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Vitorianas: o peru de natal ou de como me tornei um filósofo

Vinte e quatro de dezembro de 1981.

O vinho eu comprei com o que sobrou de um negócio pouco natalino com um vapor na rua Sete de Setembro. Um vinho verde português que combinava com o meu humor ríspido nesses dias: rascantíssimo. Guardei-o para beber com alguns deserdados que provavelmente iriam ao Britz, na hora da missa do galo, para afogar seus demônios. Um tipo de exorcismo que nunca deu certo — os preceitos religiosos dizem que o álcool é invenção do diabo — é juntar a sede com a vontade de beber. Não, eu não era um deserdado, mas, por incongruências quaisquer, eu aí me situava: no acalanto das vísceras do demo.

Deixa eu me apresentar: Paulo Brzezinsky, estudo Direito há três anos e ainda não entendi por quê. ‘Duro’ por ascendência astral, me viro negociando cigarros finos com a rapaziada enquanto o céu não cai na minha cabeça.

Bem, contar-lhes-ei (gosto desse jeito empolado “enclisiástico” de falar) — contar-lhes-ei, pois, sobre o meu humor nesses dias que não é desses dias: remete a algum traço freudianamente ancestral ainda insoluto. Deixe-me ver… Creio que foi no dia vinte e dois.

* * *

Vinte e dois de dezembro de 1981.

Às vinte e uma horas e trinta e oito minutos recebo um recado para descer da esfera de ozônio — o meu apartamento de ar rarefeito. “Meu”… sorrio. Espero Sonny Rollins terminar pela sétima vez a interpretação de “Blue Seven” onde, por incrível que pareça (preciso dizer isso pro Garibaldi — um cara meio xiita com essas coisas do jazz — que detesta baterista barulhento), Max Roach faz um educado solo de bateria.

A casa onde eu moro… “The house I live in”… um dia eu faço uma música, uma balada, com esse nome. Já que é pra sonhar: quem sabe o Rollins gravaria tendo como side-man o Kenny Dorham no trompete (se é que não tenha morrido ainda — músico de jazz é assim: quando começa a fazer sucesso, morre). A casa onde eu moro é no final da rua Sete: no topo do morro — lá onde a rua muda de nome. Ler o Zaratustra de Nietzsche aqui em cima não é aconselhável: Tito leu, não entendeu, viu Jesus e nunca mais foi o mesmo. Dizem que foi efeito do ar rarefeito.

* * *

Vinte e dois minutos depois estou no balcão do bar do Carlinhos tomando uma salsinha da praia enquanto um bando de músicos diletantes mostrava suas composições e sucessos outros importados do nordeste e de Minas. “Bacana… essa rapaziada vai longe”, presságio que as injustiças do destino não permitiram se realizar. Esse é outro dado biográfico: apesar de nunca ter acertado na loteria ou em quaisquer outros jogos de azar, e talvez por isso mesmo, resolvi investir no esoterismo: comprei todos os livros que vi sobre o assunto. Tornei-me um cartomen… digo, cartomante. Função que abandonei por dois motivos: a) motivo machista — os colegas passaram a me chamar de Valdirene, a paranormal; b) o inusitado encontro que contarei a seguir.

* * *

Foi no dia vinte e um de dezembro. Foi ontem.

Aquela garrafa de vinho do início deste relato ainda não existia. Isso aconteceu três dias antes: vinte e um de dezembro do ano de mil novecentos e oitenta e um. O vinho estava num barril — com torneirinha e tudo — que estávamos levando para a casa de uma jornalista pirada que tinha o costume de não se apertar: mijava onde bem entendia.

Cinqüenta litros: nove pessoas vezes três dias são trinta e sete. É isso mesmo: nove pessoas vezes três dias são trinta e sete — os dias e as pessoas têm valores que escapam à matemática comum. Sete mais três são dez — perfeito, calculei, numerólogo que também era. Vai sobrar vinho.

* * *

A rua do Vintém fica ao lado da Graciano Neves. A casa ficava a meia subida — as ruas dessa região sempre acabam em subidas. Era um sobrado antigo e, sobranceiro do alto da sua idade, nos fitava com uma interrogação em suas pupilas ariscas. Eu tenho essa verve animista dos que conversam com poste (mas sem dar bandeira) e respondi-lhe: “Sim, senhor, vamos fazer uma festinha preparatória para o Natal que se avizinha, com peru e tudo.” “Hein?” vociferou o Maurinho, que não sabia que o papo não era com ele.

* * *

Entramos.

Tutaméia de Guimarães Rosa estava na estante com feições de intocado, assim como outros poucos que se enfileiravam ou estavam arrumadamente desarrumados dando a impressão de livros lidos. A discoteca misturava Fagner e Belchior com algumas duas coletâneas jazzísticas que salvariam a noite. “Uma farsante”, pensei. “Vou nadar de braçada”, pensei farsantemente.

Forcei a barra para ouvir “Old devil moon” enquanto jogava as cartas do tarô sobre o chão — “Essa música me inspira…”, menti carapalidamente. As cartas: paixão feroz e diabólica de braços dados com o louco, ciceroneados pela morte e pelo sacrifício. “O astral está pesado, irmãzinha”, eu disse, um pouco antes de começar a vomitar sobre as cartas e a platéia de crentes o pouco vinho que havia ingerido. Arrastei-me até ao banheiro e prossegui na árdua tarefa do vomitar sem fim, abraçado apaixonadamente ao vaso. O duodeno subia à garganta enquanto uma frase pairava na minha cabeça: “Isso é pra você aprender a falar merda”. E Maurinho ao meu lado disse: “Ih, cara, você tá vomitando um troço preto”. “Merda”, pensei xingandafirmando, “essa versão de Old devil moon estava intragável.”

E lá se foi o cartomante em um turbilhão pelo esgoto da rua do Vintém, que logo engrossa o caldo do esgoto da rua Graciano Neves e se transforma numa enorme bacia na Costa Pereira para, enfim, desaguar (?) em pororoca na baía de Vitória, próximo ao cais.

* * *

Estranho fenômeno de literalidade: a coisa se presentificando no lugar da fala. “Falar merda” não era uma simples representação escatológica de linguagem: era o que era: o mundo de cabeça pra baixo do outro lado da cerca. “Nada é dito, tudo acontece”, filosofei. Estranho fenômeno: sai Aldirene, a paranormal, e fica um filósofo.

* * *

Instantaneamente recuperado — tal qual veio, tal qual foi o mal-estar — resolvi sair à francesa. Não sem antes pegar o livro de contos de Guimarães Rosa que ficaria melhor na minha estante.

 

FIM

One Response to “Vitorianas: o peru de natal ou de como me tornei um filósofo”

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