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Poemas do livro Minério (inédito)

O dom do amor

 

O amor tem o dom

de arrancar porteiras

derrubar barreiras

ampliar o som

 

O amor tem o dom

de assaltar trincheiras

hastear bandeiras

implantar o bom

 

O amor tem o dom

de quebrar geleiras

atear fogueiras

alterar o tom

 

O amor tem o dom

de anular fronteiras

rebrotar palmeiras

no Armagedon!

 

Ilha

 

Há um rumor de gaivotas se esgarçando pelas altas estradas da tarde.

O mar alterna vagas ondulações de azul com espasmos de espuma branca.

Vez ou outra faíscam peixes-relâmpagos em vôos apassarados.

Acenos do sol cadente acendem, na praia deserta, um claro colar de calor.

 

Talvez distante daqui exista uma cidade onde multidões incendeiem-se em guerras banais.

 

Mas isso, se há,

está, agora,

a milhas de nós

que estamos sós

nesta ilha

-sem terra, nem mar-

onde os nossos caminhos

acharam de se encontrar.

 

Banho e fantasia

 

A água, se desliza por teu corpo,

inventa ondas, angras, enseadas

ou se faz rio, doce, sinuoso

por selvas, serras, vales, esplanadas;

 

sobre a geografia do teu corpo

chove o chuveiro público água farta

inundando o país misterioso

que observo com olhos de pirata;

 

nasce o desejo na tarde em Bicanga,

brinca a brisa em tua pele molhada.

Eu alço vôo. A paisagem canta!

 

Registro a fantasia que não ouso:

navegar pela líquida estrada

da água que desliza por teu corpo!

 

Eugénia

Poeminha escrito a guisa de comentário a

um show de Eugénia Mello e Castro

visto no Theatro Carlos Gomes – Vitória/ES

 

 

 

O palco é um mar de percalços

de sobressaltos

de contratempos

(lugar de tormentas

e tormentos)

 

O corpo é o porto

que as palavras

desnorteadas

abarca

(não sem embate

não sem vergasta)

 

A mão toma a canção

e acaricia

O braço é barco

sobre a melodia

O ombro é desassombro

e poesia

(a voz vem sobre nós

em flor e fúria):

 

Eugénia:

 

a mulher no melhor

da sua parte

parindo pérolas

no tear da arte.

 

Maria Bonita

 

Para Ivana

Há um lampejo de fuzil no gume do teu olhar. Chapiscam faíscas de relâmpagos desamparados na meia-luz do teu sorriso. Teus dentes prendem lâminas oxítonas. Teus dedos, em riste, riscam o rumo da trilha.

O pó do sol do sertão tinge o fogo dos teus pelos. Teus pés bailam sobre pedras como se o chão fosse azul. Tua voz sopra sussurros que silenciam estampidos. Tua pele é quase noite quando amanhece o desejo.

Exibes um beija-flor sobre a pétala do púbis. Os seios trazes pequenos, adolescentes, frutais. Nos teus cabelos me abrigo dentro da noite sem lua.

Tuas mãos garimpam mel na aridez das minhas pernas. Tua língua soletra estrelas na minha pele encardida. Tua boca me convoca ao sumidouro do gozo.

Vocativos remoídos arfam no redemoinho.

A noite entoa delírios pelos céus do meu país!

 

Será o amor?

 

Será que é o amor que sopra esse vento rendado de primavera sobre o incêndio da tarde de dezembro?

Será que é o amor que acende a roseira-brava e espalha as suas flores pelas janelas desatentas do domingo?

Será que é o amor que embaralha as trilhas das andorinhas e determina esse roçar rasante de asas e esses trinados de prazer?

 

Quem estará conduzindo esses urubus, esparsos pelo espaço, rumo ao cume do olhar?

Quem arranja o contraponto estridente do bem-te-vi sobre o colchão confuso das notinhas dos pardais?

Quem invade a noite do peito e a madrugada do olhar com esses grandes archotes silenciosos?

 

Será que é o amor que anuncia, na aurora do mar, na alvorada do monte, a chegada do novo dia?

Será que é o amor que alça o sol sobre a barra tingindo as águas de azul?

E este olhar insaciável? E esta tormenta no peito? E esta sede de luz?

Será que é coisa do amor?

 

Cantilena de um coração partido

 

I

duas vezes amo a um só tempo

numa equação ingrata

e descabida

se não sou dois

se sou nenhum, se nada

não devo, então, amar

assim às carradas

 

não há dois corações

num mesmo peito

dois sentimentos iguais

não coabitam

é difícil alimentar o antagonismo

sem por à mesa

o cálice do cinismo

 

II

Ambíguo –bígamo-

rodo aturdido

no carrossel do tempo em desvario:

o dia não se repete no calendário

nem pode a hora

se duplicar

num mesmo horário

 

no atropelo desse tropel

tropeço e tombo

caio, isso sim,

num desconsolo esconso:

o coração me diz que está cansado

desse exercício de amor

demasiado

 

III

não há dois corações

penso e repito

e o coração não se reparte

sem lesão

meu coração se parte dolorido

e grunhe gravemente

o seu gemido

 

grave é a voz de um coração

feito em pedaços

no vão esforço

de se fazer de dois

só eu o ouço roufenho, combalido

na cantilena

de um coração partido

 

IV

partido estou, também,

no centro

dessa conjunção

bifurcam-se em mim

o rumo das estradas

estou cravado em cruz

e sou a encruzilhada

 

doi-me o peito

por amar em dobro

dobro-me ao peso

deste grão amor

transito arrastado, com dificuldade

amando muito mais

do que permite a idade

 

V

é de amor que trato

nestes versos trôpegos

que é amor que trago

muito, em profusão

esse fruto raro e tão saboroso

deu de brotar em penca

no meu peito idoso

 

é de amor que trato

neste poema torto

que de amor talvez

eu venha morrer.

Como suportar um amor binário

num velho coração

de meio centenário?

 

Pedra

 

Eu vi a pedra chorar, mano velho.

Vi a dor

brandir um grito grave

no duro desespero

do seu olhar estático.

Vi uma linha de sangue fina

escrever

uma história cruel

na ferida

do seu flanco mutilado.

 

Eu vi a lágrima da pedra deslizar,

num clamor estrondoso,

pelas bordas

do seu grande nariz desolado.

Vi uma magra relva

de cabelos ralos

se agarrando

empedernidos

aos resíduos

da sua cabeça fendida.

 

Sim, a pedra chorava:

sua fronte declinada

esculpia,

sobre o suporte furta-cor do céu,

um gesto de tristeza.

No vão do seu olho vazado

ecoava uma litania

gritada

por um coral lúgubre

no estertor do poente.

 

Eu não pensava, mano, que veria

um dia

uma pedra chorar.

Menino ainda, ouvi

a mata em pânico

carpir seus troncos decapitados

encarapitados

em carretas acorrentadas

que levavam pra além-mar

uma floresta atlântica.

 

Vi rios agonizarem

choramingando

por leitos desviados.

Vi córregos

magros e sujos

se arrastando, minguados

feito esgotos ignotos,

pelos desvãos das cidades.

Vi fontes fartas e férteis

sucumbirem sedentas.

 

Vi onças-pintadas

perdidas,

errando, cegas de sol,

por desertos de solidão.

Vi macacos e macucos

macambúzios, soturnos, fugidios.

Ouvi o silêncio pungente

da terra nua e

o lamento do vento

a esculpir na areia o seu cantochão.

 

Vi um bando cigano

de meninos famintos

tentando achar,

com olhos baços

com unhas crassas,

uma fresta de alegria

uma nesga de pão

na floresta de vidro e cimento

que veste, agreste,

a cidade árida.

Eu vi, mano, o homem chorar.

Escutei o grito universal

do gênero.

Provei, com o escasso paladar

do olhar,

a lágrima da guerra e da inanição.

Cultivei, na fechada floresta

do meu território animal,

a dor fundamental

da condição humana.

 

Agora, eu vejo a pedra chorar

e choro uma dor

que eu não sei

se é a dor da pedra.

Mas choro solidário,

no ventre da tarde

no dorso do vento,

um pranto duro e rude

que brota de fundas escarpas

além da carne e da alma.

 

Choro, mano, agora,

ao pé desta pedra depredada,

lágrimas densas, ardentes, escuras

lágrimas que fendem

a terra gasta

lágrimas de magma

que se misturam

ao pranto da pedra

e vazam das mãos da tarde

sobre os cabelos da noite.

 

Choramos, então, eu e a pedra,

essa dor comum

que é, também, a dor da água

a dor do pássaro

a dor da árvore solitária sobre a serra

a dor do vento

a dor do vale vazio

a dor da Terra.

 

De idade

 

I

O tempo

tem falado comigo

a todo tempo:

 

ouço-o

no osso

 

na tessitura lassa

de um músculo

 

no ranger

da articulação

hirta

 

na fadiga

do fígado.

 

II

O tempo mastiga

minha dentição

cediça

(rumino o tempo

com os meus dentes

decadentes)

 

III

Do espelho

o tempo, tácito,

mira

meu olho pasmo.

 

IV

É o tempo

que exige este esforço

do pescoço

quando me torço

desengonçado

pra olhar pro passado.

 

V

A minha embriaguez

nunca me deixou

tombado

por certo é o tempo

que me entorta

assim pra um lado.

 

VI

Esta dobra

na derme

-este vinco

amarrotado-

é que me compele

a admitir

que o tempo tem passado.

 

VII

Alguma coisa tampa-me

o tímpano

reduzindo a estalo

qualquer estampido.

Fica o tempo

a zumbir

no meu ouvido.

 

VIII

O tempo

em algum momento

perderá o passo

num descompasso

do meu coração.

O recurso

da poesia

será vão.

 

IX

No travo

da minha garganta

um prelúdio de adeus

o tempo canta.

 

X

Não há tempo maior

do que este tempo

que escuto em mim:

todo o Tempo

se esgota

no meu fim.

 

Minério

 

Fique aí remexendo palavras, poeta.

A vida espera.

 

Amalgame-as

com a sua saliva

à seiva seca do papel;

torneie-as

até torná-las belas;

lapide-as

até vê-las límpidas;

alise-as

até que elas luzam:

lustre, com destreza, a sua lira.

Sem atropelos,

poeta.

A vida espera.

 

Se não espera, poeta,

a vida anda:

no seu balanço,

na sua dança,

sem descanso

a vida vai

 

faz peripécias

estripulias

depois expira,

vira mistério:

 

ficam a poesia

e o poeta

feitos minério.

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