeu, também estouvadamente, encarou o escrivão e perguntou:
“Você ainda acha que eu sou racista?”
Este texto integra a série intitulada CHAPOT PRESVOT 272, de Luiz Guilherme Santos Neves











[...] Racismo ou justa causa [...]
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